sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O CRISTIANISMO ROMANO

A doutrina cristã surge na região da Palestina, província romana, a partir das pregações de Jesus Cristo. A principal referência que temos de sua vida e de suas ideias está nas páginas dos evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) no Novo Testamento. O Cristianismo teria suas origens ligadas ao Judaísmo, onde existia a promessa da vinda de um Messias mandado por Deus para libertar aquele povo, a partir desta crença, denominada de messianismo, Cristo seria entendido por muitos como o enviado pelo Senhor dos Hebreus, no evangelho de João, observamos o começo de sua vida pública:

29 “(...) Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

30. Este é aquele do qual eu disse: após mim vem um homem que foi antes de mim, porque já era primeiro do que eu.

31. Eu não o conhecia, mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.

32. E João testificou dizendo: Eu vi o Espírito descer do céu como uma pomba e repousar sobre ele.

A idade madura de Cristo (30-33 anos) é o período mais farto de relatos nos evangelhos, nesta época o fundador do Cristianismo estaria ocupado em difundir sua doutrina caracterizada pela defesa de princípios como o amor universal e a igualdade entre os homens, de todas as passagens bíblicas acerca de sua obra, destacamos o “Sermão da Montanha” como a síntese de sua pregação:

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque destes é o reino dos céus.

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

Bem-aventurados os misericordiosos, porque também alcançarão misericórdia.

Bem-aventurados os que têm coração puro, porque estes verão a Deus.

Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.

Bem aventurados os que padecem perseguição por amor de justiça

porque deles é o reino dos céus”.


A PERSEGUIÇÃO AOS CRISTÃOS


Nos três primeiros séculos de nossa era, a religião cristã cresceria enormemente, sairia do oriente para se espalhar por todo o mapa do Império Romano, ao mesmo tempo em que ganhava novos adeptos seguiria um martírio de prisões, torturas e execuções. Entre os anos de 64 e 313, intercalados por anos de tolerância, o Estado romano perseguiu implacavelmente os adeptos do cristianismo. No quadro a seguir leremos uma correspondência enviada pelo governador Plínio ao Imperador Trajano com o propósito de relatar ao César sua preocupação com o avanço do Cristianismo em sua região:

“Acho que aqueles que negassem ser ou ter sido cristãos deviam ser soltos, depois de terem repetido comigo uma invocação aos deuses, oferecido incenso e vinho à vossa imagem (que ordenei fosse trazida para esse fim, juntamente com a

estátua das divindades), e terem ainda, por fim, amaldiçoado o Cristo. Dizem que os verdadeiros cristãos não podem ser forçados a praticar nenhum desses atos... Conseqüentemente, adiei o inquérito e resolvi recorrer a uma consulta a vós... A infecção dessa religiosidade espalhou-se não apenas pelas cidades como pelas aldeias e pelo campo”.


ARGUMENTOS PARA A PERSEGUIÇÃO


Para o nosso estudo é importante entender as razões que levaram a perseguição dos primeiros cristãos, juridicamente estes eram acusados de inúmeras faltas, como por exemplo:

• Crime contra a lei sobre as religiões não permitidas.

• Crime contra as associações ilícitas.

• Recusa ao serviço militar.

• Crime de lesa-majestade.

• Incêndio e Magia.

Em face da complicação legal de obter provas contra os cristãos sobre os crimes supracitados, o Estado romano optou por uma solução mais simples, a determinação de que ser cristão já seria um delito, vimos no quadro anterior o relato de Plínio explicando ao Imperador as formas encontradas por ele para conseguir identificar quem eram os cristãos. No entanto, as informações dadas até o momento ainda não esclareceram a maior e mais importante questão, se o Império Romano apresentava uma variabilidade incalculável de crenças e práticas religiosas, porque justamente o Cristianismo seria desagradável aos romanos? A resposta para esta pergunta reside no fato de que os novos valores defendidos pelos cristãos chocavam-se frontalmente com questões de suma importância para a manutenção do Império. A partir dos próximos tópicos, tentarei esclarecer melhor esta dúvida.

a) O Monoteísmo Cristão: De acordo com o que conhecemos a religião cristã defende a existência de um único Deus, diferente da maioria das religiões do mundo antigo que eram politeístas, desta maneira para um adepto desta doutrina a adoração de divindades pagãs seria absolutamente inadmissível, esta situação geraria um problema gigantesco, uma vez que a própria figura dos cristãos em adorar e dar oferendas à imagem do César era vista pelo Estado como um indício de uma insubordinação religiosa que poderia ganhar proporções muito maiores, surgia o temor de que a legitimidade da autoridade política do imperador sobre todo o território também pudesse ser contestada.

b) A Igualdade Cristã: A defesa do argumento de que aos olhos de Deus todos os seres humanos seriam iguais é uma das premissas mais elementares da pregação cristã, todavia é importante colocar que nos primeiros tempos desta doutrina, a maioria dos adeptos estava situada em camadas sociais desfavorecidas, compondo uma religião verdadeiramente popular, imaginemos a reação de um escravo ao ouvir falar de igualdade entre os homens, em diversos momentos cativos interpretaram esta ideia como um estímulo para que estes buscassem a sua liberdade imediata, durante as grandes revoltas de escravos do império romano, muitos acreditavam que aqueles acontecimentos eram obra do incentivo de conspiradores cristãos.

c) O Amor Universal: Segundo os evangelhos os mandamentos que Cristo deixara para a humanidade seriam:

“Amai a Deus sobre todas as coisas” e “Ama o próximo como a ti mesmo”. Perceba que a pregação de um amor incondicional ao próximo choca-se com uma outra característica importante para os romanos, o militarismo, uma vez que o cristão deverá amar o seu inimigo, o seu envolvimento em uma guerra deveria ser absolutamente contraditório. Alguns historiadores defendem que este é um argumento questionável para tentar entender a perseguição aos cristãos, uma vez que o serviço militar obrigatório teria sido abolido durante boa parte do período imperial, contudo é preciso que se recorde que muitos soldados convertidos ao Cristianismo abandonaram os seus postos para seguir os ensinamentos do nazareno, representando assim uma importante baixa para as fileiras de Roma.
Os argumentos utilizados nos itens anteriores nos conduzem a uma importante conclusão, de que aos olhos do Imperador a religião cristã seria verdadeiramente uma fachada religiosa que acobertava um grupo cujo real objetivo seria conspirar contra Roma, haja vista que sua pregação causava algumas feridas como vimos anteriormente. É claro que muitas vezes, os cristãos seriam acusados de crimes absurdos que lhes eram imputados por pessoas que buscavam manchar ainda mais a sua imagem aos olhos de todos. Nos primeiros tempos do cristianismo, portanto, para que se participasse de uma reunião ou culto seria necessário se esconder em catacumbas, galerias e cavernas, o que colaborava ainda mais para o ar clandestino destes religiosos.

O TRIUNFO DO CRISTIANISMO

Após três séculos de intensa perseguição, os cristãos finalmente encontrariam tolerância e reconhecimento com os editos do século IV, antes de penetrarmos no estudo destas leis iremos primeiramente esclarecer o contexto da aceitação do Cristianismo.
Desde o início das perseguições aos Cristãos até o século IV, muita coisa havia ocorrido em Roma, o Império dava sinais de fadiga e por todo o território ocorria revoltas escravistas. Grande parte dos revoltosos era identificada como seguidores do Cristianismo, o Estado começava a admitir que uma aproximação com os religiosos seria um caminho a ser percorrido para tentar conter os levantes.
Os autores cristãos reagiriam ao propósito de aproximação do César proclamando que seria perfeitamente possível que um bom cristão pudesse ser também um bom cidadão romano, uma vez que o propósito da religião seria promover a paz (recordemos mais uma vez que naquele momento as guerras de expansão estavam encerradas e os, grandes inimigos de Roma eram os escravos revoltosos e os invasores estrangeiros).
Nas casas das famílias mais ricas de Roma já era verificada a conversão de inúmeros cidadãos ao Cristianismo, graças principalmente à atuação dos escravos pedagogos, colocados pelos senhores para educar os seus filhos. Alguns autores afirmam que os romanos se impressionavam com a resistência de uma doutrina tão massacrada pelos imperadores antigos.

A PROCLAMAÇÃO DOS EDITOS


• O Edito de Milão (313): O Imperador Constantino seria o responsável pela proclamação deste edito que concederia tolerância religiosa aos cultos e práticas religiosas dos cristãos. Para muitos historiadores este documento marca o fim da era das perseguições.
Existe uma versão famosa para a postura de Constantino em permitir o culto dos cristãos, relataremos abaixo:

“A tradição cristã conta que, na véspera da batalha de Ponte Mívio, junto aos muros de Roma, em 312, Constantino invocou a ajuda do Deus cristão e teve uma visão celeste: uma cruz brilhante com os dizeres ‘In hoc signo vinces’ (com este sinal vencerás). Após a vitória, em 313, Constantino, em gratidão baixou o Edito de Milão aos seguidores de Cristo, legalizando a nova crença”.
Como você deve ter percebido esta história apela para o sobrenatural em busca de explicações para o ato de Constantino, não temos a intenção de discutir a autenticidade da narrativa, mas devemos recordar que o triunfo do Cristianismo tem explicações terrenas muito sólidas que já foram demonstradas anteriormente. Podemos mostrar também que o próprio Constantino não foi completamente cooptado pela doutrina, uma vez que segundo o quadro abaixo:

“A vitória confirma Constantino no Cristianismo. Mas seu Cristianismo é bem ambíguo: não o faz romper totalmente com as crenças passadas. (...) Constantino nunca abandou o culto pagão ao sol, mantendo a figura do sol em suas moedas”.

Concílio de Nicéia: Realizado em 325 e liderado por Constantino, funcionou como uma conferência entre os líderes cristãos para discutir a questão das divergências doutrinárias existentes e selecionar os textos que entrariam nos livros sagrados. Foi um marco para o estabelecimento do culto à Santíssima Trindande, decretando a divindade de Jesus Cristo e apontando o pensamento ariano como herético.

O Edito de Milão pode, como já dissemos, ser entendido como o fim da Era das perseguições, mas não é ainda a superação do paganismo romano como você leu no quadro acima, esta situação só se consolidaria com Teodósio no final do século IV.

• Edito de Tessalônica: Promulgado pelo Imperador Teodósio, decretava definitivamente a oficialização do Cristianismo como a Religião Romana. Este Edito proibia todo e qualquer culto pagão.



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