Durante muito tempo, a África foi tratada pelos estudiosos europeus como um continente sem história. Eles disseminaram a ideia de que os africanos eram povos sem cultura, portanto não mereciam ser objeto de seus estudos científicos.
Na segunda metade do século XX, essa situação começou a mudar. Alguns pesquisadores passaram a considerar a história da África com base em uma visão mais científica e fundamentada, combatendo os preconceitos e valorizando outros povos para além do europeu.
As principais fontes de estudo para a história da África são antigos relatos escritos (sobre tudo em egípcio, grego, latim e árabe), vestígios arqueológicos e a tradição oral. Ao serem analisadas, essas fontes históricas revelam a grande riqueza cultural dos povos do continente africano. A tradição oral, até recente mente negligenciada, fornece muitas informações sobre a história das sociedades africanas, além de permitir que se saiba mais sobre os valores que fundamentam as culturas nativas da África. Desse modo, a tradição oral revela ao historiador um conhecimento que os africanos transmitiram de geração em geração, ao longo dos séculos, e que, muitas vezes, não se encontra nos relatos escritos.
A formação das comunidades agrícolas
A civilização egípcia se desenvolveu em uma região desértica da África, às margens do Rio Nilo. Segundo estudos arqueológicos, desde cerca de 8000 a.C. essa região já era ocupada por grupos seminômades, que sobreviviam praticando a caça, a pesca e a coleta de frutos e de cereais. Por volta de 5000 a.C., vários desses grupos já haviam se tornado sedentários e aproveitavam a fertilidade propiciada pelo rio para desenvolver a agricultura e a criação de animais.
Esses grupos enfrentavam dificuldades impostas pela natureza, como o clima quente e seco e as cheias do Rio Nilo. Com isso, eles tiveram de criar técnicas apropriadas para a sobrevivência e a permanência no local. Com o passar do tempo, esses grupos for maram comunidades agrícolas independentes entre si, chamadas nomos. Os nomarcas, como ficaram conhecidos os chefes dessas comunidades, disputavam com frequência o domínio das áreas férteis.
Pintura mural que representa egípcios navegando no Rio Nilo. Cerca de 1400 a.C.
A unificação do Egito
Para melhor enfrentar essas disputas entre os nomarcas, os membros das co munidades agrícolas foram se unindo e formaram dois reinos distintos: o Baixo Egito e o Alto Egito. Cerca de 300 anos depois, em 3100 a.C., um governante do Alto Egito, chamado Menés, unificou os dois reinos e tornou-se o primeiro faraó egípcio. Ele assumiu o controle dos nomos, criando, assim, um Estado unificado.
Com essa unificação, as funções que antes eram exercidas pelos chefes dos nomos passaram a ser realizadas pelos funcionários do Estado. Entre essas fun ções, estavam a aplicação das leis, a fiscalização das atividades econômicas — co mo agricultura, criação de animais e comércio — e o controle sobre a construção de obras hidráulicas, por exemplo, canais de irrigação, diques e poços.
Desde que teve origem, com a unificação dos nomos, a figura do faraó esteve relacionada à re ligiosidade egípcia. O faraó, que exercia um governo teocrático, era considerado um rei divino, detentor de grandes poderes.
Ao longo da história do Egito antigo, a autoridade exercida pelo faraó na sociedade sofreu trans formações, porém esteve sempre relacionada a seu suposto caráter divino.
Estátua do faraó Ramsés II, criada por volta de 1250 a.C., no Templo de Luxor, Egito.
A organização social A organização social no Egito antigo caracterizava-se pela concentração do poder político nas elites e pela situação de pobreza da maioria da população.
Faraós e sacerdotes
Mesmo com a autoridade exercida pelo faraó, ocorriam disputas pelo controle político da sociedade. Em diferentes momentos da história do Egito antigo, o poder do faraó foi contestado, principalmente pelos sacerdotes.
Os sacerdotes eram pessoas com grande prestígio na sociedade egípcia antiga. Além de serem responsáveis pela organização e pela condução dos cultos, cuidavam da administração dos templos religiosos. Muitos eram considerados sábios, pois tinham conhecimentos de Astronomia, Geometria e Aritmética.
Nobres, militares e funcionários do Estado
A nobreza era formada pelos parentes do faraó e pelos descendentes dos antigos chefes dos nomos. Essas pessoas geralmente ocupavam altos cargos administrativos. Havia também uma elite militar, que detinha os principais cargos no exército. Os funcionários do Estado desempenhavam diferentes funções, como fiscalizar as plantações e cobrar tributos dos camponeses. Entre os funcionários do Estado, havia os escribas, que sabiam ler, escrever e fazer cálculos e eram muito respeita dos na sociedade egípcia.
Relevo de cerca de 1350 a.C. que representa um casal da nobreza egípcia.
Camponeses, artesãos e pessoas escravizadas
A maioria da população egípcia era composta de camponeses pobres, que vi viam em condições precárias e eram obrigados a pagar tributos ao Estado. Muitos se ocupavam com a criação de animais, a caça, a pesca e o cultivo de produtos agrícolas, como trigo, linho e algodão.
Afresco de cerca de 1350 a.C. que representa egípcios trabalhando na criação de gado bovino.
Existiam muitos trabalhadores especializados, como os artesãos, que faziam roupas, sandálias, pinturas, esculturas, joias, móveis, carros de guerra, barcos, entre outros itens. As pessoas escravizadas, que em sua maioria eram estrangeiras capturadas em guerras, trabalhavam nos campos, nas mi nas no deserto ou na realização de tarefas domésticas. Elas não eram a principal mão de obra na sociedade egípcia.
Afresco de 1500 a.C. representando artesãos trabalhando na produção de ouro e de vasos de cerâmica.
As práticas religiosas no Egito antigo
A principal característica da religião no Egito antigo era o politeísmo, isto é, a cren ça em vários deuses. Para os egípcios, os deuses eram seres poderosos que contro lavam o dia e a noite, a chuva e a seca, a vida e a morte, entre outros aspectos.
Os egípcios acreditavam que essas divindades sentiam vontades semelhantes às dos seres humanos e, por isso, faziam-lhes oferendas de comidas e bebidas. Entre os deuses mais cultuados, estavam Hórus (deus do céu), Ísis (deusa da fertilidade), Osíris (deus dos mortos), Tot (deus da escrita e da sabedoria) e Rá (deus do Sol).
A crença na vida após a morte Os egípcios acreditavam na vida após a morte. Por isso, para eles, era muito importante que seus corpos ficassem preservados depois que morressem. Assim, desenvolveram elaboradas técnicas de mumificação para conservar os corpos.
Vasos canopos, 600 a.C.
Formas de registro: os hieróglifos
Por volta de 3100 a.C., os antigos egípcios criaram um complexo sistema de escrita chamado escrita hieroglífica. Esse sistema utilizava diferentes sinais (hieróglifos) para representar ideias ou os sons da fala. Os hieróglifos representavam geralmente elementos do cotidiano egípcio, como animais, rios, o Sol, a Lua, embarcações, cordas, plantas, pessoas e partes do corpo humano, como a cabeça, os pés e os braços.
Relevo egípcio de cerca de 1500 a.C.
Uma escrita complexa
Um hieróglifo podia representar um som, uma palavra ou uma ideia completa. Outra dificuldade dessa escrita era saber o sentido da leitura do texto, pois ela podia ser de cima para baixo, de baixo para cima, da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Por isso, a escrita hieroglífica é considerada bastante complexa e exige muito estudo para sua compreensão.
Como suporte para a escrita, os escribas costumavam utilizar pequenas tábuas de madeira ou pedaços de calcário e cerâmica. O papiro, por ser um material mais difícil de produzir, era usado apenas por escribas especializados. O equipa mento usado para escrever podia ser uma vareta, uma pena ou um pincel, além de um pequeno recipiente para misturar a tinta.
Os cuxitas
A Núbia, onde se formou o Reino de Cuxe, era uma região localizada ao sul do território egípcio, também às mar gens do Rio Nilo. Essa região, rica em jazidas de ouro, ferro e pedras precio sas, era habitada por diferentes civili zações, entre elas a cuxita, que se esta beleceu no local por volta de 2500 a.C. As riquezas naturais da região atraíam a atenção de povos estrangeiros.
As principais cidades do Reino de Cuxe eram Napata e Méroe. Em Napa ta, os cuxitas se dedicavam principal mente à pecuária e, em Méroe, à agri cultura e ao comércio.
Entre 1530 a.C. e 1070 a.C., a região de Cuxe foi dominada pelo Egito. Nes se período, seus habitantes sofreram forte influência cultural dos egípcios. Os cuxitas passaram a construir tem plos e cidades com características ar quitetônicas egípcias, além de cultua rem deuses semelhantes.
Os faraós negros
Entre cerca de 730 a.C. e 650 a.C., os cuxitas dominaram o território egíp cio. Tebas, nessa época a capital egípcia, esteve sob domínio de reis cuxitas, conhecidos como “faraós ne gros”. Nesse período, também houve um grande intercâmbio cultural entre cuxitas e egípcios.
Estátua do século VII a.C. representando Taraca, faraó negro que reinou em Cuxe e no Egito nesse período.
As candaces
Em Méroe, governavam um rei (faraó) e uma rainha-mãe (candace), que eram escolhidos por um conselho para administrar o Reino de Cuxe. As candaces exerciam um papel preponderante na organização da família e do Estado, na distribuição dos bens da sociedade, na liderança dos cultos, nos acor dos políticos com povos estrangeiros, nas guerras etc.
As pirâmides cuxitas Quando a capital do Reino de Cuxe foi a cidade de Méroe, entre 591 a.C. e 330, os faraós e candaces cuxitas construíram várias pirâmides para lhes servi rem de túmulo.
Pirâmides cuxitas, em Méroe, 2019.
As pirâmides simbolizavam o poder dos faraós e das candaces, que eram considerados seres divinos. Algumas necrópoles podiam reunir dezenas de pirâmides, em que eram sepultados os soberanos e príncipes herdeiros. As pirâmides cuxitas eram menores (6 a 30 metros de altura) que as pirâmides egípcias (podiam chegar a 140 metros de altura). Além disso, essas construções cuxitas eram mais íngremes que as egípcias.
Os materiais utilizados na construção das pirâmides cuxitas eram mais leves, como o arenito e o cascalho, extraídos na região. Os faraós e as candaces que governavam por mais tempo geralmente eram sepultados em pirâmides maiores e com maior quantidade de joias, cerâmicas e alimentos.
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