O Positivismo em História se restringe, hoje, à chamada “História Oficial”, à “História de Segundo Grau”, à alguns historiadores regionais, a certa mentalidade, mas não gerou uma tendência coerente e forte, não gerou uma História, mas tão somente desvios. Sua aplicabilidade seria estranha a todas as concepções de História.
O “Positivismo clássico” esconde por traz dos “dados objetivos” a sua matriz ideológica, o seu fazer. Sua concepção geral é a de que a sociedade é regulada por leis naturais que são imutáveis e não dependem do arbítrio; a conseqüência lógico-epistemológica é a de que os métodos e técnicas aplicados no estudo da sociedade devem ser os mesmos das ciências naturais, o conhecimento objetivo que estabelece o que é Ciência, científico, metodológico, possível e impossível, real e irreal; a metodologia da História não apenas seria a mesma das Ciências Naturais como também deveria estudar seu “objeto” da mesma maneira, sem “juízos de valor”, com a esperada neutralidade (o passado já passou, nada temos que nos inserir nele), dissecando os “fatos” como se fossem objetos; a separação entre Juízos de Valor e Fatos é imprescindível; sem implicações políticas, a finalidade da Ciência (da História) é constatar, descrever e prever.
A descritividade descompromissada, reproduzindo a realidade, torna-se o estilo preferido e necessário. Com isso o sujeito encontra o objeto, desencava, escava e o traz a luz. A separação entre o cientista e seu “objeto de estudo” é condição inescapável.
O positivismo não se encontra em estado puro em nenhuma concepção de História, nem mesmo no século XIX. Esse segmento lógico arruinaria completamente qualquer pretensão historiográfica e até mesmo um projeto científico que tivesse a “sociedade” e suas virtualidades contraditórias e dispersivas como objeto. Mas fragmentos dela estão como não-dito em muitas “Escolas de História”, escondidos como generalidades, universalidades, naturalizações, esquecimentos, adesões, procedimentos.
Como algumas clivagens positivistas dentro da História remos de que a função básica do historiador é reconstruir os fatos. Esses fatos não se relacionam com o historiador. Sua posição é neutra, ou científica, separando ele mesmo e o sistema imaginário do seu tempo daquilo que passou. Sujeito e objeto mantém uma relação “naturalizante”, de compreensão causa-efeito, como duas entidades, como se os “objetos” não fossem criação viva de uma “comunidade”, de indivíduos, não fossem expressões do próprio sujeito, como duas entidades separadas, não fossem ficcionais.
Outra é que a história é o real, sociedade, existência, sistema de fenômenos existentes em sua globalidade, os homens em movimento a humanidade e seu trajeto. Essa existência deixa documentos do seu movimento, que serão recompostos (a história está nos documentos: os fatos estão nos documentos) pela História. O historiador é o cientista que extrairá a história condensada, escondida, espalhada nos documentos.
Outra é que a Filosofia e toda reflexão deve ser afastada da operação, pois afetaria a “matéria refinada” que é “o que aconteceu”, onde não estavam nem o presente nem o historiador.
A transformação de tudo em "objeto da ciência" da mentalidade positiva esconde a transformação de tudo em objeto. Sem o histórico processo de objetificação, sem objetificar, o pensamento científico fica inoperante, principalmente porque suas razões são funcionais. Sua lógica é "industrial". As operações que lhe cabem são somente aquelas que permitem a construção, a utilização social do conhecimento visivelmente como poder. Sua eficácia (verdade, objetividade, aplicabilidade) provém exatamente dessa objetificação.
A História, que poderia ser a antítese dessa concepção científica do mundo, luta desesperadamente pela glória inútil de ser considerada Ciência. Uma História científica seria ridícula e seu exercício, além de matá-la, anularia qualquer possibilidade de compreensão desse fenômeno perverso e contraditório que é o ser social. O método da História, coerente com seu pretenso "objeto de estudo", não poderá jamais ser científica em qualquer dos seus momentos, o que não exclui nem o rigor nem a capacidade de compreensão e consciência das dimensões fundamentais do existir.
Essa “História Positivista” não será aquela que será desmoralizada e dissolvida pelos Annales, uma História mais séria, científica mas sem os limites desse tipo de História que se tornou “saber oficial” e ainda hoje é a forma concentrada das “Histórias do segundo grau”.
Alberto Lins Caldas
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