domingo, 27 de setembro de 2026

As Grandes Correntes Historiográficas


por Pedro Silva

De uma forma geral costuma dividir-se a evolução do "Processus" histórico em 3 fases distintas: a fase Pré-científica que engloba as historiografias Grega, Romana, Cristã-medieval e Renascentista, a fase de transição, em que se destacam a historiografia Racionalista ou Iluminista e a historiografia Liberal e Romântica e, finalmente, a fase científica em que temos o Positivismo, o Historicismo, o Materialismo Histórico, no século XIX, e a escola dos "ANNALES" e a História Nova, em pleno século XX.
Como já vimos considera-se que o "Processus" histórico se inicia com os Gregos e de facto é com Heródoto de Halicarnasso que em pleno século V A.C. , se faz pela primeira vez uma tentativa de investigação do passado, eliminando tanto quanto possível, o aspecto mitológico. A história começa a abandonar o estudo das "coisas divinas" e começa a preocupar-se com as "coisas humanas". Heródoto procurou além disso estabelecer uma causalidade entre os factos históricos e os motivos que os determinam, fator de extrema importância se considerarmos que esta forma de atuação, esta perspectiva, não é inata ao pensamento grego. Como afirma Barraclough, esta é uma invenção de Heródoto. Além de Heródoto, a historiografia grega contou com outros personagens importantes de que se destacam Tucídides e Políbio. Se Tucídides é importante pelo rigor que coloca na seleção dos testemunhos e pela imparcialidade que pretende introduzir na narrativa, com Políbio faz-se a transição da tradição historiográfica para os Romanos, destacando-se especialmente de entre estes, Tito Lívio e Tácito. No entanto faltou brilho à historiografia romana e em termos concretos pouco se evoluiu relativamente aos helénicos. Se com Tito Lívio e a sua história de Roma ainda se vislumbra a introdução de algum método na investigação dos factos, com Tácito e a sua perspectiva pedagógica, encontramos um relato eivado de parcialidade e preconceitos. Numa análise geral, podemos afirmar que a historiografia Greco-Romana se caracteriza por um sentido pragmático, didático e principalmente com os Romanos, pelo surgimento de um espírito de exaltação nacional. A História que com Heródoto e Tucídides apresentava um cariz regionalista, passa com os seus seguidores a assumir uma perspectiva universal.
Com o advento da Idade Média a historiografia sofre um retrocesso e passa a apresentar relações teológicas que lhe imprimem um carácter providencialista, apocalíptico e pessimista. Deus passa a estar no centro das preocupações humanas. É o Teocentrismo. A preocupação do historiador passa a ser a justificação da vinda do filho de Deus ao Mundo, e depois desse evento, analisar as suas repercussões.
A chegada do Renascimento introduz grandes alterações na historiografia, tornando-se de novo o Homem o objeto de estudo, Assiste-se a um ressurgimento da herança cultural da Antiguidade Clássica, acompanhado de um desenvolvimento muito sensível das ciências auxiliares da História, como, por exemplo, a Epigrafia, a Arqueologia, a Numismática, etc. É o tempo do Antropocentrismo.
O período que antecede e acompanha a Revolução Francesa vai ser caracterizado por grandes filósofos, tais como Voltaire, Montesquieu e Jean Jacques Rosseau, que irão lançar as bases filosóficas de um novo Mundo. Como é óbvio, isto irá reflectir-se no estudo da História e dá-se uma nova orientação do sentido de estudo, atribuindo-se mais importância ao estudo das sociedades do que propriamente das grandes personalidades.
A historiografia Liberal e Romântica que surgiria na sequência do movimento liberal que "invadiu" a Europa em pleno século XIX, irá debruçar-se sobre o Homem, as sociedades e os municípios. É uma História eminentemente regionalista, com grande simpatia pela Idade Média (advento das nacionalidades) e que introduz subjetividade na narrativa. É um período de grande divulgação cultural, há um alargamento de público e os historiadores são, nalguns casos, jornalistas como Thierry e Guizot.
Com Auguste Comte são lançadas as bases do Positivismo que, como diz Colingwood, é a aplicação da filosofia às ciências da Natureza. Institui-se um método que ainda hoje é, na sua essência, utilizado e a fim de contrariar a subjetividade romântica, o papel do historiador passa a traduzir-se na pesquisa dos factos (pesquisa particularmente cuidada) e na sua subsequente organização, fazendo a sua exposição através de uma narrativa tão impessoal quanto possível.
Porque o rigor do Positivismo não seria, segundo alguns historiadores, integralmente aplicável às ciências humanas, assiste-se ao surgimento de um movimento denominado Historicista que passa a dedicar grande atenção à subjetividade e interpretação, embora aproveitando muito do método positivo. A História, que segundo os positivistas não deveria ser interpretada mas redescoberta, passa a constituir um processo pleno de subjetividade. É Ranke, que de alguma forma indica a evolução que se vai seguir, ao dar grande importância ao aspecto económico na evolução das sociedades. No entanto, tal tendência só vira a concretizar-se com o aparecimento do Materialismo Histórico de Marx e Engels. Estes dois autores defendem que a História constitui, no seu essencial, uma "descrição" da luta de classes que sempre tem oposto explorados e exploradores. A economia passa a constituir um aspecto de capital importância na evolução das sociedades, nomeadamente no que toca à posse dos meios de produção. Marx divide a História em cinco grandes capítulos e introduz a noção de descontinuidade do processo histórico. O Homem passa a ter um papel mais modesto, passando o estudo das massas a ser mais atento. Há um aproveitamento da filosofia Hegeliana (Tese-Antítese-Síntese), defendendo Marx que a realidade não é a concretização do espírito do Homem, como afirmava Hegel, mas sim o "motor" que condiciona o espírito humano. Segundo Barraclough, o contributo do marxismo é fundamental pela nova orientação que é conferida ao processo histórico, orientação que irá culminar com a escola dos "Annales" e a História Nova.

Entre memória e história


Considerando que o objetivo do próximo item desta dissertação é identificar como a escola opera com a memória social, acreditamos ser necessário procurar compreender as relações entre os conceitos de memória e de história, ainda que sejam tênues os seus limites e múltiplas as suas interfaces. Isso se faz necessário porque, no contexto da escolarização, como veremos, a relação com a memória tem no trabalho da disciplina de História um dos seus possíveis espaços de elaboração. E é justamente na opção de qual história se pretende impor a todos e nas histórias e memórias que essa imposição pretende ocultar que esta relação se dá. Mesmo que a disciplina de História não tenha a exclusividade sobre essa relação, ainda assim ela explicita a atitude da instituição em relação à memória.
A relação entre memória e história é problemática e tem sido foco do trabalho teórico de vários historiadores, psicólogos e cientistas sociais. Para nós, explicitar como compreendemos essa relação é fundamental na medida em que construímos nosso trabalho sobre o tênue limite entre esses conceitos.
Numa visão tradicional, a relação entre história e memória é relativamente simples, cabendo ao historiador um papel de 'lembrador', guardião da memória dos acontecimentos públicos a serem preservados para a posteridade por meio do registro escrito. Como afirmou Cícero, a "história é a vida da memória" (vitae memoriae). Cabe, pois, ao historiador salvaguardar da enxurrada do esquecimento, que tudo leva, os grandes feitos e seus protagonistas.
Essa visão simplista deu lugar a uma visão de oposição. Uma oposição acirrada que colocou a História como conhecimento objetivo, científico e definitivo sobre o passado por ser ela fruto da construção de um discurso baseado nas evidências proporcionadas pela análise criteriosa de documentos.
Porém essa visão não considera questões absolutamente relevantes no que diz respeito a quem, o que e por que algo é lembrado e merece ser registrado. A crítica a essa visão evidencia a complexidade da questão.
"Tanto a história quanto a memória passaram a ser encaradas de forma cada vez mais problemática. Lembrar o passado e escrever sobre ele já não podem ser consideradas atividades inocentes. Nem as recordações nem as histórias nos parecem objetivas. (...) Nos dois casos, esta seleção, interpretação e distorção são fenômenos socialmente condicionados. Não se trata do trabalho de indivíduos isolados. (...) Halbwachs estabeleceu uma nítida distinção entre memória coletiva, que é uma construção social, e a história escrita, que considerou - de um forma positivista e algo antiquada - objetiva. No entanto, a forma como os estudos sobre a história da escrita histórica a tratam é muito semelhante à maneira como Halbwachs tratou a memória, como um produto de grupos sociais (...)".
Vale lembrar que a produção e a preservação dos documentos também obedecem a esse princípio de embate social. São fruto das mesmas forças.
Ao contrário das visões tradicionais, formulações como as de Burke levam a compreender a memória como um conjunto de representações do passado, desde a história erudita até a tradição oral, colocando-a como objeto de estudo e de interesse para os historiadores. E ainda as construções teóricas dos historiadores, também como produto do jogo social nos contextos em que atuam.
Nessa perspectiva, não só outros indicadores da memória passam a ser valorizados, como os registros orais de grupos minoritários, excluídos e/ou ágrafos, outros tipos de documentos e vestígios passaram a ser objeto de trabalho a partir dos quais pôde-se compreender as relações sociais no tempo. Também outros temas passam a ser objeto de estudo dos historiadores. As mentalidades, os elementos do cotidiano integram os focos de trabalho, dando origem a um movimento a que se denominou Nova História.
Embora melhor compreendidas, ambas como produtos das relações e dos embates sociais, portanto relativas ao tempo, ao contexto e aos objetivos de seus atores, interessa-nos fugir da oposição simplista e assumirmos, na prática, o desafio de trabalhar com memória e com história.
Haveria duas maneiras básicas de encarar essa relação. A primeira, dialética, opõe memória e história considerando uma, a memória, a tese e a outra a antítese. A segunda compreende ambas como elementos semelhantes numa relação de reciprocidade, cuja tentativa de separação é justamente a origem de todos os equívocos.
Marquemos essas visões a partir do texto já clássico de Pierre Nora.
"A memória é a vida que os grupos levam, em evolução permanente, aberta à dialética do lembrar e do esquecer, inconsciente de suas sucessivas deformações, vulnerável a todas as utilizações e manipulações, suscetível a latências e revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que já se foi. 
A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história uma representação do passado. Por ser afetiva e mágica, se acomoda sobre detalhes que a confortam, se nutre de lembranças imprecisas, gerais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, é sensível às transferências, aos quadros, à censura ou às projeções.
A história como operação intelectual e desmistificadora, é análise e discurso crítico. (...) Há, como disse Halbwachs, tantas memórias quanto grupos porém a história pertence a todos e a ninguém o que lhe confere uma vocação universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem e no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações entre as coisas. A memória é o absoluto e a história só conhece o relativo. No coração da história trabalha o criticismo destrutivo da memória espontânea. A memória é sempre suspeita para a história cuja missão é exatamente destruí-la e rechaçá-la. A história é deslegitimação do passado vivido."
Nessa segunda visão, que rechaça a dicotomia ao considerar uma relação tão íntima, indivisível entre história e memória, encontramos sobretudo aqueles que se voltam para a compreensão da história contemporânea, da história do tempo presente. Varrida delas, a memória e a história, qualquer traço do positivismo que tende ao científico e ao universal, vive-se "o retorno vigoroso da história e da memória, uma busca ansiosa de identidade, a crise dos paradigmas das ciências sociais, enfim, um presente cheio de incertezas em relação a si mesmo e ao futuro". E é justamente na tentativa de compreensão de elementos do contemporâneo que se evidencia uma íntima relação entre a memória e a história. Elas se alimentam e se articulam na tentativa, sempre parcial, de compreensão do vivido. Nesse processo, o historiador e o seu objeto são contemporâneos e, portanto, estão submetidos aos mesmos contextos e referências.
Entre as visões que aqui se colocam, parece-nos vital compreender os conceitos apontados por Nora, chamando atenção sobretudo para as diferenças relativas às funções que memória e história desempenham para o indivíduo e para a sociedade e seus processos de construção, assim como reconhecer a relação visceral entre elas na contemporaneidade.
Entre as visões que aqui se colocam, nos parece fundamental reconhecer as diferenças apontadas por Nora, lembrando diferenças fundamentais como as funções que uma e outra desempenham para o indivíduo e para a sociedade e seus processos de construção, assim como reconhecer a relação visceral entre elas na contemporaneidade.
Para o contexto da Educação, é fundamental reconhecer algumas dessas diferenças, garantir o espaço de dizer e a valorização da memória individual e coletiva e, a partir disso, contribuir para a compreensão do processo de construção da história que considere e valorize o papel da memória e de seus relatos, não em oposição, mas em articulação com a história. 
Entendemos que memória e história têm origens e funções sociais diversas, mas que, na sua intersecção, ou no território em que os limites são os mais tênues, é que se pode garantir às comunidades escolares a inscrição de sua memória coletiva num contexto maior, para além de seus limites espaciais e temporais, de maneira a se constituir como história. Valorizada, socializada e em diálogo com outras histórias ou com a História (para os que crêem numa universalidade possível para este campo do saber).


Nova história cultural e micro-história

Mozart Lacerda Filho

A produção historiográfica produzida no Brasil, principalmente nos últimos anos, passou por mudanças mui significativas. A constante adaptação de textos de história para a televisão, o lançamento de livros com temas nunca antes imaginados (como é o caso da obra de Jean-Luc Hennig, Breve História das Nádegas, publicado pela portuguesa Terramar), exemplificam essas mudanças.
Discutiremos uma nova forma de se abordar os eventos históricos chamada Nova História Cultural. A escolha se justifica, uma vez que, dos novos modelos historiográficos, é, justamente, a Nova História Cultural, que mais consegue trazer novos ares ao trabalho do historiador.
Para justificar essa afirmação, basta observamos o esgotamento das explicações oferecidas por modelos teóricos globalizantes, com tendências à totalidade, nos quais o historiador era refém da busca da verdade. Essas explicações globais, por sua incapacidade de interpretar novos agentes históricos, passaram, portanto, a ser questionados. Outro dado que justifica nossa investigação, nos é dado por Sandra Jatahy Pesavento (2002, p. 7/8), Segundo ela, a Nova História Cultural corresponde hoje, a cerca de 80% da produção historiográfica nacional, expressa não só nas publicações especializadas, sob forma de livros e artigos, como nas apresentações de trabalhos, em congressos e simpósios ou ainda nas dissertações e teses, defendidas e em andamento, nas universidades brasileiras.
Entremente, não ficaremos apenas na Nova História Cultural. Abordaremos também, alguns aspectos da Micro-história, uma vez que esta é um desdobramento teórico intimamente ligado ao surgimento da Nova História Cultural.
O arcabouço intelectual que vai dar origem à Nova História Cultural está intimamente ligado ao surgimento, no final da década de 1920, na França, de uma nova forma de se pensar as questões historiográficas, identificada como História das Mentalidades.
Essa nova forma de se interpretar os fatos históricos, buscava fugir da história historicizante: uma história que se furtava ao diálogo com as demais Ciências Humanas, a antropologia, a psicologia, a lingüística, a geografia, a economia, e, sobretudo, a sociologia.
No lugar desse tipo de manejo dos fatos históricos, era preciso adotar, segundo Vainfas (2002, p. 17):
uma história problematizadora do social, preocupada com as massas anônimas, seus modos de viver, sentir e pensar. Uma história com estruturas em movimento, com grande ênfase no mundo das condições de vida material, embora sem qualquer reconhecimento da determinância do econômico na totalidade social, à diferença da concepção marxista da história. Uma história não preocupada com a apologia de príncipes ou generais em feitos singulares, senão com a sociedade global, e com a reconstrução dos fatos em série passíveis de compreensão e explicação.
Entretanto, muitas críticas vão se insurgir contra os defensores da História das Mentalidades. A mais comum e corrosiva dessas críticas é de que a História das Mentalidades torna multi-fragmentado o seu objeto de estudo. Isto é, "a chamada História das Mentalidades abriu-se de tal modo a outros saberes e questionamentos que, no limite, pôs em risco a própria legitimidade da disciplina", conforme assegura Vainfas (Idem, p. 55/56).
Acuada por críticas de diversas formas, a História das Mentalidades refugia-se na chamada Nova História Cultural. Se utilizamos a expressão Nova História Cultural é para separá-la daquilo que convencionou-se chamar de Velha História Cultural. Segundo Pesavento (2004, p. 14/15), na Nova História Cultural.
Foram deixadas de lado concepções de viés marxista, que entendiam a cultura como integrante da superestrutura, como mero refluxo da infraestrutura, ou mesmo da cultura como manifestação superior do espírito humano e, portanto, como domínio das elites. Também foram deixadas para trás concepções que opunham a cultura erudita à cultura popular, esta ingenuamente concebida como reduto do autêntico. Longe vão também as assertivas herdeiras de uma concepção da belle époque, que entendia a literatura e, por extensão, a cultura, como o sorriso da sociedade, como produção para o deleite e a pura fruição do espírito.
A Nova História Cultural, portanto, está trazendo uma nova forma da história tratar a cultura. Ainda segundo Pesavento (Idem, p. 15):
Não mais como uma mera história do pensamento, onde estudava-se os grandes nomes de uma dada corrente ou escola. Mas, enxergar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo.
A Nova História Cultural, por tudo que foi acima mencionado, vai fazer ressalvas (sem no entanto negá-lo) ao conceito de mentalidades por classificá-lo ambíguo e excessivamente vago. No entanto, a Nova História Cultural não nega a aproximação com as outras Ciências Humanas, admite o conceito de longa duração e aceita os temas do cotidiano. Conforme assegura Vainfas (2002, p. 56):
Os historiadores da cultura (...), não chegam propriamente a negar a relevância dos estudos sobre o mental. Não recusam, pelo contrário, a aproximação com a antropologia e demais ciências humanas, admitem a longa duração e não rejeitam os temas das mentalidades e do cotidiano.
Além disso, a Nova História Cultural quer também se aproximar das massas anônimas. Podemos, portanto, afirmar que a Nova História Cultural revela uma especial afeição pelo informal, por análises historiográficas que apresentem caminhos alternativos para a investigação histórica, indo onde as abordagens tradicionais não foram.
E foi neste mar de possibilidades novas que vários historiadores passaram a navegar. Um dos mais importantes e que, primeiramente, merece destaque é o italiano Carlo Ginzburg, que em 1976 lança uma obra ímpar da Nova História Cultural (e por que não dizer, da Micro-História também), intitulada "O queijo e os vermes". Nela, o autor discorre sobre um moleiro condenado como herege pela Inquisição Papal no século XVI. Podemos considerar essa obra uma obra-síntese, uma vez que foi nela que Ginzburg abandonou o conceito de mentalidades (as razões, já discutimos acima) e adotou o de cultura, definindo-a como "o conjunto de atitudes, crenças, códigos de comportamento próprios das classes subalternas em um certo período histórico" (GINZBURG, 1986, p. 16).
Decorre desta definição ser possível, agora, recuperar o conflito de classes em uma dimensão sociocultural, deixando-se entrever no campo das discussões teóricas aquilo que o historiador italiano chamou de circularidade cultural, conceito que se opõe ao velho paradigma cultura popular X cultura erudita.
Outro pensador da Nova História Cultural que nos chama atenção é Roger Chartier. Este, pertencente a uma geração contemporânea do declínio das mentalidades na França. Chartier concorda com as discussões lançadas por Ginsburg por também rejeitar a visão dicotômica cultura popular X cultura erudita em favor de uma visão, digamos, mais abrangente, que, no limite, valoriza o dimensionamento da cultura em termos de classes sociais. Para tanto, ele propõe um conceito de cultura como prática, e sugere para seu estudo as categorias de representação e apropriação.
Representação analisada como algo que permite ver uma coisa ausente e que, segundo Chartier seria mais abrangente que o conceito de mentalidades, uma vez que o ausente em-si não pode mais ser visitado. Segundo Pesavento (2004, p. 40):
Representar é, pois, fundamentalmente, estar no lugar de, é presentificação de um ausente; é um apresentar de novo, que dá a ver uma ausência. A idéia central é, pois, a da substituição, que recoloca uma ausência e torna sensível uma presença.
Se o objetivo central do conceito de representação é trazer para o presente o ausente vivido e, dessa forma, poder interpretá-lo, o de apropriação, segundo Chartier (1990, p. 26), é "construir uma história social das interpretações, remetidas para suas determinações fundamentais" que são o social, o institucional e, sobretudo, o cultural.
Como o objetivo desse artigo não é, claro, o de fechar questão em torno de nada, gostaríamos de salientar que, tanto na sua vertente italiana quanto na sua vertente francesa, a proposta da Nova História Cultural seria o de decodificar a realidade do já vivido por meio das suas representações, desejando chegar àquelas formas pelas quais a humanidade expressou-se a si mesmo e o mundo.
Para o historiador da cultura, isso é muito importante ressaltar, o passado só chega aos dias atuais por meio das representações. Afirmando com Pesavento (2004, p. 42):
"a rigor, o historiador [da cultura] lida com uma temporalidade escoada, com o não-visto, o não-vivido, que só se torna possível acessar através de registros e sinais do passado que chegam até ele".
Neste ponto de nossa discussão, uma nova possibilidade de investigação histórica surge como fazendo parte do elenco de mudanças epistemológicas que acompanharam a emergência da Nova História Cultural. Estamos nos referindo ao aparecimento da Micro-História. É nela, pois, que muitos historiadores da Nova História Cultural, sentiram-se bastante a vontade para realizar suas pesquisas (como é o caso do próprio Ginzburg, anteriormente citado).
Vejamos alguns aspectos de seu nascedouro. Segundo Vainfas (2002, p. 68):
o surgimento da Micro-História tem a ver com o debate intelectual e historiográfico das décadas de 1970 e 1980. Tem a ver, também, com a questão da crise do paradigma marxista e de outros modelos de história totalizante e com a solução das mentalidades, que cedo se mostrou inconsistente no plano estritamente teórico-metodológico.
Dessa forma, as finalidades da Micro-História movem-se no campo das críticas à história das mentalidades (vejam a coincidência com a Nova História Cultural), não deixando-se confundir com elas. Mas a pergunta mais importante que devemos fazer é: onde a Micro-História contribui com a Nova História Cultural?
Do ponto de vista metodológico, a Micro-História avança nas pesquisas historiográficas por romper com a prática calcada na retórica e na estética. O trabalho da micro-história tem se centralizado na busca de uma descrição mais realista do comportamento humano, empregando um modelo de ação que possa dar voz a personagens que, de outra maneira, ficariam no esquecimento. Segundo Levi (1992, p. 136), a micro-história possui, portanto, um papel muito específico dentro da chamada Nova História Cultural: "refutar o relativismo, o irracionalismo e a redução do trabalho do historiador a uma atividade puramente retórica que interprete os textos e não os próprios acontecimentos."
Outro historiador que nos alerta para a importância da Micro-História é Luís Reznick (2002, p. 3), para quem:
O espaço local, alçado em categoria central de análise, constitui uma nova possibilidade de estudo no quadro das interdependências entre agentes e fatores determinantes de experiências históricas eleitas pela lupa do historiador. Nessa nova concepção, cada aparente detalhe, insignificante para um olhar apressado ou na busca exclusiva dos grandes contornos, adquire valor e significado na rede de relações plurais de seus múltiplos elementos constitutivos.
Dessa forma, o historiador de orientação micro-histórica, amparado pelos conceitos da Nova História Cultural discutidos anteriormente, pode "enxergar" acontecimentos, fatos que a historiografia tradicional não "enxerga" e trazer à tona dados que estavam adormecidos. Portanto, sua análise é mais criteriosa, justa e democrática. Ainda segundo o pensamento de Reznick (2002, p. 3):
Ao eleger o local como circunscrição de análise, como escala própria de observação, não abandonamos as margens (...), as normas, que, regra geral, ultrapassam o espaço local ou circunscrições reduzidas. A escrita da história local costura ambientes intelectuais, ações políticas, processos econômicos que envolvem comunidades regionais, nacionais e globais. Sendo assim, o exercício historiográfico incide na descrição dos mecanismos de apropriação — adaptação, resposta e criação — às normas que ultrapassam as comunidades locais.
Dessa forma, é possível afirmar, conforme Levi (1992, p. 139), que "o princípio unificador de toda pesquisa micro-histórica é a crença em que a observação microscópica revelará fatores previamente não observados", o que não aconteceria numa abordagem tradicional. A descrição micro-histórica serve para registrar uma série de acontecimentos ou fatos significativos que, de outra forma, seriam imperceptíveis e que, no entanto, podem ser interpretados por sua inserção num contexto mais amplo, ou seja, na trama do discurso cultural.

Referências bibliográficas

CHARTIER, Roger. Introdução. In: A história cultural. Lisboa, Difel, 1990.

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes. São Paulo, SP: Cia. das Letras, 1986.

LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In BURKE, Peter. A escrita da história. São Paulo, SP. Unesp, 1992.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e história cultural. Belo Horizonte, MG: Autêntica, 2004.

REZNIK, Luís. Qual o lugar da história local?. Artigo publicado em www.historialocal.com.br, acessado em 25.08.2004.

VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história. São Paulo, SP: Campus, 2002.


História oral, uma outra história


Os oralistas, atualmente, tem pensado a história de outras maneiras; pensar o passado a partir do presente, na busca de um entendimento do nosso tempo, dando atenção para a “outra história”. Como fenômeno renovado, a partir do uso de entrevistas, a história oral tem resgatado do silêncio, a história de determinados seguimentos da sociedade que se fizeram calar ou por qualquer outro motivo que os levaram ao esquecimento.
Apesar de muitas vezes colocado em segundo plano, o testemunho oral representa o núcleo da investigação, nunca sua parte acessória, o que obriga o historiador a levar em conta perspectivas nem sempre presentes em outros trabalhos históricos, como por exemplo, as relações entre escrita e oralidade, memória e história ou tradição oral e história.
Além disso, o uso sistemático do testemunho oral possibilita à história oral esclarecer trajetórias individuais, eventos ou processos que às vezes não têm, como ser entendidas ou elucidados de outra forma: são depoimentos de analfabetos, rebeldes, mulheres, crianças, miseráveis, prisioneiros, loucos. São histórias de movimentos sociais populares, de lutas cotidianas encobertas ou esquecidas, de versões menosprezadas; essa característica permitiu inclusive que uma vertente da história oral se tenha constituído ligada à história dos excluídos.
A história oral, em grande parte, carece de uma maior especificação teórica. Apesar de já possuir uma vasta literatura discutindo sua conceituação e bases metodológicas. De certa maneira, a história oral, mais do que novo campo de reflexão tem servido enquanto metodologia de obtenção de dados, ou ainda como técnica auxiliar. É preciso reconhece-la como marco inicial de reflexões levantadas acerca do novo fazer histórico. Um dos problemas centrais, assim, está ligado a especificidade da documentação com a qual se trabalha: a história da vida.
A história da vida enquanto documento possui duas particularidades que de certa forma são novos no trabalho do historiador para com a documentação. O primeiro está no fato de que a fonte é produzida, de certa maneira, pelo pesquisador. Num segundo momento, o caminho traçado pelo oralista é o da leitura de sua própria documentação, realizando as entrevistas, transcrevendo-as e trabalhando o texto do oral para o escrito, constituindo então um documento.
Esse domínio pelo historiador do documento permite uma leitura mais completa e profunda do historiador.
O entrevistado fala sobre o passado posicionado no presente. Diversamente de um documento cartorial, a narrativa realizada na entrevista é uma narração baseada na recordação, na rememoração de fatos acontecidos. A questão crucial é a seguinte: será que a visão do homem de hoje é a mesma do que ele tinha no momento do acontecido, seja uma guerra, uma greve ou mesmo a vida cotidiana de um bairro. Muitas vezes estamos mais interessados em como a pessoa vê seu passado do que observar se o que ela narra realmente aconteceu.
O historiador não se neutraliza diante do fato narrado, ficando de modo acrítico, a história de vida da pessoa como uma narração do acontecido. Interessa, menos do que postular os fatos verdadeiros do passado, entender os mecanismos que criaram esse passado construído, para a partir daí pensar na visão do narrador do passado, buscando inclusive num segundo momento, o entendimento analítico-histórico dos fatos acontecidos. Menos do que detectar “mentiras”, interessam-nos as versões.

Entre memória e história

A relação entre memória e história é problemática e tem sido foco do trabalho teórico de vários historiadores, psicólogos e cientistas sociais. Numa visão tradicional, a relação entre história e memória é relativamente simples, cabendo ao historiador um papel de 'lembrador', guardião da memória dos acontecimentos públicos a serem preservados para a posteridade por meio do registro escrito. Cabe, pois, ao historiador salvaguardar da enxurrada do esquecimento, que tudo leva, os grandes feitos e seus protagonistas.
Ao contrário das visões tradicionais, novas formulações levam a compreender a memória como um conjunto de representações do passado, desde a história erudita até a tradição oral, colocando-a como objeto de estudo e de interesse para os historiadores. E ainda as construções teóricas dos historiadores, também como produto do jogo social nos contextos em que atuam.
Nessa perspectiva, não só outros indicadores da memória passam a ser valorizados, como os registros orais de grupos minoritários, excluídos e/ou ágrafos, outros tipos de documentos e vestígios passaram a ser objeto de trabalho a partir dos quais pôde-se compreender as relações sociais no tempo. Também outros temas passam a ser objeto de estudo dos historiadores. As mentalidades, os elementos do cotidiano integram os focos de trabalho, dando origem a um movimento a que se denominou Nova História.
A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que já se foi. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história uma representação do passado. Há, como disse Halbwachs, tantas memórias quanto grupos porém a história pertence a todos e a ninguém o que lhe confere uma vocação universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem e no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações entre as coisas.
Maurice Halbwachs considera que um indivíduo participa de duas espécies de memórias, as individuais e as coletivas. De um lado, tem suas lembranças formadas por sua vida pessoal, no quadro de sua personalidade. Ao mesmo tempo, há um conjunto de outras lembranças, compartilhada a tal indivíduo por outras pessoas ou grupos e que se tornam impessoais.
De acordo com Halbwachs, a memória coletiva supõe uma multiplicidade de tempos coletivos, à medida em que grupos separados ou culturas específicas contêm um ritmo e espacialidade próprios, particulares.
Pensando a memória, enquanto prática de representação social, vale discutirmos algumas questões tanto da natureza do objeto quanto da produção do conhecimento histórico. Nesta perspectiva, em que a memória se apresenta em crise, focamos atenção para a política de preservação da imagem da cidade relativo aos lugares de memória além dos problemas documentais que a sociedade de informação vem produzindo no mundo capitalista hoje.
Neste sentido, vamos muitas vezes nos deparar, com rupturas com o passado, o que gera um esfacelamento da própria memória e cujo fenômeno, além de atingir o indivíduo e a própria sociedade, afeta também a cidade, levando-nos a curiosidade pelos lugares de memória. Assim, quando pensamos na memória, nos vêm logo à cabeça alguns pontos de referência tais como; monumentos, patrimônio arquitetônico, paisagens, datas, personagens históricos, tradições e costumes, regras de interação, folclore e música, tradições culinárias, etc.
Diferentemente de todos os objetos da história, os lugares de memória não têm referentes na realidade. Eles são, eles mesmos, seu próprio referente, sinais que devolvem a si mesmos, sinais em estado puro. Ele é um lugar duplo, um lugar de excesso, fechado sobre si mesmo, fechado sobre sua identidade, e recolhido sobre seu nome, mas constantemente aberto sobre a extensão de suas significações.

Marc Bloch, um combatente pela história


por Renilson Rosa Ribeiro

“Amo a história. Se não a amasse não seria historiador. Fazer a vida em duas: consagrar uma à profissão, cumprida sem amor; reservar a outra à satisfação das necessidades profundas – algo de abominável quando a profissão que se escolheu é uma profissão de inteligência. Amo a história – e é por isso que estou feliz por vos falar, hoje, daquilo que amo.”

Lucien Febvre, Combate pela História


““As luzes se apagam em toda a Europa”, disse Edward Grey, secretário das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, observando as luzes de Whitehall na noite em que a Grã-Bretanha e a Alemanha foram à guerra. “Não voltaremos a vê-las acender-se em nosso tempo de vida”. Em Viena, o grande satirista Karl Kraus preparava-se para documentar e denunciar essa guerra num extraordinário drama-reportagem a que deu o título de Os últimos dias da humanidade. Ambos viam a guerra mundial como o fim de um mundo, e não foram os únicos. Não foi o fim da humanidade, embora houvesse momentos, no curso dos 31 anos de conflito mundial, entre a declaração de guerra austríaca à Sérvia, a 28 de julho de 1914, e a rendição incondicional do Japão, a 14 de agosto de 1945 – quatro dias após a explosão da primeira bomba nuclear -, em que o fim de considerável proporção da raça humana não pareceu muito distante. Sem dúvida houve momentos em que talvez fosse de esperar-se que o deus ou os deuses que os humanos pios acreditavam ter criado o mundo e tudo o que nele existe estivessem arrependidos de havê-lo feito.

A humanidade sobreviveu. Contudo, o grande edifício da civilização do século XX desmoronou nas chamas da guerra mundial, quando suas colunas ruíram. Não há como compreender o Breve Século XX sem ela. Ele foi marcado pela guerra. Viveu e pensou em termos de guerra mundial, mesmo quando os canhões se calavam e as bombas não explodiam. Sua história e, mais especificamente, a história de sua era inicial de colapso e catástrofe deve começar com a da guerra mundial de 31 anos.

Para os que cresceram antes de 1914, o contraste foi tão impressionante que muitos – inclusive a geração dos pais deste historiador, ou pelo menos de seus membros centro-europeus – se recusaram a ver qualquer continuidade com o passado. “Paz” significava “antes de 1914”: depois disso veio algo que não mais merecia este nome. Era compreensível”.

Poucos autores transformaram tanto um ramo do conhecimento quanto historiador francês Marc Bloch. Professor da Sorbonne e um dos co-fundadores da Revista Annales, Bloch, junto com o seu companheiro de ofício Lucien Febvre (a quem dedicou o presente livro), revolucionou a forma de se “fazer história” ao criar uma nova metodologia de estudos para esta área do saber. Ele, contudo, não foi premiado ou mesmo louvado por seu literal "feito histórico". Bloch acabou tendo o triste futuro da maioria das vítimas do horror da II Guerra Mundial, sendo fuzilado em 1944, durante o período em que era prisioneiro dos nazistas.

Apesar de ter morrido, Bloch, numa escrita combatente, conseguiu deixar fundamentadas e registradas as bases escritas do que constituiria a Escola dos Annales. Estes escritos compõem a obra Apologia da história ou o ofício de historiador, lançada pela Jorge Zahar Editor em 2001. Embora não tenha sido terminada, já que o historiador foi assassinado antes de concluir o livro, a obra trouxe grandes inovações na forma de se perceber e de se estudar a história, legitimando um ofício, definindo práticas, objetivos e uma ética para o estudioso do movimento do homem no espaço e no tempo.

No século XIX, a história era pensada, sobretudo, como narrativa. O que interessava eram os grandes fatos, os grandes heróis, a nação, uma história diplomática. Esta forma de fazer história estava ligada intimamente aos eventos políticos e às mudanças, que, segundo seus defensores (por exemplo, Langlois e Seignobos), trariam sempre algo de novo e melhor.

Para aqueles historiadores, o presente era melhor que o passado, enquanto que o futuro seria sempre promissor – visão evolutiva e progressiva da história. Em um mundo em que a ciência e a tecnologia triunfavam, a noção de progresso se fazia cada vez mais presente na maneira não só de se entender a história, mas de conduzir as mentalidades daquela época.

O século XX, contudo, diante de todos os fracassos do cientificismo, colocou essas certezas em dúvida. A confiança cega do século anterior deu lugar a uma época de grandes incertezas, como diria o historiador Eric Hobsbawm. Não só o tal "futuro promissor" foi questionado nas ciências humanas, como também aquilo que se julgava inquestionável nas ciências da natureza foi posto em dúvida pela mecânica einsteiniana e pela teoria cinética.

É justamente neste universo de incerteza, principalmente após os traumas da Primeira Guerra Mundial (da qual Bloch também participou ativamente no front), que se inserem Bloch e sua revolucionária visão, expressa integralmente em Apologia da história. Seu objetivo sempre foi tratar da história como ciência do homem no tempo, e não só no passado endurecido e unidimensional dos "grandes feitos". História para ele era análise e criticidade, e não mera narrativa; era compreensão, e não julgamento; era reconstrução, e não apreensão; era duração, e não somente mudanças:

“Ora, a obra de uma sociedade que remodela, segundo suas necessidades, o solo em que vive é, todos intuem isso, um fato eminentemente “histórico”. Assim como as vicissitudes de um poderoso núcleo de trocas. Através de um exemplo bem característico da topografia do saber, eis portanto, de um lado, um ponto de sobreposição onde a aliança de suas disciplinas revela-se indispensável a qualquer tentativa de explicação; de outro, um ponto de passagem onde, depois de constatar um fenômeno e pôr seus efeitos na balança, este é, de certa maneira, definitivamente cedido por uma disciplina à outra. O que se produziu que parecera apelar imperiosamente à intervenção da história? Foi que o humano apareceu.

Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais que o singular, favorável à abstração, o plural, que o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem, [os artefatos ou as máquinas,] por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça” (p. 53-5).

Num momento de transformações e dúvidas, portanto, emergia uma nova forma de ver a história, que tem neste autor uma de suas figuras centrais. As idéias introduzidas neste livro, que por si só já é carregado de história, lançaram sobre o ofício do historiador um novo olhar que serve de modelo até os dias atuais. Apologia da história tem ainda um atrativo a mais para o leitor interessado. Ele contou com um prefácio do historiador medievalista francês Jacques Le Goff, "discípulo" póstumo – uma vez que não teve a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente - das idéias de Bloch e um dos mais importantes nomes do ofício na atualidade.

Ao comentar sobre o título da obra, Le Goff ofereceu-nos uma bela definição do que venha ser o fazer do historiador para Bloch:

“O título e o subtítulo Apologia da história ou Como e porque trabalha um historiador exprimem bem as intenções de Marc Bloch. Essa obra é em primeiro lugar uma defesa da história. Essa defesa se exerce contra ataques explícitos por ele evocados na obra, em especial os de Paul Valéry, mas também contra a evolução real ou possível de um conhecimento científico do qual a história seria repelida para as margens ou até excluída. Pode-se também pensar que Marc Bloch pretende defendê-la contra os historiadores, que, a seu ver, acreditam a ela servir, mas a prejudicam. Enfim, e é, acho, um dos pontos fortes da obra, ele faz questão demarcar as distâncias do historiador em relação a sociólogos ou economistas cujo pensamento lhe interessa, mas onde enxerga também perigos para a disciplina histórica. Será, veremos, o caso de Émile Durkheim ou de François Simiand.

O subtítulo definitivo, O ofício de historiador, que substituirá pertinentemente o primeiro subtítulo, ressalta outra preocupação de Marc Bloch: definir o historiador como um homem de ofício, investigar suas práticas de trabalho e seus objetivos científicos e, como veremos, inclusive para além da própria ciência.

O que o título não diz, mas o texto sim, é que Marc Bloch não se contenta em definir a história e o ofício de historiador, mas quer também assinalar o que deve ser a história e como deve trabalhar o historiador” (p. 16).

Como ponto de partida desta história do ofício, Bloch aproveitou a interrogação de um filho que lhe indaga para que serve a história. Essa confidência familiar já anunciava de saída o cerne de suas convicções: a obrigação do historiador difundir e esclarecer. Nesta perspectiva, o livro que o autor apresentou era a resposta de um pai-historiador para a pergunta infantil. O historiador, nas suas palavras, tinha de encarar como um o elogio a capacidade de “saber falar, no mesmo tom, aos doutos e aos estudantes” (p. 41).

Estruturado em cinco capítulos, o livro começou por situar a história no tempo e por fazer uma censura severa à busca desesperada do historiador pela origem dos fatos (Capítulo I – A história, os homens e o tempo). A história, para o autor, era busca, portanto escolha. Seu objeto não era o passado: “A própria noção segundo a qual o passado enquanto tal possa ser objeto de ciência é absurda”. Seu objeto é “o homem”, ou melhor, “os homens”, e mais precisamente “homens no tempo”.

Prosseguiu, no Capítulo II (A observação histórica), com um estudo da observação histórica através dos testemunhos e de sua transmissão. O historiador, na sua leitura, não deveria ignorar “a imensa massa dos testemunhos não-escritos”, aqueles da arqueologia em particular. Portanto, precisava deixar de ser, “na ordem documentária, obcecado pelo relato, assim como, na ordem dos fatos, pelo acontecimento”. Mas deveria também se resignar a não poder compreender tudo do passado, a utilizar “um conhecimento através de pistas”, a recorrer a procedimentos de “reconstrução”, dos quais “todas as ciências oferecerem inúmeros exemplos”.

O Capítulo III (A crítica) foi dedicado à crítica histórica, alertando contra erros e mentiras que por vezes se transformam em verdades para os homens. Bloch desenvolveu neste momento “uma tentativa de uma lógica do método crítico” que lhe permitisse recolocar outra vez, com características próprias, a história no conjunto “das ciências do real” – “limitando sua responsabilidade pela segurança em dosar o provável do improvável, a crítica histórica não se distingue da maioria da maioria das outras ciências do real senão por um escalonamento dos graus sem dúvida mais nuançado”. O capítulo se encerrou em “horizontes bem mais vastos: a história tem o direito de contar entre suas glórias mais seguras o fato de ter, ao elaborar sua técnica, aberto aos homens uma estrada nova rumo à verdade e, por conseguinte, à justiça”.

No Capítulo IV (A análise histórica), Bloch discutiu, por meio de um paralelo entre o juiz e o historiador, se a história deveria julgar ou compreender. Compreender, portanto, e não julgar. Eis o objetivo da “análise histórica” pela qual inicia a verdadeira tarefa do historiador depois da observação e da crítica histórica prévias. Para este pensador do fazer histórico, o historiador “escolhe e peneira”, “organiza racionalmente uma matéria” cuja receptividade passiva “só levaria a negar o tempo; por conseguinte, a própria história”. O vínculo entre ordenamento racional, tempo e história foi perfeitamente reafirmado nas páginas de seu livro.

O Capítulo V (Sem título), apenas esboçado e interrompido pelos tiros do fuzil que o silenciou, o autor analisou as causas dos fatos históricos, com um ataque veemente ao Positivismo. Le Goff anotou algumas mensagens de grande importância deixadas por Bloch neste capítulo interrompido: “Em primeiro lugar, um novo protesto contra o “positivismo”, que “pretendeu eliminar da ciência a idéia de causa”; mas também a condenação da tentativa de redução do problema das causas em história a um problema de motivos e a recusa da “banal psicologia”. Recusava a ser meditada, pois sob a via régia, demasiado régia, das mentalidades corre o rio de uma vulgar psicologia. Depois, a designação de um novo ídolo a ser banido da problemática do historiador: “a superstição da causa única”. A condenação era inapelável: “preconceito do senso comum, postulado de lógico, um tique de magistrado instrutor, monismo da causa, para a explicação histórica,não é senão um estorvo”. A vida, portanto a história, era múltipla em suas estruturas, em suas causas. Marc Bloch apontou, a esse propósito, um outro “erro”, “aquele no qual se inspirava o pseudo-determinismo geográfico, hoje definitivamente arruinado”. E acrescentou: “O deserto, seja lá o que tenha dito Renan sobre isso, não é necessariamente monoteísta”. Não estou seguro de que esse cadáver ainda não se mexa ainda. Não faz muito tempo, espíritos conformados ainda se deslumbravam com as elucubrações (sobre as quais sabemos atualmente, além disso, que não eram isentas de um certo ranço racista) de um André Siegfried, cuja geografia eleitoral fantasiosa da França parecia sempre carregada de seduções. Não, o granito não vota” (p. 31-2).

Acreditamos que este livro interrompido pelo tiro certeiro e desleal seja “um ato completo de história”, como diria Le Goff. Uma máquina de guerra para os combatentes pela história, pela vida, pela justiça, pela ética e pelo compromisso intelectual; uma apologia da paixão:

“Decerto, mesmo que a história fosse julgada incapaz de outros serviços, restaria dizer, a seu favor, que ela entretém. Ou, para ser mais exato – pois cada um busca seus passatempos onde mais lhe agrada -, assim parece, incontestavelmente, para um grande número de homens. Pessoalmente, do mais remoto que me lembre, ela sempre me pareceu divertida. Como todos os historiadores, eu penso. Sem o quê, por quais razões teriam escolhido esse ofício? Aos olhos de qualquer um que não seja um tolo completo, com quatro letras, todas as ciências são interessantes. Mas todo cientista só encontra uma única cuja prática o diverte. Descobri-la para a ela se dedicar é propriamente o que se chama vocação” (p. 43).

Este livro seria um belo manifesto de historiador que fez da história um combate pela liberdade do pensamento, pela vida. Eis abra de um combatente pela história. Uma escrita rabiscada no campo de combate, nos campos de concentração da intolerância do século XX.

Para nós, esta escrita combatente representa uma fonte de inspiração para as lutas diárias contra os crimes do autoritarismo, da intolerância: violência na carne e no espírito humano. É pela vida que escrevemos, pensando sempre na educação da nossa sensibilidade histórica.

Maurice Halbwachs – A memória coletiva


Halbwachs (1990) não estuda a memória em si, mas os quadros sociais da memória. Conforme a sua teoria, as lembranças não são individuais, embora o indivíduo seja a primeira testemunha à qual pode apelar. Elas são coletivas, são lembradas pelos outros, mesmo que somente a uma pessoa digam respeito.
Assim, o autor relaciona a memória à participação em um grupo social, de forma que, quando nos lembramos, deslocamo-nos de um grupo a outro, em pensamento, da mesma forma que o esquecimento é explicado pelo desapego aos grupos, distância ou isolamento; a falta de interesse por determinado grupo faz com que dele uma pessoa se afaste e tenha apenas uma vaga lembrança.
Halbwachs não considera a memória individual como condição suficiente para o ato de lembrar e reconhecer e nem a reconstituição ou depoimentos dos outros para a transformação da imagem em lembranças. Segundo ele, é preciso que haja pontos de contato entre as memórias individuais, para que as lembranças sejam reconstruídas sobre base comum. A duração da memória estaria relacionada à força e duração do grupo; o lugar ocupado no conjunto define as pessoas e os fatos a serem lembrados ou esquecidos.
A memória individual está compreendida dentro de uma memória mais ampla, que o autor chama de memória coletiva, esta não explica todas as lembranças, mas as noções e imagens dos meios sociais dos quais fazemos parte envolvem as recordações individuais. 
Os sentimentos e pensamentos mais pessoais emergem nos meios de circunstâncias sociais. Halbwachs circunscreve as lembranças e a significação aos grupos; o sentido dos acontecimentos muda quando o sujeito muda de grupo. Desta forma, é focalizado o presente. Nesta definição de Halbwachs é possível estabelecer uma relação com a teoria histórico-cultural. 
O sujeito lembra de determinada situação motivado por um elemento do presente. Chama estes elementos de pontos de contato entre memórias individuais, podendo ser palavras, objetos, fotos trazidas por um amigo.

Citações do Livro:


Maurice Halbwachs – A memória coletiva

 

“A primeira testemunha, à qual podemos sempre apelar, é a nós próprios”(p.25)

“Podemos reconstruir um conjunto de lembranças de modo a reconhece-los.” (p.25)

“se nossa impressão pode apoiar-se não somente sobre nossa lembrança, mas também sobre a dos outros, nossa confiança na exatidão de nossa evocação será maior”(p.25)

“Mas nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. É porque, em realidade nunca estamos sós. (...) Em todos os momentos, em todas essas circunstancias, não posso dizer que estava só, que refletia sozinho, já que em pensamento eu me deslocava de um tal grupo para outro (...)”(p.26)

“Assim para confirmar ou recordar uma lembrança, as testemunhas, no sentido comum do termo, isto é, indivíduos presentes sob uma forma material e sensível, não são necessárias.” (p.27)

“(...) houve em nossa vida um certo número de incidentes marcantes que não puderam deixar de acontecer. (...) Todavia, ainda que esse fato possa ser localizado no tempo e no espaço, mesmo que parentes ou amigos disso me fizessem uma descrição exata, acho-me em presença de um dado abstrato, para o qual me é impossível fazer corresponder qualquer recordação viva: não lembro de nada.”(p.27)

“(...)se na ausência dessas testemunhas nós nos sentimos inteiramente incapazes de lhe reconstruir uma parte qualquer; aqueles que nô-la descrevem poderão fazer-nos um quadro vivo dela, mas isso não será jamais uma lembrança.” (p.28)

“Quantas vezes não acontece, com efeito, que, nas sociedades de toda natureza que os homens formam entre si, um deles não faça uma idéia correta do lugar que ocupa no pensamento dos demais, e quantos mal entendidos e desilusões não têm a sua fonte numa tal diversidade de pontos de vista?” (p.30)

“Há pessoas de que dizemos que estão sempre o presente, isto é, que eles não se interessam senão pelas pessoas e pelas coisas no meio das quais se encontram no momento, e que estão em relação com o objeto atual de sua atividade, ocupação ou distração. (...) Logo são absorvidas por outros interesses, engajadas em outros grupos. Uma espécie de instituto vital lhes ordena desviar seu pensamento de tudo aquilo que poderia distraí-las do que as preocupa atualmente.” (31)

“(...) se encontramos mais tarde membros de uma sociedade que se tornou para nós a tal ponto estranha, por mais que nos encontremos no meio deles, não conseguimos reconstituir com eles o grupo antigo. (...) Recolocamos os diversos detalhes dentro de um outro conjunto constituído por nossas representações do momento. (...) Tudo se passa aqui como no caso dessas amnésias patológicas que se referem a um conjunto bem definido e limitado de lembranças. (...) Mas poderemos dizer, assim, que o que está afetado é a faculdade em geral de entrar em relação com os grupos de que se compõe a sociedade. Então separam-nos de um ou de alguns dentre eles, e deles unicamente. Todo o conjunto das lembranças que temos em comum com eles bruscamente desaparecem. Esquecer um período de sua vida é perder contato com aqueles que então nos rodeavam.” (p.32)

“Não há motivo, aliás, para se espantar caso essas lembranças se diluam todas ao mesmo tempo e se anulem. É porque formam um sistema independente, pelo fato de serem as lembranças de um mesmo grupo ligadas uma a outra e apoiadas de certo modo uma sobre a outra; e que esse grupo é nitidamente distinto de todos os outros.(...) pouco a pouco distanciamos e nos isolamos de certos meios que não nos esquecem, mas de que conservamos apenas uma lembrança vaga.”(p.33)

“Se agora dois desses grupos entram em contato, o que lhes falta precisamente para se compreenderem, se entenderem e confirmarem mutuamente as lembranças desse passado de vida comum é a faculdade de esquecer as barreiras que os separam no presente.” (p.35)

“quando os homens não estão materialmente presentes, se possa falar de memória coletiva quando evocamos um acontecimento que teve lugar na vida de nosso grupo e que considerávamos” (p.36)

“Haveria então, na base de toda a lembrança, o chamado a um estado de consciência puramente individual que – para distingui-lo das percepções onde entram tatos elementos do pensamento social – admitiremos que se chame intuição sensível.” (p.37)

“Se não nos recordamos de nossa primeira infância, é, com efeito, porque nossas impressões não se podem relacionar com esteio nenhum, enquanto não somos ainda um ente social.” (p.38)

“Revejo o acontecimento (na primeira infância), mas provavelmente não se trata de uma lembrança de imagem que formei da coisa muito antigamente, à época das primeiras narrativas que me fizeram dela”. (p.38)

“Uma “corrente de pensamento” social é ordinariamente tão invisível como a atmosfera que respiramos. Só reconhecemos sua existência, na vida normal, quando a ela resistimos; mas uma criança que chama os seus, e que tem necessidade de sua ajuda, não lhes resiste.” (p.40)

“A essas formas que são os quadros coletivos impostos pela sociedade, diz ainda Blondel, é preciso uma matéria. Por que não admitir simplesmente que essa matéria existe realmente, e não é outra senão a que, precisamente, na lembrança, esta sem relação com o quadro” (p.41)

“É por isso que dizemos algumas vezes de alguns homens que eles não tiveram infância, porque a necessidade de ganhar seu pão, impondo-se a eles muito cedo, forçou-os a entrar nos domínios da sociedade onde os homens lutam pela vida, enquanto que a maioria das crianças nem sabem que essas regiões existem; ou porque em conseqüência de uma morte conheceram uma espécie de sofrimento de ordinário reservado aos adultos, e tiveram que enfrentá-lo no mesmo plano que eles.

O conteúdo original de tais lembranças, que as destaca de todas as outras, se explicaria então pelo fato de que elas se encontram no ponto de cruzamento de duas ou varias séries de pensamentos pelas quais elas se relacionam a tantos grupos diferentes (...) já que, essa imagem das coisas não existindo senão para nós, uma parte de nossa lembrança não se adaptaria a nenhuma memória coletiva.” (p.42)

“Consideramos então nossa impressão.(...) ela se desenrolou dentro de um quadro temporal e espacial e em meio a circunstancias sobre as quais nossas preocupações de então projetavam sua sombra, mas que , de seu lado, dela modificavam o curso e o aspecto: como as casas construídas ao pé de um monumento antigo, e quem não tem a mesma idade.” (p.44)

“essas impressões, precisamente porque são novas, e porque contém muitos elementos estranhos ao curso anterior e ao que existe de mais íntimo no curso atual de nossos pensamentos, são também estranhas aos grupos que nos ligam mais estreitamente. (...) pois todos os objetos que vemos, todas as pessoas que ouvimos, talvez não nos impressionem, senão na medida em que nos fazem sentir a ausência dos primeiros.” (pp 44-45)

“No primeiro plano da memória de um grupo se destacam as lembranças dos acontecimentos e das experiências que concernem ao maior número de seus membros e que resultam quer de sua própria vida, quer de suas relações com os grupos mais próximos (...) Quanto àquelas que concernem a um pequeno numero (...) passam para último plano.”(p.45)

“Um grupo entra geralmente em relação com outros grupos. (...) Então nascem as lembranças, compreendidas em dois quadros de pensamentos que são comuns aos membros dos dois grupos(...) duas correntes de pensamento divergentes.”(p.46)

“Acontece com muita freqüência que nos atribuímos a nós mesmos, como se elas não tivessem sua origem em parte alguma senão em nós, idéias e reflexões, ou sentimentos e paixões, que nos foram inspirados por nosso grupo. Estamos então tão bem afinados com aqueles que nos cercam, que vibramos em uníssono, e não sabemos mais onde está o ponto de partida das vibrações, em nós ou nos outros. (...) cada grupo social empenha-se em manter uma semelhante persuasão junto a seus membros. (...) na medida que cedemos sem resistência a uma sugestão de fora, acreditamos pensar e sentir livremente. É assim que a maioria das influencias sociais que obedecemos com mais freqüência nos passam desapercebidas (...) no ponto de encontro de várias correntes de pensamento coletivo (...) se produz um desses estados complexos, onde queremos ver um acontecimento único, que não existira a não ser para nós.” (p.47)

“Em caso semelhante as influências sociais se fazem mais complexas, porque mais numerosas, mais entrecruzadas. É uma razão para que as desenredemos menos, e que as distingamos mais confusamente. (...) Mas porque esses meios se afrontam, temos a impressão que não estamos engajados nem em um, nem em outro. (...) Mas não há nada disso. Essas lembranças que nos parecem puramente pessoais, e tais como nós sozinhos as reconhecemos e somos capazes de reencontra-las, distinguem-se das outras pela maior complexidade das condições necessárias para que sejam lembradas; mas isso é apenas uma diferença de grau.” (p.48)

“Algumas vezes limitamo-nos a observar que nosso passado compreende duas espécies de elementos: aqueles que nos é possível evocar quando queremos; e aqueles que, ao contrario, não atendem ao nosso apelo, se em que, logo que os procuramos no passado, parece que nossa vontade tropeça num obstáculo.(...) Por mais estranho e paradoxal que isto possa parecer, as lembranças que os são mais difíceis de evocar são aquelas que não concernem a não ser a nós, que constituem nosso bem mais exclusivo.” (pp 48-49)

“Entre as lembranças que evocamos à vontade e aquelas que nos fogem, encontraríamos na realidade todos os graus. As condições necessárias para que umas e outras reapareçam não diferem a não ser pelo grau de complexidade. As primeiras estão sempre ao nosso alcance, porque se conservam em grupos nos quais somos livres para penetrar quando quisermos (...) As segundas nos são menos e mais raramente acessíveis, porque os grupos que as trariam a nós estão mais distantes: não estamos em contato com eles senão de modo intermitente.” (p.49)

“cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios.(...) Todavia quando tentamos explicar essa diversidade, voltamos sempre a uma combinação de influencias que são, todas, de natureza social.

Dessas combinações, algumas são extremamente complexas. É por isso que não depende de nós faze-las reaparecer. É preciso confiar no acaso(...) A sucessão de lembranças (...) explica-se sempre pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos meios coletivos.” (p.51)

 

“Haveria então memórias individuais e, se o quisermos, memórias coletivas. (...) De um lado, é no quadro de sua personalidade, ou de sua vida pessoas, que viriam tomar lugar suas lembranças (...) De outra parte, ele seria capaz, em alguns momentos, de se comportar simplesmente como membro de um grupo que contribui para evocar e manter as lembranças impessoais, na medida em que estas interessam ao grupo (...) se a memória individual pode, para confirmar (...) para cobrir algumas de suas lacunas, apoiar-se sobre a memória coletiva, deslocar-se nela, confundir-se momentaneamente com ela; nem por isso deixa de seguir seu próprio caminho.(...) A memória coletiva, por outro, envolve as memórias individuais, mas não se confunde com elas.” (p.53)

“Consideremos agora a memória individual. Ela não está inteiramente isolada e fechada. (...) Ele se reporta a pontos de referência que existem fora dele, e que são fixados pela sociedade (...) nossa memória não se confunde com a dos outros. Ela é limitada muito estreitamente no espaço e no tempo. A memória coletiva o é também; mas esses limites não são os mesmos. Eles podem ser mais restritos, bem mais remotos também.” (p.54)

“Carrego comigo uma bagagem de lembranças históricas, que posso ampliar pela conversação, ou pela leitura. Mas é uma memória emprestada e que não é minha. No pensamento nacional esses acontecimentos deixaram um traço profundo, não somente porque as instituições foram modificadas, mas porque a tradição nelas subsiste muito viva em tal ou qual região do grupo.” (p.54)

“Distinguir duas memórias (...) memória pessoal, a outra memória social. (...) memória autobiográfica e memória histórica. A primeira se apoiaria na segunda (...). Mas a segunda seria, naturalmente, bem mais ampla do que a primeira. Por outra parte, ela não nos representaria o passado senão sob uma forma resumida e esquemática, enquanto que a memória de nossa vida nos apresentaria um quadro bem mais contínuo e mais denso (...)” (p.55)

“os acontecimentos históricos não desempenham um outro papel senão as divisões do tempo assinaladas em um relógio, ou determinadas pelo calendário. Nossa vida se escoa em um movimento contínuo. (p.56)

“Nossas vidas estariam colocadas na superfície dos corpos sociais, elas os seguiriam dentro de suas revoluções, experimentariam as repercussões de seus abalos. Mas um acontecimento não toma lugar na série dos fatos históricos senão algum tempo depois que se produz.”(p.57)

“Quando folheio uma história contemporânea (...) que se sucedem desde a data de seu nascimento (...) aprendo a recolocar minha infância dentro da história de meu tempo.” (p.58)

“se o mundo de minha infância, tal como o encontro quando me recordo, coloca-se assim naturalmente no quadro que o estudo histórico desse passado próximo me permite reconstituir, é porque já levava a sua marca. Isto que descubro, é porque com um esforço suficiente de atenção eu poderia, em minhas lembranças deste pequeno mundo, reencontrar a imagem do meio onde estava compreendido.” (p.59)

“Não é na historia aprendida, é na história vivida que se apóia nossa memória. Por história é preciso entender então não uma sucessão cronológica de acontecimentos e de datas, mas tudo aquilo que faz com que um período se distinga dos outros. (60)

“Um ser tal como uma criancinha, reduzida a suas percepções, não guardará de tais espetáculos senão uma lembrança frágil de pouca duração.Para que atrás da imagem, ele atinja a realidade histórica, será preciso que saia de si mesmo, que se coloque do ponto de vista do grupo, que possa ver como tal fato marca uma data,(...) mas a impressão por si mesma é uma impressão superficial(...)”(p.61)

“As lembranças coletivas viriam aplicar-se sobre as lembranças individuais, e nos dariam assim sobre elas uma tomada mais cômoda e mais segura; mas será preciso então que as lembranças individuais estejam lá primeiramente, senão nossa memória funcionaria sem causa.” (p.62)

“Desde que a criança ultrapasse a etapa da vida puramente sensititiva, desde que ela se interessa pela significação das imagens e dos quadros que percebe, podemos dizer que ela pensa em comum com os outros, e que seu pensamento se divide entre o conjunto das impressões todas pessoais e diversas correntes de pensamento coletivo.” (p.62)

“Pode ser que a lembrança não seja arrastada de imediato nessa corrente e que algum tempo se passe antes que compreendamos o sentido do acontecimento. O essencial é que o momento em que compreendamos venha logo, isto é, enquanto a lembrança esteja viva ainda. Então, é da própria lembrança em si mesma, é em torno dela, que vemos brilhar de alguma forma sua significação histórica.” (p.63)

“Mas, a criança está em relação com uma categoria de adultos nos quais a simplicidade habitual de suas concepções se aproxima dela. Trata-se, por exemplo, dos criados.”(p.64)

“A criança também está em contato com seus avós e através deles é até um passado ainda mais remoto que ela recua. Os avós se aproximam das crianças, talvez porque, por diversas razões, uns e outros se desinteressam dos acontecimentos contemporâneos sobre os quais se fixa a atenção dos pais.” (p.65)

“Não somente os fatos, mas as maneiras de ser e de pensar de outrora que se fixam assim dentro de sua memória”(p.66)

“A história não é todo o passado, mas também não é tudo aquilo que lhe resta do passado. Ou, se o quisermos, ao lado de uma história escrita, há uma história viva que se perpetua ou se renova através do tempo. (...) Os grupos, no seio dos quais outrora se elaboraram concepções e um espírito que reinara algum tempo sobre toda sociedade, recuam logo e deixam lugar para outros, que seguram, por sua vez, durante certo período, o cetro dos costumes e que modificam a opinião segundo novos modelos.” (p.67)

“O passado deixou muitos traços, visíveis algumas vezes, e que se percebe também na expressão dos rostos, no aspecto dos lugares (...) os costume modernos repousam sobre antigas camadas que afloram em mais de um lugar.”(p.68)

“há em cada época uma estreita relação entre os hábitos, o espírito de um grupo e o aspecto dos lugares onde ele vive”(p.69)

“É esse passado vivido, bem mais do que o passado aprendido pela história escrita, sobre o qual poderá mais tarde se apoiar sua memória. (...) a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente (...) Podemos então chamar de lembranças muitas representações que repousam (...) em depoimentos e racionalização.” (p.71-72)

“À medida em que os acontecimentos se distanciam, temos o hábito de lembra-los sob a forma de conjuntos, sobre os quais se destacam às vezes alguns dentre eles, mas que abrangem muitos outros elementos.” (p.72)

“quantas lembranças que acreditamos ter fielmente conservado e cuja identidade não nos parece duvidosa, são elas forjadas também quase que inteiramente sobre falsos reconhecimentos, de acordo com relatos e depoimentos.” (p.73)

“a morte, que põe um fim a vida fisiológica, não interrompe bruscamente a corrente dos pensamentos, de modo que eles se desenvolvem no interior do circulo daquele cujo corpo desaparece. Algum tempo ainda nós o imaginamos como se ainda vivesse. (...) À medida em que recua no passado, muda, porque algumas impressões se apagam e outras se sobressaem, segundo o ponto de vista de onde a encaramos. (...) É assim que o passado, tal como me aparecia outrora, enfraquece-se lentamente. As novas imagens recobrem as antigas como nossos parentes mais próximos se interpõem entre nós e nossos antecedentes longínquos (...) Os grupos dos quais faço parte nas diversas épocas não são mais os mesmos. Ora, é do ponto de vista deles que considero o passado. (74) minhas lembranças se renovem e se completem” (p.75)

“Uma cena de nosso passado pode nos parecer tal que não temos nada a suprimir nem acrescentar, e que nunca haverá nada de menos nem de mais para compreender. Porém se encontrássemos alguém que dela tivesse participado ou a tivesse assistido (...) após tê-lo ouvido, não teremos mais certeza do que antes que não poderíamos nos enganar sobre a ordem dos detalhes (...) porque é impossível que duas pessoas que viram o mesmo fato, quando o narram depois algum tempo depois, o reproduzem com trações idênticos”(p.75)

“Não há na memória, vazio absoluto (...) Para Bérgson, o passado permanece inteiramente dentro de nossa memória, tal como foi para nós; porém alguns obstáculos, em particular o comportamento de nosso cérebro, impedem que evoquemos dele todas as partes (...) não subsistem em alguma galeria subterrânea de nosso pensamento, imagens completamente prontas, mas na sociedade, onde estão todas as indicações necessárias para reconstruir tais partes de nosso passado as quais nos representamos de modo incompleto ou indistinto. (...) na realidade o que tomávamos por um espaço vazio não passava de uma região pouco definida, da qual nosso pensamento se desviava, porque nela encontrava poucos vestígios. Uma vez que nos indiquem com precisão o caminho que temos que seguir, esses traços se evidenciam, os ligamos um ao outro. (...) Então eles existem, porém eram mais marcantes na memória dos outros do que em nós mesmos.”(p.77)

“Cada grupo, aliás, se divide e se restringe no tempo e no espaço. É no interior dessas sociedades que se desenvolvem tantas memórias coletivas originais que mantém por algum tempo a lembrança de acontecimentos que não têm importância senão para elas.” (p.79)

“a memória coletiva não se confunde com a história (...) A história, sem dúvida é a compilação dos fatos que ocuparam o maior espaço na memória dos homens Mas lidos em livros, ensinados e aprendidos nas escolas, os acontecimentos passados são escolhidos, aproximados e classificados conforme necessidades ou regras. (...) geralmente a história começa somente no ponto onde acaba a tradição, momento em que se apaga ou se decompõe a memória social. Enquanto uma lembrança subsiste é inútil fixa-la por escrito. (...) Quando a memória de uma seqüência de acontecimentos não tem mais por suporte um grupo (...) então o único meio de salvar tais lembranças, é fixa-las por escrito em uma narrativa seguida uma vez que as palavras e os pensamentos morrem, mas os escritos permanece. Se a condição necessária para que haja memória é que o sujeito que se lembra, indivíduo ou grupo, tenha o sentimento de que busca suas lembranças num movimento continuo, como a história seria uma memória (...)?”(pp. 80-81)

“A história que quiser tratar dos detalhes dos fatos, torna-se erudita e a erudição é condição de apenas uma minoria.”(p.81)

“A memória coletiva se distingue da história pelo menos sob dois aspectos. É uma corrente de pensamento continuo, de uma continuidade que nada tem de artificial, já que retém do passado somente aquilo que anda está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo (...) ela não ultrapassa os limites deste grupo.” (p.82)

“A história divide a seqüência dos séculos em períodos (...) na história se tem a impressão de que, de um período a outro, tudo é renovado. (p.82)

“A história, que se coloca fora dos grupos e acima deles, não vacila em introduzir na corrente dos fatos divisões.(...) Ela obedece (...) a uma necessidade didática de esquematização” (p.82)

“Mas a história que se interessa sobretudo pelas diferenças e contradições (...) relata também e se concentra sobre um intervalo de alguns anos de transformações. (...) Os historiadores não podem levar a sério estas linhas de separação”

“Em realidade, no desenvolvimento contínuo da memória coletiva, não há linhas de separação nitidamente traçadas como na história, mas somente limites irregulares e incertos (...) A memória de uma sociedade estende-se (...) até onde atinge a memória dos grupos dos quais ela é composta. (...)ela esquece uma quantidade tão grande de acontecimentos (...) é porque os grupos que dela guardavam a lembrança desapareceram. (...) ela não cessa de se transformar, e o grupo, ele próprio, muda sem cessar.” (p.84)

“Há, com efeito, muitas memórias coletivas. É a segunda característica pela qual elas se distinguem da história. A história é uma e podemos dizer que não há história. (...) Reprovamos ainda algumas vezes, ao labor histórico esse excesso de especialização e o gosto extremo pelo estudo detalhado que se desvia do conjunto e toma de alguma forma a parte pelo todo (...) não se considera o ponto de vista de nenhum do grupos reais e vivos que existem. (...) Mas um historiador julga ser bastante objetivo e imparcial. (...) ele se esforça em reunir um conjunto de fatos que poderá ser justaposto a outro conjunto. (p.85)

“A história pode apresentar-se como a memória universal. Toda a memória coletiva tem por suporte um grupo limitado no espaço e no tempo. Não se pode concentrar num único quadro a totalidade dos acontecimentos passados senão na condição  de desliga-los da memória dos grupos que deles guardavam a lembrança (...) de não manter deles senão o esquema cronológico e espacial. (...) a história se interessa sobretudo pelas diferenças, feita a abstração das semelhanças.”(p.86)

“Consideremos agora o conteúdo destas memórias coletivas múltiplas. (...) Para que se possa falar de memória, é necessário que as partes do período sobre o qual ela se estende sejam diferenciadas segundo um critério. Cada um desses grupos tem uma história. (...) na memória as similitudes passam entretanto para o primeiro plano. (...) A história, já o dissemos, deixa perecer esses intervalos onde nada acontece aparentemente, onde a vida se limita a repetir-se.”(p.87)

“A história é um quadro de mudanças, e é natural que ela se convença de que as sociedades mudam sem cessar, porque ela fixa seu olhar sobre o conjunto, (...) é preciso que se desenvolva uma serie de transformações das quais a história não percebe senão a somatória ou o resultado final. Tal é o ponto de vista da história, porque ela examina os grupos de fora, e porque ela abrange uma duração bastante longa. A memória coletiva, ao contrario, é o grupo visto de dentro, e durante um período que não ultrapassa a duração media da vida humana..” (p.88)

“A memória coletiva é um quadro de analogias, e é natural que ela se convença que o grupo permanece, e permaneceu o mesmo, porque ela fixa sua atenção sobre o grupo, e o que mudou, foram as relações ou contatos do grupo com os outros.” (p.88)

 

“a sucessão do tempo, sua rapidez e seu ritmo, é apenas a ordem necessária segundo a qual se encadeiam os fenômenos da natureza material e do organismo. Mas é também, e talvez sobretudo, porque as divisões do tempo, a duração das partes assim fixadas, resultam de convenções e costumes, e porque exprimem também a ordem, inelutável, segundo a qual se sucedem as diversas etapas da vida social.” (p.90)

“É por isso que existe uma representação coletiva do tempo; ela se harmoniza sem duvida com os grandes atos de astronomia e de física terrestre, porém a estes quadros gerais, a sociedade sobrepõe outros que se ajustam sobretudo às condições e grupos humanos concretos. Pode-se mesmo dizer: as datas e as divisões astronômicas do tempo estão encobertas pelas divisões sociais de tal maneira que elas desaparecem progressivamente e que a natureza deixa cada vez mais à sociedade o encargo de organizar a duração.”(p.90)

“A necessidade de se diferenciar dos outros quanto ao modo de dividir e regular seu tempo aconteceria com mais freqüência se, no que diz respeito às nossas ocupações e distrações, não fossemos obrigados a nos sujeitarmos à disciplina social. (...) Sou então obrigado a regular minhas atividades conforme o caminhar dos ponteiros de um relógio, ou conforme o ritmo adotado pelos outros (...) me sinto forçado, perpetuamente, a considerar a vida e os acontecimentos que a preenchem sob o aspecto da medida.” (p.91)

“todo o ser dotado de consciência teria o sentimento da duração, já que nele se sucedem estados diferentes. A duração não seria nada mais do que a seqüência mais do que a seqüência desses estados. (...) Porém em torno de alguns objetos nosso pensamento se encontra também com o dos outros” (p.92)

O Tempo universal é o que percebemos e o histórico justapõe o tempo.

Às vezes a maneira como se interpreta um acontecimento difere de uma comunidade para outra, dois pensamentos podem não se penetrar.

O tempo não é outra coisa senão uma série de fatos, é ilusão pensarmos que ele se torna mais longo ou mais rápido.

O tempo é o que é. Numa cidadezinha o ritmo não é lento, é impressão de quem é da cidade, pois ela tem seu ritmo, ele está dividido como deve ser, de acordo com as necessidades.

Os limites até os quais recuamos no passado são variáveis conforme os grupos.

O tempo é real à medida em que tem um conteúdo.

 

“Auguste Comte observou que o equilíbrio mental decorre em boa parte e, primeiro, pelo fato que os objetos materiais com os quais estamos em contato diário mudam pouco, e nos oferecem uma imagem de permanência e estabilidade. É como se fosse uma sociedade silenciosa e imóvel, estranha à nossa agitação e às nossas mudanças de humor que nos dá uma sensação de ordem e quietude.” (p.131)

“Por que nos apegamos aos objetos? (...) Nosso entorno material leva ao mesmo tempo nossa marca e a dos outros (...) Lembram-nos nossa família e os amigos que víamos geralmente nesse quadro. (p.131)”

“Nossa cultura e nossos gostos aparentes na escolha e na disposição desses objetos se explicam em larga medida pelos elos que nos prendem sempre a um grande número de sociedades, sensíveis ou invisíveis. Não podemos dizer que as coisas façam parte da sociedade (pp 131-132)”

“Não estávamos errados ao dizer que estão em torno de nós como uma sociedade muda e imóvel. Se não falam, entretanto os compreendemos, já que têm um sentido que deciframos familiarmente. (...) A estabilidade do alojamento e de seu aspecto interior impõem ao próprio grupo a imagem apaziguante de sua continuidade.” (p.132)

“Quando um grupo está inserido numa parte do espaço, ele a transforma à sua imagem, ao mesmo tempo em que se sujeita e se adapta às coisas materiais que a ele resistem.” (p.133)

“O lugar ocupado por um grupo não é como um quadro negro sobre o qual escrevemos, depois apagamos os números e figuras. (...) todas as ações do grupo podem se traduzir em termos espaciais, e o lugar ocupado por ele é somente a reunião de todos os termos. Cada aspecto, cada detalhe desse lugar em si mesmo tem um sentido que é inteligível apenas para os membros do grupo, porque todas as partes do espaço que ele ocupou correspondem a outro tanto de aspectos diferentes da estrutura e da vida de sua sociedade, ao menos, naquilo que havia nele de mais estável.” (p.133)

“um acontecimento realmente grave sempre causa uma mudança nas relações do grupo com o lugar” (p.133)

“o grupo urbano não tem a impressão de mudar enquanto o aspecto das ruas e dos edifícios permanece idêntico (...) É por isso que o efeito da agitação, que abala a sociedade sem alterar a fisionomia da cidade, atenua-se quando passamos àquelas categorias do povo que se apegam mais às pedras do que aos homens” (p.134)

“Assim, não somente casas e muralhas persistem através do século, mas toda a parte do grupo que está, sem cessar, em contato com elas, e que confunde sua vida e a dessas coisas, permanece impassível, porque não se interessa a não ser por aquilo que se passa, na realidade, fora de seu circulo mais próximo e além de seu horizonte mais imediato.” (p.135)

“Os hábitos locais resistem às forças que tendem à transformá-los, e essa resistência permite perceber melhor até que ponto, em tais grupos, a memória coletiva tem seu ponto de apoio sobre as imagens espaciais.”(p.136)

“Quando um grupo humano vive muito tempo em um lugar adaptado a seus hábitos, não somente os seus movimentos, mas também seus pensamentos se regulam pela sucessão das imagens que lhe representam os objetos exteriores.” (p.136)

“para toda uma parte deles, os grupos imitam a passividade da matéria inerte.”(p.137)

“Para que essa resistência se manifeste, é preciso que emane de um grupo.”(p.137)

“(Um grupo) Procura e tenta, em parte, encontrar seu equilíbrio antigo sob novas condições. Tenta se manter ou se adaptar a um quarteirão ou rua que não são mais para ele, mas sobre o terreno que já foi seu.” (p.137)

“Mas a população pobre também não se deixa deslocar sem resistência, sem ressentimentos, e mesmo quando cede, deixa para trás muitos traços de si mesma.”(p.138)

“Encontramos pequenos negócios que somente conseguem se estabelecer porque, há muito tempo, confundem-se com um lugar que chama a atenção do público para ele.”(p.138)

“Para eles, perder seu lugar no recanto de tal rua, à sombra daquele muro, ou daquela igreja, seria perder o apoio de uma tradição que os ampara, isto é, sua única razão de ser.” (p.138)

“Se os habitantes de uma cidade ou de um quarteirão formam uma pequena sociedade, é porque estão reunidos numa mesma região do espaço. Deve-se dizer que isto é apenas uma condição da existência desses grupos, mas uma condição essencial e muito clara. Não é o que acontece exatamente com outras formações sociais. Pode-se mesmo dizer que a maioria delas tende a separar os homens do espaço, já que fazem abstração do lugar que eles ocupam e neles consideram apenas qualidades de outra ordem (...) É por isso que não é suficiente considerar que os homens estejam reunidos num mesmo lugar, e guardar na memória a imagem desse lugar para descobrir e se lembrar a que sociedade eles se ligam.” (p.139)

“Assim, não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial. Ora, o espaço é uma realidade que dura (...) É sobre o espaço, sobre o nosso espaço (...) que devemos voltar nossa atenção; é sobre ele que nosso pensamento deve se fixar, para que reapareça esta ou aquela categorias, de lembranças.” (p.143)

“É difícil saber o que seria o espaço para um homem realmente isolado, que não fizesse ou não tivesse feito parte de nenhuma sociedade” (144) pois tentar desvincular o espaço das situações sociais é difícil ou quase impossível.

“O espaço jurídico não é um espaço vazio que simbolizaria somente uma possibilidade indefinida de relações de direito entre os homens (...) Consideremos o direito de propriedade (...) Disto decorre que a sociedade adota uma atitude, e uma atitude durável, frente a tal parte do solo ou tal objeto material.” (pp 144-145)

“A vida econômica nos coloca em relação com os bens materiais (...) Os preços estão ligados às coisas como rótulos.(...) os preços decorrem de opiniões sociais em suspensão no pensamento do grupo, e não das qualidades físicas dos objetos, não é o espaço ocupado pelos objetos, são os lugares onde formam essas opiniões sobre o valor das coisas, e onde se transmitem as  lembranças dos preços, que podem servir de suporte à memória econômica.”(pp 149-150)

“Que as lembranças de um grupo religioso lhes sejam lembradas pela visão de certos lugares, localização e disposições dos objetos, não há do que se espantar. A separação fundamental, para estas sociedades, entre o mundo sagrado e o mundo profano realiza-se materialmente no espaço.” (pp.154-155) Por exemplo existem locais sagrados e profanos, locais que marcaram história na religião, tradições, etc.

 

“Resumindo tudo o que foi dito a maioria dos grupos, não somente aqueles que resultam da justaposição permanente de seus membros, dentro dos limites de uma cidade, de uma casa ou de um apartamento, porém muitos outros também, imprimem de algum modo sua marca sobre o solo e evocam suas lembranças coletivas no interior do quadro espacial assim definido. Em outras palavras, há tantas maneiras de representar o espaço quantos sejam os grupos.”(p.159)

“Assim, cada sociedade recorta o espaço a seu modo, mas por sua vez para todas, ou seguindo sempre as mesmas linhas, de modo a constituir um quadro fixo onde encerra e localiza suas lembranças...” (p.160)

“Concentremo-nos agora, fechemos os olhos, remontemos o curso do tempo tão longe quanto nos seja possível, tanto quanto nosso pensamento possa se fixar em cenas ou pessoas das quais conservamos a lembrança. Jamais saímos do espaço. Não nos encontramos, aliás num espaço indeterminado, porém em regiões que conhecemos, os as quais sabemos muito bem que poderíamos localizar, já que sempre fazem parte do meio material onde estamos hoje. Não adianta fazer esforço para apagar essa sociedade local, para ater-me aos sentimentos que experimentei ou reflexões que formulei outrora.” (p.160)

CONSTRUTIVISMO

Na área da pedagogia, a inspiração para o construtivismo vem principalmente de Jean Piaget. A ideia mais importante da teoria desse psicólog...