segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A Escrita

Para explicar a nova relação com o tempo instaurada pelo surgimento da escrita, Pierre Lévy faz uma analogia à invenção da agricultura durante a chamada revolução neolítica. Até porque esta nova técnica de comunicação surgiu em diferentes momentos nas grandes sociedades agrícolas da Antiguidade.
Enquanto na caça e na coleta as decisões são simultâneas à ação e apresentam resultados imediatos, a agricultura exige uma organização planejada do tempo, em função, por exemplo, das estações e do período de maturação dos grãos. Do mesmo modo que a atividade agrícola pressupõe um intervalo entre o plantio e a colheita, a escrita estabelece um tempo diferido entre a emissão e a recepção da mensagem.
A escrita também inaugura uma nova modalidade de comunicação à distância e "in absentia". Os interlocutores não precisam estar presentes no mesmo instante e no mesmo local em que o discurso é produzido. Adriano Duarte Rodrigues faz uma referência ao mito de Dédalo, o arquiteto, escultor e inventor grego, para ilustrar essa ruptura entre a enunciação e o enunciado. Dédalo desprendia as pernas de suas estátuas para que elas se libertassem de sua imobilidade e pudessem errar pelo mundo sem a ajuda de seu criador. "Tal como as estátuas de Dédalo, também o discurso escrito se autonomiza em relação ao seu pai e erra por todos os lados, sem o suporte da paternidade maiêutica do seu autor".
O corte espaço-temporal estabelecido pela escrita vai possibilitar o surgimento, mesmo que de forma embrionária, do fenômeno da comunicação de massa, que se intensificará posteriormente com a impressão e o aparecimento dos meios eletrônicos. Um livro pode ser lido por pessoas diferentes em qualquer lugar do mundo. O fato do autor estar distante, e muitas vezes, não conhecer seu leitor (ou seus leitores) cria novas situações comunicacionais.
Nas sociedades orais, o narrador adequava sua fala ao contexto da enunciação e à plateia que o ouvia. Da mesma forma, o mensageiro ajustava o que o remetente lhe mandou dizer de acordo com o estado de humor e a receptividade do destinatário. Ao contrário dessa maleabilidade da transmissão oral, a transmissão escrita é rígida, unilateral e descontextualizada. Na mensagem escrita a intenção do autor torna-se muitas vezes ambígua e incerta, exigindo a interpretação do leitor. Essa tensão semântica teve como conseqüência o aumento da produção de textos, na medida em que uma série de estudos, comentários e debates foram suscitados a partir dos originais.
Esse novo ambiente criado pela escrita propicia a ascensão do saber teórico. Com a autonomização das mensagens em relação as circunstâncias em que são produzidas, os discursos passam a ser construídos com vistas à universalidade. Também podemos observar o que Adriano Duarte Rodrigues chama de secularização dos ritos coletivos. Com o surgimento da escrita, as narrativas míticas perdem sua funcionalidade enquanto elementos de perpetuação das representações de uma cultura. A memória torna-se independente do individuo e da coletividade, já que há um mecanismo de inscrição externa e literal. Todo o saber pode ser estocado e consultado posteriormente sem os riscos de perdas e deformações que caracterizavam a passagem do conhecimento pela tradição.
A escrita é condição necessária, embora não suficiente, para o surgimento do pensamento lógico ou racional. Sabe-se que nas sociedades orais os indivíduos tendem a pensar através de situações concretas relacionadas a sua vida cotidiana. Na cultura alfabética o conhecimento empírico dá lugar a abstração teórica e a experiência passa a ser traduzida na forma de conceitos imutáveis.
O acúmulo gradativo de informações transmissíveis para as gerações seguintes rompe o círculo da oralidade, transformando-o numa linha reta. Surgem então referências fixas: calendários, datas e arquivos. O tempo pode ser agora medido em dias, meses e anos, e a existência da humanidade, dividida em idades, dinastias e eras. A ideia de progressão elimina a sensação de eterno retorno e instaura o curso linear e uniforme da história.




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