Os oralistas, atualmente, tem pensado a história de outras maneiras; pensar o passado a partir do presente, na busca de um entendimento do nosso tempo, dando atenção para a “outra história”. Como fenômeno renovado, a partir do uso de entrevistas, a história oral tem resgatado do silêncio, a história de determinados seguimentos da sociedade que se fizeram calar ou por qualquer outro motivo que os levaram ao esquecimento.
Apesar de muitas vezes colocado em segundo plano, o testemunho oral representa o núcleo da investigação, nunca sua parte acessória, o que obriga o historiador a levar em conta perspectivas nem sempre presentes em outros trabalhos históricos, como por exemplo, as relações entre escrita e oralidade, memória e história ou tradição oral e história.
Além disso, o uso sistemático do testemunho oral possibilita à história oral esclarecer trajetórias individuais, eventos ou processos que às vezes não têm, como ser entendidas ou elucidados de outra forma: são depoimentos de analfabetos, rebeldes, mulheres, crianças, miseráveis, prisioneiros, loucos. São histórias de movimentos sociais populares, de lutas cotidianas encobertas ou esquecidas, de versões menosprezadas; essa característica permitiu inclusive que uma vertente da história oral se tenha constituído ligada à história dos excluídos.
A história oral, em grande parte, carece de uma maior especificação teórica. Apesar de já possuir uma vasta literatura discutindo sua conceituação e bases metodológicas. De certa maneira, a história oral, mais do que novo campo de reflexão tem servido enquanto metodologia de obtenção de dados, ou ainda como técnica auxiliar. É preciso reconhece-la como marco inicial de reflexões levantadas acerca do novo fazer histórico. Um dos problemas centrais, assim, está ligado a especificidade da documentação com a qual se trabalha: a história da vida.
A história da vida enquanto documento possui duas particularidades que de certa forma são novos no trabalho do historiador para com a documentação. O primeiro está no fato de que a fonte é produzida, de certa maneira, pelo pesquisador. Num segundo momento, o caminho traçado pelo oralista é o da leitura de sua própria documentação, realizando as entrevistas, transcrevendo-as e trabalhando o texto do oral para o escrito, constituindo então um documento.
Esse domínio pelo historiador do documento permite uma leitura mais completa e profunda do historiador.
O entrevistado fala sobre o passado posicionado no presente. Diversamente de um documento cartorial, a narrativa realizada na entrevista é uma narração baseada na recordação, na rememoração de fatos acontecidos. A questão crucial é a seguinte: será que a visão do homem de hoje é a mesma do que ele tinha no momento do acontecido, seja uma guerra, uma greve ou mesmo a vida cotidiana de um bairro. Muitas vezes estamos mais interessados em como a pessoa vê seu passado do que observar se o que ela narra realmente aconteceu.
O historiador não se neutraliza diante do fato narrado, ficando de modo acrítico, a história de vida da pessoa como uma narração do acontecido. Interessa, menos do que postular os fatos verdadeiros do passado, entender os mecanismos que criaram esse passado construído, para a partir daí pensar na visão do narrador do passado, buscando inclusive num segundo momento, o entendimento analítico-histórico dos fatos acontecidos. Menos do que detectar “mentiras”, interessam-nos as versões.
Entre memória e história
A relação entre memória e história é problemática e tem sido foco do trabalho teórico de vários historiadores, psicólogos e cientistas sociais. Numa visão tradicional, a relação entre história e memória é relativamente simples, cabendo ao historiador um papel de 'lembrador', guardião da memória dos acontecimentos públicos a serem preservados para a posteridade por meio do registro escrito. Cabe, pois, ao historiador salvaguardar da enxurrada do esquecimento, que tudo leva, os grandes feitos e seus protagonistas.
Ao contrário das visões tradicionais, novas formulações levam a compreender a memória como um conjunto de representações do passado, desde a história erudita até a tradição oral, colocando-a como objeto de estudo e de interesse para os historiadores. E ainda as construções teóricas dos historiadores, também como produto do jogo social nos contextos em que atuam.
Nessa perspectiva, não só outros indicadores da memória passam a ser valorizados, como os registros orais de grupos minoritários, excluídos e/ou ágrafos, outros tipos de documentos e vestígios passaram a ser objeto de trabalho a partir dos quais pôde-se compreender as relações sociais no tempo. Também outros temas passam a ser objeto de estudo dos historiadores. As mentalidades, os elementos do cotidiano integram os focos de trabalho, dando origem a um movimento a que se denominou Nova História.
A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que já se foi. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história uma representação do passado. Há, como disse Halbwachs, tantas memórias quanto grupos porém a história pertence a todos e a ninguém o que lhe confere uma vocação universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem e no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações entre as coisas.
Maurice Halbwachs considera que um indivíduo participa de duas espécies de memórias, as individuais e as coletivas. De um lado, tem suas lembranças formadas por sua vida pessoal, no quadro de sua personalidade. Ao mesmo tempo, há um conjunto de outras lembranças, compartilhada a tal indivíduo por outras pessoas ou grupos e que se tornam impessoais.
De acordo com Halbwachs, a memória coletiva supõe uma multiplicidade de tempos coletivos, à medida em que grupos separados ou culturas específicas contêm um ritmo e espacialidade próprios, particulares.
Pensando a memória, enquanto prática de representação social, vale discutirmos algumas questões tanto da natureza do objeto quanto da produção do conhecimento histórico. Nesta perspectiva, em que a memória se apresenta em crise, focamos atenção para a política de preservação da imagem da cidade relativo aos lugares de memória além dos problemas documentais que a sociedade de informação vem produzindo no mundo capitalista hoje.
Neste sentido, vamos muitas vezes nos deparar, com rupturas com o passado, o que gera um esfacelamento da própria memória e cujo fenômeno, além de atingir o indivíduo e a própria sociedade, afeta também a cidade, levando-nos a curiosidade pelos lugares de memória. Assim, quando pensamos na memória, nos vêm logo à cabeça alguns pontos de referência tais como; monumentos, patrimônio arquitetônico, paisagens, datas, personagens históricos, tradições e costumes, regras de interação, folclore e música, tradições culinárias, etc.
Diferentemente de todos os objetos da história, os lugares de memória não têm referentes na realidade. Eles são, eles mesmos, seu próprio referente, sinais que devolvem a si mesmos, sinais em estado puro. Ele é um lugar duplo, um lugar de excesso, fechado sobre si mesmo, fechado sobre sua identidade, e recolhido sobre seu nome, mas constantemente aberto sobre a extensão de suas significações.
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