Entre as principais características do espaço agrário da América Latina está a alta concentração fundiária. Em grande parte da América Latina, há grande desigualdade na distribuição das terras. Isso quer dizer que um pequeno número de proprietários rurais concentra a maior parte das terras rurais cultiváveis, constituindo os chamados latifúndios. Por outro lado, a maioria dos proprietários camponeses divide o restante das terras, constituindo as pequenas e médias propriedades.
No Período Colonial, a ocupação do território latino-americano ocorreu, basicamente, mediante a formação de imensas propriedades rurais, tanto para a criação de gado quanto para o cultivo de lavouras monocultoras de exportação. Portanto, a atual estrutura fundiária concentrada na América Latina teve ori gem no sistema de produção colonial. Observe a situação da estrutura fundiária no Brasil e na Bolívia, como exemplos da realidade latino-americana.
De acordo com órgãos e instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Banco Mundial, uma das possíveis soluções para esse problema é a reforma agrária. A refor ma seria a reorganização do espaço rural com o objetivo de distribuir terras aos trabalhadores do campo e, ao mesmo tempo, promover a modernização das pequenas e médias propriedades, tornando-as mais lucrativas e competi tivas. Além disso, é necessária uma política agrícola de incentivo aos pequenos proprietários, que produzem para o mercado interno de cada país, assim como ocorre com os grandes proprietários, que produzem para o mercado externo.
Questão da terra e reforma agrária
Segundo estudos, a realização de uma reforma agrária nos moldes mencio nados anteriormente pode contribuir para a estabilidade social e política de um país na medida em que possibilita melhores condições de vida, sobretudo para os camponeses e os trabalhadores rurais sem terra, diminuindo a pobreza, a marginalidade e a exclusão social. Do mesmo modo, ela também reduz as tensões sociais no campo ao eliminar a disputa pela terra.
Os programas de reforma agrária não se desenvolvem na América Latina porque na maioria desses países os latifundiários (donos de grandes extensões de terras rurais) exercem forte influência no cenário político interno. Em defesa de interesses dessa classe social, muitas vezes impedem a realização, pelo Estado, de projetos voltados à implantação dessa reforma. Por isso, acabam surgindo grupos e movimentos populares que reivindicam a distribuição mais igualitária das terras, entre outras medidas de interesse social.
Em alguns casos, a luta desses grupos envolve ações armadas que enfrentam as forças do governo. Podemos citar como exemplos de milícias armadas o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), no México, e o Exército de Libertação Nacional (ELN), na Colômbia. Em outros casos, a luta ocorre de maneira mais pa cífica, por meio de protestos que pressionam o governo a promover a reforma agrária. É o caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Brasil, que prega a ocupação de terras improdutivas como forma de pressão.
Produção agrícola da América Latina
Os contrastes do espaço agrário da América Latina se refletem em sua produção agropecuária. Essa situa ção constitui um dos principais entraves ao desenvolvi mento do setor agrícola da região.
As pequenas e médias propriedades respondem por uma parcela significativa dos produtos destinados à alimentação básica da população, como milho, feijão, batata, inhame e mandioca, e por uma pequena parcela da produção pecuária.
Entretanto, a produtividade dessas proprieda des é baixa, pois, em geral, recebem escassos apoio financeiro e assistência técnica dos governos, o que dificulta sua modernização.
Os latifúndios monocultores, por sua vez, apre sentam produtividade rela tivamente maior que a das pequenas e médias propriedades. Nessas grandes áre as são plantadas as monoculturas de commodities, ou seja, gêneros agrícolas que têm alto valor para comercialização no mercado mundial.
São exemplos desses gêneros na América Latina a cana-de-açúcar, o café, a soja, o trigo, o cacau e as frutas tropicais, cujas produções são quase total mente destinadas ao mer cado externo. Em alguns países da América Latina, a criação de gado de corte, sobretudo bovino, também é destinada à exportação.
Muitos países latino-americanos, como Paraguai, Equador, Nicarágua e outros da América Central, ainda se apoiam amplamente no sistema agrário-exportador, pois sua economia depende basicamente da exportação de gêneros agrícolas.
Êxodo rural e urbanização
O aumento da concentração fundiária no espaço agrário latino-americano, principalmente a partir de meados do século XX, associado às difíceis condições de vida no campo, levou uma imensa parcela de camponeses a abandonar suas terras e migrar para as cidades. Esse movimento migratório de êxodo rural, que intensificou o processo de urbanização em vários países da América Latina, deveu-se ainda a outros fatores, como:
- o desenvolvimento da atividade industrial, a exemplo do que ocorreu no Brasil, no México e na Argentina, que gerou muitos postos de trabalho nas fábricas, no comércio e no setor de serviços, atraindo numerosa mão de obra para as cidades;
- a modernização das atividades agrícolas, sobretudo com a introdução de máquinas e equipamentos que substituíram a mão de obra camponesa, eliminando milhares de postos de trabalho na área rural;
- a violência sofrida pelos camponeses por parte de milícias e terroristas sedia dos no interior de pa íses como Colômbia, México e Peru. A perseguição levou cerca de 10 milhões de pes soas, nas últimas dé cadas, a se deslocar internamente nesses três países, buscando refúgio nas cidades.
Além desses fatores, a urbanização dos países latino-americanos deve-se ao crescimento natural da população urbana. Segundo informações de 2018 da Organização das Nações Unidas (ONU), a América Latina é a mais urbanizada das regiões subdesenvolvidas, pois sua taxa média de urbanização encontra-se em torno de 80%, bem maior que a da Ásia (50%) e a da África (42%).
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