quinta-feira, 1 de outubro de 2026

OS NÚBIOS

Os núbios habitavam a região do atual Sudão, entre a segunda e a sexta cataratas do rio Nilo. Sabe-se que eles formaram aldeamentos fixos no local desde 4000 a.C. O contato com os egípcios favoreceu o compartilhamento de características culturais, como a construção de pirâmides, o cuidado com os mortos e os estilos de pintura e de ornamentação.
A partir de 2000 a.C., a elite da cidade núbia de Querma se impôs sobre as outras cidades núbias e se tornou capital de um novo império: o Império de Cuxe. Com governo centralizado em uma figura semelhante à do faraó egípcio, esse Estado enriqueceu ao intermediar o comércio entre os povos mediterrâneos, o Egito e os povos ao sul da Núbia.
Os núbios exportavam para os egípcios peles, madeira, mar fim, cascos de tartaruga, resina, incensos e ovos de avestruz, e do Egito importavam tecidos, azeite, pedras preciosas, mel e objetos de cobre. Com a descoberta de minas de ouro no sul da Núbia, Cuxe passou a ser o maior fornecedor desse metal precioso para a corte do faraó. A comercialização de escravos também era intermediada pelos núbios. Em geral, tornavam-se escravos os devedores e os prisioneiros de guerra. 
Além de Querma, outros centros urbanos núbios se destacaram no Império de Cuxe: Napata e Méroe.

Pirâmides de Méroe, no atual Sudão, construídas entre os séculos III a.C. e III d.C.  

Napata se tornou a capital de Cuxe, por volta de 1000 a.C., até a invasão dos assírios em 660 a.C. Para fugir deles e assegurar a continuidade do Império, os governantes núbios se mudaram para uma cidade mais ao sul: Méroe. O fim definitivo do Império de Cuxe ocorreu no século III, com a destruição de Méroe por uma nova potência: Axum.

REIS E RAINHAS DE CUXE 

O Estado cuxita era governado por um rei que, provavelmente, representava o papel de um deus para seu povo, semelhante ao que ocorria com os faraós egípcios. Os súditos de Cuxe acre ditavam que o rei era escolhido pelos deuses em um processo comandado pelos sacerdotes, o que garantia a união do escolhi do com o plano divino. 
A escolha do rei era complexa. Os candidatos eram sempre membros da família real, preferencialmente os irmãos do soberano. A sucessão real cuxita não se dava, portanto, de pai para filho. Muitos grupos participavam da escolha do rei, incluindo nobres, militares, altos funcionários do Estado e sacerdotes.

RAINHAS GOVERNANTES 

Uma característica do Estado cuxita era o importante papel político desempenhado pelas mulheres. Desde o princípio do Império de Cuxe, a rainha-mãe, ou seja, a mãe do rei, detinha grande poder e prestígio, tomando parte de algumas decisões do governo. 
Como a sucessão ao trono de Cuxe se dava principalmente entre irmãos, a rainha-mãe era, na prática, a mãe de muitos reis, o que aumentava seu poder. As mulheres da família real também alcançavam altos postos no Estado, principalmente como sacerdotisas de Amon, cargo de grande poder político e econômico.
A partir do século II a.C., surgiram as primeiras governantes mulheres, rainhas que não dividiam o poder com nenhum outro nobre. Eram as candaces. No fim do século I a.C., uma candace que habitava Méroe enfrentou as tropas de Roma que dominavam o Egito, fato que foi registrado pelos romanos.

Relevo em parede do templo cuxita do deus Apedemak, o deus Leão, em Naga, atual Sudão. A cena mostra a candace Anamitare de Cuxe (à direita) golpeando seus inimigos. 





Imhotep

Já sabemos que a sociedade egípcia era bastante desigual. Além disso, as posições mais importantes acabavam sendo ocupadas por sujeitos que tinham parentesco com os nomarcas ou o faraó, formando uma espécie de nobreza. Entretanto, as chances de ascensão social nessa sociedade eram bem razoáveis quando comparadas a outras sociedades antigas. 
Alguns indivíduos especialmente talentosos de famílias pobres conseguiam ascender a cargos de chefes militares, sacerdotes e escribas. 
O caso mais famoso é o de Imhotep (no século XXVII a.C. – data de morte des conhecida), que, sem pertencer à nobreza egípcia, conseguiu chegar ao cargo de tjati do faraó Djoser, no Antigo Império. Ele foi considerado um grande sábio, assim como filósofo, poeta, médico, sumo sacerdote e arquiteto, che gando a ser cultuado como deus após sua morte. A ele é atribuída a invenção de um dos maiores símbolos do Egito, as pirâmides, tendo sido o responsável pela construção da primeira delas, a de Sacará.

Chawabti

Além de construírem pirâmides para servirem de túmulos aos soberanos, os cuxitas adotaram outros costumes funerários dos egípcios. Entre esses costumes estava a utilização dos chawabti, estatuetas de madeira, pedra ou marfim que eram sepultadas com os reis e as rainhas. Os chawabti geralmente representavam os servidores dos governantes. Podiam também representar animais, como bois, cavalos e cães.

Chawabti cuxita do século VII a.C.


A Núbia e o Reino de Cuxe

Foi no território do atual Sudão onde o antigo povo núbio construiu uma rica civilização. Em cerca de 7000 a.C., os núbios viviam em aldeias nômades, mas o cultivo de cereais contribuiu para a formação de agrupamentos sedentários que deram origem às primeiras cidades núbias.
Os pesquisadores do século XIX e do início do XX tinham uma visão preconceituosa sobre os povos da chamada África subsaariana, como os núbios. As antigas crenças racistas não permitiam aos estudiosos daquela época reconhecer a importância dessa civilização.
Coube aos arqueólogos contemporâneos reconhecer o preconceito e fazer críticas àqueles estudos. Eles descobriram a riqueza da cultura núbia, que, mesmo sendo marcada pela influência egípcia, tinha sua própria história e importância. 
Os povos da região da Núbia se desenvolveram entre as atuais cidades de Assuã, no Egito, e Cartum, no Sudão. Assim como o Egito Antigo, a região da Núbia acompanhava o curso do rio Nilo e as zonas de oásis. O território era rico em recursos naturais, como ouro, cobre, ferro e pedras semipreciosas. Os egípcios chamavam essa região de Cuxe.
A civilização Núbia, assim como a do Egito, formou-se às margens do rio Nilo. Isso aconteceu graças ao trabalho agrícola desenvolvido nas planícies férteis do rio e à construção de sistemas complexos de irrigação.


Soldados núbios representados em pintura na tumba de Thanuny. c. 1420 a.C. Luxor, Egito.

As relações com o Egito marcaram profundamente a história da Núbia. Longos períodos de trocas comerciais pacíficas entre egípcios e núbios foram entremeados por épocas de dominação imperial egípcia. Por volta de 3100 a.C., o Império Egípcio apoderou-se de parte do território núbio e apropriou-se de suas mercadorias e riquezas, como ouro, pedras preciosas e diorito.
No entanto, muitos historiadores africanos têm destacado que a Núbia não foi apenas uma região dominada pelos egípcios, mas, ao contrário, foi o ponto de partida da civilização egípcia. Por volta de 2000 a.C., uma parte das cidades núbias foi unificada em torno do Reino de Cuxe, cuja capital, Napata, tornou-se um importante centro comercial e religioso até sua queda, no século IV d.C.

Pirâmides construídas no deserto do Saara em região do atual Sudão.  O contato intenso com o povo egípcio influenciou a cultura, a religião e as formas de organizar a sociedade dos povos núbios. Além de apresentarem uma arquitetura semelhante à das pirâmides do Egito, as pirâmides núbias tinham o mesmo propósito: servir de moradia eterna para reis e rainhas após a morte.

O Reino de Cuxe


Os núbios (ou cuxitas) praticavam agricultura e comércio e viviam em uma sociedade hierarquizada, governada por uma elite de sacerdotes e guerreiros.
No Reino de Cuxe, o poder era exercido por um rei ou uma rainha que era, ao mesmo tempo, líder militar, administrador e autoridade religiosa.
Mas, diferentemente do Egito, o rei governava com um grupo de conselheiros e chefes políticos importantes.
O Reino de Cuxe, a partir de 1700 a.C., organizava uma sólida rede de comércio que incluía mercadorias valiosas, como ouro, incenso, marfim, ébano e óleos. Também possuía ricas minas de ouro e vastos territórios cultiváveis.
O poderio militar e comercial dos núbios despertou a rivalidade de seus vizinhos egípcios.
Por volta de 1500 a.C., o Império Egípcio, em um contexto de fortalecimento do poder do faraó, invadiu e dominou a cidade de Napata.
Nos séculos seguintes, toda a Núbia tornou-se um vice-reino do Egito. Nas cidades de Napata e Méroe, foram erguidas diversas pirâmides, expressões da forte influência da cultura e das concepções religiosas dos egípcios.

Estátua do faraó egípcio de origem núbia Taharqa do século VII a.C.

KERMA E NAPATA 


As evidências mais antigas de um reino organizado na região da Núbia são poços utilizados para guardar cereais datados de 2700 a.C., descobertos em uma ilha do rio Nilo. No decorrer dos séculos, a região transformou-se no centro de uma florescente rede de comércio que interligava, por rotas fluviais e terrestres, o mar Vermelho, o Egito e o oeste do atual Sudão.
A cidade de Kerma foi o centro dessa sociedade entre, aproximadamente, 2400 a.C. e 1570 a.C. Construída em terras irrigadas e férteis, graças aos canais do rio Nilo, a cidade era protegida por muralhas com até 10 metros de altura e mais de 1 quilômetro de comprimento. Lá viviam reis e altos funcionários ligados à família real, cuja riqueza provinha do comércio e da exploração de minas de ouro. Segundo pesquisadores, por volta de 2200 a.C., quando uma grande seca devastou o Egito e a Mesopotâmia, Kerma atingiu o seu esplendor.
O Reino de Cuxe foi um dos principais produtores de ouro do mundo antigo. As riquezas e o número de habitantes do reino cresceram principalmente em razão do comércio e da exploração do ouro. Sua população chegou a 10 mil pessoas por volta de 1700 a.C., número pequeno para os nossos padrões, mas muito expressivo para aquela época. 
O crescimento do Reino de Cuxe foi interrompido com a invasão egípcia, iniciada por volta de 1570 a.C. Durante aproximada mente 500 anos, as rotas comerciais e as minas de ouro cuxitas ficaram sob o controle dos faraós.
Nessa época, os núbios adotaram muitos conhecimentos e costumes do Egito, como a escrita hieroglífica e as técnicas de artesanato. Eles ainda foram empregados como mão de obra nas construções e no exército do faraó.

Napata, a nova capital cuxita 


Por volta de 1000 a.C. o domínio egípcio em Cuxe teve fim, e um reino cuxita independente foi fundado. A nova capital do Reino de Cuxe foi estabelecida na cidade de Napata. 
A partir de 730 a.C., exércitos núbios avançaram sobre o Egito, e a partir de então dominaram o território por quase cem anos. De 715 a.C. a 663 a.C., os faraós egípcios eram núbios. Em Napata, os governantes ergueram estátuas, pequenas pirâmides e palácios, além de templos dedicados aos deuses. O maior templo, em homenagem ao deus Amon, situava-se na montanha de Djebel Barkal, sagrada para os egípcios e para os núbios. 
O domínio de Cuxe no Egito começou a ruir no século VII a.C., quando os reis cuxitas foram obrigados a retornar às suas fronteiras originais em Napata. No século VI a.C. a capital cuxita deslocou-se para Méroe, mais ao sul.

Ruínas do templo de Amon. Karima, Sudão, 2013. Em torno de Djebel Barkal há ruínas de ao menos 13 templos e três palácios. Foram identificadas por arqueólogos europeus nas primeiras décadas do século XIX. Muitos dos achados foram levados, à época, para museus na Europa, onde estão até hoje.

Os faraós negros


No fim do século VIII a.C., conflitos internos e invasões enfraqueceram o poder do faraó e provocaram a fragmentação do Império Egípcio.
Naquele contexto, os cuxitas se rebelaram, e um grupo deles navegou pelo rio Nilo até Tebas, capital do Egito. Liderado pelo rei Piye, o grupo derrotou os egípcios e os cuxitas assumiram o poder no Império em 770 a.C.
Começou assim uma nova dinastia de faraós negros, originários das elites militares e religiosas da Núbia. Piye foi aclamado “senhor dos dois reinos”, e seus sucessores deram continuidade ao controle núbio por pouco mais de um século.
A capital foi transferida para Méroe, e a nova dinastia reunificou e fortaleceu as bases do Império Egípcio, reorganizando as atividades econômicas e militares.
No entanto, em 657 a.C., os núbios foram derrotados pelo poderoso exército dos assírios, um dos povos que habitavam a Mesopotâmia. Os assírios desbancaram os faraós negros e impuseram uma nova dinastia aos egípcios.

Candaces: as rainhas-mães de Cuxe


As mulheres núbias da elite desempenhavam papéis importantes na corte como sacerdotisas e conselheiras políticas. Também participavam das dinastias que reinavam em Cuxe em igualdade de condições com os homens. Um complexo sistema de sucessão ao trono integrava duas linhagens: uma patriarcal e outra matriarcal. Assim, o novo rei ou rainha ora fazia parte de uma família patriarcal, ora era originário de uma família matriarcal.
Esse sistema deu origem à figura política das candaces (“rainhas-mães”, em idioma meroíta), que assumiam o trono pela própria condição, e não porque fossem esposas ou filhas de um rei. Em geral, as candaces integravam suas funções de sacerdotisas do deus Amon aos poderes políticos e militares, o que as transformava em lideranças de todo o Reino de Cuxe.

Relevo representando a candace Amanitere, que governou na
primeira metade do século I d.C.

O historiador romano Plínio, o Velho (23-79 d.C.), escreveu o seguinte comentário sobre a cidade de Méroe e a presença de uma rainha-mãe: O imperador romano Nero (37-68) enviou uma expedição à Núbia, em busca das fontes do Nilo. No regresso, os exploradores contaram que a relva na vizinhança de Méroe se apresentava mais verde e mais fresca, que ali havia pequenas matas e sinais de rinocerontes e elefantes. […] Contaram também que na cidade eram poucos os edifícios e que uma mulher de nome candace mandava em toda a área, o nome tendo passado de rainha a rainha ao longo de muitos anos. Disseram também que havia na cidade um templo a Júpiter Amon, deus que era objeto de grande veneração, como mostravam os numerosos pequenos santuários em sua honra espalhados por todo o país.


A CIVILIZAÇÃO DE MÉROE

Nas terras desérticas localizadas nos arredores do Nilo, no atual Sudão, chama a atenção um conjunto de mais de 200 pirâmides construídas pelos núbios. Elas não são grandes como as do Egito, mas cumpriam a mesma função: cobrir os túmulos de reis e rainhas de Méroe, a última capital do Reino de Cuxe.
Além de construtores, os meroítas eram grandes artesãos. Eles produziam lanças, machados e enxadas de ferro, assim como objetos de cerâmica, joias de ouro e tecidos. O ouro era extraído de minas entre o rio Nilo e o mar Vermelho e exportado em grande quantidade para o Egito. Os agricultores cultivavam trigo, cevada, algodão, lentilha e domesticavam bois, cabras, ovelhas e carneiros.
Os meroítas também desenvolveram um comércio eficaz, ligando o mar Mediterrâneo ao interior da África. Por suas rotas comerciais, circulavam ouro, marfim, ébano, peles de leopardo, penas de avestruz, macacos e pedras para a construção de templos e pirâmides. Por volta do século III a.C., Méroe tornou-se um grande empório de produtos vindos de vários pontos da África. Os comerciantes meroítas também obtinham produtos fenícios e gregos, entre outros, e os distribuíam em parte da África e na península Arábica.


Esculturas no Templo do Leão, em Naga, no Sudão. Século III a.C. As ruínas desse templo representam um dos principais exemplares da arte meroíta.

O poder das mulheres em Méroe


As mulheres da família real tinham muito poder no reino cuxita de Méroe. No princípio, elas se limitavam a educar os príncipes. Depois, passaram a exercer um papel importante na escolha do rei e na cerimônia de coroação. Com um poder crescente, algumas se tornaram regentes de seus filhos menores ou se tornaram rainhas-mães, as chama das candaces.
Várias mulheres que ascenderam ao poder foram representadas com corpos robustos, vestindo túnicas franjadas, cheias de colares e enfeites, à frente dos exércitos ou presidindo cultos. O historiador e geógrafo grego Estrabão, no século I a.C., descreveu uma dessas rainhas, a candace Amanishakheto, como uma mulher “viril”. Ela teria participado de uma expedição militar contra os romanos, em 23 a.C., quando foi ferida em combate e perdeu um olho.

Pedestal representando a candace Amanitore, encontrado no sítio arqueológico de Wad Ban Naga, no Sudão. Século I a.C. Relevo em arenito, 117,5 cm # 85 cm # 85 cm. Museu Egípcio, Berlim, Alemanha.

A escrita meroíta


A escrita meroíta foi registrada em templos, túmulos e outros diversos documentos. Desenvolvida a partir dos hieróglifos egípcios, a escrita meroíta era alfabética e tinha duas formas distintas. A primeira delas, mais restrita, era destinada aos documentos religiosos e reais. A segunda, mais utilizada que a anterior, era uma escrita cursiva, derivada do demótico egípcio. O alfabeto dessa segunda escrita tinha 23 sinais, que eram escritos e lidos em sentido contrário aos sinais dos egípcios.



Placa com registro de escrita meroíta. Século VII a.C. Inscrição em arenito, 51 cm # 38,5 cm. Museu Britânico, Londres, Inglaterra.

A escrita meroíta ainda não foi totalmente decifrada. Os estudiosos conseguem identificar os sons de cada um dos sinais da escrita, mas não conseguem interpretar as palavras que eles formam. Apenas alguns nomes de personagens e locais foram decodificados. Dessa forma, os avanços da arqueologia e de outras áreas do conhecimento são essenciais para que a escrita meroíta seja desvendada. Assim, será possível aprofundar os conhecimentos sobre a história e o modo de vida dessa sociedade.


Moisés, um líder para os hebreus

O povo hebreu habitava Canaã, região localizada no atual Estado de Israel. Em 1700 a.C., como a região sofria um período de seca prolongado que prejudicava a produção agrícola, boa parte do povo hebreu partiu em direção ao Egito. O faraó autorizou a permanência dos hebreus no Egito, mas lhes impôs a obrigação de trabalhar e pagar impostos, proibindo que abandonassem o território. 
Foi durante esse período que nasceu Moisés, importante líder da história dos hebreus. Segundo a narrativa bíblica contida no livro do Êxodo, pouco depois do nascimento de Moisés, o faraó ordenou que todos os bebês hebreus do sexo masculino fossem mortos, temendo que um deles pudesse libertá-los da servidão. 
A mãe de Moisés, tentando salvar a vida do filho, deixou-o nas margens do rio Nilo, dentro de um cesto. Uma filha do faraó o encontrou por acaso e resolveu adotá-lo. O nome Moisés significa “aquele que foi tirado das águas”.

Moisés resgatado do Nilo, óleo sobre tela de Nicolas Poussin, 1638. É importante notar que essa obra de arte foi produzida mais de três milênios após a partida dos hebreus para o Egito e, portanto, analisar seu contexto de produção nos ajuda a compreender parte de seus significados. Nicolas Poussin era francês e atuava em Roma. Muitos de seus trabalhos tratavam de temas religiosos, sobretudo do Antigo Testamento. Observe que o artista retrata uma cena que se passa no Egito, no norte da África, mas os personagens têm uma aparência europeia.

Fuga do Egito 


De acordo com a Bíblia, Moisés foi criado no palácio do faraó. No entanto, precisou fugir para o deserto, pois havia se revoltado ao presenciar um soldado castigando com um chicote hebreus que trabalhavam. Sua revolta foi tão grande que ele matou o soldado. 
No deserto, Moisés encontrou hebreus que não tinham migrado para o Egito. Casou-se, teve três filhos e, certo dia, segundo a Bíblia, recebeu uma grande revelação divina. Foi-lhe ordenado que libertasse os hebreus da servidão no Egito e os conduzisse de volta à Terra Prometida. Moisés regressou ao Egito e foi aceito pelos hebreus como guia. 
A Bíblia indica, por meio de um relato fantasioso, que ele enfrentou o faraó e liderou a fuga dos hebreus do Egito. Depois de atravessarem o mar Vermelho, chegaram ao monte Sinai, onde Moisés teria recebido de Yahvé uma lista de regras a serem obedecidas por todos os hebreus, chamada Dez Manda mentos. Nessa ocasião, Yahvé teria feito um novo pacto com os hebreus.
Alguns historiadores afirmam que era Ramsés II quem reinava como faraó durante a fuga do povo hebreu e que o regresso a Canaã teria ocorrido entre 1250 a.C. e 1210 a.C., mas não existem provas definitivas disso.

Moisés com os Dez Mandamentos, óleo sobre tela de Rembrandt van Rijn, 1659.

A crença em um único Deus 


A história dos hebreus conta com fatos anteriores à sua partida para o Egito, e ela começa na cidade de Ur, na Mesopotâmia. Os hebreus eram um povo de origem semita. Viviam da criação de ovelhas e cabras e eram governados por chefes tribais chamados patriarcas. 
A Bíblia conta que um dos patriarcas, Abrão, inconformado com a adoração de seu povo a vários deuses, teria recebido uma mensagem de Deus e feito com ele uma aliança: os hebreus deveriam crer nesse único Deus, conhecido como Yahvé, que lhes mostraria uma terra fértil e segura para viver. Essa terra foi chamada Terra Prometida ou Canaã. 
Para marcar sua aliança com Yahvé, Abrão passou a se chamar Abraão, que significa, de acordo com a Bíblia, “pai de muitas nações”. Em 2000 a.C., liderados por Abraão (ou Abrão), os hebreus partiram em direção a Canaã, onde permaneceram por muitos anos. Os hebreus acreditavam ser o povo escolhido por Deus para adorá-lo. Foram os primeiros a crer em um único Deus. Por isso, são considerados o primeiro povo monoteísta.

Israel e Judá 


Depois de muitos anos vagando pelo deserto, os hebreus chegaram a Canaã, mas tiveram de lutar contra outros povos que habitavam a região. Conquistaram o território e o dividiram entre as doze tribos hebreias. Naquele momento, cada tribo era governada por um chefe com função militar e religiosa, chamado juiz. Para defenderem suas terras contra os inimigos cananeus e filisteus, as tribos se uniram sob a liderança de Saul, primeiro governante do Reino de Israel (cerca de 1010 a.C.). Saul foi sucedido por Davi, guerreiro da tribo de Judá, que derrotou os filisteus por volta do ano 1006 a.C. A cidade de Jerusalém passou a ser a capital do Reino de Israel. Em 965 a.C., Davi foi sucedido por seu filho, Salomão. A economia do Reino de Israel prosperou nesse período. Salomão construiu uma frota de navios de comércio e ergueu um grande templo religioso em Jerusalém. Após a morte de Salomão, o aumento dos impostos decretado por seu filho provocou várias revoltas. O reino se dividiu em dois: Reino de Judá, ao sul, com apenas duas tribos, e Reino de Israel, ao norte, com o restante delas. Em 722 a.C., os assírios conquistaram o Reino de Israel. Em 587 a.C., foi a vez de Judá ser conquistado pelos babilônios. Os hebreus retornaram a Canaã somente em 539 a.C., quando os persas derrotaram os babilônios.


A religião dos hebreus

Judaísmo é o nome da religião dos hebreus, que foi o primeiro povo a crer em um único deus, Yahvé, adora do como criador de todo o Universo. 
O livro que conta a trajetória do povo hebreu é chamado Torá e corresponde a uma parte da Bíblia, o Pentateuco, que com põe, com outros livros, o Antigo Testamento. A Torá é lida até hoje nas sinagogas, local de culto do judaísmo, onde é guardada cuidadosamente dentro de uma arca. 
O líder religioso dos judeus chama-se rabino. Um símbolo importante do judaísmo é a estrela de Davi, de seis pontas, desenhada nos escudos dos guerreiros do rei Davi. Uma das festas religiosas mais tradicionais do calendário judaico é o Pessach (passagem), nome hebraico para a Páscoa. Nela se comemora a libertação dos hebreus do cativeiro egípcio, liderados por Moisés.

Estrela de Davi na Sinagoga Grand Choral em São Petersburgo, Rússia. Fotografia de 2015.

A Estrela de Davi Peça aos estudantes que pesquisem o significado da Estrela de Davi. Esta estrela era desenhada nos escudos dos guerreiros do rei Davi. Os dois triângulos superpostos representam o nome de Davi no alfabeto hebraico, mas eles só foram associados ao judaísmo em 1354, com o rei Carlos IV, que permitiu à comunidade judaica de Praga colocá-la em uma bandeira. A estrela foi usada e depois se difundiu para outros usos, como selos e carimbos dos judeus.

Jerusalém e o Muro das Lamentações

A cidade de Jerusalém foi, por mais de seis centos anos, a capital dos hebreus. É considerada um tesouro cultural da humanidade. Na Jerusalém atual, a parte interna das antigas muralhas é chamada Cidade Velha, e a parte de fora é conhecida como Cidade Nova. O templo construído por Salomão foi destruído e saqueado pelos babilônios em 587 a.C. Foi reconstruído em 516 a.C. e durou mais de meio milênio, quando os romanos o destruíram de vez, em 70 d.C., ao expulsarem os hebreus da região. O que restou do Templo de Salomão tornou-se local sagrado para os judeus e é conhecido como Muro das Lamentações.

No Muro das Lamentações, os judeus fazem orações, cerimônias e pedidos a Deus, escritos em bilhetes colocados entre suas pedras.

Davi com a cabe•a de Golias, óleo sobre tela de Caravaggio, 1610.

O passado presente

A terra prometida aos hebreus chamava-se Canaã, segundo o relato bíblico. Estima-se que os hebreus tenham se fixado na região por volta do século XX a.C., mas foi somente no século XI a.C. que surgiu o Reino de Israel, cujo primeiro rei foi Saul. Depois de muitas lutas e perseguições, em 70 d.C., os hebreus foram expulsos da Palestina, que era província do Império Romano. Assim, esse povo se espalhou por vários continentes. No século XX, os judeus sofreram a maior perseguição de todos os tempos, movida por uma ditadura surgida na Alemanha – o nazismo – que os considerava inimigos. 
Cerca de 6 milhões de judeus europeus foram mortos pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra, os sobreviventes migraram em massa para a Palestina, empenhados em construir um Es tado judaico. Nessa época, a região era habitada, principalmente, por povos árabes de religião muçulmana e pertencia ao Império Britânico. Com o apoio dos Estados Unidos e de outros países ocidentais, a Organização das Nações Unidas (ONU) decidiu criar dois Estados na região: um judeu e um árabe. Este último não saiu do papel. 
O Estado de Israel foi criado em 1948, contrariando a oposição dos países árabes no Oriente Médio. Desde então, a região é palco permanente de conflito entre os países árabes e o israelense. A população palestina de origem árabe vive refugiada nos países próximos ou mesmo em Israel. Os palestinos não têm um país para eles. Vários acampamentos palestinos ou de guerrilheiros anti-israelenses são bombardeados pelo Estado de Israel, um dos mais militarizados do mundo.

Estrela de Davi representada em pergaminho do Códice de Leningrado, produzido por volta do ano 1000 d.C.

CONSTRUTIVISMO

Na área da pedagogia, a inspiração para o construtivismo vem principalmente de Jean Piaget. A ideia mais importante da teoria desse psicólog...