sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O estudo da história da África

Durante muito tempo, a África foi tratada pelos estudiosos europeus como um continente sem história. Eles disseminaram a ideia de que os africanos eram povos sem cultura, portanto não mereciam ser objeto de seus estudos científicos.
Na segunda metade do século XX, essa situação começou a mudar. Alguns pesquisadores passaram a considerar a história da África com base em uma visão mais científica e fundamentada, combatendo os preconceitos e valorizando outros povos para além do europeu.
As principais fontes de estudo para a história da África são antigos relatos escritos (sobre tudo em egípcio, grego, latim e árabe), vestígios arqueológicos e a tradição oral. Ao serem analisadas, essas fontes históricas revelam a grande riqueza cultural dos povos do continente africano. A tradição oral, até recente mente negligenciada, fornece muitas informações sobre a história das sociedades africanas, além de permitir que se saiba mais sobre os valores que fundamentam as culturas nativas da África. Desse modo, a tradição oral revela ao historiador um conhecimento que os africanos transmitiram de geração em geração, ao longo dos séculos, e que, muitas vezes, não se encontra nos relatos escritos.

A formação das comunidades agrícolas


A civilização egípcia se desenvolveu em uma região desértica da África, às margens do Rio Nilo. Segundo estudos arqueológicos, desde cerca de 8000 a.C. essa região já era ocupada por grupos seminômades, que sobreviviam praticando a caça, a pesca e a coleta de frutos e de cereais. Por volta de 5000 a.C., vários desses grupos já haviam se tornado sedentários e aproveitavam a fertilidade propiciada pelo rio para desenvolver a agricultura e a criação de animais.
Esses grupos enfrentavam dificuldades impostas pela natureza, como o clima quente e seco e as cheias do Rio Nilo. Com isso, eles tiveram de criar técnicas apropriadas para a sobrevivência e a permanência no local. Com o passar do tempo, esses grupos for maram comunidades agrícolas independentes entre si, chamadas nomos. Os nomarcas, como ficaram conhecidos os chefes dessas comunidades, disputavam com frequência o domínio das áreas férteis.


Pintura mural que representa egípcios navegando no Rio Nilo. Cerca de 1400 a.C.

A unificação do Egito


Para melhor enfrentar essas disputas entre os nomarcas, os membros das co munidades agrícolas foram se unindo e formaram dois reinos distintos: o Baixo Egito e o Alto Egito. Cerca de 300 anos depois, em 3100 a.C., um governante do Alto Egito, chamado Menés, unificou os dois reinos e tornou-se o primeiro faraó egípcio. Ele assumiu o controle dos nomos, criando, assim, um Estado unificado.
Com essa unificação, as funções que antes eram exercidas pelos chefes dos nomos passaram a ser realizadas pelos funcionários do Estado. Entre essas fun ções, estavam a aplicação das leis, a fiscalização das atividades econômicas — co mo agricultura, criação de animais e comércio — e o controle sobre a construção de obras hidráulicas, por exemplo, canais de irrigação, diques e poços.
Desde que teve origem, com a unificação dos nomos, a figura do faraó esteve relacionada à re ligiosidade egípcia. O faraó, que exercia um governo teocrático, era considerado um rei divino, detentor de grandes poderes.
Ao longo da história do Egito antigo, a autoridade exercida pelo faraó na sociedade sofreu trans formações, porém esteve sempre relacionada a seu suposto caráter divino.


Estátua do faraó Ramsés II, criada por volta de 1250 a.C., no Templo de Luxor, Egito.


A organização social A organização social no Egito antigo caracterizava-se pela concentração do poder político nas elites e pela situação de pobreza da maioria da população.

Faraós e sacerdotes


Mesmo com a autoridade exercida pelo faraó, ocorriam disputas pelo controle político da sociedade. Em diferentes momentos da história do Egito antigo, o poder do faraó foi contestado, principalmente pelos sacerdotes.
Os sacerdotes eram pessoas com grande prestígio na sociedade egípcia antiga. Além de serem responsáveis pela organização e pela condução dos cultos, cuidavam da administração dos templos religiosos. Muitos eram considerados sábios, pois tinham conhecimentos de Astronomia, Geometria e Aritmética.

Nobres, militares e funcionários do Estado


A nobreza era formada pelos parentes do faraó e pelos descendentes dos antigos chefes dos nomos. Essas pessoas geralmente ocupavam altos cargos administrativos. Havia também uma elite militar, que detinha os principais cargos no exército. Os funcionários do Estado desempenhavam diferentes funções, como fiscalizar as plantações e cobrar tributos dos camponeses. Entre os funcionários do Estado, havia os escribas, que sabiam ler, escrever e fazer cálculos e eram muito respeita dos na sociedade egípcia.


Relevo de cerca de 1350 a.C. que representa um casal da nobreza egípcia.

Camponeses, artesãos e pessoas escravizadas


A maioria da população egípcia era composta de camponeses pobres, que vi viam em condições precárias e eram obrigados a pagar tributos ao Estado. Muitos se ocupavam com a criação de animais, a caça, a pesca e o cultivo de produtos agrícolas, como trigo, linho e algodão.


Afresco de cerca de 1350 a.C. que representa egípcios trabalhando na criação de gado bovino.


Existiam muitos trabalhadores especializados, como os artesãos, que faziam roupas, sandálias, pinturas, esculturas, joias, móveis, carros de guerra, barcos, entre outros itens. As pessoas escravizadas, que em sua maioria eram estrangeiras capturadas em guerras, trabalhavam nos campos, nas mi nas no deserto ou na realização de tarefas domésticas. Elas não eram a principal mão de obra na sociedade egípcia.



Afresco de 1500 a.C. representando artesãos trabalhando na produção de ouro e de vasos de cerâmica.

As práticas religiosas no Egito antigo


A principal característica da religião no Egito antigo era o politeísmo, isto é, a cren ça em vários deuses. Para os egípcios, os deuses eram seres poderosos que contro lavam o dia e a noite, a chuva e a seca, a vida e a morte, entre outros aspectos.
Os egípcios acreditavam que essas divindades sentiam vontades semelhantes às dos seres humanos e, por isso, faziam-lhes oferendas de comidas e bebidas. Entre os deuses mais cultuados, estavam Hórus (deus do céu), Ísis (deusa da fertilidade), Osíris (deus dos mortos), Tot (deus da escrita e da sabedoria) e Rá (deus do Sol).
A crença na vida após a morte Os egípcios acreditavam na vida após a morte. Por isso, para eles, era muito importante que seus corpos ficassem preservados depois que morressem. Assim, desenvolveram elaboradas técnicas de mumificação para conservar os corpos.


Vasos canopos, 600 a.C.


Formas de registro: os hieróglifos


Por volta de 3100 a.C., os antigos egípcios criaram um complexo sistema de escrita chamado escrita hieroglífica. Esse sistema utilizava diferentes sinais (hieróglifos) para representar ideias ou os sons da fala. Os hieróglifos representavam geralmente elementos do cotidiano egípcio, como animais, rios, o Sol, a Lua, embarcações, cordas, plantas, pessoas e partes do corpo humano, como a cabeça, os pés e os braços.


Relevo egípcio de cerca de 1500 a.C.


Uma escrita complexa


Um hieróglifo podia representar um som, uma palavra ou uma ideia completa. Outra dificuldade dessa escrita era saber o sentido da leitura do texto, pois ela podia ser de cima para baixo, de baixo para cima, da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Por isso, a escrita hieroglífica é considerada bastante complexa e exige muito estudo para sua compreensão.
Como suporte para a escrita, os escribas costumavam utilizar pequenas tábuas de madeira ou pedaços de calcário e cerâmica. O papiro, por ser um material mais difícil de produzir, era usado apenas por escribas especializados. O equipa mento usado para escrever podia ser uma vareta, uma pena ou um pincel, além de um pequeno recipiente para misturar a tinta.

Os cuxitas


A Núbia, onde se formou o Reino de Cuxe, era uma região localizada ao sul do território egípcio, também às mar gens do Rio Nilo. Essa região, rica em jazidas de ouro, ferro e pedras precio sas, era habitada por diferentes civili zações, entre elas a cuxita, que se esta beleceu no local por volta de 2500 a.C. As riquezas naturais da região atraíam a atenção de povos estrangeiros.
As principais cidades do Reino de Cuxe eram Napata e Méroe. Em Napa ta, os cuxitas se dedicavam principal mente à pecuária e, em Méroe, à agri cultura e ao comércio.
Entre 1530 a.C. e 1070 a.C., a região de Cuxe foi dominada pelo Egito. Nes se período, seus habitantes sofreram forte influência cultural dos egípcios. Os cuxitas passaram a construir tem plos e cidades com características ar quitetônicas egípcias, além de cultua rem deuses semelhantes.

Os faraós negros


Entre cerca de 730 a.C. e 650 a.C., os cuxitas dominaram o território egíp cio. Tebas, nessa época a capital egípcia, esteve sob domínio de reis cuxitas, conhecidos como “faraós ne gros”. Nesse período, também houve um grande intercâmbio cultural entre cuxitas e egípcios.


Estátua do século VII a.C. representando Taraca, faraó negro que reinou em Cuxe e no Egito nesse período.

As candaces


Em Méroe, governavam um rei (faraó) e uma rainha-mãe (candace), que eram escolhidos por um conselho para administrar o Reino de Cuxe. As candaces exerciam um papel preponderante na organização da família e do Estado, na distribuição dos bens da sociedade, na liderança dos cultos, nos acor dos políticos com povos estrangeiros, nas guerras etc.
As pirâmides cuxitas Quando a capital do Reino de Cuxe foi a cidade de Méroe, entre 591 a.C. e 330, os faraós e candaces cuxitas construíram várias pirâmides para lhes servi rem de túmulo.


Pirâmides cuxitas, em Méroe, 2019.


As pirâmides simbolizavam o poder dos faraós e das candaces, que eram considerados seres divinos. Algumas necrópoles podiam reunir dezenas de pirâmides, em que eram sepultados os soberanos e príncipes herdeiros. As pirâmides cuxitas eram menores (6 a 30 metros de altura) que as pirâmides egípcias (podiam chegar a 140 metros de altura). Além disso, essas construções cuxitas eram mais íngremes que as egípcias.
Os materiais utilizados na construção das pirâmides cuxitas eram mais leves, como o arenito e o cascalho, extraídos na região. Os faraós e as candaces que governavam por mais tempo geralmente eram sepultados em pirâmides maiores e com maior quantidade de joias, cerâmicas e alimentos.


O Império de Axum

Na Antiguidade, a cidade de Axum, na atual Etiópia, ficava a três ou quatro dias de viagem a pé das margens do rio Nilo. Parece muito? Para a época, não era, especialmente para os comerciantes que realizavam longas viagens para comprar e vender mercadorias em diferentes regiões.
Um povo originário da península Arábica, conhecido como sabeus, deslocou-se para a África por volta de 2000 a.C. e lá estabeleceu aldeias agrícolas que deram origem a cidades. Entre elas estava Axum. 
O Reino de Axum se formou em torno da cidade do mesmo nome, localizada ao norte da atual Etiópia. Ao ocupar a região, os grupos humanos começaram a desenvolver a agricultura focada na produção de cereais e em atividades como o pastoreio. 
Ao formar comunidades agrícolas, começaram a surgir poderes centralizados em torno dessas áreas. Essa ordenação política levou à construção de palácios, túmulos, altares ricamente decorados, indicando uma sociedade que era dividida por pessoas com diferentes poderes econômicos e influência sobre a população. 
Embora a cidade tenha sido fundada no século I a.C., muito antes disso a região já era visitada pelos egípcios que buscavam mirra, planta utilizada em seus rituais religiosos. Além do Egito, os habitantes locais estiveram sob influência de Cuxe e dos povos da península Arábica, que vinham do outro lado do Mar Vermelho para comercializar produtos diversos. Graças à influência destes últimos, os axumitas se tornaram hábeis navegantes e ricos mercadores.
No primeiro século da nossa era, isto é, no século I d.C., Axum havia se tornado a capital de um reino que, em seguida, passou a dominar os povos vizinhos e a cobrar-lhes impostos, transformando-se em um império.
Os axumitas construíram uma complexa civilização que fabricava moedas de cobre, prata e ouro e praticava uma sofisticada metalurgia.
O império tinha escrita própria, baseada no idioma ge’ez. Além disso, a elite axumita falava e escrevia em grego, idioma utilizado nas trocas comerciais daquela região. Naquela época, Axum era um importante centro de comércio entre o Vale do Nilo e os portos do mar Vermelho, por onde circulavam mercadorias entre o continente africano e o sudoeste asiático.
A partir do século II d.C., o Império de Axum atravessou o mar Vermelho e expandiu-se ainda mais, conquistando algumas cidades no território do atual Iêmen. No século IV, voltou-se para o rio Nilo, onde dominou o Reino de Cuxe, ampliando seu poder imperial. Como você já sabe a distância entre Axum e o Nilo, pode imaginar que essa expansão imperial dos exércitos exigia muitos recursos e longos deslocamentos.
O declínio da sociedade axumita começou no século VII, quando a religião islâmica surgiu na Arábia e os muçulmanos começaram sua expansão para o norte da África. Como a maior parte da região acabou convertida ao islamismo, os axumitas cristãos acabaram isolados e sem parceiros comerciais. O declínio do comércio também levou ao declínio do Império. Por volta dos séculos XII e XIII, o Reino experimentou uma breve recuperação, vivendo novo momento de prosperidade.

Egito e Cuxe: expansão e dominação

A navegação pelo Rio Nilo era um fator de integração entre o Egito e a Núbia. Detalhe da peregrinação para Abidos, dinastia XVIII. Afresco em tumba localizada em Tebas, Egito. 84 Apesar da relação comercial estabelecida entre egípcios e cuxitas, suas interações nem sempre foram amigáveis. Em primeiro lugar, a presença núbia nos arredores do Rio Nilo representava uma ameaça à unidade do Império Egípcio e ao poder faraônico. Deste modo, os egípcios guerreavam frequentemente com os cuxitas. 
Além disso, a cobiça pelas riquezas núbias transformou os egípcios, antigos parceiros comerciais do Reino de Cuxe, em conquistadores. Por volta de 2500 a.C. os egípcios dominaram Cuxe e mantiveram o poder sobre o território cuxita até o período em que o próprio Egito foi invadido pelos hicsos. Após o domínio dos hicsos, os núbios conseguiram se libertar dos egípcios. 
Quando os egípcios expulsaram os hicsos, por volta do ano 1552 a.C., o Egito se fortaleceu e novamente ocupou os territórios cuxitas. A partir do século XI a.C., com as disputas internas enfraquecendo o poder dos faraós, os núbios se livraram da dominação egípcia.
Em 751 a.C. a situação se inverteu, Cuxe fortaleceu seu exército e submeteu o Império Egípcio ao seu domínio. Piankhy, líder guerreiro cuxita, tomou o palácio real em Tebas e inaugurou a 25a dinastia de faraós, conhecida como a dinastia núbia. Deste modo, os núbios passaram a governar todo o Império Egípcio. Essa foi a época de maior glória de Cuxe. 
Algumas décadas depois, os assírios conquistaram o Egito (672 a.C.) e o Reino de Cuxe se separou, continuando como um território independente ao sul e mantendo uma organização política típica dos povos da região e, ao mesmo tempo, influenciada pelos egípcios. Mesmo depois destes eventos, as relações entre Egito e Cuxe continuaram tensas, até que a cidade de Napata foi invadida, saqueada e incendiada (591 a.C.). 
Após a invasão de Napata, a capital de Cuxe foi transferida para Meroé, localizada mais ao sul. Isso reduziu as relações culturais e comerciais entre egípcios e cuxitas. Cuxe voltou-se cada vez mais para o sul, consolidando-se por muitos séculos como a principal potência da região.

O declínio de Cuxe


A condição de principal potência do continente africano só começou a ser ameaçada pelo desenvolvimento do Reino de Axum, que começou a ascender a partir do século I. Parece ter havido uma série de fatores para a decadência do Reino de Cuxe, como a concorrência com o Reino de Axum, o recomeço dos ataques do Egito (nesse período sob domínio romano), entre outros motivos.
A partir de então, os grandes monumentos, sobretudo os gigantes cos túmulos dos reis, começaram a se tornar progressivamente mais raros e menos monumentais, deixando de ser construídos por volta do século IV. A ausência de novos túmulos é um indício de que, nesse período, Meroé e demais regiões de Cuxe já estavam sob o controle de Axum e outros povos da região.

Reino de Cuxe: vida e sociedade


O Egito exerceu forte influência cultural sobre diversos povos africanos, principalmente sobre o Reino de Cuxe. O povo núbio assimilou aspectos da cultura egípcia e os incorporou aos seus costumes, desenvolvendo uma nova cultura.

Sociedade


O Reino de Cuxe também tinha uma divisão social que tinha como base a organização política do reino. Os reis ocupavam a posição mais alta na sociedade núbia. Abaixo deles, os sacerdotes, chefes locais e anciãos das famílias mais importantes (cuja função era preservar as leis e as tradições religiosas). A seguir, vinham os militares, funcionários estatais, comerciantes, artesãos e, na base, os trabalhadores (camponeses ou mineradores). Em Cuxe, a escravidão era mais comum do que no Egito, mas também não era a principal forma de trabalho. A maior parte dos escravizados capturados em batalhas era vendida para outros povos.

Economia


O Reino de Cuxe tinha a sua economia pautada na agricultura (principalmente de cereais para a alimentação e algodão para as vestimentas), criação de animais (cabras, burros e cavalos que eram usados para o transporte), artesanato, comércio, mineração (sobretudo de ouro) e metalurgia, pois os núbios se notabilizaram como ourives, ou seja, artesãos que produziam joias em ouro.

Cultura e religião


Os núbios aderiram às crenças egípcias, mas também cultuavam seus deuses locais. A influência do Egito igualmente estava presente na arquitetura (como se pode observar nas ruínas de pirâmides ainda existentes no Sudão) e na adoção dos hieróglifos como sistema de escrita. No entanto, os cuxitas chegaram a desenvolver uma escrita própria, chamada meroítica, que ainda não foi totalmente decifrada.

As mulheres no Egito e as candaces de Cuxe


Exemplos de igualdade total entre homens e mulheres na Antiguidade são desconhecidos. No entanto, houve casos em que a mulher tinha mais direitos e liberdades em comparação à maioria dos outros povos da época. Entre esses casos estão Egito e Cuxe. No Egito, embora a maioria das mulheres se dedicasse às atividades domésticas, de acordo com as leis e tradições elas tinham direitos próximos aos dos homens.
Além disso, a figura feminina era considerada sagrada e a monarquia era matrilinear, ou seja, embora fossem mais comuns faraós homens do que mulheres, a linhagem era uma herança da mãe, e não do pai. Existiram, inclusive, alguns faraós do sexo feminino, dos quais a mais célebre foi Hatchepsut, que governou entre 1479 a.C. e 1458 a.C.
Na sociedade cuxita, sobretudo na política, o papel da mulher era reconhecido. Houve várias rainhas governantes, que geralmente as- sumiam o poder após a morte de seus maridos ou quando seus filhos herdeiros do trono ainda eram muito jovens para governar. Essas mulheres recebiam o nome de candaces, e, além das funções administrativas, frequentemente se destacavam como rainhas guerreiras, liderando as tropas em batalha.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O Antigo Oriente Médio

No Oriente Médio também existem línguas aparentadas, que, mesmo apresentando diferenças entre si, têm a mesma raiz. É o caso do hebraico, do aramaico e do árabe, três línguas classificadas como semitas. 
O nome semita deriva de Sem, figura bíblica que seria o ancestral dos hebreus, dos árabes e de outros povos antigos que falavam línguas aparentadas, como os assírios, da Mesopotâmia, e os fenícios. Outro povo que se estabeleceu no Oriente Médio e cuja língua perdurou foi o persa. Hoje o persa é mais conhecido como farsi, e é a língua oficial de países como o Irã e o Afeganistão.

A Fenícia


Por volta de 3000 a.C., povos de origem semita, entre eles os cananeus, fixaram-se em uma estreita faixa de terra localizada na costa oriental do Mar Mediterrâneo, formando ali algumas cidades-Estado. Esse território, mais tarde chamado Canaã, compreendia as atuais Síria, Palestina e a costa do Líbano.

Relevo de cerca de 700 a.C. que representa fenícios em uma embarcação.

Os fenícios são descendentes desses povos semitas. Para formar sua civilização, souberam aproveitar as poucas áreas férteis do território para o cultivo agrícola, além de desenvolver atividades ligadas ao mar, como a pesca e o comércio com povos vizinhos. Alguns exemplos de produtos comercializados pelos fenícios pelo Mar Mediterrâneo eram azeite de oliva, papiro, joias e tecidos.

Cidades e colônias fenícias


As principais cidades fenícias eram Biblos, Sídon e Tiro. Havia também diversas colônias fundadas pelos fenícios, algumas das quais cresceram e tornaram-se grandes cidades, como Cartago, Palermo e Gades. Elas eram chamadas cidades-Estado, pois eram autônomas entre si e cada uma tinha o próprio governo. Essas cidades eram ricas e estavam localizadas em uma região estratégica para vários povos da Antiguidade, motivo pelo qual despertavam muita cobiça.
Cartago, por exemplo, fundada em 814 a.C., tornou-se um grande centro comercial na Antiguidade, dominando muitas atividades de intercâmbio no Mar Mediterrâneo. Por volta de 750 a.C., Cartago se tornou a principal cidade-Estado fenícia. A partir de 1500 a.C., as principais cidades e colônias fenícias foram invadidas por povos estrangeiros, entre eles egípcios e filisteus. Em 146 a.C., após a dominação dos romanos sobre Cartago, durante as Guerras Púnicas, a sociedade fenícia entrou em declínio.

Religião fenícia 


A religião fenícia, que era politeísta manteve o culto a várias divindades antropomórficas tradicionais dos antigos povos semitas que habitavam Canaã. Essas divindades estavam relacionadas às forças da natureza e dos astros, como o Sol e a Lua, e a um deus principal, chamado El. A prática de sacrifícios de animais e, algumas vezes, de seres humanos fazia parte dos rituais religiosos desses povos. Esses sacrifícios eram ofertados aos seus deuses, pois acreditavam que assim conseguiriam acalmar sua ira em relação à humanidade.
Por causa do intercâmbio que os fenícios estabeleciam em suas viagens comerciais, a religião fenícia foi introduzida em suas colônias no Mediterrâneo, exercendo grande influência sobre vá rios povos antigos. 

Estatueta do século IV a.C. que representa uma deusa fenícia.

O alfabeto fenício


As relações comerciais fenícias promoveram, além da troca de mercadorias, um intenso intercâmbio cultural entre os povos antigos. Foi nesse contexto que o alfa beto fonético, desenvolvido pelos fenícios por volta de 1000 a.C., difundiu-se em muitos lugares do mundo antigo, servindo de base para o alfabeto de vários povos. 
Por volta de 1000 a.C., os fenícios transformaram alguns ideogramas em um sistema mais simplificado de escrita. As escritas mais utilizadas na época eram a egípcia (hieróglifos) e a mesopotâmica (cuneiforme). No entanto, eram sistemas bastante complexos e seu uso geralmente era limitado a sacerdotes ou escribas. Tanto na Mesopotâmia quanto no Egito, saber ler e escrever era sinônimo de privilégio e poder.

Inscrições fenícias do século V a.C.

O alfabeto foi uma das maiores invenções da humanidade. A grande inovação fenícia para seu desenvolvimento foi a utilização de sinais que representavam apenas os sons, o que deu origem ao alfabeto fonético. 
O sistema de escrita fenício, por causa de sua simplicidade e fácil memorização, foi adotado por outros povos, entre eles os antigos gregos, que o adaptaram ao seu idioma. Depois, o alfabeto grego foi incorporado pelos romanos, que o alteraram e criaram novas letras. 
Os romanos estabeleceram, assim, o alfabeto latino. Na atualidade, os falantes de várias línguas, como a inglesa, a espanhola e a portuguesa, escrevem utilizando as letras do alfabeto latino.

Os hebreus 


Por volta de 1800 a.C., Canaã, território entre o Mar Mediterrâneo e o deserto da Síria, foi ocupada pelos hebreus, um povo de origem semita.

A religião dos hebreus 


Os hebreus eram monoteístas, isto é, acreditavam na existência de somente uma divindade, Javé. De acordo com a tradição hebraica, ele fez uma aliança com os hebreus, na qual prometeu dar-lhes o território de Canaã em troca de obediência. Por isso, entre os hebreus, Canaã ficou conhecida como Terra Prometida.

Rolo da Torá.

As crenças e muitas histórias do povo hebreu estão registradas na Torá, um conjunto de cinco livros – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio – que também faz parte do Antigo Testamento da Bíblia. Esta, por sua vez, é composta de cerca de setenta livros de diversos gêneros, escritos em momentos diferentes e em regiões diversas, organizados e compilados no século IV. 
A Torá, também conhecida como Pentateuco, é composta de ensinamentos religiosos, mandamentos e leis, e é uma das principais referências para o estudo da história do povo hebreu. Outras referências são textos históricos, como os do historiador Flávio Josefo (cerca de 37-100) e pesquisas arqueológicas desenvolvidas por especialistas ao longo do tempo.

O patriarcado hebraico 


A sociedade hebraica era organizada em comunidades chamadas tribos (cerca de 1800 1250 a.C.). Cada uma delas era governada por um patriarca. Essa forma de organização social é conhecida como patriarcado. Os patriarcas hebreus mais conhecidos são Abraão, Isaac e Jacó. O patriarca Jacó passou a ser chamado Israel. É por isso que os hebreus também são conhecidos como israelitas.

A Monarquia e os reis hebreus


As lutas para dominar Canaã fizeram com que as tribos hebraicas gradualmente se unissem e se organizassem politicamente. Por fim, em cerca de 1010 a.C., os hebreus fundaram o Reino de Israel e escolheram um rei para governá-los.
De acordo com a Torá, o primeiro rei hebreu, chama do Saul, sofreu várias derrotas militares e morreu durante uma batalha. Seu sucessor foi Davi, jovem comandante que já havia vencido diversos combates quando subiu ao trono. Durante seu governo, que durou quarenta anos, Davi derrotou os filisteus, conquistando a maior parte de Canaã, e escolheu Jerusalém para ser a capital do Rei no de Israel.

Jerusalém, Israel, 2020.

O sucessor de Davi foi seu filho Salomão. De acordo com a tradição hebraica, Salomão foi um governante sábio e esclarecido. Durante seu governo, o Reino de Israel passou por um período de esplendor e prosperidade, pois ele ampliou os do mínios do reino, incentivou o comércio e realizou várias obras em Jerusalém. A mais conhecida delas foi o Templo de Jerusalém, também chamado Templo de Salomão.

O Templo de Salomão 


O Templo de Salomão envolvia um complexo de santuários, pátios, residências reais e palácios cerimoniais. Era um local de culto e representava a religião monoteísta seguida pelos hebreus. No século VI a.C., o templo foi destruído pelos babilônios e reconstruído algumas décadas depois, constituindo o chamado Segundo Templo. 
No século I, o templo foi destruído novamente, dessa vez pelos romanos, durante um ataque a Jerusalém. De acordo com a tradição hebraica, uma parte desse templo não foi destruída. Essa parte, chamada Muro das Lamentações, é atualmente considerada um local sagrado de adoração e orações.

Pessoas orando no Muro das Lamentações em Jerusalém, Israel, 2020.

Os reinos hebraicos 


Para construir o Templo de Jerusalém e manter o luxo na Corte, durante o go verno do rei Salomão houve um significativo aumento na tributação. A cobrança de pesados impostos gerou grande descontentamento, principalmente entre as camadas mais pobres da população.
Após a morte de Salomão, por volta de 930 a.C., a população revoltou-se contra essa pesada tributação. As tribos que viviam no norte do reino não se submeteram a Roboão, filho e sucessor de Salomão, e fundaram o próprio reino, que também se chamava Reino de Israel, com capital em Samaria. As tribos do sul, por sua vez, formaram o Reino de Judá e mantiveram a capital em Jerusalém.
Com o tempo, por causa do nome dessa região, os hebreus passaram a ser conhecidos como judeus.

O alfabeto hebraico 


O alfabeto hebraico continha cerca de 25 consoantes e não tinha vogais. Com o passar dos séculos, os hebreus começaram a usar também outros idiomas para falar e escrever, como o aramaico, o grego e vários dialetos árabes. Uma das características da escrita hebraica é que os textos são escritos da direita para a esquerda.


Estrela de Davi, importante símbolo do judaísmo formado por dois triângulos superpostos. O primeiro representa a fé e o segundo a história dos judeus. A ponta superior da estrela é associada ao plano espiritual e a inferior, ao material.

Os persas


Os persas eram povos nômades que, por volta de 1200 a.C., fixaram-se em uma região montanhosa entre o Golfo Pérsico e o Mar Cáspio. Essa região ficou conhe cida como Pérsia. Por volta de 550 a.C., o governante Ciro, o Grande, unificou os povos persas e iniciou um período de vitórias militares, conquistando territórios vizinhos. 
Na época do governo de Dario I, neto de Ciro, os persas já haviam constituído um império, que se estendia do Egito à Índia.
Durante o governo do imperador Dario I, os persas deram início à construção de uma nova cidade para servir de capital ao império. Essa cidade recebeu o no me de Persépolis. Além de um imponente complexo de palácios, Persépolis contava com um grandioso centro cerimonial, um salão de audiências e diversos edifícios do governo.

Ruínas da cidade de Persépolis, no Irã, 2020.

A administração do Império Persa Para administrar um território tão vasto, o Império Persa foi dividido em províncias, denominadas satrapias. Elas eram administradas pelos governadores (sátrapas), nomeados pelo imperador persa.
Os persas construíram uma rede de estradas que interligava as diferentes satrapias. A maior das estradas persas era a Estrada Real, que tinha cerca de 2 736 quilômetros de extensão e ligava as cidades de Sardes e Susa. Além da construção de estradas, os persas criaram uma moeda única, o dárico, e padronizaram o sistema de pesos e medidas.

Ruínas de Sardes, onde iniciava a Estrada Real do Império Persa. Salihli, Turquia, 2020.

O pagamento de tributos


Os persas exigiam dos povos conquistados o pagamento de tributos, que eram enviados dos mais diferentes lugares. Da Anatólia, por exemplo, os persas recebiam como tributo carregamentos de ouro, prata e cobre; do Egito, linho e papiro; da Arábia, incensos.

Relevo de cerca de 500 a.C. que representa pessoas levando tributos ao imperador persa.

O declínio do Império Persa aconteceu a partir de 479 a.C., quando os persas foram derrotados pelos gregos na batalha de Plateia. Em 330 a.C., após a invasão macedônica, o Império Persa perdeu sua hegemonia sobre as regiões conquistadas.

O correio persa 


Para administrar com mais eficiência seu vasto império, os persas criaram um grande sistema de transmissão de mensagens. Para que ele funcionasse, construíram postos ao longo das estradas, onde havia cavalos e cavaleiros alimentados e descansados.
Assim, um cavaleiro que portava uma mensagem cavalgava rapidamente até o próximo posto e transmitia a mensagem para o cavaleiro que ali se encontrava. Esse cavaleiro partia imediatamente levando a mensagem até o posto seguinte, e assim sucessivamente, até a mensagem chegar a seu destino. O correio persa era eficiente, e uma mensagem podia ser levada por centenas de quilômetros em um único dia.

Escultura do século V a.C. que representa um cavaleiro persa.





A FORMAÇÃO DO EGITO ANTIGO

Os primeiros grupos humanos começaram a se instalar no Vale do Rio Nilo por volta de 6000 a.C. Vivendo inicialmente de forma igualitária, com o tempo as comunidades cresceram e surgiram diferenças sociais entre seus membros. É provável que a necessidade de organizar a irrigação tenha levado essas comunidades a se unirem formando grupos maiores, chamados nomos. 
Os nomos cresceram rapidamente. Por volta de 3300 a.C. a união de vários nomos deu origem a dois reinos: o Alto Egito, no sul, e o Baixo Egito, no norte. Conta a tradição que duzentos anos mais tarde o rei Menés, do sul, unificou os dois reinos e fundou a realeza faraônica. Por isso, Menés é considerado o primeiro faraó do Egito.
O poder dos faraós era hereditário, ou seja, era transmitido de uma geração para outra no interior da mesma família. No entanto, houve casos de faraós que morreram (por causas naturais ou assassinados) sem deixar herdeiros. Nesses casos, eles foram substituídos por um parente próximo ou por alguma pessoa muito influente no reino.
No longo período que vai de 2700 a.C. a 1069 a.C. o Estado egípcio se fortaleceu e conquistou novas terras, formando um império. A fase de maior extensão territorial se deu entre 1570 a.C. e 1069 a.C. Os faraós desse período estenderam os domínios egípcios à Palestina, à Síria, à Ásia Menor e à Núbia. 
Durante os séculos em que o Império Egípcio se manteve no poder, os territórios sob seu domínio foram governados por dinastias reais, ou seja, famílias de faraós que se sucederam no poder. Organizar e distribuir a produção agrícola, controlar a ordem pública e supervisionar toda e qualquer atividade eram tarefas realizadas por funcionários do Estado. Todos eles estavam subordinados ao faraó.
Durante cerca de 2 600 anos o Egito foi assim governado por um deus-rei, embora tenha havido algumas quebras nessa unidade, como entre os séculos XVIII a.C. e XVI a.C., quando os hicsos conseguiram invadir e dominar temporariamente o reino. Os principais problemas que enfraqueciam o poder dos faraós eram verificados nos tempos de seca, pois a baixa na produção e no abastecimento de alimentos causava fome e revoltas. 
Na segunda metade do século XVI a.C., após a expulsão dos hicsos, o Império Egípcio ficou mais estável, poderoso e próspero, tornando-se a maior potência militar da região. Esse período de expansão terminou com as derrotas para os persas (525 a.C.), para os gregos (332 a.C.) e para os romanos (30 a.C.).
No Egito Antigo, a vida após a morte era um elemento importante para toda a sociedade. Com isso, o poder do faraó não acabava após a morte, pois o corpo do governante deveria passar por diferentes rituais funerários e ser colocado em túmulos ricamente decorados e com diversos objetos valiosos, como as pirâmides. Um exemplo de artefato que era deixado no túmulo dos faraós eram as chamadas máscaras mortuárias. Elas tinham como função representar a face do faraó falecido em seu estado divino, relacionando os faraós aos deuses egípcios. 
Os faraós, no entanto, não governavam sozinhos. Eles eram apoiados por um grupo de pessoas poderosas, como sacerdotes, militares e funcionários burocráticos. Apesar de muitos poderes, alguns perderam o trono por causa de conspirações feitas por membros das elites ou pela invasão de inimigos estrangeiros. 

O faraó e seus colaboradores 


O faraó era o rei e o supremo sacerdote do Egito Antigo. Era considerado um deus encarnado, escolhido por outros deuses para garantir a estabilidade no mundo. Ele estava ligado ao deus Hórus, filho dos deuses Ísis e Osíris e rei do mundo dos vivos. Com sua autoridade divina, o faraó definia os objetivos do governo, comandava o exército e controlava a administração de todo o Egito. 
Na prática, ele era auxiliado por pessoas encarregadas de celebrar os cultos e de administrar e proteger as terras egípcias. Desde cerca de 2500 a.C., havia no Egito uma camada numerosa de funcionários que coordenavam as obras públicas, cobravam impostos e cuidavam dos templos e dos palácios. Os funcionários mais importantes eram o vizir, os sacerdotes e os escribas.
O vizir era o mais importante funcionário do Estado. Ele presidia o tribunal de justiça, chefiava a polícia e os assuntos externos e controlava a arrecadação de impostos em todo o império.

Detalhe do trono do faraó Tutankhamon. 1327 a.C. Madeira, ouro, prata e pedras preciosas. Museu Egípcio, Cairo, Egito.

Os sacerdotes administravam os templos e realizavam os serviços religiosos. Possuíam muitas terras e milhares de pessoas trabalhavam para eles. 
Os escribas se destacavam porque sabiam ler e escrever. Eles registravam os impostos arrecadados, faziam o censo da população, dos animais e das colheitas.
As guerras travadas contra os invasores hicsos, iniciadas por volta de 1600 a.C., fortaleceram o exército e seus chefes militares. No esforço para expulsar o invasor, o governo egípcio criou um exército profissional. Mas, enquanto os oficiais provinham geralmente das camadas mais abastadas da população  egípcia, os soldados eram recrutados entre os estrangeiros.

VIVER NO EGITO ANTIGO 


A maior parte da população do Egito era constituída de camponeses. Eles cultivavam as terras do faraó, dos sacerdotes e dos altos funcionários do Estado. 
As cheias periódicas do rio Nilo organizavam a vida cotidiana. De julho a setembro, o nível do rio subia e inundava as margens. Nesse período, os camponeses eram recrutados pelo faraó para trabalhar na construção de templos, canais de irrigação e outras obras públicas. A partir de outubro, as águas baixavam e os camponeses começavam a semear a terra. O solo, umedecido e fertilizado pelo húmus, estava pronto para a semeadura.
Os camponeses viviam com poucos recursos, pois apenas uma pequena parte da colheita ficava com eles. A maior parte dos rendimentos era destinada aos donos da terra e ao faraó, como pagamento pelo uso da terra e dos impostos cobrados pelo Estado. 
Vários relatos da época descrevem a vida difícil dos camponeses. Além do trabalho duro da semeadura e da colheita, eles tinham de combater insetos, pássaros e ratos que estragavam as plantações. E nem sempre as cheias do rio Nilo eram suficientes para irrigar e adubar o solo. Quando chovia pouco, os egípcios passavam por graves crises de fome.

Camponeses recolhendo trigo. c. 1420--1411 a.C. Pintura mural (detalhe) na tumba de Menna, em Luxor (antiga Tebas). As pinturas murais egípcias — como esta, na tumba de um escriba — são importantes fontes para conhecer aspectos do cotidiano daquela sociedade.

Sociedade e riqueza no Egito


A sociedade egípcia era hierarquizada, com o faraó ocupando o topo da pirâmide social devido ao seu controle sobre a riqueza e o seu poder de decisão política do reino. Em seguida, vinha a sua família e os tjatis, chefes de todos os funcionários. Depois vinham os nomarcas, que coordenavam o trabalho dos camponeses, e os sacerdotes, que detinham o poder religioso. 
Abaixo dessa elite achavam-se os militares, responsáveis pelas conquistas e combate a inimigos internos e externos, e os funcionários, encarregados de administrar o reino por meio da coleta de impostos e cálculos. Os registros eram feitos pelos escribas, que dominavam a escrita, conhecimento restrito a poucas pessoas.
Em posição inferior estavam os comerciantes e artesãos. Os últimos eram considerados funcionários do faraó, e tudo o que produziam pertencia a ele. Em troca do seu trabalho, recebiam salários modestos. Também os comerciantes serviam ao faraó. Embora houvesse alguns pequenos mercadores que atuavam por conta própria, o comércio de grande porte era controlado pelo Estado. 
Por fim, na base da pirâmide social, estavam os camponeses e os escravizados. Em geral não havia muitas pessoas escravizadas no Egito. Os poucos que existiam eram prisioneiros de guerra e pertenciam ao faraó ou às famílias mais ricas. A produção de alimentos, assim como a construção de grandes obras, era feita pelos camponeses livres, mas que tinham a mão de obra explorada por meio da cobrança de tributos e trabalhos.

Os trabalhadores egípcios 


A base da economia egípcia era a agricultura, isso explica a importância de dessa atividade para a cultura egípcia. O trabalho nos campos era coordenado pelos nomarcas, que concediam a cada família camponesa um pequeno trecho de terra para cultivarem seus alimentos, cobrando em troca impostos sobre aquilo que era produzido, o que os impedia de juntar excedentes para manter trocas comerciais significativas. Nos períodos de cheia do Rio Nilo, como não podiam trabalhar na lavoura devido às inundações, os camponeses eram obrigados a trabalhar nas grandes obras, que inicialmente eram a construção de canais, diques e represas, mas depois passaram a incluir palácios, templos, túmulos e gigantescos monumentos. 
As condições de vida dos camponeses eram duras. Eles ficavam com pequena parte dos alimentos que produziam e o trabalho, sobretudo na época das grandes obras, era muito pesado. Mas nem sempre eles se sujeitaram a essas condições. O mais antigo registro de uma paralisação de trabalhadores da história ocorreu no reinado de Ramsés III (1182 a.C. – 1151 a.C.) e suspendeu as obras de construção do túmulo do faraó.

Os ofícios da cidade 


À medida que os domínios egípcios se expandiram e a economia se desenvolveu, novas profissões apareceram. Por exemplo, a de “carregador de sandálias”, trabalhador que transportava as sandálias do faraó e uma chaleira com água para lavar seus pés; ou a de passarinheiro, pessoa encarregada de caçar as aves no céu. 
A maior diversidade de profissões era encontrada nas cidades. No Egito Antigo, um assentamento era considerado urbano se uma parte expressiva dos seus habitantes se dedicava a atividades não agrícolas, ainda que essas atividades estives sem muito ligadas ao trabalho no campo.
As cidades egípcias se diferenciavam pelas suas funções. Havia cidades de pirâmides, como Gizé, que abrigavam operários que construíam as tumbas reais e sacerdotes que cuidavam do culto ao faraó morto. Outras cidades tinham sido construídas para ser a residência da família real. Era o caso de Per-Ramsés, na região do delta, que abrigava joalheiros, sapateiros, oleiros, padeiros, entre outros artesãos, além de escribas e sacerdotes. 
Nas cidades-porto, que funcionavam como centros de comércio ou bases navais, havia mercadores, construtores de barcos, ferreiros, militares, entre outros ofícios. Muitas dessas profissões, ainda existem nos dias de hoje, embora as técnicas, os materiais e o local de trabalho sejam diferentes.

Trabalhadores egípcios produzindo vasos. Século XV a.C. Pintura mural (detalhe). Esta pintura foi feita na tumba do vizir Rekhmire, em Luxor (antiga Tebas). Além do faraó, apenas os altos funcionários tinham tumbas tão ricamente decoradas.

Homens e mulheres na terra dos faraós 


A real situação da mulher no Egito Antigo é motivo de muita polêmica entre os estudiosos. Há, de um lado, os que defendem que as mulheres e os homens tinham os mesmos direitos e importância social; e, de outro, os que avaliam que as mulheres estavam relegadas a uma posição secundária naquela sociedade. Para estes autores, as poucas rainhas-faraós conhecidas só assumiram o trono porque não havia sucessores do sexo masculino.
Apesar da incerteza, os estudiosos admitem que as mulheres egípcias tinham direitos que inexistiam na maior parte das civilizações antigas. Em geral, podiam exercer os mesmos ofícios que os homens e aparecer em público sem restrições. No entanto, tudo indica que não havia uma situação homogênea entre elas. Se as mulheres da elite gozavam de ampla proteção legal, o mesmo não acontecia com as mais pobres, como as camponesas e as arte sãs. Mas estas podiam recorrer aos tribunais caso se sentissem maltratadas.
Homens e mulheres podiam adquirir bens próprios. Os casamentos podiam ser arranjados ou ocorrer por amor, mas nada indica que houvesse uma cerimônia religiosa ou jurídica, apenas uma festa para celebrar a união do casal. É provável que os homens casassem entre os 16 e os 20 anos, e as mulheres, por volta dos 14 anos. Existia o divórcio, e podia ser solicitado por ambos. As razões podiam ser várias, como adultério, incapacidade de gerar filhos ou desentendimento entre o casal.

Monumento funerário representando um casal. c. 2000 a.C. Museu Egípcio, Cairo, Egito.

A RELIGIÃO 


No Egito dos faraós a religião estava presente em todos os momentos da vida. Cada cidade, cada vila e cada lar cultuavam divindades específicas, mas havia também deuses e deusas cultuados em todo o Egito. De tempos em tempos, o deus relacionado à dinastia do faraó poderia chegar a ser uma divindade reverenciada em todo o território, pois, afinal de contas, o faraó também era um escolhido dos deuses.
“Por que chove tanto em alguns meses? Por que há o dia e a noite? Por que a Lua muda de fases?” Questões como estas, no Egito Antigo, tinham respostas religiosas. O deus Hapi, por exemplo, era a divindade que trazia as inundações e cobria a terra com o húmus fertilizante. Os deuses também simbolizavam as qualidades humanas. A deusa Ísis, por exemplo, representava a boa esposa e a mãe que cuida muito bem do seu filho (o deus Hórus).
A espiritualidade tinha enorme importância na sociedade egípcia e, por isso, os sacerdotes detinham grande influência sobre a sociedade. Além disso, os sacerdotes contavam com grande apoio material, pois recebiam parte das riquezas do reino, como oferendas. Havia vários templos e todos eram construções tão luxuosas quanto os palácios e os túmulos dos faraós. 
Os egípcios eram politeístas. Deusas e deuses eram representados com figuras humanas, animais ou antropozoomórficas, ou seja, que combinavam características humanas e de animais. Eles representavam forças da natureza (como o Sol, o deserto ou as águas), além de ideias e valores (como justiça, guerra ou sabedoria). Segundo sua crença, os deuses controlavam os fenômenos naturais (como as chuvas, as secas ou as cheias) e julgavam as pessoas após a morte, sendo necessário agradá-los por meio de oferendas.

Os deuses e o faraó 


Segundo a mitologia egípcia, Osíris foi o primeiro rei dos deuses. No entanto, ele foi morto por seu irmão e rival, Seth, que despedaçou seu corpo e o espalhou por várias partes do reino. A esposa de Osíris, Ísis, reuniu as partes do corpo do marido e as costurou, ressuscitando-o magicamente. 
Dessa forma, Osíris tornou-se a primeira múmia. Enquanto esses episódios se desenrolavam, Hórus, filho de Ísis e Osíris, vingou o seu pai vencendo o tio Seth em batalha. A história termina com a divisão do poder entre pai e filho: Osíris passa a ser o governante do mundo dos mortos e Hórus o do mundo dos vivos. Essa história era extremamente importante, pois tratava a respeito do exercício do poder pelos faraós: Osíris representava o faraó morto que era mumificado e transmitia o poder ao herdeiro. 
Quando um faraó assumia a coroa, ele, passava por um ritual conhecido como entronização, no qual incorporava o deus Hórus, a quem ele representaria até o final da sua vida – daí a sacralidade da monarquia egípcia. Além disso, há no mito uma referência à unificação do Egito, já que Hórus, o falcão, representava o reino do Baixo Egito, e Seth, a serpente, o reino do Alto Egito.

O mundo dos mortos 


A crença na vida após a morte é outro aspecto importante da religião egípcia, e a conservação do corpo falecido era fundamental para isso. Assim, os egípcios desenvolveram as técnicas de mumificação.
Na visão de mundo dos egípcios havia uma relação de continuidade entre a vida terrena e o que eles chamavam de mundo inferior. A vida, para eles, era vista como uma caminhada. No momento da morte física, o coração parava e essa caminhada era interrompida. Por isso, era necessário preparar o morto para retomar, após a morte, o caminho iniciado no mundo terreno.

A rainha egípcia Nefertari (à esquerda) e a deusa Ísis (à direita) representadas na tumba de Nefertari. c.1290-1224 a.C. Afresco (detalhe). Vale dos Reis, Egito.

O preparo do morto para renascer no mundo inferior envolvia várias práticas funerárias que tinham como centro o ritual da mumificação. Os rituais funerários, da preparação da múmia ao enterro na tumba, tinham como função eliminar do corpo tudo que causasse corrupção e podridão, criando, assim, um corpo purificado para trilhar o caminho da eternidade.
O processo de mumificação incluía a retirada dos órgãos internos (que eram guardados em potes cerimoniais) e o preenchimento do corpo com serragem. A pele, que passava por um processo de ressecamento, era untada com óleos e bálsamos. Por fim, o morto era enfaixado para impedir a ação de insetos. O desenvolvimento desse processo possibilitou o acúmulo de conhecimento sobre a anatomia humana.
No começo, apenas os corpos dos faraós recebiam esse tratamento, mas com o tempo ele passou a estar disponível para as famílias mais ricas também. Os egípcios não foram os únicos a praticar a mumificação, mas suas técnicas eram tão sofisticadas que se tornaram famosas. 

O LIVRO DOS MORTOS


O Livro dos Mortos é uma coletânea de orações, cânticos e hinos religiosos produzidos durante o Novo Império. Antes de começarem a ser escritos, provavelmente, os textos foram recitados e transmitidos por uma longa tradição oral; por isso, é difícil determinar quando eles de fato surgiram. O que se acredita é que eles eram usados para guiar o falecido em sua viagem pelo mundo inferior. 
Segundo a tradição egípcia, quando uma pessoa morria, a alma se separava do corpo e o reencontrava antes de se apresentar no Tribunal de Osíris. No tribunal, ocorria o momento decisivo para a regeneração do morto e sua admissão na eternidade: a pesagem do coração. Na presença do deus Anúbis, o coração do morto era colocado em uma balança que tinha como contrapeso a pluma de Maat, deusa da verdade, da justiça, da ordem e do equilíbrio.
Hunefer se ajoelha diante de 14 deuses e juízes da morte.

Página do Livro dos Mortos de Hunefer, escriba do Novo Império, representando seu julgamento diante de Osíris. c. 1307-1306 a.C. Museu Britânico, Londres, Inglaterra.


A sabedoria e a arte egípcias 


Os antigos egípcios se destacaram pelos conhecimentos desenvolvidos na arquitetura, engenharia, matemática, astrologia e medicina. Todas essas atividades se relacionavam com a religião e a administração faraônica. Um fator que nos ajuda a compreender como esses elementos se relacionavam é que os sábios geralmente eram funcionários do templo ou do governo e, por isso, a produção de seu conhecimento deveria servir a esse regime político. O mesmo ocorria com a arte e os artistas, e quase todas as pinturas e esculturas faziam parte dos palácios, santuários ou túmulos dos faraós. Além disso, a produção artística era controlada por regras e fórmulas que mudaram pouco com a passagem do tempo. Entre essas regras podemos citar a da frontalidade, que podemos ver representada na imagem ao lado. Nela, é possível identificar uma das regras da pintura egípcia de acordo com a qual as figuras humanas deveriam ser representadas sempre na mesma posição.

A ESCRITA EGÍPCIA 


A escrita egípcia parece ser tão antiga quanto a suméria, mas não há certeza sobre isso. A primeira forma de escrita no Egito foi o hieróglifo, que surgiu por volta de 3300 a.C. 
No início, a escrita egípcia era pictográfica, isto é, representava objetos por meio de desenhos. Com o tempo, essa escrita passou a ser ao mesmo tempo ideográfica, contendo sinais representando ideias, e fonética, com sinais que representavam sons da fala. 
Hieróglifos eram os símbolos que formavam a escrita egípcia principal. Os egípcios dominavam três tipos de escrita. A hieroglífica era a mais antiga e complexa, usada principalmente nas inscrições religiosas e funerárias. 
A hierática era uma versão simplificada da primeira, utilizada pelos escribas para escrever com rapidez nos papiros. O registro mais antigo dessa escrita data de meados do terceiro milênio antes de Cristo.
A demótica era a mais simples, para textos administrativos e para a comunicação com outros povos.  A escrita demótica, ou popular, apareceu por volta do ano 700 a.C. Era uma escrita mais simples, que servia também para escrever cartas, fazer contas e registros.
Os egípcios usavam vários materiais para escrever. Os hieróglifos eram usados principalmente para escrever nas paredes dos templos, em monumentos funerários e, em alguns casos, no papiro. Anotações cotidianas eram feitas em madeira e papiro, tanto na escrita hierática quanto na demótica. 
Saber ler e escrever no Egito Antigo era indispensável ao indivíduo que quisesse seguir uma carreira de funcionário do faraó, ser sacerdote de um templo ou mesmo general de um exército. Com o passar dos anos e o fim da realeza faraônica, os hieróglifos caíram em desuso e nem mesmo os egípcios compreendiam aqueles sinais.

A decifração dos hieróglifos 


Em 1799, um grupo de soldados franceses descobriu na cidade de Roseta, no Egito, uma pedra com inscrições em hieróglifo, demótico e grego. 
Ao traduzir as inscrições em grego e em demótico, pesquisadores concluíram que se tratava do mesmo documento, escrito em duas línguas diferentes. O próximo passo era descobrir a relação entre os hieróglifos e os caracteres gregos e demóticos. 
O trabalho de tradução mais bem-sucedido foi o do linguista francês Jean-François Champollion, grande conhecedor da cultura egípcia. Graças aos estudos do físico e egiptólogo britânico Thomas Young, Champollion reconheceu o nome do faraó egípcio Ptolomeu, comparando a posição dele na escrita hieroglífica e nas escritas demótica e grega. A descoberta descortinou uma história de milhares de anos.

Pedra de Roseta. Século II a.C. Inscrições em granito negro, 114 cm # 72 cm. Museu Britânico, Londres, Inglaterra.


CONSTRUTIVISMO

Na área da pedagogia, a inspiração para o construtivismo vem principalmente de Jean Piaget. A ideia mais importante da teoria desse psicólog...