por Renilson Rosa Ribeiro
“Amo a história. Se não a amasse não seria historiador. Fazer a vida em duas: consagrar uma à profissão, cumprida sem amor; reservar a outra à satisfação das necessidades profundas – algo de abominável quando a profissão que se escolheu é uma profissão de inteligência. Amo a história – e é por isso que estou feliz por vos falar, hoje, daquilo que amo.”
Lucien Febvre, Combate pela História
““As luzes se apagam em toda a Europa”, disse Edward Grey, secretário das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, observando as luzes de Whitehall na noite em que a Grã-Bretanha e a Alemanha foram à guerra. “Não voltaremos a vê-las acender-se em nosso tempo de vida”. Em Viena, o grande satirista Karl Kraus preparava-se para documentar e denunciar essa guerra num extraordinário drama-reportagem a que deu o título de Os últimos dias da humanidade. Ambos viam a guerra mundial como o fim de um mundo, e não foram os únicos. Não foi o fim da humanidade, embora houvesse momentos, no curso dos 31 anos de conflito mundial, entre a declaração de guerra austríaca à Sérvia, a 28 de julho de 1914, e a rendição incondicional do Japão, a 14 de agosto de 1945 – quatro dias após a explosão da primeira bomba nuclear -, em que o fim de considerável proporção da raça humana não pareceu muito distante. Sem dúvida houve momentos em que talvez fosse de esperar-se que o deus ou os deuses que os humanos pios acreditavam ter criado o mundo e tudo o que nele existe estivessem arrependidos de havê-lo feito.
A humanidade sobreviveu. Contudo, o grande edifício da civilização do século XX desmoronou nas chamas da guerra mundial, quando suas colunas ruíram. Não há como compreender o Breve Século XX sem ela. Ele foi marcado pela guerra. Viveu e pensou em termos de guerra mundial, mesmo quando os canhões se calavam e as bombas não explodiam. Sua história e, mais especificamente, a história de sua era inicial de colapso e catástrofe deve começar com a da guerra mundial de 31 anos.
Para os que cresceram antes de 1914, o contraste foi tão impressionante que muitos – inclusive a geração dos pais deste historiador, ou pelo menos de seus membros centro-europeus – se recusaram a ver qualquer continuidade com o passado. “Paz” significava “antes de 1914”: depois disso veio algo que não mais merecia este nome. Era compreensível”.
Poucos autores transformaram tanto um ramo do conhecimento quanto historiador francês Marc Bloch. Professor da Sorbonne e um dos co-fundadores da Revista Annales, Bloch, junto com o seu companheiro de ofício Lucien Febvre (a quem dedicou o presente livro), revolucionou a forma de se “fazer história” ao criar uma nova metodologia de estudos para esta área do saber. Ele, contudo, não foi premiado ou mesmo louvado por seu literal "feito histórico". Bloch acabou tendo o triste futuro da maioria das vítimas do horror da II Guerra Mundial, sendo fuzilado em 1944, durante o período em que era prisioneiro dos nazistas.
Apesar de ter morrido, Bloch, numa escrita combatente, conseguiu deixar fundamentadas e registradas as bases escritas do que constituiria a Escola dos Annales. Estes escritos compõem a obra Apologia da história ou o ofício de historiador, lançada pela Jorge Zahar Editor em 2001. Embora não tenha sido terminada, já que o historiador foi assassinado antes de concluir o livro, a obra trouxe grandes inovações na forma de se perceber e de se estudar a história, legitimando um ofício, definindo práticas, objetivos e uma ética para o estudioso do movimento do homem no espaço e no tempo.
No século XIX, a história era pensada, sobretudo, como narrativa. O que interessava eram os grandes fatos, os grandes heróis, a nação, uma história diplomática. Esta forma de fazer história estava ligada intimamente aos eventos políticos e às mudanças, que, segundo seus defensores (por exemplo, Langlois e Seignobos), trariam sempre algo de novo e melhor.
Para aqueles historiadores, o presente era melhor que o passado, enquanto que o futuro seria sempre promissor – visão evolutiva e progressiva da história. Em um mundo em que a ciência e a tecnologia triunfavam, a noção de progresso se fazia cada vez mais presente na maneira não só de se entender a história, mas de conduzir as mentalidades daquela época.
O século XX, contudo, diante de todos os fracassos do cientificismo, colocou essas certezas em dúvida. A confiança cega do século anterior deu lugar a uma época de grandes incertezas, como diria o historiador Eric Hobsbawm. Não só o tal "futuro promissor" foi questionado nas ciências humanas, como também aquilo que se julgava inquestionável nas ciências da natureza foi posto em dúvida pela mecânica einsteiniana e pela teoria cinética.
É justamente neste universo de incerteza, principalmente após os traumas da Primeira Guerra Mundial (da qual Bloch também participou ativamente no front), que se inserem Bloch e sua revolucionária visão, expressa integralmente em Apologia da história. Seu objetivo sempre foi tratar da história como ciência do homem no tempo, e não só no passado endurecido e unidimensional dos "grandes feitos". História para ele era análise e criticidade, e não mera narrativa; era compreensão, e não julgamento; era reconstrução, e não apreensão; era duração, e não somente mudanças:
“Ora, a obra de uma sociedade que remodela, segundo suas necessidades, o solo em que vive é, todos intuem isso, um fato eminentemente “histórico”. Assim como as vicissitudes de um poderoso núcleo de trocas. Através de um exemplo bem característico da topografia do saber, eis portanto, de um lado, um ponto de sobreposição onde a aliança de suas disciplinas revela-se indispensável a qualquer tentativa de explicação; de outro, um ponto de passagem onde, depois de constatar um fenômeno e pôr seus efeitos na balança, este é, de certa maneira, definitivamente cedido por uma disciplina à outra. O que se produziu que parecera apelar imperiosamente à intervenção da história? Foi que o humano apareceu.
Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais que o singular, favorável à abstração, o plural, que o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem, [os artefatos ou as máquinas,] por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça” (p. 53-5).
Num momento de transformações e dúvidas, portanto, emergia uma nova forma de ver a história, que tem neste autor uma de suas figuras centrais. As idéias introduzidas neste livro, que por si só já é carregado de história, lançaram sobre o ofício do historiador um novo olhar que serve de modelo até os dias atuais. Apologia da história tem ainda um atrativo a mais para o leitor interessado. Ele contou com um prefácio do historiador medievalista francês Jacques Le Goff, "discípulo" póstumo – uma vez que não teve a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente - das idéias de Bloch e um dos mais importantes nomes do ofício na atualidade.
Ao comentar sobre o título da obra, Le Goff ofereceu-nos uma bela definição do que venha ser o fazer do historiador para Bloch:
“O título e o subtítulo Apologia da história ou Como e porque trabalha um historiador exprimem bem as intenções de Marc Bloch. Essa obra é em primeiro lugar uma defesa da história. Essa defesa se exerce contra ataques explícitos por ele evocados na obra, em especial os de Paul Valéry, mas também contra a evolução real ou possível de um conhecimento científico do qual a história seria repelida para as margens ou até excluída. Pode-se também pensar que Marc Bloch pretende defendê-la contra os historiadores, que, a seu ver, acreditam a ela servir, mas a prejudicam. Enfim, e é, acho, um dos pontos fortes da obra, ele faz questão demarcar as distâncias do historiador em relação a sociólogos ou economistas cujo pensamento lhe interessa, mas onde enxerga também perigos para a disciplina histórica. Será, veremos, o caso de Émile Durkheim ou de François Simiand.
O subtítulo definitivo, O ofício de historiador, que substituirá pertinentemente o primeiro subtítulo, ressalta outra preocupação de Marc Bloch: definir o historiador como um homem de ofício, investigar suas práticas de trabalho e seus objetivos científicos e, como veremos, inclusive para além da própria ciência.
O que o título não diz, mas o texto sim, é que Marc Bloch não se contenta em definir a história e o ofício de historiador, mas quer também assinalar o que deve ser a história e como deve trabalhar o historiador” (p. 16).
Como ponto de partida desta história do ofício, Bloch aproveitou a interrogação de um filho que lhe indaga para que serve a história. Essa confidência familiar já anunciava de saída o cerne de suas convicções: a obrigação do historiador difundir e esclarecer. Nesta perspectiva, o livro que o autor apresentou era a resposta de um pai-historiador para a pergunta infantil. O historiador, nas suas palavras, tinha de encarar como um o elogio a capacidade de “saber falar, no mesmo tom, aos doutos e aos estudantes” (p. 41).
Estruturado em cinco capítulos, o livro começou por situar a história no tempo e por fazer uma censura severa à busca desesperada do historiador pela origem dos fatos (Capítulo I – A história, os homens e o tempo). A história, para o autor, era busca, portanto escolha. Seu objeto não era o passado: “A própria noção segundo a qual o passado enquanto tal possa ser objeto de ciência é absurda”. Seu objeto é “o homem”, ou melhor, “os homens”, e mais precisamente “homens no tempo”.
Prosseguiu, no Capítulo II (A observação histórica), com um estudo da observação histórica através dos testemunhos e de sua transmissão. O historiador, na sua leitura, não deveria ignorar “a imensa massa dos testemunhos não-escritos”, aqueles da arqueologia em particular. Portanto, precisava deixar de ser, “na ordem documentária, obcecado pelo relato, assim como, na ordem dos fatos, pelo acontecimento”. Mas deveria também se resignar a não poder compreender tudo do passado, a utilizar “um conhecimento através de pistas”, a recorrer a procedimentos de “reconstrução”, dos quais “todas as ciências oferecerem inúmeros exemplos”.
O Capítulo III (A crítica) foi dedicado à crítica histórica, alertando contra erros e mentiras que por vezes se transformam em verdades para os homens. Bloch desenvolveu neste momento “uma tentativa de uma lógica do método crítico” que lhe permitisse recolocar outra vez, com características próprias, a história no conjunto “das ciências do real” – “limitando sua responsabilidade pela segurança em dosar o provável do improvável, a crítica histórica não se distingue da maioria da maioria das outras ciências do real senão por um escalonamento dos graus sem dúvida mais nuançado”. O capítulo se encerrou em “horizontes bem mais vastos: a história tem o direito de contar entre suas glórias mais seguras o fato de ter, ao elaborar sua técnica, aberto aos homens uma estrada nova rumo à verdade e, por conseguinte, à justiça”.
No Capítulo IV (A análise histórica), Bloch discutiu, por meio de um paralelo entre o juiz e o historiador, se a história deveria julgar ou compreender. Compreender, portanto, e não julgar. Eis o objetivo da “análise histórica” pela qual inicia a verdadeira tarefa do historiador depois da observação e da crítica histórica prévias. Para este pensador do fazer histórico, o historiador “escolhe e peneira”, “organiza racionalmente uma matéria” cuja receptividade passiva “só levaria a negar o tempo; por conseguinte, a própria história”. O vínculo entre ordenamento racional, tempo e história foi perfeitamente reafirmado nas páginas de seu livro.
O Capítulo V (Sem título), apenas esboçado e interrompido pelos tiros do fuzil que o silenciou, o autor analisou as causas dos fatos históricos, com um ataque veemente ao Positivismo. Le Goff anotou algumas mensagens de grande importância deixadas por Bloch neste capítulo interrompido: “Em primeiro lugar, um novo protesto contra o “positivismo”, que “pretendeu eliminar da ciência a idéia de causa”; mas também a condenação da tentativa de redução do problema das causas em história a um problema de motivos e a recusa da “banal psicologia”. Recusava a ser meditada, pois sob a via régia, demasiado régia, das mentalidades corre o rio de uma vulgar psicologia. Depois, a designação de um novo ídolo a ser banido da problemática do historiador: “a superstição da causa única”. A condenação era inapelável: “preconceito do senso comum, postulado de lógico, um tique de magistrado instrutor, monismo da causa, para a explicação histórica,não é senão um estorvo”. A vida, portanto a história, era múltipla em suas estruturas, em suas causas. Marc Bloch apontou, a esse propósito, um outro “erro”, “aquele no qual se inspirava o pseudo-determinismo geográfico, hoje definitivamente arruinado”. E acrescentou: “O deserto, seja lá o que tenha dito Renan sobre isso, não é necessariamente monoteísta”. Não estou seguro de que esse cadáver ainda não se mexa ainda. Não faz muito tempo, espíritos conformados ainda se deslumbravam com as elucubrações (sobre as quais sabemos atualmente, além disso, que não eram isentas de um certo ranço racista) de um André Siegfried, cuja geografia eleitoral fantasiosa da França parecia sempre carregada de seduções. Não, o granito não vota” (p. 31-2).
Acreditamos que este livro interrompido pelo tiro certeiro e desleal seja “um ato completo de história”, como diria Le Goff. Uma máquina de guerra para os combatentes pela história, pela vida, pela justiça, pela ética e pelo compromisso intelectual; uma apologia da paixão:
“Decerto, mesmo que a história fosse julgada incapaz de outros serviços, restaria dizer, a seu favor, que ela entretém. Ou, para ser mais exato – pois cada um busca seus passatempos onde mais lhe agrada -, assim parece, incontestavelmente, para um grande número de homens. Pessoalmente, do mais remoto que me lembre, ela sempre me pareceu divertida. Como todos os historiadores, eu penso. Sem o quê, por quais razões teriam escolhido esse ofício? Aos olhos de qualquer um que não seja um tolo completo, com quatro letras, todas as ciências são interessantes. Mas todo cientista só encontra uma única cuja prática o diverte. Descobri-la para a ela se dedicar é propriamente o que se chama vocação” (p. 43).
Este livro seria um belo manifesto de historiador que fez da história um combate pela liberdade do pensamento, pela vida. Eis abra de um combatente pela história. Uma escrita rabiscada no campo de combate, nos campos de concentração da intolerância do século XX.
Para nós, esta escrita combatente representa uma fonte de inspiração para as lutas diárias contra os crimes do autoritarismo, da intolerância: violência na carne e no espírito humano. É pela vida que escrevemos, pensando sempre na educação da nossa sensibilidade histórica.
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