A discussão do pensamento de Vygotsky na área educacional e psicológica
nos remete a uma reflexão sobre as relações entre ele e Piaget. Esse confronto
se dá uma vez que os autores possuem vários pontos divergentes que separam os
seus pensamentos em abordagens ou pontos de vista diferentes.
Ambos autores fazem parte das correntes interacionista (através de
dialética externas de adaptação entre o organismo psicológico do indivíduo e seu
mundo circundante ou contexto) e construtivista (dialéticas internas de
organização entre as partes do organismo psicológico, como explicação da
mudança adaptativa), entretanto Vygotsky enveredou-se pelo marxismo. É
interessante notar que seu pensamento tem como pano de fundo essa teoria. Desse
embasamento, o autor abstrai que o ser humano é criado histórico e socialmente,
e que suas relações com a natureza e com os outros homens no nível da
consciência são lidados de forma espontânea apenas quando ele não tem percepção
da consciência sobre aquilo que está fazendo. Por outro lado, à medida que o
homem toma consciência da consciência que possui, mais e mais ele abstrai sobre
seus atos e sobre o meio. Com isto, seus atos deixam de ser espontâneos (no sentido
biológico do termo) para se tornarem atos sociais e históricos, envolvendo a
psique do indivíduo. Observe que, nesse diverso campo da consciência, existe
como base metodológica e objeto de estudo a intencionalidade da consciência.
Diríamos de certa forma, que para este autor a consciência é o estado
supremo do homem, o que na teoria vygotskiniana é chamado de Tomada de
Consciência. E esses elementos da consciência vão dar origem aos
denominados processos mentais superiores, os quais são diferentes dos processos
mecânicos, por estes serem ações conscientes, controladas ou voluntárias,
envolvendo memorização ativa seguida de pensamento abstrato.
A fala acima está no sentido de contextualizar uma das complexas
relações que necessita ser lembrada ao estudar Vygotsky, mesmo porque esse
autor tem amparo teórico muito grande - os quais vale lembrar Marx. Observe que
isto implica em uma dificuldade para uma simplificação da teoria e o melhor
entendimento do pensamento do autor. Porém nesse texto, tentar-se-á falar
resumidamente sobre os enfoques principais que este autor traçou quanto as
questões de: aprendizagem e desenvolvimento, necessidade da interação nesse
processo, o valor da potencialidade para o processo de aprendizado, bem como o
papel da escola no desenvolvimento cognitivo do indivíduo.
Ainda tomando como base o referencial marxista, tem-se que Vygotsky
interessou-se por enfatizar o papel da interação social ao longo do
desenvolvimento do homem. Isto quer dizer que o homem é herdeiro de toda a
evolução filogenética (espécie) e cultural, e seu desenvolvimento dar-se-á em
função de características do meio social em que vive. Donde surge o termo
sociocultural ou histórico atribuído nesta teoria. E assim assinalam-se
constantemente a busca de explicar os processos mentais superiores baseados na
imersão social do homem que por sua vez é histórico, ontológico e filogenético.
Para o autor, o desenvolvimento cultural da criança aparece segundo a
lei da dupla formação, em que todas as funções aparecem duas vezes: primeiro no
nível social e depois no nível individual; ou seja, primeiro entre as pessoas
(interpsicológica) e depois no interior da criança (intrapsicológica).
Poder-se-ia assim dizer que o desenvolvimento cultural do aluno, assim como,
sua aprendizagem, se dá mediante o processo de relação do aluno com o professor
ou com outros alunos mais competentes.
Em outras palavras, os vygotskianos entendem que os processos
psíquicos, a aprendizagem entre eles, ocorrem por assimilações de ações
exteriores, interiorizações desenvolvidas através da linguagem interna que
permite formar abstrações. Para Vygotsky, a finalidade da aprendizagem é a
assimilação consciente do mundo físico mediante a interiorização gradual de
atos externos e suas transformações em ações mentais.
Nesse processo, a aprendizagem se produz, pelo constante diálogo entre
o exterior e interior do indivíduo, uma vez que para formar ações mentais tem
que partir das trocas com o mundo externo, cuja da interiorização surge a
capacidade da atividades abstratas que a sua vez permite elevar a cabo ações
externas.
O que nos faz pensar que esse processo de aprendizagem se desenvolve do
concreto (segundo as variáveis externas) a abstrata (as ações mentais), com
diferentes formas de manifestações, tanto intelectual, verbal e de diversos
graus de generalizações e assimilações.
Costuma-se destacar que a abordagem de Vygotsky tem explicação das
mudanças de ordem qualitativa. Isto porque o autor preocupou em descrever e
entender o que ocorre ao longo da gênese de certas funções, assim como, no
estudo da linguagem da formação de conceitos, etc. Nessa teoria não se tem
estágios de desenvolvimento explicado detalhadamente sobre o surgimento e
desenvolvimento das funções psíquicas através de acumulação de processos elementares.
Já que nessa abordagem não se questiona o fato de que todos os indivíduos
tenham uma capacidade de aprendizagem que, inicialmente, está condicionada pelo
nível de desenvolvimento alcançado. Mas existe na teoria de Vygotsky, assim
como na de Piaget - os diferentes níveis de funcionamento psicológico, cada
qual com características específicas:
- Pseudo-conceitos: aqui ainda a criança não consegue formular conceitos, mas o pensamento ocorre por cadeia e de natureza factual e concreta. Nesta fase a criança se orienta pela semelhança concreta visual, formando apenas um complexo associativo restrito a um determinado tipo de conexão perceptual.
- Conceitos: formação de conceito
atividade complexa e abstrata, que usa o signo, ou palavra, como meio de
condução das operações mentais.
- Conceitos cotidianos: aprendidos
assistematicamente, estes conceitos dispensam a necessidade da escola para
a sua formulação.
- Conceitos científicos: constituído por um
sistema hierárquico de inter-relação, são os conceitos aprendidos na
escola sistematicamente.
Nessa teoria há uma complexa relação entre o
aprendizado e o desenvolvimento, ao contrário do que se tem em Piaget, onde a
curva do desenvolvimento antecede em grande escala para que ocorra o
aprendizado. Em Vygotsky, as curvas do aprendizado não coincidem com as do
desenvolvimento, sendo que quando a criança aprende algum conceito, por
exemplo: aritmética, o desenvolvimento dessa operação ou conceito apenas
começou. Não há paralelismo entre aprendizagem e o desenvolvimento das funções
psicológicas correspondentes. Tal relação é um processo extremamente complexo,
dialético, não linear se dá aos saltos, mediante o surgimento de caos.
A aprendizagem dos alunos vai sendo assim construída
mediante processo de relação do indivíduo com seu ambiente sociocultural e com
o suporte de outros indivíduos mais experientes. É na zona de
desenvolvimento proximal (ZDP) que a interferência desses outros indivíduos
é mais transformador. O conceito de ZDP é relativamente complexo, ele compreende
a região de potencialidade para o aprendizado. No caso da criança, representa
uma situação cognitiva em que ela só consegue resolver determinada tarefa
psicointelectual com auxílio de alguém mais experiente.
É justamente a comprovação da existência de uma área
de desenvolvimento potencial que o, texto abaixo menciona a postura da escola
nessa área. É aqui que desprende ou desvincula a proposta de uma concepção
distinta da ajuda pedagógica de que surge das teorias de Piaget. Se em Piaget
havia que ter em conta o desenvolvimento como um limite para adequar o tipo de
conteúdo de ensino a um nível evolutivo do aluno, em Vygotsky o que tem que
estabelecer é a sequência que permite o progresso de forma adequada,
impulsionando ao longo de novas adequações, sem esperar a maduração
"mecânica" e evitando que possa pressupor as dificuldades para
prosperar por não delinear um desequilíbrio adequado. É desta concepção que
Vygotsky afirma que a aprendizagem vai em frente do desenvolvimento
Assim, para Vygotsky, as potencialidades do
indivíduo devem ser levadas em conta durante o processo de ensino-aprendizagem.
Isto porque, a partir do contato com pessoa mais experiente e com o quadro
histórico-cultural, as potencialidades do aprendiz são transformadas em
situações em que ativam nele esquemas processuais cognitivos ou
comportamentais. Pode acontecer também de que este convívio produza no
indivíduo novas potencialidades, num processo dialético contínuo.
Assim, para Vygotsky, como a aprendizagem impulsiona
o desenvolvimento, a escola tem um papel essencial na construção do ser
psicológico e racional. A escola deve dirigir o ensino não para etapas
intelectuais já alcançadas, mas sim para estágios de desenvolvimento ainda não
incorporados pelos alunos, funcionando como um incentivador de novas conquistas
psicológicas. Assim, a escola tem ou deveria ter como ponto de partida o
nível de desenvolvimento real da criança (em relação ao conteúdo) e como
ponto de chegada os objetivos da aula que deve ser alcançado, ou seja chegar ao
potencial da criança. Aqui o professor tem o papel explícito de interferir na zona
de desenvolvimento proximal dos alunos, provocando avanços que não
ocorreriam espontaneamente.
Observe que esse nível de desenvolvimento real
que é abordado na teoria refere-se ao que a criança no seu nível atual, real e
efetivo, ou seja, aquilo que a criança consegue fazer sem ajuda de outro.
Enquanto que no nível de desenvolvimento
proximal são as funções que não amadureceram, mas estão em
estado embrionário - diz respeito às potencialidades e aos processos a longo
prazo. Por conseguinte, o que ocorre para Vygotsky é que o aprendizado progride
mais rapidamente do que o desenvolvimento. Por isto, a proposta do termo ZDP em
sua teoria, e que é onde a escola deve atuar. É aí que o professor agente
mediador (por meio da linguagem, material cultural entre outros) intervém e
auxilia para a construção e reelaboração do conhecimento do aluno, para que
haja seu desenvolvimento.
Algumas Reflexões Finais
De forma geral, Piaget e Vygotsky contribuíram para
a elaboração de metodologias inovativas que ultrapassam aquelas existentes na
escola tradicional. É graças as implicações teóricas destes psicólogos que se
pode hoje trabalhar visando ultrapassar a metodologia pedagógica arraigada na repetição
de conceitos. O que tem encorajado inúmeros educadores a inovarem sua prática
pedagógica, no sentido de buscar compreender a realidade de seus alunos tanto
do ponto de vista psicológico, cognitivo, afetivo, como sociocultural. Isto
para que, a partir daí, possam trabalhar rumo a uma educação significativa e
construtiva – a qual possa conduzir o aluno a ser sujeito consciente de sua
autonomia social.
Apesar dos autores serem de complexa interpretação,
percebe-se que à medida que o educador vai tecendo sua prática, ele também vai
refletindo e aplicando essas teorias que são valiosas para resolverem diversos
males que afligem o contexto educacional. Nesse meio, é possível utilizar as
discussões mencionada na concepção interacionista e construtivista dos autores
e colocar-se como condutor dessa interação do aluno com o meio e fazer desse
meio um ambiente de estímulo para que o sujeito desenvolva os seus aspectos
cognitivos.
Mas também é preciso detectar aquilo que os alunos
conseguem fazer sozinhos. Em outras palavras, é preciso examinar a ZDP (Zona de
Desenvolvimento Proximal) destes alunos e partir para uma complexidade maior
intervindo por meio da linguagem numa interação rica de construção do saber.
Por sua vez, tem-se que lembrar que os alunos advém
de meios sócio-culturais diferentes e que são herdeiros de toda evolução
filogenética e cultural a que estão submetidos. Além disto, eles possuem
capacidades cognitivas diferentes de apreensão da realidade. Por conseguinte, a
sala possui uma heterogeneidade ampla em que cada um de seus membros tem sua
história diversificada.
Observe que a questão sobre se o desenvolvimento
ocorre antes do ensino, ou se a criança aprende primeiro para que se
desenvolva, é polêmica no processo ensino-aprendizagem. Porém quando junto dos
alunos é possível observar que estes aprendem determinados conteúdos quando tem
condições intelectuais, ou seja, quando eles possuem maturação cognitiva
necessária a certo ensino. Por outro lado, é possível também observar que o
desenvolvimento de um indivíduo somente se dá após determinado nível de
aprendizado. E assim, aprendizado e desenvolvimento também compõem uma rica
teia dialética nos processos cognitivos e psicológicos do indivíduo.
Daqui retira –se a seguinte indagação: será que a
escola está sendo capaz de desenvolver as habilidades cognitivas de seus
alunos? Perceba o importante papel da escola: em suas atividades deveria estar
presente as instruções fundamentais, bem como as motivações que produzem
aprendizagem.
Ou a escola permanece no nível de desenvolvimento
atual, reproduzindo conhecimento que o aluno já é capaz de adquirir sozinho, ou
torna-se um espaço de interação, aberta ao diálogo. É necessário que haja na
escola espaço para transformação, para desenvolver o potencial dos alunos.
Assim, ela deve estar aberta às diferenças e ao erro, às contradições e à
colaboração mútua.
Assim, a escola almejada possui objetivos
educacionais voltados a desenvolver as funções psicológicas e cognitivas de
seus alunos. É necessário que esta, a partir das potencialidades do aprendiz,
permita o amadurecimento intelectual, com currículo que forneça as condições
necessárias para desenvolver os conceitos científicos.
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