quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A Núbia e o Reino de Cuxe

Foi no território do atual Sudão onde o antigo povo núbio construiu uma rica civilização. Em cerca de 7000 a.C., os núbios viviam em aldeias nômades, mas o cultivo de cereais contribuiu para a formação de agrupamentos sedentários que deram origem às primeiras cidades núbias.
Os pesquisadores do século XIX e do início do XX tinham uma visão preconceituosa sobre os povos da chamada África subsaariana, como os núbios. As antigas crenças racistas não permitiam aos estudiosos daquela época reconhecer a importância dessa civilização.
Coube aos arqueólogos contemporâneos reconhecer o preconceito e fazer críticas àqueles estudos. Eles descobriram a riqueza da cultura núbia, que, mesmo sendo marcada pela influência egípcia, tinha sua própria história e importância. 
Os povos da região da Núbia se desenvolveram entre as atuais cidades de Assuã, no Egito, e Cartum, no Sudão. Assim como o Egito Antigo, a região da Núbia acompanhava o curso do rio Nilo e as zonas de oásis. O território era rico em recursos naturais, como ouro, cobre, ferro e pedras semipreciosas. Os egípcios chamavam essa região de Cuxe.
A civilização Núbia, assim como a do Egito, formou-se às margens do rio Nilo. Isso aconteceu graças ao trabalho agrícola desenvolvido nas planícies férteis do rio e à construção de sistemas complexos de irrigação.


Soldados núbios representados em pintura na tumba de Thanuny. c. 1420 a.C. Luxor, Egito.

As relações com o Egito marcaram profundamente a história da Núbia. Longos períodos de trocas comerciais pacíficas entre egípcios e núbios foram entremeados por épocas de dominação imperial egípcia. Por volta de 3100 a.C., o Império Egípcio apoderou-se de parte do território núbio e apropriou-se de suas mercadorias e riquezas, como ouro, pedras preciosas e diorito.
No entanto, muitos historiadores africanos têm destacado que a Núbia não foi apenas uma região dominada pelos egípcios, mas, ao contrário, foi o ponto de partida da civilização egípcia. Por volta de 2000 a.C., uma parte das cidades núbias foi unificada em torno do Reino de Cuxe, cuja capital, Napata, tornou-se um importante centro comercial e religioso até sua queda, no século IV d.C.

Pirâmides construídas no deserto do Saara em região do atual Sudão.  O contato intenso com o povo egípcio influenciou a cultura, a religião e as formas de organizar a sociedade dos povos núbios. Além de apresentarem uma arquitetura semelhante à das pirâmides do Egito, as pirâmides núbias tinham o mesmo propósito: servir de moradia eterna para reis e rainhas após a morte.

O Reino de Cuxe


Os núbios (ou cuxitas) praticavam agricultura e comércio e viviam em uma sociedade hierarquizada, governada por uma elite de sacerdotes e guerreiros.
No Reino de Cuxe, o poder era exercido por um rei ou uma rainha que era, ao mesmo tempo, líder militar, administrador e autoridade religiosa.
Mas, diferentemente do Egito, o rei governava com um grupo de conselheiros e chefes políticos importantes.
O Reino de Cuxe, a partir de 1700 a.C., organizava uma sólida rede de comércio que incluía mercadorias valiosas, como ouro, incenso, marfim, ébano e óleos. Também possuía ricas minas de ouro e vastos territórios cultiváveis.
O poderio militar e comercial dos núbios despertou a rivalidade de seus vizinhos egípcios.
Por volta de 1500 a.C., o Império Egípcio, em um contexto de fortalecimento do poder do faraó, invadiu e dominou a cidade de Napata.
Nos séculos seguintes, toda a Núbia tornou-se um vice-reino do Egito. Nas cidades de Napata e Méroe, foram erguidas diversas pirâmides, expressões da forte influência da cultura e das concepções religiosas dos egípcios.

Estátua do faraó egípcio de origem núbia Taharqa do século VII a.C.

KERMA E NAPATA 


As evidências mais antigas de um reino organizado na região da Núbia são poços utilizados para guardar cereais datados de 2700 a.C., descobertos em uma ilha do rio Nilo. No decorrer dos séculos, a região transformou-se no centro de uma florescente rede de comércio que interligava, por rotas fluviais e terrestres, o mar Vermelho, o Egito e o oeste do atual Sudão.
A cidade de Kerma foi o centro dessa sociedade entre, aproximadamente, 2400 a.C. e 1570 a.C. Construída em terras irrigadas e férteis, graças aos canais do rio Nilo, a cidade era protegida por muralhas com até 10 metros de altura e mais de 1 quilômetro de comprimento. Lá viviam reis e altos funcionários ligados à família real, cuja riqueza provinha do comércio e da exploração de minas de ouro. Segundo pesquisadores, por volta de 2200 a.C., quando uma grande seca devastou o Egito e a Mesopotâmia, Kerma atingiu o seu esplendor.
O Reino de Cuxe foi um dos principais produtores de ouro do mundo antigo. As riquezas e o número de habitantes do reino cresceram principalmente em razão do comércio e da exploração do ouro. Sua população chegou a 10 mil pessoas por volta de 1700 a.C., número pequeno para os nossos padrões, mas muito expressivo para aquela época. 
O crescimento do Reino de Cuxe foi interrompido com a invasão egípcia, iniciada por volta de 1570 a.C. Durante aproximada mente 500 anos, as rotas comerciais e as minas de ouro cuxitas ficaram sob o controle dos faraós.
Nessa época, os núbios adotaram muitos conhecimentos e costumes do Egito, como a escrita hieroglífica e as técnicas de artesanato. Eles ainda foram empregados como mão de obra nas construções e no exército do faraó.

Napata, a nova capital cuxita 


Por volta de 1000 a.C. o domínio egípcio em Cuxe teve fim, e um reino cuxita independente foi fundado. A nova capital do Reino de Cuxe foi estabelecida na cidade de Napata. 
A partir de 730 a.C., exércitos núbios avançaram sobre o Egito, e a partir de então dominaram o território por quase cem anos. De 715 a.C. a 663 a.C., os faraós egípcios eram núbios. Em Napata, os governantes ergueram estátuas, pequenas pirâmides e palácios, além de templos dedicados aos deuses. O maior templo, em homenagem ao deus Amon, situava-se na montanha de Djebel Barkal, sagrada para os egípcios e para os núbios. 
O domínio de Cuxe no Egito começou a ruir no século VII a.C., quando os reis cuxitas foram obrigados a retornar às suas fronteiras originais em Napata. No século VI a.C. a capital cuxita deslocou-se para Méroe, mais ao sul.

Ruínas do templo de Amon. Karima, Sudão, 2013. Em torno de Djebel Barkal há ruínas de ao menos 13 templos e três palácios. Foram identificadas por arqueólogos europeus nas primeiras décadas do século XIX. Muitos dos achados foram levados, à época, para museus na Europa, onde estão até hoje.

Os faraós negros


No fim do século VIII a.C., conflitos internos e invasões enfraqueceram o poder do faraó e provocaram a fragmentação do Império Egípcio.
Naquele contexto, os cuxitas se rebelaram, e um grupo deles navegou pelo rio Nilo até Tebas, capital do Egito. Liderado pelo rei Piye, o grupo derrotou os egípcios e os cuxitas assumiram o poder no Império em 770 a.C.
Começou assim uma nova dinastia de faraós negros, originários das elites militares e religiosas da Núbia. Piye foi aclamado “senhor dos dois reinos”, e seus sucessores deram continuidade ao controle núbio por pouco mais de um século.
A capital foi transferida para Méroe, e a nova dinastia reunificou e fortaleceu as bases do Império Egípcio, reorganizando as atividades econômicas e militares.
No entanto, em 657 a.C., os núbios foram derrotados pelo poderoso exército dos assírios, um dos povos que habitavam a Mesopotâmia. Os assírios desbancaram os faraós negros e impuseram uma nova dinastia aos egípcios.

Candaces: as rainhas-mães de Cuxe


As mulheres núbias da elite desempenhavam papéis importantes na corte como sacerdotisas e conselheiras políticas. Também participavam das dinastias que reinavam em Cuxe em igualdade de condições com os homens. Um complexo sistema de sucessão ao trono integrava duas linhagens: uma patriarcal e outra matriarcal. Assim, o novo rei ou rainha ora fazia parte de uma família patriarcal, ora era originário de uma família matriarcal.
Esse sistema deu origem à figura política das candaces (“rainhas-mães”, em idioma meroíta), que assumiam o trono pela própria condição, e não porque fossem esposas ou filhas de um rei. Em geral, as candaces integravam suas funções de sacerdotisas do deus Amon aos poderes políticos e militares, o que as transformava em lideranças de todo o Reino de Cuxe.

Relevo representando a candace Amanitere, que governou na
primeira metade do século I d.C.

O historiador romano Plínio, o Velho (23-79 d.C.), escreveu o seguinte comentário sobre a cidade de Méroe e a presença de uma rainha-mãe: O imperador romano Nero (37-68) enviou uma expedição à Núbia, em busca das fontes do Nilo. No regresso, os exploradores contaram que a relva na vizinhança de Méroe se apresentava mais verde e mais fresca, que ali havia pequenas matas e sinais de rinocerontes e elefantes. […] Contaram também que na cidade eram poucos os edifícios e que uma mulher de nome candace mandava em toda a área, o nome tendo passado de rainha a rainha ao longo de muitos anos. Disseram também que havia na cidade um templo a Júpiter Amon, deus que era objeto de grande veneração, como mostravam os numerosos pequenos santuários em sua honra espalhados por todo o país.


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