terça-feira, 29 de setembro de 2026

OS PERSAS

Por volta de 2000 a.C., grupos humanos de origem indo-europeia se instalaram em uma região de terras férteis entre a Mesopotâmia, a Índia e o Golfo Pérsico. Com o tempo, esses grupos formaram dois povos: os medos e os persas.
Os medos se fixaram próximo aos montes Zagros, no norte do Planalto do Irã. Eles viviam da agricultura e do pastoreio e dominavam a metalurgia do cobre, do bronze e do ouro. Os persas, por sua vez, ocuparam territórios menos férteis ao sul e desenvolveram principalmente atividades comerciais. No início do século VII a.C., os medos já haviam estabelecido um reino e dominavam vários povos, inclusive os persas.
Os medos e os persas habitavam regiões próximas e havia trocas comerciais e culturais entre eles. Permaneceram independentes até 550 a.C. Nesse ano, um nobre persa chamado Ciro, que descendia dos medos, destronou o rei dos medos e unificou os reinos. Surgia, assim, o Reino Persa, com capital em Pasárgada. Iniciava-se, também, a dinastia Aquemênida.
Por volta de 550 a.C., o rei persa Ciro II derrotou os medos e unificou os dois reinos. Com um exército de 300 mil homens, ele conquistou os reinos da Lídia e da Babilônia, além de cidades gregas na Ásia Menor. 
Os principais feitos dos persas estão narrados nos escritos do historiador grego Heródoto. Por meio dessa fonte foi possível aos historiadores buscar outros vestígios sobre o rei Ciro. Há inscrições persas, egípcias e babilônicas que, ao abordar o governo desse rei, indicam que ele se aliou à nobreza persa para iniciar a expansão territorial do reino. 
Com um exército eficaz, formado por mais de 300 mil soldados, Ciro ampliou as fronteiras persas, dominando povos vizinhos e acumulando riquezas. Durante seu governo, conquistou importantes reinos, como os da Lídia e da Babilônia. 
Ciro II, conhecido por ser bom administrador e guerreiro, era respeitado pelos persas e por outros povos. Os gregos o chamavam de “grande legislador”, e os judeus, de “o ungido de Deus”. As regiões dominadas pelo exército persa podiam manter sua religião e seus costumes. 
Com a morte de Ciro II, em 530 a.C., seu filho Cambises o sucedeu no trono e prosseguiu com a expansão do império, conquistando o Egito.

Ruínas da antiga cidade de Persépolis, capital do Império Persa, localizadas na atual cidade de Shiraz, no Irã. Fotografia de 2020.

A DIVERSIDADE CULTURAL DO IMPÉRIO PERSA 


Uma das marcas do governo Aquemênida foi a relativa liberdade cultural concedida aos povos conquistados. A estes era permitido manter o idioma, a religião e os costumes locais após o domínio persa, desde que não se insurgissem contra o Império e pagassem corretamente os tributos. 
Muitas vezes, os governantes locais eram mantidos no poder como representantes do governo persa. Por suas proporções e por permitir a manutenção das tradições locais dos povos conquistados, o Império Persa se caracterizou pelo multiculturalismo. Muitos historia dores usam o adjetivo multiétnico para se referir a esse período da história persa.
Em seu auge, o Império governou povos da península Arábica e dos litorais do golfo Pérsico, do mar Cáspio, do mar Negro e do mar Mediterrâneo. O domínio sobre essa vasta região garantia aos persas o controle comercial e militar, já que o trânsito terrestre e marítimo entre a Ásia, a África e a Europa passava por seus territórios. 
Porém, para que esse controle fosse efetivo, era necessário ter aliados locais, que acabavam conquistados pela estratégia da preservação de suas culturas no interior do Império. Portanto, havia no mundo persa uma profusão de línguas, religiões e costumes de diferentes povos, e a aproximação entre eles permitiu que se influenciassem mutuamente.
Há registros de que Cambises, após conquistar o Egito, teria se caracterizado como faraó egípcio (e não como imperador persa) para ser reconhecido pelo povo egípcio como legítimo governante da região após as vitórias militares. 
Essa estratégia indica que as trocas culturais não apenas favoreciam os povos conquistados, mas também facilitavam o controle por parte do Império e a aceitação do governo persa pelos povos locais. 

ORGANIZANDO O IMPÉRIO: O governo de Dario 


Cambises morreu sem deixar descendentes e o trono do Império foi ocupado por Dario I, seu sobrinho, em 522 a.C. Dario I foi um grande estadista e durante seu governo o Império Persa viveu seu apogeu. 
Em seu reinado, os domínios persas atingiram a máxima extensão: da Trácia, no Ocidente, até as margens do rio Indo, no Oriente. Em seu governo, Dario I implantou importantes medidas para estimular a economia e tornar a administração do império mais eficiente:
• Dividiu o império em satrapias (regiões administrativas), controladas por um sátrapa, uma espécie de governador escolhido pelo rei. 
• Criou uma moeda única, o dárico, impedindo que as satrapias tivessem as próprias moedas.  
• Ordenou a construção de uma grande rede de estradas (a via principal, que ligava as cidades de Sardes e Susa, tinha cerca de 2500 quilômetros de extensão).
As medidas tomadas por Dario I facilitaram a administração do império e propiciaram maior circulação de produtos e in formações entre as diversas províncias.

Moeda de dárico cunhada em ouro no século V a.C. Moedas como essa eram usadas, principalmente, no pagamento de tributos ao Império Persa. O dárico foi a primeira unidade monetária a ser adotada por diferentes povos.
Para viabilizar essa estruturação, o Império Persa foi dividi do em províncias, chamadas satrapias. Elas eram governadas pelos sátrapas, líderes que exerciam o poder local. Parte das atividades dos sátrapas era recolher os tributos e entregá-los ao governo central. Os tributos eram proporcionais à riqueza de cada satrapia; por isso, essa riqueza devia ser declarada pelos sátrapas. Para fiscalizar os sátrapas e os demais súditos do Império, foi criado um serviço de informações e espionagem, com posto de funcionários de sua confiança.
Para interligar as satrapias e facilitar a comunicação e o comércio entre os diferentes pontos do Império, bem como o envio de tributos à capital, uma ampla rede de estradas foi construída e pavimentada. A principal delas era a Estrada Real, que unia as cidades de Susa e Sardes. Essa estrada tinha cerca de 2 400 quilômetros de extensão, e os súditos demoravam cerca de oito dias para percorrê-la a cavalo. A segurança nos deslocamentos era garantida por patrulhas com mais de cem postos de controle.

A sociedade persa 


A sociedade persa dividia-se em três grupos: os sacerdotes ou magos, respeitados por sua riqueza e sabedoria; os nobres, que controlavam a terra e a administração palacial; e os camponeses, que sobreviviam da agricultura e do pastoreio nas terras dos nobres e do rei. 
O comércio era a principal atividade econômica dos persas e alcançava terras tão distantes como Egito, Fenícia, Chipre, Índia e a costa do mar Negro. O artesanato persa era muito valorizado, especialmente os tecidos, as armas, objetos esmaltados e as joias. 

ARTE E RELIGIOSIDADE PERSA 


Os monumentos, os palácios e as obras de arte persas demonstram traços das sociedades egípcias, babilônicas e de vá rios outros povos. A tapeçaria, uma das expressões clássicas da arte persa, adaptou elementos dessas culturas diversas, mas permaneceu como arte acessível apenas à elite dos povos, para ser apreciada no interior de cômodos particulares. 
O principal registro dos feitos de Dario I foi encontrado no monte Behistun, na província de Kermanshah, no atual Irã. Escritas em primeira pessoa, as declarações foram grafadas em três idiomas: persa antigo, elamita e babilônico. Nelas, Dario I registrou suas ações, reafirmando seu poderio sobre diferentes povos. Nessas declarações, a religião do Império Persa se destaca: o zoroastrismo.
Em suas origens, os persas eram zoomorfistas, cultuando deuses representados com formas animais. Também se caracterizavam pela crença totêmica, isto é, consideravam símbolos sagrados ou totens determinados elementos da natureza, como o Sol, a Lua, a terra, a água e os ventos, e lhes ofereciam sacrifícios. 
Nos séculos VII a.C. e VI a.C, o zoroastrismo, religião professada por Zoroastro (628 a.C.-551 a.C.), também conhecido como Zaratustra, começou a se expandir entre os persas, e Dario I foi um dos principais devotos, como afirmam as inscrições de Behistun. 
Zoroastro negou a adoração de várias divindades e a realização de sacrifícios para homenageá-las. De acordo com os relatos tradicionais, o profeta teria vivido na Ásia Central, em território que corresponde atualmente ao leste do Irã e à região ocidental do Afeganistão.
A nova religião tinha como princípio o dualismo divino, ou seja, a luta incessante entre o bem e o mal.
Para os zoroastristas, Ahura-Mazda (ou Sábio Senhor) era considerado a deidade suprema e representava o Bem. Arimã correspondia ao princípio destrutivo, ou seja, o Mal. Os dois deuses estavam em permanente conflito e cabia aos homens praticar boas ações para que Ahura-Mazda prevalecesse.

Detalhe de inscrições do monte Behistun, no Irã, com a imagem de Zoroastro. Na parte superior, foram registrados o símbolo do profeta e as declarações, em três idiomas – persa antigo, elamita e babilônico –, sobre os feitos de Dario I.

O palácio de Persépolis 


A família do rei Dario I e de seu filho Xerxes I pertencia à dinastia Aquemênida, que iniciou a notável expansão do Império Persa, a partir do século VI a.C. Para demonstrar poder, os governantes aquemênidas ergueram palácios monumentais em Pasárgada, Persépolis e Susa, as três capitais do Império. Para isso, os persas buscaram inspiração nos povos dominados da Mesopotâmia e também trouxeram artesãos da Grécia. No entanto, o que marcou a beleza das cidades persas foi a habilidade artística e a originalidade dos próprios artesãos persas.
O terraço do palácio de Persépolis tinha cerca de 150 mil metros quadrados e suas paredes chegavam a atingir 13 metros de altura. As paredes externas eram decoradas com baixos-relevos de soldados alinhados, servos, heróis lutando contra leões e outros detalhes. 
Os vários elementos do palácio revelam a influência de diversas culturas: colunas caneladas à moda grega, baixos-relevos e esculturas inspirados na arte dos assírios, motivos florais à maneira do Egito e painéis de tijolos esmaltados que lembram os palácios da Babilônia.

Detalhe de relevo nas paredes do palácio de Persépolis, no Irã atual. Foto de 2020.
 

Costumes persas 


As conquistas e o comércio persas possibilitaram um grande intercâmbio cultural. Ao entrar em contato com diferentes povos, os persas se apropriaram de muitos costumes estrangeiros, sem, com isso, abandonar antigas tradições.
 

OS FENÍCIOS

Os gregos antigos denominavam as terras situadas a leste do mar Mediterrâneo de Fenícia. Por isso, os habitantes dessas terras passaram a ser conhecidos como fenícios.
No entanto, sabe-se que esse povo tinha outra forma de se autodenominar. Provavelmente, considerava-se cananeu e Canaã seria sua terra natal, assim como para os hebreus. Em hebraico, kena’ni – termo do qual provavelmente se originam as expressões Canaã e cananeu – significa mercador.
A cultura fenícia começou a se desenvolver por volta do século XIV a.C. Os fenícios eram um povo de origem semita que se estabeleceu em uma faixa estreita de terra entre o mar Mediterrâneo e as montanhas do atual Líbano. A região era estratégica: servia de passagem para importantes rotas comer ciais ligando a Ásia Menor (Anatólia) ao Egito, e a Mesopotâmia ao Mediterrâneo. 
As habilidades comerciais dos fenícios ficaram famosas sobretudo a partir de 1200 a.C., época em que houve a derrocada de impérios como o egípcio e o hitita, permitindo aos fenícios a expansão de seus domínios sobre o litoral do mar Mediterrâneo e o controle das principais rotas comerciais. As características físicas da região favoreciam a navegação. O litoral fenício tinha portos naturais e havia abundância de madeira das florestas. Uma dessas madeiras, o cedro, impulsionou a construção dos navios fenícios.
As altas montanhas dificultavam o acesso dos fenícios ao interior do continente e restringiam a agricultura a uma parte pequena e fértil do território. Com escassas possibilidades de sobrevivência e enriquecimento em terra, os fenícios se lançaram ao mar. Esse empreendimento foi favorecido pela abundância de cedro nas florestas fenícias, o que possibilitou a construção de navios leves e resistentes.
Com excelentes embarcações e conhecimentos astronômicos, os fenícios tornaram-se os grandes navegadores da Antiguidade. Eles navegavam inclusive à noite, guiando-se pela Estrela Polar. Por isso, essa estrela era conhecida no mundo antigo como Estrela Fenícia.

Alabastro produzido pelos fenícios. 400 a.C.-320 a.C. Vaso de vidro feito à mão, 14 × 3,4 cm. Museu do Louvre, Paris, França.

Além de hábeis navegadores e construtores de navios, os fe nícios eram excelentes artesãos e comerciantes. Eles produziam peças que eram vendidas como artigos de luxo e nas quais usavam matérias-primas que adquiriam por baixos valores. Os fenícios fabricavam vidros, tecidos tingidos, joias, móveis de madeira, peças de marfim, perfumes e objetos de metal. Esses produtos eram comercializados com diversos povos, atividade que possibilitou um grande intercâmbio cultural.
Vestígios de Baalbek, antiga cidade fenícia, no atual Líbano. Foto de 2019.

A ESCRITA FENÍCIA 

Diversos povos antigos da região do Crescente Fértil desenvolveram sistemas de escrita. Mas não foi apenas nessa região que sistemas de escrita foram inventados. Há registros de populações nativas do continente americano que, antes da chegada dos europeus, já tinham conhecimentos de escrita e de registro de numerais. Para alguns pesquisadores, alguns tipos de pintura corporal, por exemplo, também podem ser identificados como inscrições, caracterizando-se como uma forma de escrita diferente da que conhecemos hoje. 

Detalhe de inscrição fenícia em um sarcófago datado do século V a.C. A palavra alfabeto corresponde à junção das duas primeiras letras do alfabeto fenício, que também iniciam o alfabeto grego: aleph e beth.

O alfabeto foi uma das principais inovações dos fenícios. Ele foi criado por volta do século VIII a.C., de acordo com a necessidade de uma escrita simples e eficaz para o controle e o registro das trocas comerciais. No sistema de escrita fenício, cada letra representa um som, por isso ele é chamado de alfabeto fonético. 

No primeiro friso, vemos caracteres do alfabeto fenício copiados de uma placa de argila do século V a.C., encontrada na Ilha de Sardenha, atual Itália; no segundo e terceiro frisos, os caracteres do alfabeto grego e o correspondente de cada um deles no alfabeto latino.

O sistema usado pelos fenícios, porém, faz parte da história da escrita utilizada atualmente na maior parte do mundo. Por volta de 3 mil anos atrás, a partir de alguns hieróglifos egípcios, os fenícios desenvolveram uma escrita constituída de 22 símbolos que representavam sons consoantes. Isso significa que cada símbolo representava um som. Por isso, esse sistema de escrita é chamado fonético e é semelhante ao sistema de escrita usado atualmente no Brasil e em boa parte do mundo.
A escrita fonética fenícia era mais simples que a escrita de hieróglifos do Egito ou a cuneiforme da Mesopotâmia, nas quais cada símbolo representava uma ideia, uma palavra – o que dificultava o processo de escrita, pois era necessário decorar muitos símbolos para escrever. 
A escrita utilizada pelos comerciantes fenícios foi sendo disse minada por meio do contato deles com outros povos do Mediterrâneo e resultou na difusão desse conjunto de símbolos, principal mente entre os gregos e, posteriormente, entre os romanos. 
Os contatos comerciais também favoreceram a difusão de outros conhecimentos, como técnicas de navegação e de construção de embarcações, além de saberes relacionados à matemática e à astronomia, importantes para as atividades náuticas. 

AS CIDADES-ESTADO 


Os fenícios não centralizaram o poder político em um governante. Para muitos pesquisadores, as montanhas que se paravam os vales onde esse povo se estabeleceu e os rios que cortavam os territórios fenícios favoreceram a organização em cidades-Estado independentes umas das outras. Dessa forma, cada cidade tinha o próprio governante, que poderia ser um rei, uma elite de comerciantes ou uma família influente, de acordo com o costume de cada núcleo fenício. O mesmo ocorria na religião: cada cidade cultuava uma divindade ou um conjunto delas.
Havia, porém, elementos comuns às cidades fenícias, como a língua, o costume de fazer registros escritos, as tecnologias náuticas, o controle de determinadas rotas comerciais e o politeísmo. 
O período de 1200 a.C. a 800 a.C. é considerado o auge da cultura fenícia. O desenvolvimento das cidades-Estado era referência para outros povos da época, como gregos e persas

BIBLOS: A CIDADE DOS PAPIROS 


Correspondente à atual cidade de Jubeil, no Líbano, Biblos é considerada a mais antiga cidade não só da Fenícia, mas também do mundo. 
De acordo com pesquisadores, há vestígios da ocupação de Biblos que datam do ano 5000 a.C. A elite comerciante dessa cidade exportava principalmente o cedro, usado na construção de embarcações. Em troca, importava bens de variadas culturas e os comercializava com povos do Mediterrâneo. Dessa forma, o comércio fenício foi essencial para as trocas culturais entre os povos dessa região.
Por exemplo: o comércio do papiro. Os fenícios compravam esse produto dos egípcios e o revendiam aos gregos. Com o tempo, passaram a ser os principais comerciantes de papiro na Grécia. Por isso, a cidade era chamada pelos gregos de Biblos, cujo significado está ligado ao papiro e à escrita. Esse nome deu origem a termos usados ainda hoje, como biblioteca. 
Na verdade, Biblos era conhecida como Gubal pelos fenícios, e a divindade adorada era Baalat Gubal, a Senhora de Biblos, considerada a deusa da fertilidade e da maternidade.

TIRO 


Tiro ocupava a atual cidade de mesmo nome, no Líbano, e dividia-se em duas regiões: uma mais antiga e pouco habitada, no continente, e outra em uma ilha posicionada em local estratégico, na qual funcionava a vida urbana. Entre 1200 a.C. e 1000 d.C., a cidade tornou-se o maior centro comercial do Mediterrâneo, atraindo o interesse de diversas potências do mundo antigo. Como veremos, Tiro chegou a formar colônias ao longo do Mediterrâneo e, ao longo do tempo, foi dominada por assírios, babilônicos, persas, macedônios e romanos.
Durante o domínio romano, ficou conhecida pela produção e exportação de uma tinta vermelha denominada púrpura de Tiro. O pigmento, extraído de uma glândula do molusco múrex, era usado para tingir tecidos, resultando em tonalidades entre as cores rosa e vermelho-escuro. Usar vestes com essas tonalidades se tornou símbolo de poder no mundo antigo. Assim, a cor púrpura passou a fazer parte da identidade dos fenícios. A palavra fenícia deriva do grego phoeínikes, que significa vermelho. 
A divindade cultuada em Tiro era Baal Melcarte, considerado o deus da morte e da ressurreição, fundador de Tiro e o criador da púrpura de Tiro e da navegação para o oeste.

SÍDON 


Na atual cidade de Sídon, no Líbano, há vestígios da Sídon antiga, de origem fenícia. O núcleo urbano tornou-se comercial mente próspero em 2000 a.C. Assim como Tiro, Sídon foi dominada por vários povos, inclusive macedônios e romanos. 
Durante o domínio romano, iniciou--se nessa cidade a produção de outro tipo de púrpura e de vidro. Não há consenso entre os historiadores se a tecnologia do vidro foi desenvolvida por fenícios ou por egípcios. Sabe-se, porém, que os fenícios de Sídon foram importantes produtores e exportadores de objetos feitos desse material.

Vista aérea de Beirute (Líbano), 2018. Na Antiguidade, aí se localizava a cidade fenícia de Beritos.


AS COLÔNIAS FENÍCIAS 


A expansão fenícia a oeste ocorreu não apenas pela navegação, mas também pela fundação de entrepostos comerciais nos diferentes litorais do Mediterrâneo. Por esses entrepostos, era possível alcançar destinos mais distantes. Com o tempo, comunidades fenícias começaram a habitá-los iniciando a colonização. 
A partir de 2000 a.C., os fenícios fundaram colônias no norte da África, no sul da península Ibérica, nas ilhas Baleares, na Sardenha e na Sicília, como mostra o mapa. Nessas colônias, eram comercializados todos os produtos cujas rotas de trans porte estavam sob o domínio fenício.

CARTAGO 


A colônia fenícia mais bem-sucedida foi Cartago, localizada na atual Tunísia, país do norte da África. Ela foi fundada por comerciantes de Tiro e ocupou territórios estratégicos do Mediterrâneo, a partir dos quais os fenícios puderam controlar o comércio marítimo e dominar o norte da África e o sul da península Ibérica. Em pouco tempo, Cartago deixou a condição de colônia e passou a ser considerada cidade-Estado, na qual cultuavam-se deuses que descendiam das divindades de Tiro: Tanit e Baal Hammon, o casal do qual, segundo a mitologia, Cartago teria se originado. 
Seu declínio ocorreu ao longo do século III a.C., quando enfrentou o poderio de Roma e foi derrotada. Os cartagineses eram chamados pelos romanos de punas. Por isso, o conflito entre Roma e Cartago ficou conhecido como Guerras Púnicas.

A sociedade fenícia 


As cidades-Estado fenícias tinham um governo centralizado, cujo domínio era do grupo mais rico da sociedade. Nesse grupo havia grandes comerciantes, construtores de navios e também donos de oficinas, nas quais se produziam tecidos e joias feitas de vidro. 
A maior parte da população era formada pela camada mais pobre da sociedade, composta de trabalhadores livres (pequenos comerciantes, camponeses, artesãos e pescadores) e também de escravizados, que exerciam diferentes tipos de atividade no campo e na cidade.

A cultura fenícia


As relações comerciais estabelecidas com outras civilizações promoveram um in tenso intercâmbio cultural entre os fenícios e vários povos antigos. Assim, os fenícios incorporaram e aperfeiçoaram diversos conhecimentos dos povos com os quais tiveram contato. 
Os sinais ideográficos, muito utilizados pelos egípcios e mesopotâmicos, por exemplo, foram transformados em um sistema de escrita mais simplificado, com a utilização de sinais que representavam sons.

A religiosidade 


Os fenícios eram politeístas. As principais divindades cultuadas eram Baal, o regente do Universo; Astarte, filha de Baal, deusa do céu, da fertilidade e da primavera; Tanit, deusa protetora de Cartago e Eshmun, deus relacionado à saúde e à cura.

Artesanato e engenharia 

 
Os fenícios se destacaram também como artesãos, confeccionando tecidos, joias, perfumes e artefatos de pedra, marfim, metal e de cerâmica. Além disso, foram, provavelmente, os inventores do vidro transparente. O artesanato fenício era comercializado em grande quantidade.
Muitas de suas obras de artesanato, como tecidos de várias cores e estátuas de madeira, não resistiram à ação do tempo.
Artefatos fenícios de materiais mais resistentes, achados nos sítios arqueológicos da cidade de Ugarit, na Síria, vêm alargando nossa visão da arte e da história fenícia.

Vaso fenícios em cerâmica, século V a.C.

Os fenícios eram conhecidos como grandes construtores de barcos e ficaram famosos por inventar a birreme e a trirreme, um tipo de barco movido a vela com duas ou três fileiras de remos. Essa inovação deu mais rapidez e facilidade de manobra às embarcações.

O murex e a produção de corante 


Uma das mercadorias mais valiosas comercializadas pelos fenícios era um corante utilizado para tingir tecidos. Esse corante era obtido a partir de um pigmento de coloração vermelho-púrpura, extraído de um tipo de molusco conhecido como murex. Como a produção desse pigmento era muito pequena, os tecidos nessa cor eram caros e, portanto, geralmente usados pelas pessoas mais ricas.




A antiga civilização chinesa

Os domínios da antiga civilização chinesa variaram ao longo do tempo, mas sempre ocuparam uma extensão menor que o território da China atual. O núcleo central dessa civilização, onde surgiram as primeiras aldeias, era o Vale do Rio Huang-Ho (Huang-He), mais conhecido como rio Amarelo. É uma área de terras férteis e ricas em reservas minerais. Nessas terras, agricultores já cultivavam o arroz e o painço (espécie de cereal) desde 6000 a.C.
As comunidades que se fixaram ao longo do rio Amarelo planejavam sua vida de acordo com o calendário de inunda ções. Nas zonas que ficavam submersas por vários meses do ano, os camponeses cultivavam o arroz aquático, espécie que se difundiu por grande parte do sudeste da Ásia. Na parte mais elevada do vale, pouco irrigada, os chineses construíram terraços em forma de escadas, que se estendiam por longas curvas de nível. Com essa tecnologia, a água captada do rio e distribuída pelo terreno de cultivo se infiltrava no solo, retendo os nutrientes.
Assim, por volta de 2000 a.C., o Vale do Rio Amarelo abrigava culturas importantes, como a Yangshao e a Longshan. Em suas aldeias, praticavam-se a agricultura e a criação de cães, porcos, bois, ovelhas e galinhas. Acredita-se que as primeiras cidades da região surgiram a partir de aldeias Longshan, cercadas por muros de terra batida.

As dinastias


Tradicionalmente, a história da China Antiga é periodizada pela sucessão das famílias pelas quais foi governada, as chamadas dinastias. 
Por volta de 1750 a.C., iniciou-se a dinastia Shang, primeira da qual se obtiveram registros escritos. No final do século XII a.C., os Zhou, povo originário do oeste, derrotaram os Shang e inauguraram uma nova dinastia. A partir do século VIII a.C., iniciou-se um processo de fragmentação política. Gradualmente, os governantes Zhou perderam poder, enquanto os donos de terras se tornaram cada vez mais fortes e passaram a exercer grande influência em seus domínios, formando centenas de pequenos reinos. Por volta de 220 a.C., esse período chegou ao fim, com a vitória de Chin Che Huang, do reino de Chin (ou Qin). Ele anexou os territórios dos outros reinos e proclamou-se imperador dos chineses. O nome China derivou-se de Chin.
Após a morte de Chin Che Huang, uma nova dinastia se estabeleceu, em 206 a.C., e expandiu o território do império (observe o mapa a seguir). Para controlar esses vastos domínios e reforçar a autoridade estatal, os imperadores da nova dinastia, conhecida como Han, expandiram o exército e impuseram um sistema unificado de pesos e medidas. Foi durante esse período que se estabeleceu a Rota da Seda, a principal via comercial entre a China e o Ocidente. A ampliação dos contatos comerciais contribuiu para o desenvolvimento cultural da China e para o surgimento de uma nobreza urbana mercantil.

A sociedade chinesa 


O imperador ocupava o lugar de maior importância na sociedade chinesa. Abaixo dele estavam os ministros da corte, que agiam em seu nome. Em seguida, vinha a nobreza tradicional, formada por proprietários de terras que viviam da exploração do trabalho camponês. 
Nas famílias nobres, o homem tinha autoridade plena: ele decidia se uma criança recém-nascida ficaria na casa ou seria rejeitada, julgava e punia os crimes cometidos pela comunidade e podia ter várias esposas. Até o início da dinastia Han, os principais funcionários do Estado eram oriundos dessas famílias aristocráticas.
A ampliação das comunicações dentro e fora do império durante a dinastia Han possibilitou a formação de um novo grupo de homens ricos, em geral grandes comerciantes e dirigentes do exército, que viviam luxuosamente na capital, a cidade de Chang’an, rodeados por escravos, funcionários administrativos, mulheres e criados. 
No outro extremo da sociedade estavam os camponeses. Eles trabalhavam nas terras dos nobres, a quem forneciam grande parte das colheitas. A vida dos camponeses era bastante influenciada pelo ciclo das estações do ano. No verão, época das plantações, eles trabalhavam no campo, habitando choupanas. No inverno, retiravam-se para as aldeias, onde se dedicavam ao artesanato e preparavam as festividades coletivas até a chegada da primavera.
Com o tempo, cresceram os setores intermediários da sociedade, representados principalmente por mercadores, funcionários do Estado, artesãos e escribas.

Os camponeses


Os camponeses constituíam a imensa maioria da população chinesa. A partir da fundação do Império Chinês, passaram a ser a base de sustentação econômica e militar do governo imperial.
Eram os camponeses, com seu trabalho, que produziam os alimentos para quase toda a sociedade e, além disso, construíam as grandes obras públicas, como canais de irrigação, palácios e muralhas. 
Eram eles também os soldados que os imperadores utilizavam nas guerras, feitas para aumentar o poder, o prestígio e a riqueza do Império. No governo do imperador Huang, milhares de camponeses e prisioneiros de guerra foram forçados a trabalhar na construção da Grande Muralha, mis conhecida como Muralha da China.
General da dinastia Han. c. 1800. Ilustração em livro chinês. Biblioteca Britânica, Londres, Inglaterra.

Atividades econômicas 


A agricultura era uma das atividades econômicas mais importantes da China Antiga. Cultivavam-se cevada, arroz (no sul e no nordeste), trigo, melão, abóbora, pepino, cebola, alho e painço. Outras culturas importantes eram a da amoreira, cujas folhas serviam de alimento para as criações de bicho-da-seda, e do cânhamo, utilizado na produção de tecidos.

Vaso cerimonial da dinastia Shang. Século XII a.C. Bronze fundido, 28,9 × 19,1 × 16,5 cm. Museu de Arte de Cincinnati, Ohio, Estados Unidos.

Bois e cavalos eram criados para o trabalho nos campos e para o transporte. No período Zhou, há indícios do uso de bovinos para arar a terra e da prática da rotação de culturas, que possibilitaram o aumento da produção agrícola. Além disso, os chineses desenvolveram um eficiente sistema de irrigação com águas fluviais, oriundas principalmente do rio Amarelo. Os chineses também se destacaram na produção de tecidos de seda e na fabricação de objetos de madeira, bronze e ferro. Muitas das peças produzidas pelos artesãos dos períodos Zhou e Han baseavam-se nas técnicas desenvolvidas na época da dinastia Shang.

A escrita ideográfica chinesa


No final do século XIX foram encontrados ossos com os registros mais antigos da escrita chinesa. Os estudiosos concluíram que esses registros provavelmente datavam dos séculos XV a.C. e XIV a.C. Os primeiros caracteres da escrita chinesa eram desenhos que representavam objetos relacionados ao cotidiano dos chineses.
Lentamente, a escrita deixou de representar objetos (escrita pictográfica) e se transformou em uma escrita ideográfica, em que cada símbolo ou combinação de símbolos representa uma ideia.
A escrita que usamos, a alfabética, é formada por fonogramas, isto é, cada sinal representa um som. Já a escrita chinesa é constituída de ideogramas, ou seja, cada sinal representa uma ideia ou ação.
Esta forma de escrita ajudou a manter a unidade cultural da China durante todos esses séculos. Isso por que um mesmo ideograma podia ser lido por pessoas de diferentes localidades. O que mudava de região para região, era apenas a pronúncia da palavra.
A escrita chinesa foi introduzida em alguns países vizinhos e estes acabaram criando, a partir dela, sua própria escrita. Os japoneses, por exemplo, além de utilizar os Kanji, ideogramas de origem chinesa, criaram dois outros tipos de escrita: hiragana e katakana.

Os avanços tecnológicos


As descobertas chinesas aconteceram em diversas áreas, muitos séculos à frente de outros povos.
- Invenção da bússola e aperfeiçoamento dos barcos. Permitiram a expansão do comércio marítimo com outros povos, nos mares ao sul da China. Os navios chineses eram muito maiores do que as europeias do mesmo período. Eles eram movidos por remos e velas e tinham capacidade para transportar centenas de homens.
- Descoberta da pólvora. Inicialmente usada em fogos de artifício, depois foi incorporada pelos exércitos como arma, utilizada em canhões.

-  Melhora da qualidade do papel. Material muito popular, os de melhor qualidade eram utilizados para fazer registros jurídico e na confecção de livros.

Os contatos comerciais permitiram que outros povos tomassem conhecimento dessas descobertas.

Mulheres, mandarins e Filhos do Céu


As mulheres chinesas ocupavam na família e na sociedade uma posição inferior e subalterna. Deviam obediência aos homens, fossem eles o pai, o irmão ou o marido. As mulheres da alta sociedade eram submetidas, desde os cinco anos de idade, ao doloroso ritual de enfaixar fortemente os pés para que eles não crescessem. Os pequenos pés, chamados de lírios dourados, eram um sinal de beleza muito apreciado pelos pretendentes. Os pés de lótus, como também eram conhecidos, faziam do andar uma tortura, mais distinguiam as mulheres bem-nascidas das camponesas, que tinham os pés grandes.
O Celeste Império, isto é, a China, era uma monarquia teocrática, onde se misturavam as atividades políticas e religiosas. O imperador era Filho do Céu, o grande sacerdote mediador das relações entre os deuses e os homens.
A administração governamental era exercida pela alta classe de funcionários públicos, conhecidos como mandarins. Eles eram intelectuais que dominavam os segredos da complexa escrita chinesa. Essa escrita tinha quarenta mil sinais – os ideogramas – dos quais os mais cultos chegavam a conhecer no máximo cinco mil. Os letrados, ou seja, os mandarins, utilizavam pincéis especiais para desenhar os ideogramas em folhas de papel. Além disso, manifestavam seu desprezo pelo trabalho manual deixando crescer as unhas das mãos, que só podiam ser usadas em atividades intelectuais como a escrita e a pintura.

Confucionismo, ginseng e acupuntura


A região chinesa adorava as forças naturais e deuses celestiais. A doutrina oficial dos chineses, porém, era o confucionismo, que se baseava no culto aos antepassados, na adoração aos familiares mortos e no respeito às antigas tradições, como vimos anteriormente. Originários da índia, o budismo foi introduzido na China no século I d.C., mas não conseguiu grande aceitação popular.
Os chineses tinham uma capacidade notável para técnicas e invenções. Entre outras inovações, eles criaram a bússola, o sismógrafo (medidor de tremores de terra), o papel, o papel-moeda, a imprensa com tipos móveis e a pólvora, usada na fabricação de fogos de artifício.
A medicina chinesa realizava o tratamento de doenças com base na utilização de plantas, ervas e raízes. Entre estas encontrava-se o ginseng, uma raiz aromática muito procurada por suas propriedades medicinais e ainda usada nos dias de hoje. Os chineses foram também os criadores da acupuntura – técnica de anestesiar e curar baseada na aplicação de agulhas em pontos específicos do corpo humano. Mais tarde, os árabes se apropriaram do legado cultural chinês e o transmitiram aos europeus.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Os Paradigmas da História - Positivismo, Marxismo e Nova História

O ensino como um todo está passando por um período de transição, com muitos problemas e debates, sobre a importância do ensino, e o que realmente deve ser ensinado nas escolas para que realmente a educação cumpra o seu papel de formadora de cidadãos conscientes de sua importância na sociedade e mundo em que estão inseridos. Dessa forma o ensino de História não foge à essas discussões acerca das problemáticas da educação, principalmente no que tange ao ensino em sala de aula.
As maiores problemáticas em relação ao ensino de História se referem as questões teórico-metodológicas e político-pedagógicas. Cabe então analisarmos mais profundamente as três correntes da historiografia atual que servem como embasamento teórico para os professores de História: o Positivismo, o Marxismo e a Nova História.

Positivismo


Corrente teórica tradicional que surgiu no séc. XIX, como reação ao Idealismo de Kant e Hegel, fundado por Augusto Comte. O momento histórico em que essa concepção historiográfica foi criada insere-se em uma fase onde a burguesia tornava-se a classe econômica hegemônica, e o positivismo representou a justificação e legitimação da visão burguesa, servindo mais tarde como uma ideologia dessa classe, garantindo a manutenção dessa nova ordem.
O positivismo segundo Comte apresenta a lei dos três estágios que consiste em estabelecer três estágios de evolução do espírito humano: o estado teológico, o estado metafísico e o estado positivo. Essa concepção tem uma característica utilitarista, que propõe conhecer o passado, entender o presente e projetar o futuro, que dessa forma busca a previsão e o conhecimento prévio dos fatos, onde o futuro pode ser manipulado.
O estudo da História segundo a concepção positivista, se restringe ao estudo dos fatos, que podem ser observados, verificáveis e experimentáveis, tirando da história toda a sua subjetividade. O historiador é uma pessoa neutra e objetiva, que não interfere de forma alguma nos acontecimentos e na História. A fonte de estudo privilegiada nessa concepção são as escritas, principalmente os documentos oficiais.
A pesquisa nos documentos oficiais é realizada apenas no âmbito da descrição já que eles não podem ser discutidos e analisados. Com isso a história é contada a partir de uma estrutura política, privilegiando os governos e os governantes. A sociedade assim como a natureza é regida por leis naturais e invariáveis, independentes da vontade e da ação humana, e que caminha para um estágio final de progresso, sem que haja retrocessos e atrasos durante a evolução dessa sociedade.
Com a utilização dessa concepção por parte dos professores de História em sala de aula, os alunos não são estimulados a pensar, e buscar o conhecimento através de uma construção do mesmo.

Marxismo


Para analisarmos a corrente marxista, devemos remontar as origens históricas dessa tendência. No final do séc. XVIII, a burguesia libertou as forças produtivas do domínio do feudalismo. A burguesia se apropriou dos meios de produção e dos capitais gerados a partir da exploração de uma nova classe social - o proletariado. A luta de classes levou o proletariado a buscar a explicação, e consequentemente a tomada de consciência, do processo de exploração a que está submetido. Nesse sentido, contrariamente ao positivismo, o marxismo procura explicar a História do ponto de vista dos trabalhadores.
Nessa concepção os fatos não podem ser medidos e experimentados, a abstração só pode se dar na imaginação. Os fatos, os indivíduos são reais, e sua ação, suas condições materiais de vida alteram a História. O historiador trabalha na investigação do processo histórico concreto, e intervém de modo prático sobre eles. A partir disso os acontecimentos não são acabados e a História não é dada, mas sim construída socialmente pelos indivíduos que nela se inserem.
A estrutura econômica é privilegiada nessa tendência, com a produção material determinando as demais esferas da vida social. Há um aspecto comum com o positivismo, já que da mesma forma a História caminha para um fim inevitável, só que nesse caso não a um estágio positivo, mas a uma sociedade socialista/comunista, com a evolução dos modos de produção.

Nova História


Na primeira metade do século XX, os historiadores franceses ligados à famosa Escola dos Anais promoveram mudanças significativas na maneira de pensar e escrever a História, as quais continuam ainda hoje em evidência, causando polêmicas. Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernando Braudel são considerados os maiores responsáveis por essas mudanças, embora muitos outros tenham contribuído para que a História firmasse novas formas de interpretação, preocupadas com as estruturas, as manifestações culturais e a relação com os outros ramos do saber, tais como a sociologia, a economia, a antropologia a demografia.
A nova história deve ser entendida como uma tendência historiográfica emergente, que tem ligado o seu surgimento a criação da Revista dos Annales em 1929, na França. Mas o termo Nova História, foi instituído a partir da década de 70.
A Nova História, tributária da Escola dos Anais, ocupou, por sua vez, um espaço importante nas universidades e conseguiu também penetração expressiva no mercado editorial, sobretudo na França. Historiadores como Jacques Le Goff, Georges Duby, Marc Ferro e tantos outros tornaram-se conhecidos da mídia. A Nova História, com sua linguagem próxima da literatura, sem o peso formal da linguagem acadêmica conquistou um público amplo, constituído não apenas por historiadores.
A história-problema em substituição a história narrativa; a história de todas as atividades humanas e não apenas a história econômica e política; aproximação com outras ciências humanas.
A Nova História costumou a ser dividida em 3 fases ou geração de estudiosos: a primeira geração privilegiou a história econômica e social, a totalidade era obtida na história econômica. A segunda geração privilegiou a história econômica e preteriu a história social, já que esse período de pós-guerra (1945) promoveu uma intensa industrialização, o que provocou uma atenção maior dos estudiosos. Os anos 70 foram marcados para uns com a continuidade do movimento a partir da terceira geração, e para outros como o rompimento definitivo dos postulados da primeira e segunda gerações, e a opção pelo irracionalismo.
A partir dos anos 70 novos objetos de estudo foram anexados à essa nova historiografia, temas que não eram contemplados pela historiografia tradicional: cotidiano das pessoas comuns, e não das grandes figuras, mas não se trata aí de acrescentar aspectos anedóticos e pitorescos a uma história econômica-política-social; história das mentalidades, a partir de temas como: família, educação, sexo, festa, morte, alimentação, mulheres, homossexuais.
Nessa concepção admite-se as múltiplas dimensões temporais: curta, média e longa duração, e não apenas um tempo curto e linear. Dessa forma pode-se analisar os acontecimentos e as relações entre eles através de um tempo estrutural.
A Nova História, sendo uma corrente de certa forma revolucionária em termos de historiografia sofreu e ainda sofre inúmeras críticas. 
Essas críticas se referem ao irracionalismo, a excessiva compartimentalização da História, desprivilegiando uma visão global e totalizante. A perspectiva micro também é contestada, já que os grandes movimentos e acontecimentos históricos consagrados são relegados a segundo plano.
Em substituição a História narrativa, entra em cena a História-problema, que procura explicar os problemas e as grandes interrogações da nossa época. O campo das pesquisas foi ampliado, livrando-se de preconceitos, quebrando fronteiras. Atualmente costuma-se dizer que tudo é História, e não apenas os feitos dos heróis, as grandes batalhas, as tramas das elites. Defende-se hoje que a história é uma tarefa coletiva, construída no cotidiano, e que, portanto, o ofício do historiador é dar conta da diversidade que resulta do pensar, sentir e agir de todos os homens.


O conceito de história

(Machado de Oliveira, Cristina.)

Podemos definir o conceito de história como sendo o desencadeamento geral das ações humanas, ou seja, são os fatos que se sucedem ininterruptamente, de modo a constituírem uma corrente contínua. Enfim, a palavra história refere-se especialmente ao conhecimento sistematizado dos eventos principais relativos à humanidade ou a uma parte dela. Porém, este sentido é totalmente genérico, podemos submeter a história a dois tipos de interpretações: uma visão objetiva e outra filosófica.
A história objetiva é a que trata de reconstruir, de modo mais "objetivo" possível, o desenrolar da história real, o devir das civilizações. Esse tipo de acepção indica a arte de retratar o passado, pressupondo uma prévia investigação, constituindo o objeto da Historiografia. O que se pode compreender dessa visão de história é que a realidade não pode ser atingida, enquanto se permanecer à superfície dos acontecimentos. Os fatos são apenas manifestações exteriores, implicando comisso um esforço para apreender as relações que os unem. A tematização de reflexão sobre o objeto nos introduz na filosofia da história, pois assim poderemos obter o sentido mais íntimo que se oculta por trás dos acontecimentos.
A interpretação da história com um sentido filosófico terá como objetivo a apreensão da totalidade, esforçando-se em compreender a história como tal, em sua unidade e em sua significação global.
Mesmo nos primórdios da filosofia já se refletia sobre o conceito de história. Já os pré-socráticos acreditavam que o mundo se renova periodicamente em ciclos e o próprio Platão fala nas terríveis catástrofes que de tempos em tempos ocorrem, ocasionando uma renovação da humanidade. Muitos outros filósofos tomaram como tema essa problemática, desenvolvendo o conceito, ampliando e apreendendo, cada um a seu modo, o sentido de história. Entretanto, pretendo desenvolver a filosofia da história numa concepção Marxista.
"A interpretação da história em Marx está profundamente ligada à interpretação de Hegel, mas, em relação a esta introduz uma modificação essencial: não é mais na reflexão que se cumpre o movimento constituinte, mas na práxis, na ação histórica enquanto penetrada pela ideia e reveladora da ideia."(Vida social e Destinação, p.52). 
Marx se mostra sensível à relação recíproca entre o desenvolvimento da sociedade e o desenvolvimento das ciências naturais no mundo moderno e salienta que elas contribuíram tanto para a emancipação do homem, quanto para a sua desumanização. Para ele a sociedade produz o homem enquanto homem, mas também ela é produzida por ele. A própria natureza, com a qual todo o homem, como ser vivo, está em relação, só se humaniza na sociabilidade tornando-se um elo entre cada homem e o fundamento da existência comum. "A sociedade, afirma Marx, é a total consubstanciação do homem com a natureza, a verdadeira ressurreição do naturalismo do homem, e a realização do humanismo da natureza"(Manuscritos econômico-políticos de 1844, p.260).
Assim, a tese fundamental de sua doutrina da história é que o único sujeito da história é a sociedade na sua estrutura econômica. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser mas é pelo contrário, o seu ser social que determina a sua consciência.
Segundo este ponto de vista, o único elemento determinante da história, e por isso também o único elemento que se autodetermina, é a estrutura econômica da sociedade. Desse modo, só a estrutura econômica da sociedade tem, propriamente, história. Portanto, quem impulsiona a história é a relação entre as forças produtivas e as relações de produção (as relações de propriedade). A história segundo Marx desencava todas as relações que encadeiam o homem e a sociedade à natureza, todas as relações que ligam a formação e a transformação dos modos de produção à constituição e transformação das formações sociais, da consciência social, do Estado e das formas ideológicas correspondentes. Ele põe no centro das investigações a sociedade civil, o comércio e a indústria e encara a sociedade civil como a "verdadeira fonte e teatro de toda a história”. A história da vida cotidiana e do presente em processo, encarada da perspectiva do materialismo histórico, propõem-se lidar, simultaneamente, com os fatos históricos que permitem descrever tanto o superficial, quanto o profundo na cena histórica. No plano descritivo, ela busca a reconstrução da situação histórica total; no plano interpretativo, ela se obriga a descobrir a rede da causação histórica, associando reciprocamente as transformações das relações de produção às transformações da sociedade e das superestruturas políticas, jurídicas, artísticas, científicas, religiosas, etc.
O primeiro pressuposto de toda existência humana, e, portanto, de toda a história, é de que os homens precisam estar em condições de viver para poderem "fazer história". O primeiro ato histórico é, portanto, engendrar os meios para a satisfação das necessidades, produzir a vida material mesma, e isto é um ato histórico, uma condição básica de toda a história que ainda hoje, como há milênios, precisa ser preenchida a cada dia e a cada hora tão-somente para manter os homens vivos.
Em segundo lugar, a primeira necessidade satisfeita, a ação da satisfação e o instrumento da satisfação já adquirido levam a novas necessidades.
A terceira circunstância que entra no desenvolvimento histórico, é a de que os seres humanos que renovam a sua própria vida diariamente começam a fazer outros seres humanos, isto é, a se reproduzirem – a relação entre homem e mulher, pais e filhos, a família. Essa família, que no começo é a única relação social, torna-se mais tarde, onde o crescimento das necessidades engendra novas relações sociais e o crescimento populacional novas necessidades, uma relação subordinada e tem então que ser tratada e desenvolvida segundo os dados empíricos existentes e não segundo o “conceito de família".
Um dos poderes principais da história é a divisão do trabalho. Toda a história anterior era, com exceção dos estágios primitivos, a história das lutas de classe. Estas são, em luta entre si, fruto das relações de produção e de troca, em suma, das relações econômicas de sua época. "Na época moderna, estas relações se caracterizam pela apropriação privada dos meios de produção, num sistema de produção essencialmente do tipo industrial. Assim, a oposição de classes se apresenta como o antagonismo entre a classe dos proprietários do capital e a classe dos proletários, isto é, dos homens que mais não possuem a não ser a força do seu trabalho.”(Vida Social e Destinação, p. 53).
As forças produtivas são, portanto, o resultado da energia aplicada dos homens, mas essa mesma energia é limitada pelas circunstâncias em que os homens se encontram, pelas forças produtivas já obtidas, pela forma social preexistente, que eles não criam e que é produto da geração precedente. Devido ao simples fato de que toda nova geração encontra as forças de produção já obtidas pela geração anterior e que lhe servem de matéria-prima para uma nova produção, surge um encadeamento na história dos homens, surge a história da humanidade, que é tanto mais história da humanidade quanto mais crescem as forças produtivas dos homens e, por conseguinte, as suas relações sociais. A consequência necessária: a história social dos homens nada mais é do que a história do seu desenvolvimento individual, tenham ou não consciência disso. Suas relações materiais são a base de todas as suas relações. Essas relações materiais não são mais do que as formas necessárias em que se realiza a sua atividade material e individual.
As formas econômicas, sob as quais os homens produzem, consomem e trocam, são, portanto, transitórias e históricas. Marx fez duas grandes descobertas: a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista através da mais-valia. Portanto ele demostrou que a existência das classes está ligada apenas a determinadas fases históricas do desenvolvimento da produção; que a luta de classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado; que esta mesma ditadura constitui apenas a transição para a superação de todas as classes e para uma sociedade sem classes.
Como foi dito anteriormente, só a estrutura econômica da sociedade tem, propriamente, história. Esta é constituída pela relação entre as forças produtivas e as relações de produção. Quando as forças produtivas alcançam um certo grau de desenvolvimento entram em contradição com as relações de produção existentes, que deixam por isso de ser condições de desenvolvimento para se transformarem em condições de estagnação. Entra-se então numa época de revolução social. No entanto, uma formação social só se extingue quando se estiverem desenvolvidas todas as forças produtivas a que pode dar lugar; as novas relações de produção entram em ação quando se encontram amadurecidas, no seio da velha sociedade, as condições materiais da sua existência. Marx admite a esse propósito o progresso incessante da história, entretanto este se encontra dirigido para uma forma final e conclusiva.
Desse modo, podemos concluir que a história em processo é a história dos homens, o modo como eles produzem socialmente a sua vida, ligando-se ou opondo-se uns aos outros, de acordo com a sua posição nas relações de produção, na sociedade e no Estado, e gerando, assim, os eventos e processos históricos que evidenciam como a produção, a sociedade e o Estado se preservam ou se alteram ao longo do tempo.

Métodos da História


Ao concentrar seu estudo em um tempo e lugar concretos, assumindo uma perspectiva ou temática específica, o historiador não deve renunciar a uma visão ou conhecimento geral que lhe possa proporcionar um contexto suficientemente amplo, para que sua análise seja coerente e os fatos estudados se relacionem com seus antecedentes e posteriores, até mesmo os mais remotos. Contudo, a especialização é necessária para aprofundar o estudo histórico, que pode orientar-se segundo diversos métodos adaptados à pluralidade de aspectos e períodos.

História Política e Militar


Durante muito tempo, os fatos políticos e militares constituíram o principal objeto de interesse da história. Essa orientação centra-se na atuação e no crescimento dos estados e impérios e suas relações durante a paz e a guerra. Estuda também as lutas internas pelo domínio dentro de cada estado. Durante séculos, esse tipo de história baseou-se em ações bélicas e façanhas militares. Era uma narração de acontecimentos, estratégias e personagens destacados que absorviam o interesse do historiador. A história política moderna desmembrou-se em estudos setorizados: constitucional, das instituições e da administração estatal.

Método Marxista


Durante o século XIX os teóricos socialistas desenvolveram um tipo de história mais interessado pela população do que pelos indivíduos em si, e pelos modos de vida mais do que pelos feitos militares. Quem abriu um novo caminho para a pesquisa histórica, bem como para muitas outras disciplinas, foi o alemão Karl Marx. Inspirado pela dialética de Hegel, Marx elaborou uma concepção materialista da história baseada na contradição dos elementos da realidade social (tese e antítese) como meio para alcançar formas de síntese cada vez mais avançadas.
Na introdução a Zur Kritik der politischen Ökonomie (1859; sobre a crítica da economia política), Marx formulou suas ideias, contrastadas com as do amigo e colaborador Friedrich Engels, sobre o estudo da economia em suas ligações com a sociedade. Afirmava que o indivíduo se vê imerso em uma série de relações de produção, que variam segundo o grau de desenvolvimento da sociedade. A estrutura econômica depende das características dessas relações de produção, que constituem a infraestrutura de uma sociedade, sobre a qual se ergue a superestrutura (ideológica, política, jurídica etc.), que gera determinadas posições e consciências sociais. A cada modo de produção material corresponde, assim, um tipo de formação social (escravista, feudal, capitalista etc.). 
O conceito de "luta de classes" é basilar para a compreensão da teoria marxista, já que o desenvolvimento dos meios de produção e as relações entre os proprietários e os trabalhadores possibilitam estabelecer o processo de confronto dialético pelo qual a humanidade evolui para formas sociais e períodos históricos mais avançados. Segundo as leis da dialética, na sociedade capitalista a revolução proletária conduziria ao comunismo, síntese histórica em que se suprimiriam as distinções de classe e o estado, este entendido como organização coercitiva da classe dominante.
As ideias de Marx sobre o materialismo histórico não foram totalmente formuladas em Das Kapital (1867; O capital), obra de economia política que procurava fugir a esquematizações simplistas, perigo apontado e combatido por Engels em seus últimos anos de vida. Ao longo do século XX, a ortodoxia stalinista reduziu o materialismo histórico a uma fórmula de cinco etapas de desenvolvimento: o comunismo primitivo, o escravagismo antigo, o feudalismo, o capitalismo e o socialismo, fases necessárias na evolução de qualquer sociedade. Um novo período da historiografia marxista abriu-se após a segunda guerra mundial, quando se começou a superar a doutrina stalinista e passou-se a considerar outros aspectos até então deixados de lado.

Positivismo


Do último terço do século XIX às primeiras décadas do século XX predominou um tipo de estudo histórico baseado na filosofia política de Auguste Comte. Esse método foi elaborado a partir de uma comparação empírica de dados e de uma interpretação racional dos fatos, em que se abandonava toda questão teórica ou psicológica, mais difícil de objetivar, e se empregavam unicamente as fontes mais concretas dos documentos. Segundo os positivistas, a aplicação das ciências exatas possibilitaria o conhecimento das leis da história a partir da análise dos dados. Os historiadores positivistas trataram especialmente da história dos fatos políticos e ideológicos. Ocorreu um extraordinário florescimento da erudição e dos repertórios documentais, como os Monumenta germaniae histórica (Monumentos históricos germânicos) ou a Colección de documentos inéditos para la história de España. Nesse período realizou-se um importante trabalho filológico, com a decifração de hieróglifos, e desenvolveram-se os estudos sobre as ciências auxiliares e a interpretação de fontes.
A história positivista era, segundo Leopold von Ranke, uma exposição dos fatos tal como se produziram. Com o acúmulo de enormes quantidades de fatos que muitas vezes não eram interpretados, a história positivista ficou de certo modo limitada por seu próprio método e foi caindo progressivamente em desprestígio à medida que o século XX avançava. Métodos alternativos complementaram o chamado historicismo positivista com a introdução da interpretação e a adoção do princípio de que todos os aspectos da sociedade humana estavam sujeitos a mudanças e transformações.

Escola dos Annales 


Trata-se de uma linha historiográfica surgida na França através da revista Annales d'histoire économique et sociale, criada por Marc Bloch e Lucien Febvre. Os dois autores fundadores de tal publicação achavam insuficientes as formas com que a História era tratada até então. Apesar disso, não foram os primeiros a proporem novas abordagens, nem receberam a fama de forma indevida. Bebendo das fontes de diversos autores, compilam uma forma própria de análise do passado.

Bibliografia:

ABBAGNANO, Nicola."História daFilosofia"– Vol.X. Ed. Presença. Lisboa, 1970.

FERNANDES, Florentan (Org.)."Marx/Engels". Ed. Ática. São Paulo,1989.

LADRIÈRE, Jean."Vida Social eDestinação". Ed. Convívio. - ____

"Enciclopédia Brasileira Globo". Ed. Globo. Porto Alegre,1975.



A História como Ciência


Para os gregos, a história não se referia necessariamente ao passado, sendo antes uma lista ou descrição sistemática de fatos. Para Aristóteles, a história era o estudo de fenômenos particulares, enquanto a poesia relacionava-se ao geral, cujo conteúdo era mais filosófico e exemplar do que o daquela. Durante a Idade Média, a história permaneceu ligada às crônicas e a uma concepção teológica muitas vezes deformada em seus relatos pela distorção e pela lenda. 
O conceito científico começou a avançar durante o Renascimento, quando os humanistas adotaram uma visão mais ampla e desvinculada da teologia ao interpretar os textos clássicos. 
Se a História é uma ciência (cujo objeto é o passado da humanidade), tem que submeter-se, como toda a ciência, ao método científico. Ainda que este não possa ser integralmente aplicado a todos os campos das ciências experimentais, pode-se fazê-lo a um nível equiparável ao das chamadas Ciências Sociais.
Mas de maneira simplificada, pode-se admitir: a história é o estudo dos feitos do passado; a historiografia é a ciência da história e a historiologia a sua epistemologia. Um conceito confluente no momento de definir-se a História como fonte de conhecimento é a chamada Teoria da História, também denominada como "historiologia" (termo cunhado por José Ortega y Gasset), cujo papel é o de estudar a estrutura, leis e condições da realidade histórica histórica ; enquanto que o da "historiografia" é o de relato em si mesmo da história, da arte de escrevê-la.
Uma vez despojada da questão meramente nominal, resta para a historiografia, portanto, a análise da história escrita, das descrições do passado; especificamente dos enfoques na narração, interpretações, visões de mundo, uso das evidências ou documentos e os métodos de sua apresentação pelos historiadores; e também o estudo destes, por sua vez sujeitos e objetos da ciência.
No século XVII empregaram-se algumas ciências auxiliares que possibilitaram os primeiros esboços de uma "ciência" histórica em sentido moderno. Em 1681 com De re diplomatica (Sobre a diplomacia), Jean Mabillon proporcionou um instrumental crítico para depurar e interpretar as fontes.
Alguns pensadores desse século, no entanto, não consideravam a história uma ciência. Essa era a opinião de dois dos mais relevantes, Francis Bacon e René Descartes, embora em outro sentido tenham dado uma excelente contribuição, pois assentaram as bases filosóficas da idéia do progresso contínuo da humanidade, que teve tanta influência no pensamento do século XIX. Bacon dava pouca importância à precisão histórica, mas realizou uma divisão útil da história em civil e natural, e a relacionou com a memória. Descartes chegou a duvidar de que a história fosse um ramo do conhecimento.
Até o século XVIII não se pode falar de uma concepção científica da história. Jean Le Rond d'Alembert adotou na Encyclopédie a classificação de Bacon, que relacionou os conhecimentos humanos com as faculdades da memória (história), da razão (filosofia) e da imaginação (poesia), e dividiu a história em sagrada, civil e natural. A idéia do progresso humano foi a raiz do conceito de história como ciência social. Em Scienza nuova (1725), o filósofo Giambattista Vico desenvolveu mais extensamente a idéia do nascimento, crescimento e decadência dos povos, procurando indagar as causas do processo. Para isso foi mais influente a contribuição do barão de Montesquieu em Considérations sur les causes de la grandeur des romains et de leur décadence (1734; Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e da sua decadência). 
As causas do desenvolvimento deviam ser buscadas na moral e em aspectos mais objetivos, como as instituições, a política etc., sendo o acaso um elemento acelerador de processos evolutivos iniciados anteriormente por causas gerais e profundas.
Em History of the Decline and Fall of the Roman Empire (1776-1788; História da decadência e queda do Império Romano), o britânico Edward Gibbon expôs a teoria do progresso contínuo da civilização e foi um pioneiro ao utilizar em seu estudo de modo racional a enorme quantidade de dados acumulada pelos estudiosos anteriores. Durante o século XVIII, a história não esteve muito vinculada à área universitária, exceto em alguns locais, como a cidade alemã de Gotinger. Só no século seguinte a história transformou-se em disciplina acadêmica, a princípio na Prússia e posteriormente em outras partes da Alemanha. Ao longo do século passou a ser universalmente aceita como ciência e começou a ser escrita por historiadores profissionais.
Além disso, a revolução industrial oferecera aos historiadores a possibilidade de observar um fenômeno de mudança social e econômica sem precedentes que possibilitou a confirmação de muitos postulados da teoria do progresso humano. Em 1837 Adolphe Blanqui descreveu o processo da revolução industrial e destacou as relações entre a sociedade e a economia, antecipando as conclusões de Marx.

Fonte : www.estudantedefilosofia.com.br

CONSTRUTIVISMO

Na área da pedagogia, a inspiração para o construtivismo vem principalmente de Jean Piaget. A ideia mais importante da teoria desse psicólog...