quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A Pedagogia dos Conflitos Sociais

Saviani (2007) chama de Pedagogia Prática. O termo “Pedagogia dos Conflitos Sociais” deve-se, entre outros, a Freitas (1995). Esta pedagogia trabalha com o conceito de classe e assume seu compromisso com as classes populares, critica a escola por estar preocupada quase exclusivamente com a questão da transmissão/assimilação do conhecimento. Seus primeiros esboços foram formulados por Oder José dos Santos em 1985, num artigo intitulado “Esboço para uma pedagogia da prática”. 
Para ele, o saber “gerado na prática social” é relegado pela escola, mas exatamente esse saber que “deve ser valorizado e constituir a matéria-prima do processo de ensino” (Santos, 1985a, p. 23). Segundo o autor, num primeiro momento os saberes manifestam-se de forma imediata como prática individual e, num segundo, cabe ultrapassar essa aparência e captar sua natureza própria como “síntese de múltiplas determinações” que, “em última instância, é social, é de classe” (SANTOS, 1985a, p. 23). 
Na pedagogia dos conflitos sociais cabe ao professor assumir a direção do processo pedagógico, deslocando-se o eixo da questão pedagógica do interior das relações entre professores, métodos e alunos para a prática social. Em tal sentido, é preciso alterar o eixo “transmissão/assimilação”, preconizando que “professores e alunos rompam com a atual organização do processo de trabalho pedagógico”, passando a “organizar-se em relações sociais novas para, conjuntamente, trabalharem sob a forma de produtores associados” (SANTOS, 1985b, p. 7). Assim procedendo, cada escola será transformada “em uma unidade de produção e distribuição de conhecimentos articulados aos reais interesses da maioria da população brasileira” (SANTOS, 1985b, p. 7).
No estudo que Freitas (2003) faz da pedagogia dos conflitos sociais aponta a Pura Lúcia O. Martins como a escritora mais representativa desta teoria, no campo didático, com seu estudo titulado Didática teórica/didática prática: para além do confronto (LOYOLA, 1989). Tanto Martins quanto Santos procuram colocar como preocupação básica da pedagogia dos conflitos sociais a compreensão da vinculação da escola na esfera produtiva e, portanto, inserida no âmbito da mais-valia. Da análise dessa problemática e de sua extensão à instituição escolar, esta pedagogia pretende “visualizar suas implicações a nível pedagógico e em nível da organização do processo de trabalho docente” (SANTOS, 1991, p. 3-4).
Santos (1991) avança na sua análise em direção à consideração de que o sistema escolar, sob o capitalismo, adquire uma forma organizacional capitalista. O livro de Martins (1989) tenta lidar com as questões apontadas por Santos (1991). A autora defende a idéia de que para transformar o eixo da transmissão no eixo da sistematização coletiva do conhecimento, professores e alunos devem tornar-se sujeitos e objetos tanto do processo de apropriação do conhecimento como do controle sobre ele e afirma que: “as teorias pedagógicas são geradas na prática. No dia-a-dia de nossas escolas se constrói uma Didática prática em antítese à Didática teórica transmitida nos cursos de formação de professores de 10º grau. Nela estão os germes de uma teoria pedagógica alternativa” (1989, p. 13).

A autora utiliza uma metodologia de trabalho constituída por quatro momentos:

1) Primeiro momento: descrição da prática no nível empírico;

2) Segundo momento: a procura de um referencial teórico para explicar a prática;

3) Terceiro momento: a compreensão da prática pedagógica no nível da totalidade; 4) Quarto momento: elaboração de propostas alternativas.

Finalmente, deve-se considerar que dada a ênfase que a autora coloca no primeiro momento e na participação dos sujeitos para a elaboração das alternativas, seu estudo não só tem semelhanças com os métodos da Didática Fundamental, centrado no estudo do cotidiano, como pode até ser confundido com tal proposta (FREITAS, 2003, p. 55). Segundo o mesmo autor, a principal dificuldade da pedagogia dos conflitos sociais está na forma radical como entende a atuação das determinações do capitalismo sobre a escola. A visão de escola, nesse projeto, parece aproximar-se da proposta reprodutivista.
A tipologia elaborada por Libâneo (2005) é feita levando em consideração que as teorias pedagógicas modernas são aquelas surgidas em plena modernidade e que hoje se apresentam em várias versões, mudando das abordagens tradicionais às mais avançadas, conforme se situem em relação aos seus temas básicos: a natureza do ato educativo, a relação entre sociedade e educação, os objetivos e conteúdos de formação, as formas institucionalizadas de ensino, a relação educativa (Libâneo, 2005, p. 20).

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