segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O HISTORICISMO E A ESCOLA DOS ANNALES

O HISTORICISMO

Basicamente o Historicismo é uma História que se proclama radical, ressaltando enfaticamente não somente sua importância enquanto saber e reflexão mas impondo sua posição central para uma compreensão do Homem e do próprio Real. Surge somente quando a História já conseguiu estabelecer não somente sua linguagem, seu objeto, seu sujeito, mas tendo como suporte um imaginário que havia transformado o antigo mundo num mundo exclusivamente histórico: a virtualidade agora é exclusivamente histórica, pode ser e só pode ser pensada historicamente: ela agora é o eixo de onde partem os julgamentos, os conceitos, as alteridades. O historicismo é a vitória da história, a vitória do homem (cristianismos, ocidentalidade, capitalismos, burguesias) sobre antigas representações e crenças, criando agora novas representações e outras crenças apresentadas seja como Filosofia, seja como Ciência, seja como Realidade, seja como Corpo.
Há vários historicismos. Um historicismo antropológico, vendo na historicidade a via da interpretação, mantendo na História a “realidade humana”, sendo o homem o eixo do conhecimento e, por isso, é também uma espécie de historicismo epistemológico, considerando a História a base de reflexão teórica e metodológica das Ciências Humanas; um historicismo cosmológico, proclamando que o próprio real é histórico, disseminando a história na essência do próprio real, indo até o evolucionismo científico e, assim, é uma espécie de historicismo ontológico, fundando sua reflexão sobre História a partir do ser, dos fenômenos, da existência, mas esses conceitos não passam por critérios rigorosos para, em primeiro lugar, verificar seu estatuto de existência nem, em segundo, o restrito da sua perspectiva agora universal.
Segundo Michael Löwy (1985: 69, 70) o Historicismo comporta três “hipóteses fundamentais”: a primeira é a de que qualquer “fenômeno humano” só pode ser compreendido “dentro da história, através da história, em relação ao processo histórico”; a segunda é que há uma “diferença fundamental entre os fatos históricos (...) e os fatos naturais”, sendo, consequentemente, qualitativamente diferentes os conhecimentos postos por estas duas realidades; terceira é a de que não somente “o objeto da pesquisa é histórico” mas também o “sujeito da pesquisa, o investigador, o pesquisador, está, ele próprio, imerso no curso da história”.
O Historicismo consolida a matéria imaginária fundamental da ocidentalidade em termos de conhecimento, recolhendo tudo para dentro de um antropocosmo: nada está realmente fora da história, nada pode ser pensado de fora da história. Essa razão se disseminará por todas as reflexões sobre o real. Suas premissas não ficam somente nos limites da “escola historicista”, mesmo porque sua trajetória se confunde com a construção da História, podendo ser reconhecidas em Kant ou Condorcet, em Hegel ou em Marx, em Dilthey ou em Marheineke, em Heidegger ou em Lukács, em Spengler ou em Toynbee, em Sartre e em Aron, em Bloch ou em Braudel, em Duby e Ariès ou em Le Goff, invadindo bem mais que o “conhecimento”, se tornando o regulador dos corpos, das produções, da linguagem, das mídias, do sonho e do desejo.
O Historicismo acompanha o estabelecimento tanto dos instrumentos conceituais, os procedimentos de pesquisa, as esperanças, os métodos e as crenças quanto as próprias “filosofias da história” que vão consolidando a Ciência Histórica (mesmo quando não se aceita enquanto uma Filosofia, mas como um conhecimento objetivo) desde o século XVIII.
A operação diltheiana de transformar a Hermenêutica de uma “técnica de interpretação” num instrumento metodológico capacitará a História com um arsenal vindo de uma longa tradição filosófica, o que permitirá uma flexibilidade normalmente ainda pouco aproveitada pelos historiadores hipnotizados seja pela objetividade, seja por uma espécie de passado em si, seja por uma “necessária” generalização. O que exige ainda uma reflexão mais rigorosa sobre a questão do relativismo, dos limites da história e da própria História. Sem uma compreensão epistemológica desses limites, “paradigmas” historicistas (naturalizantes e universais) engolem todas as diferenças radicais, alimentando as mentalidades imperialistas (hoje chamadas globalizantes).
O relativismo sempre entra em conflito com o conjunto dos modelos ocidentais estabelecidos longamente nestes últimos séculos ao mesmo tempo em que nasce tanto deles quanto das múltiplas experiências com as alteridades e com suas próprias estruturas e processos na “formação social”. Precisa utilizar os mesmos instrumentos que pretende criticar e dissolver, e nessa “utilização” demonstra sua legitimidade e eficiência. Por isso não consegue definir uma linha de raciocínio rigorosa. Pondo em questão tudo aquilo que poderia iniciar seu trabalho, perdendo horizonte e eixo, entrando em labirintos de labirintos, desperdiça sua missão com pavor, indiferença ou esquecimento.
Em primeiro lugar o relativismo é basicamente um conceito que põe limite; em segundo, estabelece posição; em terceiro, atravessa conceitos, métodos, procedimentos, saberes, disciplinas, crenças com uma desenvoltura metafísica (e isso precisa também ser objeto de reflexão); em quarto, põe a ocidentalidade dentro do seu imaginário específico: a transforma em mais uma megatribo, criando a partir de si mesma os universos compatíveis consigo mesma. A universalidade e a naturalizações retomam seu sentido de ideologia, de imaginário, de mantenedoras das ilusões fundamentais ao funcionamento das virtualidades sociais da ocidentalidade.


A ESCOLA DOS ANNALES



Fez-se contra o vazio dos “fatos”, contra a pobreza de visão que reduzia o mundo ao jogo entre “grandes homens”, exércitos e povos. A Escola dos Annales é a busca por uma História totalizante, compreendendo o Homem na plenitude do seu viver. Para isso a História tradicional era incompleta e incompetente. Era preciso saquear as “Disciplinas do Homem” para transformar a História numa reflexão e numa prática afiadas. Ao mesmo tempo retoma momentos historiográficos abafados por uma avalanche positivista.
A “narrativa histórica” (a História romance) é substituída por uma “História Problema”; as Histórias parciais (militar, política), por uma História total (ambição hegeliana e do marxista bem antes dos Annales); a instituição de uma “colaboração interdisciplinar”, que traz para dentro da História horizontes, conceitos, inflexões de “outras disciplinas” (mas essa colaboração jamais foi uma ação ácida respeitando limites, respeitando seu próprio estatuto).
Seu aparecimento corresponde ao “súbito” envelhecimento tanto dos tradicionais conjuntos teóricos quanto das práticas historiográficas mantidas num eixo que não mais correspondia às “disfunções” produzidas pela 1ª Guerra Mundial, pela Revolução Russa, pela Relatividade, pelo Marxismo e por toda uma Arte e uma literatura aparentemente “fora do eixo”, fora da fala centrada, monofônica; se distanciando de uma narrativa ingênua, aquela que acredita que “representa o real”, uma reprodução fiel.
Essa História, no século XX, passou por configurações. A primeira, “revolucionária” (talvez a mais inteligente e sensível), no entre guerras, foi o momento onde se rompeu com as tradições da História Política e a dos simples eventos; a segunda, depois da 2ª Guerra, quando esses historiadores já haviam “chegado ao poder”, foi dominado por uma História que, em parte, desvenda seu primeiro momento: torna-se uma História das “longas durações”, uma história gelatinosa é o seu produto; o terceiro, fragmentar e micro-histórico, completa o processo não apenas que distende a razão dos Annales, mas que a faz compreensível, principalmente com a volta de muitos “novos historiadores” a renovadas “histórias políticas” e socioculturais.
Mas os Annales não foram, inicialmente, contra a História, mas contra certa História que se tornara, apesar de secundária, aquilo que se chamava e se compreendia como a História. Não era sequer a História de Ranke, de Michelet ou de Burckhardt; não era Marxista ou a História de Fustel de Coulanges. Era aquilo que se transformou na História Oficial. Havia perdido o brilho até mesmo daquela História escrita no século XVIII.
Seu projeto se fez de de dentro da Sociologia de Durkheim, da Geografia de Vidal de La Blanche e Ratzel e de toda uma História que nas suas inflexões, fragmentos ou propostas apontava para uma atuação mais ampla, mais rigorosa, mais interdisciplinar.
Sua escritura dissolveu, ou baniu para instâncias secundárias, a “narrativa histórica”, mas essa escritura não foi jamais uma clivagem radical. Ela escolheu aquilo que já funcionava brilhantemente, apesar de marginal e esporádico, e abandonou o que já estava envelhecido e não mais funcionava para novas realidades que se impunham. Mas essa “outra História” não enfrentou a principal matéria da História que é o presente. Sua interdisciplinaridade característica, sua plasticidade e democracia dentro dos arsenais das “outras disciplinas” não dissolveram os limites.

Alberto Lins Caldas

BIBLIOGRAFIA

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· BOURDÉ, Guy; MARTIN, Hervé. AS ESCOLAS HISTÓRICAS. Europa-América, Lisboa, 1990.

· BRAUDEL, Fernand. HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS. Editorial Presença, Lisboa, 1972.

· BURKE, Peter (Org.). A ESCRITA DA HISTÓRIA. UNESP, São Paulo, 1992.

· __________. A ESCOLA DOS ANNALES. Unesp, São Paulo, 1997.

· __________. HISTÓRIA E TEORIA SOCIAL. Unesp, São Paulo, 2002.

· CERTEAU, Michel de. A ESCRITA DA HISTÓRIA. Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2002.

· CHARTIER, Roger. A HISTÓRIA CULTURAL ENTRE PRÁTICAS E REPRESENTAÇÕES. Bertrand, Rio de Janeiro, 1990.

· DOSSE, François. A HISTÓRIA EM MIGALHAS. Ensaio/Unicamp, São Paulo, 1992.

· FEBVRE, Lucien. COMBATES PELA HISTÓRIA. Editorial Presença, Lisboa, 1985.

· GARDINER, Patrick. TEORIAS DA HISTÓRIA. Fundação Calouste Gulbenkian, 2ª ed., Lisboa, 1974.

· GOFF, Jacques; NORA, Pierre (org.). HISTÓRIA: NOVOS PROBLEMAS, NOVAS ABORDAGENS, NOVOS OBJETOS. Francisco Alves, 3 vol., Rio de Janeiro, 1976.

· Michael.IDEOLOGIA E CIÊNCIAS SOCIAIS. Cortez, São Paulo, 1985.

· __________. AS AVENTURAS DE KARL MARX CONTRA O BARÃO DE MUNCHHAUSEN. Busca Vida, São Paulo, 1987.

· MEINECKE, Friedrich. EL HISTÓRICISMO Y SU GENESIS. Fondo de Cultura Economica, México, 1943.

· Jose Carlos. NOUVELLE HISTOIRE E TEMPO HISTÓRICO. Ática, São Paulo, 1994.

· TÉTART, Philippe. PEQUENA HISTÓRIA DOS HISTORIADORES. EDUSC, Bauru, 2000.

Filosofia da História

Com relação ao historicismo positivista surgiu uma tendência crítica desenvolvida principalmente por filósofos. Essa tendência adotou duas orientações, a primeira derivada das posições de Arthur Schopenhauer e, sobretudo, de Friedrich Nietzsche; a segunda, de tradição kantiana, foi desenvolvida por Wilhelm Dilthey, Heinrich Rickert e Max Weber.
A primeira opunha-se à tradição positivista criticando a esterilidade do puro acúmulo de dados eruditos, que considerava fase preparatória para um estudo interpretativo e de significados: o que para Nietzsche era uma "história monumental" crítica e arqueológica. Segundo ele, a história proporciona exemplos: julga o passado e situa o presente no decorrer histórico. 
A história é, portanto, um diálogo entre o passado e o presente. Ficava implícita uma distinção evidente em categorias: a história menos interessante era a dos meros colecionadores de dados, e a superior era a dos que os interpretam e lhes fornecem conteúdo. Para Nietzsche, a reconstrução do passado não era um fim em si mesmo, mas possuía um propósito: enriquecer o espírito mediante a lição da história.
A tendência kantiana, por sua parte, buscou superar a dualidade que a posição anterior promovia, ao considerar a história uma integração daqueles dois processos: o da informação pura e o dos conteúdos. Para seus seguidores, é a razão que elabora o conhecimento histórico dos fatos nas sociedades humanas. Nessa tendência era fundamental o conceito de "valor"; chegou-se a afirmar que os acontecimentos que sobreviveram na consciência histórica são os que têm relação com os valores em que acreditaram seus protagonistas e em que acreditam os observadores posteriores. Rickert aludia aos valores estabelecidos: o estado, o direito, a religião etc., como esquemas básicos do processo histórico. 
Max Weber destacou o relativismo da história, afirmando que os homens resgatam do passado aquilo que de algum modo lhes interessa em seu presente. Ou seja, cada sociedade tem sua história, e esta se reescreve continuamente segundo as transformações e os questionamentos dessa sociedade. Desse modo, o interesse pelo passado reorienta-se sempre segundo as mudanças experimentadas no presente. O passado não fica, assim, fixado definitivamente.
Outras tendências de caráter filosófico tiveram seu correlato nos estudos históricos, como a fenomenologia, o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss, a concepção ético-política da história de Benedetto Croce, a história cultural de Ernst Cassirer ou, na Espanha, a posição de José Ortega y Gasset em seu livro Historia como sistema (1941), em que concebe a história como uma cadeia de fatos consecutivos que respondem a uma "razão histórica".

Fonte : www.estudantedefilosofia.com.br






Historiografia - A propósito de uma experiência original

Certa vez, alguém nos ensinou: "Sem documentos não há História"

É uma antiga lição, sempre repetida, que logo se desdobra em outra não menos enfatizada: "a História é escrita com base em documentos escritos".
Colocadas lado a lado, ambas as lições induzem a duas conclusões gêmeas. A primeira é por demais conhecida: "a História começa com a escrita"; a última nem tanto, embora daquela seja apenas a outra face: "só possuem História os povos que conhecem a escrita"
Velhas lições há muito submetidas a uma crítica radical. Não obstante, elas insistem em permanecer, como que se oferecendo para serem postas em questão novamente por aqueles que agora são introduzidos na oficina do historiador; e assim não só sublinhassem a distância que ainda separa o aprendizado de uma disciplina nos níveis secundário e universitário, como também afirmassem que toda introdução carrega em si uma inquietação, que se traduz tanto na formulação de questões quanto na arguição do sentido do ato de questionar.
Por certo, aqueles que ora estão sendo iniciados na prática de historiar já aprenderam a refutar a distinção entre "povos civilizados" e "povos bárbaros ou selvagens" que aquelas lições difundem, tomando como base desigualdades e hierarquizações de fundo etnocêntrico e evolucionista. Mas muito provavelmente não estão atentos ainda para o fato de que elas tanto confundem as diferentes acepções de um mesmo significante - a experiência vivida; seu fiel relato; sua ficção mentirosa; e sua explicação erudita - quanto dificultam se não impedem, a compreensão de que mesmo aquelas sociedades sem historiografia possuem uma memória cultural que lhes permite fundar a hereditariedade dos saberes que constituíram, e assim também se dão a conhecer ao historiador.
Por que não aproveitar, então, esta inquietação como uma força favorável na aquisição de uma nova prática no transcurso de uma longa caminhada inevitavelmente sinalizada pelos conceitos e noções de Memória e História, Cultura e Sociedade, Tempo e Espaço, Narrativa e Autoria, Ficção e Verdade, e - entre todos - Documento e Historiografia?
Uma caminhada que se confunde, em larga medida, com a reconstituição das formas de elaboração do saber historiográfico, referindo-as necessariamente a duas práticas indissociáveis e permanentes. - a leitura e a escrita. Porque a prática do historiador consiste na leitura dos registros legados pelos homens em diferentes momentos, quer sob a forma dos mais variados documentos quer sob a forma de obras historiográficas, como condição para a elaboração escrita de um novo registro - de tal modo que, neste ponto, poderíamos já retornar ao primeiro parágrafo deste texto para afirmar que, sendo os homens os responsáveis pelas diferentes formas de registro, "sem homens não há História", em qualquer das acepções atribuídas ao significante.
Uma caminhada cujo ponto de chegada reside na intercessão da conclusão do curso de graduação em História e do ingresso no Programa de Pós-graduação, enfatizando assim o nexo que necessariamente deve existir entre os dois níveis de formação profissional, sem a descaracterização ou desqualificação de qualquer deles.
E ainda uma caminhada que tem corno momento fundamental o seu durante - o exercício sistemático de ler e escrever constituindo-se em condição para poder contar.
Contar por meio de um texto escrito a partir das leituras do que outros registraram; contar para que outros leiam. O texto historiográfico tornando-se o ponto de encontro de diferentes leitores, porque se o ato de ler é a possibilidade de saber o que se passa na cabeça do outro, lendo também melhor compreendemos o que se passa em nossa própria cabeça; o texto historiográfico tornando-se o ponto de encontro de diferentes escritores, porque o ato de escrever possibilita confrontar minha forma de contar com outras, e assim melhor compreender o ofício que pratico e o mundo no qual ele se situa e sobre ele inevitavelmente reage.
Desta forma, outra não deve ser a tarefa daqueles que são introduzidos na oficina do historiador: ler e escrever para poder contar. Outro não é o objetivo do projeto LER E ESCREVER PARA CONTAR. 
Se, efetivamente, nada do que aconteceu um dia pode ser considerado perdido para a história, o mesmo deve ser dito a propósito dos diferentes e variados registros legados pelos homens A oficina de Documentos encontrou aí o seu ponto de partida para refletir tanto a respeito dos diferentes e variados tipos de documentos de que o historiador pode lançar mão - textos escritos (documentos oficiais; poemas, romances e cordéis; biografias, diários e livros de memórias; letras de músicas); outros tipos de textos (como filmes, pinturas, relatos orais, lendas e mitos), outros ainda em principio julgados não tão relevantes (como o traçado das cidades, os tipos de habitação, os monumentos arquitetônicos, os fosseis, os vestígios arqueológicos e as paisagens), e também o nosso próprio mundo cotidiano, que "parece estar escrito num mosaico de línguas, como uma parede coberta de grafites, cheia de rabiscos sobrepostos, como um palimpsesto cujo pergaminho foi raspado e reescrito várias vezes, como uma colagem de Schwitter, uma combinação de alfabetos, citações heterogêneas, gírias e impressos de computador", conforme recorda ítalo Calvino - quanto a propósito dos diferentes procedimentos teóricos necessários à leitura de cada um dos tipos de documentos, permitindo a caracterização das relações entre História e as demais disciplinas. Ela tem procurado caracterizar também as vicissitudes da noção de documento, considerando o triunfo do documento escrito sobre o monumento desde o século XIX; a passagem da noção de documento para a de fontes e a ampliação de seu escopo propiciada pelos fundadores da Escola dos Annales; a revolução documental a partir dos anos 60, privilegiando o dado que leva à série e a uma história descontínua; e a transformação do documento em monumento, por meio da sua utilização pelo poder, num jogo permanente entre memória e amnésia por meio do qual as sociedades buscam impor ao futuro determinada imagem de si próprias. E, neste mesmo movimento, tanto discutir as diferentes noções de verdade, contrapondo não só urna verdade de fundo ético a outra de fundo jurídico, o registro voluntário ao involuntário, como ainda caracterizar os procedimentos de critica que, de um modo ou de outro, sempre aparecem associados ao ofício do historiador. Em resumo, um conjunto de reflexões e práticas que procuram não perder jamais a referência fundamental de que o trato com os documentos constitui sempre um diálogo entre dois sujeitos, a partir das questões formuladas por alguém localizado no presente -"colocar um problema é precisamente o começo e o fim de toda a História. Se não há problemas, não há História. Apenas narrações, compilações", sempre ensinava Lucien Febvre - e respondidas por homens situados num tempo diferente, respostas que, ao cabo, iluminam o contexto no qual os registros foram elaborados, a cultura à qual pertencia aquele que operou o registro.
A oficina de Historiografia, por sua vez, tem tido sempre menos a preocupação de identificar as diferentes "escolas históricas", detendo-se mais no exercício de identificação quer dos diferentes elementos que estruturam urna obra historiográfica quer dos diferentes diálogos e questões que a sustentam, nela sempre presentes embora não se ofereçam à primeira vista. No que se refere à primeira possibilidade, a identificação dos objetivos e questões formulados, de sua tradução sob a forma de hipóteses, das referências teóricos e dos procedimentos metodológicos, das fontes documentais e das referências bibliográficas, das formas de demonstração utilizadas - numa espécie de reconstituição, em sentido inverso, da trajetória de elaboração formal de um trabalho historiográfico. 
Quanto à última, a partir dos prefácios, dedicatórias, introduções, tábuas de conteúdos e, evidentemente, do próprio texto, a possibilidade de recuperar os diálogos travados pelo autor, de modo explícito ou não, com determinados elementos teóricos e metodológicos que balizam sua trajetória e produção, como as relações, em termos de semelhanças e diferenças, entre História e Mito; História e Memória; História e Ficção; História como modelo e História como experiência vivida; História e Discurso: narrativa, descrição e interpretação, lógica explicativa e lógica compreensiva, argumentação e demonstração; Texto e Escritura: narrador e autor.
Os textos que compõem esta publicação registram os resultados mais significativos de algumas das inúmeras oficinas até agora realizadas, nessa experiência emocionante e original. Animadas por um mesmo propósito e buscando realizar os objetivos centrais do projeto, as diversas oficinas expressam as diferentes compreensões e práticas que aqueles que as conduziram possuem a respeito do fazer historiográfico hoje.


Ilmar Rohloff de Mattos

Historicismo, construtivismo e epistemologia liberal

1. Historicismo e Construtivismo

Em Maio de 1822, num pequeno livro chamado «Plano dos Trabalhos Científicos Necessários para a Reorganização da Sociedade», Auguste Comte escrevia:
«Toda a ciência tem por fim a previdência. Porque a aplicação geral das leis estabelecidas segundo a observação dos fenómenos tem por fim prever a respectiva sucessão. Na realidade, todos os homens, por pouco instruídos que os julguemos, fazem verdadeiras previsões, fundadas sempre sobre o mesmo princípio, o conhecimento do futuro pelo passado.
(...) Está, portanto, evidentemente muito conforme com a natureza do espírito humano que a observação do passado possa facultar a predição do futuro, e que o possa fazer tanto em política como em astronomia, em física, em química e em fisiologia» (August Comte, Reorganizar a Sociedade, Guimarães Editores, 4ª Ed., Lisboa, 2002, p. 146).
Esta forma de abordar os fenómenos sociais, fazendo deles uma autêntica «física social» cujo grau de previsão de resultados e de precisão dogmática seria supostamente total, entronca numa visão positivista da ciência, característica do século XIX, e que deixou resquícios na centúria seguinte. Verdadeiramente, não se trata nem de uma abordagem, nem de um método científicos, porque, mais não é do que uma convicção nas supostamente ilimitadas capacidades do espírito e da razão humanas na descoberta da verdade, que teve repercussões ideológicas inevitáveis.
Como Karl Popper assinalou na «Sociedade Aberta e os seus Inimigos», esta tradição intelectual é muito antiga: podemos, talvez, situar as suas origens no platonismo da «República dos Sábios», aqueles que, para Platão, seriam os mais habilitados numa sociedade a exercer o poder, porque melhor o podiam compreender e intuir; desenvolveu-se, mais tarde, no pensamento utópico ocidental, onde tem firmes tradições com autores como Campanella ou Thomas More.
Com o advento do racionalismo no século XVII, sob a influência preponderante de René Descartes e de Francis Bacon, esta corrente ganhou foros pretensamente científicos, e promoveu a razão a oráculo da política e da vida social. A doutrina da «vericitas naturae», ou «doutrina da verdade evidente», como Popper a designou, é um produto genuinamente cartesiano. O autor da Sociedade Aberta definiu-a como a «visão optimista de que a verdade é sempre reconhecível quando colocada diante de nós: se ela não se revelar por si só, precisará apenas de ser desvelada ou descoberta» (Karl R. Popper, Conjecturas e Refutações, Editora Universidade de Brasília, 1982, p. 35).
No Discurso do Método, escreveu Descartes: «Sempre me mantive firme na resolução que havia tomado de não supor um outro princípio além do que me tenho vindo a servir para demonstrar a existência de Deus e da alma, e de não tomar uma coisa por verdadeira, sem que me parecesse mais nítida e mais segura do que me tinha parecido, até essa altura, as demonstrações dos geómetras e, contudo, ouso afirmar que não somente encontrei os meios de me dar satisfação em pouco tempo, no que respeita a todos os principais problemas de que se ocupa a filosofia, mas também pude descobrir certas leis que Deus de tal modo estabeleceu na natureza, e das quais imprimiu noções nas almas que, tendo refletido convenientemente sobre elas, não poderíamos duvidar que elas não sejam exatamente observadas em tudo o que existe ou que se realiza no mundo» (René Descartes, Discurso do Método, Guimarães Editores, 3ª edição, Lisboa, 1997, p. 43).
Da premissa da «vericitas naturae», que a passagem acima transcrita ilustra com clareza, se chegou com relativa facilidade ao historicismo como modelo a seguir nas ciências sociais. Ele consiste «no ponto de vista de que a evolução da humanidade segue um enredo e que se conseguirmos descobrir esse enredo teremos uma chave para o nosso futuro» (K. Popper, op. cit., p. 369). Parte importante da tradição política ocidental filia-se nesta visão das coisas, na ideia de que o futuro é previsível, assim como o será também o comportamento humano individual e agregado socialmente. Seja pela utilização dos mecanismos da razão por parte dos déspotas iluminados, seja pelo domínio das grandes correntes da História, como propôs Karl Marx, que «anteviu» o fim do capitalismo e o triunfo do socialismo. No século XIX, o positivismo de Comte e o socialismo científico de Marx foram teorias interpretativas da História que aplicaram os pretensos fundamentos científicos cartesianos nas suas análises e prospectivas.
No campo da política, o historicismo, pressupondo a superior capacidade da mente humana para perscrutar o futuro, concebe a possibilidade de o moldar à simples imposição da vontade humana. Levaria, por consequência, a algumas experiências de índole construtivista (o construtivismo político consiste na «innocent sounding formula that, since man has himself created the institutions of society and civilisation, he must also be able to alter them at will so as to satisfy his desires and wishes», F. A. Hayek, The Errors of Construtivism, in New Studies in Philosophy, Politics, Economics and the History of Ideas, Routledge, Londres, 1990, p. 3) e de cariz orientador, planificador e dirigista, tendo sempre sub iudice o objectivo de edificar sociedades ideais ou próximas de um máximo expoente de felicidade. Apesar das suas muitas variantes, o construtivismo assenta sempre no voluntarismo político e social, o mesmo é dizer que concebe a evolução da sociedade como um resultado do exercício da vontade humana.
Neste sentido, já Jean-Jacques Rousseau escrevia no século XVIII que «Aquele que ousa lançar-se na empresa de instituir um povo deve sentir-se em condições de poder mudar, por assim dizer, a natureza humana; de transformar cada indivíduo, que, por si mesmo, é um todo perfeito e solitário, em parte de um todo maior, do qual esse indivíduo receba de certo modo a sua vida e o seu ser; de alterar a constituição do homem para a reforçar; de substituir por uma existência parcial e moral a existência física e independente que todos recebemos da natureza» (J.-J. Rousseau, O Contrato Social, Livros de Bolso Europa-América, Lisboa, 1972, p. 44).
Na economia política, também o keynesianismo, foi uma forma de construtivismo historicista, ao propor o controlo e a planificação programática do funcionamento do mercado, bem como o planeamento económico a partir da determinação comportamental dos agentes económicos, tendo em vista o pleno emprego, a redistribuição equilibrada dos rendimentos e o crescimento económico e social. É, por isso, também, uma forma de construtivismo e de intervencionismo, na medida em que se baseia na convicção de que certos fenómenos sociais são previsíveis e, por consequência, humanamente controláveis.
O construtivismo político, filho dilecto do historicismo, advoga o intervencionismo social como forma de moldar o curso da história e a natureza da sociedade. Ele acredita seriamente que as sociedades humanas funcionam com base em leis inteligíveis pela razão, que se podem utilizar para adaptar o futuro às suas melhores conveniências. As doutrinas construtivistas querem transformar o homem e a sociedade por atos de vontade. Agregam, por isso, ideologias políticas tão diversas quanto a social-democracia e o socialismo democrático, o comunismo e o fascismo. Em todas elas se encontra o mesmo traço comum essencial: a intervenção do Estado, de uma entidade superior aos indivíduos e à própria sociedade, feita em nome dos valores sociais estruturantes, como a justiça social, a solidariedade, a igualdade de oportunidades. O primado do público sobre o privado, em suma; do coletivo sobre o individual. Elas supõem que quem governa dispõe de mecanismos de racionalidade e clarividência superiores aos dos indivíduos concretos, capazes de precaver e conceber os cenários possíveis do futuro, autorizando-se assim a impor a sua vontade à comunidade.


2. A Refutação do Historicismo e do Construtivismo pela Epistemologia Liberal



O «princípio da impotência», enunciado pelo físico e matemático inglês Sir Edmound Whittaker e invocado por Hayek e Popper nas suas apreciações epistemológicas, é o cerne da crítica liberal ao positivismo e cienticismo construtivista e historicista.
Segundo este prisma, o problema do intervencionismo é essencialmente de índole gnoseológica, na medida em que ele pressupõe a ausência de limites ao conhecimento humano, acompanhado pela evolução da ciência positiva que lhe facultaria os meios de ascese à verdade. A ingerência na sociedade por parte dos poderes públicos estaria assim fundamentada num conhecimento científico das «leis sociais»: as «leis da história» no marxismo, as «leis económicas» no intervencionismo e no keynesianismo, as «leis raciais» no nazismo, a «lei divina» nos regimes teocráticos.
Para Hayek, «nous n’agissons jamais, nous ne pourrions jamais agir, en pleine considération de tous les faits d’une situation donné» ( Friedrich A. von Hayek, Droit, Legislation et Liberté, vol. 1 – Règles et Ordre, 2ª Ed., Presses Universitaires de France, Paris, 1985, p. 35), pelo que o conhecimento humano, ao contrário do que pretendem os cartesianos, será naturalmente limitado, em parte devido à enorme complexidade dos objectos e dos fenómenos sociais sobre os quais ele incide, e, por outro lado, pela própria insuficiência do espírito humano, incapaz de abarcar e relacionar coerentemente toda a informação e demais dados inerentes à fenomenologia social. É, apesar de tudo, essa consciência dos limites do nosso conhecimento, que possibilita o progresso científico e social: «ce fut toujours la reconnaissance des limites du possible, qui a rendu l’ homme capable de faire pleinement usage de ses capacités», afirma Hayek (idem, p. 9); «o homem pode conhecer: logo pode ser livre» (Popper, Conjecturas… , p. 33), reforça Popper.
Segundo esta abordagem epistemológica, o caminho do conhecimento é feito de permanentes avanços e retrocessos, e encontra-se fundado na aprendizagem pelo erro (método hipotético-dedutivo), o que leva a que o seu progresso resulte «fundamentalmente, na modificação do conhecimento precedente» (Popper, idem, p. 56). Por isso, as teorias e as «leis» científicas deixaram, pelo menos desde Einstein, de ter um valor absoluto e inquestionável. A evolução científica resulta sempre da colocação de novas hipóteses em torno de problemas antigos. E as «leis» científicas não são axiomas descritivos de factos inquestionáveis, mas a constatação de certas impossibilidades e limites, ou seja, de que determinados factos não se podem, pelo menos naquele momento, produzir. Nessa medida, mais do que «leis», as conclusões da ciência são probabilidades (Acerca do conceito popperiano de propensão científica e a sua demarcação do de possibilidade, cfr. Karl R. Popper, Um Mundo de Propensões, Editorial Fragmentos, 1991): indicam hipóteses de trabalho com elevado grau de coerência explicativa dos fenómenos observados, mediante os dados disponíveis no momento em que são enunciadas, que devem permanentemente ser postas à prova por outros factos e teorias: «o critério que define o status científico de uma teoria é a sua capacidade de ser refutada ou testada», afirma Popper (idem, p. 66). E é nesta asserção que se encerra o essencial do seu pensamento sobre o conhecimento científico. De acordo com esta perspectiva, «o objetivo da ciência é encontrar explicações satisfatórias do que quer que se nos apresente e nos impressione como estando a precisar de explicação. Por explicação (ou por explicação causal) entenda-se um conjunto de proposições das quais uma descreve o estado de coisas a explicar, enquanto as outras, as proposições explicativas, constituem a “explicação” stricto senso (o explicans do explicandum)» (Karl R. Popper, O Realismo e o Objectivo da Ciência, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1987, p. 152).
Neste novo paradigma científico, Popper lança um desafio e sugere uma conclusão: «Acredito que valeria a pena tentar aprender algo sobre o mundo, mesmo que, ao fazê-lo, descobríssemos apenas que não sabemos muita coisa. (...) Vale a pena lembrar que, embora haja uma vasta diferença entre nós no que respeita aos fragmentos que conhecemos, somos todos iguais no infinito da nossa ignorância» (Conjecturas…, p. 56).
A aquisição do conhecimento será, portanto, obtida por sucessão e verificação: baseia-se, em parte na tradição («A fonte mais importante do nosso conhecimento – além do conhecimento inato – é a tradição. A maior parte do que sabemos e aprendemos pelo exemplo, por ouvir contar, lendo livros, aprendendo a criticar, a receber e a aceitar a crítica, a respeitar a verdade», Popper, Conjecturas…, p. 56), na experiência e na verificação permanente das asserções que temos como mais prováveis para a melhor explicação dos fenómenos observados. Aprender com o erro permite evitar a sua repetição e confere maior segurança às nossas escolhas. Este conhecimento, adquirido pela experiência e pela verificação prática das variáveis hipotéticas, origina, uma vez apuradas, regras de conduta social, às quais Hayek designou por «regras de justa conduta». Essas regras produzem padrões comportamentais ajustáveis, inatos à vida em sociedade, que nos dão as respostas mais adequadas às nossas necessidades individuais e coletivas.
Em suma, a epistemologia liberal de Popper e de Hayek assenta numa perspectiva evolucionista do conhecimento, que se baseia na tradição e na aprendizagem através do erro, e que exclui dogmas científicos e determinismos sociológicos. Para ela, a ciência é um campo aberto a novas e a todas as hipóteses, só assim podendo avançar e progredir.
O construtivismo está, portanto, nos antípodas da epistemologia liberal. Por isso e ao contrário desta última, aquela doutrina pretende obter resultados no campo das Ciências Sociais e Humanas, que considera conclusivos, certos e precisos, e a partir dos quais analisa social e comportamentalmente os indivíduos. Segundo o liberalismo de Hayek e Popper, o pensamento construtivista é a-científico, porque se coloca à margem da premissa mais importante da ciência: a sua confrontação e verificação permanente com outras hipóteses que a possam refutar e invalidar. Os dogmas políticos do construtivismo assentam, segundo esta perspectiva, em falsidades científicas. Não podem, por isso, obter bons resultados quando aplicados à prática.


Por Rui Albuquerque



Materialismo Histórico Dialético

O materialismo designa um conjunto de doutrinas filosóficas que, ao rejeitar a existência de um princípio espiritual liga toda a realidade à matéria e a suas modificações.
O materialismo histórico é uma tese do marxismo, segundo a qual o modo de produção da vida material condiciona o conjunto da vida social, política e espiritual. É um método de compreensão e análise da história, das lutas e das evoluções econômicas e políticas.
O materialismo histórico é uma abordagem metodológica ao estudo da sociedade, da economia e da história.
A análise materialista histórica parte da questão de que a produção, e a troca dos produtos, é pilar de toda a ordem social; existente em todas as sociedades que desfilam pela história. Sendo assim, a repartição destes produtos, aliada com ela à divisão dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo o que e como a sociedade produz e pelo modo de trocar as suas mercadorias.
Sobre a dialética temos que os elementos do esquema básico do método dialético são a tese, a antítese e a síntese.
A tese é uma afirmação ou situação inicialmente dada. A antítese é uma oposição à tese. Do conflito entre tese e antítese surge a síntese, que é uma situação nova que carrega dentro de si elementos resultantes desse embate. A síntese, então, torna-se uma nova tese, que contrasta com uma nova antítese gerando uma nova síntese, em um processo em cadeia infinito.
“As relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais. O moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial”.
O Materialismo Histórico Dialético surgiu a partir da publicação do Manifesto Comunista de 1848 , por Karl Marx e Friedrich Engels (porém, Marx já apresentara seus traços em 1847, em sua obra “A Miséria da Filosofia”).
Essa tese foi formulada e utilizada também em outros livros de Marx (O 18 do brumário de Luís Bonaparte e O capital) e de Friedrich Engels (Socialismo utópico e socialismo científico), e por Rosa Luxemburgo e Lênin.

MATERIALISMO HISTÓRICO


Na teoria marxista, o materialismo histórico pretende a explicação da história das sociedades humanas, em todas as épocas, através dos fatos materiais, essencialmente econômicos e técnicos. A sociedade é comparada a um edifício no qual as fundações, a infraestrutura, seriam representadas pelas forças econômicas, enquanto o edifício em si, a superestrutura, representaria as ideias, costumes, instituições (políticas, religiosas, jurídicas, etc.). A propósito, Marx escreveu, na obra A Miséria da filosofia (1847) na qual estabelece polêmica com Proudhon:
As relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais. O moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial.
Tal afirmação, defendendo rigoroso determinismo econômico em todas as sociedades humanas, foi estabelecida por Marx e Engels dentro do permanente clima de polêmica que mantiveram com seus opositores, e atenuada com a afirmativa de que existe constante interação e interdependência entre os dois níveis que compõe a estrutura social: da mesma maneira pela qual a infraestrutura atua sobre a superestrutura, sobre os reflexos desta, embora, em última instância, sejam os fatores econômicos as condições finalmente determinantes.
Karl Marx desenvolveu a teoria socialista partindo da análise crítica e científica do capitalismo. Ele não se preocupava em pensar como seria uma sociedade ideal, mas sim, preocupava-se em compreender a dinâmica do capitalismo, e para tal, estudou a fundo suas origens, a acumulação de capital, a consolidação da produção, e suas contradições (que inevitavelmente, esse sistema seria destruído por si só - em sua dinâmica evolutiva geraria elementos que acabaria por destruí-lo).
Os princípios básicos que fundamentaram o socialismo marxista podem ser sintetizados em três teorias centrais: a teoria da mais-valia, onde se demonstrava a maneira pelo qual o trabalhador é explorado na produção capitalista; a teoria da luta das classes, onde se afirma que a história da sociedade humana é a história da luta das classes ou do conflito permanente entre exploradores e explorados; e, finalmente, a teoria do materialismo histórico.
Marx dedicou-se a um estudo intensivo da história, e criou uma teoria que veio a ser conhecida como a concepção materialista da história, que foi exposta num trabalho em que esboça a história dos vários modos de produção, prevendo o colapso do modo de produção vigente - o capitalismo. O materialismo histórico é uma teoria sobre toda e qualquer forma produtiva criada pelo homem de acordo com seu ambiente ao longo do tempo, onde se evidencia que os acontecimentos históricos são determinados pelas condições materiais (econômicas) da sociedade. Dentre as ideias do materialismo histórico, relevam-se as questões das forças produtivas e relações de produção.
Marx afirmou que a estrutura de uma sociedade depende da forma como os homens organizam a produção social de bens. A produção social, segundo ele, engloba dois fatores básicos: as forças produtivas e as relações de produção. As forças produtivas constituem as condições materiais de toda a produção. Representam as matérias primas, os instrumentos, as técnicas de trabalho e até os próprios homens. Reconhece-se o grau de desenvolvimento das forças produtivas de uma nação a partir do aperfeiçoamento da divisão do trabalho. As relações de produção são a forma pelas quais os homens se organizam para executar a atividade produtiva. Elas se referem às diversas maneiras pelas quais são apropriados e distribuídos os elementos envolvidos no processo de trabalho. Assim, as relações de produção podem ser cooperativistas (como um mutirão), escravistas (como na antiguidade), servis (como na Europa feudal) e capitalistas (como na indústria moderna).
Forças produtivas e relações de produção são condições naturais e históricas de toda a atividade produtiva que ocorre em sociedade. A forma pela qual ambas existem e são reproduzidas numa determinada sociedade constitui o que Marx determinou de modo de produção. Para ele, o estudo deste é muito importante para a compreensão de como se organiza a sociedade.


domingo, 27 de setembro de 2026

Principais correntes historiográficas

Qualquer ciência necessita de uma metodologia para sua pesquisa, estudo e formulação. É a metodologia aplicada que possibilita a leitura de qualquer objeto científico. Variando a metodologia, será alterada por completo a percepção do que está em análise.
A história, como integrante das ciências humanas, teve no decorrer do tempo que desenvolver suas metodologias próprias a serem aplicadas no seu estudo. Assim como em outras ciências, a aplicabilidade da metodologia indicará qual será a leitura do objeto. No caso da história, o método apontará o ângulo pelo qual aquela será observada. Pela aplicação do método, a história pode ser entendida de diversas maneiras ou ângulos: cultura, política, economia e outros.
De modo mais explícito, as correntes historiográficas normalmente explicitam a sua metodologia de uma forma combativa, como o Providencialismo, de origem Cristã (convém recordar que, para além da tradição historiográfica grega Heródoto e Tucídides, a origem da nossa historiografia é a História sagrada) ou o Materialismo histórico de origem marxista (que triunfou nos ambientes intelectuais e universitários europeus e americanos em meados do século XX, permanecendo adormecido desde a queda do Muro de Berlim).
Foi nos séculos XIX e XX que o homem começou a ser encarado também como objeto e não apenas sujeito. Isso fortaleceu as ciências humanas que por demais se desenvolveram em seus métodos, inclusive a história. O homem começou a ser visto como produto da história e não apenas produtor desta. Essa pequena mudança foi possível graças a novas metodologias de estudo da história que possibilitaram o entendimento histórico a partir de vários prismas.
É sempre necessário interpretar a historiografia como parte da atmosfera intelectual da época em que se coloca. Qualquer produção cultural é dependente do modelo cultural existente, chamando-se a isso moda, estilo ou paradigma dominante na arte ou na filosofia, e é evidente que o registro da história é uma produção cultural. A desconstrução, o pensamento débil ou a pós-modernidade, conceitos do final do século XX, foram a incubadora da atual desconstrução da história, que para alguns é apenas uma narrativa
A questão do método é muito extensa. Por isso, serão apresentadas somente as principais correntes historiográficas que servem como método na produção histórica, a saber: Positivismo, Escola dos “Annales e Marxismo.

Positivismo


O Positivismo tem na pessoa de Augusto Comte seu maior propositor. Esse era francês e atuou principalmente na primeira metade do século XIX. Comte foi muito influenciado por Saint-Simom, de quem foi secretário.
Segundo o Positivismo como filosofia, todas as sociedades passam por estágios de pensamento. Nesse contexto, a história foi construída passando por esses estágios, sendo que o primeiro é Metafísico ou Teológico. Neste, a sociedade está presa a mitos, lendas, religiões supersticiosas e credos supranaturais. As Idades Antiga e Medieval são períodos citados nesse caso. Para Comte, a história caminha para um estágio chamado de Positivista, no qual as ciências se desenvolvem, fazendo com que as antigas explicações teológicas e mitológicas cedam lugar aos paradigmas científicos.
A Ciência alcança até as questões humanas. Isso seria um estágio de desenvolvimento até mesmo da ciência positiva. O Positivismo sistematiza as ciências em matemática, astronomia, física, química, biologia e psicologia. A sociologia e outras devem passar por depurações positivas, submetidas a métodos para se tornarem ciências.
Esse progresso da ciência é o progresso intelectual do próprio homem que somente dessa maneira chegará a um grau perfeito de altruísmo, que resultará numa sociedade orgânica, cujos ideais de Ordem e Progresso culminam. Dentro do contexto histórico, muitos momentos apresentaram esses ideais separadamente. O feudalismo é colocado como um momento que é enfático a Ordem. Já a Revolução Francesa desenvolveu um período de Progresso. A ciência é vista como aquela que unirá tais ideais num mesmo contexto histórico.
Comte e seus seguidores afirmavam que a realidade é o que se pode conhecer mediante a percepção dos sentidos, que são os meios utilizados pelo método científico. O misticismo e a intuição não são reconhecidos pelo Positivismo como meios válidos para obtenção de conhecimento, o que é válido também para a historiografia positivista.
A conhecida História Tradicional é identificada como historiografia positivista. Os historiadores tradicionais tiveram muita influência de Comte. No caso, o historiador positivista trabalha sobre a base de que a história é o fato propriamente dito, empirismo. Isso significa que só se constrói história a partir de documentos. Não os havendo, não há história, pois não há comprovação de fatos. Augusto Comte acreditava que as ciências deveriam se estribar em fontes empíricas, portanto, na história positivista o documento é o objeto principal de análise.
Há uma supervalorização do fato: História Fática. A história se resume naquilo que se pode perceber e observar, não sendo permitido abstrações. Como a filosofia positivista procura valorar o homem como indivíduo ímpar, não há uma preocupação historiográfica com o coletivo, as massas populares, e sim com os heróis e homens que produzem os fatos positivos. Por isso são notáveis os acentos nas histórias política, militar e diplomática. Os historiadores positivistas seguem as sequências cronológicas dos fatos, tendo o homem como sujeito de transformação e nunca objeto.
Para os historiadores tradicionais ou positivistas, os métodos utilizados pelas ciências naturais deveriam ser os mesmos aplicados às ciências humanas. Dessa maneira, creem que a história pode ter uma interpretação científica dos fatos, sendo “verdadeira” e isenta de abstrações.
A história, como epistemologia, ocupa um papel secundário no Positivismo, sendo sua responsabilidade apenas descrever os fatos. O desenvolvimento da sociedade jamais é visto correlacionado a fatos, isto é, a história.
O método positivista de historiografar é totalmente sistemático.

Marxismo


A historiografia marxista é um pouco anterior a Escola dos “Annales”.

Não se pode confundir historiografia marxista com comunismo, socialismo, luta de classe e outros conceitos que também fazem parte do Marxismo. Este é um quadro de ideias muito complexo, pois envolve filosofia, direito, política, sociologia, economia, história e outras ciências.
Karl Marx tinha formação religiosa judaica e luterana. Estudou história, filosofia e direito nas Universidades de Bonn e Berlim, tendo obtido o grau de doutor em Jena. Quando estava em Berlim foi influenciado pelo pensamento hegeliano (filosofia em voga na época, século XIX), se aproximando da ala esquerda de tal filosofia. Na mesma universidade estudou problemas sociais e políticos.
Uma faísca do pensamento de Hegel é sua dialética. Essa afirma que o homem e sociedade vivem em constante modificação; dentro de seu esquema: tese, antítese e síntese. Marx foi influenciado pela dialética de Hegel, porém a modificou para explicar suas teorias políticas e econômicas.
Também o filósofo Feuerbach contribuiu para pensamento marxista. Ele defendia um materialismo, no qual o mundo gira em torno da natureza – um ataque na época à religião, principalmente a que pregava a necessidade de experiências e uma volta à religiosidade, através do liberalismo teológico-protestante, na Alemanha. Contudo, o materialismo proposto por Marx e Engels diferencia-se do feuerbachiano, pois essa teoria também deveria se encaixar num pensamento voltado para a leitura da sociedade da época.
Juntando as duas teorias, dialética e materialismo, Marx formou o Materialismo Dialético ou Histórico, no qual as lutas de classes e os fatores econômicos (materiais) determinam o legado da história, ou seja, Marx pensava que as condições econômicas regulamentam e determinam o curso da história. É nesses princípios que a historiografia marxista se baseia.
Pelas obras de Karl Marx nota-se como ele dava importância à questão econômica na formação da sociedade dentro da história – em 1844 escreveu Economia Política e Filosofia; em 1850 As lutas das classes em França onde a questão econômica é enfática; em 1857 Os Princípios da Economia; em 1859 A crítica da economia política; em 1867 publica o primeiro volume do Capital. Além dessas obras, Marx escreveu para os jornais New York Tribune, Nenue Oder Peitung e outros.
Karl Marx entendia que as relações jurídicas protegem a propriedade e devem ser compreendidas dentro de condições de existência material. Isso significa que a economia dominante manipula o direito e a política, dirigindo a história para a dominação econômica, através de um mecanismo de alienação, no qual o operário é objeto de lucro para as classes dominantes. Para demonstrar a hegemonia da economia nas relações humanas e sociais, Marx usou a própria história. Na Idade Média, por exemplo, o domínio senhorial, o sistema de trabalho gratuito, o recebimento das taxas e das “banalidades”, os estatutos dos camponeses, a organização das comunidades aldeãs, as repartições de terras, o domínio do clero e outras questões são observadas levando em consideração a exploração do campesinato em função da riqueza material das classes dominantes, a saber: nobreza e clero. Na Idade Moderna, o surgimento da industrialização, a propriedade dos capitais, a divisão de pessoal, os investimentos, as oficinas, a situação dos operários, os sindicatos, a relação trabalhadores e oferta de emprego e outras questões também salientam a economia como motor propulsor da história.
Na teoria marxista, o materialismo histórico pretende explicar a história das sociedades humanas através dos fatos materiais, essencialmente econômicos. Para embasar ainda mais seu pensamento, Marx encaixou as forças produtivas e as relações de produção como infra-estrutura econômica de uma sociedade. Sobre ela se apóia uma superestrutura que atua no consciente social. Para explicar isso, Marx faz uma analogia, comparando a sociedade a um edifício, no qual as fundações, chamadas de infra-estrutura, seriam representadas pelas forças econômicas. Já o edifício em si, foi chamado de superestrutura, o que representa as idéias, costumes, instituições (políticas, religiosas, jurídicas, etc) e formas do Estado.
Para demonstrar isso Marx também usou a história. A organização das sociedades se estriba sobre o seguinte esquema: há as forças produtivas dentre as quais estão as atividades econômicas e as instituições políticas que dão formatos aos discursos ideológicos. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual em geral.
O pensamento de Marx influencia também a historiografia no que concerne ainda a sociologia das classes, em que se destaca as lutas de classes, e o conceito de ideologia, no qual até a religião é instrumento de alienação das massas para o domínio político-econômico.
Resumindo, uma historiografia marxista afirma que são as condições econômicas as responsáveis pela regulamentação e determinação do curso da história. Um historiador marxista enfatiza a economia na construção da história. Assim sendo, a história não são apenas fatos documentais, como afirmava Augusto Comte, mas ela é construída ideologicamente para o benefício econômico de classes específicas. Marx destaca a história das sociedades como a história de lutas de classes (Manifesto Comunista), que ocorre entre classes dominadas e dominantes dentro do âmbito econômico. Por isso a economia é destacada por Marx como a responsável pelas mudanças históricas, merecendo foco nas análises. Em seus escritos, ele procurou identificar dentro da história o papel transformador da economia dentro das sociedades.
O modo de exploração feudal ou corporativo da indústria existente até então não mais atendia às necessidades que aumentavam com o crescimento dos novos mercados. A manufatura tomou seu lugar. Os mestres-artesãos foram suplantados pela pequena burguesia industrial. [...] Os mercados, no entanto, continuavam a crescer e continuavam a aumentar as necessidades. A própria manufatura tornou-se insuficiente. Em conseqüência, o vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial. (MARX, Karl. O Capital. 2.ed. São Paulo: Edições Cultura, 1946. V.3. p.46)
A historiografia marxista influenciou muito a história em todo mundo, desviando o foco da proposta positivista. No Brasil destacam-se Caio Prado júnior, Celso Furtado, Leôncio Basbaum, Jacob Gorender, Florestan Fernandes, Edgar Carone, Boris Fausto, Maria Yeda Linhares, Nelson Werneck Sodré e outros, que também deram ênfase ao quadro econômico, como fator de desenvolvimento da história.

Escola dos “Annales”


A Escola dos “Annales” surgiu em oposição principalmente a “escola positivista”, historiografia tradicional, na França no século XX, mais precisamente em 1920. A Escola dos “Annales” foi uma inovação da historiografia, pois não propõe que o estudo da história seja minimizado ao acontecimento propriamente dito, ao fato, como o Positivismo, e volta sua atenção para a história em sua longa duração, a vida política, economia, organização social, cotidiano, psicologia, além da aproximação com as outras ciências humanas. Essa proposta trouxe a história para mais perto da geografia, antropologia, sociologia, psicologia, filosofia e outras gnosiologias.
As orientações básicas da Escola dos “Annales” foram formuladas principalmente por Lucien febvre e Marc Block, mas houve contribuições significativas de Fernand Braudel, P. Coubert, Le Roy Ladurie, Furet e outros. Esses dois últimos designaram a nouvelle histoire (“nova história”) como a história elaborada a partir e sob a influência das ciências sociais. Os novos historiadores aceitaram críticas feitas por sociólogos durkheimianos e da Revue de Synthèse Historique que queriam uma renovação no estudo da história, aproximando-a das ciências sociais para que também pudesse se tornar uma ciência social.
Essa proposta por parte de sociólogos principalmente, trouxe conflito entre historiadores novos e tradicionais, que controlavam as instituições de ensino, edição e administração da história e pesquisa na França.
Em 1929 Lucien febvre e Marc Block fundaram a revista de história intitulada Annales d’Histoire Economique et Sociale na França. Era o nascimento da Escola dos “Annales”.
Nos anos de 1950 e 1960 os historiadores da Escola dos “Annales” produziram materiais voltados à geografia histórica, à história econômica e à demografia histórica. Já na década de 1970 os historiadores que defendiam essa historiografia difundiram a história das mentalidades. A nova historiografia queria mesmo era eliminar o sentimento de especialidade dos historiadores, promovendo a pluridisciplinaridade e a união das ciências humanas.
O espírito dos Annales influenciou historiadores por todo o mundo, principalmente Europa Ocidental, Estados Unidos e América Latina.

Yuri de Almeida Gonçalves

Historiografia

Historiografia é o estudo das obras históricas realizadas ao longo do tempo e em todas as culturas. Embora as tradições orais tenham subsistido em muitos casos, a historiografia concentra-se nas obras escritas com a intenção de apresentar uma informação sobre os fatos passados.
O texto histórico mais antigo que se conservou é a pedra de Palermo (cerca de 2500 a.C.), que registra as datas dos reinados dos faraós egípcios e seus feitos mais destacados. A historiografia hebraica, particularmente relevante, concentra-se nos livros do Antigo Testamento, redigidos em épocas diferentes, e mais tarde na obra de Flávio Josefo.

Antiguidade Clássica

Os primeiros escritores gregos compuseram poemas épicos; redigiram-se depois genealogias em verso e, com as conquistas e expedições colonizadoras, muitos viajantes começaram a expressar por escrito suas experiências no contato com outros lugares e culturas. Heródoto foi o primeiro historiador cuja obra sobreviveu. Embora os historiadores e geógrafos gregos não tivessem uma idéia clara do progresso de sua própria cultura no tempo, deram à história um sentido universalista, ao estender o âmbito de sua observação a diferentes culturas. Tentaram desse modo criar uma história abrangente e geral, distinta da tradição oriental, mais antiga porém mais limitada localmente. De outro lado, procuraram desligar a lenda do fato histórico, como fez Tucídides, que se esforçou em buscar as causas dos acontecimentos para tentar extrair deles lições práticas. A primeira história geral do mundo helênico foi escrita por Éforo. Em Anábasis (Volta), Xenofonte relatou em minúcias a célebre expedição grega dos 12.000 em território persa. Políbio, autor de uma história com perspectiva universal, foi considerado o último dos grandes historiadores gregos. Diodoro da Sicília redigiu biografias comparadas que prenunciavam as Vidas paralelas de Plutarco, de grande influência na Europa, que apresenta uma visão moralizante da história, semelhante às de Tito Lívio e Tácito.
Os primeiros registros históricos dos romanos limitaram-se à compilação de anais. Em períodos posteriores destacaram-se a obra de Júlio César, como modelo de história militar, e a de Salústio, por sua imparcialidade e documentação, embora com inexatidões. Tito Lívio, Tácito e Suetônio deram testemunho da qualidade moral e do gosto pelas biografias exemplares, de realces psicológicos, que tiveram grande influência no Renascimento.

Cristianismo e Idade Média

O cristianismo sentiu necessidade de apresentar argumentos em defesa da fé e de fixar por escrito os dogmas. Adotando o Antigo Testamento como relato histórico fundamental, os primeiros cristãos explicavam o passado e deduziam os desígnios divinos como origem e motor dos acontecimentos. Elaboraram também uma cronologia e, nos Atos dos Apóstolos, Lucas tentou fazer um relato histórico sobre os primeiros seguidores de Jesus Cristo. Na Crônica, Eusébio de Cesaréia escreveu uma história de caráter geral que serviu de modelo durante a Idade Média, como mostra, por exemplo, a Grande e general estoria de Afonso X o Sábio, rei de Castela e Leão. Em De civitate Dei (A cidade de Deus), santo Agostinho escreveu o que já se pode considerar uma filosofia cristã da história.
A historiografia medieval teve três correntes principais: a cristã ocidental, a bizantina e a muçulmana. Na primeira, além dos já mencionados, convém recordar a história profana das crônicas ligadas aos feitos de um monarca ou de uma dinastia. Os historiadores bizantinos aliaram a tradição grega à cristã. Entre eles, destacaram-se Prisco, Procópio, Nicetas e outros. De sua parte, o historiador muçulmano Ibn Khaldun procurou pesquisar as causas do nascimento das culturas, segundo uma concepção cientificista ausente nas crônicas cristãs.





CONSTRUTIVISMO

Na área da pedagogia, a inspiração para o construtivismo vem principalmente de Jean Piaget. A ideia mais importante da teoria desse psicólog...