quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Vigotsky e a Teoria sócio-histórica

O objetivo central da obra de Vygotsky consiste em estudar os processos de transformação do desenvolvimento humano na sua dimensão filogenética, histórico-social e ontogenética. Centrou sua atenção no estudo dos mecanismos psicológicos mais sofisticados (funções psicológicas superiores), típicos da espécie humana.
São consideradas funções psicológicas superiores: controle consciente do comportamento, atenção e lembrança voluntária, memorização ativa, pensamento abstrato, raciocínio dedutivo, capacidade de planejamento, etc.
Usando o método dialético como premissa, procurou identificar as mudanças qualitativas do comportamento que ocorrem ao longo do desenvolvimento e sua relação com o contexto social.
Embora não tenha conseguido alcançar plenamente sua meta, Vigotsky é considerado como o primeiro psicólogo moderno a sugerir os mecanismos pelos quais a cultura torna-se parte da natureza de cada pessoa.
Para Vigotsky as funções psicológicas superiores são de origem sócio-cultural e emergem dos processos psicológicos elementares, que são de origem biológica (estruturas orgânicas). Assim compreende que a complexa estrutura humana devirá do processo de desenvolvimento enraizado nas relações entre história individual e social.
Nas primeiras décadas do século XX a psicologia estava dividida em duas tendências opostas: uma baseada nos pressupostos empiristas e outra nos princípios da filosofia idealista. O grupo que tinha como base a filosofia empirista via a psicologia como ciência natural que devia se deter na descrição das formas exteriores de comportamento, compreendidas como habilidades mecanicamente construídas. O outro grupo entendia a psicologia como ciência mental, acreditando que a vida psíquica humana não poderia ser objeto de estudo da ciência objetiva, já que era manifestação do espírito.
Vigotsky entendia que nenhuma das tendências possuía fundamentação necessária para a construção de uma teoria consistente dos processos psicológicos tipicamente humanos. Tecia críticas às duas correntes e buscava a superação desta situação através da aplicação dos métodos e princípios do materialismo dialético. Ele acreditava que através desta abordagem seria possível descrever e explicar as funções psicológicas superiores. Pretendia, assim, construir uma teoria marxista do funcionamento intelectual humano.

Teoria sócio-histórica (histórico-cultural) do psiquismo

Conhecida também como abordagem sociointeracionista de Vygotsky, tem como objetivo central caracterizar os aspectos tipicamente humanos do comportamento e elaborar hipóteses de como essas características se formaram ao longo da história humana e de como se desenvolvem ao longo da vida.

Procurava responder a três questões fundamentais:

- Compreender a relação entre os seres humanos e o seu ambiente físico e social.
- Identificar as formas novas de atividade que fizeram com que o trabalho fosse o meio fundamental de relacionamento entre homem e natureza e examinar as consequências psicológicas dessas formas de atividade.
- Análise da natureza das relações entre o uso de instrumentos e o desenvolvimento da linguagem.

Vygotsky dedicou-se ao estudo das funções psicológicas superiores. Assim chamadas porque referem-se a mecanismos intencionais, ações conscientemente controladas, processos voluntários que dão ao sujeito a possibilidade de independência em relação às características do momento e espaço presente.

Esses processos, segundo ele, não são inatos, mas se originam nas relações entre as pessoas e se desenvolvem ao longo do processo de internalização de formas culturais de comportamento. Desta forma são distintos dos processos elementares (reações automáticas, ações reflexas e associações simples) que são de origem biológica.

Os seguintes postulados foram a base para toda a sua obra:
Relação indivíduo/sociedade: As características tipicamente humanas não são inatas e nem são o resultado das pressões do meio externo, mas resultam da interação dialética do homem e seu meio sociocultural. A medida que o sujeito transforma o seu meio para atender suas necessidades é transformado por ele.

Origem cultural das funções psíquicas: As funções psicológicas tem sua origem nas relações do sujeito e seu contexto cultural e social. A cultura é parte constitutiva da natureza humana.
Base biológica do funcionamento psicológico: Cérebro visto como órgão principal da atividade mental. É entendido como um sistema aberto, com grande plasticidade, cuja estrutura e modos de funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do desenvolvimento individual.

Mediação: São os instrumentos técnicos e os sistemas de signos (ferramentas auxiliares), construídos historicamente, que fazem a mediação dos seres humanos entre si e deles com o mundo. A linguagem é um signo mediador, pois carrega em si os conceitos generalizados e elaborados pela cultura humana. A criação e uso dessas “ferramentas”(instrumentos e signos) é exclusiva da espécie humana e fundamentais para que haja interação com cultural e social.

Características básicas dos processos psicológicos: A análise psicológica deve conservar as características dos processos psicológicos exclusivamente humanos. Esses modos de funcionamento psicológicos mais complexos se desenvolvem num processo histórico, podendo ser explicados e descritos. Seu ponto de vista defende a ideia de que o desenvolvimento mental ocorre a partir do contexto social.

Mediação Simbólica

É através da mediação simbólica que se desenvolvem o processo das funções psicológicas superiores. Vygotsky distingue dois elementos básicos na mediação: o instrumento e o signo. O instrumento tem a função de regular as ações sobre os objetos e o signo regular as ações sobre o psiquismo das pessoas.

Partindo dos princípios do marxismo sobre as relações dos homens entre si e com a natureza mediadas através do trabalho, Vygotsky procura analisar a função mediadora presente nos instrumentos elaborados para a realização da atividade humana. O instrumento é provocador de mudanças externas, pois amplia a possibilidade de intervenções na natureza. O signo é chamado por Vygotsky como “instrumento psicológico”, tendo como função auxiliar o homem nas suas atividades psíquicas. “A invenção e o uso de signos auxiliares para solucionar um dado problema psicológico (lembrar, comparar, escolher, etc.) é análoga a invenção e uso de instrumentos ”. Os signos podem ajudar o homem a controlar sua atividade psicológica e ampliar sua capacidade de atenção, memorização, etc. (tomar notas de uma palestra, anotar um compromisso numa agenda, procurar informações num atlas ou revista).

A linguagem para Vygotsky é tida como um sistema simbólico fundamental. Ela organiza os signos em estruturas complexas e desempenha um papel determinante na formação das características psicológicas humanas. A linguagem possibilita três fatores nos processos psicológicos humanos: a) transmitir uma idéia independente do tempo e espaço; b) abstração e generalização (analisar, abstrair, generalizar, categorizar, conceituar); c) comunicação entre os homens, que garante a transmissão e preservação de informações e experiências adquiridas pela humanidade ao longo de sua história.

Desenvolvimento Infantil

O desenvolvimento é entendido como um processo socialmente construído, sendo assim, a interação social tem papel fundamental. Vygotksy contesta os paradigmas ‘botânicos’ e ‘zoológicos’ adotados na pesquisa psicológica para explicar o desenvolvimento humano. Defende a idéia de que aquilo que é inato no ser humano não é suficiente para a criança se desenvolver. O desenvolvimento depende da interação do ser humano com o meio físico e social, está intimamente relacionado ao contexto sociocultural em que a pessoa se insere e se “processa de forma dinâmica (e dialética) através de rupturas e desequilíbrios provocadores de contínuas reorganizações por parte do indivíduo “.
O bebê logo que nasce possui uma atividade psicológica elementar, baseada na herança biológica (os reflexos). Aos poucos, devido as interações com seu grupo social e com os objetos de sua cultura vai adquirindo controle sob seu comportamento e desenvolvendo seu pensamento. Com a ajuda do adulto a criança adquire as habilidades que foram construídas pelo seu grupo cultural ao longo da história. É através das constantes intervenções dos adultos que os processos psicológicos mais complexos começam a se formar.

Para Vygotksy o desenvolvimento do sujeito ocorre a partir das interações com o meio social em que vive, já que as formas psicológicas mais complexas emergem da vida social. Desta forma o desenvolvimento do psiquismo humano é sempre mediado pelo outro, dando significados à realidade.

A fala (instrumento e signo) tem papel fundamental na organização da atividade prática e das funções psicológicas superiores. O desenvolvimento das funções intelectuais é mediado socialmente pelos signos e pelo outro. “Ao internalizar as experiências fornecidas pela cultura, a criança reconstrói individualmente os modos de ação realizados externamente e aprende a organizar os próprios processos mentais”. A criança, assim, passa a se apoiar em recursos internalizados (imagens, conceitos, etc.) deixando de se apoiar unicamente nos signos externos.

Pensamento e Linguagem

A linguagem se constitui no paradigma dos processos de interiorização das funções psicológicas superiores. Para Vygotsky a relação entre o pensamento e a fala passa por várias mudanças ao longo do desenvolvimento. Apesar de terem origem e se desenvolverem independentes, em um certo momento o pensamento e a linguagem se encontram e dão origem ao funcionamento psicológico complexo. A conquista da linguagem representa um marco no desenvolvimento humano.

As palavras e signos são para a criança um meio de contato social com as pessoas. As funções comunicativas e cognitivas da linguagem são a base dos processos superiores. A linguagem, desta forma, tanto expressa como organiza o pensamento da criança.
Antes do aprendizado da fala a criança encontra-se no estágio pré-linguístico do desenvolvimento do pensamento, denominado de inteligência prática. Através das interações com as pessoas a criança vai aprendendo a usar a linguagem como instrumento do pensamento e como meio de comunicação. Neste momento o pensamento e a linguagem se associam e o pensamento torna-se verbal e a fala racional.
Vygotsky observou que o desenvolvimento da relação linguagem e pensamento segue uma sequência de desenvolvimento passando da fala exterior para a fala egocêntrica e chegando a uma fala interior.


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