quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Historiografia: Da Fabulação Controlada

 Da Fabulação Controlada


Andréa Daher
Professora Adjunta de Teoria e Metodologia da História da UFRJ

“Como todo discurso se faz, se resolve e se considera na afirmativa e na negativa daquilo que compreende, separaremos o ponto da Verdade da História em dois, no Verdadeiro e no Falso. Depois dividiremos cada um em dois, para melhor mostrar que não é suficiente exprimir francamente tudo que se sabe de bem e de mal, de verdadeiro ou falso [...] A Verdade é tão natural à História que todos lhe conferem como primeira lei Que ela não tema dizer o verdadeiro. E como Segunda Que ela não tema descobrir o falso.”

Com essas palavras, Henri Lancelot de La Popelinière abre o capitulo Da Verdade da História do segundo tomo de A História das Histórias, editado em 1599, em Paris (1). Contra as linhas mestras de um regime de historicidade em que história e retórica eram aliadas inseparáveis, uma geração pouco conhecida de historiadores, à qual pertencia La Popelinière, buscou deliberadamente romper esse elo para vincular a pesquisa histórica à erudição. O leitor contemporâneo, pouco familiarizado, no entanto, com as posições assumidas pelos historiadores da também chamada Histoire Nouvelle do século XVI, não se surpreenderá ao perceber que a história é, para eles, pesquisa, e não gênero literário. Trata-se, para esses historiadores, de distinguirem-se daqueles “que buscam mais o fervor de uma eloquência tomada de empréstimo [...] do que a verdade, recomendada acima de todos os sacrifícios mundanos” (2).

Mesmo com caráter de excepcionalidade, os “novos historiadores”, na contra-corrente da história-retórica, buscam, assim, qualificar a história como atividade de erudição, não mais submetendo-a à classificação de literatura tradicional. Este seria, segundo G. Huppert, um primeiro ato da historiografia moderna. Nele já estão ensaiados, tanto o problema do estatuto literário do texto histórico quanto o da separação entre o verdadeiro e o falso. Questão também de retórica; mas de que retórica?

Do “eclipse” ao “renascimento” da narrativa


Num artigo recentemente publicado no Brasil, o historiador francês François Hartog, propõe pensar a relação entre história e narrativa, a partir de alguns regimes de historicidade precisos (3).

Com efeito, entre os séculos XVI e XVIII, enquanto mantém-se operatória a distinção entre res gestae (ações realizadas) e historia rerum gestarum (narração), quando a história relaciona-se intrinsecamente à retórica, a questão da narrativa não se coloca. A história é, como na expressão ciceroniana historia opus oratorium maxime, obra oratória por excelência. Isso não significa que ela se exima da exigência de verdade, equivalendo inclusive a um valor cívico de formação, de instrução do homem privado, pela recolha de exemplos que a categorizam como magistra vitae (mestra da vida).

Na segunda metade do século XVIII, primeiro na Alemanha, abandonam-se progressivamente os topoi da história retórica, enquanto se expressa um novo regime de historicidade: a história autonomiza-se, então, do valor de magistra vitae e da partilha entre ações realizadas e narração. O conceito de Geschichte (história) postula, agora, uma única história, a história progresso. Num só movimento, afirma Hartog, “a história fala e diz-se si própria”. Auto-referida e encontrando em si o seu próprio telos, ela se torna disciplina, ciência positiva, calcada nos fatos, limitando suas ambições a dizer “como as coisas efetivamente aconteceram” (wie es eigentlich gewesen ist, na fórmula rankeana), bastando ao historiador, para tanto, frequentar os arquivos. Hartog identifica no como (wie) o lugar em que, precisamente, se eclipsa a narrativa. Nesse regime de historicidade, não cabe a sua problematização: a história é, tão simplesmente, conhecimento de si mesma.

Num terceiro regime de historicidade, marcado pela produção dos Annales, a questão da narrativa aparece como objeto de refutação, na forma da história événementielle. A narrativa é, ainda, mantida em eclipse, como assegura Hartog, já que o alvo das discussões não é nada além do acontecimento (4)

Tal como Paul Ricoeur (5), François Hartog postula, assim, um eclipse da narrativa - presente, porém nem sempre visível - em sucessivos regimes de historicidade. Mas Hartog coloca-se no interior de uma perspectiva historiográfica, historicizando esse ocultamento não deliberado, anterior aos próprios combates dos Annales contra a história positiva, e datando o seu desvelamento recente num esboço do que seria o seu próprio (e o nosso) regime de historicidade.

Se, como lembra Hartog, desde o momento da fundação da Escola dos Annales, foi mantida a “ambição de mais ciência” (de mais real e de mais verdade), investida na produção de métodos e modelos científicos e não em contar “o que efetivamente aconteceu”, o que não foi privilegiado foi o questionamento sobre a narrativa.

Hoje, a pergunta sugerida por Hartog - inversamente à que se colocaria meio século antes – é a seguinte: basta “evocar o retorno do acontecimento e do indivíduo para concluir pelo retorno da narrativa?”. Nos últimos anos, toda uma série de trabalhos críticos posicionaram a história lado a lado com outras narrativas, de modo a evidenciar seus parentescos mais importantes ou até mesmo afirmar o seu estatuto literário (6). Sua expressão mais radicalizada encontra-se em Hayden White: a história como form of fiction making operation, relacionada essencialmente ao seu estatuto ficcional (7).

As consequências dessa produção foram e são ainda inúmeras. Mas, mesmo considerando que aquilo que o historiador escreve é governado pelas mesmas regras que estruturam outras formas de narrativa, não se pode negar em absoluto a dependência do que ele produz em relação aos vestígios, aos traços do passado, em relação aos critérios de cientificidade – historicamente variáveis – e às técnicas próprias do ofício (8). Em suma, são justamente as condições de produção do discurso histórico que exigem que consideremos que, mesmo sendo uma narrativa, a história perderia a sua especificidade se abandonasse sua pretensão de dizer o passado que efetivamente aconteceu. Essa relação específica que mantém com a verdade, problematizada sobretudo a partir da temível possibilidade de produção de discursos falsos, é portanto a sua marca diferencial.

É possível, a partir daí, seguirmos mais de perto as proposições de P.Vidal-Naquet contra os diversos revisionismos do genocídio hitleriano, em particular contra as teses negacionistas de R. Faurisson. De um modo geral, nesses discursos, afirma Vidal-Naquet, “trata-se simplesmente de substituir a insuportável verdade pela mentira asseguradora” (9). Nesse caso, diz ainda, estamos no terreno em que o falso se opõe frontalmente ao verdadeiro”, independente de toda interpretação possível, “terreno da história positiva, de como as coisas efetivamente aconteceram”.

A história entre formas literárias e normas de verdade: o estatuto da prova


Hayden White, embora afirmando sua total rejeição por toda ideologia fascista, refuta as asserções de Vidal Naquet, situadas “no terreno da história positiva”, sobre as “mentiras” veiculadas por R. Faurisson sobre o extermínio dos judeus (10). “A distinção - afirma White - entre uma mentira e um erro ou uma falha de interpretação pode ser mais difícil de estabelecer no que diz respeito a eventos históricos menos amplamente documentados do que o Holocausto”.

Segundo Carlo Ginzburg, que comenta a discussão, a noção de “mentira” implica para White num sério problema, já que remete aos conceitos de “realidade” e de “prova”. Ginzburg acusa o ceticismo e o relativismo de White, como fundamento moral e epistemológico de uma tolerância historica e logicamente insustentável. E conclui, ao final de seu belo texto Just One Witness (11), que tanto a memória quanto a sua destruição são elementos recorrentes em história.

De um modo geral, como na importante discussão travada entre, Vidal-Naquet, Ginzburg e White, a possibilidade de separação entre a verdade e a mentira ou o verdadeiro e o falso, condição de possibilidade do conhecimento “científico” sobre o passado, constitui o cerne da oposição às teses narrativistas. Marcadas por uma forte influência da lingüística, desde os anos 60, nelas já estariam prefigurados o relativismo dos tempos pós-estruturalistas vindouros.

Esse ambiente intelectual dos últimos 20 anos, afirma Carlo Ginzburg no Prefácio à edição francesa de Lorenzo Valla (12), foi propiciador da oposição entre prova e retórica. A primeira foi constantemente identificada à historiografia positivista. A segunda, reificada pelo linguistic turn – que, segundo Ginzburg, é mais propriamente um rhetoric turn. Só que, para se opor à noção de prova, a retórica (aristotélica) foi travestida, desde o final dos anos 70, de roupagens nietzscheanas, atuando como “máquina de guerra cética”, no dizer do historiador italiano. Trata-se, portanto, de uma retórica auto-referencial, sem provas, ou melhor, refratária às provas, contrariamente à retórica aristotélica, construída a partir da eloquência judiciária.

Uma exceção nesse cenário contemporâneo, lembra Ginzburg: a de Chaim Perelman (13), que propôs-se a pensar a história a partir do estatuto científico da prova, como prática (discursiva) argumentativa, persuasiva e retórica. Perelman restitui, assim, no discurso histórico, a dimensão da retórica aristotélica, concebendo a aliança entre prova e técnicas argumentativas, e com ela a possibilidade de dizer a realidade passada e de separar o verdadeiro do falso.

Historiografia, tensa operação


Recusar a redução da história à atividade literária, sem com isso fazer com que assuma “um estatuto científico forte”, posiciona-nos mais uma vez frente à questão fundamental colocada por Michel de Certeau, em meados dos anos 70: “o que fabrica o historiador ao 'fazer história'?”. E à resposta: “Considerar a história como uma operação será tentar, de um modo necessariamente limitado, compreendê-la como a relação entre um lugar (um recrutamento, um meio, um ofício, etc.), procedimentos de análise (uma disciplina) e a construção de um texto (uma literatura). É admitir que ela faz parte da 'realidade' de que trata, e essa realidade pode ser compreendida 'como atividade humana', 'como prática'. Nessa perspectiva, gostaria de mostrar que a operação histórica se refere à combinação de um lugar social, de práticas 'científicas' e de uma escrita” (14).

Prática humana, em geral, a historiografia é, portanto, dependente das coerções do lugar social (econômico, político, cultural, institucional) em que se articula a pesquisa, dos procedimentos técnico-científicos e das regras que governam a sua escrita.

Prática científica, em particular, a história é épistémè, forma de conhecimento que pressupõe distinções mais profundas: ficção X ciência ou fantasia X verdade. No “horizonte da historiografia”, José Américo Pessanha (15) contempla tensões como essas, sempre presentes, expressas em outras variantes do mesmo binômio radical sono X vigília: mito X ciência; ser X não-ser ou mesmo X outro ou real X simulacro; verdadeiro X falso ou razão pura X razão prática; Razão absoluta X linguagem; descontinuidade X duração, etc. Sem que a história perca de vista seu estatuto de cientificidade e o seu valor científico, essas tensões podem, em diferentes momentos, se radicalizar, aumentando ou diminuindo a distância que separa a prática historiográfica de um ou de outro polo do binômio.

Não mais alicerçada no “paradigma galileano”, matemático e dedutivo, a escrita da história teve reduzida, nos últimos anos, a distância que a separava da atividade literária. “Importante ressaltar: essa forma de conceber a história enquanto narrativa não faz dela ficção; a arbitragem – não o arbítrio – do historiador não se confunde com o ato de vontade que institui ou cria ficções. Se inevitavelmente “fabula”, ao valorar, selecionar e ligar eventos ou momentos isolados, ao relacionar elementos dispersos no tempo e no espaço realiza uma fabulação controlada pelo auditório de especialistas diante do qual a tese que defende – como advogado perante um tribunal – é permanentemente julgada por meio de argumentos e contra-argumentos” (16).

Pessanha inscreve, assim, a produção histórica numa dimensão jurídica: processo (no sentido jurídico do termo) encaminhado com a arbitragem dos historiadores. A referência, mais uma vez, é Chaim Perelman, que aponta para a importância da retórica argumentativa, persuasiva, para a prática historiográfica.

O texto histórico não mais se encontrará obrigatoriamente atrelado à reivindicação do seu estatuto literário, acima de qualquer outro, a partir do momento em que o historiador assumir que narra, fabula (do verbo fari, falar), articulando coerentemente representações históricas, figuras retóricas e enunciados científicos. É essa articulação que faz da historiografia muito mais do que uma soma de textos específicos, mas uma intensa operação.

1() H. L. de LA POPELINIÈRE. L'Histoire des Histoires. Avec l´idée de l´Histoire accomplie. Paris, Chez Marc Orry, 1599 (edição recente: Paris, Fayard, 1989, vol. II, p. 38). 2() LA POPELINIÈRE, citado por G. HUPPERT. L´idée d´Histoire parfaite. Paris, Flammarion, 1973, p. 186. 3() F. HARTOG. “ A arte da narrativa histórica”. In: Passados recompostos. Campos e canteiros da História. Rio de Janeiro, Editora UFRJ/Editora FGV, 1998, pp. 193-202. 4() Um erro de tradução, na página 195 da edição citada na nota anterior, deve ser aqui retificado: a frase de Lucien Febvre é “Os fatos são feitos” (e não “Os fatos são fatos”). Hartog, ao citá-la, quer mostrar que o cerne dos combates da história, nesse regime de historicidade, é o acontecimento, e não a narrativa. Assim, Febvre aproxima o historiador do cientista (histologista), que “faz”, “prepara” o seu objeto, e não do romancista que constrói a ficção. 5() Paul RICOEUR. Temps et récit. Paris, Seuil, 1983 (3 tomos). 6() Citemos, além da obra de Paul Ricoeur, os trabalhos de Lawrence Stone, Paul Veyne, e Michel de Certeau. 7() De H. WHITE, editados no Brasil, temos: Metahistória. São Paulo, EDUSP, 1995 e Trópicos do discurso. São Paulo, EDUSP, 1994. 8() R. CHARTIER. Au bord de la falaise. Paris, Albin Michel, 1998, p. 103. 9() P. VIDAL-NAQUET. Les juifs, la mémoire et le présent. Paris, PCM/Maspero, 1981, p. 217. 10() H. WHITE. The Content of the Form, Baltimore, 1987, p. 77. 11() C. GINZBURG. “Just One Witness” . In: Saul FRIEDLANDER (org.) Probing the Limits of Representation. Nazism and the 'Final Solution'. Cambridge/Londres, Harvard University Press, 1992, pp. 82-96. 12() C. GINZBURG. Prefácio a LORENZO VALLA. La Donation de Constantin. Paris, Belles Lettres, 1993, pp. ix-xxi. 13() De Chaim PERELMAN (e L. OLBRECHT-TYTECA), dentre outras obras editadas no Brasil, temos o importante Tratado da argumentação. São Paulo, Martins Fontes, 1996. 14() M. de CERTEAU. “A operação historiográfica”. In: A escrita da história. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1982, pp. 65-119. 15() J. A. PESSANHA “O sono e a vigília”. In: NOVAES, A. Tempo e história. São Paulo, Cia. das Letras/SMC, 1992, pp. 9-18. 16() Idem, p. 50. 

Esta é uma iniciativa de alunos do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e este é um espaço público onde todas as colaborações políticas, acadêmicas e artísticas são bem vindas.

Historiografia: Sobre os Annales

A revista dos Annales foi fundada em 1929 tendo como principais mentores Marc Bloch e Lucian Febvre. Sua nova abordagem para o estudo da História trouxe consequências e influências até os dias de hoje.
A revista se consagrou conjuntamente com a obra de seus principais fundadores. O movimento dos Annales, normalmente chamado de Escola dos Annales, não possui exatamente, os elementos que constituem uma escola, rigidamente organizada fechada estritamente em torno de uma convicção ou paradigma.
Para o entendimento da formação e da configuração do que consideramos como os Annales, torna-se mais acertado entendê-lo como um movimento, que não se restringe somente às publicações contidas nos “Annales d’histoire économique et sociale”.
Entre as obras de maior destaque daqueles que compuseram o movimento dos Annales encontram-se os “Reis Taumaturgos” de Marc Bloch, publicado em 1924, ou seja, antes da fundação da revista, e o “O Mediterrâneo” de Fernand Braudel.
Encontramos neste movimento, uma certa unidade em sua composição, mas não uma homogeneidade. Jacques Revel o define como um conjunto de estratégias, uma nova sensibilidade, uma atividade que de fato mostra-se pouco preocupada com definições teóricas.
A revista dos Annales passou por diversas reformulações desde que foi fundada. Em sua primeira concepção, os trabalhos de seus principais pensadores Marc Bloch e Lucian Febvre, fizeram-na conhecida e reconhecida mundialmente. Com a proposta de renovar-se e manter-se sempre atual, notamos nos anos 60 uma grande repercussão da revista e forte influência de Fernand Braudel. Na terceira “fase” dos Annales , ou na chamada Nova História destacam-se historiadores como LeGoff, Duby.
A revista nasce como uma publicação reivindicadora e renovadora, assumindo posições altamente críticas em relação ao tipo de historia que costumava ser realizada principalmente na Academia. Apesar de também se dirigir ao público leigo, foi no ambiente acadêmico que os Annales travaram seus principais debates.

Georges Duby


As propostas encontravam-se em dois eixos centrais, a da reivindicação de uma história experimental científica e a da convicção de uma unidade em construção entre a história e as ciências sociais. Uma das características iniciais dos Annales está na reflexão dos historiadores tanto em relação a sua área de estudos, como sobre suas formas de trabalho. Preocupa-se em tirar a história de seu isolamento disciplinar, de forma que as formas de pensar em História, estejam abertas as problemáticas e a metodologias existentes em outras ciências sociais, no que costumamos denominar de interdisciplinaridade.

História e as Ciências Sociais no início do século XX


Em 1903, um sociólogo chamado François publicou na revista “Revue de synthèse historique” um importante artigo, que discutia a metodologia usada tradicionalmente em história. Simiand no início do século já trazia em seu texto, idéias que de vinte anos mais tarde, seriam reelaboradas e discutidas e modernizadas pelo Movimento dos Annales.
Simiand era um sociólogo durkheimiano, que criticava a metodologia histórica hoje conceituada como positivista em que se acreditava que o essencial na História seria estabelecer os fatos. A sociologia no início do século constituía-se como uma nova ciência social. Esta possuía um dinamismo e uma articulação com o social, que não se possuía em História.
No início do século XX, nota-se na França um constante debate entre historiadores e sociólogos, que trouxeram aproximações e ferrenhas distinções entre as duas disciplinas. O texto de Simiand encontra-se situado entre estas constantes discussões e debates. O autor acreditava que seria possível uma unidade metodológica para todas as ciências sociais, incluindo a História. No entanto, a interdisciplinaridade que defendia, era concebida a partir da existência de um modelo unificado que serviria para todas as áreas do conhecimento humano.
Com as ciências sociais no início do século XX, o homem deixou de ser considerado pelo pensamento como sujeito e tornou-se objeto. Na perspectiva de Simiand, a constituição de uma verdadeira ciência social passaria por exigências conceituais como da escolha de hipótese para a realização de uma pesquisa.
O que será retomado em 1930 pelos Annales, quando conceituam a perspectiva da história-problema. O sociólogo durkheiniano criticava a dimensão temporal cronológica da História. A temporariedade daria-se entre as variações e recorrências. Seguindo as explicações de Jacques Ravel, a classificação segundo Simiand, seria construída sobre fatos sociais, desembocando, portanto numa identificação de sistemas.
A Historia, na perspectiva sociológica, seria uma abordagem entre outras do fenômeno social, além de dar conta dos fenômenos do passado. Possuía uma posição importante entre as ciências sociais, mas não central.
Nos Annales, apesar da influência de Simiand e das ciências sociais, a interdisciplinaridade, e a integração da História entre as ciências sociais, não seguem exatamente o modelo Durkheimiano.
Diferente do que propunham os sociólogos, a partir dos anos 30 e por mais de uma geração, o que ocorre é que a História será o centro das atenções entre as ciências sociais, ou as ciências do Homem, como costuma-se denominar na França. A partir dos Annales, a História deixa de ser uma disciplina preocupada com os meandros políticos, para assumir a questão do social. Procurar entender a sociedade, as formas de sociabilidade, nos diversos tempos vividos pelo homem, que caracteriza-se por ser um ser social.
A História, como uma disciplina a ser ensinada nos colégios e na universidade, percebida como uma carreira intelectual, encontrava muito mais apoio e prestígio durante o período das duas Grandes Guerras Mundiais, do que as outras ciências sociais como a sociologia, e a antropologia. Pode-se dizer, que houve um certo imperialismo dos Historiadores na França, calcados principalmente nas figuras de Bloch, Febvre e posteriormente Braudel. O que inicialmente era uma revista marginal, tornou-se uma publicação de grande prestígio na França.

Os Annales e o Marxismo


Durante o século XIX, encontramos entre os intelectuais e cientistas sociais, duas principais tendências de análise; a cientificista, que no campo da história podemos denominar de positivista e a marxista. A história de tendência positivista pode ser considerada como possuidora de uma visão muito conservadora da sociedade, tendendo a reproduzi-la e mantê-la sem uma vontade modificadora. Já a história de tendência marxista, alinha-se principalmente com os movimentos políticos e culturais que se concentraram entre o final do século XIX até meados do século XX, tendo até os dias de hoje uma grande repercussão e prática.
Principalmente a partir dos anos 10, teremos uma influência muito grande de Marx e do marxismo nos diversos tipos de interpretações sociais da vida humana. Entre as obras de Marx, destaca-se “O Capital” e sua obra de maior cunho histórico “O 18 Brumário”. Atualmente, Eric J. Hobsbawn pode ser considerado como um dos historiadores marxista de maior prestígio historiográfico com livros importantes como “A Era do Capital”, “A Era das Revoluções” entre outros.
Com Marx discute-se o destino do sujeito, transformando-o em um objeto de um novo saber. Sua analise desloca-se para um conceito de que as condições materiais da vida são dadas. Tem-se o chamado materialismo histórico em que as análises sociais são permeadas principalmente pelas análises econômicas. As condições de vida material são a estrutura dentro da qual a consciência circula e pela qual é condicionada. Não compreende-se o irracional como ausência de ordem, mas como ordem sem consciência. Deseja-se reencontrar a consciência e restituir o homem a sua posição de sujeito.
Segundo José Carlos Reis, Marx vê uma sociedade estruturada e dentro desta estrutura o trabalho negativo. Essa negatividade pode ser tanto subjetiva quanto objetiva. É a práxis da classe revolucionária e é o desenvolvimento das forças produtivas, que se dá pela lógica mesma da estrutura e independente da luta de classes.
O século XIX, no qual Marx viveu e escreveu sua obra, é marcado pelo Iluminismo. As grandes bases para o entendimento do mundo estariam na razão, embebecida da idéia de progresso. No século XX temos o esfacelamento desses conceitos.
Entre os séculos XIX e XX encontramos a existência de diversos tipos de manifestação das idéias marxistas. Destaca-se por um lado, o marxismo iluminista, que crê na utopia comunista, beirando o idealismo hegeliano. Esse marxismo age no sentido da História – Razão, que crê na consciência do sujeito e na consciência revolucionária, que faz a revolução em nome da razão.
Encontramos também, um marxismo não utópico, tendo sido o pioneiro na elaboração de uma concepção estrutural da história e que entrará em certos atritos ou discordâncias com as tendências de análise histórica dos Annales.
A história realizada pelos marxistas é uma história estrutural e econômico- social essencialmente política. Para eles, o evento é ruptura, transformação profunda, desintegração e transição estrutural, mudança que renova a estrutura, que a fortalece, que explora as suas potencialidades e a torna mais duradoura.
Os Annales não possuem uma percepção progressista continuista da história, recusando as ideias de progresso e em grande parte de revolução. Muitas vezes, os marxistas criticam os historiadores ligados aos Annales por seu conservadorismo, uma vez que não existe entre eles uma teoria de mudança social e da luta de classes.
Por não pensarem em mudança, luta e revolução, os Annales são considerados pelos marxistas como reacionários, como correspondentes de uma história que interessaria ao capital e a dominação. Por fim, em função de uma diferença teórico metodológica, encontramos um conflito entre os Annales e os Marxistas mais ortodoxos, que acabam se transformando em disputas por “paixão ideológica”.
Para os Annales, diferente da interpretação marxista, a economia não desempenha um papel determinante no conjunto dos funcionamentos sociais. Sendo estas as principais críticas de Bloch e de Febvre à percepção marxista. Os Annales defendem que a tarefa das ciências humanas é explicar o social complexificando-o e não simplificando através de abstrações.

Marc Bloch, Os Reis Taumaturgos e os Annales


Marc Bloch, nasceu em 1886 na França, sendo considerado um dos fundadores da Revista dos Annales, morreu em 1944 fuzilado pelos nazistas, tendo participado ativamente da Primeira Guerra Mundial entre 1914 e 1918. Somente com a análise de sua trajetória individual e seu engajamento político, já somos capazes de nos contrapor às críticas marxista que acusavam que seguiam as linhas de analise propostas pelos Annales de empatia política e de conservadorismo da parte dos intelectuais.
Marc Bloch pode ser considerado como um dos primeiros historiadores do movimento dos Annales, não tendo ficado de forma alguma atrelado apenas a Revista dos Annales. Um de seus livros mais importantes “Os Reis Taumaturgos” foi escrito em 1924 e trará em grande parte as propostas que serão defendidas pelo movimento principalmente a partir dos anos trinta.
A proposta do livro, apesar de ter sido elogiado e bem recebido pela comunidade acadêmica trouxe estranheza para a maioria dos intelectuais que o leram. Considerado por muitos como o fundador da antropologia histórica, Bloch fez história com o que antes era entendido como anedota ou supertição, ou seja, o poder miraculoso de curo dos Reis da França e da Inglaterra.
Além da experiência que teve com a primeira guerra mundial, o ambiente da Universidade de Estransburg pode ser considerado como um dos maiores influenciadores para a constituição de suas problemáticas e de sua carreira intelectual. Como a cidade havia sido retomada pelos franceses, assistimos a uma tentativa de desligamento da Universidade com sua tradição Alemã, sendo assim, foram chamados para lá, alguns dos jovens intelectuais dos mais brilhantes da França.
Bloch vivia, portanto em um ambiente de grande efervescência, tendo sido muito influenciado pelas conversas com os colegas e amigos Blondel e Halbward, ambos antigos alunos de Durkheim. Seu contato com as ciências sociais era muito grande, dessa forma tornava-se possível começar a perceber o estudo da História de uma maneira diferente, incrementar novos conceitos e paradigmas nas pesquisas.
Uma nova crítica ao modo positivista de fazer história acabou por ser gerado, e os questionamentos teóricos sobre história puderam ganhar novos fôlegos metodológicos.
“Os reis Taumaturgos”, nas palavras de Jacques Lê Goff cresceram em um humo interdisciplinar, que podem ser inseridos no mais atualizado pensamento histórico e antropológico dos anos 20. Pode-se notar em Bloch, uma influência Durkheimiana, principalmente em função de como o autor tratava seu objeto.
Na conceituação de Durkheim, o sagrado é definido como uma representação da sociedade. Tanto um como o outro autor, foram amplamente influenciados por Fustel de Coulanges . Henri Sée amigo e colega de Bloch, considerava de que o método sociológico tal como definiu Durkheim era em grande parte um método histórico.
O autor do “Os reis Taumaturgos” tinha a seguinte opinião sobre Durhkeim: “Ele ensinou-nos a analisar com maior profundidade, a considerar os problemas mais de perto, a pensar, eu ousaria dizer, menos barato. Marc Bloch, aprendeu a não pensar barato, mas também não seguiu a metodologia sociológica durhkeimiana.
Assim como com a sociologia, seu contato com a historiografia Alemã foi muito importante, principalmente em relação à com a temática desenvolvida, como a questão da história da autoridade monárquica, das insígnias e do etnolegalismo.
O trabalho de Bloch é reconhecido principalmente pela sua uma extrema erudição, e entre as várias leituras do autor, podemos apontar o seu conhecimento do trabalho de dois antropólogos James Frazer e Lucien Levy- Bruhl. Ambos foram muito importantes para os estudos em antropologia e apesar de terem sido criticados e ultrapassados metodologicamente, são lidos até hoje.
O autor, a partir de seus estudos, abriu a possibilidade da pesquisa história se ampliar largamente em diálogos com outras áreas. Os Reis taumaturgos dialogam com ciências nascentes de sua época como a psicologia coletiva, biologia, além da etnografia comparada, a medicina popular comparada e o folclore.
“Os Reis taumaturgos”, em sua estrutura de pesquisa , já apontava para duas das grandes propostas de inovação dos Annales. A primeira seria explicar o milagre na sua duração e em sua evolução, e em segundo, a busca de uma explicação total, de uma história total.
A proposta de que o que criou a fé no milagre, foi à ideia de que ali devia haver um milagre, tornou-se uma das bases da história das mentalidades e da psicologia histórica.
Considerado como um mergulho da história profunda, o milagre régio podia ser considerado como uma gigantesca notícia falsa. Partindo-se da premissa de que era preciso “compreender o passado pelo presente”, a experiência de Bloch com os soldados de 1914 a 1918 e as propagações das notícias falsas, serviram como um estopim para sua análise das formas de pensar das pessoas durante a Idade Média em relação ao milagre régio.
Bloch, portanto influência e é influenciado. Suas obras e novas proposições não nascem de “geração espontânea” e o diálogo entre História e as Ciências Sociais, a partir dos estudos e das interpretações destes homens, é um fato a ser entendido no contexto de estudo e erudição a que se propunham. Seria impossível realizar-se uma obra original sem o estudo daquilo que se tinha realizado anteriormente.
A partir dos Reis Taumaturgos e da força que os Annales tomarão em suas interpretações, teremos novas questões a serem levantadas. O diálogo com as ciências sociais nos anos 30 estava só começando.
Atualmente a antropologia histórica tem se tornado uma área com vastos pesquisadores se debruçando em diversos temas e restabelecendo diálogos e inovando metodologicamente.


Conflitos, Diálogos e Influências: História e os Annales e Levi Strauss


Ao contrário do que pretendia Durkheim, o campo das ciências sociais foi dominada na França principalmente a partir dos anos 30, em torno do estudo da História e não de uma metodologia em comum para todas as áreas do conhecimento. Os Annales surgem desses diálogos interdisciplinares, mas tornam-se mais celebres e ganham mais destaque intelectual, do que as outras ciências humanas.
Uma das explicações para a “tomada de cena” pela História neste período, encontra-se no nacionalismo advindo da Segunda Guerra Mundial e da importância que passa a ser dada ao resgates da memória, muito associadas ao estudo da história. As ciências sociais, apesar de sua importância encontram-se um pouco apagadas do contexto intelectual universitário, fato que começará a ser mudado com a publicação de Tristes Trópicos de Claude Levi Strauss em 1955.Foi principalmente a partir da publicação de Antropologia Estrutural, em 1958 que Levi Strauss passou a ter um forte impacto na academia, ultrapassando os muros das universidades francesas. A partir dos anos 60 passam a serem lidos e valorizados os primeiros livros do autor como o Nambikware de 1948 e as Estruturas Elementares do parentesco publicado em 1949.
O estruturalismo, como será conhecido esse movimento em torno das obras de Levi Strauss, tomará nos anos 60, um cunho muito radical expresso em um forte antihistoricismo. Atribui-se essa posição muito em função da necessidade da Antropologia, principalmente a etnologia “levistroniana”, de se afirmar perante as outras ciências, principalmente a história.
Vivia-se nesse período uma decepção muito grande com a história contemporânea e os rumos que o mundo havia tomado após a Segunda Guerra. Temos movimentos estudantis, como o “Proibido proibir” conflitos de rua, a realidade da Guerra Fria, e nos países da América latina, os golpes de Estado e as ditaduras militares. Em muitas partes do mundo, o clima era de insatisfação e de contestação.
Os acontecimentos cotidianos estavam desencadeando uma certa abdicação, degradação dos antigos preceitos aliados à História.
Entre os Annales, o historiador que mais dialogou com esse movimento estruturalista liderado por Levi Strauss, foi Fernand Braudel. É bastante conhecida a influência e repercussão de um artigo de Braudel publicado em 1958 sobre a “longa duração”, que foi publicado no mesmo ano de Antropologia Estrutural de Levi Strauss.
Ambos os escritores tiveram passagem pelo Brasil, tendo dado aulas e palestras na Universidade de São Paulo. Tristes Trópicos foi escrito por Strauss a partir das experiências que este teve quando vivia no Brasil, contendo diversos trabalhos de campo que foram realizados com índios que se encontram em territórios brasileiros.A metodologia estruturalista permitia poucos espaços para o tipo de pensamento histórico ocidental e quando este tentava ser aplicado, não produzia sentido ou efeito para a análise desenvolvida. O que se nota atualmente principalmente com trabalhos como os de Marshal Sahlins[2], é que todos os povos possuem suas formas de representação sobre o seu passado, mas que não necessariamente estas representações são históricas no molde ocidental de conceber história. A maneira de conceituar história para a civilização Ocidental não é a mesma que para outros povos e formas de pensamento.
O que Braudel procurava assim como os Annales, era uma história sem fronteiras. Apesar da recusa estruturalista da história por parte de alguns antropólogos , foram montadas relações entre as ciências sociais e a história, que tornaram-se profundas e proveitosas para todas as áreas, ampliando assim, as possibilidades de interpretação nos estudos das humanidades.
Os estudos de História Social e de Antropologia Social têm-se tornado cada vez mais interdisciplinares e entre os historiadores que tem-se debruçado sobre a perspectiva de uma antropologia histórica destacam-se Robert Darton, com seus estudos sobre leitura, sobre mentalidade. Entre os livros publicados pelo autor, destaca-se uma coletânea de ensaios, cujo título “O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa”, já chama a atenção para um dos ensaios “Os trabalhadores se revoltam: O Grande massacre de gatos na Rua saint- Severin”, que pode ser considerado como uma das melhores experiêcias de debruçamento e interdiciplinaridade entre a história social e a antropologia social.
Na busca de entender a graça, por traz de um massacre de gatos, ocorrido na França às voltas da Revolução francesa, o autor trabalha o relato de um operário da época, com a maestria de interpretar o documento e compreender todo um código social, contido naquelas palavras. Um jogo que configura-se em ir ao documento, ir ao contexto e voltar ao documento para então compreender o outro, a piada que não se entende.
Merlau Ponty em seu texto intitulado “De mauss a Claude Lévi Strauss” discute muito bem os caminhos que levaram Strass ao estruturalismo, e como compreende-lo metodologicamente.
A preocupação de Strauss assim como o da sociologia era a de conseguir realizar o acesso ao outro, processo que também se realiza nas investigações históricas.
Nem Durkheim, nem Levy Bruhl, que chegaram a influenciar as interpretações de Bloch para escrever Os Reis taumaturgos, conseguiram atingir com suas análise o melhor acesso a interpretações para o “outro”, como será feito por Levi Strauss. No entanto, a contribuição de cada um desses autores foi muito importante, para as mudanças e ampliações nesta busca pelo entendimento e interpretação do Homem, a tomada do homem como objeto.

Claude Levi-Strauss


O social, como o próprio homem, pode ser entendido em dois pólos ou faces, como significante, em que pode-se compreender o homem por dentro e na intenção pessoal, que encontra-se mediatizada pelas coisas. Mauss,em seu “Ensaio sobre o Dom, forma arcaica da troca” teria , segundo Merlau Ponty, antecipado uma sociologia mais elástica, uma antropologia social.
Durkheim se propunha a tratar os fatos sociais como coisas e não mais como um sistema de idéias objetivas, mas só conseguiu representar social através do psíquico. Ampliava as representações para formas coletivas ou individuais e não sociais.
O autor, com a sua conceituação de morfologia social procurava uma gênese ideal das sociedades, mas assim o simples , a sociedade simples acabava sendo confundida com o essencial e com o antigo. Para Durkheim as sociedades primitivas são sistemas mais simples.
Levy- Bruhl, a respeito de uma mentalidade pré-lógica, não dava uma abertura para o que havia de imutável nas culturas ditas arcaicas, as congelava em uma diferença intransponível.
Faltava, portanto, entre esses dois autores, a penetração paciente no objeto e a comunicação com ele.
O início dessa comunicação será dado por Marcel Mauss, que não chegou a polemizar com a escola francesa, mas se diferiu dos outros autores na sua maneira de entrar em contato com o social. Mauss chama de resíduo que se encontra entre as variações e correlações, a partir disso, seria possível encontrar as razões profundas da crença.
Encontramos nestes autores preocupações que já estavam presentes em Marc Bloch em seu estudo sobre o poder de cura dos reis. A sua procura por um entendimento de um rito Ocidental, que existiu historicamente; traz necessariamente alguns diálogos, com o trabalho desses antropólogos que procuram conceituar e compreender os ritos em outras culturas.
Para Mauss era preciso penetrar no fenômeno, lê-lo. O fato social já não era uma regularidade compacta, mas um sistema eficaz de símbolos, uma rede de valores simbólicos em se insere no individual mais profundo. Assim, não havia mais o simples absoluto, nem a pura soma, mas em toda parte, totalidades ou conjuntos articulados mais ou menos ricos.
Mauss no entanto, ficou na troca indígena, não chegou a um modelo. Seguindo suas pistas Levi Strass foi mais longe. O autor denominará de estrutura a maneira como a troca está organizada em um setor da sociedade ou na sociedade inteira. Os fatos sociais não são mais coisas nem idéias, mas estruturas.
A estrutura organiza os elementos que nele entram de acordo com o princípio interior, a questão do sentido. Ela é praticada como óbvia, e é por isso que se pode dizer, que a estrutura tem a sociedade e as pessoas, mais do que a sociedade e as pessoas a tem, ou seja, tem a estrutura. Comparando com a maneira de se pensar a linguística, em que Strauss deve muito a Saussere, o sujeito que falante de uma língua, o português por exemplo, não precisa para falar, para se comunicar com as pessoas, que passar pela análise linguística da língua, que conhecer sua estrutura gramatical, sua composição estrutural.
A etnologia, portanto passa a ser uma especialidade definida não por um objeto particular, as sociedades primitivas, mas torna-se uma maneira de pensar, que se impõe quando o objeto é o “outro” e que exige a própria transformação daquele que a observa.
A tarefa do etnólogo torna-se a de alargar a sua razão (a razão ocidental) para torna-la capaz de compreender aquilo que nele e nos outros precede e excede a razão.
A grande crítica da ciências sociais e em particular do estruturalismo antropológico de Lévi Strass em relação à história, vai contra o tipo de história positivista, que encontra-se em busca da verdade e da neutralidade e não diretamente aos novos movimentos de análise historiográfica. No entanto, a história feita pelos Annales não é levada em conta pelos antropólogos.
A história criticada pelos estruturalistas, já não servia nem mesmo para o próprio historiador. Em geral, as sociedades estudadas pelos antropólogos não possuíam os documentos históricos normalmente considerados como tal, pelos historiadores positivistas. No entanto, com os Annales, discutia-se uma abertura maior para a análise de outros tipos de fontes, como as iconográficas.
Já não se esperava do historiador uma neutralidade em seus estudos e em seus trabalhos não se acreditava mais que os documentos falassem por si. Sabe-se que a História é filha de seu tempo, e o que se propõem é o método regressivo, em que o retorno, ao contrário do que se propunham os positivistas nunca é um retorno absoluto.
Temos a questão da História como problema, que volta-se para o passado para debruçar-se sobre uma pergunta, uma questão, formulada pelo pesquisador.
Dessa forma, em seu intercambio com a antropologia, a história propõem-se a uma “etnografia histórica” em que os documentos são vestígios na mão do historiador. A partir do instrumental da etnografia podemos perceber como podem existir muitas histórias e muitos tempos.
A História e a Antropologia dedicam-se a entender a sociedade, tendo o homem como o seu objeto, porém sobre perspectivas diferente e que valem a pena ser preservada. Não há metodologia mais correta e nem um determinismo de uma área do conhecimento sobre a outra, o que notamos são recortes e preocupações distintas.
Por isso que a interdisciplinaridade é muito importante. Essa pode ser considerada como uma das mais importantes contribuições dos Annales para o fazer história, uma abertura e uma proposta de abertura para o diálogo da história com todas as outras áreas do conhecimento.
Interdisciplinaridade, esta é uma proposta em relação ao conhecimento, que merecia uma longa duração... apesar da fragmentação que temos notado nas tendências das pesquisas atuais.


Bibliografia

Bloch, Marc Leopold Benjamin – “Os reis taumaturgos: O caráter sobrenatural do poder régio, França e Inglaterra “ São Paulo, Companhia das letras, 1993,

Burke, Peter- “A escrita da história: novas perpectivas”. São Paulo, UNESP, 1992

Lévi- Strauss Claude – “Mito e Significado”. Lisboa, Edições 70, 1989

Lévi- Strauss Claude – “História e Etnologia” in: Antropologia estrutural. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975

Mauss, Marcel – “Ensaio sobre a dádiva”. In sociologia e Antropologia. São Paulo, EPU, 1974

Merlau- Ponty - “De Mauss a Claude Lévi Strass” Coleção “Os Pensadores” . São Paulo, Abril Cultural, 1980

Reis, José Carlos – “Escola dos Annales – A inovação em história”. São Paulo , Paz e Terra, 2000

Revel Jacques – “A invenção das sociedades”. Lisboa, Diefel, 1989

[1] Bloch, Marc Leopold Benjamin – “Os reis taumaturgos: O caráter sobrenatural do

poder régio, França e Inglaterra” São Paulo, Companhia das letras, 1993. pg 15

[2] Sahlins, Marshal “Ilhas de História” . Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1999


Teoria Marxista

Partindo da teoria do valor, exposta por David Ricardo, Karl Marx, seu principal propugnador, postulou que o valor de um bem é determinado pela quantidade de trabalho socialmente necessário para sua produção. Segundo Marx, o lucro não se realiza por meio da troca de mercadorias, que se trocam geralmente por seu valor, mas sim em sua produção. Os trabalhadores não recebem o valor correspondente a seu trabalho, mas só o necessário para sua sobrevivência. 

Nascia assim o conceito da mais-valia, diferença entre o valor incorporado a um bem e a remuneração do trabalho que foi necessário para sua produção. Não é essa, porém, para Marx, a característica essencial do sistema capitalista, mas precisamente a apropriação privada dessa mais-valia. A partir dessas considerações, Marx elaborou sua crítica do capitalismo numa obra que transcendeu os limites da pura economia e se converteu numa reflexão geral sobre o homem, a sociedade e a história

A Teoria do Valor de Marx

Marx alterou alguns fundamentos da Economia Clássica, estabelecendo uma distinção entre valor de uso e valor de troca:

Valor de Uso: Representa a utilidade que o bem proporciona à pessoa que o possui

Valor de Troca: Este exige um valor de uso, mas não depende dele.

Tal como Ricardo, Marx acredita que o Valor de Troca depende da quantidade de trabalho despendida, contudo, a quantidade de trabalho que entre no valor de toca é a quantidade socialmente necessária (Quantidade que o Trabalhador Gasta em média na Sociedade, e que obviamente, varia de Sociedade para Sociedade).

Como facilmente pressupões, Marx defendia a teoria da exploração do trabalhador.

Marx dizia que só o trabalho dava valor às mercadorias, a tal Mais Valia, que referi no trabalho sobre Karl Marx.

Equipamentos, não davam valor, apenas transmitiam uma parte do seu valor às mercadorias, não contribuindo portanto para a formação de valor.

Pelo contrário, o Homem através do seu trabalho fazia com que as matérias primas e os equipamentos transmitissem o seu valor ao bem final, e ainda por cima criava valor acrescentado (Por exemplo, no Capital Marx falava do exemplo das fiandeiras, que pegavam no algodão e o transformavam por exemplo em camisolas, criado um valor acrescentado que só mesmo o Trabalho Humano pode dar).

Para Marx existe uma apropriação do fruto do Trabalho, que contudo não pode ser considerado um roubo pelo Capitalista, porque ao fim ao cabo, o Trabalhador está a ser pago para fazer aquele trabalho.

O Valor é formado tendo em conta o seu custo em termos de trabalho, desse valor o Capitalista apropria-se da Mais Valia através da utilização do seu Capital.

Toda esta teoria da repartição do Rendimento, leva-nos para um conceito fundamental em Marx que é precisamente o da Mais Valia .

Mais Valia

Portanto Marx afirmava que a força de trabalho era transformada em mercadoria, o valor de força de trabalho corresponde ao Socialmente necessário.

Tudo estaria bem, contudo o valor deste Socialmente Necessário é um problema.

Na realidade o que o trabalhador recebe é o salário de Subsistência, que é o mínimo que assegura a manutenção e reprodução do trabalho.

Mas apesar de receber um salário, o trabalhador acaba por criar um valor acrescentado durante o processo de produção, ou seja, fornece mais do que aquilo que custo, é esta diferença que Marx chama de Mais Valia.

A Mais Valia não pode ser considerado um roubo pois é apenas fruto da propriedade privada dos meios de produção.

Mas, os Capitalistas e os proprietários, procuram aumentar os seus rendimentos diminuindo o rendimento dos trabalhadores, é pois esta situação de exploração da Força de Trabalho pelo Capital que Marx mais critica.

Marx critica a essência do Capitalismo, que reside precisamente na exploração da força de trabalho pelo Produtor Capitalista, e que segundo Marx, um dia haverá de levar à revolução social.

 

Karl Marx - Parte II
As Contradições do Sistema Capitalista

A subordinação da classe trabalhadora


Karl Marx defende que o trabalhador é origem do valor. Sendo ele a origem do valor, entretanto há uma tendência para o empobrecimento do Trabalhor.

A Oferta do Trabalho depende da evolução demográfica, da procura do Capital Investido e também do Progresso.

O Progresso técnico é inerente ao Capitalismo, logo com o progresso técnico a procura de trabalho tende a descer.

Marx diz também que a baixa na procura do trabalho não leva a diminuições sucessivas do trabalho, pois os Sindicatos não o permitem, contudo, os operários são reduzidos à miséria pois não podem trabalhar.

Há primeira vista a ideia de Marx é bem formulada. É inegável que, não obstante todas as vantagens produtivas que o progresso técnico traz, ele costuma acarretar uma descida na quantidade de trabalho procurada.

O que Marx não diz, é que o progresso técnico também criar novos postos de trabalhos. Ou seja, com o progresso técnico surgem novos postos de trabalho que antes não existiam. Isto cria um problema aos trabalhadores menos qualificados, que terão de se reciclar para poderem trabalhar nos novos empregos.

No Total, o progresso técnico acaba por não ter grande influência ao nível da Oferta de Trabalho. Os empregos perdido, são compensados pelos novos empregos. Agora o grande problema é para os trabalhadores menos qualificados, que vêm os seus antigos trabalhos a perderem valor, e que tem de se reciclar para fazer frente às novas exigências.


Tendência para a Diminuição da Taxa de Lucro


Para Marx, a Taxa de Lucro era o rácio da Mais Valia - MV - sobre a soma do Capital (capital constante - C - mais capital variável - v - ).

Se C/V for igualado a X. Temos que C=XV, logo a Taxa de Lucro = MV/v(1+x) = MV/v * 1/(1+x).

Ora a tendência do Capitalista é a acumulação de Capital. Isto implica um aumento de X (Derivado da inovação tecnológica utiliza-se cada vez mais máquinas, logo, sobe o peso do Capital Constante).

Ora aumentando X (Pois o valor de C aumentou), aplicando a fórmula acima, facilmente se vê que a taxa de lucro desce.

Para Marx este movimento pode ser contrariado pela exploração da Força de Trabalho (aumentado dessa forma o V, o que implicará um aumento da Mais Valia (MV), logo um aumento da taxa de Lucro).

Esta análise está fortemente condicionada pela análise do Valor que Marx faz. Para Marx apenas a Força do Trabalho cria Valor, pois o restante capital (meios de produção) apenas o transmite.

Segundo esta lógica, há de facto uma tendência para a baixa taxa de lucro.

que Marx não refere (e convém sempre salientar que toda a análise tem que se enquadrado no seu ambiente histórico) é que o Progresso Tecnológico reduz os custos dessa mesma Tecnologia (Ou seja o V não aumenta mas sim diminui).

Também não leva em consideração na sua análises os efeitos da crescente produtividade. Ora mantendo a mesma força de trabalho, a mesma quantidade de trabalho gera mais valor, por via do crescimento da sua produtividade do trabalho (ou seja, a Mais Valia de cada Trabalhador também aumenta).

Logo, não existe uma tendência para a baixa da taxa de lucro, mas sim uma tendência para a subida da taxa de lucro.

O Raciocínio de Marx, caso não tomássemos em consideração os efeitos do crescimento da produtividade, está completamente certo. Contudo, o aumento da produtividade do trabalho, aumenta a Mais Valia de cada trabalhador, e o progresso tecnológico diminui os custos dos Meios de Produção.

Temos pois que a tendência do Sistema Capitalista é a subida da taxa de Lucro, por via de: - Aumento da Mais Valia (por causa da subida da produtividade de cada trabalhador), e diminuição dos custos do Capital Constante (por causa do progresso tecnológico).


Etapa Monopolista


Visto que a tendência do Capitalista é a acumulação, há uma tendência para a baixa dos preços.

Se os preços descem, existem empresas que não podem produzir (pois não conseguem gerar lucros com esse nível de preços), como não conseguem produzir, desaparecem.

Com o desaparecimento das empresas não competitivas, a Indústria tende a concentrar-se nas poucas empresas que conseguem acompanhar o nível de preços, mantendo-se lucrativas.

Para Marx, a Contradição reside no fato de se perder a essência do Capitalismo. Pois deixa de haver concorrência há medida que a concentração aumenta.

Aqui Marx tem toda a razão. Os Progresso tecnológicos e ciêntificos, levam a que os custos de produção das empresas baixem consideravelmente. Baixando os custos de produção, as empresas podem aplicar preços de venda mais baixas.

Aquelas empresas que não conseguem acompanhar o ritmo, por não terem tecnologia suficiente, e principalmente capital para acompanhas as inovações Tecnológicas, são obrigadas a cessar a sua atividade (pois o novo nível de preços, não lhes permite acompanhar as empresas mais modernas).

A Tendência do Capitalismo é pois a concentração, pois nem todos conseguem acompanhar o progresso tecnológico, e a descida dos preços de produção, sendo forçadas a abdicar da actividade.


Conclusão


Marx encontrou pois as 4 grandes contradições do Sistema Capitalista.

Em toda análise que se faça a qualquer trabalho ou ideia, temos que enquadrar sempre na realidade atual.
Ora em relação a estas 4 grandes contradições, Marx falha ao não referir que o progresso tecnológico também cria novos empregos (para os mais qualificados), e também falha na sua análise da tendência para a Baixa da Taxa de Lucro (como vimos influenciada pela sua noção da teoria do valor, e por mais uma vez negligenciar os efeitos do progresso tecnológico). 

 

Produção do Valor de Uso e da Mais Valia


O uso da Força de Trabalho é o Trabalho. Este deve ser útil para realizar valores de uso. O processo de trabalho é composto por: atividade do homem, objeto de trabalho e meios de trabalho

Uma matéria prima é um objeto já trabalhado. O que distingue uma época economica de outra são os meios de trabalho, verificando-se que a quantidade de mão de obra diminui com a evolução dos meios.

O capital compra pois o valor de uso da força de trabalho, sendo esta sua pertença. Contudo, ela não quer apenas produzir uma coisa útil, quer acima de tudo uma mais valia, que o valor desta mercadoria ultrapasse o das mercadorias necessárias para o produzir».

O valor desta mercadoria é determinado pelo tempo socialmente necessário à sua produção (se for despendido mais tempo ou usados instrumentos mais caros, o capitalista só estará a perder dinheiro). Para Marx só o trabalho humano cria valor, as matérias e as matérias primas não criam apenas o transferem quando são trabalhadas pelo homem.


Como é que se forma exatamente a mais valia?


O capitalista comprou a força de trabalho por um valor (valor que permita a subsistência do trabalhador, a sua reprodução, instrução, manutenção e que varia de sociedade para sociedade).

Passa a ser detentor de uma mercadoria, adquirindo o seu valor de uso, criando esta mercadoria uma valor superior ao que ela vale.

é através do chamado Sobretrabalho (por exemplo, nas 5 primeiras horas ele reproduz o valor do seu salário, mas acaba por trabalhar mais tempo). é neste tempo extra (que o capitalista tenta prolongar ao máximo) que ele trabalha e não é pago que é criada a mais valia.

Ou seja, a mais valia surge do fato do trabalhador trabalhar mais do que o socialmente necessário, e é este excedente não pago que o capitalista se apropria e se chama MAIS VALIA. A produção da Mais valia não é mais do que a produção de valor, prolongada para além de certo ponto. Se o processo se trabalho só durar até ao ponto em que o valor da Força de Trabalho paga pelo capital é substituída por um novo equivalente, haverá simples produção de valor, quando ultrapassar este limite haverá produção de mais valia.


A taxa de Mais Valia


Acabada a produção obtemos uma mercadoria igual a c+v+c (sendo c o capital constante, v o capital variável, e p a mais valia).

A mais valia proporcional (relação de quanto ganhou em valor o capital variável) é nos dada pela relação da mais valia com o capital variável (p/v). Esta é a taxa de mais valia.

A parte do dia em que o trabalhador produz o valor da sua força de trabalho é menor ou maior consoante o valor da sua subsistência diária. Marx define «Tempo de trabalho necessário à parte do dia em que se realiza a reprodução da sua força de trabalho, e trabalho necessário ao trabalho dispendido neste tempo, necessário para o trabalhador e para o Capitalista».

O período extra não constituiu nenhum valor para o operário mas é essencial ao capitalista, chamando-lhe Marx de Sobretrabalho. Para Marx as diferentes formas económicas da sociedade, apenas se distinguem pela forma como este sobretrabalho é imposto. A Taxa de Mais valia pode também ser Sobretrabalho/Trabalho necessário.

A é pois «a expressão exacta do grau de exploração da força de trabalho pelo capital». A soma do trabalho necessário com o Sobretrabalho constituiu o Dia de Trabalho.


Capital Constante e Capital Variável


Para Marx importa distinguir entre dois tipos de capital:

Capital Constante: Capital Investido em Meios de Produção, Constante porque o seu valor não muda no processo produtivo.

Capital Variável: Capital Investido na Força de Trabalho, Variável porque produz um valor diferente consoante a intensidade da sua utilização.

Os meios de produção só transmitem valor na medida em que perdem valor, ou seja, não podem acrescentar ao produto mais do que possuem, daí Marx defini-los como Capital Constante que sendo condição de criação de mais valia, não produz per si Mais Valia.

Por outro lado, o Trabalho conserva e transmite o valor dos meios de produção ao Produto. Reproduz o seu próprio equivalente e além disso gera uma mais valia engendrada no trabalho extra que pode ser maior ou menor consoante a sua duração. A Mais Valia depende pois, do Grau de exploração da Força de Trabalho.

Sendo a taxa de Mais valia dada por (Sobretrabalho/Trabalho necessário) ela não nos daria de forma nenhuma reciprocamente a grandeza do dia de trabalho. Se a taxa de Mais valia fosse de 100% apenas nos indicaria que as 2 partes do dia eram iguais, não nos indicaria o tempo de cada uma dessas partes.

O dia de trabalho não é fixo e possuiu limite.

Teoricamente o limite mínimo é o tempo em que o trabalhador opera para a sua conservação , contudo no «modo de produção capitalista» o trabalho necessário nunca pode formar mais do que uma parte do dia de trabalho, e o dia de trabalho não pode ser reduzido a este mínimo (caso acontecesse não haveria trabalho extra e consequentemente nenhuma mais valia seria engendrada).

Contudo o dia possuiu um limite máximo, que é duplamente determinado, por um lado fisicamente (o homem tem necessidades a satisfazer e limitação, precisando de se manter apto para o trabalho), por outro moralmente (o homem precisa de tempo para satisfazer necessidades intelectuais, sociais, etc…).

Tais limites variam de sociedade para sociedade, e são muito elásticos (daí haverem dias de trabalho com os mais diversos comprimentos.

Mas « O capitalista tem a sua maneira de ver sobre este último limite necessário do dia de trabalho». Há pois interesses antagónicos quanto à duração do dia de trabalho, podendo cada lado invocar as suas razões. «Quem decide sobre direitos iguais? A força. Eis porque a regulamentação do dia de trabalho se apresente como uma luta secular entre capitalista de trabalhador»

Opto agora por não proceder a uma análise exaustiva de todas as página dedicadas por Marx a esta questão, fazendo uma pequena súmula dos aspectos referidos.

Contudo aconselho a sua leitura pois contem muitos exemplo bem ilustrativos que são um reflexo do que muito mau aconteceu e ainda continua a acontecer

A luta entre as duas facções é secular, sendo muitas as tentativas de regular o mercado de trabalho (por exemplo, «Code de la Corvée», da Rússia; «Règlement Organique» das provincias danubianas, os diversos «Factory Acts» da Inglaterra, etc…), que «refreiam a paixão desordenada do capital na absorção do trabalho, impondo limitação oficial ao dia de trabalho.

Nomeadamente depois dos «Factory Acts» na Inglaterra foram nomeados inspectores para verificar a aplicação dessas leis, podendo-se ler algumas das conclusões (nalguns casos terríveis) a que eles chegaram.

Mesmo com as limitações ao dia de trabalho, o capitalista sempre achou forma de as contornar, permitindo manter a tão desejada mais valia e até mesmo aumentá-la.

Uma dessas formas era e é a exploração das horas dedicadas às pausas (Retirando pequenas partes destinadas ao repouso do trabalhador, em que esta final continua a laborar). Tais situação como os próprio inspectores reconheceram são difíceis de detectar e combater «Os inspectores deparam-se com dificuldades quase invencíveis para comprovar os delitos e estabelecer as respectivas provas».

Outra das formas era e é a exploração da mão de obra infantil. O que obviamente era mau para a saúde dos jovens e tem consequências nefastas para as gerações futuras que serão cada vez mais fraca. Marx em «O Capital» é fertil a mostrar estas situações, com depoimentos, mostrando também a insipiência de muitas das respostas dadas pelos «capitalistas» então.

Outra das formas utilizadas pelo «capitalista incipiente» é o Sistema de Turnos.

Também nesta situação são muitos os exemplos que demonstram que o capitalista não ficava a perder.

Tomemos o exemplo de um dia de 8 horas.4 de Manhã e 4 à Tarde. Na realidade nesses descansos o trabalhador ficava a trabalhar e acabava por entrar mais cedo, ou então era obrigado a permanecer no local de trabalho(por exemplo se tivesse que dormir lá, ou demorar muito nas deslocações, etc…) e obviamente por necessidade e dependência, sempre que lhe pedissem para trabalhar mais ele aceitava. 

 

A Lei Geral da Acumulação Capitalista


A composição do capital analisada sob a proporção em capital constante e a proporção em capital variável, ou seja, todo o capital decompõe em meios de produção e força de trabalho.

Supondo que não se alterando a composição de capital, o acréscimo de capital implica em aumento de força de trabalho, ou seja, a procura por força de trabalho aumentará na mesma proporção do capital. No entanto o capital acrescido (capital original + capital produzido ou mais valia produzida em determinado período) faz crescer a necessidade de desenvolver ou empregar esse capital em novos empreendimentos ou novos mercados em uma escala em que a acumulação de capital ultrapassa o crescimento e capacidade da força de trabalho, ou seja, a procura por trabalho ser maior que a oferta, ocorrendo a elevação dos salários. Nesse sentido a força de trabalho tem de incorporar-se continuamente ao capital para expandi-lo. A massa de trabalhadores que se expande recebe sob forma de pagamento, a porção de seu próprio produto excedente que aumenta e se transforma em quantidade cada vez maior de capital adicional para a classe capitalista. Ainda, segundo a suposição que fizemos anteriormente, a expansão da acumulação esbarra continuamente na crescente necessidade de incremento de força de trabalho e como o objetivo do capitalista ao comprar força de trabalho é aumentar seu capital, produzindo mercadorias que contém mais trabalho do que ele paga ao trabalhador, ou seja, seu objetivo é produzir mais valia, portanto o salário que ele paga ao trabalhador aumenta devido as limitações da oferta do mercado de trabalho, isso significa uma redução de mais valia apropriada pelo capitalista, conseqüentemente a acumulação retarda-se em virtude da elevação do preço do trabalho.

Nesse caso a acumulação diminui, esse decréscimo faz desaparecer temporariamente a própria causa que originou a desproporção entre capital e força de trabalho explorável. Convém esclarecer que a relação entre capital, salários e acumulação é apenas a relação entre trabalho excedente (quantidade de trabalho apropriado pelo capitalista não pago ao trabalhador) que transforma em capital e o trabalho adicional necessário para por em movimento do capital suplementar.  

Decréscimo relativo da parte variável do capital com o processo da acumulação e da concentração que acompanha

A produtividade do trabalho social se torna a mais relevante alavanca da acumulação capitalista. O grau de produtividade do trabalho, numa dada sociedade, exprime pelo volume relativo dos meios de produção que o trabalhador transforma em produto, num dado tempo com o mesmo dispêndio de força de trabalho. O aumento da produtividade condiz com o aumento da massa de meios de produção e portanto no decréscimo da quantidade de trabalho para por em movimento essa massa de meios de produção. O que acontece, é a mudança da composição técnica do capital, o aumento dos meios de produção comparado com a quantidade de trabalho necessário para coloca-lo em movimento, ou seja, a aumento da parte constante do capital reflete no decréscimo da parte variável. Entretanto com a produtividade crescente do trabalho, cai o valor dos meios de produção em comparação com seu volume crescente que é consumido, ou seja, o capitalista despende cada vez menos capital para comprar um volume crescente de meios de produção.

A conversão continua de mais valia em capital que entra no processo de produção e se torna base da produção em escala ampliada, dos métodos que a acompanham para elevar a força produtiva do trabalho e acelerar a produção de mais valia e portanto, a acumulação. Como a acumulação do capital cresce em maior ou menor proporção, cresce também o número de capitalistas, entretanto a batalha da concorrência por meios de redução de preços das mercadorias dependente, intimamente da produtividade do trabalho e este da escala de produção, assim se dá a batalha do capitalista “versus” capitalista. Os capitais grandes esmagam os pequenos, a centralização amplia e acelera ao mesmo tempo as transformações na composição técnica do capital, as quais aumenta a parte constante sobre a parte variável, reduzindo assim a procura por trabalho.

Produção progressiva de uma superpopulação relativa ou de um exército industrial de reserva

O volume da parte variável do capital é que determina a procura de trabalho e esse volume cai progressivamente com o aumento do capital global, embora o aumento do capital global faça crescer a parte variável, mas esse crescimento é proporcionalmente menor. Ou seja, é necessário que a acumulação do capital global seja acelerada em progressão crescente para absorver um número adicional determinado de trabalhadores ou para manter os trabalhadores que encontram empregados.

Uma população de trabalhadores excedente é condição necessário para a acumulação e para o desenvolvimento da riqueza capitalista, pois com o desenvolvimento da produtividade do trabalho cresce a força de capital, e a massa de riqueza cresce e impulsiona novos ramos de produção, nesses casos grandes massas humanas tem de estar disponíveis para serem exploradas, sem prejudicar a escala de produção nos ramos já existentes e a industria moderno e os novos métodos de produção depende portanto, da transformação constante de uma parte da população trabalhadora em desempregados.             Suponhamos que permaneça o mesmo que número de trabalhadores empregados, o capital variável aumenta se o trabalhador individual fornece mais trabalho, ou seja, aumentando a produtividade do trabalhador, então o acréscimo do capital variável é índice de mais trabalho, mas não de mais trabalhadores empregados. “O capital variável pode permanecer constante mesmo se o número de trabalhadores decrescer sob condição do aumento da produtividade individual do trabalhador”

Os movimentos dos salários não são determinados pelas variações do número absoluto da população trabalhadora, mas pela proporção variável em que essa população se divide em trabalhadores empregados e trabalhadores desempregados. Com a introdução do progresso técnico, parte do capital variável se transforma em capital constante, ou seja parte dos trabalhadores ficam desempregados aumentando a reserva de trabalhadores, esse aumento de capital absoluto não eleva procura por trabalho, nem a oferta de trabalho cresce com o aumento da classe trabalhadora. 


Formas de existência de uma superpopulação relativa


As formas de superpopulação relativa assumem periodicamente as três formas seguintes: flutuante, latente e estagnada. Graças ao progresso da produtividade do trabalho social, o constante uso de maquinas e de novas técnicas de produção (aumento do capital constante) podem ser mobilizados com um dispêndio progressivamente menor de força de trabalho. Quanto maior a produtividade, maior a pressão dos trabalhadores sobre os meios de emprego e mais precária a condição da própria venda da força de trabalho.

Quanto maior a produtividade maior a acumulação, maior a acumulação de riqueza e ao mesmo tempo acumulação de miséria. Nas mesmas condições em que se produz riqueza, produz-se também a miséria, nas mesmas condições em que se processa o desenvolvimento da produtividade, desenvolve-se um cenário de condições que só geram riqueza para a burguesia.

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Antiga sociedade chinesa

A China é um extenso país do Extremo Oriente, cuja história remonta a tempos muito antigos, 3000 a.C. A geografia sempre marcou a evolução da civilização chinesa. As primeiras culturas se estabeleceram na grande planície central, banhada pelo rio Amarelo. A fertilidade dessas terras atraiu os camponeses. No resto do país, as montanhas criam pequenas zonas muito diferentes entre si, favorecendo o regionalismo. Contudo, entre essas áreas tão diferentes sempre existiu um fator comum: eram comunidades agrícolas organizadas em torno dos grandes rios.
As lendas chinesas mencionam uma série de soberanos e heróis que reinaram em épocas remotas. Ficção ou realidade, o importante é que esses relatos nos mostram uma civilização patriarcal baseada na agricultura, tal como se desenvolveu depois. 
Os costumes chineses sempre foram marcados por forte tradicionalismo. O esforço de isolar-se dentro de suas fronteiras permitiu que os chineses conservassem sua originalidade. 
A construção da Grande Muralha e a complicada escrita ideográfica chinesa contribuíram para manter esse isolamento. Foi apenas com o prolongamento da Rota da Seda que o país abriu suas fronteiras à Pérsia e à Índia, passando assim a sofrer influências externas, inclusive do budismo. Essa doutrina, assim com o confucionismo e o taoísmo, forma o sistema religioso do país.

Os primeiros Estados (1500-249 a.C.)


Os primeiros centros de civilização, formados às margens do rio Amarelo, eram governados pela dinastia Shang.
Possuíam cidades e templos, conheciam a escrita e trabalhavam o bronze. Por volta de 1050 a.C., instalou-se no poder a dinastia Zhou, que se expandiu até o rio Azul e criou uma organização estável no governo. O poder dessa dinastia acabou se enfraquecendo com o surgimento de uma série de Estados guerreiros, que, por sua vez, foram dominados quando a dinastia Qin tomou o poder.

As grandes dinastias (249 a.C.-618 d.C.)


Em 249 a.C., a dinastia Qin fundou o primeiro império unificado com um governo altamente centralizado e autoritário.
O rei Qin Shi Huang, da dinastia Qin, unificou os vários reinos feudais e adotou, pela primeira vez, o título de imperador. Qin estabeleceu uma nova divisão provincial governada por funcionários, iniciou a construção da Grande Muralha e ampliou as fronteiras. Esse grande império não sobreviveu à morte do imperador.
No fim do século III a.C., o império foi organizado de forma definitiva pela dinastia Han. A vida política desenvolveu-se em torno dos funcionários mandarins; abriu-se o comércio exterior e a cultura floresceu. Com o enfraquecimento do governo, o território dividiu-se e só voltou a ser unificado no ano 618 d.C., com a dinastia Tang.

As grandes tumbas


Todas as dinastias chinesas enterravam seus reis em grandes e majestosas tumbas. Eram câmaras de madeira decoradas com esmero, destinadas a durar para sempre.
Acompanhavam o rei seus animais e seus objetos pessoais, para garantir-lhe o bem-estar na outra vida.
Em algumas tumbas foram encontradas impressionantes figuras de terracota. Na tumba do imperador Cheng havia mais de 7 mil figuras, entre soldados, carros e animais, todas em tamanho natural. Cada rosto apresenta traços diferentes, caracterizados por um grande realismo.

A sociedade


A sociedade chinesa era muito tradicional e cerimoniosa. Acima de todos os elementos ficava o imperador, adorado como 'filho do céu'. Vinha em seguida um corpo de funcionários, os mandarins, considerados o orgulho do império. Esse grupo foi criado no século II a.C., desbancando a nobreza feudal, e desempenhou um importante papel na vida institucional e cultural do país. Abaixo deles vinha o resto da sociedade: camponeses, comerciantes e artesãos. Na sociedade chinesa não havia escravos.

O cultivo do arroz


Desde a Antiguidade, o arroz sempre foi o principal cultivo do Sudeste Asiático. A população, assentada à beira do rio Amarelo, teve de se adaptar às inundações periódicas que recobriam os campos. Os camponeses criaram um sistema de canalizações e terraços para cultivar o arroz. Trabalhavam com métodos primitivos, arando com a ajuda de bois e utensílios manuais. O transplante e a colheita eram feitos totalmente à mão.

A ciência e a técnica


Os chineses eram brilhantes inventores. Seu sentido prático os levou a projetar objetos e aparelhos mecânicos vários séculos antes do resto do mundo. No século II, já haviam inventado o papel; no século VI, a imprensa e a porcelana – que em inglês se chama 'china'.
Acredita-se também que, muito tempo atrás, conceberam o relógio hidráulico, a bússola magnética e um aparelho capaz de detectar os terremotos. Porém, sua invenção mais espetacular talvez tenha sido a pólvora.

 Muralha da China 


A Muralha da China aparece como uma linha fina que cruza quase todo o norte do país. São mais de 6.400 km construídos há mais de 2 mil anos para servir como meio de defesa e demonstração de poder de três dinastias que governaram o Império Chinês. 
Para se ter uma ideia, seria o equivalente a construir um muro que saísse de Porto Alegre, seguisse em linha reta até Manaus e voltasse para Porto Alegre. Até hoje, os pesquisadores têm dificuldades em dimensionar com exatidão toda a extensão da grande muralha: grande parte está em ruínas e só foi identificada há poucas décadas. Mais do que um monumento arquitetônico, a muralha da China é um exemplo do que a determinação humana é capaz de produzir. Foi eleita em julho de 2007 como uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo.


Confúcio (551-479 a.C.)


Filósofo chinês, Confúcio dedicou a vida a ensinar, convertendo-se num mestre da moral respeitado por sua sabedoria. Difundiu por todo o país uma doutrina de convivência, baseada na amizade e na equidade, que formou a base da ética na China.
Confúcio estabeleceu os deveres do homem, acreditando que este devia servir à sociedade. Seus ensinamentos não falavam no culto a nenhum deus, mas sim em seguir o Tao, ou seja, o Caminho, num esforço constante de cultivar a própria personalidade e estabelecer a harmonia na sociedade. O confucionismo foi elevado à religião oficial do Estado no século II a.C.

A arte chinesa


Os chineses valorizavam muito a pintura, a caligrafia e a literatura. A pintura surgiu da caligrafia, sendo a criação mais original da arte chinesa. Pintavam sobre papel ou seda, sobretudo paisagens, utilizando tinta e aquarela. A arquitetura e a escultura eram consideradas apenas obras utilitárias. Construíram-se numerosos palácios e templos, como os pagodes, com seus vários tetos superpostos. A escultura, a cerâmica e os trabalhos em laca completavam o panorama artístico do mundo chinês.





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