A Pedagogia Liberal surge no século XIX como manifestação do liberalismo e do sistema capitalista. O termo “liberal” configura-se como forma de justificar esse sistema, que defende interesses individuais da sociedade e estabelece a organização baseada na propriedade privada, subdividindo a sociedade em classes.
Essa Pedagogia defende uma escola que prepare o indivíduo para o desempenho de papéis na sociedade, de acordo com as aptidões individuais. Dessa forma, precisa aprender a adaptar-se aos valores e às normas vigentes na sociedade de classes.
Esclarecemos ainda que há uma ênfase no aspecto cultural que esconde a realidade das diferenças de classes, isto é, embora considere a ideia de igualdade de oportunidades, não atenta para a desigualdade de condições dos alunos. Durante muitos anos, a Pedagogia Liberal predominou no Brasil com suas formas conservadora e tradicional.
As Tendências Pedagógicas Liberais que compõem essa Pedagogia são as seguintes: Tradicional, Renovada Progressivista, Renovada Não-Diretiva e Tecnicista. Vamos discutir cada uma delas a seguir.
Pedagogia Liberal Tradicional
Do ponto de vista histórico, surgiu para ensinar os filhos da aristocracia a ler, escrever e contar. Organizada inteiramente dentro da visão fixista e essencialista do mundo e da natureza humana; considera que o homem é dotado de uma essência imutável e que a educação procura apenas moldar-se a ela. Essencialista, vê as coisas como definitivas e imutáveis. Movimento e mudanças não fazem parte do seu quadro de pensamento. Caso ocorram, são meramente acidentais.
Há duas vertentes de escola tradicional:
- Religiosa - vem desde a Idade Média e é influenciada pela teologia católica;
- Leiga - nasceu e cresceu com a burguesia, tendo servido de instrumento para sua consolidação. Foi essa corrente leiga que construiu os sistemas públicos de ensino com base na laicidade, obrigatoriedade e gratuidade, aspectos que permitiram o acesso do povo à escola.
A Pedagogia Tradicional foi a primeira, historicamente, a ser instituída no Brasil. Com ênfase no ensino humanístico, essa Pedagogia tinha metodologia baseada na dimensão da memória, com foco na repetição de exercícios, nas leituras repetitivas e na memorização de fórmulas e conceitos, o que contribui para um ensino mecânico e passivo.
O professor era o centro do processo e o aluno um receptor passivo, que recebia todo o conhecimento como verdades absolutas.
Os conteúdos eram fundamentados em conhecimentos e valores sociais acumulados com o passar dos tempos e repassados aos alunos.
O papel da escola, nesse sentido, era transmitir padrões, normas e modelos dominantes, preparando o aluno, intelectual e moralmente, para assumir um papel imposto pela sociedade.
Podemos perceber que esse modelo de ensino não possibilita a mobilidade social, o que privilegia camadas mais favorecidas, consequentemente, desprivilegiando os mais pobres.
Metodologicamente, o ensino da escola tradicional é autoritário e rígido, pois acredita que, se existe uma essência humana, o ensino pode ser igual para todos, numa ordem lógica e preestabelecida.
Nesse sistema o adulto tem muita autoridade, não só porque sabe mais, mas também porque considera adulto como sinônimo de completo, de indivíduo acabado, e a criança como um ser incompleto e inacabado. Por isso ela deve respeito e obediência ao adulto.
Inadmissível nessa prática é que ela considera os grupos como fixos e inalteráveis. Por isso, já na metade do ano letivo, o professor sabe que alunos serão promovidos e quais serão retidos no final do ano.
Hoje, em virtude do desenvolvimento científico e das rápidas transformações por que passa o mundo, essa visão está superada teoricamente. No entanto a educação, sempre retrógrada e a serviço das ideologias conservadoras, faz com que os professores se mantenham na visão fixista.
Pedagogia Liberal Renovada Progressivista
A Pedagogia Renovada dá continuidade à preparação do aluno para assumir seu papel na sociedade vigente, levando-o a adaptar-se às necessidades do meio social em que vive. Entretanto, o papel da escola passa a ter um novo propósito no que se refere ao processo de ensino. Enquanto na Pedagogia Tradicional a ação pedagógica estava centrada no professor, na Escola Renovada Progressivista defende-se a autoeducação, a ideia de “aprender fazendo”, onde o aluno passa a ser o centro desse processo. Além disso, enquanto antes o ensino era homogêneo, havendo uma metodologia para todos os alunos, agora, consideram-se as fases de desenvolvimento do discente.
Os conteúdos, por sua vez, passam a adequar-se aos interesses, às fases de raciocínio e ao ritmo dos educandos. Nesse sentido, a proposta metodológica é baseada em práticas experimentais, em estudos e em pesquisas do meio social.
Como podemos observar, a aprendizagem é pautada na descoberta, na autoaprendizagem, e o ambiente é o meio estimulador do processo. Nessa concepção, o professor deixa de ser um mero expositor e passa a mediar situações desafiadoras, respeitando as necessidades de cada aluno.
Pedagogia Liberal Renovada Não-Diretiva
A Pedagogia Renovada Não-Diretiva tem seus fundamentos na teoria de Carl Roger. Essa tendência defende o papel da escola na formação de atitudes dos alunos, em que as ações estariam centralizadas no processo de desenvolvimento. Nesse sentido, a escola deve se preocupar mais com problemas de ordem psicológica do que com as questões de natureza essencialmente pedagógicas e sociais.
A aprendizagem deve favorecer uma mudança do próprio aluno, a partir de um esforço constante do educando. O objetivo, então, é proporcionar a adequação pessoal às exigências do meio ambiente. Desse modo, essa tendência advoga que aprender é modificar suas próprias percepções, ou seja, só é possível aprender o que estiver significativamente relacionado às percepções. O ensino, por sua vez, é centrado no aluno. Assim, o professor é apenas um facilitador diante do processo de adaptação ao meio, buscando motivar e articular os alunos na busca de novas informações.
Naturalmente, essa Pedagogia sofre algumas críticas. Primeiro, por considerar o ensino pouco importante, tendo em vista que a transmissão dos conteúdos fica em segundo plano. O enfoque, nesse caso, é o autodesenvolvimento das relações e da comunicação. Segundo, por ser uma Pedagogia não planejada e não politizadora.
Pedagogia Liberal Tecnicista
A Pedagogia Tecnicista surge nos anos 1950, mas só apresenta destaque no final dos anos 1960, quando as elites dão ênfase a outro tipo de educação, uma educação para preparar mão de obra e atender às exigências do mercado de trabalho, exigências tais que a Escola Renovada passa a não cumprir.
Essa tendência foi inspirada nos princípios behavioristas, corrente comportamentalista organizada por Skinner e fundamentou as Leis 5.540/68 e 5.692/71 da educação. O tecnicismo é baseado no ensino sistêmico, cuja prática pedagógica controla as ações dos alunos e dos professores, direcionadas por atividades programadas e repetitivas, pré-estabelecidas em manuais. Segundo Pereira (2007, p. 16), o professor era concebido como um organizador dos componentes do processo de ensino-aprendizagem (objetivos, seleção de conteúdo, estratégia de ensino, avaliação, etc.), que deveriam ser rigorosamente planejados para garantir resultados instrucionais altamente eficazes e eficientes.
Esse modelo de Pedagogia apresenta uma educação fragmentada com foco na produção demandada pela sociedade capitalista e no modelo industrial em ascensão na década de 1960. Nesse sentido, a educação subordina-se à sociedade capitalista, à medida que assume, como principal tarefa, formar mão de obra “qualificada” para atender às exigências do mercado de trabalho.
Essa organização trouxe algumas consequências perversas para as escolas, como a desvalorização dos saberes trazidos pelos alunos e professores (tendo em vista que os manuais deveriam ser seguidos à risca); a compreensão de que aprender se dá por meio de técnicas (não se configurando como um processo inerente ao ser humano); a visão de que o aluno e o professor são meros reprodutores dos manuais e reféns das técnicas preestabelecidas.
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