Existe uma razão que, passando pelo mercantilismo e pelo liberalismo, norteou a formação do capitalismo no mundo: a razão instrumental, caracterizada pela dominação e exploração da natureza e dos seres humanos. Essa razão, também conhecida como técnico-científica, se fortaleceu com o positivismo e fez das ciências e das técnicas um meio de libertação dos seres humanos, mas instrumento de intimidação, medo e desespero. É o tecnicismo.
Nos anos 70 desenvolveu-se acentuadamente o que se chamou de "tecnicismo educacional", inspirado nas teorias behavioristas da aprendizagem e da abordagem sistêmica do ensino, que definiu uma prática pedagógica altamente controlada e dirigida pelo professor, com atividades mecânicas inseridas numa proposta educacional rígida e passível de ser totalmente programada em detalhes.
Nos primeiros setenta anos do século XX, a grande indústria obteve significativa expansão em muitas partes do mundo, sob a liderança dos Estados Unidos. Durante esse período, o modelo taylorista-fordista norte-americano, baseado no controle extremo do tempo e do movimento das atividades dos trabalhadores, passou a reger a nova pedagogia da fábrica.
O planejamento fabril, elaborado pelos especialistas, deveria ser executado de forma parcial e mecânica pelos operários, em nome da produtividade, da eficiência e da eficácia. Teoria e prática ficavam cindidas e a realização do trabalho na fábrica caía num profundo vazio, diante da supervalorização da técnica e do lucro, em detrimento aos seres humanos.
Essa pedagogia da fábrica, quando transferida para a escola, através do tecnicismo educacional, reproduz os processos de controle de tempo, espaço e movimento, dos envolvidos nas tarefas educativas, de modo a torná-los meros objetos da técnica. A razão, antes tão valorizada pela escola tradicional, é transformada em instrumento de produção, ou seja, em razão instrumental, como tão bem expuseram os intelectuais da Escola de Frankfurt.
Dessa maneira, a tecnologia educacional aparece como o primado da educação. A tecnologia é apresentada como científica e neutra, como deveria, segundo os tecnicistas, ser o ato educativo. Para os tecnicistas, estabelecer objetivos instrucionais, é uma forma de condicionar e controlar o comportamento humano às supostas necessidades sociais. Fundamentado na psicologia de Skinner (1904 - 1990), essa teoria da educação assume caráter totalmente adaptativo e nada crítico, quando ao contexto social.
A didática aplicada na sala de aula trabalha com a aplicação de estímulos que conduzem a respostas pré-estabelecidas de caráter pretensamente objetivo. Diante do acerto ou do erro, o professor, na verdade um tipo de instrutor ou monitor, impõe um reforço positivo ou negativo. Os tecnicistas acreditam que estes tipos de reforços atuam para a formação de habilidades e competências, numa sequência de treinamentos aos quais os alunos devem ser submetidos.
Diante dessa análise, o papel do professor se resume a controlar o comportamento dos educandos, em acordo com a programação planejada pelos técnicos especializados em educação e no contexto de uma hierarquia escolar altamente centralizada.
A instrução programada, seja através de apostilas, de máquinas de ensinar, de programas instrucionais televisados ou manuais escritos, também se impõe sobre o docente, agora refém da técnica e sem autonomia diante de sua própria função pedagógica.
A supervalorização da tecnologia programada de ensino trouxe consequências: a escola se revestiu de uma grande autossuficiência, reconhecida por ela e por toda a comunidade atingida, criando assim a falsa ideia de que aprender não é algo natural do ser humano, mas que depende exclusivamente de especialistas e de técnicas. O que é valorizado nessa perspectiva não é o professor, mas a tecnologia, o professor passa a ser um mero especialista na aplicação de manuais e sua criatividade fica restrita aos limites possíveis e estreitos da técnica utilizada.
A função do aluno é reduzida à um indivíduo que reage aos estímulos de forma a corresponder às respostas esperadas pela escola, para ter êxito e avançar. Seus interesses e seu processo particular não são considerados e a atenção que recebe é para ajustar seu ritmo de aprendizagem ao programa que o professor deve implementar. Essa orientação foi dada para as escolas pelos organismos oficiais durante os anos 60, e até hoje está presente em muitos materiais didáticos com caráter estritamente técnico e instrumental.
A razão técnica, por atingir a essência dos fatos científicos, está acima da política e dos partidos, por isso o tecnicismo se considera “puro” e “neutro” politicamente. Objetiva a eficiência a qualquer custo, mas, sob a fachada da eficiência, pretende perpetuar a sua ação.
Planejar para ter domínio e controle, eis o lema do tecnicismo. A razão instrumental deve ditar o rumo certo do presente, planejando o futuro com a máxima segurança. O planejamento garante o domínio.
O tecnicismo é autoritário e antidemocrático. O que vale é a decisão técnica dos que sabem, isto é, dos tecnocratas. Para o tecnicismo, a voz do povo não é a verdade, por isso a participação popular é desnecessária. Do ponto de vista pedagógico, tanto o movimento das escolas novas como o do tecnicismo apresentaram doutrinas aparentemente favoráveis à democratização do ensino, mas se revelaram inoperantes, pois não era esse o seu objetivo. O discurso era apenas um disfarce.
A atualidade do tecnicismo se traduz, hoje, naquilo que Freitas (1992) denomina de neotecnicismo, já que a crise econômica atual, que se arrasta desde o início dos anos 70, do século passado, marcou o declínio, mas não a extinção do taylorismo-fordismo e a ascensão do toyotismo nipônico. Nesse novo cenário, a pedagogia da fábrica aparentemente se transforma.
Métodos como o da Pedagogia da Qualidade Total e seus congêneres, proliferam no interior das empresas, propagando novos modelos de relações entre os envolvidos nas corporações. A “nova” pedagogia prega a participação, a iniciativa, a criatividade e o trabalho em equipe. A Didática, como sugere Freitas, foi atingida pela interferência da pedagogia neotecnista, hoje tão presente nos cursos profissionalizantes e aligeirados, de modo geral, reservado aos menos favorecidos.
O novo tecnicismo, assim como o antigo, enfatiza o fazer, a aplicação imediata da educação às necessidades do mercado de trabalho. O conhecimento passa a ser tratado como “capital humano”, de Schultz, e, não, como elo entre os seres sociais e sua história.
Como um bem espiritual (intelectual), o conhecimento passou a ser compartimentado ainda mais, em acordo com a divisão social e a negação histórica do saber à maioria da população, alcançou níveis alarmantes. Com isso, compro mete uma formação sólida e aprofunda a indigência teórica.
Em nome do prático, do utilitário, do imediato, do produtivismo, aumentam as distâncias entre o ato pensar e o de fazer e comprometem a formação humana, tão potencialmente capaz diante das condições objetivas atualmente existentes na sociedade.
Já diante dos novos processos produtivos, baseados na tecnologia informática, o homem-máquina do tecnicismo, passa a ser controlado pelas máquinas, como ilustra o filme “Matrix”. Assim, o neotecnicismo é a exacerbação da razão instrumental, quando o instrumento, o programa de computador, por exemplo, controla os seres humanos.
Dessa forma, inverte-se a ordem natural das coisas, ou seja, em vez de a máquina servir o ser humano que a cria, o ser humano serve à máquina e é por ela manipulado. Por outro lado, se estamos na era das máquinas inteligentes, como aponta Saviani (1994), jamais podemos esquecer que a inteligência artificial das máquinas é resultado da inteligência humana que criou computadores e chips. Sendo assim, precisamos, para superar os velhos e novos tecnicismos, recuperar o humanismo emancipador e uma racionalidade crítica e transformadora.
Nenhum comentário:
Postar um comentário