Os núbios habitavam a região do atual Sudão, entre a segunda e a sexta cataratas do rio Nilo. Sabe-se que eles formaram aldeamentos fixos no local desde 4000 a.C. O contato com os egípcios favoreceu o compartilhamento de características culturais, como a construção de pirâmides, o cuidado com os mortos e os estilos de pintura e de ornamentação.
A partir de 2000 a.C., a elite da cidade núbia de Querma se impôs sobre as outras cidades núbias e se tornou capital de um novo império: o Império de Cuxe. Com governo centralizado em uma figura semelhante à do faraó egípcio, esse Estado enriqueceu ao intermediar o comércio entre os povos mediterrâneos, o Egito e os povos ao sul da Núbia.
Os núbios exportavam para os egípcios peles, madeira, mar
fim, cascos de tartaruga, resina, incensos e ovos de avestruz,
e do Egito importavam tecidos, azeite, pedras preciosas, mel e
objetos de cobre. Com a descoberta de minas de ouro no sul
da Núbia, Cuxe passou a ser o maior fornecedor desse metal
precioso para a corte do faraó. A comercialização de escravos
também era intermediada pelos núbios. Em geral, tornavam-se
escravos os devedores e os prisioneiros de guerra.
Além de Querma, outros centros urbanos núbios se destacaram no Império de Cuxe: Napata e Méroe.
Napata se tornou a capital de Cuxe, por volta de 1000 a.C., até
a invasão dos assírios em 660 a.C. Para fugir deles e assegurar
a continuidade do Império, os governantes núbios se mudaram
para uma cidade mais ao sul: Méroe. O fim definitivo do Império
de Cuxe ocorreu no século III, com a destruição de Méroe por
uma nova potência: Axum.
REIS E RAINHAS DE CUXE
O Estado cuxita era governado por um rei que, provavelmente, representava o papel de um deus para seu povo, semelhante
ao que ocorria com os faraós egípcios. Os súditos de Cuxe acre
ditavam que o rei era escolhido pelos deuses em um processo
comandado pelos sacerdotes, o que garantia a união do escolhi
do com o plano divino.
A escolha do rei era complexa. Os candidatos eram sempre
membros da família real, preferencialmente os irmãos do soberano. A sucessão real cuxita não se dava, portanto, de pai para
filho. Muitos grupos participavam da escolha do rei, incluindo
nobres, militares, altos funcionários do Estado e sacerdotes.
RAINHAS GOVERNANTES
Uma característica do Estado cuxita era o importante papel
político desempenhado pelas mulheres. Desde o princípio do
Império de Cuxe, a rainha-mãe, ou seja, a mãe do rei, detinha
grande poder e prestígio, tomando parte de algumas decisões
do governo.
Como a sucessão ao trono de Cuxe se dava principalmente
entre irmãos, a rainha-mãe era, na prática, a mãe de muitos
reis, o que aumentava seu poder. As mulheres da família real
também alcançavam altos postos no Estado, principalmente
como sacerdotisas de Amon, cargo de grande poder político e
econômico.
A partir do século II a.C., surgiram as primeiras governantes
mulheres, rainhas que não dividiam o poder com nenhum outro
nobre. Eram as candaces. No fim do século I a.C., uma candace
que habitava Méroe enfrentou as tropas de Roma que dominavam o Egito, fato que foi registrado pelos romanos.
Relevo em parede do templo cuxita
do deus Apedemak, o deus Leão, em
Naga, atual Sudão. A cena mostra
a candace Anamitare de Cuxe (à
direita) golpeando seus inimigos.