A partir de 1200 a.C., com o fim do domínio micênico e a destruição dos palácios, muitas pessoas deixaram de morar nas cidades e passaram a viver nos oikos, no campo, dedicando-se às atividades agrícolas e pastoris. Com o tempo, essas comunidades cresceram, e as terras férteis se tornaram escassas. Para garantir suas terras, alguns oikos se uniram sob o comando de um chefe de família.
Nas disputas entre esses grupos, os chefes vitoriosos ficaram mais ricos e com mais poder. Eles passaram a governar como reis e a contar com o apoio de uma assembleia formada por guerreiros e nobres de diferentes famílias. Esses homens deram origem à chamada aristocracia grega. Eles administravam o território e criavam as leis. Assim, surgiram as pólis, cidades-Estado gregas.
Eram cidades independentes entre si que tinham autonomia para elaborar leis e tomar decisões, como a declaração de guerra.
Entre as famílias gregas, havia o costume de dividir as terras igualmente entre os herdeiros do sexo masculino. Com isso, muitas famílias passaram a ter propriedades pequenas e, incapazes de gerar o próprio sustento, viram-se obrigadas a trabalhar para os mais ricos. Também se desenvolveu uma ordem patriarcal, isto é, os homens ocupavam os espaços de poder e tinham privilégios em relação às mulheres.
Nesse processo, muitos camponeses se endividaram, e por isso foram escravizados. Em decorrência do aumento da população e da falta de terras férteis, muitas pessoas passaram a ocupar regiões mais distantes do mar Mediterrâneo, em busca de melhores condições de vida. Diversas cidades gregas foram fundadas no sul da Europa, no norte da África e na Ásia Menor. Com isso, a partir de 800 a.C., o comércio marítimo se expandiu, as trocas comerciais se intensificaram e a vida urbana se fortaleceu.
A estrutura das cidades-Estado
O território grego é montanhoso e possui um vasto litoral. Essas características contribuíram para que as cidades-Estado se desenvolvessem de forma isolada. As pólis eram Estados independentes e se comunicavam principalmente pelo mar.
Cada pólis tinha leis, formas de governo e costumes próprios. A maior parte delas era governada por reis, mas os cidadãos participavam das decisões públicas e interferiam no governo. No entanto, nem todos tinham cidadania. Estrangeiros, por exemplo, não participavam das assembleias e não eram considerados cidadãos.
Havia mais de mil cidades-Estado na Grécia antiga, como Atenas, Esparta, Corinto, Tebas e Rodes. Cada uma tinha características singulares, e os conflitos entre as cidades eram frequentes. Isso fez impulsionar a atividade militar e a produção de objetos como armas, capacetes e escudos.
Capacete coríntio de bronze produzido no século VI a.C.
DUAS POTÊNCIAS GREGAS
Esparta e Atenas foram duas das maiores potências do antigo
mundo grego e influenciaram cidades-Estado vizinhas. Esparta foi
fundada pelos dórios no Peloponeso por volta do século IX a.C.
Atenas estabeleceu-se no mesmo século por intermédio dos jônios
e situava-se em uma região montanhosa da Península Balcânica
conhecida como Ática.
Vista do sítio arqueológico com ruínas de um
anfiteatro da cidade-Estado de Esparta, na
Grécia. Século XXI.
Diferentemente de Esparta, que ficava no interior do Peloponeso, Atenas estava perto
do mar e dispunha de um porto, o Pireu. Isso permitia a seus habitantes a prática da pesca
e da navegação. Esses fatores contribuíram para que a cidade se tornasse um importante
centro comercial da Grécia antiga.
A Acrópole
Em geral, as cidades-Estado eram organizadas em torno de um centro urbano e uma área rural. Um exemplo sobrevivente da estrutura central de uma pólis pode ser observado na cidade de Atenas.
Acrópole: Complexo com templos religiosos e construções do governo no topo de uma colina. Ao seu redor, havia um núcleo urbano com casas, mercados, lojas, oficinas de artesãos e praças.
Esparta
Imagine uma parede de escudos e lanças marchando em sua direção de forma ordenada, em ritmo constante e determinado. Foi assim que o historiador grego Tucídides descreveu o avanço do exército espartano sobre seus inimigos.
Esparta, na região do Peloponeso, tornou-se uma cidade-Estado em torno de 900 a.C. Era famosa por sua tradição militar, pela disciplina e pela violência nos combates.
Esparta, ao contrário da maioria das pólis, não tinha saída para o mar, o que dificultava as trocas comerciais com outros povos. Além disso, a região possuía poucas terras férteis, o que incentivou os espartanos a conquistar outros territórios. Assim, toda a sociedade se organizava em torno da guerra.
A cidade era comandada por dois reis. Enquanto um lutava nas guerras, o outro permanecia na pólis. A participação no governo era restrita aos aristocratas, isto é, aos grandes proprietários de terras das famílias mais ricas, chamados espartíatas ou espartanos. Eles viviam da renda de suas terras, não realizavam trabalhos manuais ou atividades comerciais e formavam a elite de guerreiros de Esparta.
Apenas os espartanos eram considerados cidadãos e podiam participar das assembleias, assumir cargos políticos ou se tornar reis. Essa forma de organização política, um “governo de poucos” e “para poucos”, é chamada de oligarquia.
Os inimigos capturados pelo exército de Esparta em batalhas eram forçados a trabalhar para as famílias espartanas, seja na agricultura, seja no pastoreio. Os povos que já habitavam a região do Peloponeso e foram dominados pelos espartanos também foram submetidos à escravidão. Essas populações eram chamadas de hilotas.
Os periecos, estrangeiros livres, viviam nos arredores da pólis e se dedicavam ao comércio ou ao artesanato. Apesar de não serem considerados cidadãos, eram obrigados a se alistar no exército espartano.
Atenas
Após o colapso das cidades palacianas micênicas, em torno de 1200 a.C., Atenas manteve seu crescimento e certa unidade territorial, ao contrário das demais cidadelas.
Atena, a deusa da sabedoria, das artes, da justiça e da guerra, era considerada a protetora dos atenienses, por isso o nome da cidade homenageava essa divindade grega.
A população ateniense se apoiava em seus mitos de origem, como a narrativa de Teseu e o Minotauro. Isso contribuiu para o desenvolvimento da identidade cultural ateniense. Assim, essa população não migrou para regiões distantes, mas cresceu e prosperou no próprio território.
Com o tempo, surgiram os primeiros órgãos de governo e tribunais. O Areópagos, por exemplo, era um conselho formado por aristocratas, responsável pela administração e pela justiça. Mas, a partir de demandas populares e do desenvolvimento de novas formas de organização política, o Areópagos perdeu o poder, mantendo-se apenas como um tribunal de justiça.
Atenas tornou-se uma cidade-Estado em torno de 1000 a.C. e estava localizada no sul da Grécia, em uma região muito próxima do mar. Por isso, os atenienses praticavam atividades relacionadas à navegação marítima.
Eles mantiveram um intenso contato com diversas cidades gregas e com povos que viviam em regiões mais distantes, como os babilônios, os fenícios e os egípcios. Atenas se tornou um importante centro cultural e comercial do mundo mediterrâneo.
Como outras sociedades antigas, a sociedade ateniense também era hierarquizada e composta de grande quantidade de trabalhadores escravizados. Veja detalhes da divisão social ateniense a seguir.
Cidadãos - Homens livres considerados cidadãos: Grandes proprietários de terras, agricultores, comerciantes e artesãos.
Pessoas livres não cidadãs - Pessoas livres consideradas não cidadãs: Mulheres, crianças, pobres livres e metecos (pessoas escravizadas que conquistaram a liberdade ou estrangeiros que viviam em Atenas).
Escravizados - Trabalhadores escravizados: Em sua maioria, eram prisioneiros de guerra. Somados aos metecos, representavam a maior parte da população ateniense. Em Atenas, muitos cidadãos possuíam escravizados, e os maus-tratos eram proibidos.
Insatisfações populares e reformas políticas
As terras férteis eram escassas no território grego. Para sobreviver em épocas em que as colheitas eram ruins, os pequenos agricultores atenienses acabavam se endividando. E, sem condições de pagar suas dívidas, muitos deles perdiam suas terras ou eram escravizados.
Descontentes, os camponeses passaram a exigir o perdão de suas dívidas. Os comerciantes e os artesãos nutriam insatisfações com a própria condição. Apesar de formarem um grupo importante para a economia de Atenas, eles não podiam participar da vida política. Essa situação gerou crises e revoltas.
Nesse período, os aristocratas controlavam as leis e dominavam as melhores terras. Com o objetivo de evitar uma guerra civil, eles nomearam o legislador Sólon para implementar reformas sociais e políticas.
Uma das medidas estabelecidas por Sólon foi a criação de critérios de renda para o exercício de funções públicas. Com isso, ele acabou com os privilégios políticos por nascimento. No entanto, mesmo assim, apenas os mais ricos poderiam assumir cargos no governo. Além disso, ele acabou com a escravidão por dívida e criou um tribunal de justiça e uma assembleia popular, que reunia todos os cidadãos.
Apesar das mudanças promovidas por Sólon, os camponeses continuavam com poucas terras, e as desigualdades sociais e políticas se mantiveram. Por isso, as insatisfações populares cresceram. Durante um breve período, o aristocrata Psístrato aproveitou-se da crise geral e tomou o poder à força, dando início a uma tirania. Após a morte de Psístrato, Clístenes assumiu o governo, com o apoio de parte da população.
Em 508 a.C., Clístenes deu continuidade às reformas de Sólon e criou o primeiro governo em que todos os cidadãos poderiam participar das decisões da cidade: a democracia.
Estela funerária de c. 400-375 a.C. representando um homem e uma mulher atenienses. Estima-se que a cidade-Estado de Atenas chegou a ter 350 mil habitantes. Desses moradores, 35 mil eram homens livres, e o restante da população era formada por mulheres, crianças, escravizados e estrangeiros. Embora representassem a minoria da população, apenas os homens livres atenienses possuíam direitos políticos
A democracia ateniense
Na democracia ateniense, todos os cidadãos participavam das decisões políticas. A cada ano, quinhentos cidadãos eram sorteados e escolhidos para servir ao governo. Durante aquele ano, eles eram responsáveis por fazer novas leis e garantir sua execução. Quando uma nova lei era proposta, todos os cidadãos tinham a chance de discutir o projeto e votar a favor ou contra sua implementação. As votações eram realizadas durante assembleias públicas, chamadas de Eclésia.
Pelo menos uma vez por mês, os cidadãos se reuniam e conversavam sobre questões atuais e sobre o que deveria ser feito em cada situação. Assim, pessoas comuns tinham a oportunidade de se envolver nas decisões de como a cidade deveria ser administrada. Esse tipo de governo é chamado de democracia direta.
Vestígios de intervenção humana na colina Pnyx (século VI a.C.), em Atenas, Grécia. Era nesse local, nas proximidades da Acrópole, que a assembleia se reunia e que as decisões eram tomadas pelos cidadãos.
Mas quem eram os cidadãos atenienses? Em Atenas, a definição de “cidadão” incluía apenas homens adultos, livres, filhos de pais atenienses. Mulheres, crianças, estrangeiros e escravizados não eram considerados cidadãos e, portanto, não podiam votar ou participar ativamente das discussões públicas. Com isso, estima-se que 90% da população não possuía cidadania.
Ostracismo
Na Atenas antiga, qualquer pessoa que representasse uma ameaça à democracia podia ser expulsa da cidade por dez anos, incluindo pessoas influentes e líderes políticos. Essa prática era chamada de ostracismo.
Óstraco ateniense do século V a.C. Na peça de cerâmica está escrito: “Kallias, filho de Kratios”, nome da pessoa que recebeu um voto para ser banida.
O ostrakon era um pedaço de cerâmica que servia como uma espécie de papel em que os cidadãos gregos escreviam o nome da pessoa que deveria ser banida por desonestidade, por agir contra a liberdade pública ou por diferenças políticas.
Os gregos usavam vasos de cerâmica para transportar e armazenar alimentos, para conservar perfumes, para servir refeições ou para realizar rituais religiosos. As pessoas manuseavam esses objetos todos os dias. Então, como você pode imaginar, eles provavelmente quebravam com alguma frequência, ao cair de uma mesa ou ao escorregar das mãos. Assim, artefatos e cacos de cerâmicas eram abundantes e, por isso, aproveitados até mesmo como suporte para o voto.
Algumas diferenças entre Esparta e Atenas
Uma das diferenças entre Esparta e Atenas estava na forma
de governo. Em Esparta, havia uma diarquia, ou seja, dois reis
governavam juntos. O direito ao trono era transmitido de pai
para filho.
Os reis, porém, não agiam sozinhos. Eles eram auxiliados
pelos esparciatas, que formavam uma assembleia popular.
Nessa assembleia, eram eleitos cinco éforos, que atuavam com
os reis no cuidado da cidade.
Além disso, na assembleia popular eram escolhidos os 28
membros da Gerúsia (conselho de anciãos). Os membros desse
conselho precisavam ter mais de 65 anos, e o cargo era vitalício.
Os integrantes da Gerúsia podiam vetar temas debatidos na
assembleia e julgar os reis quando necessário. Tanto os membros da assembleia quanto os reis participavam ativamente do
exército em Esparta.
Outra diferença relacionava-se à condição social das
mulheres. As espartanas tinham mais liberdade de ação que
as mulheres de outras cidades gregas.
As pertencentes à aristocracia podiam tomar conta dos
bens da família, por exemplo, pois, na maior parte do tempo,
os homens estavam em guerra ou treinando para a luta.
Elas podiam, ainda, ter acesso aos espaços públicos, mesmo
sem a companhia masculina, e praticar exercícios físicos.
Apesar de as espartanas terem mais direitos que
as mulheres de outras cidades gregas, também eram
subordinadas aos homens.
Os espartanos, assim como os atenienses, relacionavam
a educação à noção de cidadania. Essa noção, porém,
não era a mesma nas duas cidades. De modo geral, em Atenas, os meninos de famílias
aristocráticas aprendiam leitura, escrita e debate.
Eram, portanto, treinados para atuar na vida pública.
A atividade física era também parte importante
da formação ateniense. Os aristocratas praticavam
equitação e caça, enquanto outros esportes, como
corridas, eram mais populares, e isso ajudava a preparar os cidadãos atenienses para a guerra.
Já em Esparta, era usado um sistema rígido para
educar os meninos: o agogê. Nesse sistema, aos 7 anos, os
meninos eram separados das mães e divididos em tropas para
receber treinamento militar rígido em local afastado.
Eram treze anos de treinamento básico, nos quais os garotos conviviam apenas com outros estudantes e seus superiores, que podiam bater neles caso falhassem em suas atividades.
O objetivo dos espartanos ao adotar esse sistema era for
mar guerreiros dispostos a obedecer à hierarquia militar sem
questionar e sem ter medo de sentir dor e de morrer.
Aos 20 anos, os jovens obtinham alguns direitos políticos,
como o de fazer refeições com os mais velhos e o de participar
de seus grupos, o que era considerado uma honra.
Aos 30 anos, podiam se casar e constituir família, além de
integrar algumas consultas e votações políticas. Finalmente,
caso sobrevivessem até os 60 anos, os cidadãos espartanos
eram liberados das obrigações militares e tinham direito de
concorrer a qualquer cargo político na cidade.