segunda-feira, 26 de outubro de 2026

GLOSSÁRIO DE TERMOS PIAGETIANOS


- Abertura:
realização das possibilidades operativas de uma estrutura de comportamento (verbal, motora e mental).

- Acomodação:
reestruturação dos esquemas de assimilação. O novo conhecimento representa a acomodação.

- Adaptação:
movimento de equilíbrio contínuo entre a assimilação e a acomodação. O indivíduo modifica o meio e é também modificado por ele.

- Animismo:
concepção de objetos inanimados com vida ou intencionalidade. Por exemplo: quando a criança diz que “o carro do papai foi dormir na garagem”.

- Aprendizagem:
modificação da experiência resultante do comportamento.
No sentido restrito (específico) aprender que alguma coisa se chama "lua", "macaco".
No sentido amplo "aprender a estruturar todos os objetos no universo em sistemas hierárquicos de classificação" (Kamii, 1991: 22). É desenvolvimento.

- Assimilação:
incorporação da realidade aos esquemas de ação do indivíduo ou o processo em que o indivíduo transforma o meio para satisfação de suas necessidades. O conhecido (conhecimento anterior) representa a assimilação. Só há aprendizagem quando os esquemas de assimilação sofrem acomodação. Assimilação e acomodação são processos indissociáveis e complementares.

- Auto-regulação:
características que as estruturas tem de se ordenarem e organizarem a si mesmas.

- Causalidade:
interação entre objetos.
Como vínculo causal - é afirmar a relação entre antecedente e conseqüente como necessária (dado A . B é inevitável, não pode deixar de ser).
Como uma espécie particular de síntese, constituindo no fato de que a alguma coisa A, outra coisa completamente diferente, B, liga-se seguindo uma regra (no sentido lógico-matemático).

- Centração:
fixação da atenção em um só aspecto da totalidade, isto é, do objeto ou da situação (Ramozzi-Chiarottino, 1988: 37-43).

- Cibernética:
a ciência e a arte da auto-regulação.

- Condutismo, culturalismo ou behaviorismo:
teoria psicológica que sustenta que o desenvolvimento do comportamento humano é determinado pelas condições do meio em que o organismo está inserido. Esta teoria valoriza o meio ou a aprendizagem por condicionamento;

- Conservação:
uma invariante que permite a formação de novas estruturas.
"A invariância é a conservação. A estrutura é apenas um patamar: o funcionamento levará à formação de novas estruturas" (Lima, 1980: 56)
Pode ser observada na área:
     Lógico-matemática: conservação dos números, etc.
     Físicas: Substância, peso, volume, etc.
     Espaciais: Medida, área, etc.

- Construtivismo:
o desenvolvimento da inteligência é como se fosse uma construção realizada pelo indivíduo.
"refere-se ao processo pelo qual o indivíduo desenvolve sua própria inteligência adaptativa e seu próprio conhecimento" (Kamii, 1991: 21).
"um construtivismo, com a elaboração contínua de operações e de novas estruturas. O problema consiste, pois, em compreender como se efetuam tais criações e por que, ainda que resultem construções não-pré-determinadas, elas podem acabar por se tornarem lógicamente necessárias" (Piaget apud Piattelli-Palmarini, 1983: 39).
... "é de natureza construtivista, isto é, sem pré-formação exógena (empirismo) ou endógena (inatismo) por contínuas ultrapassagens das elaborações sucessivas, o que do ponto de vista pedagógico leva incontestavelmente a dar ênfase nas atividades que favoreçam a espontaneidade na criança" (Piaget, 1908)

- Construtivismo seqüencial:
o desenvolvimento da inteligência faz-se por complexidade crescente, onde um estágio (nível) é resultante de outro anterior.

- Desequilíbrio:
é a ruptura do estado de equilíbrio do organismo e provoca a busca no sentido de condutas mais adaptadas ou adaptativas. Assim, educar seria propiciar situações (atividades) adequadas aos estágios de desenvolvimento, como também, provocadoras de conflito cognitivo, para novas adaptações (atividades de assimilação e acomodação). O que vale também simplesmente dizer que educar é desequilibrar o organismo (indivíduo).

- Desenvolvimento:
é o processo que busca atingir formas de equilíbrio cada vez melhores ou, em outras palavras, é um processo de equilibração sucessiva que tende a uma forma final, ou seja, a aquisição do pensamento operatório formal. Pode-se dizer ainda que é a construção de estruturas ou estratégias de comportamento. Gira em torno da atividade do organismo que pode ser motora, verbal e mental. É a evolução do indivíduo.

- Dinâmica de grupo:
"A expressão 'dinâmica de grupo' refere-se a vários tipos de atividades exercidas por treinadores sobre grupos humanos" (Lima, 1980: 73).

- Epistemologia:
(epistemo = conhecimento; e logia = estudo) estudo do conhecimento.

- Epistemologia genética:
estudo de como se passa de um conhecimento para outro conhecimento superior.

- Equilibração:
concepção global do processo de desenvolvimento e de seus resultados estruturais sucessivos. O processo de equilibração define as regras de transição que dirigem o movimento de um estágio a outro dentro do desenvolvimento (Azenha, 1993). Ou refere-se ao processo regulador interno de diferenciação e coordenação que tende sempre para uma melhor adaptação (Kamii, 1991: 30).

- Equilibração majorante:
mecanismo de evolução ou desenvolvimento do organismo. É o aumento do conhecimento.

- Esquema:
modelo de atividade que o organismo utiliza para incorporar o meio.

- Estágios:
patamares de desenvolvimento que se dá por sucessão.

- Estrutura:
um conjunto de elementos que se relacionam entre si. A modificação de um gera a modificação do outro. Ou ainda, "é um conjunto de elementos relacionados entre si de tal forma que não se podem definir ou caracterizar os elementos independentemente destas relações" (Ramozzi-Chiarottino, 1988: 13).

- Evolução:
processo de organização em níveis progressivamente superiores.

- Experiência:
contato do organismo com a realidade ou a interação do sujeito com o objeto.

- Função semiótica:
capacidade que o indivíduo tem de gerar imagens mentais de objetos ou ações.
"A função semiótica começa pela manipulação imitativa do objeto e prossegue na imitação interior ou diferida (imagem mental), na ausência do objeto. É a função semiótica que permite o pensamento". (Lima, 1980: 102)

- Funcionamento:
capacidade que o organismo tem de adquirir determinada ordem na maneira de agir.

- Imagem mental:
é um produto da interiorização dos atos de inteligência. Constitui num decalque, não do prórpio objeto, mas das acomodações próprias da ação que incidem sobre o objeto. Cópia do objeto realizada através do sensório-motor. É a imagem criada na mente de um objeto ou ação distante.

- Inatismo:
teoria psicológica que sustenta que o desenvolvimento do comportamento humano dá-se a partir de condições internas do próprio organismo, como se este já trouxesse dentro de si as possibilidades de seu desenvolvimento. Esta teoria valoriza a maturação do organismo;

- Inovação:
reorganização em nível superior.

- Inteligência:
capacidade de adaptação do organismo a uma situação nova.
Ou, "a inteligência é uma adaptação" (Piaget, 1982).
Ou, "dizer que a inteligência é um caso particular da adaptação biológica é, pois, supor que ela é essencialmente uma organização e que sua função é a de estruturar o universo como o organismo estrutura o meio imediato" (Piaget, 1982).

- Interacionismo:
teoria psicológica que sustenta que o desenvolvimento do comportamento humano é uma construção resultante da relação do organismo com o meio em que está inserido. Esta teoria valoriza igualmente o organismo e o meio.

- Interesse:
sintoma da necessidade.

- Intuição:
é uma representação construída por meio de percepções interiorizadas e fixas e não chega ainda ao nível da operação. Ou, é um pensamento imaginado... incide sobre as configurações de conjunto e não mais sobre simples coleções sincréticas simbolizados por exemplares tipos.

- Jogo simbólico:
reprodução de situações já vividas pelo indivíduo através de imagens mentais.
(no jogo simbólico) "a representação é nítida e o significante diferenciado pode ser um gesto imitativo, porém acompanhado de objetos que vão se tornando simbólicos" (Piaget, Inhelder, 1989: 48).

- Liberdade:
estado de pleno funcionamento do organismo.

- Liderança:
permissão dada pelo grupo para que cada um de seus componentes utilize suas aptidões para comandar este grupo, quando a situação exigir, e ele seja o mais indicado para tal situação.

- Logicização:
processo de transformar o pensamento simbólico e intuitivo em pensamento operatório.

- Microssociologia:
área de estudo das relações de interação, de um indivíduo com os outros.

- Motivação:
sentimento de uma necessidade.

- Necessidade:
desequilíbrio na organização interna do organismo.

- Nominalismo:
"convicção de que os nomes (palavras) estão ligados, essencialmente, às coisas (pensamento pré-lógico)" (Lima, 1980: 134).

- Operação:
"ação interiorizada que alcançou as características do 'grupo' matemático (reversibilidade, associatividade, idfentidade, tautologia, etc.), devendo-se notar que o nível operatório é alcançado mediante reconstruções sucessivas de complexidade crescente (equilibração majorante)" (Lima, 1980: 151).
"As operações (...) são as ações escolhidas entre as mais gerais (...) interiorizáveis e reversíveis. Nunca isoladas, porém coordenáveis em sistemas de conjunto. Também não são próprias deste ou daquele indivíduo, são comuns a todos os indivíduos do mesmo nível mental e intervém não apenas nos raciocínios privados, senão também nas trocas cognitivas, visto que estas constituem ainda em reunir informações, colocá-las em relação ou correspondência, introduzir reciprocidade, o que volta a construir operações isomorfas às das que se serve cada indivíduo para si mesmo" (Piaget, Inhelder, 1989: 82).

- Pensamento:
interiorização da ação.

- Permanência do objeto:
quando o indivíduo pode conceber o objeto mesmo estando fora de seu alcance de visão.

- Psicologia genética:
estudo dos problemas psicológicos do ponto de vista do conhecimento.

- Reação circular:
ação qualquer que a criança executa por acaso provocando uma satisfação e, por isso, reproduz esta mesma ação.

- Realismo:
explicação que afirma a relação necessária entre o pensamento e a realidade.

- Reversibilidade:
quando a operação deixa de ter um sentido unidirecional. A reversibilidade seria a capacidade de voltar, de retorno ao ponto de partida. Aparece portanto como uma propriedade das ações do sujeito, possível de se exercerem em pensamento ou interiormente.
Lembramos que as operações nunca têm um sentido unidirecional; são reversíveis.

- Revolução:
salto de uma estrutura para outra.

- Revolução copernicana do eu:
no desenvolvimento mental da criança o eu deixa de ser o centro referencial da ação e do pensamento para colocar-se como um indivíduo entre os demais.

- Socialização:
a combinação de indivíduos para formarem estruturas sociais ou um fenômeno de combinação de novas formas de relações individuais.

- Transformação:
processo pelo qual as estruturas se constroem a partir dos elementos que as constituem.



Referências:

KAMII, Constance, DEVRIES, Retha. Piaget para a educação pré-escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. 101 p.

LIMA, Lauro de Oliveira. Conceitos fundamentais de Piaget: (vocabulário). Rio de Janeiro: MOBRAL, 1980. 179 p.

PIAGET, Jean, INHELDER, Barbel. A psicologia da criança. 10. ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. 135 p.

PIATTELLI-PALMARINI, Massimo (org). Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem: o debate entre Jean Piaget e Noam Chomsky. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1983.

RAMOZZI-CHIAROTTINO, Zelia. Psicologia e epistemologia genética de Jean Piaget. São Paulo: EPU. 1988. 87 p.


PÓS-PIAGETIANO

Como o próprio termo indica, os pós-piagetianos representam um movimento que, sem abrir mão da imensa inspiração da obra de Piaget, não hesita em criticar e enriquecer sua visão sobre os processos de aprendizagem e suas consequências pedagógicas.
O psicólogo suíço desconfiava muito da inteligência verbal e achava essencial a atividade de exploração do meio pelas crianças. O que o interessava, podemos dizer, era a inteligência anterior à linguagem. Em uma palestra para educadoras de pré-escola, ele chegou ao extremo de afirmar que "a linguagem não serve para nada".
Sua grande obsessão era explicar a inteligência como um processo biológico. Em sua autobiografia, publicada em 1971, ele conta como, adolescente, teve uma "revelação" lendo o filósofo Bergson: "Em um momento de entusiasmo vizinho do êxtase, eu fui tomado pela certeza de que Deus era a Vida, sob a forma do impulso vital, dos quais meus interesses biológicos me forneciam um pequeno setor de estudos. (...) Isso me levou a tomar a decisão de consagrar minha vida à explicação biológica do conhecimento."
Essa decisão motivou toda sua obra e refletiu-se em todo o seu imenso programa de pesquisas, pouco orientado para os aspectos interpessoais do desenvolvimento (apenas em poucos trabalhos seus isso não acontece, e eles são uma das fontes de inspiração para o socioconstrutivismo).
Nas últimas décadas, inúmeras informações novas enriqueceram nossa visão sobre o desenvolvimento das crianças. Por exemplo, muitas pesquisas analisaram as relações entre mães e bebês, assunto que não interessava a Piaget como pesquisador, trazendo novos dados para a reflexão psicológica e pedagógica, especialmente ao mostrar a grande capacidade dos bebês para se relacionar e perceber o mundo.
Também cresceu nesse período a influência de dois outros grandes psicólogos: o bielo-russo Vygotsky e o francês Henri Wallon (1879 -1962), que falavam muito mais explicitamente sobre a importância das relações interpessoais e da linguagem. Para Wallon, por exemplo, os humanos são naturalmente, biologicamente, sociais, e o indivíduo "é o ponto de encontro entre o orgânico e o social".
Esses dois autores, juntamente com Piaget, podem ser considerados os fundadores da psicologia do desenvolvimento, que se preocupa em observar metodicamente o desenvolvimento infantil para construir modelos de como o processo ocorre.
Em sua maioria, os pós-piagetianos, influenciados por esses três gênios, são psicólogos que admitem que a linguagem e as relações interpessoais possuem uma importância maior do que a visão de Piaget poderia fazer supor.
Em termos de aplicação à pedagogia, as consequências são claras: as interações sociais, mesmo entre crianças muito pequenas, podem ter uma influência muito positiva no desenvolvimento quando bem organizadas. A realização de atividades em pequenos grupos e em duplas, por exemplo, pode dar origem a trocas importantíssimas, levando as crianças a explicitar seu pensamento. Portanto, mais do que "ensinar" linguagem, o importante é criar ambientes ricos em diálogos e trocas.
Piaget estava certo ao querer um ensino ativo, mas é preciso dar mais ênfase ao papel das relações com os outros (adultos e crianças) em nossas teorias psicológicas e orientações pedagógicas.


TEORIA DA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Publicado nos Estados Unidos em 1995, o livro A Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, logo fez um enorme sucesso, o que acabou se repetindo também no Brasil.
O livro baseia-se em uma ideia simples: além de uma inteligência "intelectual" nós possuímos também uma inteligência "emocional", tão ou mais importante que a outra para o sucesso na escola e na vida. Goleman fala até mesmo em um QE (Quociente Emocional), que complementaria o QI (Quociente Intelectual).
Para entender o sucesso da teoria da inteligência emocional, é preciso levar em conta a situação da psicologia americana, saturada de conceitos como o de QI e aplicação de testes cognitivos. Nesse contexto, uma teoria que, baseando-se em novos conhecimentos da neurologia, falava da importância das emoções tornou-se uma espécie de antídoto contra a excessiva tecnicidade e aridez dos sistemas baseados em medições de QI e em performances intelectuais.
Em relação à educação, Goleman, e autores influenciados por ele, fala da importância de "educar" as emoções e fazer com que os alunos também se tornem aptos a lidar com frustrações, negociar com outros, reconhecer as próprias angústias e medos, etc.
Goleman chega a falar em "alfabetização emocional", como uma espécie de nova matéria, e em "lições emocionais". Mesmo que essa ideia tenha o mérito de chamar a atenção para a necessidade de levar em conta, de forma mais consciente, o desenvolvimento emocional dos alunos, ela merece uma ressalva, na medida em que não se aprendem emoções apenas recebendo lições, mas principalmente negociando-se com os outros.
Quando se cria rotinas escolares repletas de situações em que os alunos trabalham em equipe, discutem regras de vida, falam sobre suas aflições, etc., podem surgir dificuldades emocionais, e a necessidade de negociar com os outros para superá-las pode fazer as crianças evoluírem.
A preocupação com o desenvolvimento emocional das crianças já pode ser encontrada em muitas práticas da Escola Nova, na pedagogia Freinet, nas ideias sobre a construção da cidadania e em muitos autores influenciados pelas ideias de Freud e do movimento psicanalítico. Isso nos faz perceber que, menos que uma ideia original e uma teoria rigorosa, a "inteligência emocional" é uma boa fórmula, que foi capaz de dar voz a uma grande insatisfação contra a educação excessivamente intelectual e árida.
A influência dessa teoria sobre a educação é totalmente positiva, pois chama a atenção para o fato de que as escolas não devem se preocupar apenas com a inteligência de cada aluno, mas também com o desenvolvimento de sua capacidade de se relacionar bem com os outros e consigo mesmo.


Sobre a Teoria Psicogenética na Escola

Cláudia Davis
Yara L. Espósito


A escola fundamental, nos últimos anos, vem adotando uma série de procedimentos de ensino que, desenvolvidos a partir dos achados de Emília FERREIRO a respeito do modo através do qual as crianças constroem a língua escrita, geraram um renovado interesse na teoria psicogenética de Jean PIAGET. No entanto, muitos professores, ao procurarem melhor compreender o quadro de referência que orienta sua atuação pedagógica, deparam-se com problemas que acabam por frustrar seus melhores esforços. 
Em conseqüência, observam-se, em sala de aula, condutas não só incompatíveis com a proposta piagetiana corno, sobretudo, nocivas ao processo mesmo de construção do conhecimento. Conversas exaustivas com professores de 1a. à 4a. série, aliadas a nossa própria observação do cotidiano escolar, permitem-nos agora compreender melhor as razões das dificuldades ora mencionadas. Pudemos perceber que os professores de hoje, conscientes da formação precária que receberam, buscam, com avidez, aprimoramento profissional. Cometem nesta busca, entretanto, um engano capital: procuram uma pedagogia "piagetiana" em uma obra de cunho epistemológico, de difícil leitura que, se muito informa sobre crianças, pouco diz sobre como ensiná-las. 
A decepção é, nestas condições, inevitável, na medida em que não se consegue derivar, com facilidade, da teoria de desenvolvimento cognitivo de PIAGET uma teoria de aprendizagem escolar. `Pesquisadora do Centro de Pesquisa para Educação e Cultura -CENPEC, da Fundação Carlos Chagas; professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUC/SP. " Pesquisadora do Centro de Pesquisa para Educação e Cultura -CENPEC, da Fundação Carlos Chagas. 127 O objetivo deste texto é, assim, tentar auxiliar a reflexão de como esta passagem pode ser feita, de modo que os professores melhor entendam e melhor atuem na função que lhes compete. 
Para tanto, procurar-se-á fazer um apanhado sumário da proposta de PIAGET para, em seguida, discutir suas implicações pedagógicas, notadamente o papel alocado, nesta abordagem, ao erro. A Teoria de Equilibração Majorante Muito mais do que se interessar por aquilo que as crianças sabem a respeito de si mesmas e do mundo a sua volta, PIAGET preocupou-se com a forma por intermédio da qual elas constroem tais conhecimentos. 
Assim, para este autor, o conhecimento, longe de ser absorvido passivamente ou de estar incorporado desde o nascimento, é construído pela criança através de uma interação ativa de suas estruturas mentais e seu ambiente. Desenvolvimento intelectual tem, neste sentido, o caráter de um processo que, por permitir sucessivas reestruturações do conhecimento, garante a adaptação, ou seja, um estado de equilíbrio entre o indivíduo e o meio. Este processo começa assim que o bebê nasce: de imediato, o recém-nascido passa a exercitar, nas relações que estabelece com o meio, o aparato reflexo que lhe garante a sobrevivência.
Assim, por exemplo, o reflexo de sucção, programado pela espécie para sugar o seio materno, expande-se para outros campos: o bebê é capaz de chupar a chupeta, o dedo, a mamadeira. Quando isto ocorre, PIAGET acredita que a criança dispõe, agora, não mais de reflexos e sim daquilo que chama de "esquemas" de ação. 
Pode-se, assim, definir esquema como aquilo que é generalizável na ação, um "saber fazer' que permite várias formas de entrar em contato com o mundo, distintas da inicialmente prevista (MACEDO, 1979). Um conjunto de esquemas, por sua vez, forma uma estrutura cognitiva, ou seja, uma forma específica de pensar. 
O conjunto das estruturas, de igual maneira, constitui o sistema cognitivo. Toda e qualquer perturbação no modo de operar da estrutura representa um conflito - um desequilíbrio - para o sujeito. Para compensar tal perturbação e resolver o conflito, o sistema cognitivo aciona de imediato dois mecanismos que agem simultaneamente: a assimilação e a acomodação. 
No mecanismo de assimilação, o novo é incorporado aos esquemas que a criança já construiu em sua interação com o meio. Assim, se por um lado a assimilação tem um caráter conservador, que resiste à mudança, por outro é este o mecanismo que garante ao desenvolvimento intelectual seu caráter deliberado e contínuo: por seu intermédio a criança enfrenta um mundo basicamente familiar, que lhe permite ir, paulatinamente, enfrentando desafios mais complexos. 
No mecanismo de acomodação, diferentemente da assimilação, a criança é forçada a se modificar, a partir tanto da construção de outros esquemas ou estruturas, como da alteração e expansão daqueles que já existem. É via acomodação, portanto, que a criança vai além de seu estágio presente de compreensão, modificando-se para conseguir lidar com novas e emergentes solicitações. 
Naturalmente, algum tipo de balanceamento entre estes dois processos faz-se necessário para que a interação criança-meio promova a construção de patamares cognitivos cada vez mais elevados. PIAGET dá o nome de equilíbrio ao estado resultante da ação balanceada entre assimilação e acomodação: um novo e provisório modo de pensar e lidar com a realidade, maior e melhor do que o precedente. 
Daí o fato de a teoria de PIAGET ser também conhecida pelo nome de Teoria da Equilibração Majorante. Nela, como deve ter ficado claro, o papel do conflito é fundamental, pois, sem ele, não haveria como majorar, ou seja, como alcançar formas de pensar mais amplas e abrangentes, capazes de engendrar ações mais efetivas sobre o real. 128 É, ainda, importante mencionar que, para PIAGET, o desenvolvimento cognitivo é resultante da combinação de quatro fatores: a maturação biológica, a experiência física, a interação social e a própria equilibração. 
Este último aspecto é, em sua visão, o mais importante, na medida em que coordena os demais. Por seu intermédio, o ser humano tanto assimila a experiência (física ou social) à sua maneira de pensar, como acomoda sua maneira de pensar às demandas da experiência. Dado que o papel do sujeito é sempre ativo neste processo, a equilibração é também conhecida como auto-regulação. 
Daí o fato de a postura de PIAGET ser tanto interacionista como construtivista: refere-se à construção ativa do conhecimento, através de interações cada vez mais complexas do sistema cognitivo da criança com seu ambiente. Implicações Pedagógicas da Teoria Piagetiana 
A teoria piagetiana fornece, inegavelmente, um sofisticado sistema explicativo do desenvolvimento intelectual. Entretanto, o caráter essencialmente teórico de suas contribuições dificulta, enormemente, sua aplicação imediata na prática pedagógica, que tem lugar na escola. Faz-se necessário para tal, como o próprio PIAGET já reconhecia, a realização de uma série de pesquisas e estudos antes que suas ideias possam ser transpostas, de forma frutífera, para a área educacional. Além disto, deve-se ter claro que nenhuma teoria, por mais rica e abrangente que seja, consegue abarcar a diversidade do real. 
Neste sentido, a questão pedagógica não pode nunca ser encarada a partir de uma única perspectiva, requerendo não só vários níveis de análise como também, e sobretudo, articulação entre eles (CASTORINA, 1988). De qualquer forma, é sempre válida a tentativa de se procurar derivar, de uma teoria sobre as estruturas do conhecimento, uma concepção, ainda que genérica, do processo de aprendizagem.
Vários colaboradores de PIAGET dedicaram-se a isto, notadamente INHELDER, BOVET e SINCLAIR (1977). Em linhas gerais, o esforço deve centrar-se em procedimentos interativos que, deliberadamente, levem a conflitos cognitivos capazes de promover a construção de modos mais aprimorados de pensar. Aprender adquire, neste contexto, um novo significado: trata-se de interpretar a realidade, de construí-la interna e ativamente, no bojo de um amplo processo de reorganizações intelectuais progressivas. 
Para tanto, é preciso repensar o processo ensino-aprendizagem de forma a: 

• priorizar os quatro fatores responsáveis pelo desenvolvimento cognitivo; 

• reconhecer que as crianças, antes de qualquer instrução formal, já são aprendizes competentes, construtores sagazes de significados em constante expansão, através da interação que mantêm cano o meio físico e social. (SABATINARIAS, 1980.) Esta não é, em absoluto, uma tarefa simples, na medida em que requer um professor bem-preparado, sensível às necessidades infantis e, sobretudo, comprometido com a formação de adultos lúcidos, responsáveis e independentes. Assim, para PIAGET, o professor, longe de ser aquele que meramente transmite informações, é o grande facilitador da aprendizagem: cabe a ele envolver a criança em situações nas quais seja possível ela se arriscar e ver o que acontece, manipular coisas e símbolos, colocar perguntas e buscar suas próprias respostas, comparar os achados do momento com os do passado, coordenar suas ideias com as das demais ou explicar as razões das divergências (DUCKWORTH, 1964). É, portanto, função do professor contemplar: 

• a experiência física, pois, quanto mais rico for o ambiente, quanto mais dispuser de materiais instigantes - que coloquem problemas e engendrem a busca de soluções -, maiores serão as 129 possibilidades de interação e, consequentemente, de coordenar ações físicas e mentais, construindo conhecimentos não só a respeito dos objetos como também das relações que, a partir deles, podem ser estabelecidas; 

• a interação social, pois, ao se realizarem atividades conjuntas, numa atmosfera de segurança afetiva que permita o debate franco e direto, torna-se consciência de outros pontos de vista, de outras idéias é de outras formas de solucionar problemas que, necessariamente, levam a um repensar das noções até então mantidas, reformulando-as, enriquecendo-as ou substituindo-as por outras mais adequadas; • a maturação, que, em sala de aula, significa não atropelar o ritmo da classe, fornecendo às crianças o tempo necessário para refletir sobre ideias, perseguir outros pontos de vista, comparar diferentes noções, integrar o conhecimento construído etc.; 
• a equilibração, que consiste em provocar desequilíbrios no modo atual de funcionamento intelectual das crianças, aceitando soluções "erradas", desde que indicadoras de progressos na atividade cognitiva. A finalidade da ação educativa, na visão piagetiana, reside, assim, em estimular os mecanismos estruturantes da criança, de forma que esta possa modificar seus sistemas de organização e compreensão da realidade, alcançando um equilíbrio superior. Adota-se o pressuposto de que as crianças, ao partirem de suas próprias concepções a respeito da realidade e ao seguirem seus próprios procedimentos, cometerão, necessariamente, uma série de erros e julgamentos inadequados, considerados inerentes a toda construção intelectual. Tais erros recebem, na terminologia piagetiana, um nome especial: são erros construtivos, isto é, aqueles que sinalizam o fato de que uma outra estrutura de pensamento está-se formando, ou seja, de que se encontra em processo de elaboração. Se estes erros são próprios ao ato de conhecer, coma deve o professor se comportar diante deles? Cabe aqui explicitar que, para PIAGET, o protagonista e o criador da aprendizagem é a própria criança, cabendo apenas a ela modificar seu pensamento, construindo outros mais de acordo com a realidade. 
Neste sentido, o professor, para auxiliar seus alunos a superarem os impasses na construção do conhecimento, deve propiciar-lhes, além de um ambiente estimulante, uma interação profícua, capaz de provocar desequilíbrios cognitivos que possam ser percebidos e assimilados enquanto problemas. Cabe a ele, portanto, criar também em sua classe condições para que os alunos tomem consciência dos erros cometidos e possam, como conseqüência, engendrar novos procedimentos de ação que levem à resposta esperada. Tal professor é, naturalmente, alguém bem-preparado, que conhece não só a teoria que embala sua atuação docente como também o processo através do qual as crianças constroem conhecimentos. Os erros dos alunos constituem, na verdade, ricas fontes de informação para o professor. Mostram-lhe, continuamente, a maneira através da qual seus alunos raciocinam - seu nível evolutivo atual - e apontam, em especial, os aspectos que, no momento, concentram as principais dificuldades. 
Os erros das crianças podem, desta maneira, auxiliar muito o professor, norteando sua conduta em sala de aula. Assim, dependendo da forma pela qual as crianças resolvem determinadas situações, diferentes possibilidades podem ser inferidas com respeito à adequação da tarefa à estrutura cognitiva dos alunos, gerando, corno conseqüência, condutas pedagógicas diferenciadas: Soluções corretas - Supõe-se, neste caso, que a criança não só possui a estrutura cognitiva necessária para resolver a tarefa como, ainda, é capaz de selecionar, em face do leque de cursos de ação oferecido por tal estrutura, aqueles que, efetivamente, respondem à questão. 130 Soluções incorretas - Diferentes alternativas podem ser aqui consideradas: 

• A criança possui a estrutura cognitiva requerida pela tarefa, mas selecionou procedimentos inadequados em sua resolução. Desta forma, este tipo de erro não se refere à construção nem de novos esquemas de ação nem de novas estruturas de pensamento, uma vez que ambos já existem: trata-se, aqui, simplesmente, de aprimorar ou exercitar, com maior sistematicidade, os conhecimentos já elaborados. Este é o caso, por exemplo, de uma criança que segue o raciocínio correto em um problema matemático, mas erra nas contas; ou, ainda, de uma criança que, na 49 série do 1° Grau, escreve com erros ortográficos. Tanto em um como em outro caso, a criança já construiu o sistema de numeração e o código alfabético de representação. O problema pode, pois, ser mais facilmente atribuído à falta de treino, a eventuais distrações, à desmotivação etc. 

• A estrutura cognitiva da criança é insuficiente para leva-la à resolução do problema: ela nem compreende adequadamente o que lhe é solicitado, nem é capaz, por isso mesmo, de escolher uma estratégia de ação eficaz. Suas respostas são incompletas, parciais e não coordenadas entre si. Não obstante, elas são necessárias, na medida em que constituem uma passagem obrigatória em direção a níveis mais elevados de compreensão. Assim, sem parâmetros adequados, a criança procede por tentativa e erro, corrigindo e ajustando suas ações em razão dos resultados que estas produzem. Aí se tem, na verdade, os erros construtivos, ou seja, aqueles que devem ser aceitos porque indicam a presença de uma estrutura em formação. A criança que diz "eu pêntio meu cabelo" está adotando a hipótese - válida apenas para alguns casos - de que todos os verbos são regulares. Ela se encontra, pois, no processo de criar uma "teoria" sobre a conjugação verbal que, por englobar tanto os casos regulares como os irregulares, será mais abrangente do que a anterior. 

• A criança não possui a estrutura de pensamento que a tarefa requer e, consequentemente, não é capaz de compreender o que lhe é pedido. Os erros, neste caso específico, são sistemáticos, porque o problema não se constitui enquanto problema, ou seja, não causa nenhuma perturbação na estrutura cognitiva que a criança, no momento, dispõe. Um bom exemplo deste caso é a criança que, nas provas de conservação de substância, acredita que, ao mudar a forma da massinha de modelar, altera-se, também, sua quantidade. Todo o procedimento é feito na sua frente: nada é acrescido ou tirado e, não obstante, seu julgamento desconsidera este fato. 
De igual modo, a criança pré-silábica, que vive na zona urbana em estreita convivência com cartazes, anúncios, outdoors etc., ignora toda esta informação e escreve, sem nenhum conflito, de maneira bastante peculiar. Cada um destes erros merece, naturalmente, tratamento diferenciado; afinal, uma função docente importante é identificar a natureza dos erros cometidos pelos alunos, para poder atuar sobre eles. O que deve ser sempre evitado, em qualquer um dos casos, é a saída fácil de fornecer às crianças a resposta correta. Sem dúvida, a palavra do adulto tem sempre um peso importante, pois representa um argumento de autoridade. Mas, ao proceder dessa forma, perde-se a possibilidade de propiciar a elaboração autêntica do pensamento, aquela que decorre tanto da percepção de que há nele contradições como da necessidade de supera-las.
A construção intelectual que se deseja nas escolas é, pois, deste último tipo: aquela que exige esforço cognitivo para alcançar o equilíbrio perdido. Se a aprendizagem informal envolve tentativas e erros, falsas especulações e oscilações entre estados de ignorância e estados de conhecimento, também a sala de aula deve prover esta atmosfera de liberdade. Respostas erradas, longe de constituírem alvo de punição, devem ser entendidas como resultantes de uma postura de experimentação, em que as crianças levantam e 131 testam suas hipóteses. 
Os erros infantis merecem, assim, uma análise séria e cuidadosa, incompatível com a postura, infelizmente frequente, de homogeneizá-los sob o rótulo de "erros construtivos". Sem separar o joio do trigo, erros de distintas naturezas recebem igual tratamento, com sérios prejuízos para a aprendizagem. 
Se queremos, pois, exercer com propriedade nosso papel de educadores, temos de aprender a identificar as razões que se encontram na base das respostas errôneas de nossos alunos, dando-lhes, no momento certo, o remédio certo. De outra forma, estaremos sonegando-lhes não só a ajuda a que têm direito, como também a que precisam e esperam de nós. 

Referências Bibliográficas 

CASTORINA, J.A. et alii. Psicologia genética; aspectos metodológicos e implicações pedagógicas. Porto Alegre, Artes Médicas, 1988. 

DUCKWORTH, E. Piaget takes a teacher's look. Learning, Oct., 1973. p. 22-27. 

INHELDER, B. et alii. Aprendizagem e estruturas do conhecimento. São Paulo, Saraiva, 1977. 

LABINOWICZ, E. The Piaget primer,; thinking, leaming, teaching. California, Addison-Wesley Publishing Company, 1980. 

MACEDO, L. Os processos da equilibração majorante. Ciência e Cultura, São Paulo, SBPC, 31(10):1125-1128, out., 1979. 132

ZONA PROXIMAL DE DESENVOLVIMENTO

De todos os conceitos desenvolvidos pelo grande psicólogo Vygotsky, o da zona proximal de desenvolvimento (ZPD) é o que mais influência tem exercido sobre a pesquisa e a prática educacional. Ele tenta explicar, entre outros fenômenos, a aprendizagem de conceitos científicos, como aqueles que as escolas se propõem a ensinar.
Por trás desse nome complicado, há uma idéia extremamente simples: o que a criança faz hoje em conjunto com outros poderá fazer sozinha amanhã.
É claro que não é possível levar a criança a fazer qualquer tipo de coisa. Por exemplo, não se pode ensinar álgebra para um aluno que nem conhece as quatro operações. Mas é possível, dentro de certos limites, apresentar desafios e informações cuja utilidade ele possa começar a perceber. Esse limite entre o que o sujeito não pode fazer sozinho e as instruções que ele é incapaz de compreender é o que define a zona proximal de desenvolvimento para a aprendizagem de um determinado campo de conhecimentos.
Um bom exemplo de atuação na ZPD é uma mãe ensinando um filho a falar. Ela sempre reage às tentativas da criança, incentivando, corrigindo, fazendo novas perguntas e exigências, em função de sua percepção do que a criança pode ou não fazer. A criança evolui porque sempre está recebendo novas informações e desafios, que exigem que ela vá um pouco além do que já sabe. Aos poucos, o que acontecia na ZPD passa a ser feito pela criança sozinha, e a mãe pode elevar novamente o nível de seus desafios e exigências.
Para a pedagogia, o conceito de ZPD tem várias implicações. Na avaliação, por exemplo, que normalmente é centrada no que cada aluno pode fazer sozinho. Para Vygotsky, isso é um erro. O que deve ser avaliado é a capacidade que o aluno tem de fazer coisas colaborando com os outros e até recebendo informações e instruções.
A ZPD oferece também novas perspectivas para a área da "construção da autonomia". Para Vygotsky, só uma criança que foi "bem regulada" pelos outros poderá um dia assumir o papel de reguladora (passando a dar a si mesma orientações que encontram sua origem nas ordens que recebeu dos outros - uma idéia que tem o seu parentesco com o conceito de superego, de Freud). A conseqüência pedagógica é clara: para construir autonomia, não basta dar liberdade às crianças. É preciso pensar em formas de levá-las também a controlar a própria atividade.
Existe ainda outra conseqüência de se levar em conta o conceito de ZPD. Em vez de esperar que a criança esteja "pronta" para aprender, o processo de ensino deve se antecipar às aprendizagens e tentar criar novas possibilidades de desenvolvimento. Começamos a aprender qualquer conceito apenas no momento em que o vemos pela primeira vez, pois somente a partir desse momento seu significado poderá começar a transformar nosso pensamento.
Para Vygotsky, as escolas pecam ora porque propõem atividades fora dos limites da ZPD (conceitos e exigências abstratos demais), ora porque não levam em conta sua existência (como no caso do ensino baseado apenas em materiais concretos e na espera de que a criança esteja "pronta" para aprender conteúdos mais sofisticados).
As ideias de Vygotsky e conceitos como o da ZPD inspiram - e devem continuar inspirando pelo século XXI afora - diferentes tentativas de renovação dos métodos educacionais, que vão desde a busca de contextos ricos para as descobertas das crianças (aqui há uma semelhança com as ideias da Escola Nova) até a análise de como a comunicação dos tutores pode influenciar os processos de aprendizagem dos alunos.

GEORGES SNYDERS: EM BUSCA DA ALEGRIA NA ESCOLA

CARVALHO, Roberto Muniz Barretto de


Neste trabalho pretendemos relatar de forma sintética as principais conclusões que chegamos ao analisar o pensamento pedagógico de Georges Snyders[1] durante a elaboração da dissertação de mestrado no programa de História e Filosofia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo -PUC/SP.
O objetivo que estabelecemos para nossa pesquisa foi realizar uma análise do pensamento educacional de Georges Snyders para apanhar e compreender a construção e o significado da Pedagogia Progressista proposta por este autor e a evolução dos seus conceitos básicos. Utilizamos, como base, quatro de suas obras: Pedagogia Progressista, Para Onde Vão as Pedagogias Não-Diretivas?, Alegria na Escola e Alunos Felizes.
As duas primeiras obras são as que maior divulgação obtiveram no Brasil e que serviram de referência e contribuição a diversos pedagogos brasileiros, principalmente no final da década de 70 e início dos anos 80[2]. Através destas obras Snyders se tornou conhecido, fora da França, onde já se destacava ao lecionar na Sorbonne (Paris V), com a publicação de artigos polêmicos em diversas revistas (artigos estes que geralmente deram origem aos seus livros), em debates onde procurava defender seus pontos de vista e do partido comunista (PCF) [3], e ao procurar construir uma pedagogia de inspiração marxista.
Com a divulgação destas duas obras - Pedagogia Progressista e Para Onde Vão as Pedagogias Não-Diretivas? - (e de Escola, Classe e Luta de Classes), Snyders se torna conhecido como um pedagogo marxista, que trabalha com a educação na perspectiva da luta de classes. Snyders passa a ser constantemente identificado como o pedagogo que propõe a transformação da escola pela mudança nos conteúdos, na adoção de “conteúdos marxistas”, como aquele que deixa claro o papel mediador da escola, de que a escola pode e deve servir na luta contra o sistema capitalista, na construção do socialismo.
Entretanto, este “estereótipo” começa a se modificar com a publicação das duas outras obras que tomamos como base para o nosso trabalho (Alegria na Escola e Alunos Felizes). Nelas surge um Snyders que insiste em falar da alegria na escola, na satisfação que a cultura deve e pode proporcionar aos alunos. Surge, então, um Snyders que se refere constantemente a “minha escola” ou a “escola de meus sonhos”, onde os alunos viveriam a verdadeira alegria do escolar.
O que ocasiona esta mudança em Snyders? Teria abandonado seus pressupostos e propostas anteriores? Ao discutir a questão da alegria na escola, Snyders abandona ou reformula seus conceitos e proposições anteriores? Deixou de ser um pedagogo marxista, que se guia pela luta de classes? Que relação a alegria na escola tem com a pedagogia progressista? Que significa esta “alegria”?
Tais questões serviram de pedras indicativas de um caminho para a formulação de uma análise do pensamento pedagógico de Georges Snyders. O que apresentamos aqui são algumas respostas, a partir da leitura da obra de Snyders, tomando como base os seus conceitos principais no processo de formulação teórica do autor.
Ao analisarmos as obras produzidas por Snyders, podemos perceber claramente dois conjuntos. O primeiro seria formado pelos livros: Pedagogia Progressista, Para Onde Vão as Pedagogias Não-Diretivas? e Escola, Classe e Luta de Classe e pelos artigos que deram origem ou contribuíram na realização destes livros: La Pédagogie en France aux XVII et XVIII siècles, La Non-Directivitè Est-Ce La Bonne Direction? (Enfance) e Foi o Mestre-Escola Quem Perdeu a Batalha das Diferenças Sociais (Enfance). O segundo conjunto seria formado pelos livros: A Alegria na Escola, Alunos Felizes, A Escola Pode Ensinar as Alegrias da Música? e Feliz na Universidade e pelos artigos: As Pedagogias Não-Diretivas - Conferencias: Jornadas Pedagógicas- Portugal, Recherches Pour L’Education Musicale (Revue Des Science de L’Education), Le Joies Etudiants: Recherchers à Partir de Quelques Biographies (Revue Française de Pédagogie) e Le Gout Musical en France aux 17e et 18e Siècles.[4]
As obras do primeiro grupo foram escritas entre 1968 e 1976 (exceto La Pédagogie en France... que foi editada em 1964 sendo posteriormente aproveitada em 1973 para compor o Tratado de Pedagogia II organizado por Debesse e Mialaret) e tem como característica principal a constituição da Pedagogia Progressista, a definição de uma pedagogia de inspiração marxista, a afirmação da educação como relação marcada pela sociedade e a escola como local onde também se processa a luta de classes. Nestas obras Snyders vai polemizar com as diversas correntes educacionais contemporâneas, com os representantes da Educação Tradicional e Educação Nova[5], procurando neste debate realizar a crítica a estas, localizando o que julga ser seus pontos positivos e negativos, e, principalmente, definindo e delimitando sua visão marxista de educação. Este processo pode ser vislumbrado de uma obra a outra. Em Pedagogia Progressista, Snyders define temas para uma pedagogia progressista. Já em Para Onde Vão as Pedagogias Não-Diretivas? traça o que seria uma pedagogia de inspiração marxista, uma pedagogia progressista; e finalmente em Escola, Classe e Luta de Classe insere esta pedagogia no debate do papel da escola, das funções da escola, da cultura, na luta de classes.
Já no segundo grupo de obras, escritas entre 1982 e 1993, a temática central é a alegria, a satisfação/alegria que a escola deve e pode proporcionar ao aluno. Nestas obras, Snyders vai analisar o papel da cultura erudita/escolar na alegria, na escola, vai analisar as especificidades do escolar que podem proporcionar esta alegria, em como esta alegria faz parte da luta por transformar a escola, a educação. Aqui também, podemos ver um salto qualitativo, onde o autor em Alegria na Escola fundamenta - por meio de exaustiva análise dos temas culturais a serem utilizados pela pedagogia progressista - a nova ênfase e faz a ligação com as obras anteriores, procurando deixar claro que a alegria na escola ocorre através da Pedagogia Progressista. As demais obras são esclarecimentos desta “nova perspectiva”, agora com mais exemplos e explorando situações específicas, concretas, da escola e da sala de aula, como a questão do ensino de música, o uso de textos literários, a universidade, etc.
Apesar da mudança de temática, de ênfase, verificamos entre estes dois conjuntos uma continuidade, onde o segundo conjunto é um desdobramento do primeiro, dos conceitos e principais idéias desenvolvidas neste. O conceito de alegria, a temática da alegria, por exemplo, já estava presente no conjunto dos primeiros textos, mas não tinha centralidade, acabava ficando como mais um componente dentro da perspectiva da pedagogia de inspiração marxista, das possibilidades de lutas na escola[6]. Verificamos que Snyders não abandona as perspectivas traçadas e defendidas nas obras do primeiro grupo, embora estas sejam agora tratadas mais “sutilmente”, com menor ênfase. O centro de seu pensamento, ou seja, a mudança, a transformação da escola através dos conteúdos, da Pedagogia Progressista, a noção de progresso, os conceitos marxistas de verdade, de liberdade, de homem, permanecem.

A Crítica a Educação Tradicional


Snyders considera que a Educação Tradicional já não é capaz de responder aos seus próprios objetivos e que a Educação Nova que surge em contraposição às falhas e problemas desta, também não consegue superá-la. Portanto, faz-se necessário localizar os limites da Educação Tradicional para ultrapassá-la e verificar até onde a Educação Nova avançou e quais são os seus limites.
A partir desta perspectiva Snyders elabora sua proposta de trabalho: “pensar que se pode abrir um caminho a uma pedagogia atual; que venha a fazer a síntese do tradicional e do moderno: síntese e não confusão.”(Snyders, 1974:9-10) Snyders tem como ponto de partida as duas pedagogias e opera sobre elas a crítica para chegar a uma síntese, a partir dos elementos positivos que cada uma apresenta e formula uma nova pedagogia. Snyders defende uma pedagogia que, de fato, possibilite a formação do indivíduo, que lhe permita realizar-se (ter alegria) e poder atuar na sociedade modificando-a, superando as contradições e problemas que esta apresenta.
Snyders conclui que o problema central da Educação Tradicional não está tanto na sua metodologia, no papel que atribui ao professor ou no fim que busca atingir, mas principalmente, na forma de encarar os modelos - o conteúdo do ensino - na forma como vê a sociedade, o papel dos indivíduos. O problema da Educação Tradicional está no conteúdo e não tanto nos seus métodos, pois estes podem ser transformados em função dos modelos a serem adotados. O método se torna um problema em função dos modelos propostos e da visão de sociedade que se tem. O problema é o que se ensina e para quê se ensina, mais do que como se ensina. Snyders conclui que não se deve renunciar aos modelos, mas aos conteúdos assim escolhidos como modelos.
Snyders não faz apenas a crítica a este modo de educação, mas localiza seus aspectos positivos. Em sua proposta pedagógica, ele apresenta alguns elementos retirados da Educação Tradicional, dentro da abordagem superadora, marxista:

- A necessidade da Educação: de que o mundo imediato, empírico, cotidiano, por si só não forma o aluno, não possibilita a apreensão do real.

- No processo de ensino-aprendizagem há a necessidade do professor como guia, como orientador. A criança necessita de apoio, de orientação, para formar uma disciplina, um autodomínio, para poder ter possibilidade de apreender o real e sobre ele atuar.

- Há um reconhecimento da validade de modelos, da primazia dos modelos, ou do conhecimento, na educação.


A Crítica as Pedagogias Não-Diretivas


A crítica e análise das pedagogias não-diretivas realizada por Snyders encontra-se, principalmente, em Pedagogia Progressista e Para Onde Vão as Pedagogias Não-Diretivas?.

Em Pedagogia Progressista ao realizar a crítica à Educação Nova, Snyders analisa os seguintes autores: J. Dewey, M. Montessori, E. Claparede, O. Decroly, J. Piaget e S. Feinet. Já em Para Onde Vão as Pedagogias Não-Diretivas? vai analisar: Kurt Lewin, Lipitt, White, A.S. Neill, Bany e Johnson, Irving Rogers, Barrington Kaye, Carl R. Rogers, Gilles Ferry, Daniel Hameline, Marie-Joelle Dardelin, Michel Lobrot e Fernand Oury, completando assim sua crítica ao tomar como centro de sua análise os autores contemporâneos da Educação Nova. 
Educação estas que ele passa a nomear de pedagogias não-diretivas, pois vê esta característica (não-diretividade) como o denominador comum dos diversos autores analisados. Além de atualizar sua crítica às pedagogias, Snyders retoma os temas para uma “pedagogia de esquerda” contidos em Pedagogia Progressista, e desenvolve a sua pedagogia de inspiração marxista.
Ao realizar a sua análise da Educação Nova, assim como fez com a Educação Tradicional, Snyders descobre qualidades e problemas, ou o que ele chama de “perigos”, pois colocam-se contra os objetivos da educação, ao que pretende as pedagogias apresentadas, ou seja, a formação plena do indivíduo, com liberdade, autonomia, originalidade, capacidade crítica e de intervenção na realidade.
Aquilo que existe de muito importante na pedagogia não-diretiva é o desejo da felicidade do aluno, (...). Mas o que nessa pedagogia me parece perigoso é o risco de conformismo, porque o desejo dos alunos não vai, por si próprio, além dos seus limites de classe social, bem como um risco de cepticismo, por não se ousar, não se poder ousar, fazer com eles um trabalho de aprofundamento e desmascaramento das ideologias. O meu sonho consistiria em unir os valores positivos da pedagogia não-diretiva a um processo que jogaria também com os conteúdos do ensino e com as ideias de que os alunos devem se apropriar. (Snyders, 1984:21)
Se, de um lado a Educação Nova, faz avançar os métodos de aprendizagem e as questões relativas à relação professor-aluno, por outro, ao recusar os modelos, ao não dar atenção ao que se aprende, como se o conhecimento e o processo de formação do conhecimento fossem neutros, acima das relações sociais, acaba por fortalecer a situação vigente, não contribuindo substancialmente para a formação dos alunos, na sua inserção na sociedade, nas lutas sociais, na transformação da sociedade capitalista.
Snyders conclui que a Educação Nova não supera a Educação Tradicional, não resolve os problemas, as questões que ela mesma localiza como falhas da educação anterior. Ao buscar as soluções, acaba enveredando no não-dirigismo, no espontaneísmo e, assim, nega o que ela própria coloca de mais importante: a felicidade dos alunos, a alegria específica do escolar, da cultura elaborada, a preparação para o mundo, a democracia.
Para Snyders seus métodos e descobertas só poderão dar resultados positivos se colocados na perspectiva de uma educação vinculada à luta de classes, no desmascaramento das ideologias dominantes.
O problema principal de Snyders não é o de estabelecer uma relação crítica/reformadora com a Educação Tradicional e a Educação Nova, mas a construção de uma pedagogia de inspiração marxista. Seus interlocutores são aqueles que procuram ver na escola uma alternativa de luta ou os que negam qualquer possibilidade desta luta através da escola. Logo não cobra da Escola Tradicional ou Nova um compromisso transformador ou revolucionário, mas daqueles que buscam essa transformação e estão divididos nessas duas expressões da escola burguesa/liberal. Seu confronto com os principais expoentes teóricos, do Tradicional e do Novo, é um esforço por demarcar o terreno do marxismo na pedagogia e trazer novos “adeptos”.
Na análise das duas formas de educação dominantes (Educação Tradicional e Nova) podemos verificar que Snyders realiza a sua crítica, partindo de conceitos marxistas que vão estabelecer os limites e problemas contidos nestas pedagogias. Os conceitos principais utilizados por ele, e que vão servir também na elaboração da sua pedagogia progressista, são os conceitos de homem (enquanto ser social, situado historicamente), de liberdade, de verdade (a máxima apreensão da realidade), de progresso (desenvolvimento social) e de luta de classe; os conceitos chaves da filosofia materialista dialética. Snyders utiliza, (em Pedagogia Progressista e Para Onde Vão as Pedagogias Não-Diretivas?) neste sentido, como referências, textos de K. Marx, F. Engels, V. I. Lenine, N. Kroupskaia, Anton S. Makarenko, A. Gramsci, L. Althusser, Sève, J. P. Sartre, P. Eluard, L. Aragon, H. Wallon e Gyogy Aczel. Utiliza-se também de autores não diretamente ligados ao marxismo, mas que ele avalia apresentarem contribuições importantes, como G. Bachelard, Fernand Oury, R. Leroy, J. Jaurès, Wittwer, C. Passeron, etc.

A Pedagogia Progressista


Após analisar as Pedagogias Nova e Tradicional, verificar a coerência de seus métodos e técnicas com o que elas propõem, Snyders parte para a construção de uma pedagogia de inspiração marxista gestada para a realidade capitalista.
A elaboração desta pedagogia ocorre entre 1968, com Pedagogia Progressista, 1973 com Para Onde Vão as Pedagogias Não-Diretivas?, e 1976 com Escola, Classe e Luta de Classe. Nos dois primeiros livros elabora a crítica à educação Nova e Tradicional e constrói a Pedagogia Progressista, e em Escola, Classes e Luta de Classes insere sua proposta pedagógica na luta de classes, nos debates travados principalmente pela sociologia da educação acerca do papel da educação, dos sistemas escolares e seu papel na exclusão escolar e a criação de desigualdades sociais.
Snyders propõe uma pedagogia que tem como ponto de partida a primazia dos conteúdos. O objetivo de tal pedagogia é o de levar o aluno a um conhecimento verdadeiro, científico, que lhe possibilite uma formação e posse do conhecimento acumulado pela humanidade e, assim, possa participar das lutas de seu tempo, possa contribuir para a transformação da sociedade. E isto só pode ser feito se o conteúdo, o saber escolar, estiver em continuidade com a realidade dos alunos e ao mesmo tempo lhes forneça elementos para uma ruptura com a ideologia dominante. 
Nesta perspectiva, o papel do professor é o de direção, de quem vai guiar os alunos na sua busca, que vai ajudar-lhes neste movimento de continuidade e rupturas. Esta pedagogia pressupõe fundamentalmente uma reavaliação crítica da cultura. Não se trata apenas de “passar quaisquer conceitos e conhecimentos” aos alunos. Trata-se de reavaliar a cultura, a cultura que está sob o domínio das classes dominantes e colocá-la a serviço das classes dominadas, retirando dela os seus elementos originais, o seu caráter de luta, de descobertas, de avanços, de síntese de uma dada realidade, de progresso.
A Pedagogia Progressista dá primazia aos conteúdos, mas não se resume a eles. É o seu ponto de partida, é de onde se definem os seus métodos. Sua metodologia é concebida à partir da teoria do conhecimento marxista, pela dialética materialista, pelo movimento de continuidade e ruptura. Parte-se da necessidade e aspirações dos alunos, de sua realidade, para então realizar as rupturas, sair do imediato e chegar ao teórico, ao abstrato; e depois retornar ao real com uma nova visão que possibilita uma nova ação sobre ele.
Esta pedagogia não é a educação socialista, ou a de uma sociedade sem classes, mas sim a que busca contribuir, se inserir na luta de classes para a sua superação. Para Snyders a escola é palco da luta de classes, e por isto deve ser utilizada pelas classes exploradas, pelas forças progressistas, como um dos seus instrumentos de libertação.
É interessante observar que embora Snyders esteja constantemente se referindo a luta de classes, a dominação, a exploração e a ideologia dominante capitalista, este, em momento algum de sua obra trata do Estado, das relações entre o Estado e a educação. Sua visão de transformação social e da escola, passa pela formação de “zonas de consenso”, através da união de diversos setores de classes, contra as classes dominantes, e neste sentido nada diz sobre o Estado.

A Alegria na Escola


Podemos localizar uma certa mudança de ênfase nos trabalhos de Snyders em Alegria na Escola, publicado em 1986. Este livro dá seqüência à uma série de outros que têm sempre em seus títulos o que parece ser, a partir de então, a preocupação central de Snyders: a alegria na escola. Fazem parte deste conjunto os livros: Alunos Felizes- Reflexão Sobre a Alegria na Escola a Partir de Textos Literários (1991), A Escola Pode Ensinar as Alegrias da Música? (1991) e Feliz na Universidade. Estudo a Partir de Algumas Biografias (1993/94).
Entretanto já em 1982, ao participar das “Jornadas Pedagógicas do Outono” organizada pelos Sindicatos dos Professores da Grande Lisboa e da Zona Sul, em Lisboa e Évora - Portugal - Snyders manifestava a preocupação em discutir a questão da alegria na escola. Nesta exposição, Snyders já expõe o núcleo central do que seria seu livro Alegria na Escola e as preocupações que vão se fazer presentes nos próximos livros. Alunos Felizes pode ser considerado uma continuidade de Alegria na Escola como o estudo, a pesquisa através de textos literários, biografias, etc., da manifestação da alegria na escola, de sua existência e necessidade de alargá-la, aprofundá-la. Já A Escola Pode Ensinar as Alegrias da Música? é o resultado de dois artigos publicados nas revista Enface e Revue des Sciences de l’Éducation, com influências de um estudo realizado anteriormente com o título: Le Goût musical en France aux 17e et 18e siècles. 
O ensino da musica é só “um pretexto”, um motivo, para que este discuta a alegria na escola. Através do ensino da música Snyders procura mostrar/demonstrar como é possível a alegria na escola, o que significa a busca da alegria na escola e suas consequências. E, por fim, em Feliz na Universidade, Snyders se propõe verificar as alegrias possíveis nas universidades, seu caráter diferenciado e suas possibilidades.
Em uma análise superficial, sem maiores aprofundamentos, podemos estranhar tal mudança de ênfase, de temática, de Georges Snyders. Nosso estranhamento pode ser causado inicialmente pelo fato de encontrarmos um tema que não é normalmente tratado por teóricos marxistas, ou ainda, não é geralmente associado as proposições e estudos baseados no marxismo[7]. Snyders que se caracterizou como o defensor da pedagogia progressista, pela democratização da escola, por pautar suas propostas na ótica da luta de classes, no marxismo, passa agora a falar em “alegria” na escola. Teria este abandonado seus pressupostos anteriores? Deixou o marxismo como princípio diretor? Abandonou a luta por uma pedagogia progressista e a democratização do ensino?
Ao analisar as obras acima referidas, respondemos a estas questões de forma negativa. Snyders não abandona sua perspectiva marxista, sua Pedagogia Progressista, a luta pela democratização do ensino e transformação da sociedade, simplesmente passa a tratar agora destes temas através da discussão centrada na questão da alegria na escola, que ao nosso ver constitui um desdobramento, um aprofundamento da Pedagogia Progressista. Este tema já estava presente nos livros anteriores, apenas não havia sido desenvolvido, exemplificado, tratado em primeiro plano.
Snyders não renuncia nada em relação ao que produziu anteriormente, embora passe agora a tratar de certas questões com menor contundência ou relevância, enquanto que trata de outras com mais importância. Neste sentido, afirmamos que o tema da “alegria na escola” é uma continuidade da Pedagogia Progressista. A alegria, presente em outras obras, ganha um novo enfoque, uma nova argumentação, uma importância destacada.
Podemos inferir que esta nova preocupação de Snyders “brota”, não só de um objetivo de aprofundar as questões que já vinham sendo discutidas ao estabelecer a Pedagogia Progressista, mas também devido às mudanças na conjuntura em que vive, as mudanças ocorridas na sociedade, na educação e na escola nos anos 80 e início dos anos 90. Snyders sempre se mostrou profundamente preocupado com as questões mais imediatas da sociedade francesa (e do mundo contemporâneo) e que atingiam diretamente as crianças, a educação, a sociedade, como por exemplo, o crescimento constante do desemprego e a reação racista dos trabalhadores europeus ao crescente número de trabalhadores imigrantes[8]; a desvalorização da educação, o surgimento de formas de educação não escolar (como por exemplo o uso da TV, a proliferação de cursos os mais variados possíveis, colocados como “complementares à escola”, os programas de educação à distancia, etc.), que tendem a desvalorizar ou mesmo a substituir a escola; a visão negativa do presente que já existia, mas que com a nova conjuntura (nova ordem internacional, o fim do socialismo, a ausência de novas perspectivas de transformações sociais, o crescente misticismo e a crítica à razão e ao humanismo, etc.) reforça cada vez mais a retração dos movimentos progressistas e avanço da direita, etc.

Em Alegria na Escola, Snyders trabalha com três temas principais:

O primeiro [tema] é naturalmente uma ambição de renovar a escola (...) Esta renovação, quero afirmar que só pode se realizar a partir de uma renovação do que há de essencial na escola, especifico na tarefa da escola: a cultura, cujo acesso e participação são permitidos aos jovens pela escola. (...) renovar a escola a partir de uma transformação dos conteúdos culturais (Snyders., 1988: 11)
Este tema é básico em Snyders, se coloca desde seu primeiro livro, é a sua preocupação constante. E a resposta a esta inquietação, esta necessidade de renovar a escola, também não é nova. A resposta/proposta de renovação da educação pela mudança, crítica, reavaliação crítica dos conteúdos, centrada na questão dos conteúdos, é definida por Snyders desde Pedagogia Progressista. O que parece novo nesta colocação é a questão da cultura, a precisão maior de termos ou melhor sua ampliação. Agora não se fala somente em conteúdos ou modelos do ensino, mas em cultura. Esta evolução já podia ser percebida em Escola, Classe e Luta de Classes, onde Snyders, para combater as correntes que não viam na escola a possibilidade de luta, discute longamente a questão da cultura e seu papel, apoiando-se principalmente em Gramsci. 
A substituição do conceito de conteúdo pelo de cultura ocorre, não apenas pela realização da crítica, mas também pela necessidade de sair do “propriamente pedagógico”, da análise pedagógica, para uma visão mais geral e abrangente da cultura e do pedagógico, da relação com o saber ensinado, com a ideologia dominante e a transformação social.
O segundo tema se refere às funções da escola, que Snyders separa em, principalmente, duas: a primeira, seria a preparação para o futuro, para a vida adulta, para atuar e transformar a sociedade; a segunda, estaria relacionada com o tempo em que as crianças e jovens permanecem na escola:

[Quero] pensar a escola e o aluno no presente. O que isto pode oferecer aos jovens, na sua vida de jovens, durante sua vida de jovens, passar tantos dias na escola? (...) Como podemos transformar a escola para que... Dez anos obrigatórios de escola: são dez anos feitos para satisfação cultural (...) (Snyders, 1988: 12-3)
Neste tema é que vão se situar as novas preocupações de Snyders. Este é o elemento novo que surge em Alegria na Escola, é o “norte” que vai dar a linha aos seus novos livros, que vai se articular com a Pedagogia Progressista. Assim, os dois primeiros temas, a renovação da escola pelos conteúdos e a alegria na escola no presente, são articulados com o terceiro tema, a cultura:
De fato, meu problema é unir os dois temas que acabo de expor: para dar alegria aos alunos, coloco minha esperança na renovação dos conteúdos culturais. A fonte de alegria dos alunos, não a procuro inicialmente do lado dos jogos, nem dos métodos agradáveis, nem do lado das relações simpáticas entre professores e alunos, nem mesmo na região da autonomia e da escolha [como pretende a Educação Nova]: não renuncio a nenhum destes valores, mas quero reencontrá-los como conseqüências e não como causas primeiras. (...) Determinando desde logo que há, que se trata de resgatar, até mesmo de criar um conjunto cultural que se possa propor a cada idade (...) (Snyders, 1988:13)
O terceiro tema, da cultura, consiste no núcleo aglutinador da sua proposta pedagógica, ou seja, na configuração da alegria possível na escola.
A discussão da cultura situa-se no debate sobre continuidade/ruptura, desenvolvido em Para Onde Vão as Pedagogias Não-Diretivas? e Escola, Classe e Luta de Classes. Snyders trabalha com a idéia de que existem basicamente dois tipos de cultura: uma cultura imediata, formada no cotidiano, não sistematizada, que ele chama de cultura primeira, e uma cultura sistematizada, que ele ora denomina de cultura elaborada, ora de cultura escolar. O que aqui está em questão é a discussão já travada por Gramsci (retomada por Snyders, com acréscimo dos estudos de Bachelard) entre senso comum e ciência, ou entre cultura popular e conhecimento científico. Snyders procura demonstrar que entre as duas formas de cultura não existem antagonismos; existem diferenças, mas estas não criam entre as duas um fosso intransponível. Pelo contrário, de uma forma dialética, a cultura escolar, representada pelo professor, encontra-se em continuidade com a cultura primeira, que é a cultura do aluno. Do mesmo modo, entretanto, existe também uma ruptura entre elas, já que a cultura elaborada operou uma crítica sobre a cultura primeira, organizou e sistematizou seus dados o que possibilita uma nova visão da realidade.
Para Snyders, a escola, a Pedagogia Progressista, tem que realizar este movimento, o movimento de fazer passar da cultura primeira à cultura elaborada, sem que seja necessário negar ou abandonar a primeira, mas sabendo situar seus limites a ampliar e aprofundar o que nesta era só uma impressão, algo pressentido, não sistematizado.
Para que o aluno tenha alegria na escola, para que esta seja significativa, tenha significado, lhe dê respostas às suas indagações, a escola deve partir da cultura dos alunos, de sua experiência imediata, pois ela já contem elementos válidos (relacionado com os conceitos de Snyders de progresso e presente) e, a partir daí, realizar a ruptura, apresentando-lhe a cultura elaborada, o conhecimento escolar, que o auxiliará a ver de forma diferente, ampliada, crítica, o que já se pressentia em sua experiência de forma a-sistemática, não acabada, plena. Ao realizar este movimento o aluno tem alegria presente, alegria que o forma e transforma, pois possibilita a compreensão da realidade e lhe dá impulso para agir.
O conceito de alegria desenvolvido por Snyders não é uma alegria qualquer, um estado de graça, um descomprometimento, um afastamento da realidade e seus problemas. É a alegria de compreender, de sentir, descobrir a realidade, de poder decifrá-la e sobre ela atuar, de romper com as inseguranças e incertezas, buscar a plenitude, as formas mais acabadas, seja nas artes, nas técnicas, na ciência, etc. 
A alegria que Snyders tem em mente é a busca da originalidade, da criatividade, da auto-superação e crescimento constante das potencialidades dos indivíduos, da supressão (ou pelos menos sua diminuição) das inseguranças, do medo e incertezas. É a alegria de saber, de conhecer e poder escolher criticamente as diversas possibilidades oferecidas pela realidade. É o conceito de humanização do homem da filosofia marxista, ou seja, o pleno desenvolvimento das potencialidades humanas. E esta alegria cultural está profundamente relacionada com a transformação da sociedade:
É precisamente para não esquecer a infelicidade dos outros, para ter a força para participar das lutas, que tenho necessidade da satisfação,(...). Satisfação bem intensa para fazer sentir que vale a pena viver, satisfação da cultura que me farão sentir o possível desabrochar do homem (...) e a satisfação de persuadir-me de que sou capaz de juntar-me a esses esforços. (...) “nada pode pela felicidade de outrem, aquele que não sabe ser feliz ele próprio[9]”(Snyders, 1988:21)
Esta satisfação, alegria proporcionada pela cultura, que busca Snyders, deve ocorrer na escola. Esta satisfação se inscreve na Pedagogia Progressista, por ele definida em suas obras anteriores e reafirmada em Alegria na Escola.
Para Snyders a alegria na escola não significa que o aluno não tenha que enfrentar dificuldades, realizar exercícios, cumprir uma disciplina, pelo contrário. Para se atingir a alegria são necessárias intervenções dos alunos, como uma atividade constante de estudos, de realização de esforços, etc.; “o saber não sai suavemente do bom senso comum” (Snyders, 1988: 103). Daí, a necessidade da escola, de se manter o escolar com o que este tem de específico. Não devemos renunciar à escola, ao papel de conduzir os alunos à posse da cultura elaborada, à satisfação cultural, à alegria.
Para se ter “alegria na escola” é necessário renovar a escola no que ela tem de específico, no que lhe é característico: a estrutura sistematizada, uma organização sistemática e continuada de situações, seu rigor (avaliação constante), a presença do obrigatório, o deferido (a preparação para o futuro).
“Iniciei pela satisfação na escola - e me dei conta que, novamente, encontro o marxismo” (Snyders, 1988: 195) afirma Snyders, pois ao propor a questão da alegria, da satisfação cultural, se coloca a questão da utilização da cultura pelas classes dominantes, da necessidade da reavaliação crítica da cultura, do papel da escola na luta de classes. Ou seja, para ele, não é possível discutir a alegria na escola sem situá-la dentro destas questões mais gerais. A busca da alegria na escola é mais um elemento na luta contra a dominação e exploração, a segregação escolar, os fracassos escolares das classes dominadas. Para Snyders a luta por uma escola mais democratizada, que se insere na luta de classe, passa por uma luta também no plano de uma luta cultural, na afirmação do progresso.
Nesta perspectiva é que se situa a preocupação de Snyders com a alegria na escola. E como podemos verificar, ele não abandona o que vinha até então elaborando e defendendo. Sua nova perspectiva continua sendo pensada dentro dos mesmos conceitos e princípios que anteriormente. O marxismo, seu método e princípios gerais, continuam sendo a referência básica deste autor. Por isso, afirmarmos que a “alegria na escola” constitui o complemento, a continuidade, a reafirmação, colocada com outros exemplos e aprofundado em alguns pontos, da Pedagogia Progressista.

Conclusões


A obra de Snyders, assim analisada, constitui um único conjunto em que o autor, de obra em obra vai construindo e ampliando constantemente os conceitos e princípios nos quais elabora sua pedagogia, sua visão de educação, sua proposta política. Estas redefinições e novas ênfases vão ser definidas tanto pelos objetivos traçados pelo autor (a renovação da educação, a constituição de uma pedagogia progressista, a luta por uma sociedade socialista) quanto principalmente, pelos embates teóricos que trava e as mudanças na conjuntura em que produz (mudanças na realidade).
A perspectiva da pedagogia progressista leva-nos a questionar os conceitos de liberdade, igualdade, democracia, participação, originalidade, transmitidos pelas escolas brasileiras, assim como, questionar os conteúdos e metodologias utilizadas. Como nossas escolas veem o presente? Que ideia fazem de progresso? Como entendem as crianças e suas relações com o mundo? 
Essas questões são fundamentais para a real transformação da educação no Brasil, se queremos de fato avaliá-la, e se acreditamos que esta tem um papel a cumprir na transformação da sociedade brasileira. Mais do que nunca, cabe-nos a tarefa de afirmar a escola como lugar de acesso a cultura elaborada, como lugar de satisfação cultural escolar, nas perspectivas apontadas por Georges Snyders.

Referências Bibliográficas


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[1] Preocupado com a situação do ensino na França e as novas alternativas que estavam a se afirmar, a Escola Nova, a Educação Nova, as Pedagogias Não-Diretivas, Georges Snyders, se propõe a estudar o Ensino Tradicional e a Educação Nova e, a partir daí, elaborar uma nova pedagogia, a Pedagogia Progressista, com o aporte teórico do marxismo. Inserido nos amplos debates ocorridos na área da educação nas décadas de 50, 60 e 70, promovidos principalmente pela sociologia da educação, Snyders vai procurar se contrapor às duas correntes majoritárias presentes: a corrente funcionalista que vislumbrava a educação como equalizadora dos problemas sociais, redentora das desigualdades sociais, e a corrente crítica (com aportes do estruturalismo) que vislumbrava a educação apenas como mecanismo social de perpetuação e de legitimação de hierarquias e divisões sociais, como agente de reprodução das condições sociais.


[2] Como por exemplo, os estudos de Dermerval Saviani, José Carlos Libâneo, Paolo Nosella, Giomar N. de Mello, e outros, na perspectiva da Pedagogia Crítico-Social dos Conteúdos, da Pedagogia Histórico-Crítica e Pedagogia Concreta.


[3] Como por exemplo, no ocorrido entre ele e o educador S. Freinet na década de 50 e que teve como “mediador” Roger Garaudy (na época prestigiado membro do PCF e deputado na Assembléia Nacional) que acabou dando razão a Snyders, segundo o Prof. Dr. Flávio Brayner.


[4] A única obra de Snyders que não estaria claramente dentro deste dois grupos é: Não é Fácil Amar Nossos Filhos, onde ele se “distancia” das questões da educação formal para então discutir o amor pelos filhos, a família, o papel da cultura e a educação informal. No levantamento bibliográfico que realizamos, encontramos as seguintes obras de Snyders disponíveis no mercado livreiro ou em bibliotecas públicas: La Pedagogia en Francia en los Siglos XVII y XVIII in Tratado de La Pedagogia II - Debesse e Mialaret - 1974 (também editado em português); Pedagogia Progressista (1974); Para Onde Vão as Pedagogias Não Diretivas? (1978), Escola, Classes e Luta de Classes (1977); Não é Fácil Amar os Nossos Filhos (1984); As Pedagogias Não-Diretivas - Conferencias: Jornadas Pedagógicas (1984); A Alegria na Escola (1988); ?Es Possivel Aplicar en Francia una Pedagogia Inspirada en Makarenko? in Educadores Del Mundo (1988); Escola e Democratização do Ensino - Entrevista - Revista Educação em Questão (1989); Alunos Felizes (1993); A Escola Pode Ensinar as Alegrias da Musica? (1992); Felizes na Universidade (1995). Além de alguns exemplares das revistas Enfance (UnB) e Revue Française de Pédagogie (UFRGS-UnB-USP) onde estão alguns artigos de Snyders e artigos com críticas e comentários sobre seus artigos. Maiores referências ver bibliografia.


[5] Como por exemplo com seus “colegas de Sorbonne” Gilles Ferry (Paris X), Michel Lobrot (Paris XIII), ou com os “discípulos” de seu amigo pessoal e intelectual do PCF (Althusser) Baudelot e Establet.


[6] Em resposta a uma carta por nós enviada, onde perguntávamos sua opinião sobre esta divisão de suas obras, Snyders respondeu: “Você tem razão em dividir meus livros em dois grupos. A alegria que foi somente uma componente dos primeiros livros, ela nunca diminuiu, derivou o centro dos últimos (...)”. Carta de 21/8/95


[7] Esta dificuldade de associar marxismo e o tema da alegria, da satisfação, etc., decorre tanto dos estereótipos que se fez do marxismo, não só por quem o combate, mas muitas vez, por tendências dentro do marxismo que realmente não trabalham com estes temas ou mesmo nem os consideram relevantes, como por exemplo a corrente stalinista. Entretanto existem autores marxistas que tem contato ou mesmo discutem estes temas, dos quais Snyders faz uso, como M. Bakitin, B. Brecht, V. Maiakovisk, etc..


[8] Alguns indicadores sobre o que estamos tratando: O crescimento anual da economia francesa em 1980 foi de 2,5% em 1991 cai para 1,2%. A população ativa empregada na industria diminui de 35,9% do total em 1980 para 29,.9% em 1991. O desemprego aumentou de 6,3% em 1980 para 9,8% em 1991. A administração publica chega em 1991 com um saldo negativo de -1,5%. Fonte: O Mundo Hoje - Anuário Econômico e Geopolítico Mundial /93 - Ed. Ensaio - SP - 1993. Quanto ao racismo, vale a pena ler o livro de Robert Linhart “A Greve na Fabrica” - Ed. Paz e Terra - onde ao retratar as aventuras e desventuras de um intelectual na produção (na fabrica de automóveis Citroen), nos mostra como são tratados os trabalhadores imigrados.


[9] Cita A. Gide, Nouvelle Nourritures, I

GLOSSÁRIO DE TERMOS PIAGETIANOS

- Abertura: realização das possibilidades operativas de uma estrutura de comportamento (verbal, motora e mental). - Acomodação: reestruturaç...