Vários
autores se ocupam, em maior ou menor grau, com o histórico da Didática.
Dentre
eles encontram-se GARCÍA-HOZ (1960), TITONE (1966) e GARCÏA y GARCÍA (1969), de
cujos relatos, mais divulgados entre nós, serão extraídas as informações
básicas deste capítulo. Nesses relatos, não se registram diferenças significativas.
Concordam, em geral quanto às etapas por que passa o processo de evoluçäo da
Didática, seja em relação aos critérios para sua delimitação, seja quanto às
suas principais características, no que se repetem muitas vezes.
Em
função do objetivo desta investigação, ou seja, possibilitar um melhor
entendimento do conteúdo da Didática, que, na produção intelectual será
considerado atual em função da análise evolutiva da área, importa apenas
salientar os momentos mais significativos do processo de desenvolvimento
histórico da mesma. Assim, não se pretende reproduzir, de forma linear e
cumulativa, o que aqueles especialistas registram, e nem mesmo comparar seus
relatos, adotando-se, entretanto, os cortes epistemológicos realizados por
eles.
Por
outro lado, cada fase será apresentada de forma a permitir, ainda que em
linhas gerais, a sua comparação com as demais, tomando-se por referencial o
fator: definição do campo da Didática. Na descrição de cada uma, serão, pois,
focalizados os fundamentos da Didática, o seu relacionamento com outros campos
do conhecimento e as suas preocupações principais.
Tendo
em vista essas pretensões, os escritos dos autores citados, que descrevem o
histórico da Didática, serão enriquecidos com dados extraídos da literatura
pedagógica
A
descrição do histórico da Didática será, então, complementada por críticas que
serão feitas à orientação e ao conteúdo da área, em sua fase considerada atual.
Em seguida a essas críticas, serão identificadas as propostas atuais da
Didática, que têm representatividade na produção intelectual brasileira, e que
aparecem em obras especializadas, cujo objetivo é construir e não relatar o
histórico sobre a Didática.
PRELIMINARES
O
vocábulo didática deriva da expressão grega Τεχνή διδακτική (techné didaktiké), que se traduz por
arte ou técnica de ensinar. Enquanto adjetivo derivado de um verbo, o vocábulo
referido origina-se do termo διδάςκω (didásko) cuja formação lingüística - note-se
a presença do grupo σκ
(sk) dos verbos incoativos - indica a característica de realização lenta
através do tempo, própria do processo de instruir.
As
obras de Hugo de San Víctor - Eruditio Didascalia - no século XII, de
Juan Luis Vives - De disciplinis - no século XVI, e de Wolfgang Ratke - Aporiam
didactici principio - estão associadas aos primeiros tratados sistemáticos
sobre o ensino. É, entretanto, com Comênio, através de sua Didáctica Magna,
escrita no século XVII e considerada marco significativo no processo de sistematização
da Didática, que esta se populariza na literatura pedagógica.
Tomando
Comênio por ponto de partida, a Didática se organiza nas seguintes fases:
naturalista-essencialista, psicológica e experimental.
A
FASE NATURALISTA-ESSENCIALISTA
Esta
fase vai de Comênio até o princípio do século XIX.
Para
COMÉNIO (1966), a natureza é de fundamental importância para a arte de ensinar.
É ela o ponto de partida para se definirem os princípios didáticos que
garantirão o ensino "de tudo a todos". A Didática, a partir da
escola da natureza, estará em condições do promover a aprendizagem de forma
segura, fácil, agradável, sólida e rápida. Esse naturalismo traduz a influência
da Renascença e de Bacon sobre a época. Lembradas por LUZURIAGA (1963). Não
obstante a importância da observação dos fenômenos naturais para a dedução de
conclusões didáticas, o naturalismo, em Comênio, é mais metafísico que
empirista. A natureza a que se refere não é, em geral, a sensível e mutável,
apreendida pela experiência. mas sim a essência mesrna das coisas.
Nesse
seu início, a Didática assume caráter muito amplo. A Didáctica Magna é,
na verdade, uma obra sobre educação. Nessa obra o autor caracteriza os
fundamentos da educação e do ensino como teológicos e filosóficos deduzidos a
partir da doutrina religiosa por ele adotada, e de analogias estabelecidas
entre a constituição do Paraíso e a do Homem. A educação e o ensino, processos
considerados indispensáveis ä humanização do ser humano, têm por fim último
prepará-lo para a vida eterna. Esta consiste em uma das três moradas naturais
do homem, ao lado das vidas terrenas intra e extra-uterina. A religiosidade
aparece, aqui, como algo natural e íntimo, caracterizada por LUZURIAGA (1963)
como "extraconfessional".
COMENIO
(1966) preocupa-se, também, com o que ensinar e, já
As
linhas gerais descritas se mantêm. sem grandes alterações, durante toda essa
fase naturalista-essencialista. Os fundamentos da educação e do ensino são as
leis da natureza e as relações entre a Didática e a Pedagogia não são
definidas. Como registra GARCÍA-HOZ (1960),
"entonces no se había constituido
"Fluctuando las ideas educativas en uno y otro
campo, sin incardinación definitiva, era lógico que se amparasen a la sombra de
As
preocupações principais da Didática nessa fase centralizam-se em problemas
referentes aos fins da educação e aos conteúdos culturais a serem dominados
pelos homens. E, apesar de, segundo LUZURIAGA (1963), a principal contribuição
do representante dessa fase – Comênio – haver sido em relação ao método, a
tônica de sua proposta é a coerência entre· seu método único e os fins amplos
da educação e da vida. A metodologia caracteriza-se, assim, por referir-se a
toda uma prática pedagógica, não se restringindo às prescrições sobre regras e
formas de ensinar.
A
FASE PSICOLÓGICA
Essa
segunda fase da Didática se caracteriza por buscar seus fundamentos na
Psicologia, tendo seu início marcado pelos trabalhos de Pestalozzi. Para ele,
as leis da educação e do ensino fundamentam-se na observação psicológica.
Segundo
EBY (1970) Pestalozzi teria percebido claramente a necessidade de se basear a
teoria e a prática da educação na ciência psicológica apesar de sua falta de
conhecimento de Psicologia e ainda do grau primitivo desta última enquanto
ciência. Pestalozzi expressa mesmo seu intento de psicologizar a educação, como
registram MONROE (1970) e LOURENÇO FILHO (1967).
A
educação fundamentada na Psicologia já aparecera em Rousseau e, antes ainda,
em Locke.
Este
último tem seus pensamentos sobre a educação influenciados pelo sistema
psicológico que propõe. Como lembra LUZURIAGA (1963), Locke insiste na
importância de se conhecer o caráter da criança e analisa as características
necessárias a um educador. Conforme lembra LARROYO (1957), o método de ensino
em Locke deve prover uma aprendizagem atraente; o jogo deve ser a atividade
preferencial nos primeiros anos, cuidando-se, mais tarde, de que o ensino seja
gradual e ordenado.
Quanto
a Rousseau, a Psicologia aparece como fundamental para a sua proposta
educativa, que, como lembra EBY (1970), deriva do conhecimento da natureza da
criança e dos períodos de desenvolvimento do ser humano, e tem como princípio
central do método de ensino a não autoridade de uns sobre os outros, em
situações de aprendizagem .
LARROYO
(1957) lembra que foi através de Rousseau que Locke influenciou Pestalozzi.
Neste último, continuando a tradição da Didática, a questão da metodologia
aparece também discutida. E, segundo LUZURIAGA (1963), a valorização que faz do
método "como agente supremo e universal da educação", é um dos motivos
pelos quais lhe são feitas restrições.
A
fase psicológica da Didática consolida-se com Herbart, considerado o "pai
da psicologia moderna" e "o pai da moderna ciência da educação"
como lembra EBY (1970).
Para
LARROYO (1957), Herbart constrói um sistema de teoria educativa em que o fato
educacional é explicado e fundamentado em um corpo de doutrina. CLAPAREDE
(194O) reforça essa idéia, lembrando também que após Rousseau, é só em Herbart
que aparece novamente a idéia de se basear a educação na Psicologia, agora de forma
sistemática.
Pelas
descrições de MONROE. (1970) e de EBY (1970), em Herbart, o processo educativo
se baseia, em seus objetivos e meios, na Ética e na Psicologia,
respectivamente. A doutrina herbartiana apresenta caráter intelectualista. A
instrução adquire importância central: o sentir e o querer são resultantes da
representação de idéias. Para o alcance da finalidade da instrução, que é a
ação moral, Herbart propõe um plano metódico, baseado em suas concepções psicológicas
sobre apercepção e interesse. Este é fundamental para o processo de instrução,
e apresenta-se diferentemente segundo os passos: observação, expectativa,
solicitação e ação, a que correspondem os passos formais da instrução:
clareza, associação, sistema (generalização) e método (aplicação).
Ainda
segundo MONROE (1970), pode-se comparar a base lógica do sistema proposto por
Herbart com a falta de forma da obra de Pestalozzi. Entretanto, BRUBACHER
(1961), afirma que as obras de ambos têm um princípio comum. Apesar da ênfase
no ensino intuitivo, por parte de Pestalozzi, e da valorização das ideias, em
Herbart, os dois sistemas favorecem o mesmo resultado, ou seja, o conhecimento
de um mundo que se acredita passível de compreensão tal como é na realidade.
No
consenso dos especialistas, Herbart dá um passo decisivo para a delimitação da
Didática, ao mencionar instrução e ensino dentro de sua doutrina geral da
educação. Entretanto, em sua obra, não se delimitam os problemas didáticos em
relação aos pedagógicos.
O
sistema herbartiano é alvo de sérias críticas por parte de CLAPAREDE (1940),
que denuncia o seu caráter obscuro, verbalista, metafísico e contraditório. Em
relação a este último aspecto, o referido autor apresenta vários indicadores.
Para CLAPAREDE (1940), a incoerência é uma constante em toda a obra de
Herbart, que, embora declare ser a alma algo incognoscível, e tenha por
propósito cientifizar a Psicologia e utilizar o método empírico, se dispõe a
caracterizar a alma, deduz a Psicologia da Metafísica e nega a prática da
experimentação no campo psicológico. CLAPAREDE (1940) indaga ainda. sobre a
importância da apercerpção herbartiana para a Didática, comparando a Pedagogia
e a Psicologia de Herbart com o método funcional e a Psicologia moderna,
respectivamente. No método herbartiano, enfatiza-se a aquisição do conhecimento
e, no funcional, a sua compreensão. Enquanto Herbart enfatiza a representação,
a Psicologia moderna valoriza a ação. E, finalmente. se em Herbart o pensamento
se desenvolve como que por adição de idéias, na Psicologia moderna, a ele
evolui por modificação da própria estrutura.
Entretanto,
tais fatos não minimizam a grande influência exercida sobre a Didática pela
obra de Herbart. Seus estudos, embora não se referindo especificamente à
mencionada área como tal, permitiram a seus discípulos constituírem uma
verdadeira Didática herbartiana. Entre estes, destacam-se Tuiskon Ziller,
Wilhelm Rein e Otto Willmann. Complementando as informações de GARCÍA-HOZ
(1960) com as referencia que LARROYO (1957) faz sobre tais discípulos, podem-se
extrair os dados que se seguem.
Ziller
defende a ideia de que o desenvolvimento da criança repete os estágios da
cultura, no desenvolvimento da humanidade, e que, consequentemente, os
critérios de seleção e distribuição das matérias escolares devem ser as etapas
históricas. Essas matérias devem ser tratadas de acordo com os passos formais:
análise, síntese, associação, sistema e método. A finalidade da instrução é a
formação cristã-religiosa.
Rein
estuda com Ziller, discípulo imediato de Herbart. Para Rein, a doutrina da
educação é constituída pela Pedagogia Prática e pela Pedagogia Teorética, que
têm, para auxiliá-las, a Ética e a Psicologia. A Pedagogia Teorética divide-se
em: Teleológica, doutrina dos fins da educação, e Metodológica, doutrina dos
meios. A Pedagogia Metodológica. se ocupa da. Didática e da disciplina. Em
relação aos passos formais propõe os seguintes: preparação, apresentação,
associação, consideração e aplicação.
Willmann – pedagogo de orientação religiosa-católica - propõe-se aliar os aspectos individual e social na educação, e ainda a metodologia baseada na Filosofia, a História da Educação e as linhas principais de uma teoria do sistema escolar. Publica em alemão, uma obra com um título cujo significado é bastante expressivo para indicar a sua contribuição: Didática como teoria da formação em suas relações com a investigação social e com a História da Educação. Em Willmann, a reflexão histórica e social – nova fundamentação para resolver os problemas do ensino - incorpora-se à Didática e a toda a Pedagogia. Sua obra tem um duplo aspecto: didático e histórico-social. Afirmando que a permanência dos fatos no processo histórico acarreta a sua validade, deduz que a Didática deve construir-se sobre o exame das instituições educativas, para descobrir-Ihes os princípios. Tal exame deve ser feito considerando o significado da instituição em seu contexto, como também a sua natureza, no decorrer do processo histórico. Apesar da incorporação do sociológico a didática, esse aspecto não suplanta o ponto de vista do indivíduo, mantendo-se sua proposta fiel à doutrina de Herbart, entre o ético e o psicológico.
Avaliando
a influência da escola herbartiana, LUZURIAGA (1963) registra o fato de que
esta perdeu sua influência, sobretudo, pelas críticas que representantes da
Pedagogia ativa lhe fizeram, embora, como lembra EBY (1970), ainda continuem
aparecendo princípios ligados a interesse, apercepção ou passos formais em
textos que tratam de métodos e currículos.
Resumindo
as características da fase psicológica da Didática percebe-se que seu conteúdo
se baseia sobretudo na Psicologia começando a se delimitar em relação à
Pedagogia. Quanto às preocupações principais da área, os assuntos metodológicos
vão ganhando força. Os métodos e procedimentos de ensino tornam-se, pouco a
pouco, caracterizadores desse ramo do conhecimento que se distingue, em sua
fase contemporânea, por seu "metodologismo" conforme lembra TITONE
(1966).
A
FASE EXPERIMENTAL
Na
definição desta nova etapa da Didática, importa considerar a investigação na
área, como também o seu conteúdo propriamente dito.
A
respeito do método de investigação, a fase contemporânea da Didática se define
pelo uso de experimentações. Tal característica teria sido introduzida, nesse
campo, paralelamente ao ingresso da investigação experimental na Pedagogia e ao
desenvolvimento da doutrina de Herbart.
A
Didática experimental se preocupa em apresentar generalizações referentes ao
ensino, que servirão de subsídio à sua efetivação. Costuma-se enfatizar a
atitude científica do estudioso diante da situação de ensino como indispensável
à passagem do empirismo à experimentação.
Considerando-se
o relacionamento da Didática com a Psicologia, registram-se pelo menos, duas posições.
Alguns definem a Didática como dependente da Psicologia, e outros
reivindicam-lhe a autonomia.
LIMA
(1970) afirma que a Didática é apenas "a aplicação dos conhecimentos de
psicologia da aprendizagem na tarefa de educar".
Por
outro lado, a autonomia da Didática é reforçada por diferentes autores.
GARCIA-HOZ (1960) apresenta a Didática como a primeira
das ciências da educação "que se constituye con un cuerpo de doctrina
autónomo, independiente de la especulación filosófica en la que venían enmarcadas
las reflexiones sobre la educación".
GARCIA
y GARCIA (1969) caracterizam a Didática atual como a área do conhecimento que,
embora se utilize de conquistas de outras áreas, estando inserida no tronco
comum das ciências da educação, tem objeto próprio, definindo-se como a ciência
do ensino. Enguanto tal, GARCÍA y GARCÍA (1969) define a Didática,
"en su contenido, como `conjunto sistemático de
principios, normas, recursos y procedimientos específicos que deben informar
el conocimiento y actuación del maestro, para orientar a los escolares en la
adquisición de conocimientos y formación de hábitos, en orden a un objetivo
educativo"'.
A
análise bibliográfica mostra que as discussões sobre a "cientificidade"
e a autonomia da Didática, como um ramo do conhecimento, acompanham os relatos
de estudos realizados em seu domínio.
Considera-se
que a fase experimental da Didática se iniciou com o trabalho de Sikorsky sobre
a fadiga que o trabalho intelectual produz nos escolares, publicado em 1879.
Após o seu aparecimento, desenvolveram-se vários estudos de caráter didático
e, em 1903, Lay publica a sua Experimenttelle Didaktik, que, juntamente
com tais estudos, impulsiona a Didática e representa a base sobre a qual ela
passa a se estruturar.
PLANCHARD
(1961) lembra que são dispersos e não muito numerosos, na Europa, os trabalhos
na área. Entretanto, instituições como o Instituto São José de Calasanz, na
Espanha, o Instituto das Ciências da Educação, em Genebra, e o Laboratório de
Didática Experimental, da Universidade de Louvain, empreendem significativas
investigações dentro do mencionado campo de estudos. Boletins e Revistas como
a Revue des Sciences Pédagogiques, do Instituto de Ciências Pedagógicas
da Universidade de Bruxelas, publicam estudos referentes à Didática. Nessa fase
da Didática, são representativos os trabalhos de Meumann, Binet, Belot e Vaney.
Em 1924, Simon esclarece, na Pédagogie expérimentale, o significado da
expressão Pedagogia experimental, e, em 1935, publica-se a obra de Buyse L'expérimentation
en Pédagogie, que compila uma série de trabalhos referentes à comparação
entre métodos didáticos e entre procedimentos de ensino.
PLANCHARD
(1961) lembra ainda que os trabalhos realizados em laboratórios, nos Estados
Unidos, são classificados por Buyse em dois grandes grupos: os que empregam o
procedimento comparativo e os que se utilizam, predominantemente, do método
analítico. Os primeiros referem-se a comparações em que se enfatiza o
tratamento estatístico, e os do segundo grupo envolvem descriçöes de processos
que intervêm na situação de aprendizagem escolar. Neste último grupo,
enquadram-se. o trabalho de Freeman, sobre o ato de escrever, e o de Judd e
Gray, relativo à leitura.
Lembra
PENTEADO (1979) que o caráter científico em estudos sobre questões didáticas
data de poucas décadas, embora as preocupações a respeito se registrem desde o
século passado. O autor aponta temas sobre os quais há trabalhos de maior densidade:
os métodos de ensino, ao lado de pesquisas, em áreas próximas à Didática, sobre
a aquisição de conhecimentos e a adaptação do ensino às diferenças individuais.
Por outro lado, lamenta o pouco que se conhece sobre o comportamento dos
professores e suas influências sobre os alunos. Estudos relativos a esse tema
impulsionariam o desenvolvimento de modelos teóricos sobre o ensino e o
aperfeiçoamento da prática pedagógica em sala de aula, como, ainda, a melhoria
de critérios para a seleção de professores e para o acompanhamento de seu
trabalho. Uma questão que ele considera significativa refere-se à função
docente, assunto ainda não pesquisado, de forma sistemática, no Brasil.
Problemas como o da expectativa, por parte de pais e alunos, acerca do papel do
professor deveriam ser propostos aos investigadores, para serem discutidos,
também, em seus aspectos político e ideológico.
A
natureza dos trabalhos mencionados reforça, entretanto, a consideração dos
aspectos técnicos como característicos da Didática, em sua fase considerada
experimental.
Em
relação ao conteúdo da Didática, observa-se que os métodos ativos, em oposição
aos verbais e intuitivos, de momentos anteriores, passam a constituir questão
central.
TITONE
(1966) apresenta o relato da evolução dos métodos de ensino - dos verbais aos
ativos - como uma das formas de se descrever o histórico da Didática, tendo em
vista a "técnica didática".
A
evolução dos métodos de ensino é lembrada também por PIAGET (1976) para quem os
métodos receptivos e baseados no verbalismo - da palavra ou da imagem - devem
ser substituídos pelos ativos, em que: o aluno redescobre e reconstrói o conhecimento.
Para PIAGET (1974), tal fato consiste em condição fundamental para uma reforma
do ensino que multiplique o número de "vocações" de que a sociedade
atualmente necessita. A prática eficaz de tais métodos demanda o estudo de
Psicologia por parte dos pedagogos.
CLAPARÈDE
(1940) já havia discutido essa necessidade em suas referências às imprecisões
do conceito de atividade da Escola Nova, denunciando a falta de uma Psicologia
bem definida nesse movimento, necessária para esclarecer o significado de seu
fundamento, o princípio de atividade. Com essa crítica, justifica o uso do
termo "funcional", em sua concepção de educação, para indicar os
fundamentos psicológicos que propõe para o ensino.
Pelo
exposto, são características centrais da fase experimental da Didática: a
utilização do método experimental; a discussão em torno das relações entre a
Didática e a Psicologia; a reivindicação do caráter de ciência para a Didática;
o conteúdo "técnico" prevalecendo sobre o "crítico"; e a
substituição dos métodos verbais e intuitivos pelos ativos.
CRÍTICAS
À DIDÁTICA EXPERIMENTAL E NOVAS PROPOSTAS
A
Didática, em sua fase experimental, é alvo de críticas que incidem sobre os
dois aspectos tomados como ponto de partida para a sua caracterização: o seu
conteúdo e a metodologia de investigação na área.
Algumas
dessas críticas se referem ao afunilamento da problemática didática,
evidenciado em um conteúdo que enfatiza a apresentação de métodos, em
detrimento de outros aspectos da situação pedagógica, conforme registra TITONE.
Segundo LUZURIAGA (1958), a proliferação metodológica é
tão grande "hasta el punto de que podría afirmarse que en la actualidad
existen más técnicas y métodos escolares que los ha habido en toda la historia
de la pedagogía".
Para
STOCKER (1964), a situação se caracteriza pela "pedagogia de la
variedad".
Lembra
PENTEADO (1979) que os métodos, por sua vez, são apresentados, em geral, na
literatura pedagógica, em seu aspecto taxionômico, a partir de classificações
que salientam seus aspectos formais. Enfatiza-se o aspecto descritivo dos
métodos, em detrimento da necessária análise de suas funções no contexto
educacional mais amplo.
Na
realidade, quando as reflexões didáticas ultrapassam os limites do "como
aplicar", não vão muito além da questão "que método é mais adequado
para a aprendizagem de um conteúdo específico ou de determinada
habilidade?" Assim, quando se discutem as vinculações dos meios aos fins,
as discussões se fazem em um âmbito restrito às relações entre ensino e
aprendizagem na sala de aula.
Quanto
às pesquisas realizadas na área, uma grande parte se refere a comparações entre
os métodos de ensino. Entretanto, como lembra PARRA (1977), a maioria desses
estudos não contribui efetivamente para a melhoria do processo de ensino. É
que suas conclusões ou são muito óbvias, ou de reduzido significado, tendo em
vista a dificuldade de se tratar com o devido rigor científico um objeto como o
ensino, e de se estabelecerem generalizações sobre o mesmo. A inadequação e a
dificuldade do controle científico em tais pesquisas e a complexidade do
fenômeno ensino são Iembradas também por SMITH (1969), que denuncia o fato de
que as conclusões de investigações sobre tal fenômeno não são concludentes.
Para ele, um dos fatores que dificultam o mencionado controle é o fato de os
trabalhos sobre o ensino não o estudarem fora de contextos doutrinários,
analisando como e onde ele realmente se dá.
As
propostas de tratamento do processo de ensino como um todo, aplicáveis, em
princípio, ao ensino de qualquer disciplina, e que vêm surgindo nas últimas
décadas delineiam como que diferentes didáticas, que respondem de certa forma e
em alguns casos, à maioria das críticas apontadas.
Paralelas
ao questionamento sobre um conteúdo didático centralizado em métodos
encontram-se as propostas que giram em torno de: descrições do processo de
ensino, que têm, como importante fundamento, as descrições do processo de
aprendizagem apresentadas por psicólogos. E, solidificando e ampliando também
as suas bases psicológicas, encontram-se as propostas elaboradas a partir de
diferentes corpos teóricos da Psicologia: as que partem de estudos ainda sobre
a aprendizagem, como por exemplo, a de BRUNER (1973), as que se baseiam em
teorias de desenvolvimento, como a de AEBLI (1974), e, também, as que se fundamentam
em teorias de personalidade, como a proposta de ROGERS (1973) sobre o ensino
centrado no aluno.
Entretanto,
a ocorrência continuada de problemas de ensino não solucionados satisfatoriamente
pelas diretivas didáticas existentes ocasiona o aparecimento de críticas
também às derivações feìtas pela Didática, a partir da Psicologia.
Em
1963,
Como
se mencionou anteriormente, a aplicação direta, no ensino, de princípios de
Psicologia tem sido alvo de críticas desde o século passado. E em 1964, como
informa PFROMM NETTO (1971), Skinner se utiliza, perante a Royal Society de
Londres, da expressão Tecnologia do Ensino, para designar a área intermediária
entre a ciência de aprender e a arte de ensinar. Para SKINNER (1972),
"um
ramo especial da psicologia, a assim chamada análise experimental do
comportamento. produziu senão uma arte, pelo menos uma tecnologia do ensino, da
qual se pode, com efeito, `deduzir programas e esquemas e métodos de instrução'
".
A
solução sugerida por Skinner responde a um dos aspectos presentes na crítica
Levantada, mas ainda é uma solução psicológica.
Propostas
alternativas de didáticas não psicológicas constituem-se no tratamento do
ensino a partir de modelos sistêmicos.
Tendo-se
constatado o sucesso do enfoque sistêmico em diferentes áreas, ele passou a
ser utilizado também na área da instrução.
Vários
estudiosos, como BANATHY (1968), TUCKMAN & EDWARDS (1971), e KEMP (1977),
defendem esse enfoque, cujo desenvolvimento mais significativo não se faz a
partir dos novos modelos, que surgem quase que com cada estudioso da área, mas
de sua integração com a Tecnologia. Tal integração pode ser percebida na
proposta de Gagné, que discute o ensino ainda a partir da aprendizagem. GAGNÉ
(1976, 1974, 1973) propõe o estudo de modelos e processos de aprendizagem e
ainda das categorias de seus resultados, para discutir as diferentes fases do
processo de instrução que Ihes servirão de suporte.
A
posição de que a Didática deve libertar-se da Psicologia é vista como
promissora por estudiosos do campo da Comunicação.
THOMPSON
(1973) lembra a importância da teoria e denuncia a sua inexistência em relação
ao ensino. Pregando a autonomia deste em relação à aprendizagem, discute a
relação entre comunicação e ensino, e propõe a aplicação do que se conhece
sobre comunicação a situações de ensino.
A
importância de a Didática se construir a partir de estudos sobre o ensino -
como objeto de estudo particularmente considerado --- é enfatizada po SMITH
(1969). Como já se afirmou o autor lembra a fragilidade das conclusões de
pesquisas que pretendem solucionar problemas sobre o ensino, denunciando a
dissonância entre as teorias pedagógicas tradicionais e a prática de ensino.
PROPOSTAS
DA DIDÃTICA PRESENTES NA PRODUÇÃO INTELECTUAL BRASILEIRA
No
Brasil, encontram-se representantes de várias das linhas identificadas no
tópico anterior.
MATTOS
(1973) descreve o processo de ensino dando ênfase ao que denomina ciclo
docente. Suas etapas sobrepõem-se às etapas do processo de aprendizagem, tal
como descrito por Woodruff, citado por IBARRA-PEREZ (1965).
As
discussões de CASTRO (1974) e de GASMAN (1971) sobre a Didática fundamentada em
Piaget e a Didática não diretiva a partir de Rogers, respectivamente, expressam
as didáticas a partir de teorias do desenvolvimento e da personalidade, e os
trabalhos desenvolvidos por BORI referem-se à aplicação da linha skinneriana
no ensino.
Já
o enfoque sistêmico da instrução se encontra representado na proposta de ARAÚJO
E OLIVEIRA & OLIVEIRA (1974), que sugere um "modelo de um sistema de
instrução”. ARAÚJO E OLIVEIRA (1973) desenvolve, também, de forma sistêmica,
uma tecnologia educacional, em um de seus elementos, por ele considerado como
essencial: as teorias da instrução.
Em
síntese, as propostas atuais da Didática, que discutem o ensino em geral e têm
representatividade na produção intelectual brasileira da área, podem-se agrupar
em duas grandes classes: as psicológicas e as não psicológicas.
As
primeiras centralizam-se em descrições do processo de ensino análogas a
descrições do processo de aprendizagem ou em aplicações de teorias
psicológicas a situações de ensino.
As
propostas não psicológicas discutem o ensino a partir de outro referencial que
não a Psicologia, ou seja, o enfoque sistêmico.
Paralelas
a todas essas propostas, surgem as tecnologias educacionais e de ensino, que,
pretendendo preencher o espaço entre as prescrições teóricas e as práticas
pedagógicas em sala de aula, centralizam-se em construções sobre. o ensino
derivadas de diferentes fundamentos.
As
propostas identificadas serão apresentadas, sincronicamente, na segunda parte
deste estudo. Elas não esgotam todo o universo da Didática, mas expressam-no
dentro dos limites estabelecidos por este trabalho. Após analisá-las enquanto
um objeto específico de estudo, elas serão retomadas na discussão do conteúdo
da Didática descrito por professores da área.
OLIVEIRA, M. Rita Neto Sales. Histórico
da Didática. In: ________________ O Conteúdo da Didática: um discurso
da neutralidade científica. Belo Horizonte: UFMG, 1988, pg. 33 - 47.
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