domingo, 25 de outubro de 2026

SOCIOCONSTRUTIVISMO

O bielo-russo Lev Semenovich Vygotsky (1896-1934) é chamado por muitos de "o Mozart da psicologia". Vygotsky (pode-se escrever também "Vigotski", pois originalmente seu nome é grafado em outro sistema alfabético) é o grande fundador da escola soviética de psicologia, principal corrente que, hoje, dá origem ao socioconstrutivismo.
Assim como o grande nome do construtivismo é Piaget, a grande referência do socioconstrutivismo é o bielo-russo Lev S. Vygotsky.
Em sua curta vida Vygotsky foi autor de uma obra muito importante. Seus primeiros estudos foram voltados para a psicologia da arte. Extremamente culto, tinha entre seus amigos o grande cineasta Serghei Eisenstein, admirador de seu trabalho.
O contexto em que viveu Vygotsky ajuda a explicar o rumo que seu trabalho iria tomar. Suas ideias foram desenvolvidas na União Soviética saída da Revolução Comunista de 1917 e refletem o desejo de reescrever a psicologia, com base no materialismo marxista, e construir uma teoria da educação adequada ao mundo novo que emergia dos escombros da revolução. O projeto ambicioso e a constante ameaça da morte (a tuberculose se manifestou desde os 19 anos de idade e foi responsável por seu fim prematuro) deram ao seu trabalho, abrangente e profundo, um caráter de urgência.
Grande parte de sua obra está sendo divulgada somente agora, até mesmo na União Soviética (suas ideias entraram no grande expurgo promovido por Stalin e sobreviveram somente graças à devoção de um grupo de discípulos), e sua teoria sociocultural do desenvolvimento deve ser cada vez mais pesquisada ao entrarmos no século XXI.
Na área educacional, a influência de Vygotsky também vem crescendo cada vez mais e dando origem a experiências das mais diversas. Não existe um método Vygotsky. Como Piaget, o psicólogo bielo-russo é mais uma fonte de inspiração do que um guia para os pedagogos.
Um conceito que tem sido especialmente usado nas experiências educacionais inspiradas em Vygotsky é o da Zona Proximal de Desenvolvimento.
Para Vygotsky, o que nos torna humanos é a capacidade de utilizar instrumentos simbólicos para complementar nossa atividade, que tem bases biológicas. Em um pequeno artigo sobre o jogo infantil, diz que as formas tipicamente humanas de pensar surgem, por exemplo, quando uma criança pega um cabo de vassoura e o transforma em um cavalo, ou em um fuzil, ou em uma árvore... 
Os chimpanzés, por mais inteligentes que sejam, podem no máximo utilizar o cabo de vassoura para derrubar bananas, por exemplo, e jamais para criar uma situação imaginária. O que nos torna humanos, segundo Vygotsky, é nossa capacidade de imaginar...
A linguagem é uma espécie de "cabo de vassoura" muito especial, capaz de transformar decisivamente os rumos de nossa atividade. Quando aprendemos a linguagem específica de nosso meio sociocultural, transformamos radicalmente os rumos de nosso próprio desenvolvimento. Assim, podemos ver como a visão de Vygotsky dá importância à dimensão social, interpessoal, na construção do sujeito psicológico.
Para Vygotsky, a natureza humana só pode ser entendida quando se leva em conta o desenvolvimento sociocultural dos indivíduos. Não existe um indivíduo crescendo fora de um ambiente cultural. Desde o nascimento, o bebê passa a integrar uma comunidade marcada por hábitos, gestos, linguagens e tradições específicas, que orientam os rumos do desenvolvimento infantil.
Para os socioconstrutivistas o papel da linguagem é fundamental. Mais do que uma simples auxiliar do pensamento, ela é uma poderosa "ferramenta cultural", capaz de modificar os rumos do desenvolvimento. Outros sistemas simbólicos, como a linguagem matemática, também são vistos como poderosos instrumentos para o pensar. O processo de aquisição de todos esses instrumentos é essencialmente dependente das interações das crianças com os outros, especialmente com adultos que utilizam e dominam as diferentes linguagens simbólicas.
Isso acontece, por exemplo, no aprendizado da matemática. Inicialmente incapazes de entender os números e as operações, as crianças vão vivenciar inúmeras situações - dentro e fora das escolas - em que estes aparecem. Combinando as experiências, começarão a empregar, inicialmente de forma não convencional, esses símbolos em suas atividades, até adquirirem o domínio de seu uso. A partir daí, sua atividade "espontânea" de resolução de problemas vai incorporar a linguagem matemática específica de nossa cultura. Como se vê, um processo social foi internalizado e passou a fazer parte da atividade psicológica da criança. O mesmo acontece com a aquisição da linguagem.
As consequências pedagógicas do socioconstrutivismo ainda não são claras, ainda que a influência desse movimento seja cada vez maior na área educacional. De qualquer forma a teoria sugere que é possível explorar mais profundamente o papel das interações com os outros, parceiros e tutores, na construção de ambientes de aprendizagem ricos. Indivíduos não aprendem apenas explorando o ambiente, mas também dialogando, recebendo instruções, vendo o que os outros fazem e ouvindo o que dizem.
Nesse ponto, aliás, os socioconstrutivistas também buscam sua inspiração em Piaget, que falava, principalmente em seus primeiros livros, sobre a importância de os alunos trabalharem e discutirem juntos, obrigando cada participante a explicitar suas ideias e opções e, dessa forma, ajudando cada um a entender outros pontos de vista e a refletir mais conscientemente sobre as atividades.
O socioconstrutivismo pode também ser usado em defesa de alguns modos mais tradicionais de ensinar, como quando o professor traz elementos que os alunos desconhecem na tentativa de despertar seu interesse por eles. Isso é bom observar, ainda mais porque, em algumas versões exageradas do construtivismo, mostrar qualquer coisa que as crianças desconhecem é quase um crime. O importante é observar que, independentemente de a teoria ser construtivista ou socioconstrutivista, as aprendizagens só vão ocorrer se houver o engajamento ativo dos alunos.
Podem existir grandes diferenças entre escolas que dizem inspirar-se no socioconstrutivismo. Em algumas, ele pode servir simplesmente como aval para um modo totalmente tradicional de ensinar. Nas que é levado a sério, há um grande incentivo às interações entre os alunos e a tipos especiais de interação entre adultos e crianças.

Teoria sócio-histórica (histórico-cultural) do psiquismo

Conhecida também como abordagem sócio-interacionista de Vygotsky, tem como objetivo central caracterizar os aspectos tipicamente humanos do comportamento e elaborar hipóteses de como essas características se formaram ao longo da história humana e de como se desenvolvem ao longo da vida.

Procurava responder a três questões fundamentais:

- Compreender a relação entre os seres humanos e o seu ambiente físico e social.
- Identificar as formas novas de atividade que fizeram com que o trabalho fosse o meio fundamental de relacionamento entre homem e natureza e examinar as consquencias psicológicas dessas formas de atividade.
- Análise da natureza das relações entre o uso de instrumentos e o desenvolvimento da linguagem.

Vygotsky dedicou-se ao estudo das funções psicológicas superiores. Assim chamadas porque referem-se a mecanismos intencionais, ações conscientemente controladas, processos voluntários que dão ao sujeito a possibilidade de independência em relação às características do momento e espaço presente.
Esses processos, segundo ele, não são inatos, mas se originam nas relações entre as pessoas e se desenvolvem ao longo do processo de internalização de formas culturais de comportamento. Desta forma são distintos dos processos elementares (reações automáticas, ações reflexas e associações simples) que são de origem biológica.
Os seguintes postulados foram a base para toda a sua obra:
Relação indivíduo/sociedade: As características tipicamente humanas não são inatas e nem são o resultado das pressões do meio externo, mas resultam da interação dialética do homem e seu meio sociocultural. A medida que o sujeito transforma o seu meio para atender suas necessidades é transformado por ele.

Origem cultural das funções psíquicas: As funções psicológicas tem sua origem nas relações do sujeito e seu contexto cultural e social. A cultura é parte constitutiva da natureza humana.
Base biológica do funcionamento psicológico: Cérebro visto como órgão principal da atividade mental. É entendido como um sistema aberto, com grande plasticidade, cuja estrutura e modos de funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do desenvolvimento individual.

Mediação: São os instrumentos técnicos e os sistemas de signos (ferramentas auxiliares), construídos historicamente, que fazem a mediação dos seres humanos entre si e deles com o mundo. A linguagem é um signo mediador, pois carrega em si os conceitos generalizados e elaborados pela cultura humana. A criação e uso dessas “ferramentas”(instrumentos e signos) é exclusiva da espécie humana e fundamentais para que haja interação com cultural e social.

Características básicas dos processos psicológicos: A análise psicológica deve conservar as características dos processos psicológicos exclusivamente humanos. Esses modos de funcionamento psicológicos mais complexos se desenvolvem num processo histórico, podendo ser explicados e descritos. Seu ponto de vista defende a ideia de que o desenvolvimento mental ocorre a partir do contexto social.

Mediação Simbólica


É através da mediação simbólica que se desenvolvem o processo das funções psicológicas superiores. Vygotsky distingue dois elementos básicos na mediação: o instrumento e o signo. O instrumento tem a função de regular as ações sobre os objetos e o signo regular as ações sobre o psiquismo das pessoas.
Partindo dos princípios do marxismo sobre as relações dos homens entre si e com a natureza mediadas através do trabalho, Vygotsky procura analisar a função mediadora presente nos instrumentos elaborados para a realização da atividade humana. O instrumento é provocador de mudanças externas, pois amplia a possibilidade de intervenções na natureza. 
O signo é chamado por Vygotsky como “instrumento psicológico”, tendo como função auxiliar o homem nas suas atividades psíquicas. “A invenção e o uso de signos auxiliares para solucionar um dado problema psicológico (lembrar, comparar, escolher, etc.) é análoga a invenção e uso de instrumentos ”. 
Os signos podem ajudar o homem a controlar sua atividade psicológica e ampliar sua capacidade de atenção, memorização, etc. (tomar notas de uma palestra, anotar um compromisso numa agenda, procurar informações num atlas ou revista).
A linguagem para Vygotsky é tida como um sistema simbólico fundamental. Ela organiza os signos em estruturas complexas e desempenha um papel determinante na formação das características psicológicas humanas. 
A linguagem possibilita três fatores nos processos psicológicos humanos: 
a) transmitir uma ideia independente do tempo e espaço; 
b) abstração e generalização (analisar, abstrair, generalizar, categorizar, conceituar); 
c) comunicação entre os homens, que garante a transmissão e preservação de informações e experiências adquiridas pela humanidade ao longo de sua história.

Desenvolvimento Infantil


O desenvolvimento é entendido como um processo socialmente construído, sendo assim, a interação social tem papel fundamental. 
Vygotksy contesta os paradigmas ‘botânicos’ e ‘zoológicos’ adotados na pesquisa psicológica para explicar o desenvolvimento humano. Defende a idéia de que aquilo que é inato no ser humano não é suficiente para a criança se desenvolver. 
O desenvolvimento depende da interação do ser humano com o meio físico e social, está intimamente relacionado ao contexto sociocultural em que a pessoa se insere e se “processa de forma dinâmica (e dialética) através de rupturas e desequilíbrios provocadores de contínuas reorganizações por parte do indivíduo “.
O bebê logo que nasce possui uma atividade psicológica elementar, baseada na herança biológica (os reflexos). Aos poucos, devido as interações com seu grupo social e com os objetos de sua cultura vai adquirindo controle sob seu comportamento e desenvolvendo seu pensamento. Com a ajuda do adulto a criança adquire as habilidades que foram construídas pelo seu grupo cultural ao longo da história. É através das constantes intervenções dos adultos que os processos psicológicos mais complexos começam a se formar.
Para Vygotksy o desenvolvimento do sujeito ocorre a partir das interações com o meio social em que vive, já que as formas psicológicas mais complexas emergem da vida social. Desta forma o desenvolvimento do psiquismo humano é sempre mediado pelo outro, dando significados à realidade.
A fala (instrumento e signo) tem papel fundamental na organização da atividade prática e das funções psicológicas superiores. O desenvolvimento das funções intelectuais é mediado socialmente pelos signos e pelo outro. “Ao internalizar as experiências fornecidas pela cultura, a criança reconstrói individualmente os modos de ação realizados externamente e aprende a organizar os próprios processos mentais”. A criança, assim, passa a se apoiar em recursos internalizados (imagens, conceitos, etc.) deixando de se apoiar unicamente nos signos externos.

Pensamento e Linguagem


A linguagem se constitui no paradigma dos processos de interiorização das funções psicológicas superiores. Para Vygotsky a relação entre o pensamento e a fala passa por várias mudanças ao longo do desenvolvimento. Apesar de terem origem e se desenvolverem independentes, em um certo momento o pensamento e a linguagem se encontram e dão origem ao funcionamento psicológico complexo. A conquista da linguagem representa um marco no desenvolvimento humano.
As palavras e signos são para a criança um meio de contato social com as pessoas. As funções comunicativas e cognitivas da linguagem são a base dos processos superiores. A linguagem, desta forma, tanto expressa como organiza o pensamento da criança.
Antes do aprendizado da fala a criança encontra-se no estágio pré-lingüístico do desenvolvimento do pensamento, denominado de inteligência prática. Através das interações com as pessoas a criança vai aprendendo a usar a linguagem como instrumento do pensamento e como meio de comunicação. Neste momento o pensamento e a linguagem se associam e o pensamento torna-se verbal e a fala racional.
Vygotsky observou que o desenvolvimento da relação linguagem e pensamento segue uma sequência de desenvolvimento passando da fala exterior para a fala egocêntrica e chegando a uma fala interior.



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