domingo, 20 de setembro de 2026

O REINO DE AXUM

O Reino de Axum, onde atualmente se localiza a Etiópia, começou a se formar por volta do século V a.C., em uma área de solos férteis que estimularam a agricultura e a criação de animais.
Os axumitas eram um povo que habitava a região leste do continente africano, onde atualmente se localiza a Etiópia, na divisa com a Eritreia. Inicialmente, as principais atividades econômicas desse povo eram a agricultura e a pecuária.
Atualmente, a região conhecida como Chifre da África, no nordeste do continente, é composta de países como Somália, Etiópia, Eritreia e Djibuti.
Os primeiros habitantes do Chifre da África vieram do sul da Península Arábica, região separada do continente africano pelo Mar Vermelho. Por volta do século VII a.C., a agricultura e a criação de gado eram as principais atividades econômicas, mas o comércio também ganhava força.
A sua localização lhes permitiu o desenvolvimento de comércio com diferentes povos da África, do Oriente Médio e da Europa, por exemplo.
Os principais produtos comercializados eram o ouro, o marfim, a pele de hipopótamo e de outros animais, incenso, tecidos e joias.
A escrita já era conhecida por essa população, que fazia uso dela em transações comerciais. O comércio crescia, alimentado pelas caravanas de mercadores vindos de diferentes regiões da África, da Península Arábica e da Índia.
Com o crescimento do comércio, as aldeias expandiram-se, transformaram-se em cidades.
Por volta do século I, esse povo formou um poderoso reino, o Reino de Axum.
No século II a.C., Adúlis contava com o mais movimentado porto do Mar Vermelho. Por ali saíam, em direção ao Egito, à Grécia, à Índia e à China, mercadorias de luxo, como marfim, chifres de rinoceronte, carapaças de tartaruga, artigos de ferro e bronze, e também pessoas escravizadas.
O centro do Império era a cidade de Axum, que deu nome ao império e estava situada no planalto etíope. Originalmente, um aldeamento agrícola onde se miscigenaram árabes (iemenitas) e africanos, Axum se fortaleceu ao controlar a rota comercial que ligava o mar Vermelho ao vale do rio Nilo e ao sul da África. 
Enriquecido pelo comércio, o rei de Axum pôde organizar um exército eficiente, que conquistou um enorme território, incluindo prósperas cidades portuárias, como Adúlis, formando, assim, um grande império. 
No século III, auge do poder axumita, as tropas imperiais conquistaram o vizinho Império de Cuxe, destruindo Méroe. O exército de Axum invadiu também a margem oriental do mar Vermelho, conquistando territórios que hoje se situam no sul da Arábia Saudita e no Iêmen.
Pelos portos do Império de Axum, no mar Vermelho, passavam as mais variadas mercadorias, distribuídas no Ocidente e no Oriente, ligando os Impérios Romano e Persa com a África Oriental e com as regiões mais distantes da Ásia, principalmente a Índia e a China.

O gêes 


As trocas comerciais possibilitaram o intercâmbio cultural com diversos povos. Por exemplo, a influência cultural dos povos árabes (que estudaremos mais adiante) podia ser percebida no idioma axumita, o gêes, que continha elementos da língua árabe em sua origem. O gêes é falado até a atualidade na Etiópia, sobretudo em cerimônias religiosas.


Uma rainha axumita 


Embora o Reino de Axum tenha desaparecido, dele restou uma das histórias mais conhecidas de todo o continente africano: a de Makeda, a rainha de Sabá. Famosa por sua beleza, a rainha teria sido uma das governantes do Reino de Axum. Segundo a lenda, ela teria ouvido falar da sabedoria de Salomão, rei de Judá, e decidiu empreender uma jornada até Jerusalém para conhecer o monarca. 
Da união da rainha de Sabá com o rei Salomão nasceu Menelik, mais tarde coroado rei de Axum. Menelik é considerado o primeiro representante de uma dinas tia de reis etíopes que se estendeu até o século XX.

Rainha de Sabá representada em baixo-relevo do século VI a.C. descoberto na Etiópia.

A expansão territorial 


Ao longo dos séculos II e III, o Reino de Axum se expandiu, exercendo domínio e influência sobre territórios no sul da península Arábica. Os exércitos de Axum eram fortes e bem-organizados, garantindo a ocupação dos territórios e o pagamento de tributos ao governante axumita.
Enquanto Adúlis se destacava no litoral, Axum era um importante centro comercial no interior. Por ali passavam mercadores vendendo artigos muito valorizados na época, como ouro, sal e plumas. Em seu apogeu, a cidade controlava todo o comércio de mercadorias entre o interior da África e Adúlis, e entre Adúlis e o Egito.

Moeda do Reino de Axum, com o perfil do rei Afilas, século III.


Com toda essa atividade comercial, o Reino de Axum enriqueceu e expandiu seus territórios. Dominou o Reino de Cuxe e outras áreas vizinhas, chegando a conquistar terras na Península Arábica. 
Estudos recentes indicam que, durante o governo do rei Ezana, entre os anos de 330 e 356, Axum expandiu sua influência dentro do continente africano, chegando até a região da Núbia, território onde estava estabelecido o Reino de Cuxe.
Os axumitas teriam dominado a capital Méroe, levando-a à ruína. O desmantelamento dessa cidade, posteriormente, daria origem a outros reinos.
A prosperidade desse reino era tão grande que, no século III, passou a cunhar moedas de ouro, prata e cobre. Até a primeira metade do século IV, a população era politeísta. Por essa época, o rei Ezana se converteu ao cristianismo. 

O comércio axumita


Do século III ao VI, no período de maior prosperidade, Axum controlava um dos três cruzamentos comerciais mais importantes do Mundo Antigo e impunha-se como intermediário obrigatório nas trocas entre os países do Mediterrâneo e da Ásia oriental.
A facilidade de acesso ao Mar Vermelho e ao Rio Nilo proporcionou aos axumitas o contato com egípcios, gregos, romanos, árabes, persas, sírios, indianos e judeus, com os quais mantiveram intenso comércio. 
As trocas comerciais possibilitaram um intercâmbio cultural: a língua e a escrita de Axum assemelhavam-se às do Sul da Península Arábica, enquanto seus costumes e tradições assemelhavam-se aos dos gregos e romanos. As cidades mais importantes abrigavam grupos de comerciantes estrangeiros, como romanos e bizantinos, árabes e indianos.
Os axumitas compravam e vendiam marfim, algodão, linho, seda, vidro, machados, adagas, vinho, azeite, pedras preciosas e objetos de luxo. No comércio popular circulavam mercadorias como sal, alimentos, cerâmica, tecidos rústicos e utensílios de ferro. Os pagamentos eram feitos com moedas de ouro, prata e bronze.
O desenvolvimento comercial estimulou as viagens pelo Oceano Índico, pelo Mar Vermelho e pelo Mar Mediterrâneo e favoreceu a produção de conhecimentos técnicos sobre navegação. As embarcações eram feitas de pranchas de madeira presas com cordas e resistiam a longas viagens.

POTÊNCIA COMERCIAL 

Do interior da África, chegavam produtos como sal, ouro, marfim, peles de animais, plumas e cascos de tartaruga. Es cravos também eram comercializados. Da Índia e da China, vinham tecidos finos de algodão, pimenta, pérolas e seda. Do Império Romano, vinham azeite, vinhos e objetos de metal e de vidro. 
Todas essas mercadorias se cruzavam principalmente em Adúlis, o maior dos portos axumitas, frequentado por romanos, indonésios, judeus, indianos, persas e árabes, que formavam, com os africanos, uma comunidade cosmopolita.
Os axumitas criaram um sistema de escrita próprio com base em sua língua, o gueze. Além do gueze, a elite de Axum, incluindo os comerciantes, também falava e escrevia no idioma grego, pois era utilizado na época como língua internacional pela maioria dos povos que viviam no Oriente mediterrânico, incluindo o Egito. 
A crise que atingiu o Império de Axum, a partir do século VII, foi consequência da consolidação do poder muçulmano na península Arábica e no norte da África, que buscou controlar as rotas comerciais do mar Vermelho, antes dominadas pelos axumitas.

Sociedade e cultura axumita 


A sociedade subdividia-se em nobres, mercadores, marinheiros, artesãos, soldados e numerosos escravos. Grande parte da riqueza axumita era produzida pelo comércio, pela exploração do trabalho escravo e pela criação de gado.
As ruínas encontradas evidenciam o desenvolvimento da arquitetura e o enorme poder dessa sociedade africana: edifícios religiosos imponentes, túmulos e estelas, das quais a mais alta ultrapassa 33 metros e tem nove andares. Os templos, talhados e esculpidos, eram erguidos com trabalho coletivo.

O cristianismo


No século IV, teve início em Axum a divulgação da religião cristã, por influência de um conselheiro real que era cristão e viera da cidade de Roma, capital do Império Romano, onde o cristianismo estava em expansão. 
O rei Ezana, que governou entre os anos 320 e 350, converteu-se ao cristianismo e o trans formou na religião oficial de Axum. Com o tempo, a nova religião foi aceita pela população, convivendo com as crenças locais.
Foi durante o governo de Ezana, no século IV, que o cristianismo se tornou a religião oficial do Reino de Axum.
A Igreja axumita diferenciou-se das outras tradições monoteístas, pois incorporou elementos do cristianismo (como a catequese) e introduziu danças, cânticos e tambores típicos das celebrações judaicas. 
Axum tornou-se então o primeiro reino cristão do continente africano. Ainda hoje a Etiópia é um país de maioria cristã. 
Ainda no século VI, o Império de Axum foi se enfraquecendo devido a conflitos e disputas comerciais com outros impérios da época, sobretudo o Bizantino e o Persa. Nos séculos VIII e IX, sua influência política e seu poder militar diminuíram ainda mais, como consequência da expansão islâmica na África.
No século VII, o território de Axum foi invadido e dominado pelos muçulmanos.
Ainda nos dias atuais, a religiosidade cristã permanece na região da Etiópia, como podemos perceber pela imagem a seguir.

Catedral da Santíssima Trindade, em Adis-Ababa, na Etiópia, 2020. A forte presença do cristianismo até os dias de hoje na Etiópia é um elemento de permanência da época do Reino de Axum.

Com a conversão ao cristianismo, muitos elementos da cultura cristã passaram a fazer parte do cotidiano dos axumitas. Igrejas, cópias da Bíblia em latim ou traduzidas para o gêes, assim como estátuas, moedas e iconografias, atualmente são vestígios históricos que nos fornecem informações sobre a história do Reino de Axum cristianizado. 

Os sítios arqueológicos


Os principais sítios arqueológicos sobre a história de Axum são os de Adulis, Matara e Kohaito, todos localizados na atual Eritreia. Nesses locais, encontram-se sepulturas, obeliscos e ruínas de diversos edifícios relacionados à história de Axum.
Ainda há muito o que descobrir sobre a vida dos axumitas, porém escavações e pesquisas recentes indicam que o Reino de Axum chegou a reunir entre 10 a 12 cidades sob o governo central. 
Supõe-se que viviam cerca de 20 mil pessoas no reino, socialmente organizadas em uma nobreza que incluía o rei, os sacerdotes e os militares, uma camada intermediária, formada por mercadores e comerciantes, e uma camada popular, formada, em sua maioria, por pessoas pobres, camponeses e artesãos.


Povos bantos

Bantos é o nome dado aos povos africanos com origem comum, formas de organização cultural e idiomas semelhantes e que habitam a extensa faixa de terra ao sul do Saara, na costa atlântica. O termo banto significa “povo” ou “"seres humanos”. É o plural de muntu, que significa “gente”.
Os bantos formam um conjunto diversificado de povos cujas culturas possuem concepções de mundo interligadas e afinidades linguísticas, isto é, falam idiomas que têm uma base comum.
Eles surgiram como uma sociedade distinta, por volta de 3500 a.C., nos planaltos entre os territórios atuais da Nigéria e de Camarões. Viviam, originalmente, em um ambiente de floresta, próximo aos rios, onde cultivavam milho, feijão, bananas e palmeira de dendê.
De lá, iniciaram um impressionante e prolongado movimento migratório para o sul e para o leste africano e, atualmente, após milhares de anos, ocupam um terço do continente. Essas migrações provocaram mudanças e adaptações na tradição banto, provocadas pelos desafios ambientais para ocupar novas terras e pelo convívio com outros povos.
Assim, surgiu uma diversidade imensa de povos, com seus costumes e suas culturas específicas, mas que descendem daquela primeira comunidade banto e, em geral, compartilham certas visões de mundo e possuem semelhanças linguísticas e culturais.

Migrações dos bantos 


Estudos recentes mostram que os povos bantos, que atualmente ocupam diversas regiões da África Central (como a República Democrática do Congo e Angola) e o Norte da África do Sul, inicialmente teriam partido de onde hoje nomeamos como Camarões. Essa migração durou cerca de 2 500 anos.
Durante muito tempo, os estudiosos acreditavam que os bantos povoaram essas regiões porque já conheciam a metalurgia. Mas, recentemente, pesquisadores demonstraram a possibilidade de os bantos terem adquirido esse conhecimento durante o processo de migração, e não antes.

Modo de vida dos bantos


Em geral, os bantos ocupavam terras que estavam disponíveis e formavam al deias. Erguiam casas com varas de madeira e barro socado, cobrindo-as com sapé; o piso era feito de madeira e pedra. Derrubavam e queimavam a mata para formar roças e fazer cercados para a criação de ovelhas, cabras e bois. Pescavam nos riachos e lagos das redondezas usando anzóis e ar pões de ferro. Com lanças e flechas, caçavam antílopes, búfalos e porcos selvagens.
Os bantos estabeleceram contatos com grupos de caçadores e coletores que viviam nas savanas e florestas africanas. As disputas de território entre eles eram frequentes; outras vezes, formavam alianças firmadas por casamentos ou troca de presentes. Quando os recursos naturais se tornavam escassos, os bantos procuravam novas áreas para ocupar, e, naturalmente, acrescentavam à sua cultura novos hábitos, palavras e crenças dos povos nômades com os quais mantinham contato.
Os bantos habitavam aldeias e vilas, onde a prática da agricultura, a pesca e a caça formavam a dieta alimentar. Em contato com a cultura nok, por volta de 200 a.C., os bantos aprenderam a fundir o bronze e o ferro e a produzir, com esses metais, armas de caça e ferramentas agrícolas mais eficientes.
A partir do século IX d.C., povos de origem banto tornaram-se hábeis comerciantes de marfim, ouro e pedras preciosas. Por acessarem os portos do oceano Índico, esses povos estabeleceram cidades prósperas e mantiveram relações comerciais com os árabes que habitavam a península Arábica.

Vestígios do Grande Zimbábue, no atual Zimbábue. Fotografia de 2019. O Grande Zimbábue foi centro de um império comercial africano entre os séculos XII e XVI. Seu povo pertencia a um grupo de língua banto chamado Shona.

As linhagens: base da organização social e política


A expansão banto, diferentemente das expansões imperiais, raramente foi marcada pela conquista militar e pelo saque, ainda que existissem tensões e disputas pelo uso da terra. Em geral, os encontros com sociedades distintas foram momentos de intercâmbio cultural, compartilhamento e troca de práticas, valores e linguagem.
As sociedades banto, por um longo período, não organizaram Estados centralizados. As relações entre as pessoas, a construção dos valores e a noção de pertencimento a um grupo social se baseavam na linhagem. Os bantos entendiam a linhagem como uma unidade formada pelos descendentes de um ancestral comum que viveu há muitas gerações.
Essa unidade incluía os vivos, os mortos e os não nascidos e se relacionava com deuses e forças da natureza que envolviam a experiência cotidiana. Os bantos tinham uma concepção holística do mundo, isto é, para eles, todas as formas de existência se integravam, por isso, os cultos aos ancestrais eram tão centrais na espiritualidade banto.
Em geral, os bantos acreditavam na existência de uma divindade suprema, porém ela não agia sobre os seres terrestres. Os antepassados, sim, faziam parte da vida de homens e mulheres e eram cultuados, pois acreditava-se que eles poderiam interferir, de forma benéfica ou maléfica, no mundo.
Para os bantos, os antepassados tinham o poder de trazer harmonia e equilíbrio para as linhagens e para as comunidades, bem como evitar guerras, secas prolongadas e outras calamidades.
Assim, as linhagens definiam as relações coletivas em uma aldeia ou cidade, articulando a família, o grupo mais amplo e as práticas e concepções religiosas. O poder não estava concentrado na figura de um rei ou sacerdote, mas em posições de autoridade nas linhagens, segundo regras que variaram ao longo do tempo e conforme cada povo.
Apenas a partir do século X d.C., surgiram reinos independentes, com poder centralizado em torno de reis ou rainhas que reuniram diversas aldeias. O mais conhecido foi o Reino do Congo, fundado no século XIV nas regiões dos atuais Angola, Congo e Gabão.

A arte dos povos bantos


Uma das características mais conhecidas dos povos bantos é a grande produção de obras de arte, consideradas de excelente qualidade. São esculturas com ancestrais, objetos que representam o poder desempenhado pelo chefe – como tronos e cajados –, além de máscaras. 
As máscaras produzidas pelos povos bantos apresentam grande variedade de formas e podem ser usadas em diferentes cerimônias: agrícolas, funerárias e de iniciação masculina – para celebrar quando os meninos passam da infância para a adolescência. O material mais utilizado pelos artistas na produção das máscaras é a madeira. 
Milhares de obras dos povos bantos podem ser vistas em museus de diversos países europeus. Isso porque os países que dominaram a África no passado se apropriaram de grande parte do patrimônio arqueológico das sociedades africanas.

Os bantos e a cultura brasileira


Os povos bantos tiveram papel fundamental na sociedade brasileira, sendo uma das matrizes de nossa formação. Estima-se que, entre os séculos XVI e XIX, cerca de 4,8 milhões de africanos foram escravizados e enviados para grande parte do território que hoje constitui o Brasil. Cerca de 75% desse total era de origem banto – eram pessoas embarcadas principalmente nos portos de Angola, Congo e Moçambique atuais. Elas eram trazidos para trabalharem à força nas lavouras, nas minas de ouro, nas cidades, na pecuária, nos domicílios e em outros locais.
Os bantos e seus descendentes criaram ou influenciaram diversos ritmos musicais, como o samba e o maracatu, e conceberam instrumentos como o berimbau e a cuíca. As culturas banto também integraram, junto com o povo iorubá, a formação das chamadas “religiões de santo”, como o candomblé, e recriaram festas religiosas católicas, como a congada.
Inúmeros alimentos e formas de preparo utilizados pelos bantos fazem parte da alimentação cotidiana da população brasileira, como a melancia, o jiló, o quiabo, o feijão-fradinho e o azeite de dendê.
Uma infinidade de palavras do português falado no Brasil tem origem banto, como moleque, cafuné, quilombo, dengoso, fubá e farofa. Há ainda palavras banto que substituíram, no dia a dia, as portuguesas, como xingar (em vez de insultar), cochilar (em vez de dormitar) e caçula (em vez de “benjamim”). Essa presença banto no idioma indica a influência desses povos na construção da cultura brasileira, pois o idioma falado é um instrumento poderoso de pertencimento (a uma cultura) e de circulação de ideias.

A CIVILIZAÇÃO NOK

Uma vila chamada Nok, localizada no interior da atual Nigéria, despertou a atenção dos pesquisadores quando um grupo de mineradores descobriu um conjunto de estatuetas de terracota no início do século XX.
Depois disso, uma equipe de arqueólogos instalou-se na região e encontrou antigos fornos de fundição de ferro, além de estatuetas semelhantes em locais próximos.
A investigação científica dos locais e dos vestígios permitiu concluir que um único povo havia habitado o vasto território entre a Nigéria, o Níger e o Benin atuais. Como não havia registros escritos, os pesquisadores chamaram esse povo de cultura nok e identificaram, com base em testes de datação, que ele teria existido entre os séculos V a.C. e II d.C.
A data de origem da cultura nok surpreendeu os estudiosos, pois revelou a mais antiga sociedade africana a produzir esculturas de barro e dominar a metalurgia do ferro. Além disso, observou-se que o estilo artístico criado pela cultura nok influenciou diretamente a criação de estatuetas entre os iorubá, um dos maiores grupos étnicos que vivem ao sul do deserto do Saara, isto é, na África Subsaariana.
A cultura Nok desenvolveu-se por volta dos séculos VI a.C. a II d.C., às margens do rio Níger, no centro da atual Nigéria. Pelas características dessa sociedade, a maioria dos pesquisadores considera que essa cultura pertenceu ao Neolítico africano. Durante seu apogeu, ocupou áreas que atualmente correspondem ao território de países como Nigéria, Níger, Mali, Costa do Marfim, entre outros.
A região onde viviam os noks era rica em minério de ferro. Os historiadores acreditam que, desde o século VI a.C., seus habitantes já sabiam fabricar objetos desse metal. Eles cavavam pequenos fornos circulares no chão com pouco mais de meio metro de profundidade e ali aqueciam o minério até obter ferro fundido. Esses pequenos fornos serviam também para cozinhar esculturas de terracota.

Detalhe de estatueta de terracota atribuída à tradição Nok, encontrada na atual Nigéria, representando uma figura feminina. 

Ainda não se sabe se a cultura Nok era formada por um ou mais povos, já que ainda não foi possível identificar se os vestígios encontrados pertencem a apenas uma comunidade ou a várias delas. Dessa forma, convencionou-se atribuir a autoria desse conjunto de fontes históricas à cultura Nok ou tradição arqueológica Nok, outra expressão usada para defini-la.
Os artefatos foram encontrados de maneira inusitada: trabalhadores de uma mina encontraram uma escultura de cerâmica. Era o primeiro vestígio atribuído à cultura Nok. A busca por outros vestígios trouxe importantes resultados, como a redescoberta de outras culturas ou tradições da África Antiga. 
A partir dos anos 1960, por exemplo, foram encontradas na África Ocidental as culturas antigas ou tradições Dhar Tichitt, na atual Mauritânia, Jenné-Jeno, no atual Mali, e Igbo-Ukwu, na atual Nigéria. Os povos dessas culturas ou tradições desen volveram tecnologias diversas, como utensílios de pedra poli da, moradias e artefatos de cerâmica e ferramentas de bronze, respectivamente. 
No caso da tradição Dhar Tichitt, sabe-se que era de povos seminômades e dedicados ao pastoreio. Já os das tradições de Jenné-Jeno e de Igbo Ukwu eram, provavelmente, sedentários e realizavam práticas agrícolas.
Os nok foram inicialmente caçadores-coletores e se estabeleceram na região de Nok por volta do século X a.C., transformando-se ao longo dos séculos seguintes em agricultores. Cultivavam sorgo (um cereal utilizado na produção de farinhas) e inúmeros vegetais.
Utilizavam ferramentas de pedra, mas fabricavam também instrumentos de ferro, como enxadas, machados e cutelos, que devem ter contribuído para o aumento da produção agrícola.

Estatueta de terracota da cultura nok, representando pessoas
e o cotidiano dessas pessoas, produzida entre os séculos VI
a.C. e VI d.C. Observe à direita a mullher com duas crianças.


Estatueta de terracota da cultura nok produzida entre os séculos V a.C. e II d.C.


A civilização nok desapareceu por volta do ano 200 d.C. Alguns historiadores afirmam que os noks foram os ancestrais da cultura iorubá, que se desenvolveu nessa mesma região da África séculos mais tarde e que exerceu grande influência na formação da população brasileira após o século XVI.

CARACTERÍSTICAS DAS COMUNIDADES NOK 


Um dos principais vestígios da cultura Nok são as esculturas em argila cozida, técnica conhecida como terracota. Com base na análise dessas esculturas e de outros vestígios materiais, como sementes, ossos de animais, fundações de cabanas, restos de fogueiras, entre outros, os arqueólogos e historiadores tentam desvendar as características dessa cultura. As esculturas reproduzem figuras de seres humanos e de animais, procurando expressar as emoções das pessoas representadas. 
Até o momento, sabe-se que os habitantes da antiga Nok moravam em aldeias agrícolas. Plantavam sorgo, inhame, dendê e abóbora em grande quantidade, na região chamada atualmente de planalto de Jos, no centro da atual Nigéria. 
Além disso, eles foram os pioneiros no domínio da técnica da fundição de ferro no continente africano, no século VI a.C. A fundição de ferro e a criação de esculturas elaboradas indicam a existência de uma sociedade organizada. 
Os povos da tradição Nok dominavam processos como a extração e a transformação do minério de ferro. Com esse metal, produziam ornamentos, como colares e pulseiras, lanças e instrumentos agrícolas, como os arados. Eles também dominavam as técnicas de trabalho com o barro e o cozimento das peças de cerâmica.

Vestígios da cultura Nok em caverna no norte do Togo. Foto de 2019. Essas fontes materiais podem indicar a alta densidade demográfica dos povos Nok.

A cultura Nok desapareceu por volta do século II por motivos ainda desconhecidos. Uma hipótese são as mudanças ambientais que dificultaram a agricultura na região ocupada pelos po vos dessa cultura. Também há teorias que suspeitam de ataques de povos seminômades.

Arte e culto aos antepassados


Criar ou reproduzir uma escultura dessas exige aprendizado e o domínio de várias técnicas. Para começar, é preciso encontrar o tipo de barro apropriado, saber manipulá-lo da forma correta, conhecer ferramentas e instrumentos para confeccionar os detalhes mais difíceis (veja o pescoço da estatueta). É necessário ainda dominar o uso do forno, controlar a altura do fogo e definir o tempo exato para a queima.
A cultura nok, portanto, possuía os conhecimentos fundamentais para a criação desses objetos e encontrou uma forma de transmiti-los para as gerações futuras.
Mas por que esse povo fazia estatuetas? Será que havia uma escola
que ensinava as pessoas a produzir essas obras? Não temos muitas informações sobre a cultura nok, mas sabemos que, nas sociedades tradicionais, os conhecimentos não eram transmitidos em escolas, mas oralmente nas atividades do dia a dia. Em muitos povos africanos, artesãos se especializaram no trabalho com cerâmica, na fundição de ferro e outros metais e em outras práticas manuais. Ao longo do tempo, surgiam novas técnicas que ampliavam os saberes e os usos dos artefatos, colaborando para a transformação das relações sociais e econômicas de uma determinada sociedade.

Cabeça e torso de figura feminina produzida com terracota entre os séculos VI a.C. e III d.C.

Cabeça de uma rainha iorubá de Ifé, na atual Nigéria, produzida com terracota e datada entre os séculos XII e XIII d.C.


A IMPORTÂNCIA DO NILO PARA OS EGÍPCIOS

O rio Nilo é o maior rio do continente africano e um dos mais extensos do mundo, abrangendo países como Uganda, Tanzânia, Ruanda, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi, Sudão, Sudão do Sul, Etiópia e Egito atuais. No Egito, está localizado o delta do rio Nilo, que deságua no mar Mediterrâneo. O Nilo recebe diferentes nomes nas localidades por onde passa. Ao longo da história, também foi denominado de diversas formas. 
Os nomes dados pelos povos da África Antiga geralmente as sociavam o Nilo a alguma divindade. Essa característica cultural evidencia a importância das águas desse rio e das terras fertilizadas por ele para a sobrevivência das comunidades. Inicialmente, ele foi associado ao deus Hapi, considerado um dos criadores do mundo. Os pontos cardeais também eram determinados pela posição da nascente do rio. Por isso, a maioria desses povos se orientava tendo por base o sul, onde nasce o rio e, segundo os mitos, onde surgiu todo o Universo.
À medida que a mitologia se tornava mais complexa, o Nilo foi relacionado a um dos principais deuses da cultura egípcia antiga: Osíris, senhor da fertilidade e da morte. O fato de o rio cortar uma área de deserto e de suas margens serem uma das únicas áreas férteis da região contribuiu para que associações como essa fossem feitas.
Vista de Cartum, capital do atual Sudão. A cidade é entrecortada por dois afluentes do rio Nilo (o Nilo Branco e o Nilo Azul) e pelo Nilo principal. Na imagem, é possível notar a intensa urbanização das margens do rio Nilo principal.

O Saara é o maior deserto do mundo. Suas areias atravessam dez países e dividem o continente africano em duas partes. Ao norte do deserto estão países como Egito, Líbia, Tunísia. Já o sul abriga Angola, Congo, Quênia, África do Sul etc. Banhado pelo Mediterrâneo, o norte da África foi o berço da civilização egípcia.
A história dos antigos egípcios está profundamente ligada ao Rio Nilo. Por volta de 8500 a.C., havia diversas pequenas comunidades instaladas às suas margens. Todos os anos, o Nilo transbordava por causa das chuvas em sua nascente. Com a cheia, o húmus trazido pelo rio era depositado em suas margens. As pequenas comunidades aproveitavam a fertilidade do solo e plantavam principalmente cereais, linho e leguminosas.
Por volta de 4000 a.C., os moradores desses pequenos vilarejos – chamados nomos – desenvolveram conhecimentos em engenharia e começaram a construir diques para estocar água. Dessa maneira, as comunidades podiam transportar a água para irrigar regiões mais distantes e armazená-la para períodos de seca.
Durante o século XX, o país investiu na construção de barragens para evitar os danos provocados pelas cheias do Rio Nilo e para melhor utilizar os recursos oferecidos por esse único rio do país. Tal investimento viabilizou o desenvolvimento do cultivo de trigo, arroz, milho, cana-de-açúcar e algodão, além da produção de energia de origem hidráulica.

Rio Nilo, no Egito, em fotografia atual.

Grande parte do território do Egito Antigo localizava-se no Deserto do Saara. Essa área é ocupada desde o Período Neolítico e suas primeiras cidades se formaram cerca de 5000 anos atrás.
O único rio existente no Egito é o Nilo, que nasce na região central da África e deságua no Mediterrâneo. Ao se aproximar do Mediterrâneo, o Nilo se abre como um leque e forma o Delta do Nilo. Essa região é chamada assim desde a Antiguidade, porque ali o curso das águas lembra o formato da letra grega “delta” (Δ).
As características climáticas da região permitiram a preservação de centenas de sítios arqueológicos no local. O estudo de vestígios arqueológicos, como pirâmides, tumbas, textos e pinturas, permitiu aos historia dores conhecer a importância desse rio, com seu ciclo de cheias e vazantes, para a atividade agrícola e o desenvolvimento, há cerca de 5 mil anos, de uma das primeiras civilizações conhecidas: a civilização egípcia antiga.
Desde o Período Neolítico, o Vale do Rio Nilo e as áreas próximas ao delta atraíam muitos moradores por causa das condições favoráveis para a agricultura. Na Antiguidade, o Vale do Nilo também proporcionava o relacionamento e as trocas culturais e econômicas com povos de outras regiões da África, como os cuxitas, que habitavam a Núbia, no Sul do Egito.
Os produtos que os egípcios compravam de outras regiões chegavam pelos mares Mediterrâneo e Vermelho. Esses mares, assim como a Península do Sinai, serviram como portas de entrada para povos invasores, como hicsos, assírios, babilônios e persas.

As cheias do Nilo 


Entre os meses de junho e setembro, em decorrência das chuvas, o nível das águas do Nilo subia cerca de 16 metros, invadia as margens e deixava as terras úmidas.
As enchentes atingiam todo o curso do Nilo e, algumas vezes, destruíam plantações e moradias. Para evitar esses danos, os egípcios mediam o nível da água com o uso de grandes réguas de madeira finca das no solo; assim, calculavam a velocidade com que as águas subiam, o que os ajudava a prever quando poderia ocorrer nova enchente. Além disso, para melhor utilizar a água, construíram canais de irrigação, barragens e grandes reservatórios.
Entre outubro e junho, o rio voltava ao nível normal; nesse período, as terras fertilizadas pelo lodo trazido pela água eram semeadas e, posteriormente, a colheita era realizada.
Atualmente, o Rio Nilo fornece água potável a 280 milhões de pessoas de onze países. Porém, a construção da hidrelétrica Grande Renascença Etíope, na Etiópia, tem ameaçado o ciclo de cheias e vazantes do rio e gerado conflito entre os governos de países da região, preocupados com a falta de água para abastecimento de sua população que ainda depende da atividade agrícola realizada nas margens férteis do rio.

A FORMAÇÃO DOS PRIMEIROS ESTADOS

Na região do delta e ao longo do vale do Nilo, foram encontrados sítios arqueológicos neolíticos de diversas sociedades. As mais antigas se estabeleceram entre 6000 a.C. e 5000 a.C., como revelaram indícios de cultivo de grãos e da elaboração de cerâmicas e de objetos de cobre. 
As principais teorias apontam que as primeiras aldeias assentadas às margens do rio Nilo eram de povos que vieram do Oriente Médio, pois foram encontrados vestígios de espécies vegetais nativas dessa região e não de outras partes do continente africano, além de vestígios das técnicas e das tecnologias agrícolas empregadas por esses povos. Esses indícios indicam que as populações que passaram a habitar o vale do Nilo conheciam manejos hidráulicos comumente utilizados na Pérsia e na península Arábica. 
As comunidades desenvolviam a agricultura às margens do Nilo adaptando-se às cheias – épocas de chuva, em que as águas do rio subiam e alagavam as margens – e às vazantes – épocas de estiagem com a consequente diminuição do nível do rio. Nas épocas de alagamento, essas comunidades tinham a preocupação de proteger as plantações e de armazenar a água em diques para utilizá-la nos períodos em que o recurso não era abundante. Nas épocas de seca, quando as águas do Nilo baixavam, aproveitavam os solos fertilizados por nutrientes depositados nas margens do rio para fazer o cultivo.
Com o passar do tempo, em um processo que levou séculos, essas comunidades começaram a se organizar em reinos, chamados nomos. Cada nomo tinha um governante, o nomarca. Por volta de 3400 a.C., os nomos estavam agrupados entre as regiões do Baixo Egito (próximo ao delta do rio Nilo, ao norte do continente) e do Alto Egito (trecho continental do rio Nilo, ao sul). O processo de unificação dos dois agrupamentos deu origem ao Império Egípcio Antigo.


Os faraós e seus poderes

Os egípcios e os mesopotâmicos foram os primeiros povos a erguer templos grandiosos. Alguns podem ser vistos até hoje, como o zigurate babilônico, na cidade de Ur, e as pirâmides do Egito antigo, localizadas no planalto de Gizé.
O esforço coletivo para levantar templos tão monumentais tem uma explicação. No Egito antigo, os governantes eram considerados deuses e foram sepultados nas pirâmides, e os reis eram chamados de faraós, que significava “grande casa” – uma referência ao palácio real, onde eles moravam.
Lentamente, os faraós acumularam poder e passaram a criar leis e impostos; a controlar o exército, a produção agrícola e o uso da água; e a determinar a construção de obras públicas, como templos e canais de irrigação.
O faraó era cultuado por toda a população e era considerado um deus vivo. Filho de Hórus, deus do Céu, o faraó – acreditavam os egípcios – era capaz de controlar as forças da natureza, como as cheias do rio Nilo e as boas colheitas.
Essa forma de governo, em que as ordens do governante são consideradas ordens divinas, é denominada monarquia teocrática. 
Os faraós tinham várias esposas, e essa grande família morava em palácios e convivia com outras famílias influentes, a nobreza. 
As pirâmides, túmulos dos faraós e da sua família, eram construídas com blocos de pedra; quanto maior e mais luxuosas, maior era o poder do faraó que mandara erguê-las. Pinturas e textos sobre a vida e os feitos dos mortos decoravam esses locais. 
Quando um faraó era sepultado, seus escravos o colocavam no túmulo alimentos, animais de estimação e objetos pessoais, pois acreditavam que tudo isso seria necessário para a vida após a morte.
Tutancâmon foi um dos faraós mais famosos. Filho do faraó Amenofis IV, assumiu o trono em 1332 a.C., quando ainda era uma criança de 9 anos. Aprendeu a ler e a escrever e teve aulas de várias matérias. Casou-se aos 10 anos, prática comum naquela época.

Afresco de cerca de 1338 a.C. encontrado na tumba de Tutancâmon, que está representado ao centro da imagem, segurando um cetro, ao lado de sua esposa, Anquesenamon.

A vida e o reinado de Tutancâmon foram curtos, pois ele morreu aos 19 anos de idade. Por que, então, Tutancâmon ficou famoso? Porque junto de seu túmulo, descoberto em 1922, ao sul da cidade do Cairo, os arqueólogos encontraram vários tesouros. 
A tumba de Tutancâmon era composta de um corredor e quatro salas. Em uma delas, chamada de câmara mortuária, estava seu caixão (sarcófago), feito de ouro maciço e decorado com figuras de deuses egípcios. Os arqueólogos também descobriram milhares de outras peças, como está tuas de deuses, vasos, joias, baús e armas.
O título de faraó foi conservado nas mãos de poucas famílias ou dinastias importantes. Os filhos sucediam aos pais por várias gerações até que, por alguma razão – guerras, revoltas, etc. –, a família ou dinastia reinante fosse substituída por outra. O Egito antigo teve 31 dinastias desde a unificação, em 3200 a.C., até o ano 343 a.C.

As pirâmides de Gizé, Cairo, Egito. Alguns povos antigos construíram grandes templos religiosos que levaram muitos anos para ficar prontos. Feitos de blocos de pedra ou de tijolos muito pesados, era preciso um enorme número de trabalhadores para construí-los. Cerca de 30 mil trabalhadores atuaram na construção das pirâmides de Gizé. A maior delas tem a altura de um prédio de 49 andares, com várias passagens internas, galerias e quartos secretos para abrigar tesouros e túmulos. Dois milhões de blocos de pedra calcária, de várias toneladas cada um, foram utilizados em sua construção.

Sociedade e poder no Antigo Egito

Os grupos sociais do Egito antigo dividiam-se principalmente de acordo com o trabalho ou função social que cada um desempenhava. A maioria da população egípcia era composta de camponeses, seguidos pelos diferentes artesãos. 
No Antigo Egito as chances de ascensão social eram mínimas. Quase sempre o indivíduo nascia e morria pertencendo ao mesmo grupo social.
Alguns historiadores consideram que também havia escravos. Porém, eles não eram numerosos e não constituíam a principal mão de obra dessa sociedade.
No topo da hierarquia social encontravam-se o faraó e membros de sua família. Logo abaixo, vinham sacerdotes, chefes militares e funcionários do governo. Vamos conhecer alguns aspectos da sociedade egípcia.
 

O faraó


O ponto mais alto da escala social era ocupado pelo faraó. Além de rei, ele era considerado um deus vivo que tinha poderes para controlar as forças da natureza e proteger a sociedade.
Os egípcios acreditavam, por exemplo, que as cheias do Nilo e as boas colheitas dependiam do poder do faraó. A crença de que ele era uma divindade sofreu variações no decorrer da história do Egito antigo, sendo às vezes fortalecida e, em outras, enfraquecida.
O faraó exercia controle de boa parte das terras e das atividades econômicas no Egito antigo, auxiliado por nobres, sacerdotes e funcionários do governo.
No Egito, desde o mais humilde camponês até o poderoso faraó acreditavam na existência de uma vida após a morte. Por isso, vários faraós ordenaram a construção de imensos túmulos, as pirâmides. Para o faraó, mandar erguer uma pirâmide era uma forma de garantir sua “casa da eternidade”, local onde esperava continuar desfrutando dos prazeres terrenos.
Para os egípcios, o faraó era mais do que um ser de origem divina:  era o próprio deus. Ele era o governante máximo, o comandante militar e o juiz supremo do Egito. Além disso, era considerado o dono de todas as terras egípcias; por isso, recebia impostos (pagos em produto), acumulando assim enorme riqueza.

Representação do faraó Ramsés II (1290 a.C.-1224 a.C.) em sua carruagem durante uma batalha.

Os faraós construíam para si túmulos  magníficos, como as pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos, edificadas por faraós do Antigo Império que tinham esses nomes e eram parentes entre si.

Os altos funcionários e os sacerdotes


Entre os altos funcionários do governo egípcio, estavam o vizir e o escriba.
O vizir (tjati) também era um importante funcionário do governo. Ele era o chefe da administração e da justiça, comandando uma enorme quantidade de funcionários, como administradores locais, juízes e supervisores das obras públicas.
O vizir era a maior autoridade do Egito depois do faraó; ele comandava a polícia, a justiça e a arrecadação de impostos em todo o Império.

  Relevo da tumba do vizir egípcio Ramose (1364 a.C.-1347 a.C.).

Os escribas eram funcionários do governo que sabiam ler, escrever e contar. Eles geralmente trabalhavam nos palácios e nos templos copiando decretos do governo, contabilizando a saída e a entrada de mercadorias, anotando o pagamento das taxas e escrevendo obras literárias e religiosas.

Representação de um escriba em relevo egípcio. Museu do Louvre, Paris.

Os escribas, por sua vez, também ocupavam posição de destaque; eles trabalhavam para o Estado, para os templos religiosos e para o Exército. Para exercer a profissão de escriba, a pessoa precisava estudar desde a idade de cinco anos em uma escola especial, onde aprendia cálculo, leitura e escrita. De posse desses conhecimentos, os escribas faziam o controle de toda a vida econômica do Egito: as áreas cultivadas, os rebanhos, o volume da colheita, os impostos arrecadados etc.

Escriba principal dos arquivos reais de Saqqara. Antigo Império, 6a dinastia (2345 a.C.-2181 a.C.). 

Já os sacerdotes executavam os serviços religiosos e administravam os templos, que geralmente eram muito ricos por causa da população, que fazia oferendas e pagava impostos para esses templos.
Os sacerdotes conduziam as cerimônias religiosas, administravam os templos e recebiam as oferendas dos fiéis. Por isso, detinham muitas riquezas e exerciam forte influência política.
Escultura em granito representando um sacerdote. 26a dinastia (664 a.C.-525 a.C.).


Artesãos, comerciantes e militares


No Egito antigo, havia diferentes tipos de artesãos, como barqueiros, tecelões, padeiros e cervejeiros. Havia também artesãos que se especializavam em atividades como mumificar corpos e decorar túmulos, pintando ou esculpindo.
Os artesãos que produziam artigos considerados de luxo trabalhavam, quase sempre, em oficinas de templos ou de palácios das cidades. Eles produziam esculturas em pedra e em madeira, peças de ourivesaria, vasos de alabastro ou faiança, tecidos finos, etc.
Além dos artesãos urbanos, existiam aqueles que trabalhavam em oficinas nos campos, produzindo tecidos, artigos de couro, vasilhas de cerâmica, entre outros objetos.

Sarcófagos egípcios que se encontram atualmente no Museu Britânico em Londres.

Os artesãos egípcios (carpinteiros, ferreiros, joalheiros) eram conhecidos no mundo antigo. Com a madeira, faziam brinquedos, móveis, barcos etc.; com adobe, areia e pedra, construíam casas e os palácios; com o ferro, confeccionavam
armas, instrumentos de trabalho e carros de guerra; com o papiro, produziam o papel e uma variedade de outros objetos; com os metais, faziam joias e ornamentos.
Nos períodos de maior prosperidade, como no Novo Império, o comércio interno e externo cresceu, possibilitando o aumento da riqueza dos comerciantes. 
Com as guerras de conquista durante o Novo Império, os militares do Egito antigo também conseguiram riqueza e prestígio; muitos deles lutavam por concessões de terra ou por parte dos saques realizados durante essas guerras.

Os camponeses e os escravizados


Os camponeses, chamados no Egito antigo de felás, constituíam a maioria da população e tinham uma vida muito difícil; nas propriedades agrícolas eles faziam todo tipo de serviço (arar, plantar, colher, abrir canais, construir e consertar) e, em troca, recebiam apenas uma pequena parte do que plantavam. E ainda tinham de pagar um imposto em produto (cereais), que era recolhido aos armazéns do faraó. Além disso, eram obrigados a trabalhar em obras do governo, como abertura de estradas, limpeza de canais e transporte de pedras usadas na construção de túmulos, templos e palácios.
Cultivavam principalmente trigo (usado para fazer pães), cevada (para o preparo da cerveja), linho (para fazer tecidos), legumes, verduras e uvas (para fazer vinho). Também criavam bois, carneiros, cabras, porcos e, posteriormente, cavalos.
Além dessas atividades, eles também caçavam e pescavam. No entanto, a carne era um alimento de luxo para a maior parte da população. Os mais pobres só comiam carne em ocasiões especiais.
No final do período das cheias do rio Nilo, os camponeses aravam e semeavam a terra, trabalhando em duplas. Enquanto um revolvia a terra usando ara dos e enxadas, o outro lançava as sementes.
Para colher os cereais, eles utilizavam instrumentos de madeira, pedra ou metal. Depois de separar as cascas, armazenavam os grãos em celeiros.
De acordo com alguns historiadores, os camponeses egípcios viviam em regime de servidão coletiva. Isso porque provavelmente a maioria deles estava ligada à terra que cultivava e era obrigada a entregar parte dos cereais, do linho e dos rebanhos como imposto ao governo. Além disso, era frequentemente convocada para trabalhar em obras públicas, como a construção de palácios, templos e pirâmides.

Cena agrícola em pintura mural egípcia, 18a dinastia (c.1567 a.C.-1320 a.C.). 

A prática de escravizar pessoas é antiga e existiu em diversas sociedades. De modo geral, chamamos de escravo aquele que está sob o domínio de um senhor. Este senhor pode utilizar o trabalho do escravo sem remunerá-lo, pode vendê-lo ou alugá-lo.
Os escravizados constituíam a minoria da população e eram, geralmente, prisioneiros de guerra. Eles faziam os trabalhos mais pesados e perigosos em minas, pedreiras e nas grandes obras públicas.
Na Mesopotâmia e no Egito antigo, havia pequena quantidade de escravos que, por isso, não representavam a principal fonte de mão de obra. Esses escravos tinham uma vida bem diferente da dos escravos da Grécia e de Roma.
Alguns historiadores afirmam que os escravos da Mesopotâmia e do Egito podiam, em certas condições, ter alguns bens, casar-se com pessoas livres e até prestar testemunhos em tribunais.
No Egito antigo, os escravos eram, sobretudo, prisioneiros de guerra que realizavam desde tarefas domésticas até trabalhos em construções públicas, minas e pedreiras.

Mulheres no Egito antigo 


Segundo o historiador e escritor francês Christian Jacq, as mulheres desempenhavam importantes papéis sociais e políticos no Egito antigo. Nessa sociedade, o sistema jurídico garantia igualdade de condições ao homem e à mulher.
Assim, no Egito antigo, houve mulheres faraós, sacerdotisas, funcionárias do governo, artesãs, camponesas. É certo que os faraós egípcios, na grande maioria, foram homens, mas algumas mulheres também governaram com esse título. 
Uma delas foi Hatshepsut, que reinou durante cerca de duas décadas no século XV a.C. Sob o governo dessa faraó, foram construídas e restauradas edificações em várias partes do Egito. 
Seu reinado foi considerado pacífico e próspero. Além de Hatshepsut, outra faraó famosa foi Cleópatra, que governou entre 51 a.C. e 30 a.C., época em que o Egito era dominado pelos romanos. 

A escrita egípcia

A escrita surgiu no Egito por volta de 3000 a.C. Para escrever, os egípcios usavam caracteres chamados hieróglifos; a escrita hieroglífica era usada geralmente em textos oficiais e sagrados, gravados em pedra.
Além dessa escrita, os egípcios desenvolveram duas outras: a escrita hierática, utilizada principalmente pelos sacerdotes, e a escrita demótica, usada basicamente em cartas.

Fragmento do rolo de papiro conhecido como Livro dos mortos, peça localizada no Museu Nacional Egípcio, Cairo, produzida entre os séculos XVI a.C. e XI a.C.

A escrita egípcia é, junto com a dos sumérios, uma das mais antigas do mundo, e ambas utilizavam sinais pictográficos. Os sinais egípcios ficaram conhecidos como hieróglifos (escrita sagrada), por isso é chamada escrita hieroglífica.
Na escrita hieroglífica havia em torno de 6 900 caracteres, que, dependendo da combinação, formavam um significado diferente. Não exprimiam sons, portanto, como o nosso alfabeto.
Os hieróglifos foram inventados na época da unificação do Alto e do Baixo Egito, por volta de 3200 a.C. Eram inicialmente escavados ou pintados em pedra, nas paredes de monumentos e em templos religiosos. Posteriormente, por volta de 3000 a.C., os egípcios desenvolveram o papiro, uma espécie de papel feito de uma planta de mesmo nome encontrada nos pântanos da região. Para escrever nos papiros, os egípcios utilizavam pincéis de junco e tintas de cores preta e vermelha.
Para registros do cotidiano, negócios e questões administrativas, foi desenvolvida uma escrita mais simples, conhecida como hierática, que vigorou por mais de 2 mil anos. O domínio da escrita era um conhecimento hereditário, ou seja, passado de uma geração para a outra, e estava restrito a um grupo pequeno de pessoas, formado pelos membros da família do faraó, sacerdotes e escribas.
Cabia aos escribas controlar tudo o que era produzido no Egito, cuidar dos projetos de construção de obras públicas – como diques, canais de irrigação, palácios e templos –, administrar a mão de obra e fazer os cálculos dos impostos que os pasto res e agricultores deveriam pagar. A população em geral, por sua vez, fazia uso da oralidade para transmitir de uma geração a outra suas histórias, seus mitos e suas crenças, mantendo viva, dessa maneira, a tradição oral do povo egípcio.
Foi o francês Champollion quem conseguiu descobrir o segredo das escritas egípcias. Para isso, ele dedicou onze anos de sua vida ao estudo de um documento conhecido como Pedra de Roseta. 
A Pedra de Roseta, um bloco de basalto encontrado pelos soldados do general francês Napoleão Bonaparte, no Rio Nilo, em 1799, continha o mesmo texto em três escritas diferentes: em grego, na escrita hieroglífica e na escrita demótica. Comparando a palavra Ptolomeu (nome de um faraó) nessas três escritas, em 1822, Champollion conseguiu desvendar as escritas do Egito antigo.

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