domingo, 27 de setembro de 2026

A Abordagem marxista nos estudos sobre os movimentos sociais

Maria da Glória Gohn

1- Características Gerais: Abordagem Clássica e a Neo-Marxista

A análise dos movimentos sociais sob o prisma do marxismo refere-se a processos de lutas sociais voltadas para a transformação das condições existentes na realidade social, de carências econômicas e/ou opressão sociopolítica e cultural. Não se trata do estudo das revoluções em si, também tratado por Marx e alguns marxistas, mas do processo de luta histórica das classes e camadas sociais em situação de subordinação. As revoluções são pontos deste processo, quando há ruptura da "ordem" dominante, quebra da hegemonia do poder das elites e confrontação das forças sociopolíticas em luta, ofensivas ou defensivas.
O paradigma marxista aplicado à análise dos movimentos sociais têm sido visto, de uma forma generalizada, erroneamente, como sinônimo de análise do movimento operário Na realidade esta posição desconhece as análises feitas sobre os movimentos sociais não operários, tais como os reivindicatórios de bens e melhorias coletivas, principalmente de equipamentos públicos, realizadas nos anos 70 e 80. Outra distorção frequente é a generalização do paradigma marxista em uma só teoria desconhecendo as abordagens ortodoxas das não - ortodoxas, mesmo no estudo da classe operária. Assim, ignora-se que as análises feitas sobre a classe operária, pela corrente dos historiadores marxistas ingleses, fizeram uma releitura do marxismo ortodoxo, deslocando o eixo das determinações exclusivamente econômicas para outros campos da vida social, como o cultural. Embora estes estudos mantenham as categorias básicas marxistas, eles representam uma releitura da ala do marxismo clássico, tradicional, tido como ortodoxo.
Sabemos que o paradigma marxista clássico tem duas grandes correntes. Uma ligada ao jovem Marx e a seus estudos sobre a consciência, a alienação e a ideologia etc. e criou uma tradição histórica humanista que teve continuidade nos trabalhos de Rosa de Luxemburg, Gramsci, Lukács e na Escola de Frankfurt, após a Segunda Guerra Mundial. Será esta leitura do marxismo que alimentará as análises contemporâneas feitas sobre os movimentos sociais. A outra corrente decorre dos trabalhos de Marx já "maduro", após 1850, com os estudos sobre o desenvolvimento do capital, onde os conceitos básicos serão formação social, forças produtivas, relações de produção, superestrutura, ideologia, determinação em última instância, mais valia etc. Esta última corrente privilegia os fatores econômicos, macro-estruturais da sociedade. O conflito entre capital e trabalho gera a luta de classes, principal motor da História. A classe operária industrial têm primazia no processo de luta social e o movimento operário desempenha o papel de vanguarda nas transformações sociais. Ele, junto com o partido político e com intelectuais orgânicos à classe operária teriam uma missão história: transformar a sociedade das desigualdades sociais em uma outra, sem opressão ou oprimidos. O privilégio dado à classe operária se explicaria pelo papel que ela ocupa no processo de produção - arena central do processo de conflito social - e pelas contradições sociais do próprio sistema capitalista naquele processo. A classe operária seria o agente principal de um novo devir histórico por ser a negação de seu oponente básico: a burguesia.
Manuel Castells, Jean Lojkine, Claus Offe, Laclau e a corrente dos historiadores liderada por Hobsbawm E.P. Thompson e G. Rudé e outros, constituíram a corrente contemporânea de estudo sobre os movimentos sociais na Europa também denominado neomarxista. Tratam-se de estudos que significaram uma releitura do marxismo ortodoxo. A abordagem dos fatores políticos tem centralidade e a política passou a ser enfocada do ponto de vista de uma cultura política, resultante das inovações democráticas, relacionadas com as experiências dos movimentos sociais, e tem um papel tão relevante quanto a economia, no desenvolvimento dos processos sociais históricos. Duas grandes referências fundamentaram esta releitura. A teoria da alienação desenvolvida por Lukács (1960) e pela escola de Frankfurt e a teoria de Gramsci sobre a hegemonia. A primeira aborda a alienação "em termos dominação dos sujeitos por forças alheias que impedem o pleno desenvolvimento de suas capacidades humanas e a emancipação como a libertação das garras destas forças alheias, sejam elas "forças da natureza" ou advindas da organização da sociedade"( Assies, 1990: 24).
Entretanto, devemos reconhecer que o marxismo, aplicado ao estudo dos movimentos sociais operários e não-operários, não é apenas uma teoria explicativa mas é também uma teoria aos próprios movimentos. Por isto muitas vezes suas análises se assemelham a um guia de ação porque elas estão voltadas não apenas ao entendimento analítico dos problemas envolvidos mas elas estão refletindo a prática que se tornará práxis histórica. 
As teorias marxistas sobre os movimentos sociais não abandonaram a problemática das classes sociais. Ela é utilizada no que diz respeito à origem dos participantes, aos interesses do movimento, assim como ao programa ideológico que fundamenta suas ações. Na abordagem clássica marxista os aspectos organizacionais do movimento interessavam à medida que era um dos fatores geradores de consciência social, mas nas análises dos movimentos em si eles quase não apareciam e este é um dos pontos de crítica do paradigma americano aos marxistas, bastante centrado na análise institucional das organizações. O que é destacado nos estudos marxistas contemporâneos é que os movimentos não surgem espontaneamente. São organizações existentes, atuando junto a bases sociais mobilizadas por problemas decorrentes de seus interesses cotidianos, como cidadãos, consumidores, ou como cidadãos usuários de bens e serviços públicos, que geram os movimentos sociais. Eles não existem a priori, tornam-se movimentos pelas ações práticas dos homens na história. Organização e consciência serão fatores chaves para explicar o seu desenrolar. A questão da existência de uma lógica no processo de desenvolvimento histórico é um consenso dentro do approach marxista. Isto significa que a realidade necessita de ferramentas da racionalidade científica para ser entendida, ela contém outras explicações que sua aparência imediata não revela. Através da objetividade pode-se ter acesso à forma e aos modos de como os fatos, fenômenos e acontecimentos em geral da realidade realmente ocorrem e porque eles são desta forma e se apresentam de outra. O debate gira em torno da determinação ou não desta lógica, da hierarquia ou não dos setores que compõem as relações sociais dos homens entre si e com a natureza.
Assies (1990) destaca que elementos como socialização, processo educativo, interação social, autoconsciência, não-consciência, identidade coletiva e individual baseadas em fatores de gênero, preferencias sexuais, etnicidade etc permaneceram fora das principais correntes marxistas de análise e reflexão. O processo político e seus níveis de autonomia também não foi um ponto central naquelas análises. Por isso, os temas que serão destacados pela maioria dos estudiosos marxistas dos movimentos sociais tem um ponto de partida nas questões estruturais, de forma a ter uma base para o entendimento dos conflitos sociais.
Scott (1990) afirma que os movimentos sociais tardaram a parecer nas abordagens marxistas, ortodoxas ou neomarxistas porque nas primeiras os movimentos da classe eram vistos como "o paradigma" e para as segundas haveria uma subordinação de outros tipos de movimentos aos movimentos de classe. Scott cita Castells (1978) quando este analisou a ideologia dos ambientalistas como apolítica. Movimentos que não eram de classe seriam visto até mesmo com uma certa hostilidade.
Este trabalho contém três partes. A primeira aborda as matrizes clássicas marxistas que embasaram as correntes teóricas contemporâneas sobre os movimentos sociais. Inicia-se pelo próprio Marx, tomando aspectos de sua obra (1976) que remetem à problemática dos movimentos sociais e constituem o acervo de seu legado para a análise sobre os movimentos. O mesmo procedimento será utilizado para os outros clássicos do marxismo, selecionados dentro dos objetivos deste trabalho, a saber: Lenin, Rosa de Luxemburg, Trotsky, Mao Tsé-Tung e Antonio Gramsci. Não entraremos na polêmica de suas divergências ou polêmicas e correntes políticas que geraram entre si. Apenas resumiremos pontos nas obras que tratam dos movimentos ou serviram de fundamentos a teorias sobre eles.
A Segunda parte aborda os estudos realizados pelos historiadores europeus, especialmente ingleses, nos trabalhos de Hobsbawm, E.P.Thompson e G.Rudé. O trabalho conclui-se, numa terceira parte, com uma visão geral sobre o uso da abordagem marxista nos movimentos sociais latino-americanos.


Referências Bibliográficas do Resumo ( o texto final trará a bibliografia completa)

ASSIES, W. 1990. Structures of power, movements of resistance. Amsterdã, Cedla.

GOHN, Maria da Glória. 1997. Teorias dos Movimentos Sociais. São Paulo, Edições Loyola.

LUKÁCS, Georg.1960.Histoire et conscience de classe. Paris, Arguments.

MARX, Karl.1976. A miséria da filosofia. Barcelona, Grijalbo.

_________1965. Selected correspondence. Moscou, Progress Publ.

SCHERRER, Ilse Warren, 1987. Movimentos sociais. Florianópolis, UFSC.

SCOTT, 1990.Ideology and new social movements. Londres, Unwin Hyman.

A INTRODUÇÃO DO POSITIVISMO NO BRASIL


Causas, antecedentes e precursores


1.1. Auguste Comte e a Lei dos Três Estados

No século XIX, generaliza-se na filosofia certo espírito antimetafísico e antiteológico. Era uma tendência de fazer da filosofia não somente uma ciência de rigor, com ênfase nos conteúdos sujeitos aos métodos lógico-matemáticos ou empíricos, mas também naquilo que Euryallo Canabrava chamou de uma economia do pensamento. Era preciso economizar o pensamento, afastando as noções metafísicas e discussões acerca das essências abstratas, nas quais o hegelianismo se especializara, e dando lugar a noções mais "objetivas", "científicas". A ciência tornara-se definitivamente o modelo para a filosofia. E a filosofia que encarna esse ideal perfeitamente é o Positivismo de Auguste Comte.
O Positivismo tem uma base não tanto metodológica quanto cientificista. Sua influência, nas versões desenvolvidas por comtistas, por Smith e posteriormente pelo Positivismo Lógico, seria crucial na transformação do século XX como o século da epistemologia, do ponto de vista da história das ideias filosóficas. Como teoria da ciência, Comte expôs o Positivismo no Curso de Filosofia Positiva (1830-1842) e no Discurso Sobre o Espírito Positivo (1844). Ocorre que Comte desenvolveu o Positivismo para além da mera teoria da ciência, indo desembocar numa religião (Catecismo Positivo, 1852) e num projeto para reorganizar a sociedade humana (Sistema de Política Positiva, 1852-1854). O Positivismo propunha, enfim, um modelo de ação humana, uma ordem mundial, uma nova forma de relação dos homens entre si e dos homens com o mundo. Para Comte, a característica principal dessa nova filosofia é a sua tendência a substituir o absoluto pelo relativo. No centro da filosofia comteana ou positiva, está o filósofo não como metafísico, mas como guia da humanidade.
Em sua Lei dos Três Estados, Comte elaborou uma classificação da história da humanidade nos seguintes estados em ordem cronológica: o teológico, o metafísico e o positivo. Segundo o filósofo, cada passo desse desenvolvimento cronológico pressupõe o anterior. No estado teológico, o espírito humano vive num universo natural e sobrenatural, no qual impera o fetichismo. No estado metafísico, simples modificação geral do primeiro, substituem-se as forças sobrenaturais pelas abstrações. Por fim, no estado positivo, o espírito humano passa a valorizar o raciocínio lógico em vez do metafísico-abstrato e tenta explicar os fatos com base em leis objetivas, não mais recorrendo a elementos da natureza ou deuses, nem a leis do ser em geral.
De maneira geral, podemos dizer que o estado teológico e o metafísico se caracterizam, quanto ao método, pelo domínio fundamental da imaginação sobre a observação e, quanto à doutrina, pela pesquisa exclusiva de noções absolutas. O primeiro estado corresponderia à imaginação; o segundo, à argumentação; o terceiro, à observação.
O estado positivo é a idade industrial regida pelos interesses econômicos. O Positivismo instaura as ciências como pesquisa daquilo que é determinado, certo e útil. Por isso, nos campos social e político, acontece a passagem do poder espiritual para os sábios e cientistas, e o poder material passa às mãos dos industriais. A forma de governo que corresponde ao estado positivo é a republica ditatorial ou cientifica.
A Lei dos Três Estados é a parte da doutrina de Comte que mais teve força num primeiro contato de sua filosofia com o Brasil. Ocorre que, na França, os seguidores do Comte cientificista não eram os mesmos seguidores do Comte que pregava o Culto da Humanidade, e desde logo houve uma cisão entre positivistas ortodoxos e dissidentes. Essa cisão teve reflexos também no Brasil, como se verá adiante - entre nós, ela teve desenvolvimentos muito mais acirrados do que no país natal de Comte.

1.2. Primeiras ideias positivistas no Brasil

Em 1857, ano do falecimento de Auguste Comte, já havia no Brasil um grupo de seguidores não coeso, porém firmemente defensor das ideias do mestre. Esse grupo era composto de intelectuais oriundos das classes abastadas do país, jovens que retornavam de seus estudos na Europa, estudiosos que preparavam teses nas nossas melhores escolas superiores. Ivan Lins dá como certo que 1844 marca a entrada do Positivismo no Brasil. Nesse ano, o dr. Justiniano da Silva Gomes apresentou, na Faculdade de Medicina da Bahia, uma tese com nítida influência do Positivismo, numa referência à Lei dos Três Estados. Por volta da mesma época, alguns brasileiros eram alunos de Comte em cursos por ele oferecidos em Paris, e entre esses alunos estava outro baiano, Felipe Ferreira de Araújo Pinho (1815-1901), bacharel em Ciências Matemáticas pela Universidade de Paris e pai de João Ferreira de Araújo Pinho, que mais tarde seria Presidente da Província de Sergipe e Governador do Estado da Bahia.
Pouco depois, na Escola Politécnica e na Escola Militar do Rio de Janeiro, havia já um certo grau de influência positivista. Natural que fosse nessas escolas o lugar onde o Positivismo esteve melhor representado e mais ativo, pois eram escolas de ciências exatas e naturais, modelos do pensamento objetivo de Comte.
Não seria possível aqui enumerar todos os primeiros positivistas brasileiros. Bastaria, por ora, dizer que os nossos intelectuais mais interessados estavam atentos aos acontecimentos da Europa e souberam reconhecer o porte da personalidade cativante de Comte e defendê-la com exaltação. É interessante notar como eram distintos as ocupações e interesses dos primeiros positivistas brasileiros. O que unia a todos era a admiração comum pela força moral do mestre, e esse fato repetiu-se no Brasil anos mais tarde, quando o Positivismo assumiu feições mais religiosas que filosóficas ou científicas.

1.3. Nosso grande filósofo positivista

O paulista Luís Pereira Barreto (1840-1923) foi um dos responsáveis pelo aumento do prestígio do Positivismo no Brasil na segunda metade do século XIX. Ao retornar de seus estudos de medicina em Bruxelas - onde teve seu primeiro contato com as doutrina positivista com Marie de Ribbentrop, educadora e frequentadora de círculos intelectuais em Bruxelas -, estava imbuído das ideias de Comte e dedicou-se a intensa propaganda ideológica em favor da doutrina. Para isso, fez uso pertinente de sua posição de grande proprietário rural e cientista de reconhecidos dotes. Pode-se dizer que Pereira Barreto foi o primeiro caso, no Brasil, de um modelo moral típico do Positivismo, qual seja, o de um homem de ilibada moral e muito respeitado na sociedade que angaria devotos ao Positivismo por sua extrema facilidade de comunicação. Outros casos assim surgirão pouco mais tarde, como o demonstram Benjamin Constant, Miguel Lemos, Teixeira Mendes e Júlio de Castilhos, para citar apenas alguns. Já nesses casos fica claro que a força da personalidade desses intelectuais e políticos é maior que o mérito intrínseco da doutrina que propagam.
Porém, Pereira Barreto tinha ambições filosóficas e realizou-as na medida do possível num Brasil que ainda não tinha universidades, muito menos tradição propriamente especulativa-filosófica. Ele acreditava que o Positivismo não encontraria oposição no Brasil, pois as câmaras legislativas haviam atingido o auge do descrédito e o clero, além de ignorante, era extremamente desmoralizado. Nesse espírito, escreveu sua obra-prima, As Três Filosofias, originalmente planejada em três tomos, dos quais somente o primeiro e o segundo foram efetivamente publicados: A Filosofia Teológica (1874) e A Filosofia Metafísica (1880).
Pereira Barreto via em Comte um filósofo da estirpe de Aristóteles e Descartes, devendo ser aproveitado do mestre francês aquilo que ele trouxe de científico para o patrimônio intelectual, e corrigido ou completado o que fosse necessário. O Positivismo deve mudar assim como mudam as ciências. Isso tornou Pereira Barreto um representante do Positivismo crítico ou especulativo no Brasil. Para ele, o pensamento de Comte era uma teoria filosófica, ou seja, um objeto de estudo e estímulo à reflexão, e não um doutrinário que se devesse propagar sem ter consciência de seus fundamentos. Toda a obra é entremeada de referências à vida brasileira, discutida à luz do comtismo. Observe-se que, com seu espírito crítico, Pereira Barreto não hesitava em ir além do filosófico, principalmente quando estavam em questão temas contemporâneos e urgentes para o desenvolvimento da humanidade. Em sua visão particular do Positivismo, este era muito mais um método do que um doutrina. Essa mesma atitude o faz entrar em debates acirrados nos jornais paulistas, opondo-se fervorosamente a doutrinas religiosas e políticas que, em sua opinião, não contribuíam para o progresso da humanidade. Os comentadores do Positivismo no Brasil guardam todos palavras honrosas e elogiosas ao espírito positivista de Pereira Barreto, o que se deve à perspicácia do filósofo na adaptação do comtismo aos problemas do Brasil. Entre esses problemas, o que mais lhe estimulava à reflexão estava aquilo que, na História do Brasil, ficou conhecido como a Questão Religiosa.

1.4. A Questão Religiosa

Para Pereira Barreto, o Brasil já se encontrava no estado metafísico e caminhava para o pleno estado positivo. Ele chegou a essa conclusão após refletir sobre a difusão que havia, em nossas academias e em nosso parlamento, do espírito argumentativo. A atitude de polêmica, a discussão de temas de ordem "abstrata" demais ou movida a egolatria - tudo isso fazia Pereira Barreto crer que o Brasil já estava no estado metafísico, fase de incertezas e esterilidade, ou, nas suas palavras, "reinado da vaguedade, da incerteza e do sistema de transação", um "espetáculo nauseabundo".
Para Pereira Barreto, a Questão Religiosa, conflito entre as forças da Igreja Católica e o Estado brasileiro (monarquia), parecia ser o mais claro sinal de confirmação de sua tese. De um lado, havia um monarca que, por conta da tradição ibérica, detinha o poder virtual sobre a Igreja e não hesitava em fazer valer suas palavras também em assuntos seculares. De outro lado, um bispo que reclamava o poder e autonomia nos quais foi investido pelo Pontífice em Roma. Na tensão entre o poder do papa e o poder do Imperador, raros foram os que ficaram com o primeiro, temendo serem perseguidos pelo segundo. Entre os corajosos, destacou-se o bispo de Olinda D. Vital Maria Gonçalves de Oliveira, que defendia o cumprimento da lei secular em detrimento das ordens do Imperador. D. Vital ousou "viver à luz do dia" (vivre au grand jour), para usar uma expressão de Comte. E não foi por outro motivo que Pereira Barreto muito estimava D. Vital.
Analisando a Questão Religiosa, percebe-se que ela indica um claro enfraquecimento da instituição religiosa no Brasil, completamente subordinada ao Estado. Não raro, muitos padres eram políticos e até maçons, o que, para alguns, era uma verdadeira heresia. Na prática, quando um padre era também homem de vida política, sobressaía o político. A Questão Religiosa expôs essa fragilidade da Igreja Católica no Brasil e abriu caminho para a entrada do Positivismo religioso em nosso país.

1.5. A Questão Militar

Outra tensão existente no país no último quartel do século XIX foi a Questão Militar, desta vez um conflito entre o Imperador e os militares. Com o fim da Guerra do Paraguai, os militares perderam seu prestígio e passaram a receber incumbências que, em sua opinião, denegriam a imagem da corporação, como caçar escravos fugitivos, tarefa normalmente entregue a capitães do mato. Na prática, isso levou os jovens militares em formação a afastarem-se do ideal bélico e guerreiro e a aproximaram-se do estudo das ciências exatas. A Escola Politécnica e a Escola Militar eram as responsáveis pela formação dos militares.
Nesse mesmo momento, os professores da Escola Militar estavam entrando em contato com a doutrina de Comte. No últimos anos do Império, essa instituição era plenamente positivista. Nela, os futuros soldados eram ensinados a não seguir a religião do Estado e a combater a autoridade da qual eles deveriam ser defensores, idéias conformes ao espírito da doutrina de Comte.
A Escola Militar formava não homens para a guerra e sim engenheiros. Isso foi criticado como uma espécie de paisanização ou "bacharelarização" dos militares brasileiros. Os oficiais egressos eram matemáticos e não militares. O tenente-coronel Benjamin Constant Botelho de Magalhães, um dos mais acirrados defensores do Positivismo no Brasil, foi um dos professores da Escola.
Augusto Comte era contrário ao militarismo. Na sua filosofia, o próximo estado na escala evolutiva da sociedade brasileira era o estado positivo, ou seja, um estado industrial e pacífico, não havendo, portanto, espaço para um militarismo forte. Posteriormente, não serão poucas as objeções apresentadas por Teixeira Mendes e o Apostolado Positivista a qualquer movimento ou atitude que lhes parecesse ter por objetivo reanimar e reativar a força militar no país.
O Exército no Brasil não era uma instituição organizada e devidamente estruturada como o braço de guerra de um país. Não possuía o mesmo brio de tempos anteriores. Era formado por pessoas que buscavam sua subsistência, uma estabilidade social, ao mesmo tempo que não havia interesse do Estado na manutenção do exército. Nota-se que, nessa associação, há uma enorme contradição, tanto na instituição militar, quanto na instituição positivista. Ser militar era fatalmente ser um mau positivista, ao mesmo tempo que ser positivista era ser um mau militar - pelo menos, no sentido literal que Comte deu a sua doutrina.

1.6. A Sociedade Positivista do Rio de Janeiro

O Positivismo de Comte já tinha dissidência na França. Littré, um dos primeiros discípulos de Comte, tornou-se dissidente quando passou a considerar secundária a segunda parte da obra do mestre, incluindo o Sistema de Política Positiva e a Religião da Humanidade, por acreditar que o estado de saúde mental de Comte após o incidente com Clotilde de Vaux teria inspirado suas ideias nesse período.
O sucessor oficial de Comte foi Pierre Lafitte. Sob seu patrocínio, foi fundada, em 1878, a Sociedade Positivista do Rio de Janeiro, com o objetivo de divulgar o Positivismo na imprensa. Entre os intelectuais envolvidos na Sociedade estavam Benjamin Constant e os jovens Miguel Lemos e Teixeira Mendes. Esse foi o embrião do Apostolado Positivista do Brasil, que tanta influência teria mais tarde, durante a República.
Enquanto se reformulava a Sociedade Positivista do Rio de Janeiro, em 1879, Miguel Lemos viaja para Paris com o intuito de estudar medicina. Porém, sua inquietação pessoal o conduz aos líderes da doutrina positivista. Procurando no Positivismo uma solução espiritual para suas inquietações metafísicas, Miguel Lemos decepciona-se com o líder positivista, a quem considerava um intelectual preocupado somente com aspectos formais da doutrina.
Segundo João Camilo de Oliveira Torres, Miguel Lemos tinha uma profunda inquietação metafísica, e, seguindo sua formação científica, só aceitaria uma doutrina que fosse também científica e matematicamente demonstrada. Para Lemos, uma filosofia que não aborda os problemas do destino e do sentido da vida está fadada ao fracasso. Lemos perguntava-se: "Qual o critério que havia de libertar-me da tirania de minha razão individual e oferecer aos homens, grandes e pequenos, instruídos e ignorantes, a base do dever?"
É na aproximação com Pierre Lafitte que o futuro líder do Positivismo ortodoxo do Brasil irá encontrar respostas as suas inquietações. Na Religião da Humanidade de Comte, propagadas e mantidas por Lafitte, Lemos irá basear a sua fé sem dogmas metafísicos. Sob as influências do apóstolo parisiense, o brasileiro passa a estudar a Política Positiva e, ao regressar ao Brasil já convertido, logo conseguiu convencer os colegas da Sociedade Positivista do Rio de Janeiro a fazerem o mesmo. Logo também passa à Presidência da Sociedade, que, em 1881, torna-se o Apostolado Positivista do Brasil. "Apostolado" porque Lemos era o "Apóstolo" - ou aspirante ao sacerdócio, como ele deseja ser conhecido - da Religião da Humanidade criada por Comte.
Alguns anos mais tarde, ocorreu uma cisão no próprio seio do Positivismo dissidente: Lemos, chefe do grupo no Brasil, desentendeu-se com Lafitte, líder em Paris, por questões de doutrina. É que Lemos desejava ver as palavras de Comte seguidas ao pé da letra e não aceitava interpretações da doutrina. Lafitte, ao que parece, era mais maleável e aconselhava a Lemos que este também o fosse. Após a cisão, como Lemos ainda desejasse ser conhecido como um aspirante a Apóstolo, Auguste Comte tornou-se o "guia subjetivo" do Apostolado Positivista do Brasil. Isso significa que as idéias de Comte foram aplicadas aqui com um rigor tal que não se encontrava no próprio seio do Positivismo, ou seja, na França. Com esse cisma e com o vigor com que Miguel Lemos e seu amigo Teixeira Mendes empreenderam a propaganda positivista em nosso país, o Positivismo estava definitivamente introduzido no Brasil e já pronto para exercer sua marcante influência na vida da República.

1.7. O Positivismo no Brasil e o Positivismo pensado por Comte

Com amparo no que foi exposto acima, pode-se dizer que o Positivismo brasileiro teve como principais causas deflagradoras:

1) a influência exercida por Comte em estudantes brasileiros que foram seus alunos ou que aprenderam a doutrina com seus discípulos;

2) a Questão Religiosa e a demonstração de fragilidade da monarquia e da Igreja;

3) a Questão Militar e o aparecimento de uma classe de indivíduos (os militares inconformados pela degradação imposta pelo monarca) prontos a serem influenciados pela nova doutrina;

4) a tradição política e a intuição religiosa no Brasil, que possibilitaram o surgimento de líderes morais, apóstolos do Grão Ser e demais personalidades de grande apelo.

Um capítulo à parte na discussão sobre as causas do Positivismo no Brasil é aquele aberto por João Camilo de Oliveira Torres nas páginas finais de O Positivismo no Brasil. Afirma Oliveira Torres que a causa principal, não apenas do aparecimento do Positivismo entre nós, como também de seu florescimento, foi a nossa deficiente estrutura educacional. Um país sem universidades e, portanto, sem um espírito crítico arrojado e amadurecido, não teria como preparar uma oposição convincente a uma escola doutrinária como o Positivismo. António Gomez Robledo discorda de Oliveira Torres e prefere explicar o fenômeno com base na "religiosidade mais epidérmica que visceral" do Brasil. Na verdade, ambos os fatores - a educação e a religião - contribuíram para o aparecimento do Positivismo no Brasil, juntamente com outros fatores de ordem social, como a tradição política e polemista de nossos intelectuais, a decadência da instituição monárquica, etc.

Mas é preciso perguntar: o Positivismo introduzido no Brasil era a mesma doutrina idealizada por Comte? A dimensão política e elitista do Positivismo brasileiro leva a crer que não. Ao mesmo tempo, o círculo de positivistas na França com seu amor à Humanidade - abstraindo, na idéia de humanidade, o fato mesmo de que os homens são concretos, históricos, o que já é uma contradição interna da doutrina, contrária a abstrações generalizadoras - também tinha um caráter elitista. Porém, à exceção de Pereira Barreto e dos primeiros positivistas brasileiros, que não tinham muito compromisso ideológico com o Positivismo, podemos dizer que o que se generalizou nos grupos positivistas brasileiros foi um espírito pouco crítico e mais ingênuo, mais doutrinário e menos reflexivo. E certamente o grupo de Comte não tinha o fervor doutrinário que tinham os positivistas brasileiros.


O POSITIVISMO E A REPÚBLICAUma "quase filosofia do Estado"


2.1. Benjamin Constant e a formação dos militares

Como apontam alguns autores, havia, no século XIX, uma regionalização do conhecimento no Brasil. As escolas de ciências jurídicas em São Paulo e Recife, a Faculdade de Medicina na Bahia e as Escolas Militar e Politécnica no Rio de Janeiro exemplificam e confirmam essa observação. Como se disse anteriormente, o Positivismo entrou no Brasil principalmente por intermédio dos alunos e professores das Escolas Politécnica e Militar, onde se ensinavam ciências da engenharia e matemáticas.

Benjamin Constant foi professor de ambas as escolas e exerceu marcada influência sobre seus alunos, que o viam como um modelo moral a ser seguido e um exemplo de homem da modernidade científica. É importante reforçar que Constant não professava a Religião da Humanidade, nem seguia os preceitos morais do Comte mais radical, embora sua crença no Positivismo como doutrina ética fosse inabalável, como atestam os documentos descritos por Ivan Lins e Oliveira Torres em seus estudos sobre o Positivismo. Quando, mais tarde, o Positivismo brasileiro passou a assumir suas feições mais religiosas que especulativas, Constant ficou com o rótulo de quase dissidente, justamente por causa de sua renúncia em seguir os ensinamentos do Comte religioso.

Um professor como Benjamin Constant, de quem há muitos relatos que o dão como excelente comunicador e personalidade cativante, certamente não teria dificuldades em formar seguidores. Isso fez com que se formasse um primeiro núcleo sistemático de positivistas no Brasil. Numa época em que o abolicionismo, o republicanismo e o antimonarquismo eram moda entre os jovens, os jovens militares alunos de Constant não fugiam à regra. Eram, pois, receptáculo perfeito das doutrinas positivistas, que pregavam o amor à Humanidade, o advento de uma república científica e o fim do império das "incertezas metafísicas" típicas de um sistema monárquico.

2.2. O ideário do 15 de Novembro

Entre os mais velhos, Constant teve muito mais esforço de convencimento. Por exemplo, o Marechal Deodoro da Fonseca, que era tido como monarquista e simpático às instituições do Império. Porém, entre a pressão dos colegas e sua admiração pelo Imperador, Deodoro preferiu dar razão à primeira. Para auxiliá-lo em sua escolha moral - e decisiva para a história do Brasil -, o positivista Benjamin Constant teve papel crucial.

A insatisfação dos militares com a monarquia envolvia além dos fatores esclarecidos anteriormente ainda fatores de confronto direto com o gabinete do Visconde do Rio Branco. Deodoro, como líder nato, tentou contornar o confronto até onde isso era possível, mas a monarquia estava com os dias contados. Ela estava, inclusive, com data para ser liquidada: 17 de novembro de 1889. Os ânimos de alguns militares da ala jovem fizeram essa data ser adiantada em dois dias.

Se Benjamin Constant foi quem orquestrou o levante republicano - com sua influência indireta sobre a formação dos militares e sua influência direta sobre o Marechal Deodoro -, então por que motivo não teria ele tomado para si o cargo mais importante da república? Embora se possa achar uma reposta a essa pergunta, podemos, contudo, afirmar que fazia parte dos preceitos positivistas que seus partidários não assumissem cargos políticos de importância. Essa afirmação não quer dizer que tenha sido esse o motivo de Constant, mas provoca alguns reflexões, principalmente quando se leva em conta que outros positivistas em outros países do mundo também se envolveram diretamente com a proclamação de suas respectivas repúblicas e, logo em seguida, assumiram os cargos máximos dessas novas instituições. Estamos falando de Thomas Masaryk, na República da Tchecoslováquia, e Teófilo Braga, na República de Portugal. Juntamente com Benjamin Constant, no Brasil, esses dois homens de vulto histórico são celebrados pelos positivistas atuais como os "fundadores das três repúblicas".

Assim, pode-se dizer que o Positivismo - encarnado em Benjamin Constant - foi uma das causas da Proclamação da República, juntamente com outros fatores de ordem nada especulativa e nada filosófica e sim social e de conjuntura política. Porém, como afirma Robledo, "seria o mais grave dos erros confundir o Apostolado Positivista com o Governo republicano" , como se verá adiante.

2.3. Os "dois apóstolos" positivistas e sua influência na política republicana

Nos acontecimentos que envolveram a Proclamação da República do Brasil, Miguel Lemos e Teixeira Mendes não tiveram participação. O Positivismo presente nesses acontecimentos era exclusivamente o de Constant e de seus correligionários militares. Os então mais jovens Miguel Lemos e Teixeira Mendes procuraram Constant, poucos dias após a Proclamação, para oferecer seus conselhos à nova República. Ao serem aceitos os dois "apóstolos" do Positivismo religioso no grupo dos orquestradores da República, estava inaugurada a temporada de influência plena do Positivismo sobre nossas instituições políticas.

Lemos e Teixeira Mendes opinavam sobre tudo, através de documentos oficiais encaminhados diretamente aos dirigentes do governo ou ao parlamento. Os jornais da época os tinham como duas figuras cômicas, mas eles foram dois "cômicos" que souberam valer suas opiniões de forma duradoura.

Algumas das medidas adotadas durante os primeiros anos da República refletiam explicitamente sua influência positivista. São elas:

- A substituição da saudação final na ccorrespondência oficial do Estado, de "Deus guarde a V. Exa..." por "saúde e fraternidade", que faziam referência ao Culto das Humanidade de Comte.
- Abolição dos tratamentos de Vossa Exccelência, Vossa Senhora etc. pela forma "vós".
- A configuração da bandeira republicanna, que recebeu o lema comteano "Ordem e Progresso".
- A lei da separação entre Igreja e Esttado
- O decreto dos feriados nacionais, algguns dos quais permanecem até hoje, como o 2 de novembro, o 1o de janeiro etc.

Alguns autores sustentam que o a separação entre Igreja e Estado foi o mais importante legado positivista ao Brasil. Porém, Ruy Barbosa também reclama para si a autoria do anteprojeto que deu origem a essa lei. Essa foi, aliás, mais uma das querelas entre liberais e positivistas durante os primeiros anos da República. De resto, se analisarmos a situação das relações entre a Igreja e o Imperador nos últimos anos da monarquia, daí retira-se a conclusão de que o fato da separação era iminente.

Outros autores querem que a bandeira nacional seja o símbolo máximo da influência do Positivismo no Brasil. Quanto a isso, não resta dúvida de que o lema positivista na bandeira permanece até hoje como uma realidade incorporada ao nosso patrimônio de símbolos, que ninguém mais pensa em excluir, nem sequer alterar.

Sobre o lema em si, há pelo menos uma questão interessante a discutir. Em recente artigo na Revista Veja, Stephen Kanitz chama atenção para ao argumento de Ricardo Semler em Virando a Própria Mesa. O autor desse livro diz que ordem e progresso são incompatíveis, pois progresso significa desordem, avanço, criatividade. O lema correto deveria ser, segundo o autor, "progresso e ordem", ou talvez "ordem ou progresso", que fazem mais sentido lógico. Essa discussão foi iniciada um século atrás, quando Lemos e Mendes propuseram a inserção do lema na bandeira com o argumento de que um país precisa primeiro organizar suas instituições para depois progredir rumo o futuro positivo. Hoje, cem anos depois, o lema pode estar diluído num universo de símbolos sem fim, mas ainda tem capacidade de provocar reflexões sobre o espírito brasileiro.

2.4. A oposição ao Positivismo

Já no mestre Auguste Comte, o Positivismo demonstrava uma antipatia declarada contra os juristas. Comte reservou um lugar especial aos juristas na pedantotocracia. Luís Pereira Barreto também destinou algumas de suas palavras mais raivosas a essa classe. E foi justamente dela que emergiu a oposição mais ferrenha ao Positivismo no Brasil.

As Faculdades de Ciências de Jurídicas de São Paulo e de Recife formaram grandes espíritos jurídicos em nosso país, grandes generalistas e grandes intelectuais. Enquanto não houvesse uma escola superior de filosofia ou uma universidade, seriam essas escolas os lugares onde o espírito crítico estaria mais presente na vida acadêmica brasileira.

Entre os juristas que mais se opuseram às articulações de Miguel Lemos e Teixeira Mendes estavam Ruy Barbosa e Quintino Bocaiúva. Os debates, que se travavam nos jornais de todo o país e nas tribunas parlamentares, indicavam uma disputa entre as facções liberal e positivista da intelectualidade brasileira. Foram debates frutíferos, pois serviram para aprofundar a discussão e criar um ambiente saudável de reflexão. Mas, na maioria das vezes, a política era quem comandava a situação. Assim, Ruy Barbosa é tido por alguns como liberal apaixonado, evolucionista, positivista acanhado, republicano de ocasião etc. Difícil dizer onde termina a ideologia e onde começa o interesse político, até porque ambos estão sempre juntos. E foi essa mesma indefinição que levou Ruy Barbosa a opor-se aos positivistas. Na prática, tanto ele como Lemos e Mendes tinham projetos que enfatizavam a criação de uma simbologia nacional, para fortalecer os ideais republicanos e afastar de uma vez por todas a idéia de uma volta da monarquia. Diversos projetos de leis da Primeira República são tidos, quase simultaneamente, como oriundos da pena de Miguel Lemos e da de Ruy Barbosa.

O ecletismo ideológico do Brasil também favoreceu a oposição ao Positivismo. A Escola do Recife, os evolucionistas, os liberais, a Igreja Católica, todos tinha uma querela com o Positivismo - que, a essa altura, era somente Positivismo religioso, pois os primeiros positivistas brasileiros, mais críticos e menos comprometidos com a doutrina religiosa, agora estavam quase todos fora de atividade. João Cruz Costa analisou os números de novos adeptos da Religião da Humanidade e atestou a diminuição do entusiasmo com a doutrina. Oliveira Torres sustenta que, nos primeiros anos do século XX, o Positivismo era uma doutrina moribunda, com raras exceções no Rio Grande do Sul e no Paraná.

2.5. Ditadura militar republicana e Positivismo

A forma de governo do estado positivo da humanidade é a república teocrata, uma ditadura não necessariamente militar, mas civil e ancorada em valores religiosos, que, por sua vez, deviam basear-se na ciência e não no fetichismo típico das sociedades primitivas. O fato de a república ter sido proclamada pelos militares parece contradizer o ideal positivista, pacífico por natureza e avesso ao espírito militar. Porém, as contradições do Positivismo são tantas que até essa não pareceu ter importância. E, de resto, os nossos militares republicanos eram mesmo militares atípicos, formados que foram no espírito da Escola Politécnica e da Escola Militar para serem bacharéis fardados, no dizer irônico de alguns comentadores insatisfeitos.
À parte a contradição entre militarismo e Positivismo, há que observar que a doutrina de Comte era perfeitamente a favor da ditadura. Na visão dos positivistas, um governo entregue às "discussões infindáveis" de políticos profissionais ou atrelado ao poder da Igreja não poderia sustentar-se sobre bases sólidas. Além disso, somente os indivíduos dotados de grande cultura geral e de grande discernimento científico e objetividade é que poderiam governar bem uma nação. Nesse visão, não parecia importar, para os positivistas, o fato de que a ditadura implica em tolhimento de liberdades individuais, cuja simples idéia contradiz o tão enfatizado amor à Humanidade de Comte.
De resto, é preciso reconhecer que o Positivismo que corria nas veias do Brasil republicano era bem diferente daquele que idealizaram os "dois apóstolos" ou mesmo o próprio Benjamin Constant. Isso graças à oposição ferrenha dos liberais e de outros grupos políticos, pouco dispostos a deixar que os positivistas tomassem conta do Governo republicano. Como observa Oliveira Torres, o envolvimento de militares importantes no Positivismo indicava mais uma tentativa destes de legitimação de suas próprias idéias com amparo numa doutrina estabelecida. Ou ainda, indicava sua submissão à vontade política de seus correligionários, como foi o caso de Deodoro da Fonseca. Nesse sentido, o Brasil republicano teve uma religião oficiosa, mas não uma religião oficial, como queriam os positivistas.


O POSITIVISMO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO
A herança ideológica do comtismo


3.1. Júlio de Castilhos e sua República Positivista

Nos primeiros anos da República, o Positivismo foi se espalhado de forma silenciosa e contínua, sem fazer muito barulho, pois não era de seu estilo ser agressivo, duro e violento. Ao contrario, a doutrina foi se infiltrando entre os militares, os intelectuais, na constituinte, na imprensa, na literatura, na política e no modo de vida da sociedade.

Não é possível falar do Positivismo na atualidade, ou se o Positivismo ainda influencia a sociedade brasileira, sem antes nos atermos em verificar como ele se desenvolveu, se manifestou e se misturou com a vida política, social e econômica do nosso país.
O olhar aqui recai sobre o Rio Grande do Sul, Estado brasileiro que sempre quis ser diferente, que antes mesmo de se proclamar a república no Brasil, proclamou a República do Piratini. Um Estado que sempre fez e ainda faz uma política diferente da praticada nos demais estados brasileiros.

Que diferença é esta, qual sua origem e onde ela nos leva?

Muito embora Miguel Lemos não admita, já antes de 1874 havia ecos positivistas em quase todos os Estados da Federação sendo que no Rio Grande do Sul o principal defensor do comtismo foi Júlio de Castilhos, nascido numa estância dos pampas em 1860, Bacharel em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas de São Paulo.
Segundo Ivan Lins, o Positivismo era para os gaúchos: amor as ciências exatas, a matemática, a história natural, a física, e principalmente, um forte sentimento republicano. Com Júlio de Castilhos, ordem e progresso, positivismo e republica se confundem. Dono de um perfil autoritário, inteligente, polemista e persuasivo. colocou-se a serviço da República. Interpretou e aplicou os ensinamentos positivistas de Comte, segundo as necessidades determinadas pelas conveniências partidárias que o momento exigia.
A propagação do comtismo com sucesso em solos gaúchos se deve em parte à existência de uma fronteira viva, local de grande concentração de tropas, sendo que havia um grande numero de gaúchos servindo no exército, fazendo com que o Positivismo fosse levado da academia para o seio do povo. Outro fator que contribuiu para a formação do espírito belicoso do povo gaúcho foi o fato de estar ligado ao "ciclo do couro" de nossa história, o que lhe dá características de individualismo, regionalismo, espírito guerreiro e patriarcal.
Júlio de Castilhos governou o Rio Grande do Sul por 30 anos. Elaborou a constituição gaúcha de 1891 com base nos fundamentos da Política Positivista, privilegiando o equilíbrio entre a autoridade e a liberdade. Mas para atender às necessidades de sua época, fez um governo altamente autoritário. Para o castilhismo, "a origem do poder está no saber e governar é uma questão de competência".

Vale lembrar que somente em 1912 aconteceu a implantação de Positivismo religioso no Rio Grande do Sul. Daí pode-se interpretar que os princípios positivistas influíram de forma mais acentuada no contexto político e econômico do Estado.
A Constituição de Júlio de Castilhos foi a primeira no Novo Mundo que foi promulgada em nome da família, da pátria e da humanidade, estabelecendo normas de defesa do proletariado, como aposentadoria aos trabalhadores a serviço do Estado, sendo que estas mesmas leis seriam implantadas no Brasil a nível nacional somente em 1934. Essa Constituição legisla ainda sobre a forma de governo presidencialista, possibilitando a reeleição, a escolha do vice-presidente pelo presidente - enfim, é uma constituição positivista, individualista e ditatorial republicana que serviu de pretexto para varias revoluções no Rio Grande do Sul.
Júlio de Castilhos assumiu o governo do Estado gaúcho em 1893, quando possuía grande prestigio pessoal, difundindo e praticando o que havia de melhor da Política Positiva de Comte num sentido individualista, antiliberal, tradicionalista, sendo um reflexo do pensamento burguês da época. Grande articulador, polemista e agressivo, fez de Borges de Medeiros seu sucessor natural, o qual também governou o Estado seguindo os mandamentos positivistas.
O substituto natural de Borges de Medeiros foi o então deputado federal Getulio Vargas, que sempre defendeu os postulados castilhistas. Com a revolução de 1930, Getulio Vargas levou o castilhismo ao plano nacional.

As leis trabalhistas adotadas no Brasil neste período, nasceram em parte de raízes positivistas advindas das idéias, sentimentos e sugestões de Getulio Vargas.
A ditadura republicana de Getulio Vargas tem sua origem no Positivismo autoritário nascido no Rio Grande do Sul. Vargas manteve-se no poder por quinze anos, sem que neste período houvesse algum tipo de eleição, pois era um dos postulados do positivismo a não realização de eleições para escolher os mandatários. O sufrágio universal é considerado elemento corruptor da razão popular, cabendo ao ditador escolher o seu sucessor sob a supervisão da opinião publica.
Tudo nos leva a concluir que o Positivismo "aplicado" - por assim dizer - por Júlio de Castilhos no Rio Grande do Sul influiu na cultura política brasileira de modo decisivo, tanto nos partidários da esquerda como nos da direita simpatizantes de um regime totalitário.

3.2. O Marechal Rondon e o Positivismo

O Mal. Rondon teve uma formação acadêmica totalmente positivista. Para filiar-se à Igreja Positivista do Brasil, renunciou ao posto de professor, pois os membros do Apostolado não podiam exercer qualquer função remunerada. Isso abriu-lhe caminho para ingressar no Serviço de Fronteiras e Linhas Telegráficas, o que lhe permitiu penetrar pelo interior do Brasil fazendo a instalação de linhas telegráficas. Desvendou os segredos do pantanal, fez estudos sobre as riquezas naturais do solo, demarcou territórios e, principalmente, dedicou-se à proteção dos índios brasileiros.
Seu lema era "só penetrar no sertão com paz e jamais com guerra". O principal serviço prestado por Rondon foi o de proteger os índios dos colonizadores e dos catequizadores que queriam impor-lhes costumes e crenças dos "civilizados". Os positivistas pregavam que os indígenas deveriam ser respeitados como também seus territórios deveriam ser demarcados, pois que eram os verdadeiros donos da terra. Este é uma pressuposto que vigora até nossos dias. Se está sendo cumprido ou não cabe ao governo e ao povo brasileiro fazer uma reflexão a respeito.

3.3. A educação brasileira segundo os positivistas

A Filosofia Positivista influiu de maneira decisiva na formação da mentalidade pedagógica do país, sendo que Benjamim Constant, como ministro da instrução no inicio da república foi o seu executor.
Conte imaginava que quando o Positivismo fosse definitivamente implantado, a educação deveria estar a cargo da Igreja da Humanidade, sendo que não poderia haver intervenção do poder temporal no campo do poder espiritual, e o governo não necessitaria destinar nenhum orçamento para a educação e defende ainda o ensino particular, isto é, pago.
Os positivistas eram contrários à criação da primeira universidade no Brasil em 1882 por D. Pedro II. As falhas e pontos fracos do projeto foram explorados pelos positivistas, que afirmavam: "ciência oficializada não presta (...) cada um ensine o que quiser, como quiser e da forma que melhor lhe aprouver (...) Professores pagos pelos cofres públicos não têm liberdade para criticar a filosofia oficial."

Teixeira Mendes temia que a implantação da universidade no Brasil fosse a morte do comtismo, por isto lutou contra a sua implantação.
Boas universidades, e bons professores quando criam e transmitem novas descobertas estão conservando e impulsionando a cultura e o progresso. Há aqui uma contradição, pois a negação da universidade seria uma negação da pesquisa, um não à evolução, ao desenvolvimento tanto pregado pelo Positivismo despreocupado e satisfeito de Comte, que somente encontrou resistência na filosofia existencial e no neo-tomismo.

Como poderia haver Filosofia e síntese sem as universidades? Onde não há critica pode haver filosofia?

Algumas Criticas dos Positivistas expressas na circular anual do Apostolado Positivista do Brasil contra a implantação da universidade no Brasil:

- ".... universidades são instituições decadentes e um dos maiores obstáculos a toda livre tentativa de reorganização espiritual".
- "......não correspondem a nenhuma neccessidade real, mas somente ao patriotismo mal esclarecido de um certo numero de cidadãos..."
- "...no Brasil há um numero mais que suficiente de escolas superiores para satisfazer às necessidades profissionais e que a função da universidade só teria como resultado a aquisição de um diploma qualquer por parte dos filhos de nossa burguesia.
- "...D. Pedro II só pretende reconhecimento da posteridade pela criação da universidade imperial
- "....a verdadeira instrução popular éé aquela que se dirige a todos e não somente a um pequeno numero de privilegiados...."
Segundo Oliveira Torres, a argumentação do positivista Teixeira Mendes era de que não possuía o Brasil da época professores à altura dos cargos. Ora, atualmente, veta-se o ensino da Filosofia e da Sociologia na escolas com o argumento de que não existem professores preparados para tanto, segundo palavras do presidente Fernando Henrique Cardoso; qualquer semelhança seria mera coincidência entre a atitude de 1882 e a de 2001.
O mundo era visto pelos positivistas da época segundo uma visão cientificista, e isto foi implantado no ensino superior, nas escolas militares e no ginásio, quando da reforma idealizada por Benjamim Constant. O programa instituído nos revela o desconhecimento de uma pedagogia e de uma psicologia educacional, o que demonstra não existirem métodos lógicos próprios; seguia-se o que era determinado pelo comtismo, ou o que era importado do exterior sem respeitar a realidade brasileira da época.

3.4. A Igreja Positivista hoje

A Igreja Positivista do Brasil realiza reuniões públicas todos os domingos às 10 horas da manhã, em seus templos no Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre, sendo que qualquer pessoa pode contribuir para a manutenção da mesma, não necessitando, portanto, ser positivista para fazer tal ato.
A doutrina positivista prega o amor e reconhecimento pelos parentes, pelas instituições sociais, pela pátria, pelos antepassados e pelos grandes homens. O altruísmo constitui a fonte da felicidade do dever.
O lema da Igreja Positivista é: "O amor por principio e a Ordem por base, o Progresso por fim". Sua regra básica: "Viver para outrem e Viver às claras". A divisa política: "ORDEM E PROGRESSO". Ainda hoje valem as palavras: "Ser Positivista é amar, conhecer e servir à Família, à Pátria e à Humanidade."

3.5. (Ainda) somos positivistas?

De modo sutil e pouco visível, permanece entre nós um modo de pensar positivista que foi implementado pela educação de uma maneira direta e indireta, que se faz sentir de uma forma inconsciente nos mais diversos campos de atuação, política, artes, escultura, literatura, teatro, música, etc. Somente teria o nome de ciência, de conhecimento, aquele saber que pudesse ser controlado pela matemática, e fosse útil para a vida aquele que "tivesse um interesse social demonstrado" como afirmara Teixeira Mendes.
O interesse do Positivismo era ensinar aquelas matérias necessárias para a admissão na universidade e não visando uma formação de espíritos sólidos, críticos. Cursos de filosofia oficiais foram fundados a poucos anos no Brasil.
Segundo Oliveira Torres, Positivismo não é sinônimo de comtismo; o Positivismo é a posição do espírito anti-metafisico e cientificista da época. O que se percebe é que no ensino brasileiro houve e há um espírito positivista, o que tem inviabilizado um pensamento uma cultura filosófica bem orientada. O que tem valor é o que é feito e é pensado fora dos limites da Pátria.
Foi por intermédio da política e da educação que o Positivismo firmou suas bases no Brasil, sendo que na educação interferiu diretamente nas reformas do ensino ocorridas no final do império e no início da República, onde se privilegiava as ciências exatas em detrimento das humanas. Atualmente, pode-se observar em nossas universidades que os cursos que têm mais destaque, que recebem mais verbas, são os mesmos destacados pelos positivistas.
Podemos observar ainda que em nossas pesquisas os positivistas, inicialmente, eram contrários à implantação das universidades no Brasil, pois acreditavam que era mais viável e mais econômico importar as novas descobertas, como também, as novas ideias da Europa e que as mesmas só serviriam para que se favorecer uma classe já privilegiada em detrimento dos proletários que continuariam a passar fome e privações. Dentro desta lógica podemos refletir que o Positivismo, apesar de ser individualista e autoritário, tinha uma posição em defesa do social.
Pode-se interpretar que atualmente quando o governo promove, por meio de programas e campanhas, o estímulo para que a indústria, o comércio e a agricultura se modernizem, tendo por base o desenvolvimento cientifico ele estaria tomando para si um pressuposto positivista.
A criação de juntas de conciliação e tribunais em defesa do trabalhador, que hoje em dia existem em todas as partes do mundo, também é uma proposta comtiana. Podemos dizer ainda que os princípios de positivistas, de solidariedade para com o outro, de altruísmo, que o governo atual se pauta em sua propaganda e em algumas atitudes tais como: o trabalho voluntário, frentes de trabalho durante crises, salário desemprego, bolsa escola, vale gás, criação do estatuto da criança e do adolescente e em tantas outras medidas paliativas visando diminuir o sofrimento do ser humano. Portanto, pergunto: Até que ponto somos ou não positivistas?
Há varias maneiras e modos de se interpretar, de se fazer uma leitura sobre o Positivismo no Brasil, não podemos deixar de reconhecer que ele deixou a sua marca mas, na minha interpretação, o positivismo que há no Brasil não é o positivismo pregado por Comte e pelos seus apóstolos brasileiros. Há sim, no Brasil, um Positivismo, um modo de ser positivo que pode advir do Positivismo comtiano, mas pode ser simplesmente fruto do modo de ser da humanidade que ao observarmos a sua história, quer ordem, progresso, paz, justiça.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como já se disse anteriormente, o Positivismo efetivamente implantado no Brasil foi diferente daquele imaginado pelos próprios positivistas. Isso pelas razões apontadas por Antônio Paim no trecho em epígrafe. Ora, o que os "dois apóstolos" desejaram foi criar um novo país, com ideais amplamente fundamentados numa ciência rigorosa. A esse respeito, é preciso lembrar as palavras de António Robledo, "Como foi possível que alguma vez alguém chegasse a pensar um dia que um saber de salvação pudesse fundamentar-se em outra coisa que não em valores eternos e, preferisse fundamentá-lo sobre a areia movediça dos descobrimentos científicos [?]. Fundar uma nova sociedade mais justa e mais humana e que, ao mesmo tempo, estivesse amparada no saber científico (de dominação, no qual impera o progresso, a constante renovação e reformulação) pode ser um erro fatal. Outras formas de Positivismo no mundo - como o Positivismo lógico na Áustria - foram muito menos ingênua que o Positivismo brasileiro.
A análise do Positivismo no Brasil leva a crer que a filosofia de Comte fez parte inseparável da realidade brasileira nos últimos 150 anos. A doutrina, tanto a religiosa, quanto a científico-especulativa, serviram de estímulo a ideais abolicionistas, republicanos, trabalhistas, revolucionários, ditatoriais, etc. Sendo assim, é impossível deixar de concluir que o Positivismo no Brasil foi mais um instrumento político que uma filosofia propriamente dita. Mesmo no caso de Luís Pereira Barreto - um verdadeiro filósofo, livre de amarras e compromissos, mas ainda assim interessado nas polêmicas políticas de sua época -, o Positivismo não conseguia se desvencilhar de suas conotações políticas.
Ao mesmo tempo, o fenômeno do Positivismo religioso chama a atenção para a propagada intuição religiosa do Brasil, país onde, já no final do século XIX, a Igreja Católica detinha uma pequena parcela do poder real que possuía na Europa. Aqui, o Catolicismo esteve muito mesclado com fatores fetichistas, dos quais os sincretismos são os melhores exemplos. Isso levou António Robledo a afirmar que o Brasil tinha um Catolicismo formal, sem conteúdo próprio, apenas uma manifestação de uma intuição religiosa. Essa mesma intuição religiosa diluída do Catolicismo favoreceu o fortalecimento do Positivismo religioso e suas manifestações de amor à Humanidade, de veneração da figura da mulher (em Clotilde de Vaux) e em seus rigorosos preceitos morais. Nesse sentido, o Brasil estava pronto para o Positivismo, que soube aproveitar o momento ideal para estabelecer-se.

Na análise que fizemos em 3. O Positivismo no Brasil Contemporâneo, tentamos destacar algumas influências da doutrina de Comte sobre a realidade concreta do Brasil. Essas influências, contudo, não são tão fáceis de detectar, pois o Positivismo e seus ideais de objetividade, de rigor científico, de economia do pensamento, de desapego à metafísica era um fenômeno da contemporaneidade, sendo que essas idéias também estavam presentes em outras ideologias. Difícil é dizer o que é positivista e o que não é em nossa sociedade. Ao mesmo tempo, nossa evolução histórica e ideológica teve no Positivismo (religioso ou científico) um momento decisivo, que produziu muitas conseqüências reais e duradouras, como o foram o caso da Constituição de Júlio de Castilhos e o lema na bandeira nacional. Difícil é, portanto, afastar o Positivismo da análise do que é o Brasil.



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Sobre os Annales: Marc Bloch e Lucian Febvre.

A revista dos Annales foi fundada em 1929 tendo como principais mentores Marc Bloch e Lucian Febvre. A revista se consagrou conjuntamente com a obra de seus principais fundadores. O movimento dos Annales, normalmente chamado de Escola dos Annales, não possui exatamente, os elementos que constituem uma escola, rigidamente organizada fechada estritamente em torno de uma convicção ou paradigma.
A revista dos Annales passou por diversas reformulações desde que foi fundada. Em sua primeira concepção, os trabalhos de seus principais pensadores Marc Bloch e Lucian Febvre, fizeram–na conhecida e reconhecida mundialmente. Com a proposta de renovar-se e manter-se sempre atual, notamos nos anos 60 uma grande repercussão da revista e forte influência de Fernand Braudel. Na terceira “fase” dos Annales, ou na chamada Nova História destacam-se historiadores como LeGoff, Duby.
Os Annales não possuem uma percepção progressista continuísta da história, recusando as idéias de progresso e em grande parte de revolução. Muitas vezes, os marxistas criticam os historiadores ligados aos Annales por seu conservadorismo, uma vez que não existe entre eles uma teoria de mudança social e da luta de classes. Por não pensarem em mudança, luta e revolução, os Annales são considerados pelos marxistas como reacionários, como correspondentes de uma história que interessaria ao capital e a dominação. Por fim, em função de uma diferença teórico metodológica, encontramos um conflito entre os Annales e os Marxistas mais ortodoxos, que acabam se transformando em disputas por “paixão ideológica”.
Para os Annales, diferente da interpretação marxista, a economia não desempenha um papel determinante no conjunto dos funcionamentos sociais. Sendo estas as principais críticas de Bloch e de Febvre à percepção marxista. Os Annales defendem que a tarefa das ciências humanas é explicar o social complexificando-o e não simplificando através de abstrações.

THOMPSON E A HISTÓRIA


Pode-se afirmar que Edward Palmer Thompson (1924-1993) foi um dos mais importantes historiadores marxistas britânicos do século XX. Seu engajamento ao socialismo testemunhou não apenas um vigoroso envolvimento prático, por mais de cinqüenta anos, mas também um compromisso de vida com vistas a revigorar o marxismo, em particular o britânico, como movimento teórico. Fazendo-se um recorte meramente analítico de sua obra, percebem-se dois aspectos, no entanto, indissociáveis. Em termos teóricos, sua contribuição pode ser avaliada por seu empenho em redefinir uma análise da luta de classe que fosse mais apropriada para a compreensão da história da classe trabalhadora britânica. Em termos práticos, Thompson foi um defensor incansável de vários movimentos sociais que, de seu ponto de vista, representavam diferentes tendências contemporâneas de conflito de classe. Ao relacionar e integrar os elementos teóricos e práticos, ofereceu uma visão ampla do desenvolvimento das formas da política radical na Grã-Bretanha, desde os primórdios do capitalismo, assim como desenhou uma trajetória de história política, cujas informações deveriam servir de orientação para as estratégias de campanhas e movimentos sociais de seu tempo.
Sua interpretação do materialismo histórico afirma três categorias básicas: a luta de classe como protesto, a experiência da classe trabalhadora e a idéia de moral. Thompson, crítico rigoroso quanto à validade de teorias que questionava, envolveu-se em duras polêmicas no mundo acadêmico. A obra thompsoniana reafirma alguns pressupostos do socialismo, mediante sua avaliação das aspirações da classe trabalhadora, definidas como defesa de sua humanidade e de um projeto coletivo.

A Memória Coletiva : Maurice Halbwachs


Em sua obra Maurice Halbwachs mostra-se um correto durkheimiano. Se, ao falar das classes sociais, ele ultrapassa o pensamento do mestre da Escola francesa, sua análise da memória assemelha-se diretamente à inspiração das formas elementares da vida religiosa. O autor demonstra que é impossível conceber o problema da evocação e da localização das lembranças se não tomarmos para ponto de aplicação os quadros sociais reais que servem de ponto de referência nesta reconstrução que chamamos memória.
Situa-se, em Halbwachs, uma notável distinção entre a “memória histórica”, de um lado, que supõe a reconstrução dos dados fornecidos pelo presente da vida social e projetada no passado reinventado; e a “memória coletiva”, de outro, aquela que recompõe magicamente o passado. Entre essas duas direções da consciência coletiva e individual desenvolvem-se as diversas formas de memória, cujas formas mudam conforme os objetivos que elas implicam.
É surpreendente como as últimas análises de Maurice Halbwachs, pouco tempo antes de sua deportação e seu assassinato pelos nazistas, abrem um novo caminho para o estudo sociológico da vida cotidiana.

A História Cultural de Carlo Ginzburg


Abordagem sofisticada e minuciosa, a história cultural tal como concebida por Carlo Ginzburg se interessa pelo detalhe e pelo contexto, pelas micro e pelas macro-questões que, articuladas, podem nos aproximar um pouco mais de nossos antepassados. Decifração de indícios, ciência do particular, a história cultural se move em terreno acidentado e misterioso e, sem prescindir jamais das fontes, autoriza alguns vôos, muitos deles também noturnos, já que “a tentativa de conhecer o passado também é uma viagem ao mundo dos mortos”. Foram muitos os temas tratados por Carlo Ginzbrug ao longo de mais de 30 anos de pesquisa dedicada à feitiçaria, às religiosidades populares, à cultura em sua dimensão histórico-antropológica. Publicados desde meados da década de 80 no Brasil, seus trabalhos, felizmente, abriram um campo de investigação bastante promissor entre nós. Só para lembrar dois exemplos de nossa melhor historiografia e que claramente incorporaram os passos indicados por Ginzburg, cito o livro pioneiro no estudo da feitiçaria e das religiosidades populares no Brasil colonial, O Diabo e a Terra de Santa Cruz, de Laura de Mello e Souza, e A Heresia dos Índios, de Ronaldo Vainfas, que reconstrói a história de uma seita católico-tupinambá acolhida por um senhor de engenho na segunda metade do século XVI.
Já no Prefácio de O queijo e os vermes o autor deixa clara a recusa do conceito de mentalidade, exatamente pelo que mais havia valorizado na trajetória dos andarilhos do bem: o caráter interclassista e de longa duração das crenças populares, tomadas sempre no que tinham de aparentemente imóvel, inconsciente, irracional. Para Ginzburg, as idéias de Menocchio não podiam ser diluídas e ocultadas no que pudessem ter de original, e mesmo admitindo que sua decifração completa e definitiva jamais poderá ser alcançada, optou pelo termo “cultura” em sua acepção antropológica: conjunto de atitudes, crenças, códigos de comportamento próprios das classes subalternas num certo período histórico.

O que é pós-moderno?

A obra “O que é pós-moderno de Jair Ferreira dos Santos carrega consigo algumas características gerais mas bastante marcantes como a utilização de metáforas, o uso da linguagem coloquial, as incessantes comparações entre modernidade e pós-modernidade, e a utilização de exemplos reais e citações.
O livro, de leitura rápida e agradável, inicia de uma forma inusitada. O autor chama o pós-modernismo de fantasma. Este surgiu em 1950 quando ocorreram mudanças em vários âmbitos: ciências, artes, sociedade etc. O “fantasma” pode ser encontrado em nosso dia-a-dia diante da explosão e saturação das informações. Não se sabe ao certo se o pós-modernismo significa decadência ou renascimento cultural. Decadente pois, segundo muitos críticos, não tem força intelectual; mas renascimento pois abala os preconceitos, ameniza o muro entre arte culta e de massa e é pluralista, já que propõe a convivência de estilos diversos.
Assim é feita a pós-modernidade: de contradições. O pós-modernismo é o niilismo: ausência de valores. É a entrega ao presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo. Jair Ferreira afirma ainda que o pós-modernismo é típico de sociedade pós-industriais baseadas na informação, tais como EUA, Japão e Europa.
Os meios de comunicação refazem o mundo à sua maneira, hiper-realizam o mundo pois algo inviável na realidade, pode ser possível na televisão. A pós-modernidade é um mundo super-criado pelos signos. Compramos algo não pelo seu poder de uso, mas por causa do status; as pessoas passaram a ser pelo que vestem.
Atualmente quem não usa jeans e tênis, paga o preço da marginalidade social. Essa é a chamada desreferencialização do rela e dessubstancialização do sujeito.
O pós-moderno tem algo de moderno, mas de forma exagerada, como o individualismo exacerbado, por exemplo. As preocupações pós-modernas estão presas à coisas menores, ao cotidiano.
Nos anos 60, houve o DNA, a pílula, o rock, o chip etc, e tudo isso foi mola propulsora para o surgimento da pós-modernidade. A máquina passou a ditar valores diferentes da religião e tradição tais como a solidão, a cultura de massa etc. Durante esse período, há o consumo de serviços, comunicação entre as pessoa. É necessário um acelerador de informações. Tudo passa a ser signo processado.
A produção e o próprio consumo são programados na pós-modernidade. O que aumenta o desempenho e facilita a vida. É preciso qualidade e tecnologia para se poupar tempo e dinheiro. Por isso, há tecnologia no cotidiano. As pessoa são bombardeadas por informação e isso provocam efeitos culturais, políticos etc.
O Design, por exemplo, estetiza o cotidiano. A moda e a publicidade erotizam o dia-a-dia com fantasias e proporcionando desejos de posse. Forma-se então o circuito: informação – estilização – erotização – personalização.
Com tantas facilidades no dia-a-dia, a pessoa se despolitiza. A sua participação social tem pequenos objetivos. Não há preocupação com grandes temas e a pessoa pode ser várias coisas ao mesmo tempo (vegetariano, programador, budista etc)
A arte sofreu uma importantes mudança durante a pós-modernidade. A arte modernista definia-se como um não ao passado, à tradição. A arte não representava a realidade, mas sim fazia com que nós a interpretássemos. A arte era autônoma, e ganha novas linguagem como o formalismo e o hermetismo. É uma arte irracional, emotiva, humanista. Já a arte pós-moderna surge em meados dos anos 50 contra o subjetivismo e o hermetismo. É a chamada antiarte: sai dos museus e é lançada na rua com outra linguagem, de fácil assimilação para o público. Dá valor artístico à banalidade cotidiana. .
A entropia é um termo importante para o mundo pós-moderno já que significa que nas sociedades atuais tudo migra em direção à confusão, não há valores solidificados, nem ordem. A entropia na forma se dá por meio da destruição do romance e a entropia no conteúdo é a destruição do mundo e dos valores.
Filhos da bomba atômica, escritores americanos respondiam ao drama do absurdo social de forma cômica ou cínica. Pois era como se a saída estivesse em rir do caos vivido. É como se os homens tivessem perdido a cabeça, caído no ridículo deixando o computador programar seus fins, não podendo fazer nada, apenas rir.
Sem enredo, assunto ou personagem, o Nouveau Roman (novo romance) mistura realidade, sonho, delírio e cria um clima de incerteza, embaralha a ordem espacial e temporal dos acontecimentos numa extrema fragmentação e privilegia o texto, o ato de escrever. Essa novo romance realça a técnica de construção, dedica-se à destruição do romance e deixa de lado o conteúdo.
Alguns escritores se utilizam, em seus poemas, do erotismo, da sedução, da contestação que refletem a significante ascensão feminina durante a pós-modernidade.
O modernismo foi bastante forte no Brasil. Porém, o pós-modernismo não o foi e apresentou traços superficiais. Foi durante os anos repressivos (70) que a poesia rompeu sua ligação com a realidade e passou a ser marginal.
Nasce o poema pornô, e o uso das linguagem coloquiais torna-se mais frequente. O campo desse tipo de poema é a banalidade cotidiana, o corpo, o consumo.
Havia ainda duas correntes na poesia: o poema processo e a arte postal que estavam à margem das editoras e do livro. Inauguraram a junção de palavra e imagem e resultavam geralmente em uma arte humorística e irônica.
Mas o pós-moderno também visitou a dança, o teatro, a música e o cinema. Caracterizava-se por linhas “minimalistas”, pela desdefinição, desestetização etc. Já no cinema podemos identificar gêneros mais presentes como a ficção científica e a tecnociência.
O pós-modernismo chega à filosofia em meados dos anos 60 com a proposta de desconstrução do discurso filosófico ocidental. Desconstruir aí, é falar o não dito. O pós-modernismo está associado à decadência das grandes idéias, valores e instituições ocidentais – Deus, Verdade, Família etc.
Tudo isso recai no niilismo que é a falta de valores para agir. Hoje, os discursos globais e totalizantes quase não atraem ninguém e as filosofias sempre mantiveram discursos globais.
A tecnociência invade o cotidiano com mil serviços mas não oferece nenhum valor moral além do consumismo. As sociedades têm meios racionais, mas só perseguem fins irracionais como o lucro e o poder.
Os filósofos pós-modernos lutam em duas frentes. Uma de desconstrução dos princípios e concepções do pensamento ocidental e outra de desenvolvimento e valorização de temas antes considerados menores em filosofia tais como a sexualidade, a linguagem, a poesia, o cotidiano, que são elementos que aceleram a decadência dos valores ocidentais.
Um dos maiores filósofos entrou em moda nos anos 70. Nietzsche já era um pós-moderno em finais do século XIX. Para ele, a própria criação de valores supremos significou decadência, pois se trocou a vida carnal por modelos de belo, bom, justo inatingíveis. A história ocidental se encarregou de desvalorizar os valores supremos, substituindo-os pela banalidade cotidiana.
A pós-modernidade é o momento em que o cristianismo, o conhecimento científico e a verdade são valores em decadência. O homem ocidental quis governar sua existência só pela razão quando, na verdade, a vida é também instinto e emoção.
O pensamento pós-moderno é bastante eclético e, portanto, permite cruzar teorias como o marxismo (Marx) e a psicanálise(Freud). A cena filosófica pós-moderna tem no palco a tecnociência em contradança com o niilismo. Enquanto alguns defendem o niilismo, outros querem deter sua avalanche.
Para Habbermas, pertencente à Escola de Frankfurt, a saída, na era da informação, está na comunicação autêntica, combatendo os efeitos maléfico da comunicação de massa, diluidora, anti-humana.
Nos anos 80, o pós-modernismo chegou até às massas inaugurando um novo estilo de vida permeado basicamente pelo espírito consumista, hedonista e narcisista (além de extremamente individualista). Não há a opção para não consumir pois o apelo ao novo é constante.
Essa massa atingida pela febre pós-modernista também sofreu suas modificações e passou a Ter características marcantes. A massa pós-moderna traz consigo traços de desmobilização e despolitização. É consumista, classe média, flexível nas idéias e nos costumes. As instituições ideologia, política, trabalho já não mais orientam o comportamento dessa pessoas social. Vive sem referências ao passado e sem projeto de futuro. É pragmática sim, mas não ideológica. Prefere movimento com fins práticos como a liberação sexual, o feminismo, a educação permissiva e questões do dia-a-dia. A formação dessa massa se dá por meio, essencialmente, da escola e da mass media. Os indivíduos procuram credos menos coletivos. O homem pós-moderno não é religioso, é psicológico por isso diz- se que o pós-modernismo é o túmulo da fé. Nessa sociedade, os valores foram trocados por modismos, e os ideais pelos ritmos cotidianos. O indivíduo atual é sincrético, ou seja, de natureza confusa, indefinida, plural, feita com retalhos eu não se fundem num todo. No mundo pós-moderno, objetos e informações são descartáveis.


FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL CÁSPER LÍBERO
Texto de Filosofia – Prof. Francisco Nunes
Desenvolvido por: Cláudia Marques Fernandes – Maria Fernanda Blaser – Sheila Bezerra de Magalhães –

OS CONTEÚDOS DA HISTÓRIA: ESTRUTURAS E TRANSFORMAÇÕES

Os impasses da História contemporânea não se limitam, contudo, apenas a esses grandes contextos, essas imensas unidades invisíveis a que denominei "formas". Ora, foi sobre essas entidades quase naturais, quase eternas, que os historiadores projetaram seus objetos de estudo específicos, com suas diferentes formas de descrição e explicação e os diversos tipos de estrutura narrativa da História: dos fatos memoráveis, dos grandes personagens, dos processos e mudanças a serem descritos e explicados, por exemplo. Esses conteúdos específicos, no interior das formas, também são produtos particulares, que atenderam, em momentos distintos, a visões alternativas do que ver na história, de como pensá-la como movimento ou repetição. Desde o século XIX, mas mesmo antes, a própria ideia de uma história imóvel, reiterativa, voltada para o passado tornara-se progressivamente inviável. Era preciso explicar o movimento. Mas movimento de quê?

É verdade que algumas dessas grandes entidades/formas assumem por vezes um caráter quase permanente, como categorias imutáveis, antropológicas: povos e etnias têm seu gênio, seu caráter próprio, que é motor de seus destinos e realizações. Civilizações podem mover-se por um lento tempo "biológico", nascendo, crescendo e morrendo. Tais perspectivas, no entanto, logo caíram em desuso ou, se permaneceram, nunca foram predominantes. Desde cedo, os ramos centrais da historiografia, ao menos os mais influentes, procuraram explicações mais concretas e eficazes de mudança nas grandes formas, atuando em tempos mais precisos. Explicações que envolviam sempre o confronto entre uma dada estrutura (ou sistema, ou organismo) e um tipo ou vetor de ação. Seguindo uma direta influência dos historiadores greco-romanos e de alguns continuadores renascentistas, o tempo rápido da política e da guerra, movido pela ação de grandes líderes e generais ou por elites poderosas, e que era bem adaptado a Histórias de estados-nacionais, dominou as narrativas da História por longas décadas, já bem adentrado o século XX (e ainda não desapareceu).

A partir de meados do século XX fortaleceu-se uma tendência, que pouco a pouco predominaria (ao menos em certos países), a despersonalizar a ação transformadora e a cadenciar mais lentamente os ritmos de mudança, como forma de superar as limitações da velha história política e abrir-se para as contribuições da Sociologia, da Antropologia e da Economia e para a influência do marxismo. Povos, nações, estados, cederam um pouco o lugar no palco da História para agentes mais amplos, transnacionais, quase impessoais. Daí passaram a predominar, na escrita dos historiadores, as grandes estruturas sociais e econômicas, com seu próprio dinamismo e suas próprias determinações. O tempo e a forma da ação tornaram-se distintos: passaram às grandes ações coletivas, por vezes conscientes, mas quase sempre determinadas pelas próprias estruturas, com suas leis de transformação, que passaram para o primeiro plano da narrativa e tornaram-se os grandes agentes da história.

Um terceiro impasse da historiografia contemporânea liga-se, de modo evidente, à crise dessas grandes estruturas, isto é, dos conteúdos específicos que, nos últimos duzentos anos aplicaram-se às formas e davam sentido à sua mudança. Da política à sociedade e desta à economia, o espaço da ação humana tornou-se cada vez mais restrito, menos eficaz. A capacidade de projetar um futuro e de conceber o passado como sua origem e sua causa, como a explicação prévia de um projeto a se concretizar, esvaeceu-se nas últimas décadas. Algumas consequências dessa crise das grandes narrativas são: em primeiro lugar, os objetos da História se multiplicaram, não apenas pela introdução de novos atores sociais, cujas histórias se tornaram relevantes (trabalhadores, imigrantes, mulheres, homossexuais), mas pelo recurso cada vez mais intenso ao estudo de caso, ao detalhe, à micro-história que se esquiva dos grandes contextos sem conseguir negá-los inteiramente. Em segundo lugar, a duração temporal dos objetos da história tornou-se cada vez mais longa: da ação individual e pontual de grandes homens às explosões coletivas, à ação impessoal, cíclica, de efeito indeterminado das estruturas econômicas, ao tempo quase eterno e imutável das indefiníveis mentalidades. São apenas tendências, é verdade, e reconhecê-las como tais não nega a coexistência de diferentes concepções e modos de fazer História hoje. De qualquer modo, essas tendências parecem desembocar, nos últimos trinta anos, numa ênfase cada vez maior nos chamados estudos de história cultural.

A CULTURA COMO CONTEÚDO DA HISTÓRIA

A História cultural não é, certamente, uma especialização recente: quer a consideremos originária do século XVIII, com as reflexões de J. G. Herder sobre a Kulturgeschichte, depois significativamente desenvolvidas no final do século XIX e inícios do século XX por autores como J. Burckhardt ou J. Huizinga; quer a consideremos como uma especialização mais recente, da segunda metade do século XX, a História cultural contemporânea parece, em todo caso, derivar, não apenas do enfraquecimento dos antigos modelos interpretativos, das grandes estruturas da história, mas de uma maior aproximação da História com a Antropologia e com a Linguística e, consequentemente, de uma maior consciência da imensa variedade e amplitude das sociedades humanas sobre a terra.
Mesmo hoje, quando parece tornar-se a tendência predominante, não é fácil definir História da Cultura como uma perspectiva única: a não ser por uma acentuada ênfase no caráter simbólico das relações humanas. A partir desse princípio, no entanto, pode estender-se da cultura popular ao mundo dos livros, do carnaval à cultura erudita, até chegar a esse universo amplo, vago, mal definido, compreendido sob o termo "mentalidades". De modo geral, a História da Cultura parece retornar aos tempos longos, quase naturais, aos tempos imóveis, nos quais a agência humana é, não apenas despersonalizada, mas quase esvaziada de eficácia transformadora. A História que narra torna-se, por sua vez, mais intimista, mais detalhada, mais atenta para o indivíduo e sua vida privada, uma história longe da história e que, por sua vez, pretende por vezes dar conta de todas as dimensões da história.


CULTURA E COTIDIANO

Dentre a grande diversidade dos estudos que podem ser classificados como de História cultural, aqueles dedicados à chamada História da Vida Privada ou História do Cotidiano apresentam uma característica particularmente relevante para avaliarmos os impasses da historiografia contemporânea. O gênero não é novo, remontando talvez à velha antiquística erudita que ainda competia com a História oficial em meados do século XIX (e reproduzia a antiga oposição entre Heródoto e Tucídides). Para além das intermináveis discussões sobre a pertinência do conceito para sociedades não européias, ou mesmo sobre a existência de "cotidiano", como instância própria e separada da vida (debates que afetam mais certos círculos sociológicos que propriamente históricos), é inegável que o crescente interesse pela História do cotidiano reflete um novo olhar sobre o indivíduo, sua ação e sua posição na história.

Curiosamente, o cotidiano aparece quase como o perfeito oposto da história, como o campo das estruturas permanentes, inconscientes, alienantes, quase naturais, sobre as quais as ações humanas são apenas banais, corriqueiras e sem efeito transformador. O cotidiano surge assim como refúgio da história, na insignificância banal do homem corriqueiro, dominado por estruturas que, ao contrário daquelas políticas, sociais, econômicas e, mesmo, culturais, de nada seriam dominantes, de nada seriam a causa eficiente. Trata-se de um limite, sem dúvida, de uma história sem história. Pela sua própria condição de limite, contudo, pode nos ajudar a pensar sobre o estatuto da história hoje. A visão que apresentamos de cotidiano é derivada do senso comum, mas reproduz, em grande medida, as reflexões a seu respeito nas ciências humanas.

Em termos bem gerais, os estudos sobre cotidiano tendem a valorizar, como foco de atenção, as ações individuais frente às circunstâncias da vida, sobretudo no plano da intersubjetividade. Para alguns, importam menos as "estruturas do cotidiano" que os tipos de ação observados em seu interior. Irving Goffmann enfatiza o cotidiano como espaço de interações humanas concretas, a partir de estratégias individuais de adoção e negociação de papéis sociais, predeterminados por uma instância estrutural que assume, na maior parte das vezes, o caráter de uma organização: os pequenos mundos do trabalho, dos hospitais, dos manicômios. Numa perspectiva fenomenológica, Alfred Schutz vê o cotidiano como "mundo de vida", essencialmente intersubjetivo, mas apenas perceptível na perspectiva de cada indivíduo, que se serve de um reservatório de 'conhecimento disponível" (de senso comum) que lhe permite agir sem duvidar, de modo espontâneo, trabalhando sobre as coisas e os demais indivíduos por atos de comunicação que podem ser automáticos ou performáticos, na medida em que visem uma situação projetada. Em ambos os casos, trata-se sempre de pequenos mundos, dominados por tipos específicos de pequenas ações rotineiras, mais que por estruturas específicas. Já H. Levebvre encara o cotidiano como um produto do capitalismo, como um espaço de alienação, de repetição, de imposição brutal das estruturas da vida sobre indivíduos inconscientes e incapazes de reagir e alterar seu mundo. Para Levebvre, como para seus seguidores, a "cotidianeidade", mais do que o cotidiano, representa a derrota da ação humana eficaz sobre a história. Para outros, como Michel de Certeau ou Michel Maffesolli (mesmo que a partir de premissas absolutamente diversas) a ação cotidiana é, pelo contrário, reação contra a unidimensionalidade do mundo, reivindicação do espaço e do valor da particularidade e da individualidade numa sociedade cada vez mais massificada.
Mais produtiva é a visão de Agnes Heller que, por sua vez, chama a atenção para as estruturas do cotidiano, o que considera "o mundo das objetivações", dentro do qual se dão as ações cotidianas: a linguagem, o sistema de hábitos e o uso dos objetos e que representam o espaço de socialização dos homens, sobre o qual se acumula a cultura humana. Se é verdade que, para ela, essas objetivações possuem um caráter conservador e que o senso comum se reproduz de modo consuetudinário, através da repetição, do economismo, do pragmatismo, da imitação e da hiper-generalização, do cotidiano também podem surgir ações não cotidianas, criativas, inovadoras, sobretudo no campo das artes e das ações que quebram a rotina da vida. Essa perspectiva aproxima-se da de Claude Javeau e de sua tentativa de incluir, num único sistema de pensamento, a macro e a micro-história, um mundo de atores nunca solitários cuja ação coletiva, consciente ou não, produz e reproduz as instâncias da vida. Nesse âmbito, o próprio sentido de cotidiano, como instância à parte da vida, como o outro da história, parece esvanecer-se.

COTIDIANO E HISTÓRIA

Os historiadores têm dedicado poucas reflexões ao tema do cotidiano e de seu lugar na História. O ponto de partida pode ser a famosa e sempre citada coleção da Editora Hachette, cuja "História antiquária" opunha-se em suas origens à grande História, àquela celebrativa, dos grandes feitos, das grandes estruturas, da guerra, da política, da luta de classes, da economia, em suma da História das causas eficientes da história. A História do cotidiano se apresentava, ali, como a História do banal, do corriqueiro, do dia-a-dia, da realidade rotineira na qual agimos de modo quase inconsciente e alienado. Um pedaço da vida em que nada aconteceria, a não ser o absolutamente previsível, no qual nada mudaria e que, no entanto, dominaria nossas vidas no que teriam de mais íntimo, individual, privado. Daí que tendia a ser uma História de viés antropológico, História dos hábitos e costumes de diferentes povos: o morar, o dormir, o trabalhar, o descansar, e assim por diante. Uma História de verbos substantivados. Sob esta visão, as esferas da vida privada eram organizadas numa espécie de tipologia da vida social que podia ser usada para qualquer sociedade, época ou lugar. Essa recompartimentação da História, quando foi empreendida, não deixou de ser interessante, a despeito de sua busca do exótico e de seu viés escapista. Representou uma reformulação radical do ângulo de visão do historiador comum (e da História comum) pela valorização da realidade "banal", da história de todos e de cada um, por oposição à grande História celebrativa dos grandes homens e dos grandes feitos. Mas, como já se notou, tinha limites evidentes: seus procedimentos típicos da velha antiquária: a busca do anedótico, de dados dispersos, de instantâneos agrupados numa tipologia da vida social que parecia como um figurino adaptável a qualquer época, sociedade ou lugar e fundada numa espécie de naturalização da sociedade e do homem, seu resíduo quase biológico: o dormir, o comer, o amar, o divertir-se. Uma História do não histórico.
Uma das raras tentativas de se abordar o cotidiano do ponto de vista da História é a de F. Braudel, seguindo um caminho sugerido por Marc Bloch. Não tanto aquele, mais conhecido, dos três tempos da história: o longo da geografia, o médio das estruturas econômicas e o curto dos acontecimentos; mas o Braudel historiador das "estruturas do cotidiano": a demografia, os alimentos essenciais, o luxo, a técnica, as unidades sociais. Tempos longos, estruturais, menos extensos que as determinações geográficas, porém mais estáveis que o universo das trocas. Tempos quase naturais dentro da economia das existências humanas. A visão de Braudel reforça a ligação entre cotidiano e tempo histórico, sem dúvida, mas talvez seja possível abordá-la de outras maneiras.
Uma releitura da visão braudeliana, riquíssima de sugestões, encontra-se no ensaio de F. Novais, que se apóia na concepção braudeliana, buscando naquelas estruturas mais gerais as condições concretas de sociabilidade, de ação social individual e coletiva. Em todo caso, por mais rica que seja de sugestões, a definição de Braudel mantém a separação clássica entre tempo do cotidiano (e da vida) e tempo do acontecimento (e da história) reproduzindo, no fundo, a tradicional distinção entre acontecimento histórico, prenhe de significado, e vida comum, repetitiva e estéril. Entre tempo das mudanças e tempo da reiteração, entre estruturas supra-dominantes e atores humanos que se dobram a injunções que não podem controlar.
Na Sociologia, na Filosofia, mesmo nas poucas incursões historiográficas, o cotidiano aparece, assim, ou como um tipo de ação, repetitivo e inconsciente, banal, ou como um espaço informe de interação, de percepção fenomenológica de si e do outro. Para o historiador, parece ser um conceito limite. Vincula-se ao tempo e parece negá-lo, como repetição, como não acontecimento, como eterna permanência do que no entanto sabemos, quase intuitivamente, que muda. Talvez seja útil pensarmos esse limite, levá-lo às suas últimas consequências, para investigarmos alguns dos impasses da historiografia contemporânea.

COTIDIANO E TEMPO HISTÓRICO

Tentemos pensar o cotidiano do ponto de vista de um historiador, ou seja, como instância temporal, mas tendo em vista que é preciso explicar duas realidades contrapostas e complementares: a permanência e a mudança ou, em outros termos, a relação entre estrutura e ação. Podemos conceber cotidiano a partir de dois ângulos. Em primeiro lugar, como uma dimensão propriamente temporal, como pura duração sem qualificações, o que é certamente arbitrário, mas servirá como exercício para, em segundo lugar, indagar o cotidiano como tempo qualitativo, investigando o que compõe esse tempo, de que é a duração. Talvez, realizado o exercício, possamos entender melhor nosso objeto, a história e as possibilidades de nossa ciência, a História.

Que é tempo cotidiano? 

Os historiadores têm, como vimos, a tendência a aproximar cotidiano e longa duração, como o tempo do não acontecimento. Talvez seja possível superar a falsa dicotomia entre cotidiano e história se pensarmos cotidiano não como tipos específicos de ação ou como uma dimensão particular, individualizada, das interações humanas, mas como tempo plenamente histórico, no sentido de ser tanto o tempo do "acontecimento" (no sentido tradicional) quanto do "não acontecimento". Que é cotidiano? Na origem latina, quot dies é, ao mesmo tempo, um dia e todos os dias. Engloba, assim, tanto o instantâneo como o duradouro, o incisivo e transformador e o repetitivo. Cotidiano tem portanto dois sentidos temporais complementares. É o que acontece em um dado dia, num tempo brevíssimo, uma efeméride, e o que acontece todos os dias, portanto num tempo potencialmente longo. Ora, será essa dicotomia insuperável? Como se manifestam os grandes eventos, as grandes causas senão no dia, a cada dia, num dado dia? Não são eles também cotidianos? Não se produz a própria mudança no dia-a-dia, por meio de ações concretas, miúdas, seguidas, que se somam até tomar a forma de "acontecimentos"? "Pequenas" e "grandes" ações, o banal e o excepcional, a repetição e o único, a inércia e a transformação não existem em planos separados da existência, mas convivem, concretizam-se, no mesmo tempo comum da existência", que é o cotidiano ou, como veremos, o presente.

O cotidiano, visto assim sem qualidades, como o tempo da vida, pode ser pensado como o espaço concreto de realização da história em todas as suas dimensões, a pública e a privada, a banal e a importante, a repetitiva e a transformadora. O cotidiano não é uma esfera particular da vida ou da história, ou uma espécie de massa inerte, que muda pouco ou não muda, pois não teria em si os agentes de sua mudança: uma massa sobre a qual os acontecimentos existiriam e atuariam de modo independente. Não há por que pensar a história como duas instâncias separadas: uma física, concreta, porém imóvel e inconsciente, em que todos vivemos, e outra metafísica, mas ativa, eficaz, de onde proviriam as ações que mudam, as forças da mudança. É verdade que acontecimentos singulares, ou antes, constelações de acontecimentos, de ações, podem alterar em maior ou menor profundidade aspectos de nossa vida, mas é no próprio tempo do cotidiano que são gerados. Eles se dão no tempo e no espaço do dia, na sequência de dias. O acontecimento não é assim o inesperado, o imprevisto, não surge do nada, mas é um produto do cotidiano. Não há por que separar os dois planos ou, dito de outro modo, talvez seja útil pensá-los conjuntamente.

Daí que proponho ver o cotidiano não como uma esfera da vida, mas como um tempo, como um momento, um presente que, visto em perspectiva, congrega uma sucessão de presentes no fluxo contínuo da vida. Associar cotidiano a presente tem conseqüências importantes para o modo como encaramos a história. O presente que não é mera repetição do passado, mas um campo de restrições e possibilidades em aberto para projetos alternativos de futuro. O presente, entendido como o dia de hoje, é como o vértice de uma tríade temporal que forma, com passado e futuro, o curso da história.

Os historiadores tendem a esquecer o dia como unidade temporal da história. Não porque o dia seja desinteressante e fugaz, isento de acontecimentos (historiadores são, aliás, zelosos em datar acontecimentos num dia!), mas porque dia é tempo presente e os historiadores não costumam pensar essa dimensão do tempo — o presente. De modo geral, os historiadores ignoram em suas reconstruções ou explicações do passado o fato de lidarem com presentes. Na verdade, interpretam o passado por meio de futuros, empregando seu conhecimento do que aconteceu para explicar o que lhe sucedeu, como se cada passado visasse a um futuro, sem que um presente fosse o ponto necessário de ligação entre ambos. E um ponto no qual o futuro aparece ainda em toda a sua indeterminação e incerteza, como sonho, como projeto ou como angústia.

Invertendo as proposições de H. Levebvre, o cotidiano, mesmo em nossos dias, é o tempo, não da alienação, mas do desejo e da angústia, da esperança e do medo. É uma perspectiva em aberto, não um destino manifesto, um resultado previsível e previsto. Ignorando essa dimensão da história vivida, a História dos historiadores é ainda marcadamente teleológica, seu método pode ser classificado como uma teleologia retrospectiva. É preciso inverter a perspectiva para pensar a eficácia das ações sociais individuais e coletivas. Não devemos considerar essa ênfase no presente apenas como um resultado negativo da recente opacidade com que o futuro se nos velou. Estudar o passado abrindo-se para as possibilidades em jogo a cada momento, avaliando os projetos alternativos e em conflito, sem privilegiar o vencedor, ou antes, sem valorizar unicamente o resultado indesejado de diferentes projetos, pode revivificar nossa visão do passado e fazer pensar sobre nossas possibilidades de projetar futuros no presente.

Visto por esse ângulo, como curtíssima e como longa duração, o cotidiano não tem duração, a não ser aquela que o historiador estabelece (voltaremos a este ponto). Mais que um fluxo contínuo de eventos, o cotidiano é uma ponte que liga passado e futuro, mas não de modo desordenado e caótico. Ao contrário, o presente só é vivenciável porque é previsível, porque é a reprodução de uma certa ordem ou, dito por outro ângulo, o próprio ato de reproduzir essa ordem (ou de não fazê-lo). No cotidiano se defrontam ordem e movimento, como uma só unidade, o que equivale a dizer, em termos sociológicos, estrutura e ação, que são as duas faces da permanência e da modificação, do passado e do futuro.


COTIDIANO E TRABALHO MORTO: AS ESTRUTURAS DA VIDA

Esses pares de termos são equivalentes, ou quase. O passado aparece no presente, na história, sempre na forma de trabalho morto, trabalho acumulado e transmitido pelo dia de ontem, que acumulou e recebeu o trabalho de dias anteriores, de anos, décadas, gerações. Na história humana, e talvez na biológica e mesmo na física, o tempo é trabalho, é acúmulo, é transmissão do acumulado. É assim que o passado parece dominar o presente. O passado se apresenta no presente concretamente, como massa potencialmente inerte e inercial, como trabalho morto com o qual cada um e todos nós precisamos nos defrontar. Algo produzido no ontem, no passado, na verdade em diferentes espessuras de passado, mas que só existe aqui e agora, no tempo presente, como uma "armação da vida". É passado, mas só existe no presente, influencia, ou mesmo, domina nossas vidas, mas só existe se for acolhido, aceito, reproduzido e transmitido para o futuro.

A semelhança com o conceito de trabalho morto, como Marx o via na composição do capital, não é simples coincidência. No processo produtivo, o trabalho morto se corporifica em máquinas, mas também em conhecimentos, técnicas, modos de fazer, circuitos de troca, que antecedem o processo de trabalho, mas que dele necessitam para ter existência concreta, para serem vivificados pelo trabalho vivo, concreto, atual, que os reproduz e transforma. O paralelismo com o trabalho morto do capital não é absurdo, é apenas a extensão de uma lógica que lhe é subjacente. Se aceitarmos a premissa de que toda ação é trabalho, é intervenção humana na sociedade e na natureza, e que o mundo social é produzido pelos homens e não imposto a eles por uma instância externa, metafísica, então a sociedade é o resultado desse trabalho, que é morto porque passado, mas é ativo, porque domina as ações atuais, direciona-as, define suas possibilidades.

O passado é, assim, a própria sociedade, o trabalho morto acumulado na história que cada um e todos precisam atualizar, reproduzir ou eventualmente modificar a cada dia segundo um determinado projeto de futuro, de amanhã. Mas o que se reproduz, para que se mantenha ou se transforme? Como dissemos, o trabalho morto que o passado transmite não é uma massa caótica, mas uma ordem, que simultaneamente permanece e muda. Que tipo de ordem? O que dá ordem à vida e à história. Não temos pretensão a responder. Há várias respostas possíveis, ou talvez não haja respostas. Aqui, propomos apenas alguns modos de ver, como meios para organizar o pensamento e pensar eventuais respostas. Optamos, conscientemente, por nos afastar de alguns pressupostos muito arraigados e arriscar um novo ângulo de visão. Pensar ordem sem separar corpo e alma, ou matéria e pensamento, nem classificar a existência social em dimensões estanques e quase autônomas: o econômico, o político, o social e o ideal, por exemplo. São vícios de pensamento, alguns dos quais remontam aos gregos, e é difícil libertarmo-nos deles.

A idéia de que o cotidiano é estruturado se impõe pela própria previsibilidade do presente. Entenda-se que o termo estrutura é empregado aqui em sentido propositalmente fraco e vago. Significa apenas que o trabalho morto que corporifica e atualiza o passado apresenta-se organizado, como totalidade sobre a qual se pode agir com previsibilidade. Estrutura e cognoscibilidade estão intimamente ligadas. As ações sociais que incidem sobre o trabalho morto têm resultados previsíveis porque o presente é cognoscível, mas este só é conhecido porque se atua nele. Não há por que separar estrutura e ação. Se o fazemos, aqui, é com fins analíticos.

A melhor tentativa de pensar essas estruturas é, a meu ver, a de Agnes Heller, que citamos anteriormente. Mas Heller pensa, sobretudo, no cotidiano como espaço de ações específicas, não como tempo que unifica estrutura e ação. Proponho vê-las de modo diverso, a partir de quatro ângulos incomuns, que não são complementares, nem dão conta da totalidade do objeto, nem se apresentam separadamente, nem estão no mesmo plano ontológico, mas que pretendem abarcar, à sua maneira, a totalidade da vida social. São aproximações ao trabalho morto, ao passado realizado, concretizado e reproduzido ou alterado a cada dia segundo projetos mais ou menos incisivos de futuro. São, no meu modo de entender, os fundamentos da ação social sobre o capital acumulado apresentado a cada dia pelo passado. Tendo consciência de que representam um recorte insólito da realidade social, proponho-as como peças para debate. São elas, em ordem decrescente de abstração: a memória; os juízos compartilhados, as inter-relações sociais e o mundo material. Não vou aqui descrevê-las ou discuti-las em detalhe, mas apresentá-las como peças de um debate. São circunscrições arbitrárias que procuram englobar o conjunto da vida social independentemente das teorias que procuram explicar o que seja sociedade. Forneço apenas traços essenciais, que permitam entender de que se trata em cada caso.

Memória é a estrutura mais ampla e abrangente. É o próprio cimento da vida cotidiana. É, ao mesmo tempo, uma habilidade natural e uma construção social, uma atividade, um trabalho que dá sentido ao trabalho morto que compõe o palco da vida. A memória, individual ou coletiva, não é um repositório passivo, mas ativo, atuante, um imenso produto cultural. Memória é o vínculo, material ou ideal, entre passado e presente que permite manter as identidades a despeito do fluxo do tempo, que permite somar os dias de modo significativo. É ela que dá sentido ao presente. É essencial tanto para indivíduos como para a sociedade ou para grupos dentro dela. Seu contrário, a amnésia, tanto individual como social, corresponde à inação quase absoluta. Não existe ação que não seja calcada na memória. Mas memória não é apenas um recurso que possibilita a ação. É uma poderosa estrutura, um instrumento para o agir social e, portanto, uma fonte de poder.

São várias as formas da memória social, em diferentes sociedades. A escrita e o processo educacional são formas de memória, assim como a tradição erudita, livresca, a ciência, ou os relatos orais e as estórias que circulam entre grupos, os mitos, os heróis comuns e assim por diante. Memórias são produto de trabalho, são fabricadas. Mas são também acúmulos de trabalho morto que condicionam o presente ou permitem agir sobre este de modo decisivo, conferindo sentido à ação e identidade aos agentes. A memória, sendo fonte de poder, é também, inevitavelmente, um campo de batalha onde se defrontam interpretações do passado e do presente pelo passado, onde se criam e destroem identidades, tradições, símbolos, crenças, sentidos da vida que podem inibir ou estimular ações, individuais ou coletivas.

Juízos compartilhados designam as convenções sociais que tornam a vida pensável para determinados grupos, independentemente de suas dimensões: grandes, médios, mínimos. São espaços de comunicação e de negociação de sentidos. Compõem um conjunto complexo, não necessariamente coerente. Podem ser formalizados, como as leis, ou informais, como os costumes, podem ser consensuais, negociáveis ou pólos de tensão e conflito. O exemplo mais geral de um juízo compartilhado talvez sejam as línguas naturais, que podemos considerar uma convenção coletiva que permite a comunicação entre as pessoas, com todas as suas circunscrições e imposições. Outros exemplos abrangentes são as religiões, ou ainda os valores incutidos pelo processo educacional. O campo é muito vasto para o explorarmos em detalhe.

De qualquer modo, com toda sua complexidade, são eles que dão sentido às ações recíprocas, que estabelecem o espaço da normalidade, do esperável, do aceitável nas interações sociais. São mais do que regras impostas ou normas internalizadas. Formam um quadro comum para se interpretar e agir no mundo, definindo o que é normal e correto, o desejável e o possível (e seus opostos), seja para todos, seja para segmentos da sociedade. São sistemas de crenças e costumes mais ou menos arraigados, mais ou menos difundidos que permitem proferir juízos e julgar, aprovar ou condenar ações, prevê-las ou evitá-las. Invadem nossas vidas em todas as suas dimensões. Definem, para cada sociedade, e para cada grupo dentro dela, o que é, por exemplo, uma família apropriada: envolve casais de sexos distintos ou independe do sexo? Envolve filhos? Envolve mesmo casais? O que é sexo permitido e permissível? O que é amizade? O que é poder legítimo? Propriedade legítima? Ação legítima? Deus? Liberdade? Amor? O rol é infinito e multifacetado. O importante é ter em mente que não são definições naturais, mas culturais e que, portanto, não são eternas, nem consensuais. Mudam de sociedade para sociedade, época para época e grupo para grupo. Também são campo de negociação e conflito, de exercício do poder e mesmo de repressão violenta.

As interações sociais compõem uma dimensão extremamente complexa e estratificada que engloba a maior parte daquilo que os sociólogos costumam denominar de organização social, ou seja, das obrigações que vinculam indivíduos ou grupos específicos uns aos outros, dentro de uma determinada totalidade social. Talvez se possa pensá-las conjuntamente como relações de troca, em termos grosseiramente genéricos, na medida em que toda relação pode ser concebida como troca entre indivíduos ou grupos, na produção, no círculo profissional ou de amigos, na família, na rede de vizinhança, relações que se interpenetram de maneiras diferentes em sociedades diferentes. É a dimensão na qual as pessoas se organizam para e por entrarem em contato, na qual trocam bens, idéias, serviços, se auxiliam, exercem poder ou obedecem, se exploram, produzem, se unem e diferenciam, são indivíduos sedes de redes, são grupos dentro de uma sociedade, são coletividades num mundo de sociedades contrastantes. As redes de relações programam e definem as ações cotidianas de indivíduos e grupos. São ações cristalizadas em expectativas de reprodução, são trabalho morto cuja reprodução e/ou transformação corresponde à da própria organização social.

Já o mundo material engloba tanto a natureza como meio, quanto a parcela da natureza apropriada e transformada pelo homem, que dá forma ao mundo, conforma o palco da vida, representando trabalho humano concretizado, materializado como trabalho morto. Não é um meio simplesmente passivo, mas uma realidade instituída e construída, que conforma nossa vida, define nossa percepção do entorno e fornece a estrutura física da vida cotidiana (propicia atividades sociais, os espaços e meios delas) dando-lhe estabilidade, identidade e previsibilidade. Como mundo transformado, na forma de estruturas e objetos, que devem ser produzidos e podem ser trocados, acumulados, usados, representa um capital acumulado que dá forma ao mundo e espacializa, concretizando, as demais estruturas cotidianas. Nesse sentido, também é um instrumento de poder, tanto sobre a natureza quanto sobre homens, meio de luta e de dominação. Os objetos, o mundo material, são instrumentos significativos e simbólicos, que unem e diferenciam: sexo, idade, grupo ou classe, prestígio social, poder, honra, dignidade e preferências como consumidor, por exemplo. Como as demais estruturas, o mundo material é trabalho acumulado, passado, morto, que se apresenta a cada dia como limitante à ação, mas também como campo de possibilidades, como espaço de negociação.



TRABALHO MORTO E AÇÃO: PERMANÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO

As estruturas do cotidiano, tal como já as definimos brevemente, são uma abstração, um produto do pensamento. Não existem separadamente na vida real, que é una. São antes modos de ver, de analisar essa realidade cuja estrutura é unitária. Mais que isso, são divisões arbitrárias de um todo que engloba estrutura e ação. São, como dissemos, ações condensadas, ações passadas, sobre as quais se exerce a ação presente. Além disso, tal como apresentadas, são unidades pretensamente homogêneas e extensivas, encobrindo uma imensa gama de subdivisões: de memórias distintas, estanques ou conflitantes; de juízos grupais, setoriais ou mesmo excêntricos; da tensão graduada entre coletivo(s) e indivíduo(s), que beira o paradoxo (a ação coletiva passada, o trabalho morto, domina a ação individual, mas não é senão soma de ações individuais); das múltiplas leituras possíveis do mundo material. São, assim, um recorte da realidade propositalmente mediano para dar conta tanto das totalidades sociais quanto do mundo miúdo das vivências particulares.

Essas estruturas do cotidiano são produtos coletivos, soma de inumeráveis atos individuais, que condensam o trabalho passado realizando-o a cada instante, a cada dia, a cada ciclo. São o produto, talvez aleatório, de ações particulares, mas não são caóticos. Indeterminação do futuro não equivale à desorganização do presente que se torna passado. O passado, sobretudo, é organizado. É a ele, ao passado, que denominamos "organização social", "realidade social", "fato social". O passado é não apenas organizado, mas previsível, e as estruturas propostas visam precisamente pensar essa organização e previsibilidade.

Essas estruturas não existem em si, mas apenas na medida em que são reiteradas, negociadas, pressionadas, alteradas no espaço de cada dia, a cada dia. São, ao mesmo tempo, indutores e inibidores da ação social, campo do necessário, mas também do possível, passado a se tornar futuro pela ação presente. Vista desse modo, a realidade social aparece sob nova luz. Nem a ação individual de grandes homens, nem a força de acontecimentos únicos que irrompem inesperados na história, nem o movimento lento, cego e inexorável de estruturas anônimas e impessoais. A história e a vida voltam a ser ação humana sobre a realidade e ressurge a possibilidade de "mudar o rumo" da vida, de "fazer história", ainda que inconscientemente, ou que, apenas, pela soma mais ou menos aleatória de atos e vontades individuais.

Pensemos mais detidamente sobre a relação entre estrutura e ação no tempo da história. O que denominamos passado no presente, trabalho morto, parece dominar a vida, determiná-la. O passado existe apenas como trabalho morto que precisa ser reproduzido a cada dia, e o futuro como projeto de reprodução e/ou transformação. O passado aparece como dado, como realidade preexistente com a qual temos que lidar. Por um lado, esse trabalho morto, acumulado, com o qual nos defrontamos a cada dia, é positivo: representa um capital acumulado por gerações (conhecimento, domínio da natureza, capacidade produtiva e intelectual, círculo de relações que animam nossa vida, por exemplo), representa um universo de previsibilidade que torna a vida possível de ser vivida. É necessário que o aceitemos para podermos continuar a viver. Desta forma, ele precisa ser reproduzido, a cada dia, ou ciclo de dias, para que a vida continue a fazer sentido e seja "vivível". A tendência, que vimos ser generalizada, de associar cotidiano a um tipo de ação repetitiva e banal reflete, precisamente, embora de forma unilateral, a necessidade de reproduzir o passado para viver o presente: seja a reprodução imediata, seja a cíclica. O ato de reproduzir o trabalho acumulado, que é precisamente o que denominamos cotidiano, é comumente cadenciado por ciclos, que não são a "duração" do cotidiano, mas seus ritmos, tanto naturais como humanos. O ciclo básico e mínimo talvez seja, como sugere a palavra, o espaço de um dia: o dia solar. Não é um espaço fixo, como sabemos, mas variável no tempo e no espaço. Um dia podem ser seis meses, isto é, 180 outros dias. Se a reprodução sempre se concretiza no dia-a-dia, a cada dia, pode ter momentos, ou ciclos, diferenciados: pode ser semanal, semestral, anual, sazonal, natural, cultural, social ou econômica, por exemplo. Há, assim, vários ciclos de reprodução e reiteração da vida social, eles fazem parte do cotidiano e de seu universo de expectativas.

Mas a ação cotidiana, a ação que se exerce sobre a massa inerte do passado, sobre o trabalho morto, não é apenas ação reiterativa, reprodutiva. O passado não determina o presente de modo absoluto. Em primeiro lugar porque toda reprodução é, também, transformação. O ato reiterativo é antes um desejo ou uma necessidade de manutenção da ordem que a cristalização eficaz do presente num eterno passado sem futuro. O trabalho se acumula, o trabalho acumulado muda de forma, as relações se alteram, em suma, nenhuma ação reprodutiva é plenamente eficaz.

Porém, o passado não é só limitação, é campo de possibilidades, cada vez mais amplo, mais rico. E sua ordem, se é condição de existência, não representa necessariamente (muito pelo contrário) aceitação da herança como fardo e como destino. O passado/trabalho morto é também fonte de insatisfações, de imperfeições, de crises, de desarranjos. É possibilidade de vida social, mas também dos conflitos internos a essa vida. Tem seu lado claro, luminoso, de realização, mas não esconde sua face mais escura, de miséria, exploração, violência, dor. Isso é verdade em termos individuais (em casa, no trabalho, na rotina massacrante, na humilhação e na miséria, por exemplo) e coletivos (na exploração, no racismo, na dominação de classes e na violência). Sobre a massa do trabalho morto que o passado apresenta, as ações humanas como que flutuam, com uma liberdade contida. Nem tudo pode ser mudado, sem que a possibilidade da vida social desapareça, mas nem tudo precisa ou deve permanecer como está. Os homens reproduzem suas vidas no dia-a-dia, mas nunca da mesma maneira, e projetam mudanças no cotidiano e para o cotidiano, para que este se altere.

A vida é uma soma de atos reprodutivos do passado e de atos transformadores, automáticos ou involuntários ou mesmo organizados e associados a projetos de futuro. Reproduzimos o que queremos ou o que somos obrigados a reproduzir e transformamos o que queremos ou o que temos forças para transformar, individualmente ou em conjunto. Nossa capacidade de mudar a realidade é variável. Pequenas decisões podem mudar o curso de vidas individuais. Grandes transformações dependem de ações públicas, coletivas, que são o somatório de ações individuais, coordenadas ou não. O cotidiano é um bom ângulo para pensarmos a eficácia da ação humana e suas modalidades, da individual à coletiva, da organizada à aleatória, da desejada à involuntária, da consciente à intuitiva.

O presente, em suma, aparece-nos como dado, como estruturado independentemente de nossa vontade, como trabalho morto, que devemos aceitar ou não, reproduzir ou não, a cada dia, ou a cada ciclo de dias. Essa estrutura, esse trabalho morto que é prévio a toda ação, determina todas as ações. É, ao mesmo tempo, uma possibilidade, a base de qualquer ação, os meios materiais e mentais concretos para realizá-la e uma constrição, na medida em que condiciona a ação, limita-a, tende a reproduzir-se e a impedir a mudança. Mas não é uma camisa de força, porque os indivíduos e/ou grupos permanentemente confrontam-se com ela, negociam-na, alteram-na. As estruturas do cotidiano são também espaços/palcos de conflitos, podendo ser consensuais ou apenas hegemônicos, ou mesmo claramente conflituosos.

Parece-nos, portanto, possível e necessário redefinir o modo como a historiografia contemporânea encara três elementos centrais em suas narrativas: sua perspectiva temporal e a relação entre estrutura e ação. Apenas do ponto de vista da história, com efeito, estrutura e ação aparecem, não como dois termos distintos e contrapostos, mas como um processo, que só se dá no tempo e pelo tempo, de reiteração ou transformação de ações humanas num fluxo que parece contínuo.

A continuidade desse fluxo será nosso último problema e, talvez, o mais crucial de todos. A grande virtude da História, no âmbito das Ciências Humanas, é sua relação particular com o tempo. Não apenas no sentido mais óbvio, de poder aplicar, ou testar ideias, teorias, modos de ver produzidos pelas outras Ciências Humanas, nem por aquele, talvez mais importante, de revelar realidades empíricas já desaparecidas, para pô-las em confronto e relacioná-las com o presente, mas também aquela, toda particular, que é a de trabalhar sobre um objeto em movimento. Um objeto que a História precisa, ao mesmo tempo, artificialmente congelar, como ALGO passível de estudo, mas de cuja dinâmica, de cujas transformações não pode fugir: ao contrário, deve considerá-las o foco de sua atenção. Para a História, mais que para outras disciplinas, estrutura e ação aparecem como uma unidade, como duas maneiras de se descrever o que, na verdade, é um processo. Um processo que só se estuda como um ALGO, através de recortes, seja determinando períodos, nos quais o ALGO quase se congela como objeto, seja recortando espaços dentro desse ALGO: grupos de bairro ou conjuntos de crentes, sociedades pequenas e grandes, unidades políticas, economias nacionais e assim por diante. Recortes são arbitrários, mas necessários. E esse é talvez o maior dos desafios da História contemporânea: refazer seus recortes tradicionais, pois eles não mais dão conta da realidade. Porque podemos ver, hoje, como sua pretensa "naturalidade" era artificial.

Começamos este artigo, com efeito, criticando as velhas subdivisões da história e alertando para seu caráter eurocêntrico e anacrônico. De que modo uma História, vista pelo ângulo do cotidiano, pode contribuir para renovar aquelas velhas formas? A resposta não é simples. Como vimos, as "estruturas" que, tentativamente, impusemos à história para explicar sua ordem e suas mudanças não correspondem aos recortes tradicionais com os quais trabalha o historiador, nem em termos das unidades de estudo, nem em termos das "forças" que estruturam ou põem em movimento as mesmas unidades. Por sua vez, as estruturas que propusemos, de modo indicativo, tampouco são complementares ou hierarquizadas. Não formam, em suma, unidades em si, que pudessem ser assumidas como tais pela História. Apenas à guisa de exemplo: um mesmo espaço linguístico não precisa coincidir com um conjunto de tradições literárias ou artísticas; uma memória grupal, ou nacional, não corresponde necessariamente a uma dada rede de interações sociais, uma estrutura de poder não equivale a um circuito de produção, troca e acumulação de bens. Não há um único cotidiano definido pelas quatro estruturas, nem mesmo no mundo cada vez mais unificado em que vivemos. Não existe uma sociedade capitalista, um mundo industrial, uma sociedade civil, nem mesmo a sociedade de um país. Mas é verdade que para pensar o mundo precisamos ainda de recortes, necessitamos identificar ou propor diferentes cotidianos, que façam sentido em diferentes círculos de reprodução e transformação da vida. A historiografia contemporânea vem, pouco a pouco, atentando para a possibilidade de trabalhar com novos recortes, recusando-se a aceitar as unidades "naturais" transmitidas pela tradição da disciplina e procurando ver como, na vida concreta das sociedades, tais recortes são construídos, como identidades são fabricadas ou desfeitas, como grupos humanos se aproximam ou se afastam construindo memórias comuns ou distintas, organizando-se e dispersando-se, compartilhando ou contestando valores cruciais, agrupando-se para agir, ou conformando-se com a inação, estabelecendo ou contestando relações de produção e de propriedade. De qualquer modo, o historiador não escapará jamais da necessidade de impor seus próprios recortes ao passado. O que não pode mais fazer é tratá-los como objetos naturais.

Num certo sentido, assistimos, nas últimas décadas, ao fim da História. Não, obviamente, ao término da história das sociedades humanas, mas ao fim da possibilidade de se escrever História como se fazia até então, uma História europeia, delineada por interesses localizados, mesmo quando se pretendia universal. Os objetos "naturais" que produziu e estudou estão se esvaindo com o tempo, pelo próprio processo de sua reprodução e transformação. O que se denominava, há algumas décadas, como a fragmentação da História, era uma falsa crise, era sim uma mudança interna e salutar. Representava a multiplicação dos centros de estudos pelo globo, a identificação de novos estoques documentais, de novos problemas, de novos recortes possíveis. Mas ainda era uma fragmentação europeia e, por isso, insuficiente. É preciso recortar novos objetos, em novas escalas, e isso só uma História mundializada pode fazer. Só uma História mundial, ciente da unidade da história, pode dar conta da imensa variedade e diversidade das histórias da história humana.

GUARINELLO, Norberto Luiz. História científica, história contemporânea e história cotidiana. Rev. Bras. Hist., 2004, vol.24, no.48, p.13-38. ISSN 0102-0188.

O CAPITAL de Marx

Friedrich Engels Desde que no mundo há capitalistas e operários que não tinha aparecido um livro de tão grande importância para os operário...