Piaget chama de epistemologia a sua teoria do conhecimento
porque está centralizada no conhecimento científico. E também de genética
porque, além de atentar-se no como é possível alcançar o conhecimento - ele
estuda as condições necessárias para que a criança (bebê) chegue na fase adulta
com conhecimentos possíveis a ela. Disto, surge o termo em Piaget epistemologia
genética ou psicogenética.
A teoria psicogenética desperta nos educadores enormes
interesses devido a vários fatores, como:
- descreve as características do pensamento sensório-motor, pré-operatório, concreto e formal;
- apresenta uma análise
sistemática da gênese das noções básicas do pensamento racional (espaço,
tempo, causalidade, movimento, lógica das classes, lógica das relações,
etc.) ;
- aborda como se dá o
desenvolvimento e aprendizagem ;
- explica como se dá
assimilação e acomodação conflito cognitivo.
Em princípio os educadores seguidores
da teoria psicogenética acreditavam que a psicologia e a epistemologia genética
possuíam a chave para solucionar, se não todos, pelo menos alguns dos problemas
educacionais mais importantes. Porém mais adiante os educadores
decepcionaram-se ao verificar que, na prática educacional, os resultados são
surpreendentemente pequenos em relação aos esforços despendidos. Isto talvez
devido a teoria genética ser de difícil compreensão e também pela forma como
essa teoria foi colocada nas escolas, com objetivo de análise dos problemas
relacionados a educação. Mesmo assim, a visão piagetiana vem sendo usada e
discutida nos meios educacionais.
Na teoria piagetiana, o sujeito
(aluno) é um ser ativo que estabelece relação de troca com o meio-objeto
(físico, pessoa, conhecimento) num sistema de relações vivenciadas e
significativas, uma vez que este é resultado de ações do indivíduo sobre o meio
em que vive, adquirindo significação ao ser humano quando o conhecimento é
inserido em uma estrutura – isto é o que denomina assimilação. A
aprendizagem desse sujeito ativo exige sempre uma atividade organizadora na
interação estabelecida entre ele e o conteúdo a ser aprendido, além de estar
vinculado sua aprendizagem ao grau de desenvolvimento já alcançado.
As questões fundamentais abstraídas
pelos educadores, quando estes inteiraram-se com a obra de Piaget, para
elaborarem suas metodologias, diz respeito ao processo ensino-aprendizagem.
Importante aqui destacar as questões do desenvolvimento e aprendizagem. Piaget
defende a idéia que, antes da aprendizagem, é necessário o desenvolvimento das
funções psicológicas. Ou seja, ao preparar determinada aula (conteúdo
específico), o professor deve estar consciente sobre o estágio de
desenvolvimento que o aluno se encontra.
Como já mencionado, pela teoria
piagetiniana, os seres humanos somente conhece a realidade atuando sobre ela,
por isto ele estabelece intercâmbio com o meio mediatizados pelos esquemas
de ação e pelos esquemas de representação. Os esquemas de ação podem
ser compreendidos como os primeiros reflexos (sugar, pegar entre outros), que a
criança tem; além de incluir tudo o que é generalizado numa determinada ação.
Por outro lado, os esquemas de representação só tornam possíveis quando a
criança adquiriu a função semiótica, ou seja, capacidade de distinguir entre
significante e significado - ela passa a representar suas ações, situações e
experiências através destes esquemas.
É através dos esquemas de ações e
representações que as crianças entram em contato com o meio, cada objeto novo
as crianças tentam encaixá-las em seus esquemas. É graças aos esquemas que
podemos interpretar, dar significado ao meio tornando-o possível apreendê-lo.
Num ponto de vista da aprendizagem, conclui-se que a capacidade dos seres
humanos para aprender com experiência depende dos esquemas que utilizam para
interpretá-la e lhe dar significado. Enquanto, para o processo ensino
aprendizagem a capacidade do aluno aprender depende não somente do ensino, mas
também das formas ou estruturas de pensamento que ele predispõe para assimilar
o ensino, ou seja, depende do nível de competência cognitiva do aluno.
Em Piaget, o mecanismo da equilibração
tem um jogo duplo de assimilação e de acomodação e depois, busca permanente de
equilíbrio entre a tendência dos esquemas para assimilar a realidade e a
tendência contrária para se acomodar e modificar-se para atender às suas
resistências e exigências. Este é o motor do desenvolvimento cognitivo humano,
as trocas com o meio e o sujeito resultando estado sucessivo de equilíbrio
mutável, separados por fases mais ou menos duradouras de desequilíbrios e de
busca de um novo equilíbrio.
A teoria psicogenética centrou sua
atenção na psicogênese, no estudo das formas mais primitivas de conhecimento
até as mais complexas. Esta teoria descreve em esquemas de ação interiorizada
ou esquemas representativos por regras de combinações de esquemas ou operações.
De forma bastante detalhada Piaget trata as etapas de evolução desses esquemas
e de forma organizada, desde o nascimento até a idade adulta. Podendo ser
classificada os períodos da inteligência em quatro estágios abaixo descritos:
- Sensório-motor (0 aos 18/24 meses aproximadamente):
nesta fase a criança está explorando o meio físico através de seus esquemas
motores.
- Pré-operatório (2 anos a mais ou
menos 7 anos): a criança é capaz de simbolizar, de evocar objetos
ausentes. Estabelece diferença entre significante e significado, o que possibilita
distância espaço-temporal entre o sujeito e o objeto, por meio da imagem
mental. A criança é capaz de imitar gestos, mesmo com a ausência de
modelos.
- Operatório Concreto (7 a 11 anos): a
criança tem a inteligência operatória concreta, sendo capaz de realizar
uma ação interiorizada, executada em pensamento, reversível, pois admite a
possibilidade de uma inversão e coordenação com outras ações, também
interiorizadas. Necessita de material concreto, para realizar essas
operações, mas já está apta a considerar o ponto de vista do outro, sendo
que está saindo do egocentrismo.
- Formal (entre os 9/10 anos
aos 15/16 anos): o adolescente tem as estruturas intelectuais para
combinar as proporções, as noções probabilísticas, raciocínio hipotético
dedutivo de forma complexa e abstrata.
Assim, as noções da gênese que são
admitidas pela concepção piagetiana quanto aos esquemas que os alunos utilizam
num determinado momento de sua escolaridade, estão em parte determinados ou
condicionados pelo nível de desenvolvimento operatório que alcançaram.
Mas o que determinará se um aluno tem
ou não a possibilidade de levar a cabo um raciocínio complexo e abstrato do
tipo formal, como afirmado em [Coll (1997), p.157],
está estreitamente relacionado com seus esquemas de assimilação e de interpretação da realidade e consequentemente com sua capacidade de aprender e tirar proveito do ensino sistemático a propósito de um conteúdo escolar concreto como, por exemplo, os mecanismos de participação dos cidadãos no funcionamento de um sistema democrático (...).
Para Piaget, o sujeito estabelece ação
de troca com o meio, o qual pressupõe duas dimensões: a assimilação e a acomodação.
Por isso, esse sujeito age ativamente sobre o objeto, de forma que assimila-o,
apropriando-se desse objeto. Com isto, cria em si para este objeto um
significado próprio, na medida que interpreta-o de acordo com a sua
possibilidade e fase cognitiva; faz-se entender que havendo uma acomodação
resulta em reestruturação dos esquemas anteriores, o que entende-se que tem
produzido aprendizagem ou mudanças cognitiva. Ou talvez, o sujeito por não ter
as estruturas cognitivas suficientemente maduras, age no sentido de se
transformar ajustando-se num esforço pessoal às resistências impostas pelo
objeto do conhecimento, agindo sobre suas próprias estruturas alterando-as para
acomodar o objeto experienciado. E assim, estas duas dimensões, assimilação
e acomodação, estão intimamente ligadas, de forma que, sem assimilação
(interpretação ativa), de determinado objeto (conteúdo) não haveria a
acomodação das estruturas psicológicas do aluno. A todo esse processo dá-se o
nome de equilibração, que é o verdadeiro motor do desenvolvimento e do
progresso intelectual. Como afirmado em [Coll (1997), p.155],
A tendência ao equilíbrio nos
intercâmbios funcionais entre o ser humano e o meio no qual vive se encontra no
núcleo da explicação genética do desenvolvimento. O duplo jogo da
assimilação e da acomodação é presidido pela busca permanente de
equilíbrio entre a tendência dos esquemas para assimilar a realidade à qual se
aplicam e a tendência de sinal contrário para se acomodar e modificar-se para
atender às suas resistências e exigências
Nesta teoria conhecer implica mudanças
dos esquemas de interpretação da realidade conhecida. Essas mudanças não é
fruto de uma simples leitura da realidade e nem pura cópia da experiência. Além
dos esquemas de ações e representações e as estruturas do pensamento não se
modificarem no sentido de irem se acomodando simplesmente às exigências
impostas pela assimilação da realidade. Essas resistências estão certamente na
origem da modificação dos esquemas, mas as mudanças se dão mediante o resultado
de um complexo e intrincado processo de modificação e reorganização dos
próprios esquemas. A teoria genética propos no modelo desta dinâmica da mudança
e do progresso intelectual: o modelo da equilibração. À medida que os
seres humanos estabelecem intercâmbio com o meio no qual vive existe uma
tendência ao equilíbrio. Esta equilibração não ocorre simplesmente para
recuperar o equilíbrio perdido, mas sobretudo, numa tendência para recuperar o
equilíbrio num nível superior ao que era permitido pela organização de esquemas
que precedeu a perda do equilíbrio.
É importante destacar que os aspectos
mais revisado por Piaget ao longo de sua vida, diz respeito, a formação final
de níveis sucessíveis de equilíbrio: primeiro entre objetos esquemas; segundo -
entre esquemas; terceiro - a elaboraão de uma hierarquia de esquemas que
permita articular a relação entre eles. Quando algum destes três níveis de
equilíbrio se rompe, provoca desequilíbrio também entre o restante.
O mecanismo de aquisição de
conhecimento consiste em vincular os dois elementos básicos de sua teoria.
(equilíbrio e desequilíbrio). Isto ainda se faz quando conclui que existe uma
relação direta entre desenvolvimento e a aprendizagem. De acordo com os
resultados de experiências piagetiniana coincide que aprendizagem de operações,
fatos, ações, procedimentos práticos ou leis físicas dependem do nível cognitivo
do sujeito, o que significa que o grau de desenvolvimento é determinante e
torna-se inacessível uma nova aquisição a uma pessoa que não esteja capacitada
para ela, por fim a compreensão de problemas somente é possível em momento
evolutivo adequado.
É a partir deste resultado de
experiência que essa teoria teoria vai corroborando a construção do objetivo da
escola, como sendo, o de desenvolver as capacidades dos indivíduos. Há uma
tendência intrínseca de identificar os programas educativos correspondentes as
diferentes idades, com as competências estabelecidas na teoria de Piaget, de
forma que o objetivo é desenvolver corretamente estas competências e construir
as estruturas mentais correspondentes.
Ainda é objetivo dessa escola de
acordo com as contribuições de Piaget a importância concedida as
características do indivíduo que aprende, uma vez que com ela se descentrava
enfoque que se colocava as ciências, os conteúdos, como único elemento digno de
consideração.
Ao contrário do ensino tradicional, em
que o indivíduo é considerado ¨tábua rasa¨ o qual a escola precisa enche-lo de
conteúdos. A visão que Piaget tem sobre o sujeito que possui conceitos - não
científico, ou seja, os chamados conceitos espontâneos que lhe permite
entender a realidade e relacionar-se com ela. À medida em que esta relação vão
sendo estabelecida com a realidade, o indivíduo desenvolve conceitos
espontaneamente durante o processo da própria experiência da criança. Levar
isto em consideração implica a escola ver o aluno com experiências importantes,
como ponto de partida para formação dos conceitos científicos, sendo
possível o desenvolvimento deste último tão somente quando os conceitos
espontâneos da criança tem alcançado um nível determinado, próprio do começo da
idade escolar.
A ideia acima defendida encaminha nos
a outro elemento importante da escola nessa teoria que enfatiza o interesse
pelo desenvolvimento das operações concretas e das operações formais, como
autêntica capacidade do indivíduo progredir. Dessa forma, as teorias pedagógicas
influídas pelo construtivismo genético em consolidação de ditas operações faz
uso de trabalho sistemático de procedimentos adequados.
Os processos de instruções que as
crianças recebem na escola ampliam suas estruturas de pensamento em forma de pensamento
mais elevados próprios da formação de conceitos científicos.
Biliografia Complementar
- Coll, César. Piaget,
o construtivismo e a educação escolar: onde está o fio condutor? In: Substratum: Temas
Fundamentais em Psicologia e Educação, v.1, n.1 (Cem Anos com Piaget).
Porto Alegre, Artes Médicas, 1997. p.145-164.
Bassedas, E. Aprender e ensinar na
educação infantil. Trad. Cristina M. Oliveira. Porto Alegre: Artes Médicas,
1999.
- : Lê, 1998.
- Galvão, Izabel. Henry
Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento humano. 4a ed. Petrópolis:
Vozes, 1998.
- Wadsworth, B. Inteligência
e afetividade da criança na teoria de Piaget. 2a ed Coll, C et al. O construtivismo na sala de
aula. 3o ed. São Paulo: Ática, 1997.
Coutinho, M.T.C & Moreira, M. Psicologia da Educação 6o ed. Belo
Horizonte. São Paulo: Pioneira, 1993.
Nenhum comentário:
Postar um comentário