terça-feira, 29 de setembro de 2026

Migrações dos hebreus

Nos últimos anos, os conflitos entre israelenses e palestinos na região do Oriente Médio, sobretudo na área denominada Faixa de Gaza, são assunto frequente nos noticiários. Há mais de 60 anos esses povos disputam territórios que ambos consideram seus por direito, pelo fato de terem sido ocupados por seus antepassados. 
De acordo com suas tradições religiosas, os israelenses consideram-se descendentes dos hebreus, povo que na Antiguidade viveu em diversas regiões do Oriente. Foi na Palestina que esse povo se sedentarizou e desenvolveu grande parte de sua cultura. A história e a cultura do povo hebraico estão, portanto, ligadas à sua religião, que deu origem ao atual judaísmo.
Na Antiguidade, os hebreus migraram pelo Oriente em busca de melhores condições de vida. Após serem expulsos da Suméria, iniciaram uma jornada rumo à Palestina, que, de acordo com sua tradição, era a terra que Deus lhes havia prometido. Por quase três séculos eles ocuparam essa região, localizada entre as montanhas da Síria, o Deserto da Arábia, o Mar Vermelho e o Mar Mediterrâneo. Como o solo palestino era pouco fértil, os hebreus, após enfrentarem um longo período de seca – aproximadamente em 1700 a.C., migraram para áreas próximas ao delta do Rio Nilo, no Egito.

Os hebreus no Egito 

De acordo com a narrativa religiosa tanto da Torá quanto da Bíblia, os he breus migraram para o Egito porque José, filho do patriarca Jacó, foi vendido como escravo pelos irmãos e levado ao Egito. Lá, acusado injustamente de um crime, foi preso e ficou conhecido por interpretar sonhos dos prisioneiros. Enquanto isso, o faraó Apopi I, intrigado em decifrar um sonho que se repe tia todas as noites, soube da fama de José e ordenou que ele interpretasse seu sonho, em que sete vacas magras devoravam sete vacas gordas e permaneciam magras. Segundo José, o sonho era uma previsão de que o Egito viveria sete anos de abundância seguido por igual período de escassez. O faraó ficou tão satisfeito com a interpretação que mandou construir celei ros onde seriam armazenados alimentos suficientes para que seu povo enfrentasse o período de dificuldades. Além disso, libertou José e o transformou em um de seus homens de confiança. A boa condição em que José passou a viver no Egito teria atraído crescente número de hebreus para lá. No entanto, nem sempre a história dos hebreus narrada nos textos bíblicos tem evidência em fontes arqueológicas e em documentos não religiosos. Estudos internacionais recentes, feitos com base nessas fontes, apontam para uma realidade histórica diversa da apresentada em passagens das escrituras religiosas. 
Inicialmente a convivência entre hebreus e egípcios foi pacífica, mas a si tuação modificou-se a partir de 1580 a.C., quando os hebreus passaram a ser perseguidos e escravizados no Egito. 
A escravização dos hebreus pelos egípcios pode ter se iniciado por dois motivos: 
- pelo fato de os hebreus se aliarem aos hicsos, povo que invadira e dominara o Egito entre 1800 a.C. e 1700 a.C.; 
- para conter o aumento da população hebraica, cujo crescimento preocupava o governo egípcio.
Por volta de 1250 a.C., os hebreus se livraram da opressão, fugindo do Egito. Segundo a narrativa religiosa, eles retornaram à Palestina liderados por Moisés. A peregrinação pelo deserto teria dura do 40 anos, durante os quais o povo hebraico se dividiu em várias tribos. Essa passagem da história hebraica é conhecida como Êxodo.

Juízes e reis dos hebreus

Por volta de 1200 a.C., os hebreus chegaram à Palestina, então ocupada pelos filisteus, o que deu início a aproximadamente dois séculos de lutas pela disputa desse território. 
Cada tribo hebraica era governada por um juiz, que desempenhava as funções de chefe militar e religioso. As tribos produziam o necessário à sobrevivência e praticavam principalmente a agricultura e a criação de animais. 
Em 1030 a.C., temendo a derrota para os filisteus, as tribos hebraicas se uniram sob um governo monárquico, cujo primeiro rei foi Saul. As poucas terras férteis que ocupa vam passaram a pertencer a apenas algumas famílias mais poderosas – assim, a maior par te da população hebraica passou a trabalhar em terras que não eram suas.
Na mesma época, comerciantes e funcionários públicos também compunham a sociedade hebraica, formando suas camadas intermediárias. Sob o governo de Davi, sucessor de Saul, os hebreus derrotaram definitivamente os filisteus, e a cidade de Jerusalém tornou-se a capital do reino. No reinado de Salomão, que sucedeu Davi, o reino hebraico alcançou grande desenvolvimento. 
Nesse período, o comércio teve grande impulso, tornando-se fonte de riqueza para o reino; organizou-se a construção de templos, palácios e fortalezas militares (obras públicas financiadas com o aumento dos impostos); e permitiu-se a escravidão por dívidas, o que dificultou a situação das camadas mais pobres da população.

Cisma hebraico

Ainda de acordo com as fontes religiosas, após a morte do rei Salomão, seu filho e sucessor, Roboão, aumentou a já elevada carga de impostos cobrados do povo. O descontentamento popular com essa si tuação provocou revoltas que, em 926 a.C., levaram à divisão do povo hebreu em dois reinos – o de Israel e o de Judá. Essa passagem da história é chamada de Cisma hebraico. 
Em 722 a.C., cerca de dois séculos após sua for mação, o Reino de Israel foi dominado pelos assírios. Com o tempo, os hebreus do Reino de Israel assimilaram a cultura dos povos com que conviveram, abandonando em parte as tradições e os costumes hebraicos.
Os hebreus do Reino de Judá conseguiram evitar o domínio assírio, mantendo sua independência por meio do pagamento de muitos impostos. A partir de então, os hebreus passaram a ser conhecidos como judeus. Judá, em 586 a.C., foi dominada pelos caldeus, povo que formara o II Império Babilônico, e os ju deus foram levados à cidade da Babilônia, onde fica ram prisioneiros por quase 50 anos. 
Em 539 a.C., os persas derrotaram os caldeus e libertaram os judeus da escravidão na Babilônia, permitindo que retornas sem a suas terras, na época sob domínio do Império Persa. Nem todos quiseram sair da Babilônia, por que já estavam estabelecidos como comerciantes. Depois do domínio persa, o território palestino sofreu ainda invasões dos macedônicos e, poste riormente, dos romanos. Estes últimos tomaram Jerusalém em 63 a.C., incorporando a cidade a seu império. 
Os judeus reagiram ao domínio romano com rebeliões; esforçaram-se para manter suas práticas culturais e, dessa forma, impedir que a dominação se estendesse sobre as tradições e os costumes do povo. Em resposta à resistência dos judeus, no ano 70 d.C. o exército roma no destruiu o principal centro religioso judaico, o Templo de Jerusalém, fato que deu início ao processo de diáspora. A partir de então, os judeus migraram para várias partes do mundo; no entanto, não perderam sua identidade cultural.

A cultura hebraica

O legado cultural dos hebreus é especialmente sociocultural religioso. Dispersas em diversas regiões em diferentes momentos da história, as comunidades judaicas uniram-se em torno de suas tradições religiosas, que influenciaram os modos de vida, costumes e valores de seu povo. Alguns de seus rituais e cerimônias religiosas, inclusive, celebram diferentes passagens da história do povo hebraico.
Os hebreus adotaram o monoteísmo, a crença em um único deus, e anunciaram a vinda de um salvador para o povo. A consolidação do monoteísmo entre eles foi um processo longo e recebeu influência das crenças dos povos com os quais mantinham contatos e trocas culturais; é provável que inicialmente cultuassem várias divindades, das quais destacaram uma. Mais tarde, o judaísmo influenciou outras religiões monoteístas, como o cristianismo e o islamismo, fundadas, respectivamente, nos séculos I e VII d.C.

Fontes para o estudo dos hebreus

São três as principais fontes para o estudo dos hebreus.
Uma das fontes é a Torá, livro sagrado do judaísmo. A Torá é composta dos seguintes livros: Bereshit (Gênesis), Shemot (Êxodo), Vaicrá (Levítico), Bamidbar (Números) e Devarim (Deuteronômio). Esses livros também integram a Bíblia, com o nome de Pentateuco.
Para judeus e cristãos, suas bíblias são sagradas, pois foram escritas sob inspiração divina. Já para os historiadores são fontes históricas, a serem usadas para conhecer povos, paisagens e culturas da Antiguidade.
Outra fonte importante para o conhecimento dos hebreus são os vestígios arqueológicos. Alguns episódios narrados na Bíblia não foram comprovados pela Arqueologia e continuam sendo objeto de interesse e debate.
Outra fonte histórica ainda são os relatos antigos, como os do historiador judeu Flávio Josefo (37-100 d.C.). Esse historiador nascido em Jerusalém teve uma vida atribulada; foi soldado e lutou contra a opressão romana. Escreveu e publicou uma obra vasta, entre as quais Antiguidades Judaicas. Seus livros nos ajudam a conhecer o modo de vida de judeus, romanos e primeiros cristãos.

O CÓDICE MENDOZA

Um dos mais conhecidos conjuntos de desenhos e escritos feitos pelos astecas é o Códice  Mendoza, que descreve passagens importantes da história desse povo, como cenas do cotidiano e a organização do Estado.
Originalmente, as narrativas eram contadas apenas com desenhos. Após a conquista, os espanhóis adicionaram textos às ilustrações.

As imagens dessa página do Códice retratam um pai ensinando o filho a realizar algumas atividades do cotidiano asteca antigo.

Identidades em Jerusalém

Jerusalém é a maior cidade de Israel, um território sagrado para judeus, cristãos e muçulmanos. Suas antigas edificações guardam a memória de diferentes impérios que disputaram a região ao longo de séculos. Hoje, Jerusalém conta com uma população de aproximadamente 944.000 pessoas (dados de 2020). 
Do total de habitantes da cidade, 64% são judeus, 34% são árabes muçulmanos e 2% são formados principalmente de cristãos, muitos deles árabes. Jerusalém está dividida em dois agrupamentos urbanos: a cidade nova, moderna, que cresceu em todas as direções; e a cidade velha, cercada por uma grande muralha. 
No interior dessa muralha estão localizados os monumentos sagrados para judeus, cristãos e muçulmanos: o Muro das Lamentações (sagrado para judeus), a Igreja do Santo Sepulcro (sagrada para cristãos) e o Domo da Rocha (sagrado para muçulmanos).

Pessoas em feira de rua na Cidade Velha de Jerusalém. Fotografia de 2020.


É possível entender a diversidade em Jerusalém observando o cotidiano de seus habitantes. Os membros de algumas seitas judaicas ultraortodoxas, por exemplo, usam chapéus que identificam aqueles que nasceram e vivem em Jerusalém. Na tradição judaica, cobrir a cabeça é um sinal de devoção a Deus. Mas, em geral, os judeus religiosos ou ortodoxos usam o kipá, nome hebraico do pequeno solidéu tradicional. 
As diferentes denominações cristãs em Jerusalém também se distinguem pelo tipo de chapéu. O chapéu cônico preto, utilizado pelos sacerdotes armênios, que são cristãos ortodoxos, remete ao formato do Monte Ararat, na Armênia, que é sua terra natal. 
Por sua vez, as mulheres muçulmanas cobrem a cabeça com os tradicionais hijabs. Em Jerusalém, os lenços tendem a ser coloridos e alegres, com lantejoulas ou bordados. 
Jerusalém é hoje a capital oficial do Estado de Israel. Mas essa condição não é reconhecida pela maior parte da comunidade internacional. Judeus e palestinos reivindicam o direito histórico sobre a cidade e ainda não há uma solução definitiva para o conflito entre eles.


O reino hebreu

Muitos anos após estabelecerem-se novamente em Canaã, no século XI a.C., os hebreus consolidaram um Estado com o poder centralizado em torno de um rei. Sob o governo do rei Davi, que durou de 1000 a.C. a 965 a.C., a cidade de Jerusalém foi transformada na capital do reino. Na nova capital, Davi centralizou o culto ao Deus único Yahweh (Javé ou Jeová), convertendo o monoteísmo hebraico em religião do Estado. 
Em 926 a.C., o norte do reino se rebelou e criou o Reino de Israel, com capital em Samaria. No sul, formou-se o Reino de Judá, que manteve sua capital em Jerusalém. Após a divisão dos dois reinos, os habitantes do Reino de Judá passaram a ser conhecidos como judeus.
Em 722 a.C., os assírios conquistaram o Reino de Israel, deportaram sua população para os territórios assírios e levaram estrangeiros para ocupar as terras conquistadas. 
O Reino de Judá resistiu por mais tempo aos ataques de outros povos. Contudo, no século I a.C., a região passou a ser domínio do Império Romano, e os conflitos entre os governantes romanos e os judeus passaram a ser constantes. 
Em 70 d.C., os romanos impulsionaram uma grande revolta judaica, saquearam e destruíram o Templo de Jerusalém e expulsaram os judeus da região. A maior parte deles espalhou-se então por vários domínios romanos. Esse movimento de dispersão geográfica ficou conhecido como Diáspora (ou a Grande Diáspora).


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