domingo, 27 de setembro de 2026

Entre memória e história


Considerando que o objetivo do próximo item desta dissertação é identificar como a escola opera com a memória social, acreditamos ser necessário procurar compreender as relações entre os conceitos de memória e de história, ainda que sejam tênues os seus limites e múltiplas as suas interfaces. Isso se faz necessário porque, no contexto da escolarização, como veremos, a relação com a memória tem no trabalho da disciplina de História um dos seus possíveis espaços de elaboração. E é justamente na opção de qual história se pretende impor a todos e nas histórias e memórias que essa imposição pretende ocultar que esta relação se dá. Mesmo que a disciplina de História não tenha a exclusividade sobre essa relação, ainda assim ela explicita a atitude da instituição em relação à memória.
A relação entre memória e história é problemática e tem sido foco do trabalho teórico de vários historiadores, psicólogos e cientistas sociais. Para nós, explicitar como compreendemos essa relação é fundamental na medida em que construímos nosso trabalho sobre o tênue limite entre esses conceitos.
Numa visão tradicional, a relação entre história e memória é relativamente simples, cabendo ao historiador um papel de 'lembrador', guardião da memória dos acontecimentos públicos a serem preservados para a posteridade por meio do registro escrito. Como afirmou Cícero, a "história é a vida da memória" (vitae memoriae). Cabe, pois, ao historiador salvaguardar da enxurrada do esquecimento, que tudo leva, os grandes feitos e seus protagonistas.
Essa visão simplista deu lugar a uma visão de oposição. Uma oposição acirrada que colocou a História como conhecimento objetivo, científico e definitivo sobre o passado por ser ela fruto da construção de um discurso baseado nas evidências proporcionadas pela análise criteriosa de documentos.
Porém essa visão não considera questões absolutamente relevantes no que diz respeito a quem, o que e por que algo é lembrado e merece ser registrado. A crítica a essa visão evidencia a complexidade da questão.
"Tanto a história quanto a memória passaram a ser encaradas de forma cada vez mais problemática. Lembrar o passado e escrever sobre ele já não podem ser consideradas atividades inocentes. Nem as recordações nem as histórias nos parecem objetivas. (...) Nos dois casos, esta seleção, interpretação e distorção são fenômenos socialmente condicionados. Não se trata do trabalho de indivíduos isolados. (...) Halbwachs estabeleceu uma nítida distinção entre memória coletiva, que é uma construção social, e a história escrita, que considerou - de um forma positivista e algo antiquada - objetiva. No entanto, a forma como os estudos sobre a história da escrita histórica a tratam é muito semelhante à maneira como Halbwachs tratou a memória, como um produto de grupos sociais (...)".
Vale lembrar que a produção e a preservação dos documentos também obedecem a esse princípio de embate social. São fruto das mesmas forças.
Ao contrário das visões tradicionais, formulações como as de Burke levam a compreender a memória como um conjunto de representações do passado, desde a história erudita até a tradição oral, colocando-a como objeto de estudo e de interesse para os historiadores. E ainda as construções teóricas dos historiadores, também como produto do jogo social nos contextos em que atuam.
Nessa perspectiva, não só outros indicadores da memória passam a ser valorizados, como os registros orais de grupos minoritários, excluídos e/ou ágrafos, outros tipos de documentos e vestígios passaram a ser objeto de trabalho a partir dos quais pôde-se compreender as relações sociais no tempo. Também outros temas passam a ser objeto de estudo dos historiadores. As mentalidades, os elementos do cotidiano integram os focos de trabalho, dando origem a um movimento a que se denominou Nova História.
Embora melhor compreendidas, ambas como produtos das relações e dos embates sociais, portanto relativas ao tempo, ao contexto e aos objetivos de seus atores, interessa-nos fugir da oposição simplista e assumirmos, na prática, o desafio de trabalhar com memória e com história.
Haveria duas maneiras básicas de encarar essa relação. A primeira, dialética, opõe memória e história considerando uma, a memória, a tese e a outra a antítese. A segunda compreende ambas como elementos semelhantes numa relação de reciprocidade, cuja tentativa de separação é justamente a origem de todos os equívocos.
Marquemos essas visões a partir do texto já clássico de Pierre Nora.
"A memória é a vida que os grupos levam, em evolução permanente, aberta à dialética do lembrar e do esquecer, inconsciente de suas sucessivas deformações, vulnerável a todas as utilizações e manipulações, suscetível a latências e revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que já se foi. 
A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história uma representação do passado. Por ser afetiva e mágica, se acomoda sobre detalhes que a confortam, se nutre de lembranças imprecisas, gerais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, é sensível às transferências, aos quadros, à censura ou às projeções.
A história como operação intelectual e desmistificadora, é análise e discurso crítico. (...) Há, como disse Halbwachs, tantas memórias quanto grupos porém a história pertence a todos e a ninguém o que lhe confere uma vocação universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem e no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações entre as coisas. A memória é o absoluto e a história só conhece o relativo. No coração da história trabalha o criticismo destrutivo da memória espontânea. A memória é sempre suspeita para a história cuja missão é exatamente destruí-la e rechaçá-la. A história é deslegitimação do passado vivido."
Nessa segunda visão, que rechaça a dicotomia ao considerar uma relação tão íntima, indivisível entre história e memória, encontramos sobretudo aqueles que se voltam para a compreensão da história contemporânea, da história do tempo presente. Varrida delas, a memória e a história, qualquer traço do positivismo que tende ao científico e ao universal, vive-se "o retorno vigoroso da história e da memória, uma busca ansiosa de identidade, a crise dos paradigmas das ciências sociais, enfim, um presente cheio de incertezas em relação a si mesmo e ao futuro". E é justamente na tentativa de compreensão de elementos do contemporâneo que se evidencia uma íntima relação entre a memória e a história. Elas se alimentam e se articulam na tentativa, sempre parcial, de compreensão do vivido. Nesse processo, o historiador e o seu objeto são contemporâneos e, portanto, estão submetidos aos mesmos contextos e referências.
Entre as visões que aqui se colocam, parece-nos vital compreender os conceitos apontados por Nora, chamando atenção sobretudo para as diferenças relativas às funções que memória e história desempenham para o indivíduo e para a sociedade e seus processos de construção, assim como reconhecer a relação visceral entre elas na contemporaneidade.
Entre as visões que aqui se colocam, nos parece fundamental reconhecer as diferenças apontadas por Nora, lembrando diferenças fundamentais como as funções que uma e outra desempenham para o indivíduo e para a sociedade e seus processos de construção, assim como reconhecer a relação visceral entre elas na contemporaneidade.
Para o contexto da Educação, é fundamental reconhecer algumas dessas diferenças, garantir o espaço de dizer e a valorização da memória individual e coletiva e, a partir disso, contribuir para a compreensão do processo de construção da história que considere e valorize o papel da memória e de seus relatos, não em oposição, mas em articulação com a história. 
Entendemos que memória e história têm origens e funções sociais diversas, mas que, na sua intersecção, ou no território em que os limites são os mais tênues, é que se pode garantir às comunidades escolares a inscrição de sua memória coletiva num contexto maior, para além de seus limites espaciais e temporais, de maneira a se constituir como história. Valorizada, socializada e em diálogo com outras histórias ou com a História (para os que crêem numa universalidade possível para este campo do saber).


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