domingo, 27 de setembro de 2026

Maurice Halbwachs – A memória coletiva


Halbwachs (1990) não estuda a memória em si, mas os quadros sociais da memória. Conforme a sua teoria, as lembranças não são individuais, embora o indivíduo seja a primeira testemunha à qual pode apelar. Elas são coletivas, são lembradas pelos outros, mesmo que somente a uma pessoa digam respeito.
Assim, o autor relaciona a memória à participação em um grupo social, de forma que, quando nos lembramos, deslocamo-nos de um grupo a outro, em pensamento, da mesma forma que o esquecimento é explicado pelo desapego aos grupos, distância ou isolamento; a falta de interesse por determinado grupo faz com que dele uma pessoa se afaste e tenha apenas uma vaga lembrança.
Halbwachs não considera a memória individual como condição suficiente para o ato de lembrar e reconhecer e nem a reconstituição ou depoimentos dos outros para a transformação da imagem em lembranças. Segundo ele, é preciso que haja pontos de contato entre as memórias individuais, para que as lembranças sejam reconstruídas sobre base comum. A duração da memória estaria relacionada à força e duração do grupo; o lugar ocupado no conjunto define as pessoas e os fatos a serem lembrados ou esquecidos.
A memória individual está compreendida dentro de uma memória mais ampla, que o autor chama de memória coletiva, esta não explica todas as lembranças, mas as noções e imagens dos meios sociais dos quais fazemos parte envolvem as recordações individuais. 
Os sentimentos e pensamentos mais pessoais emergem nos meios de circunstâncias sociais. Halbwachs circunscreve as lembranças e a significação aos grupos; o sentido dos acontecimentos muda quando o sujeito muda de grupo. Desta forma, é focalizado o presente. Nesta definição de Halbwachs é possível estabelecer uma relação com a teoria histórico-cultural. 
O sujeito lembra de determinada situação motivado por um elemento do presente. Chama estes elementos de pontos de contato entre memórias individuais, podendo ser palavras, objetos, fotos trazidas por um amigo.

Citações do Livro:


Maurice Halbwachs – A memória coletiva

 

“A primeira testemunha, à qual podemos sempre apelar, é a nós próprios”(p.25)

“Podemos reconstruir um conjunto de lembranças de modo a reconhece-los.” (p.25)

“se nossa impressão pode apoiar-se não somente sobre nossa lembrança, mas também sobre a dos outros, nossa confiança na exatidão de nossa evocação será maior”(p.25)

“Mas nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. É porque, em realidade nunca estamos sós. (...) Em todos os momentos, em todas essas circunstancias, não posso dizer que estava só, que refletia sozinho, já que em pensamento eu me deslocava de um tal grupo para outro (...)”(p.26)

“Assim para confirmar ou recordar uma lembrança, as testemunhas, no sentido comum do termo, isto é, indivíduos presentes sob uma forma material e sensível, não são necessárias.” (p.27)

“(...) houve em nossa vida um certo número de incidentes marcantes que não puderam deixar de acontecer. (...) Todavia, ainda que esse fato possa ser localizado no tempo e no espaço, mesmo que parentes ou amigos disso me fizessem uma descrição exata, acho-me em presença de um dado abstrato, para o qual me é impossível fazer corresponder qualquer recordação viva: não lembro de nada.”(p.27)

“(...)se na ausência dessas testemunhas nós nos sentimos inteiramente incapazes de lhe reconstruir uma parte qualquer; aqueles que nô-la descrevem poderão fazer-nos um quadro vivo dela, mas isso não será jamais uma lembrança.” (p.28)

“Quantas vezes não acontece, com efeito, que, nas sociedades de toda natureza que os homens formam entre si, um deles não faça uma idéia correta do lugar que ocupa no pensamento dos demais, e quantos mal entendidos e desilusões não têm a sua fonte numa tal diversidade de pontos de vista?” (p.30)

“Há pessoas de que dizemos que estão sempre o presente, isto é, que eles não se interessam senão pelas pessoas e pelas coisas no meio das quais se encontram no momento, e que estão em relação com o objeto atual de sua atividade, ocupação ou distração. (...) Logo são absorvidas por outros interesses, engajadas em outros grupos. Uma espécie de instituto vital lhes ordena desviar seu pensamento de tudo aquilo que poderia distraí-las do que as preocupa atualmente.” (31)

“(...) se encontramos mais tarde membros de uma sociedade que se tornou para nós a tal ponto estranha, por mais que nos encontremos no meio deles, não conseguimos reconstituir com eles o grupo antigo. (...) Recolocamos os diversos detalhes dentro de um outro conjunto constituído por nossas representações do momento. (...) Tudo se passa aqui como no caso dessas amnésias patológicas que se referem a um conjunto bem definido e limitado de lembranças. (...) Mas poderemos dizer, assim, que o que está afetado é a faculdade em geral de entrar em relação com os grupos de que se compõe a sociedade. Então separam-nos de um ou de alguns dentre eles, e deles unicamente. Todo o conjunto das lembranças que temos em comum com eles bruscamente desaparecem. Esquecer um período de sua vida é perder contato com aqueles que então nos rodeavam.” (p.32)

“Não há motivo, aliás, para se espantar caso essas lembranças se diluam todas ao mesmo tempo e se anulem. É porque formam um sistema independente, pelo fato de serem as lembranças de um mesmo grupo ligadas uma a outra e apoiadas de certo modo uma sobre a outra; e que esse grupo é nitidamente distinto de todos os outros.(...) pouco a pouco distanciamos e nos isolamos de certos meios que não nos esquecem, mas de que conservamos apenas uma lembrança vaga.”(p.33)

“Se agora dois desses grupos entram em contato, o que lhes falta precisamente para se compreenderem, se entenderem e confirmarem mutuamente as lembranças desse passado de vida comum é a faculdade de esquecer as barreiras que os separam no presente.” (p.35)

“quando os homens não estão materialmente presentes, se possa falar de memória coletiva quando evocamos um acontecimento que teve lugar na vida de nosso grupo e que considerávamos” (p.36)

“Haveria então, na base de toda a lembrança, o chamado a um estado de consciência puramente individual que – para distingui-lo das percepções onde entram tatos elementos do pensamento social – admitiremos que se chame intuição sensível.” (p.37)

“Se não nos recordamos de nossa primeira infância, é, com efeito, porque nossas impressões não se podem relacionar com esteio nenhum, enquanto não somos ainda um ente social.” (p.38)

“Revejo o acontecimento (na primeira infância), mas provavelmente não se trata de uma lembrança de imagem que formei da coisa muito antigamente, à época das primeiras narrativas que me fizeram dela”. (p.38)

“Uma “corrente de pensamento” social é ordinariamente tão invisível como a atmosfera que respiramos. Só reconhecemos sua existência, na vida normal, quando a ela resistimos; mas uma criança que chama os seus, e que tem necessidade de sua ajuda, não lhes resiste.” (p.40)

“A essas formas que são os quadros coletivos impostos pela sociedade, diz ainda Blondel, é preciso uma matéria. Por que não admitir simplesmente que essa matéria existe realmente, e não é outra senão a que, precisamente, na lembrança, esta sem relação com o quadro” (p.41)

“É por isso que dizemos algumas vezes de alguns homens que eles não tiveram infância, porque a necessidade de ganhar seu pão, impondo-se a eles muito cedo, forçou-os a entrar nos domínios da sociedade onde os homens lutam pela vida, enquanto que a maioria das crianças nem sabem que essas regiões existem; ou porque em conseqüência de uma morte conheceram uma espécie de sofrimento de ordinário reservado aos adultos, e tiveram que enfrentá-lo no mesmo plano que eles.

O conteúdo original de tais lembranças, que as destaca de todas as outras, se explicaria então pelo fato de que elas se encontram no ponto de cruzamento de duas ou varias séries de pensamentos pelas quais elas se relacionam a tantos grupos diferentes (...) já que, essa imagem das coisas não existindo senão para nós, uma parte de nossa lembrança não se adaptaria a nenhuma memória coletiva.” (p.42)

“Consideramos então nossa impressão.(...) ela se desenrolou dentro de um quadro temporal e espacial e em meio a circunstancias sobre as quais nossas preocupações de então projetavam sua sombra, mas que , de seu lado, dela modificavam o curso e o aspecto: como as casas construídas ao pé de um monumento antigo, e quem não tem a mesma idade.” (p.44)

“essas impressões, precisamente porque são novas, e porque contém muitos elementos estranhos ao curso anterior e ao que existe de mais íntimo no curso atual de nossos pensamentos, são também estranhas aos grupos que nos ligam mais estreitamente. (...) pois todos os objetos que vemos, todas as pessoas que ouvimos, talvez não nos impressionem, senão na medida em que nos fazem sentir a ausência dos primeiros.” (pp 44-45)

“No primeiro plano da memória de um grupo se destacam as lembranças dos acontecimentos e das experiências que concernem ao maior número de seus membros e que resultam quer de sua própria vida, quer de suas relações com os grupos mais próximos (...) Quanto àquelas que concernem a um pequeno numero (...) passam para último plano.”(p.45)

“Um grupo entra geralmente em relação com outros grupos. (...) Então nascem as lembranças, compreendidas em dois quadros de pensamentos que são comuns aos membros dos dois grupos(...) duas correntes de pensamento divergentes.”(p.46)

“Acontece com muita freqüência que nos atribuímos a nós mesmos, como se elas não tivessem sua origem em parte alguma senão em nós, idéias e reflexões, ou sentimentos e paixões, que nos foram inspirados por nosso grupo. Estamos então tão bem afinados com aqueles que nos cercam, que vibramos em uníssono, e não sabemos mais onde está o ponto de partida das vibrações, em nós ou nos outros. (...) cada grupo social empenha-se em manter uma semelhante persuasão junto a seus membros. (...) na medida que cedemos sem resistência a uma sugestão de fora, acreditamos pensar e sentir livremente. É assim que a maioria das influencias sociais que obedecemos com mais freqüência nos passam desapercebidas (...) no ponto de encontro de várias correntes de pensamento coletivo (...) se produz um desses estados complexos, onde queremos ver um acontecimento único, que não existira a não ser para nós.” (p.47)

“Em caso semelhante as influências sociais se fazem mais complexas, porque mais numerosas, mais entrecruzadas. É uma razão para que as desenredemos menos, e que as distingamos mais confusamente. (...) Mas porque esses meios se afrontam, temos a impressão que não estamos engajados nem em um, nem em outro. (...) Mas não há nada disso. Essas lembranças que nos parecem puramente pessoais, e tais como nós sozinhos as reconhecemos e somos capazes de reencontra-las, distinguem-se das outras pela maior complexidade das condições necessárias para que sejam lembradas; mas isso é apenas uma diferença de grau.” (p.48)

“Algumas vezes limitamo-nos a observar que nosso passado compreende duas espécies de elementos: aqueles que nos é possível evocar quando queremos; e aqueles que, ao contrario, não atendem ao nosso apelo, se em que, logo que os procuramos no passado, parece que nossa vontade tropeça num obstáculo.(...) Por mais estranho e paradoxal que isto possa parecer, as lembranças que os são mais difíceis de evocar são aquelas que não concernem a não ser a nós, que constituem nosso bem mais exclusivo.” (pp 48-49)

“Entre as lembranças que evocamos à vontade e aquelas que nos fogem, encontraríamos na realidade todos os graus. As condições necessárias para que umas e outras reapareçam não diferem a não ser pelo grau de complexidade. As primeiras estão sempre ao nosso alcance, porque se conservam em grupos nos quais somos livres para penetrar quando quisermos (...) As segundas nos são menos e mais raramente acessíveis, porque os grupos que as trariam a nós estão mais distantes: não estamos em contato com eles senão de modo intermitente.” (p.49)

“cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios.(...) Todavia quando tentamos explicar essa diversidade, voltamos sempre a uma combinação de influencias que são, todas, de natureza social.

Dessas combinações, algumas são extremamente complexas. É por isso que não depende de nós faze-las reaparecer. É preciso confiar no acaso(...) A sucessão de lembranças (...) explica-se sempre pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos meios coletivos.” (p.51)

 

“Haveria então memórias individuais e, se o quisermos, memórias coletivas. (...) De um lado, é no quadro de sua personalidade, ou de sua vida pessoas, que viriam tomar lugar suas lembranças (...) De outra parte, ele seria capaz, em alguns momentos, de se comportar simplesmente como membro de um grupo que contribui para evocar e manter as lembranças impessoais, na medida em que estas interessam ao grupo (...) se a memória individual pode, para confirmar (...) para cobrir algumas de suas lacunas, apoiar-se sobre a memória coletiva, deslocar-se nela, confundir-se momentaneamente com ela; nem por isso deixa de seguir seu próprio caminho.(...) A memória coletiva, por outro, envolve as memórias individuais, mas não se confunde com elas.” (p.53)

“Consideremos agora a memória individual. Ela não está inteiramente isolada e fechada. (...) Ele se reporta a pontos de referência que existem fora dele, e que são fixados pela sociedade (...) nossa memória não se confunde com a dos outros. Ela é limitada muito estreitamente no espaço e no tempo. A memória coletiva o é também; mas esses limites não são os mesmos. Eles podem ser mais restritos, bem mais remotos também.” (p.54)

“Carrego comigo uma bagagem de lembranças históricas, que posso ampliar pela conversação, ou pela leitura. Mas é uma memória emprestada e que não é minha. No pensamento nacional esses acontecimentos deixaram um traço profundo, não somente porque as instituições foram modificadas, mas porque a tradição nelas subsiste muito viva em tal ou qual região do grupo.” (p.54)

“Distinguir duas memórias (...) memória pessoal, a outra memória social. (...) memória autobiográfica e memória histórica. A primeira se apoiaria na segunda (...). Mas a segunda seria, naturalmente, bem mais ampla do que a primeira. Por outra parte, ela não nos representaria o passado senão sob uma forma resumida e esquemática, enquanto que a memória de nossa vida nos apresentaria um quadro bem mais contínuo e mais denso (...)” (p.55)

“os acontecimentos históricos não desempenham um outro papel senão as divisões do tempo assinaladas em um relógio, ou determinadas pelo calendário. Nossa vida se escoa em um movimento contínuo. (p.56)

“Nossas vidas estariam colocadas na superfície dos corpos sociais, elas os seguiriam dentro de suas revoluções, experimentariam as repercussões de seus abalos. Mas um acontecimento não toma lugar na série dos fatos históricos senão algum tempo depois que se produz.”(p.57)

“Quando folheio uma história contemporânea (...) que se sucedem desde a data de seu nascimento (...) aprendo a recolocar minha infância dentro da história de meu tempo.” (p.58)

“se o mundo de minha infância, tal como o encontro quando me recordo, coloca-se assim naturalmente no quadro que o estudo histórico desse passado próximo me permite reconstituir, é porque já levava a sua marca. Isto que descubro, é porque com um esforço suficiente de atenção eu poderia, em minhas lembranças deste pequeno mundo, reencontrar a imagem do meio onde estava compreendido.” (p.59)

“Não é na historia aprendida, é na história vivida que se apóia nossa memória. Por história é preciso entender então não uma sucessão cronológica de acontecimentos e de datas, mas tudo aquilo que faz com que um período se distinga dos outros. (60)

“Um ser tal como uma criancinha, reduzida a suas percepções, não guardará de tais espetáculos senão uma lembrança frágil de pouca duração.Para que atrás da imagem, ele atinja a realidade histórica, será preciso que saia de si mesmo, que se coloque do ponto de vista do grupo, que possa ver como tal fato marca uma data,(...) mas a impressão por si mesma é uma impressão superficial(...)”(p.61)

“As lembranças coletivas viriam aplicar-se sobre as lembranças individuais, e nos dariam assim sobre elas uma tomada mais cômoda e mais segura; mas será preciso então que as lembranças individuais estejam lá primeiramente, senão nossa memória funcionaria sem causa.” (p.62)

“Desde que a criança ultrapasse a etapa da vida puramente sensititiva, desde que ela se interessa pela significação das imagens e dos quadros que percebe, podemos dizer que ela pensa em comum com os outros, e que seu pensamento se divide entre o conjunto das impressões todas pessoais e diversas correntes de pensamento coletivo.” (p.62)

“Pode ser que a lembrança não seja arrastada de imediato nessa corrente e que algum tempo se passe antes que compreendamos o sentido do acontecimento. O essencial é que o momento em que compreendamos venha logo, isto é, enquanto a lembrança esteja viva ainda. Então, é da própria lembrança em si mesma, é em torno dela, que vemos brilhar de alguma forma sua significação histórica.” (p.63)

“Mas, a criança está em relação com uma categoria de adultos nos quais a simplicidade habitual de suas concepções se aproxima dela. Trata-se, por exemplo, dos criados.”(p.64)

“A criança também está em contato com seus avós e através deles é até um passado ainda mais remoto que ela recua. Os avós se aproximam das crianças, talvez porque, por diversas razões, uns e outros se desinteressam dos acontecimentos contemporâneos sobre os quais se fixa a atenção dos pais.” (p.65)

“Não somente os fatos, mas as maneiras de ser e de pensar de outrora que se fixam assim dentro de sua memória”(p.66)

“A história não é todo o passado, mas também não é tudo aquilo que lhe resta do passado. Ou, se o quisermos, ao lado de uma história escrita, há uma história viva que se perpetua ou se renova através do tempo. (...) Os grupos, no seio dos quais outrora se elaboraram concepções e um espírito que reinara algum tempo sobre toda sociedade, recuam logo e deixam lugar para outros, que seguram, por sua vez, durante certo período, o cetro dos costumes e que modificam a opinião segundo novos modelos.” (p.67)

“O passado deixou muitos traços, visíveis algumas vezes, e que se percebe também na expressão dos rostos, no aspecto dos lugares (...) os costume modernos repousam sobre antigas camadas que afloram em mais de um lugar.”(p.68)

“há em cada época uma estreita relação entre os hábitos, o espírito de um grupo e o aspecto dos lugares onde ele vive”(p.69)

“É esse passado vivido, bem mais do que o passado aprendido pela história escrita, sobre o qual poderá mais tarde se apoiar sua memória. (...) a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente (...) Podemos então chamar de lembranças muitas representações que repousam (...) em depoimentos e racionalização.” (p.71-72)

“À medida em que os acontecimentos se distanciam, temos o hábito de lembra-los sob a forma de conjuntos, sobre os quais se destacam às vezes alguns dentre eles, mas que abrangem muitos outros elementos.” (p.72)

“quantas lembranças que acreditamos ter fielmente conservado e cuja identidade não nos parece duvidosa, são elas forjadas também quase que inteiramente sobre falsos reconhecimentos, de acordo com relatos e depoimentos.” (p.73)

“a morte, que põe um fim a vida fisiológica, não interrompe bruscamente a corrente dos pensamentos, de modo que eles se desenvolvem no interior do circulo daquele cujo corpo desaparece. Algum tempo ainda nós o imaginamos como se ainda vivesse. (...) À medida em que recua no passado, muda, porque algumas impressões se apagam e outras se sobressaem, segundo o ponto de vista de onde a encaramos. (...) É assim que o passado, tal como me aparecia outrora, enfraquece-se lentamente. As novas imagens recobrem as antigas como nossos parentes mais próximos se interpõem entre nós e nossos antecedentes longínquos (...) Os grupos dos quais faço parte nas diversas épocas não são mais os mesmos. Ora, é do ponto de vista deles que considero o passado. (74) minhas lembranças se renovem e se completem” (p.75)

“Uma cena de nosso passado pode nos parecer tal que não temos nada a suprimir nem acrescentar, e que nunca haverá nada de menos nem de mais para compreender. Porém se encontrássemos alguém que dela tivesse participado ou a tivesse assistido (...) após tê-lo ouvido, não teremos mais certeza do que antes que não poderíamos nos enganar sobre a ordem dos detalhes (...) porque é impossível que duas pessoas que viram o mesmo fato, quando o narram depois algum tempo depois, o reproduzem com trações idênticos”(p.75)

“Não há na memória, vazio absoluto (...) Para Bérgson, o passado permanece inteiramente dentro de nossa memória, tal como foi para nós; porém alguns obstáculos, em particular o comportamento de nosso cérebro, impedem que evoquemos dele todas as partes (...) não subsistem em alguma galeria subterrânea de nosso pensamento, imagens completamente prontas, mas na sociedade, onde estão todas as indicações necessárias para reconstruir tais partes de nosso passado as quais nos representamos de modo incompleto ou indistinto. (...) na realidade o que tomávamos por um espaço vazio não passava de uma região pouco definida, da qual nosso pensamento se desviava, porque nela encontrava poucos vestígios. Uma vez que nos indiquem com precisão o caminho que temos que seguir, esses traços se evidenciam, os ligamos um ao outro. (...) Então eles existem, porém eram mais marcantes na memória dos outros do que em nós mesmos.”(p.77)

“Cada grupo, aliás, se divide e se restringe no tempo e no espaço. É no interior dessas sociedades que se desenvolvem tantas memórias coletivas originais que mantém por algum tempo a lembrança de acontecimentos que não têm importância senão para elas.” (p.79)

“a memória coletiva não se confunde com a história (...) A história, sem dúvida é a compilação dos fatos que ocuparam o maior espaço na memória dos homens Mas lidos em livros, ensinados e aprendidos nas escolas, os acontecimentos passados são escolhidos, aproximados e classificados conforme necessidades ou regras. (...) geralmente a história começa somente no ponto onde acaba a tradição, momento em que se apaga ou se decompõe a memória social. Enquanto uma lembrança subsiste é inútil fixa-la por escrito. (...) Quando a memória de uma seqüência de acontecimentos não tem mais por suporte um grupo (...) então o único meio de salvar tais lembranças, é fixa-las por escrito em uma narrativa seguida uma vez que as palavras e os pensamentos morrem, mas os escritos permanece. Se a condição necessária para que haja memória é que o sujeito que se lembra, indivíduo ou grupo, tenha o sentimento de que busca suas lembranças num movimento continuo, como a história seria uma memória (...)?”(pp. 80-81)

“A história que quiser tratar dos detalhes dos fatos, torna-se erudita e a erudição é condição de apenas uma minoria.”(p.81)

“A memória coletiva se distingue da história pelo menos sob dois aspectos. É uma corrente de pensamento continuo, de uma continuidade que nada tem de artificial, já que retém do passado somente aquilo que anda está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo (...) ela não ultrapassa os limites deste grupo.” (p.82)

“A história divide a seqüência dos séculos em períodos (...) na história se tem a impressão de que, de um período a outro, tudo é renovado. (p.82)

“A história, que se coloca fora dos grupos e acima deles, não vacila em introduzir na corrente dos fatos divisões.(...) Ela obedece (...) a uma necessidade didática de esquematização” (p.82)

“Mas a história que se interessa sobretudo pelas diferenças e contradições (...) relata também e se concentra sobre um intervalo de alguns anos de transformações. (...) Os historiadores não podem levar a sério estas linhas de separação”

“Em realidade, no desenvolvimento contínuo da memória coletiva, não há linhas de separação nitidamente traçadas como na história, mas somente limites irregulares e incertos (...) A memória de uma sociedade estende-se (...) até onde atinge a memória dos grupos dos quais ela é composta. (...)ela esquece uma quantidade tão grande de acontecimentos (...) é porque os grupos que dela guardavam a lembrança desapareceram. (...) ela não cessa de se transformar, e o grupo, ele próprio, muda sem cessar.” (p.84)

“Há, com efeito, muitas memórias coletivas. É a segunda característica pela qual elas se distinguem da história. A história é uma e podemos dizer que não há história. (...) Reprovamos ainda algumas vezes, ao labor histórico esse excesso de especialização e o gosto extremo pelo estudo detalhado que se desvia do conjunto e toma de alguma forma a parte pelo todo (...) não se considera o ponto de vista de nenhum do grupos reais e vivos que existem. (...) Mas um historiador julga ser bastante objetivo e imparcial. (...) ele se esforça em reunir um conjunto de fatos que poderá ser justaposto a outro conjunto. (p.85)

“A história pode apresentar-se como a memória universal. Toda a memória coletiva tem por suporte um grupo limitado no espaço e no tempo. Não se pode concentrar num único quadro a totalidade dos acontecimentos passados senão na condição  de desliga-los da memória dos grupos que deles guardavam a lembrança (...) de não manter deles senão o esquema cronológico e espacial. (...) a história se interessa sobretudo pelas diferenças, feita a abstração das semelhanças.”(p.86)

“Consideremos agora o conteúdo destas memórias coletivas múltiplas. (...) Para que se possa falar de memória, é necessário que as partes do período sobre o qual ela se estende sejam diferenciadas segundo um critério. Cada um desses grupos tem uma história. (...) na memória as similitudes passam entretanto para o primeiro plano. (...) A história, já o dissemos, deixa perecer esses intervalos onde nada acontece aparentemente, onde a vida se limita a repetir-se.”(p.87)

“A história é um quadro de mudanças, e é natural que ela se convença de que as sociedades mudam sem cessar, porque ela fixa seu olhar sobre o conjunto, (...) é preciso que se desenvolva uma serie de transformações das quais a história não percebe senão a somatória ou o resultado final. Tal é o ponto de vista da história, porque ela examina os grupos de fora, e porque ela abrange uma duração bastante longa. A memória coletiva, ao contrario, é o grupo visto de dentro, e durante um período que não ultrapassa a duração media da vida humana..” (p.88)

“A memória coletiva é um quadro de analogias, e é natural que ela se convença que o grupo permanece, e permaneceu o mesmo, porque ela fixa sua atenção sobre o grupo, e o que mudou, foram as relações ou contatos do grupo com os outros.” (p.88)

 

“a sucessão do tempo, sua rapidez e seu ritmo, é apenas a ordem necessária segundo a qual se encadeiam os fenômenos da natureza material e do organismo. Mas é também, e talvez sobretudo, porque as divisões do tempo, a duração das partes assim fixadas, resultam de convenções e costumes, e porque exprimem também a ordem, inelutável, segundo a qual se sucedem as diversas etapas da vida social.” (p.90)

“É por isso que existe uma representação coletiva do tempo; ela se harmoniza sem duvida com os grandes atos de astronomia e de física terrestre, porém a estes quadros gerais, a sociedade sobrepõe outros que se ajustam sobretudo às condições e grupos humanos concretos. Pode-se mesmo dizer: as datas e as divisões astronômicas do tempo estão encobertas pelas divisões sociais de tal maneira que elas desaparecem progressivamente e que a natureza deixa cada vez mais à sociedade o encargo de organizar a duração.”(p.90)

“A necessidade de se diferenciar dos outros quanto ao modo de dividir e regular seu tempo aconteceria com mais freqüência se, no que diz respeito às nossas ocupações e distrações, não fossemos obrigados a nos sujeitarmos à disciplina social. (...) Sou então obrigado a regular minhas atividades conforme o caminhar dos ponteiros de um relógio, ou conforme o ritmo adotado pelos outros (...) me sinto forçado, perpetuamente, a considerar a vida e os acontecimentos que a preenchem sob o aspecto da medida.” (p.91)

“todo o ser dotado de consciência teria o sentimento da duração, já que nele se sucedem estados diferentes. A duração não seria nada mais do que a seqüência mais do que a seqüência desses estados. (...) Porém em torno de alguns objetos nosso pensamento se encontra também com o dos outros” (p.92)

O Tempo universal é o que percebemos e o histórico justapõe o tempo.

Às vezes a maneira como se interpreta um acontecimento difere de uma comunidade para outra, dois pensamentos podem não se penetrar.

O tempo não é outra coisa senão uma série de fatos, é ilusão pensarmos que ele se torna mais longo ou mais rápido.

O tempo é o que é. Numa cidadezinha o ritmo não é lento, é impressão de quem é da cidade, pois ela tem seu ritmo, ele está dividido como deve ser, de acordo com as necessidades.

Os limites até os quais recuamos no passado são variáveis conforme os grupos.

O tempo é real à medida em que tem um conteúdo.

 

“Auguste Comte observou que o equilíbrio mental decorre em boa parte e, primeiro, pelo fato que os objetos materiais com os quais estamos em contato diário mudam pouco, e nos oferecem uma imagem de permanência e estabilidade. É como se fosse uma sociedade silenciosa e imóvel, estranha à nossa agitação e às nossas mudanças de humor que nos dá uma sensação de ordem e quietude.” (p.131)

“Por que nos apegamos aos objetos? (...) Nosso entorno material leva ao mesmo tempo nossa marca e a dos outros (...) Lembram-nos nossa família e os amigos que víamos geralmente nesse quadro. (p.131)”

“Nossa cultura e nossos gostos aparentes na escolha e na disposição desses objetos se explicam em larga medida pelos elos que nos prendem sempre a um grande número de sociedades, sensíveis ou invisíveis. Não podemos dizer que as coisas façam parte da sociedade (pp 131-132)”

“Não estávamos errados ao dizer que estão em torno de nós como uma sociedade muda e imóvel. Se não falam, entretanto os compreendemos, já que têm um sentido que deciframos familiarmente. (...) A estabilidade do alojamento e de seu aspecto interior impõem ao próprio grupo a imagem apaziguante de sua continuidade.” (p.132)

“Quando um grupo está inserido numa parte do espaço, ele a transforma à sua imagem, ao mesmo tempo em que se sujeita e se adapta às coisas materiais que a ele resistem.” (p.133)

“O lugar ocupado por um grupo não é como um quadro negro sobre o qual escrevemos, depois apagamos os números e figuras. (...) todas as ações do grupo podem se traduzir em termos espaciais, e o lugar ocupado por ele é somente a reunião de todos os termos. Cada aspecto, cada detalhe desse lugar em si mesmo tem um sentido que é inteligível apenas para os membros do grupo, porque todas as partes do espaço que ele ocupou correspondem a outro tanto de aspectos diferentes da estrutura e da vida de sua sociedade, ao menos, naquilo que havia nele de mais estável.” (p.133)

“um acontecimento realmente grave sempre causa uma mudança nas relações do grupo com o lugar” (p.133)

“o grupo urbano não tem a impressão de mudar enquanto o aspecto das ruas e dos edifícios permanece idêntico (...) É por isso que o efeito da agitação, que abala a sociedade sem alterar a fisionomia da cidade, atenua-se quando passamos àquelas categorias do povo que se apegam mais às pedras do que aos homens” (p.134)

“Assim, não somente casas e muralhas persistem através do século, mas toda a parte do grupo que está, sem cessar, em contato com elas, e que confunde sua vida e a dessas coisas, permanece impassível, porque não se interessa a não ser por aquilo que se passa, na realidade, fora de seu circulo mais próximo e além de seu horizonte mais imediato.” (p.135)

“Os hábitos locais resistem às forças que tendem à transformá-los, e essa resistência permite perceber melhor até que ponto, em tais grupos, a memória coletiva tem seu ponto de apoio sobre as imagens espaciais.”(p.136)

“Quando um grupo humano vive muito tempo em um lugar adaptado a seus hábitos, não somente os seus movimentos, mas também seus pensamentos se regulam pela sucessão das imagens que lhe representam os objetos exteriores.” (p.136)

“para toda uma parte deles, os grupos imitam a passividade da matéria inerte.”(p.137)

“Para que essa resistência se manifeste, é preciso que emane de um grupo.”(p.137)

“(Um grupo) Procura e tenta, em parte, encontrar seu equilíbrio antigo sob novas condições. Tenta se manter ou se adaptar a um quarteirão ou rua que não são mais para ele, mas sobre o terreno que já foi seu.” (p.137)

“Mas a população pobre também não se deixa deslocar sem resistência, sem ressentimentos, e mesmo quando cede, deixa para trás muitos traços de si mesma.”(p.138)

“Encontramos pequenos negócios que somente conseguem se estabelecer porque, há muito tempo, confundem-se com um lugar que chama a atenção do público para ele.”(p.138)

“Para eles, perder seu lugar no recanto de tal rua, à sombra daquele muro, ou daquela igreja, seria perder o apoio de uma tradição que os ampara, isto é, sua única razão de ser.” (p.138)

“Se os habitantes de uma cidade ou de um quarteirão formam uma pequena sociedade, é porque estão reunidos numa mesma região do espaço. Deve-se dizer que isto é apenas uma condição da existência desses grupos, mas uma condição essencial e muito clara. Não é o que acontece exatamente com outras formações sociais. Pode-se mesmo dizer que a maioria delas tende a separar os homens do espaço, já que fazem abstração do lugar que eles ocupam e neles consideram apenas qualidades de outra ordem (...) É por isso que não é suficiente considerar que os homens estejam reunidos num mesmo lugar, e guardar na memória a imagem desse lugar para descobrir e se lembrar a que sociedade eles se ligam.” (p.139)

“Assim, não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial. Ora, o espaço é uma realidade que dura (...) É sobre o espaço, sobre o nosso espaço (...) que devemos voltar nossa atenção; é sobre ele que nosso pensamento deve se fixar, para que reapareça esta ou aquela categorias, de lembranças.” (p.143)

“É difícil saber o que seria o espaço para um homem realmente isolado, que não fizesse ou não tivesse feito parte de nenhuma sociedade” (144) pois tentar desvincular o espaço das situações sociais é difícil ou quase impossível.

“O espaço jurídico não é um espaço vazio que simbolizaria somente uma possibilidade indefinida de relações de direito entre os homens (...) Consideremos o direito de propriedade (...) Disto decorre que a sociedade adota uma atitude, e uma atitude durável, frente a tal parte do solo ou tal objeto material.” (pp 144-145)

“A vida econômica nos coloca em relação com os bens materiais (...) Os preços estão ligados às coisas como rótulos.(...) os preços decorrem de opiniões sociais em suspensão no pensamento do grupo, e não das qualidades físicas dos objetos, não é o espaço ocupado pelos objetos, são os lugares onde formam essas opiniões sobre o valor das coisas, e onde se transmitem as  lembranças dos preços, que podem servir de suporte à memória econômica.”(pp 149-150)

“Que as lembranças de um grupo religioso lhes sejam lembradas pela visão de certos lugares, localização e disposições dos objetos, não há do que se espantar. A separação fundamental, para estas sociedades, entre o mundo sagrado e o mundo profano realiza-se materialmente no espaço.” (pp.154-155) Por exemplo existem locais sagrados e profanos, locais que marcaram história na religião, tradições, etc.

 

“Resumindo tudo o que foi dito a maioria dos grupos, não somente aqueles que resultam da justaposição permanente de seus membros, dentro dos limites de uma cidade, de uma casa ou de um apartamento, porém muitos outros também, imprimem de algum modo sua marca sobre o solo e evocam suas lembranças coletivas no interior do quadro espacial assim definido. Em outras palavras, há tantas maneiras de representar o espaço quantos sejam os grupos.”(p.159)

“Assim, cada sociedade recorta o espaço a seu modo, mas por sua vez para todas, ou seguindo sempre as mesmas linhas, de modo a constituir um quadro fixo onde encerra e localiza suas lembranças...” (p.160)

“Concentremo-nos agora, fechemos os olhos, remontemos o curso do tempo tão longe quanto nos seja possível, tanto quanto nosso pensamento possa se fixar em cenas ou pessoas das quais conservamos a lembrança. Jamais saímos do espaço. Não nos encontramos, aliás num espaço indeterminado, porém em regiões que conhecemos, os as quais sabemos muito bem que poderíamos localizar, já que sempre fazem parte do meio material onde estamos hoje. Não adianta fazer esforço para apagar essa sociedade local, para ater-me aos sentimentos que experimentei ou reflexões que formulei outrora.” (p.160)

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