Os gregos antigos denominavam as terras situadas a leste do mar Mediterrâneo de Fenícia. Por isso, os habitantes dessas terras passaram a ser conhecidos como fenícios.
No entanto, sabe-se que esse povo tinha outra forma de se autodenominar. Provavelmente, considerava-se cananeu e Canaã seria sua terra natal, assim como para os hebreus. Em hebraico, kena’ni – termo do qual provavelmente se originam as expressões Canaã e cananeu – significa mercador.
A cultura fenícia começou a se desenvolver por volta do
século XIV a.C. Os fenícios eram um povo de origem semita
que se estabeleceu em uma faixa estreita de terra entre o mar
Mediterrâneo e as montanhas do atual Líbano. A região era
estratégica: servia de passagem para importantes rotas comer
ciais ligando a Ásia Menor (Anatólia) ao Egito, e a Mesopotâmia
ao Mediterrâneo.
As habilidades comerciais dos fenícios ficaram famosas sobretudo a partir de 1200 a.C., época em que houve a derrocada de impérios como o egípcio e o hitita, permitindo aos fenícios a expansão de seus domínios sobre o litoral do mar Mediterrâneo e o controle das principais rotas comerciais. As características físicas da região favoreciam a navegação. O litoral fenício tinha portos naturais e havia abundância de madeira das florestas. Uma dessas madeiras, o cedro, impulsionou a construção dos navios fenícios.
As altas montanhas dificultavam o acesso dos fenícios ao
interior do continente e restringiam a agricultura a uma parte
pequena e fértil do território. Com escassas possibilidades
de sobrevivência e enriquecimento em terra, os fenícios se
lançaram ao mar. Esse empreendimento foi favorecido pela
abundância de cedro nas florestas fenícias, o que possibilitou
a construção de navios leves e resistentes.
Com excelentes embarcações e conhecimentos astronômicos, os fenícios tornaram-se os grandes navegadores da
Antiguidade. Eles navegavam inclusive à noite, guiando-se pela
Estrela Polar. Por isso, essa estrela era conhecida no mundo
antigo como Estrela Fenícia.
Alabastro produzido pelos fenícios.
400 a.C.-320 a.C. Vaso de vidro
feito à mão, 14 × 3,4 cm. Museu do
Louvre, Paris, França.
Além de hábeis navegadores e construtores de navios, os fe
nícios eram excelentes artesãos e comerciantes. Eles produziam
peças que eram vendidas como artigos de luxo e nas
quais usavam matérias-primas que adquiriam
por baixos valores. Os fenícios fabricavam
vidros, tecidos tingidos, joias, móveis de
madeira, peças de marfim, perfumes e
objetos de metal. Esses produtos eram
comercializados com diversos povos,
atividade que possibilitou um grande
intercâmbio cultural.
Vestígios de Baalbek, antiga
cidade fenícia, no atual Líbano.
Foto de 2019.A ESCRITA FENÍCIA
Diversos povos antigos da região do Crescente Fértil desenvolveram sistemas de escrita. Mas não foi apenas nessa região
que sistemas de escrita foram inventados. Há registros de populações nativas do continente americano que, antes da chegada
dos europeus, já tinham conhecimentos de escrita e de registro
de numerais. Para alguns pesquisadores, alguns tipos de pintura corporal, por exemplo, também podem ser identificados como
inscrições, caracterizando-se como uma forma de escrita diferente da que conhecemos hoje.
Detalhe de inscrição fenícia em um
sarcófago datado do século V a.C.
A palavra alfabeto corresponde à
junção das duas primeiras letras
do alfabeto fenício, que também
iniciam o alfabeto grego: aleph
e beth.
O alfabeto foi uma das principais inovações dos fenícios. Ele foi criado por volta do
século VIII a.C., de acordo com a necessidade de uma escrita simples e eficaz para o
controle e o registro das trocas comerciais. No sistema de escrita fenício, cada letra
representa um som, por isso ele é chamado de alfabeto fonético.
No primeiro friso, vemos caracteres do alfabeto fenício copiados de uma placa de argila do século V a.C., encontrada na Ilha de Sardenha, atual Itália; no segundo e terceiro frisos, os caracteres do alfabeto grego e o correspondente de cada um deles no alfabeto latino.
O sistema usado pelos fenícios, porém, faz parte da história
da escrita utilizada atualmente na maior parte do mundo. Por
volta de 3 mil anos atrás, a partir de alguns hieróglifos egípcios,
os fenícios desenvolveram uma escrita constituída de 22 símbolos que representavam sons consoantes. Isso significa que cada
símbolo representava um som. Por isso, esse sistema de escrita
é chamado fonético e é semelhante ao sistema de escrita usado
atualmente no Brasil e em boa parte do mundo.
A escrita fonética fenícia era mais simples que a escrita de
hieróglifos do Egito ou a cuneiforme da Mesopotâmia, nas quais
cada símbolo representava uma ideia, uma palavra – o que dificultava o processo de escrita, pois era necessário decorar muitos símbolos para escrever.
A escrita utilizada pelos comerciantes fenícios foi sendo disse
minada por meio do contato deles com outros povos do Mediterrâneo e resultou na difusão desse conjunto de símbolos, principal
mente entre os gregos e, posteriormente, entre os romanos.
Os contatos comerciais também favoreceram a difusão de
outros conhecimentos, como técnicas de navegação e de construção de embarcações, além de saberes relacionados à matemática e à astronomia, importantes para as atividades náuticas.
AS CIDADES-ESTADO
Os fenícios não centralizaram o poder político em um governante. Para muitos pesquisadores, as montanhas que se
paravam os vales onde esse povo se estabeleceu e os rios que
cortavam os territórios fenícios favoreceram a organização
em cidades-Estado independentes umas das outras. Dessa
forma, cada cidade tinha o próprio governante, que poderia
ser um rei, uma elite de comerciantes ou uma família influente, de acordo com o costume de cada núcleo fenício. O mesmo
ocorria na religião: cada cidade cultuava uma divindade ou
um conjunto delas.
Havia, porém, elementos comuns às cidades fenícias, como
a língua, o costume de fazer registros escritos, as tecnologias
náuticas, o controle de determinadas rotas comerciais e o politeísmo.
O período de 1200 a.C. a 800 a.C. é considerado o auge da
cultura fenícia. O desenvolvimento das cidades-Estado era referência para outros povos da época, como gregos e persas
BIBLOS: A CIDADE DOS PAPIROS
Correspondente à atual cidade de Jubeil, no Líbano, Biblos é
considerada a mais antiga cidade não só da Fenícia, mas também do mundo.
De acordo com pesquisadores, há vestígios da
ocupação de Biblos que datam do ano 5000 a.C.
A elite comerciante dessa cidade exportava principalmente o
cedro, usado na construção de embarcações. Em troca, importava bens de variadas culturas e os comercializava com povos
do Mediterrâneo. Dessa forma, o comércio fenício foi essencial para as trocas culturais entre os povos dessa região.
Por exemplo: o comércio do papiro. Os fenícios compravam esse produto dos egípcios e o revendiam aos gregos.
Com o tempo, passaram a ser os principais comerciantes
de papiro na Grécia. Por isso, a cidade era chamada pelos gregos de Biblos, cujo significado está ligado ao papiro e à escrita. Esse nome deu origem a termos usados
ainda hoje, como biblioteca.
Na verdade, Biblos era conhecida como Gubal pelos fenícios, e a divindade adorada era Baalat Gubal, a
Senhora de Biblos, considerada a deusa da fertilidade e
da maternidade.
TIRO
Tiro ocupava a atual cidade de mesmo nome, no Líbano, e
dividia-se em duas regiões: uma mais antiga e pouco habitada, no
continente, e outra em uma ilha posicionada em local estratégico, na qual funcionava a vida urbana. Entre 1200 a.C. e 1000 d.C.,
a cidade tornou-se o maior centro comercial do Mediterrâneo,
atraindo o interesse de diversas potências do mundo antigo.
Como veremos, Tiro chegou a formar colônias ao longo do Mediterrâneo e, ao longo do tempo, foi dominada por assírios, babilônicos,
persas, macedônios e romanos.
Durante o domínio romano, ficou conhecida pela produção e
exportação de uma tinta vermelha denominada púrpura de Tiro.
O pigmento, extraído de uma glândula do molusco múrex, era
usado para tingir tecidos, resultando em tonalidades entre as
cores rosa e vermelho-escuro. Usar vestes com essas tonalidades se tornou símbolo de poder no mundo antigo. Assim, a cor
púrpura passou a fazer parte da identidade dos fenícios. A palavra fenícia deriva do grego phoeínikes, que significa vermelho.
A divindade cultuada em Tiro era Baal Melcarte, considerado
o deus da morte e da ressurreição, fundador de Tiro e o criador
da púrpura de Tiro e da navegação para o oeste.
SÍDON
Na atual cidade de Sídon, no Líbano, há vestígios da Sídon
antiga, de origem fenícia. O núcleo urbano tornou-se comercial
mente próspero em 2000 a.C.
Assim como Tiro, Sídon foi dominada por vários povos, inclusive macedônios e romanos.
Durante o domínio romano, iniciou--se nessa cidade a produção de outro tipo de púrpura e de vidro.
Não há consenso entre os historiadores se a tecnologia do
vidro foi desenvolvida por fenícios ou por egípcios. Sabe-se, porém, que os fenícios de Sídon foram importantes produtores e
exportadores de objetos feitos desse material.
Vista aérea de Beirute (Líbano), 2018. Na Antiguidade, aí se localizava a cidade fenícia de Beritos.
AS COLÔNIAS FENÍCIAS
A expansão fenícia a oeste ocorreu não apenas pela navegação, mas também pela fundação de entrepostos comerciais
nos diferentes litorais do Mediterrâneo. Por esses entrepostos,
era possível alcançar destinos mais distantes. Com o tempo, comunidades fenícias começaram a habitá-los iniciando a colonização.
A partir de 2000 a.C., os fenícios fundaram colônias no
norte da África, no sul da península Ibérica, nas ilhas Baleares,
na Sardenha e na Sicília, como mostra o mapa. Nessas colônias,
eram comercializados todos os produtos cujas rotas de trans
porte estavam sob o domínio fenício.
CARTAGO
A colônia fenícia mais bem-sucedida foi Cartago, localizada
na atual Tunísia, país do norte da África. Ela foi fundada por comerciantes de Tiro e ocupou territórios estratégicos do Mediterrâneo, a partir dos quais os fenícios puderam controlar o comércio marítimo e dominar o norte da África e o sul da península
Ibérica. Em pouco tempo, Cartago deixou a condição de colônia
e passou a ser considerada cidade-Estado, na qual cultuavam-se deuses que descendiam das divindades de Tiro: Tanit e Baal
Hammon, o casal do qual, segundo a mitologia, Cartago teria
se originado.
Seu declínio ocorreu ao longo do século III a.C., quando enfrentou o poderio de Roma e foi derrotada. Os cartagineses eram
chamados pelos romanos de punas. Por isso, o conflito entre
Roma e Cartago ficou conhecido como Guerras Púnicas.
A sociedade fenícia
As cidades-Estado fenícias tinham um governo centralizado,
cujo domínio era do grupo mais rico da sociedade. Nesse
grupo havia grandes comerciantes, construtores de navios e
também donos de oficinas, nas quais se produziam tecidos
e joias feitas de vidro.
A maior parte da população era formada pela camada
mais pobre da sociedade, composta de trabalhadores livres (pequenos comerciantes, camponeses, artesãos e pescadores) e também de escravizados, que exerciam diferentes tipos de atividade no campo e na cidade.
A cultura fenícia
As relações comerciais estabelecidas com outras civilizações promoveram um in
tenso intercâmbio cultural entre os fenícios e vários povos antigos. Assim, os fenícios
incorporaram e aperfeiçoaram diversos conhecimentos dos povos com os quais tiveram contato.
Os sinais ideográficos, muito utilizados pelos egípcios e mesopotâmicos, por exemplo, foram transformados em um sistema de escrita mais simplificado, com a utilização de sinais que representavam sons.
A religiosidade
Os fenícios eram politeístas. As
principais divindades cultuadas eram
Baal, o regente do Universo; Astarte,
filha de Baal, deusa do céu, da fertilidade e da primavera; Tanit, deusa
protetora de Cartago e Eshmun, deus
relacionado à saúde e à cura.
Artesanato e engenharia
Os fenícios se destacaram também como artesãos, confeccionando tecidos, joias, perfumes e artefatos de pedra, marfim, metal e de cerâmica. Além disso, foram, provavelmente, os inventores do vidro transparente. O artesanato fenício era comercializado em grande quantidade.
Muitas de suas obras de artesanato, como tecidos de várias cores e estátuas de madeira, não resistiram à ação do tempo.
Artefatos fenícios de materiais mais resistentes, achados nos sítios arqueológicos da cidade de Ugarit, na Síria, vêm alargando nossa visão da arte e da história fenícia.
Os fenícios eram conhecidos como grandes construtores de barcos e ficaram
famosos por inventar a birreme e a trirreme, um tipo de barco movido a vela com
duas ou três fileiras de remos. Essa inovação deu mais rapidez e facilidade de manobra às embarcações.
O murex e a produção de corante
Uma das mercadorias mais valiosas comercializadas pelos fenícios era um corante utilizado
para tingir tecidos.
Esse corante era obtido a partir de um pigmento de coloração vermelho-púrpura, extraído
de um tipo de molusco conhecido como murex.
Como a produção desse pigmento era muito pequena, os tecidos nessa cor eram caros e, portanto, geralmente usados pelas pessoas mais ricas.