domingo, 20 de setembro de 2026

O REINO DE AXUM

O Reino de Axum, onde atualmente se localiza a Etiópia, começou a se formar por volta do século V a.C., em uma área de solos férteis que estimularam a agricultura e a criação de animais.
Os axumitas eram um povo que habitava a região leste do continente africano, onde atualmente se localiza a Etiópia, na divisa com a Eritreia. Inicialmente, as principais atividades econômicas desse povo eram a agricultura e a pecuária.
Atualmente, a região conhecida como Chifre da África, no nordeste do continente, é composta de países como Somália, Etiópia, Eritreia e Djibuti.
Os primeiros habitantes do Chifre da África vieram do sul da Península Arábica, região separada do continente africano pelo Mar Vermelho. Por volta do século VII a.C., a agricultura e a criação de gado eram as principais atividades econômicas, mas o comércio também ganhava força.
A sua localização lhes permitiu o desenvolvimento de comércio com diferentes povos da África, do Oriente Médio e da Europa, por exemplo.
Os principais produtos comercializados eram o ouro, o marfim, a pele de hipopótamo e de outros animais, incenso, tecidos e joias.
A escrita já era conhecida por essa população, que fazia uso dela em transações comerciais. O comércio crescia, alimentado pelas caravanas de mercadores vindos de diferentes regiões da África, da Península Arábica e da Índia.
Com o crescimento do comércio, as aldeias expandiram-se, transformaram-se em cidades.
Por volta do século I, esse povo formou um poderoso reino, o Reino de Axum.
No século II a.C., Adúlis contava com o mais movimentado porto do Mar Vermelho. Por ali saíam, em direção ao Egito, à Grécia, à Índia e à China, mercadorias de luxo, como marfim, chifres de rinoceronte, carapaças de tartaruga, artigos de ferro e bronze, e também pessoas escravizadas.

O gêes 


As trocas comerciais possibilitaram o intercâmbio cultural com diversos povos. Por exemplo, a influência cultural dos povos árabes (que estudaremos mais adiante) podia ser percebida no idioma axumita, o gêes, que continha elementos da língua árabe em sua origem. O gêes é falado até a atualidade na Etiópia, sobretudo em cerimônias religiosas.


Uma rainha axumita 


Embora o Reino de Axum tenha desaparecido, dele restou uma das histórias mais conhecidas de todo o continente africano: a de Makeda, a rainha de Sabá. Famosa por sua beleza, a rainha teria sido uma das governantes do Reino de Axum. Segundo a lenda, ela teria ouvido falar da sabedoria de Salomão, rei de Judá, e decidiu empreender uma jornada até Jerusalém para conhecer o monarca. 
Da união da rainha de Sabá com o rei Salomão nasceu Menelik, mais tarde coroado rei de Axum. Menelik é considerado o primeiro representante de uma dinas tia de reis etíopes que se estendeu até o século XX.

Rainha de Sabá representada em baixo-relevo do século VI a.C. descoberto na Etiópia.

A expansão territorial 


Ao longo dos séculos II e III, o Reino de Axum se expandiu, exercendo domínio e influência sobre territórios no sul da península Arábica. Os exércitos de Axum eram fortes e bem-organizados, garantindo a ocupação dos territórios e o pagamento de tributos ao governante axumita.
Enquanto Adúlis se destacava no litoral, Axum era um importante centro comercial no interior. Por ali passavam mercadores vendendo artigos muito valorizados na época, como ouro, sal e plumas. Em seu apogeu, a cidade controlava todo o comércio de mercadorias entre o interior da África e Adúlis, e entre Adúlis e o Egito.

Moeda do Reino de Axum, com o perfil do rei Afilas, século III.


Com toda essa atividade comercial, o Reino de Axum enriqueceu e expandiu seus territórios. Dominou o Reino de Cuxe e outras áreas vizinhas, chegando a conquistar terras na Península Arábica. 
Estudos recentes indicam que, durante o governo do rei Ezana, entre os anos de 330 e 356, Axum expandiu sua influência dentro do continente africano, chegando até a região da Núbia, território onde estava estabelecido o Reino de Cuxe.
Os axumitas teriam dominado a capital Méroe, levando-a à ruína. O desmantelamento dessa cidade, posteriormente, daria origem a outros reinos.
A prosperidade desse reino era tão grande que, no século III, passou a cunhar moedas de ouro, prata e cobre. Até a primeira metade do século IV, a população era politeísta. Por essa época, o rei Ezana se converteu ao cristianismo. 

O comércio axumita


Do século III ao VI, no período de maior prosperidade, Axum controlava um dos três cruzamentos comerciais mais importantes do Mundo Antigo e impunha-se como intermediário obrigatório nas trocas entre os países do Mediterrâneo e da Ásia oriental.
A facilidade de acesso ao Mar Vermelho e ao Rio Nilo proporcionou aos axumitas o contato com egípcios, gregos, romanos, árabes, persas, sírios, indianos e judeus, com os quais mantiveram intenso comércio. 
As trocas comerciais possibilitaram um intercâmbio cultural: a língua e a escrita de Axum assemelhavam-se às do Sul da Península Arábica, enquanto seus costumes e tradições assemelhavam-se aos dos gregos e romanos. As cidades mais importantes abrigavam grupos de comerciantes estrangeiros, como romanos e bizantinos, árabes e indianos.
Os axumitas compravam e vendiam marfim, algodão, linho, seda, vidro, machados, adagas, vinho, azeite, pedras preciosas e objetos de luxo. No comércio popular circulavam mercadorias como sal, alimentos, cerâmica, tecidos rústicos e utensílios de ferro. Os pagamentos eram feitos com moedas de ouro, prata e bronze.
O desenvolvimento comercial estimulou as viagens pelo Oceano Índico, pelo Mar Vermelho e pelo Mar Mediterrâneo e favoreceu a produção de conhecimentos técnicos sobre navegação. As embarcações eram feitas de pranchas de madeira presas com cordas e resistiam a longas viagens.

Sociedade e cultura axumita 


A sociedade subdividia-se em nobres, mercadores, marinheiros, artesãos, soldados e numerosos escravos. Grande parte da riqueza axumita era produzida pelo comércio, pela exploração do trabalho escravo e pela criação de gado.
As ruínas encontradas evidenciam o desenvolvimento da arquitetura e o enorme poder dessa sociedade africana: edifícios religiosos imponentes, túmulos e estelas, das quais a mais alta ultrapassa 33 metros e tem nove andares. Os templos, talhados e esculpidos, eram erguidos com trabalho coletivo.

O cristianismo


No século IV, teve início em Axum a divulgação da religião cristã, por influência de um conselheiro real que era cristão e viera da cidade de Roma, capital do Império Romano, onde o cristianismo estava em expansão. 
O rei Ezana, que governou entre os anos 320 e 350, converteu-se ao cristianismo e o trans formou na religião oficial de Axum. Com o tempo, a nova religião foi aceita pela população, convivendo com as crenças locais.
Foi durante o governo de Ezana, no século IV, que o cristianismo se tornou a religião oficial do Reino de Axum.
A Igreja axumita diferenciou-se das outras tradições monoteístas, pois incorporou elementos do cristianismo (como a catequese) e introduziu danças, cânticos e tambores típicos das celebrações judaicas. 
Axum tornou-se então o primeiro reino cristão do continente africano. Ainda hoje a Etiópia é um país de maioria cristã. 
Ainda no século VI, o Império de Axum foi se enfraquecendo devido a conflitos e disputas comerciais com outros impérios da época, sobretudo o Bizantino e o Persa. Nos séculos VIII e IX, sua influência política e seu poder militar diminuíram ainda mais, como consequência da expansão islâmica na África.
No século VII, o território de Axum foi invadido e dominado pelos muçulmanos.
Ainda nos dias atuais, a religiosidade cristã permanece na região da Etiópia, como podemos perceber pela imagem a seguir.

Catedral da Santíssima Trindade, em Adis-Ababa, na Etiópia, 2020. A forte presença do cristianismo até os dias de hoje na Etiópia é um elemento de permanência da época do Reino de Axum.

Com a conversão ao cristianismo, muitos elementos da cultura cristã passaram a fazer parte do cotidiano dos axumitas. Igrejas, cópias da Bíblia em latim ou traduzidas para o gêes, assim como estátuas, moedas e iconografias, atualmente são vestígios históricos que nos fornecem informações sobre a história do Reino de Axum cristianizado. 

Os sítios arqueológicos


Os principais sítios arqueológicos sobre a história de Axum são os de Adulis, Matara e Kohaito, todos localizados na atual Eritreia. Nesses locais, encontram-se sepulturas, obeliscos e ruínas de diversos edifícios relacionados à história de Axum.
Ainda há muito o que descobrir sobre a vida dos axumitas, porém escavações e pesquisas recentes indicam que o Reino de Axum chegou a reunir entre 10 a 12 cidades sob o governo central. 
Supõe-se que viviam cerca de 20 mil pessoas no reino, socialmente organizadas em uma nobreza que incluía o rei, os sacerdotes e os militares, uma camada intermediária, formada por mercadores e comerciantes, e uma camada popular, formada, em sua maioria, por pessoas pobres, camponeses e artesãos.


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