Margarita Victoria Rodrigues
Cristina Beatriz Paranhos Silva
Edna Salgado
Mariza Helena S. Ribeiro Neves
Resumo
O texto traz resultados parciais de uma pesquisa sobre Gramsci e educação. Discute o pensamento educativo de Gramsci e sua relação com o trabalho, que significa para ele a base e o princípio do homem. Fundador do Partido Comunista Italiano, Gramsci estabeleceu uma unidade entre teoria e prática do marxismo, exercendo profunda influência sobre este. Antifascista, foi preso e condenado a mais de vinte anos de prisão, onde teve sua produção intelectual intensificada, consubstanciada em 32 cadernos. O interesse pedagógico de Gramsci foi decorrente de sua preocupação com a educação de sua família. Analisando as conseqüências do marxismo no mundo moderno, afirma que este contém as bases para uma concepção global do mundo, além de revigorar e reformar a sociedade, que torna-se agente de sua própria transformação, impondo sua hegemonia, conceito fundamental em seu pensamento. Essa contra-hegemonia é feita através da mediação dos intelectuais revolucionários com as massas. Oriundos das classes subalternas, seriam esses os responsáveis pela formação de um novo bloco histórico e social. A escola para ele, que possui um caráter amplo, seria a principal agência de formação de intelectuais. Sua proposta de escola unitária está centrada na idéia de liberdade concreta, universal e historicamente obtida. As categorias de Gramsci, como visão de mundo, de homem, hegemonia, consciência e ideologia, são explicitadas e, por último, faz-se uma reflexão sobre o sistema escolar brasileiro à luz de seu pensamento, apontando a necessidade de novas políticas e reformas pautadas nessa proposta, destacando-se a formação de professores.
Palavras-chave: educação, trabalho, marxismo, escola, intelectuais.
ANTONIO GRAMSCI: VIDA E PENSAMENTO
Fundador do Partido Comunista Italiano, Gramsci se dispôs a estabelecer uma
unidade entre a teoria e a prática do marxismo. Criticou o elitismo dos intelectuais
e exerceu profunda influência sobre o pensamento marxista.
Antonio Gramsci nasceu em Ales, Sardenha, em 23 de janeiro de 1891. Na
Universidade de Turim entrou em contato com a Federação Juvenil Socialista e
filiou-se em 1914 ao Partido Socialista. Em 1919 fundou, com Palmiro Togliatti,
o jornal L'Ordine nuovo, que defendia a participação política do proletariado.
Em 1921 foi um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Depois de dois
anos na União Soviética, como membro executivo da Terceira Internacional,
voltou à Itália, assumiu a direção do partido e elegeu-se deputado. Foi na
União Soviética onde conheceu sua esposa Julia, com quem teve dois filhos:
Délio e Juliano. As preocupações de Gramsci com a educação de seus filhos, bem
como de sua sobrinha Mea, em muito contribuíram para despertar e cultivar nele
o interesse pelas questões pedagógicas. Essas preocupações estão explicitadas o
tempo todo nos seus escritos elaborados na prisão.
Antifascista, Gramsci foi preso em 1926 e condenado a mais de vinte anos de
prisão. Sua obra, consubstanciada em 32 cadernos escritos na prisão, foi depois
distribuída em volumes, só publicados depois da guerra. De tudo que escreveu,
porém, a parte mais divulgada são suas Lettere dal carcere (1947; Cartas do cárcere),
notável documento humano e cultural em que o autor revela suas preocupações
familiares e discute problemas filosóficos e estéticos. Sua cunhada Tânia,
casada com seu irmão, teve um papel preponderante, pois tornou-se sua principal
correspondente na prisão.
Tuberculoso, Gramsci foi hospitalizado em 1935 numa clínica romana. Morreu
em 27 de abril de 1937, em Roma, quatro dias depois de alcançar a liberdade.
Gramsci analisou as conseqüências do marxismo no mundo moderno, visto como
a "filosofia da práxis". Para ele, o marxismo contém as bases para
uma concepção global do mundo, além de revigorar e reformar a sociedade, que
passa a ser agente de sua própria transformação. A partir dessa evidência, a
conquista do poder não seria só uma tarefa política do partido, mas também, e
fundamentalmente, uma luta para tornar indispensável à sociedade a nova
ideologia impondo-se sua hegemonia, conceito fundamental em seu pensamento. A
principal tarefa dos intelectuais revolucionários seria, então, a de opor o
marxismo à concepção ideológica da burguesia e levá-lo a camadas cada vez mais
amplas da sociedade.
Com certeza, o contexto de luta e o componente geográfico, influenciou muito na formação da personalidade de Gramsci. Gobetti ao retratar a personalidade de Gramsci afirma:
“Parece ter vindo do campo para esquecer suas tradições, para substituir a hereditariedade doentia do anacronismo sardo com um esforço fechado e inexorável (...) traz na pessoa física a marca desta renúncia à vida dos campos e a sobreposição quase violenta de um programa construído e renovado pela força do desespero, pela necessidade espiritual de quem rejeitou e renegou a inocência nativa.” (1910, 1003).
Em 1924, de Viena escreve a Júlia:
“Eu fui acostumado pela vida solitária, que vivi desde a infância, a esconder as minhas emoções atrás de uma máscara de dureza ou atrás de um sorriso irônico (...). Isso me fez mal: por muito tempo as minhas relações com os outros foram alguma coisa de enormemente complicado, uma multiplicação ou uma divisão por sete de todo sentimento real, para evitar que os outros entendessem o que eu realmente sentia. O que foi que me impediu de me tornar uma bandeira, pois cresci com um extremo instinto da revolta, que quando era criança era contra os ricos porque eu não podia estudar, eu que havia tirado 10 em todas as disciplinas nas escolas elementares, enquanto iam estudar o filho do açougueiro, do farmacêutico, do comerciante de tecidos. Essa revolta se dilatou para todos os ricos que oprimiam os camponeses da Sardenha e eu pensava então que precisava lutar pela independência nacional da região: “ao mar aos continentais!” quantas vezes repeti essas palavras. Depois conheci a classe operária de uma cidade industrial e compreendi o que realmente significavam as coisas de Marx que havia lido antes por curiosidade intelectual. Me apaixonei assim pela vida, pela luta, pela classe operária.” (in Santucci, 26-27)
É inegável a grande
influência que Gramsci sofreu durante os anos passados na Sardenha, atingindo
assim seus escritos. Não se trata, porém, de uma marca romântica, mas trata-se
de uma revolta que o lança cada vez mais
para a negação do sofrido trabalho do campo
em direção à valorização do trabalho industrial. É uma experiência que o
torna uma espécie de Rousseau às avessas, pois o campo representa vida duríssima. A vida e o trabalho da foice (campo) o lançam
a valorizar a vida e o trabalho do martelo (operariado).
A saída dessa fase coincidiu com a descoberta, em Turim, da classe operária industrial, onde Gramsci tornou-se um militante e um dirigente espiritual das massas operárias italianas.
O
TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO PARA GRAMSCI
Para entender melhor o
valor que Gramsci atribui ao trabalho industrial para educação, é importante
conhecer seu itinerário da Sardenha a Turim; de Turim à Rússia; da Rússia à
prisão. Neste sentido, é muito útil a leitura de seus Escritos Políticos
(anteriores ao cárcere). Cremos que só é possível sentir as razões de sua
insistência sobre certos assuntos políticos, filosóficos e culturais quando
percebemos o forte contexto de luta desse intelectual italiano nascido, criado
e emigrado aos 20 anos (novembro de 1911) de uma ilha atrasada, pobre, fechada,
arcaica, sofrida, preconceituosa que era Sardenha.
Para Gramsci, é
historicamente indiscutível a primazia histórica do próprio trabalho
industrial, base e princípio do novo homem, ainda modelando-o integralmente. É
ele que levará o homem a mudar sua visão de mundo, implicando-lhe a combater o
processo de dicotomia das ideologias difundidas pela burguesia no seu
cotidiano, podendo vincular a sua vida a essa nova concepção de homem e de
mundo.
Com base nessa concepção é possível buscar o conjunto de outros elementos que permitem segundo GRAMSCI (1995, p. 39),
"conceber o homem como uma série de relações ativas (um processo), no qual, se a individualidade tem máxima importância, não é todavia o único elemento a ser considerado. A humanidade que se reflete em cada individualidade é composta de diversos elementos: 1- o indivíduo; 2- os outros homens; 3- a natureza. O indivíduo não entra em relação com os outros homens por justaposição, mas organicamente, isto é, na medida em que passa a fazer parte de organismos, dos mais simples aos mais complexos. Desta forma, o homem não entra em relações com a natureza simplesmente pelo fato de ser ele mesmo natureza, mas ativamente, por meio do trabalho e da técnica."
Quando o homem inteira-se criticamente do mundo ao qual faz parte, certamente desenvolve atitudes coerentes em sua vida de luta contra o despotismo da burguesia. Vale ressaltar GRAMSCI (1995, p.12), no que se refere a concepção de mundo:
“Pela própria concepção do mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que partilham de um mesmo modo de pensar e de agir. Porém, se nossa concepção do mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é composta de forma bizarra(...)."
Criticar a própria
concepção do mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la
(...). O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que somos
realmente. Isto é, um “conhece-te a ti mesmo” como produto do processo
histórico.
O objetivo do autor
ao analisar a concepção de mundo é também o de compreender como ela se converte
em “norma de conduta” de vida e como esta propicia a concretização de uma
“reforma intelectual e moral; indica portanto, como uma concepção de mundo se
converte numa vontade coletiva.
O desejo de Gramsci era
que o princípio educativo universal do trabalho industrial transformasse também
a tradicional instituição escolar. Porém, quando ele fala de escola, deve-se
prestar atenção porque muitíssimas vezes ele refere-se a esse conceito como
algo mais amplo (círculos culturais, Rotary Clubes, escolas de grandes jornais,
das fábricas, do comércio, etc.). Portanto, para Gramsci o dilatamento da idéia
de escola é natural.
De acordo com as análises das “Cartas do Cárcere” feitas por Nosella (1992), torna-se evidente que Gramsci tinha grandes preocupações com as questões didático-pedagógicas, sempre orientado pela sua concepção de vida, de cultura, de filosofia, de história, segundo o qual o ser humano deve se educar científica e culturalmente até os níveis mais complexos, sofisticados e modernos, partindo de uma forte e vital ligação com sua base popular e com seu senso comum. Essa concepção educacional seria a da ótica do trabalho, o oposto de uma educação voltada para a formação de um técnico abstrato.
GRAMSCI E EDUCAÇÃO
A
educação é essencialmente um processo de aquisição de conhecimentos necessários
ao homem no seu intercâmbio com a natureza e com os outros indivíduos. Esse
processo de aquisição do conhecimento ocorre no próprio contexto do processo de
trabalho e dele é fruto.
A
temática pedagógica ocupa um caráter não secundário na experiência vivida e no
pensamento de Antonio Gramsci, seja como interesse educativo imediato a nível
individual, ou como luta política pela organização da cultura em nível de
massa.
A
preocupação educativa em Gramsci é verificada concretamente através de seus
escritos no cárcere. Ele exprime interesse pela educação quando afirma em uma
carta à sua esposa: “A questão escolar
interessa-me muitíssimo” (Manacorda, 1990, p.15). Ele mesmo ressalta o
vínculo objetivo entre pedagogia e política, quando sublinha que "essa relação (pedagógica) existe em toda a sociedade, no seu conjunto”,
ou quando coloca a escola como uma atividade essencial no futuro (ibid).
Segundo
o pensamento de Gramsci, é fundamental o processo de educação das massas para
que estas possam se inserir de modo ativo e consciente na vida política. Para
ele, a atividade de educação das massas é realizada sobretudo através da
mediação dos “intelectuais”, isto é, dos indivíduos que organizam e difundem a
concepção de mundo de uma classe social que, emergindo no terreno da produção
econômica, procura exercer o seu governo sobre a sociedade. Como “funcionários”
de uma determinada classe social, são eles que realizam as funções subalternas
da hegemonia social, procurando obter o consentimento das grandes massas ao
domínio político da classe social à qual estão organicamente vinculados.
Gramsci
considera a escola a principal agência, na sociedade civil, de formação de
intelectuais. De modo especial, preocupa-lhe a preparação de intelectuais de
novo tipo, organicamente ligados às classes subalternas, para que possam
influir no processo da hegemonia civil, educando e formando os “simples”, ou
seja, elaborando e tornando coerentes os problemas que as massas populares
apresentam em sua atividade prática para, assim, constituir um novo “bloco
cultural e social”. É dentro dessa linha de raciocínio que Gramsci discute a
organização da escola, pois a considera uma das mais importantes instituições
que movimentam o conteúdo ético estatal, isto é, das ideologias que circulam na
sociedade civil seja com a finalidade de legitimar o grupo dominante
tradicional, ou de lutar contra ele para fundar uma nova sociedade.
A
concepção de Gramsci sobre a organização cultural, formulada na juventude,
mantém seus elementos básicos e foi aprofundada na prisão. Aí desenvolve-se
questões relacionadas ao trabalho cultural de conquista de uma “consciência
unitária”, indo do conceito de “hegemonia” até as formas concretas de organizar
e difundir a cultura. Desse modo, ele chega à questão da escola. Suas análises
sobre o assunto estão esboçadas desde 1916, quando acusou a escola de ser um “privilégio”
das elites e criticou sua forma dualista de organização. No artigo “Homens ou
máquinas?” (Uomini o macchine?), do
Avanti!, denunciou a tendência em se excluir o proletariado da escola média e
superior da cultura, oferecendo-lhe institutos técnicos e profissionais.
Opondo-se a esse tipo de formação, ele diz que o proletariado necessita de uma
escola “desinteressada”, uma “escola humanista”, tal como a “entendiam os
antigos e os mais recentes homens do Renascimento”.
Enfim,
uma
“escola que
não hipoteque o futuro do jovem e não constranja a sua vontade, a sua
inteligência, a sua consciência em formação a mover-se dentro de um trilho com
direção pré-fixada. Uma escola de liberdade e de livre iniciativa e não uma
escola de escravidão e mecanicidade.” (Gramsci, 1975, p. 82)
Gramsci
debateu com a tendência humanista, buscando identificar seus princípios
pedagógicos e, sobretudo, sua importância para a formação de dirigentes, no
contexto econômico, social e político que precedeu a expansão do capitalismo de
base industrial. Ele acompanha e interpreta a crise desse princípio, examina
diversos movimentos que surgiram para redefinir a formação de quadros
intelectuais e instrumentais e com eles abre uma fecunda polêmica que culmina
na sua proposta de escola unitária.
Segundo Gramsci, com a ruptura no princípio
formativo humanista da velha escola média e o crescimento anárquico de
diferentes escolas profissionais, abriu-se uma dualidade na organização escolar que a burguesia não conseguiu
resolver: de um lado, a formação de especialistas (técnico-científico +
político) e, de outro, a formação de
técnicos (instrumental e prático). Agravando-se essa dualidade, Gramsci esboçou
um princípio educativo que expressava as novas exigências da luta política na guerra de posição. Nasceu, então, o
conceito de “escola unitária”.
A
“escola unitária”: a igualdade social, o trabalho
A
proposta de escola unitária de Gramsci está centrada na idéia de liberdade
concreta, universal e historicamente obtida, isto é, na liberdade gestada pelo
trabalho industrial e universalizada pela luta política. A relação
escola/trabalho dá sentido à idéia de liberdade.
"O
trabalho é a própria oficina-escola que forja o homem na prática produtiva,
projetando, se estendendo e concretizando vários outros tipos de escolas de cultura, de
política, para melhor adaptar esse homem ao novo tipo de prática produtiva
necessária naquele momento histórico(...). Para Gramsci, as diversas formas
produtivas e suas correlatas formas escolares são expressão da busca de
liberdade por parte do homem". (Nosella,
1992, p. 127)
Quando
Gramsci propõe a “escola unitária” como reação ao dualismo escolar, o adjetivo
“unitária” está relacionado a um princípio muito amplo, parâmetro de toda a sua
análise sobre a organização da cultura. Trata-se do princípio da igualdade ou
“princípio unitário”, diretriz para superar os conflitos sociais. Refere-se à
luta pela unificação histórica do homem, uma possibilidade a ser realizada, um
devir.
Já
o Estado democrático utiliza-se de estratégias para assegurar o controle
hegemônico da ordem social à qual está vinculado. É importante, dentre essas
estratégias, que o Estado democrático afirme a “igualdade” entre os homens e as
mulheres, reconhecendo-os como “cidadãos” e cidadãs”, igualdade essa que só
pode ser concebida dentro de uma relação de desigualdade existente na relação
entre Estado e sociedade civil, que é na concepção gramsciana, o centro
unitário, no campo político, da dialética entre homem e natureza. Ainda que
esse princípio seja apenas formal e não condizente com a realidade, ele resulta
de um processo histórico de emancipação dos sujeitos sociais das cadeias do
feudalismo e constitui o fundamento moral do “Estado de direito”. Nesse quadro,
a noção de “cidadania” se apresenta como horizonte da igualdade. Tratando os
cidadãos e as cidadãs como “iguais”, o Estado busca educá-los para a obediência
à uma determinada ordem social, à uma dada forma de poder, de modo a garantir
sua hegemonia. Essa hegemonia perpassa entre dois significados, de acordo com
CORRÊA (2000, p. 58), que trabalha essa categoria na visão gramsciana:
“Na cultura
política, hegemonia tem sido mais usada para referir-se às relações entre
classes sociais, partidos políticos, instituições, aparelhos públicos e
privados. Nesse viés marxista, o conceito oscila entre dois significados. Um
relaciona hegemonia e domínio, isto é, o predomínio da coerção sobre a
persuasão, da força sobre a direção, da submissão sobre a legitimação e o
consenso, da dimensão política sobre a cultural.
Outro
significado mais comum na tradição marxista, e que prevalece mais atualmente, é
diametralmente oposto porque relaciona hegemonia e liderança com consentimento.
Considera hegemonia como capacidade de direção intelectual e moral, política e
cultural de uma classe ou grupo social sobre as outras classes, grupos sociais
ou frações de classe social”.
Portanto,
o conceito de hegemonia elaborado por Gramsci não é estático, mas dinâmico. É
pertinente a análise crítica de hegemonia feita por WILLIAMS (in Corrêa 2000, p.65) quando cita:
“Hegemonia é
todo um corpo de práticas e expectativas; nossas tarefas, nossa compreensão
comum de homem e de seu mundo. É um conjunto de significados e valores que à
medida que são experenciados como práticas apresentam-se como se confirmado
reciprocamente. Constitui, portanto, um sentido absoluto, porque experenciados
como uma realidade fora da qual é muito difícil para a maioria dos membros de
uma sociedade instalar-se em grande parte de suas vidas. Mas não é, exceto na
operação de um elemento de análise de análise abstrata, um sistema estático.
Pelo contrário, só podemos compreender uma cultura efetiva e dominante se
entendermos o processo social real de que ela depende: refiro-me ao processo de
incorporação”.
O
princípio da “reforma da igualdade” é o trabalho, o mundo da produção (GRAMSCI,
1978, p. 125), pois o trabalho é elemento de mediação entre o homem e a
natureza, e ele deve ser entendido como "trabalho criador".
O
princípio de igualdade é aquele que fundamenta toda a filosofia marxista. Daí a
importância do historicismo, mostrando como a realidade vivenciada pelos
educadores não é exterior a eles e sim um produto de sua ação, e que, portanto,
a igualdade é um projeto que depende de uma realização histórica de cada
educador. Depende de como cada um se compreende, conscientemente, e como é a
participação dos educadores na construção dessa igualdade. Como devir, a
igualdade só pode ser concebida dentro de uma relação de desigualdade existente
na relação entre Estado e sociedade civil que é, na concepção de Gramsci, o
centro unitário, no campo político, da dialética entre homem e natureza.
O
homem é, para Gramsci uma série de relações ativas que humaniza e se transforma
através de sua atividade natural e
social. Essa transformação é coletiva e se dá através do trabalho na existência
humana. Para tal compreensão, é interessante buscar em MARX (Obras escolhidas,
p.209), sua observação à margem do Programa do Partido Operário Alemão, a
conotação e sentido do que venha ser trabalho:
“O trabalho
não é fonte de toda riqueza. A natureza é a fonte dos valores de uso (que são
os que verdadeiramente integram a riqueza material!), nem mais nem menos que o
trabalho, que não é mais que a manifestação de uma força natural, da força de
trabalho do homem. (...). Na medida em que o homem se situa de antemão como
proprietário diante da natureza, primeira fonte de todos os meios e objetos de
trabalho, e a trata como possessão sua, seu trabalho converte-se em fonte de
valores de uso, e, portanto, em fonte de riqueza. Os burgueses têm razões muito
fundadas para atribuir ao trabalho uma força
criadora sobrenatural; pois precisamente do fato de que o trabalho está
condicionado pela natureza deduz-se que o homem que não dispõe de outra
propriedade senão sua força de trabalho, tem que ser, necessariamente, em
qualquer estado social e de civilização, escravo de outros homens, daqueles que
se tornaram donos das condições materiais de trabalho. E não poderá trabalhar,
nem, por conseguinte, viver, a não ser com a sua permissão”.
Afirmar
a igualdade é afirmar uma unidade. Entretanto, qualquer unidade que se afirme
sobre o homem, observa Gramsci, não passa de uma abstração, já que na realidade
atual, não existe nenhuma igualdade na sociedade. Desse modo, o princípio
“unitário” é abstrato, sua concretização é um objetivo político, que depende de
lutas em todos os planos da sociedade. Depende especialmente de uma luta
cultural para se formar uma nova “vontade coletiva” inspirada na solidariedade
e na convivência pacífica, que seja capaz de desagregar a “vontade coletiva”
atual, que contribui para manter as desigualdades sociais.
Gramsci
afirma que o marxismo é a referência filosófica dessa luta cultural para formar
uma nova “vontade coletiva”, fundada na igualdade. O princípio moral dessa
“reforma cultural” é o trabalho, o mundo da produção. Para ele, o princípio
“unitário” refere-se ao estabelecimento de novas relações entre o trabalho
intelectual e o trabalho industrial (Gramsci, 1978b, p. 125).
Afirmando
que o princípio unitário deve ser referência de uma nova pedagogia, Gramsci
formula a noção de “escola unitária”: unitária quanto à sua organização e ao
seu princípio formativo. Podemos compreender sua proposta quando examinamos sua
posição em relação ao confronto que estabelece com, pelo menos, quatro
diferentes concepções pedagógicas de sua época: a “escola tradicional”, de base
humanista; a “escola nova”; a “escola única do trabalho (politécnica)”; e as
escolas profissionalizantes.
Quanto
à primeira delas, a “escola tradicional”, Gramsci analisa suas funções sociais,
políticas e ideológicas, investigando as razões pelas quais ela entrou em
crise. Atribui sua falência ao fato de que ela não correspondia mais às
demandas da sociedade industrial. Depois, o autor examina dois tipos de
respostas apresentadas para a crise da “escola tradicional”. De um lado, a
“escola nova”, formulada pelos intelectuais organicamente ligados aos grupos
dominantes (burguesia neoliberal), de outro, a “escola única do trabalho”, que
surgiu a partir da revolução soviética, inspirada nas escassas indicações
deixadas por Marx. A proposta burguesa, a escola nova, ganhava uma
sistematização teórica cada vez mais refinada, orientando um grande número de
reformas educacionais que começavam a ser realizadas em diversos países da
Europa. Já a proposta socialista, resultante da tentativa de Lenin de resgatar
a concepção marxista de “escola politécnica”, era o paradigma para reconstruir
a pedagogia soviética. Além disso, Gramsci discute intensamente o surgimento
desenfreado de escolas profissionalizantes, mostrando que elas não tinham
princípios educativos claros. Em lugar de contribuir para democratizar o
ensino, elas reforçavam a divisão social do trabalho.
Sendo
assim, ao analisar a questão educativa buscou também resgatar o conceito de
trabalho como categoria histórica, como trabalho criador. Desse modo, ele
concluiu que o princípio da “atividade” deve ser o princípio formativo da
proposta escolar que apresenta: a “escola unitária”.
Para
Gramsci, a criação de um tipo único de escola preparatória – elementar e média
-, fundada no princípio da atividade e conduzindo o jovem até os umbrais da
escolha profissional, apresenta-se como solução para a crise da escola de base
humanista (Gramsci, 1978b, p. 136). Trata-se, portanto, de uma
"Escola
única inicial de cultura geral, humanista, formativa, que equilibre equanimente
o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente (tecnicamente,
industrialmente) e o desenvolvimento das capacidades de trabalho
intelectual." (Gramsci, 1978b, p. 118)
Na
“escola unitária”, esclarece o autor, “o trabalho e a teoria estão estritamente
ligados”, pois ela está voltada para educar as classes instrumentais e
subordinadas para um papel diretivo na sociedade como conjunto e não como
indivíduos singulares (ibid, p. 149). A “escola unitária” é escola “ativa”
porque tem como princípio filosófico realizar a igualdade, partindo do conceito
e do fato do trabalho, da relação entre teoria e prática na atividade dos
homens.
A
noção de “atividade” não é a mesma
apresentada pela pedagogia neo-idealista. Antes de contrastar uma e outra, é
preciso destacar que o ideal de “escola unitária” não é apresentado por Gramsci
como algo a ser realizado pela destruição absoluta da organização escolar
existente. Ao contrário, o autor sinaliza o surgimento da “escola unitária” na
prática. Seu princípio formativo, o trabalho, torna-se uma realidade. Ele
orientava a organização escolar que ia se estruturando com a crise da escola
humanista, justamente pela pressão do movimento socialista.
Para
ele, não se deve alimentar o espontaneismo no processo de aprendizagem. Isto
não quer dizer que deve-se reprimir a personalidade da criança, mas sim evitar
supervalorizar suas inclinações para uma ou outra habilidade como se fossem
manifestações inatas, até porque ele não acredita em tendências precoces. Para
ele, a criança, suas fantasias, sua inteligência e seu desenvolvimento são
realidades históricas.
"Creio
que em cada um deles existam todas as tendências, assim como em todas as
crianças, quer para a prática quer para a teoria ou para fantasia e que aliás
seria correto guiá-las, nesse sentido, para uma harmoniosa e orgânica mistura
de todas as faculdades intelectuais e práticas, que a seu tempo terão
oportunidade de se especializarem, com base numa personalidade vigorosamente
formada, total e integralmente. O homem moderno deveria ser uma síntese dos
caracteres que são tipicizados como caracteres nacionais: o engenheiro
americano, o filósofo alemão, o político francês, recriando, por assim dizer, o
homem italiano do Renascimento, o tipo moderno de Leonardo da Vinci que tornou
o homem coletivo mesmo mantendo a sua forte personalidade e originalidade
individual."
(Gramsci apud Nosella, 1992, p. 90)
O
autor rejeita qualquer idéia de espontaniedade pedagógica porque respeita
profunda e historicamente a criança enquanto um cidadão em formação, mas já um
indivíduo no contexto das relações de produção.
(...)
"penso que o homem é toda uma formação histórica, obtida pela coerção
(entendida não apenas no sentido brutal e de violência exterior) e apenas isso
eu penso: de que outra maneira cairíamos numa forma de transcendência ou de
imanência. O que se entende por força latente nada mais é, em geral, que o
complexo informe e sem distinção das imagens e das sensações dos primeiros
dias, dos primeiros meses, dos primeiros anos de vida, imagens e sensações que
nem sempre são tão boas como se quer imaginar. Esse modo de conceber a educação
como o desenrolar-se de um novelo pré-existente teve sua importância quando se
contrapôs a escola jesuíta, isto é, quando negava uma escola ainda pior, mas
hoje está também superado. Renunciar a formar a criança significa somente
permitir que sua personalidade se desenvolva absorvendo caoticamente do
ambiente geral todos os estímulos de vida."
(Gramsci apud Nosella, 1992, p. 97)
Baseado
nisso, ele faz a seguinte proposta de organização escolar, que vai denominar
escola unitária:
"Um
ponto importante, no estudo da organização prática da escola unitária, é o que
diz respeito à carreira escolar em seus vários níveis, de acordo com a idade e
com o desenvolvimento intelectual-moral dos alunos e com os fins que a própria
escola pretende alcançar. A escola unitária ou de formação humanista (entendido
este termo, “humanismo”, em sentido amplo e não apenas no sentido tradicional)
ou de cultura geral deveria se propor à tarefa de inserir os jovens na
atividade social, depois de tê-los levado a um certo grau de maturidade e
capacidade, à criação intelectual e prática e uma certa autonomia na orientação
e na iniciativa."
(Gramsci,
1991, p. 121)
Porém,
esse tipo de educação só faz sentido se for uma escola pública e gratuita,
financiada pelo Estado e com autonomia pedagógica.
"A
escola unitária requer que o Estado possa assumir as despesas que hoje estão a
cargo da família, no que toca a manutenção dos escolares, isto é, que seja
completamente transformado o orçamento da educação nacional, ampliando-o de um
modo imprevisto e tornando-o mais complexo: a inteira função da educação e
formação das novas gerações torna-se, ao invés de privada, pública, pois
somente assim pode ela envolver todas as gerações, sem divisões de grupos ou
castas."
(Gramsci, 1991, p. 121)
Com
relação à temporalidade da escola unitária, Gramsci propõe um primeiro momento
(3 a 4 anos) correspondente ao ensino básico, quando a criança teria contato
com a leitura, a escrita, a matemática e com as primeiras noções do Estado e da
sociedade.
"O
primeiro grau elementar não deveria ultrapassar três, quatro anos e, ao lado do
ensino das primeiras noções “instrumentais” da instrução (ler, escrever, fazer
contas, geografia, história), deveria desenvolver notadamente a parte relativa
aos “direitos e deveres”, do Estado e da sociedade, como elementos primordiais
de uma nova concepção do mundo que entra em luta contra as concepções
determinadas pelos diversos ambientes sociais tradicionais, ou seja, contra as
concepções que poderíamos chamar de folclóricas."
(idem, p. 122)
Contudo, não pode deixar de existir nessa primeira
fase uma ação pedagógica capaz de temperar e fecundar a orientação dogmática,
para somente numa segunda fase (5 ou 6 anos) se adotar uma ação pedagógica
criadora. Isso porque detecta um grande problema na organização da escola:
"Do
ensino quase puramente dogmático, no qual a memória desempenha um grande papel,
passa-se à fase criadora ou de trabalho autônomo e independente; da escola com
disciplina de estudo imposta e controlada autoritariamente passa-se uma fase de
estudo ou de trabalho profissional na qual a autodisciplina intelectual e a
autonomia moral são teoricamente ilimitadas. E isto ocorre imediatamente após a
crise da puberdade, quando o ímpeto das paixões instintivas e elementares não
terminou de lutar contra os freios do caráter e da consciência moral em
formação."
(Gramsci,
1991, p. 123)
Por
isso ele defende que a escola elementar daria conta desse problema dividindo-se
em duas fases como exposto acima. Aliás, é na segunda fase da escola unitária
que o aluno recebe uma formação de caráter científico com base no trabalho como
princípio educativo.
"Eis o
porque, na escola unitária, a última fase deve ser concebida e organizada como
fase decisiva, na qual se tende a criar os valores fundamentais do “humanismo”,
a autodisciplina intelectual e a autonomia moral necessárias a uma posterior
especialização, seja ela de caráter científico (estudos universitários), seja
de caráter imediatamente prático-produtivo (indústria, burocracia, organização
das trocas etc.). O estudo e o aprendizado dos métodos criativos na ciência e
na vida deve começar nesta última fase da escola, e não deve ser mais um
monopólio da universidade ou ser deixado ao acaso da vida prática: esta fase
escolar já deve contribuir para desenvolver o elemento da responsabilidade
autônoma nos indivíduos, deve ser uma escola criadora."
(idem, p.
124)
Assim, enquanto a primeira fase da escola
unitária teria o caráter pedagógico da escola ativa, que busca nos fins atingir
a fonte natural para elaborar os métodos e as formas de construção do
conhecimento, a segunda fase teria o caráter pedagógico da escola criadora, na
qual o aluno, por conta própria, com a assessoria de um professor, construiria
seu próprio método de investigação e de conhecimento, autônomo e espontâneo.
"Assim,
escola criadora não significa escola de “inventores e descobridores”; ela
indica uma fase e um método de investigação e de conhecimento, e não um
programa predeterminado que obriga à inovação e à originalidade a todo custo.
Indica que a aprendizagem ocorre notadamente graças a um esforço espontâneo e
autônomo do discente, e no qual o professor exerce apenas uma função de guia
amigável, como ocorre ou deveria ocorrer na universidade. Descobrir por si
mesmo uma verdade, sem sugestões e ajudas exteriores, é criação (mesmo que a
verdade seja velha) e demonstra a posse do método; indica que, de qualquer
modo, entrou-se na fase da maturidade intelectual na qual se pode descobrir
verdades novas."
(Gramsci,
1991, pp. 124-125)
Somente após esta segunda fase o aluno
estaria pronto para fazer sua opção profissional. Com relação à universidade e
sua nova função “em novo contexto de relações entre vida e cultura, entre trabalho
intelectual e trabalho industrial,” segundo Gramsci,
“as
academias deverão se tornar a organização cultural (de sistematização, expansão
e criação intelectual) dos elementos que, após a escola unitária, passarão para
o trabalho profissional, bem como um terreno de encontro entre estes
universitários”. (idem, p. 125)
Essa organização escolar não pressupõe uma
escola dualista, de forma alguma. O que dá organicidade a essas duas fases da
escola unitária é exatamente seu método, que vê no trabalho seu princípio
educativo.
"O
conceito e o fato do trabalho (da atividade teórico-prática) é o princípio
educativo imanente à escola elementar, já que a ordem social e estatal (direitos e deveres) que é introduzida e
identificada na ordem social e ordem natural sobre o fundamento do trabalho, da
atividade teórico prática do homem, cria os primeiros elementos de uma
instituição do mundo, liberta de toda magia ou bruxaria, e fornece o ponto de
partida para o posterior desenvolvimento de uma concepção histórico-dialética
do mundo, para a compreensão do movimento e do devenir, para a valorização da
soma de esforços e de sacrifícios que o presente custou ao passado e que o
futuro custa ao presente, para concepção da atualidade como síntese do passado,
de todas as gerações passadas, que se projeta no futuro."
(idem, pp. 130-131)
Gramsci sempre teve absoluta clareza do
sentido histórico de seu pensamento e fazia questão de distingui-lo de outros
pensamentos que impregnavam o debate político-educacional de sua época,
ressaltando o seu caráter revolucionário.
"Mas a
tendência democrática, intrinsecamente, não pode consistir apenas em que um
operário manual se torne qualificado, mas em que cada “cidadão” possa se tornar
“governante” e que a sociedade o coloque, ainda que “abstratamente”, nas
condições gerais de poder fazê-lo: a democracia política tende a fazer
coincidir governantes e governados (no sentido de governo com o consentimento
dos governados), assegurando a cada governado
a aprendizagem gratuita das capacidades e da preparação técnica geral
necessárias ao fim de governar."
(Gramsci, 1991, p. 137)
Gramsci, tinha consciência de que:
"O
advento da escola unitária significa o início de novas relações entre trabalho
intelectual e trabalho industrial não apenas na escola, mas em toda a vida
social. O princípio unitário, por isso, refletir-se-á em todos os organismos de
cultura, transformando-os e emprestando-lhes um novo conteúdo." (idem, p. 125)
Por isso sua proposta de escola unitária não
é uma proposta isolada, mas sim uma proposta gestada no sabor da militância
socialista e no compromisso com a classe operária. Sua proposta de escola
unitária faz parte de um projeto muito maior: construir uma nova ordem de
relações sociais de produção.
A questão do método na “escola unitária”
Gramsci
discorda da ruptura entre instrução e educação, geralmente vista como uma
peculiaridade da velha escola. Ele diz que essa divisão não é verdadeira.
Em
primeiro lugar, o autor observa que, para se estabelecer diferenças entre
"instrução e educação, é necessário admitir que durante a
"instrução" o discente se comporta com "mera passividade".
Contudo, quando se postula uma "pedagogia ativa", essa tese é negada.
Admitir a "atividade" do estudante no processo pedagógico é negar que
ele seja apenas um "depositário" e o educador um
"depositante" do saber. Portanto, frisa o autor, é contraditório o
argumento de que a educação não seja também instrução. "Para que a
instrução não fosse igualmente educação", argumenta Gramsci,
"Seria
preciso que o discente fosse uma mera passividade, um “recipiente mecânico” de
noções abstratas, o que é absurdo, além de ser “abstratamente” negado pelos
defensores da pura educatividade precisamente contra a mera instrução
mecanicista."
(Gramsci, 1978b, p. 131)
Em
segundo lugar, o autor defende o argumento de que, na velha escola, havia um
nexo entre instrução e educação porque existia uma relação dinâmica entre a
escola e a vida. Mantendo sua antiga concepção da cultura como “consciência de
si”, Gramsci diz que a velha escola educava porque tinha um “método analítico”
estreitamente relacionado às tradições culturais que ainda estavam vivas.
Conhecer a civilização, a cultura latina, era “conhecer conscientemente a si
mesmo” (ibid, p. 134). No entanto, era um fato amplamente reconhecido que a
velha tradição cultural humanista entrara em agonia. A crise dessa tradição e a
ascendência da cultura industrial e científica levaram à crise do grego e do
latim (ibid, p. 136). Nesse sentido, sim, estava justificada a luta contra a
velha escola. Uma escola baseada em princípios científicos e tecnológicos e que
se constitua num espaço de síntese entre prática e teoria, entre trabalho
manual e intelectual.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não
há, seguramente, nos dias atuais, questão mais polêmica do que a da escola. Ela nos angustia e nos confunde,
tanto porque somos bombardeados a todo momento pela idéia de que a educação é a
senha de acesso ao futuro, quanto porque estamos muito insatisfeitos com a
escola que temos. Ficamos incomodados porque queremos convencer-nos da
importância decisiva da escola e porque nos desiludimos com a escola realmente
existente.
Quem
já não se pôs a questão, por exemplo, entre as famílias que deparam-se com a
necessidade de escolher a próxima escola de seus filhos? Quem, entre os
educadores, já não se viu apostando nas possibilidades de uma renovação nos
métodos de gestão escolar que compensasse as falhas do sistema educacional e
“salvasse” a escola, recuperando-a plenamente aos olhos da comunidade? Quem já
não se surpreendeu divagando sobre a necessária
reposição da escola, nestes tempos que aparecem naturalizar a crise da
escola realmente existente em nome de uma ideologia que hipervaloriza a
educação escolar como caminho mais adequado para o êxito profissional?
É
um paradoxo: tudo está difícil no campo da educação, mas é impossível
visualizar saídas que não passem por ela. Valorizamos a escola que não temos –
a escola em si – por convicção cultural, mas também porque a sociedade
informatizada que se anuncia como “sociedade inteligente” sancionou a educação
como pressuposto do sucesso e plataforma para uma efetiva reforma cultural.
Criticamos a escola que temos porque ela não parece reunir condições de
enfrentar esta época de transição, paradoxos e incertezas; porque é o resultado
vivo de muitas políticas casuísticas e de uma certa perda da capacidade
coletiva de empenhar-se ativamente pela escola. Duvidamos da escola que temos
porque ela é hoje um campo de confusões e expectativas mal-dimensionadas, seja
por parte de professores e alunos, seja por parte dos pais que esperam tudo
dela, até mesmo uma oferta de “educação” que deveria decorrer da própria
dinâmica familiar.
Podemos
criticar realmente a escola existente, mas temos excelentes motivos para
dedicar a ela o melhor de nossos esforços e convertê-la numa causa ampla,
generosa e democrática. Se soubermos partir da escola que está aí, em vez de
descartá-la como verdadeiro espelho embaçado do projeto hegemônico das classes
dominantes, se soubermos escapar definitivamente da idéia de que uma boa escola
– uma escola de qualidade, democrática, de massas, universal, pública e
gratuita, ou seja, uma escola republicana – só virá depois que tivermos uma boa
sociedade, certamente teremos como reformar a escola.
Não
precisamos, pois, de projetos mirabolantes dedicados a fundar uma escola nova,
como se a que existe fosse pura inutilidade e não pudesse ser transformada. Mas
é evidente que não basta simplesmente querer outra escola, como se ela estivesse
ao alcance da mão, independentemente de condições concretas e projetos bem
fundamentados. A reforma da escola não é algo simples, passível de ser
equacionado tecnocraticamente, à base de ajustes orçamentários, reformulações
técnicas ou mudanças administrativas, como se a intervenção num terreno tão
vital e tão colado à realidade viva das massas pudesse ser experimentada sem
política distante da democracia.
No
Brasil, antes de tudo, precisamos reformar a escola e o sistema educacional,
tanto quanto precisamos de novas políticas para a educação. Estamos convencidos
de que devemos dar mais espaço na escola para professores e alunos, estimular o
controle democrático da escola pela comunidade, melhorar a gestão escolar,
tornar a escola – e aqui particularmente a escola pública – um valor nacional,
brigar para modificar o peso relativo da política educacional diante das demais
políticas governamentais.
Mas
ainda não estabelecemos com rigor o que entendemos por reforma da escola.
Aceitamos com facilidade a idéia de reforma hoje em circulação: providências
dedicadas a reduzir custos e ajustar estruturas, não a modificar sentidos e
significados. Tendemos a achar que nas escolas faltam “administradores”,
gerentes competentes para manusear cifras, modelos e tecnologias destinadas a
“otimizar” o ensino, o pessoal docente, os currículos. Os próprios pais querem
que a escola “administre” seus filhos, dando a eles disciplina e recursos para
a ascensão profissional.
Chegamos
a admitir que talvez o mercado possua mesmo o que a ideologia da época apregoa:
racionalidade, eficiência, agilidade, até mesmo “justiça distributiva”. Como a
própria educação tornou-se ela também uma mercadoria, tendemos a achar que a
escola deve ser administrada com métodos empresariais. Quantos não se deixam
atrair, por exemplo, pelas escolas que têm bom marketing, ocupam lugar na mídia
e “garantem” formação competitiva?
Porque
somos filhos do tempo, achamos que não podemos esperar muito mais coisas do
Estado, que a hora é não só do mercado, mas também das organizações
não-governamentais e do terceiro setor. Parecemos sem forças para manter viva a
velha utopia da escola republicana, da escola laica, pluralista, democrática,
da escola de todos.
Se
quisermos, porém, construir uma escola para o futuro, devemos ir além da
cultura da época. É inegável que temos problemas de gestão, mas eles precisam
ser pensados e enfrentados em sua justa dimensão. Os grandes problemas da
escola e da educação são de outro tipo de envergadura. Dependem, para ser solucionados,
de pessoas que mobilizem recursos humanos políticos, sociais e ideológicos para
uma transformação substantiva.
A
escola deve ocupar lugar de destaque que merece. Deve ser tratada com
generosidade e rigor conceitual, para que construa um projeto aberto para o
futuro, vinculado à democracia e em permanente diálogo com as grandes maiorias.
Justamente por isso está intimamente associada à proliferação daquele novo tipo
de intelectual cujo modo de ser Gramsci dizia não mais consistir na
“eloquência”, mas numa “inserção ativa na vida prática”.
A
reforma da escola de que necessitamos passa pela presença desta figura
maiúscula do intelectual construtor, organizador, persuasor permanente, que, da
técnica-trabalho, consegue chegar à técnica-ciência e à concepção humanista
histórica, rompendo assim com a condição de “especialista” e tornando-se
“dirigente”, isto é, um especialista mais político.
É
portanto, tarefa política dos programas de formação continuada promover a
“reforma intelectual e moral” dos professores. Isso consiste em elaborar uma
filosofia que, partindo do “senso comum” dos mesmos e ligada à vida prática das
massas, mesmo que de forma implícita, tenha possibilidade de difusão,
tornando-se um sendo comum renovado.
Os
professores-intelectuais possuem a tarefa de combater as ideologias ortodoxas
da instituição escolar. Porém, o desenvolvimento desse grupo de intelectuais é
gradativo, mas constante, pois segundo GRAMSCI (1995, p.107):
“(...) criar
um grupo de intelectuais independentes não é tarefa fácil, exigindo ao longo do
processo, com ações e reações, com adesões e dissoluções, com novas formações
muito numerosas e complexas; ela é a concepção de um grupo social subalterno,
sem iniciativa histórica, que se amplia continuamente, mas de maneira desorgânica
e sem poder ultrapassar um certo degrau qualitativo, que está sempre aquém da
possessão do Estado, do exercício real da hegemonia sobre toda a sociedade,
hegemonia que é a única a permitir um certo equilíbrio orgânico no
desenvolvimento do grupo intelectual.”
Se
os intelectuais professores tomassem consciência de sua função histórica na
educação, compreenderiam o processo do desejo à ação. Todavia, segundo GRAMSCI
(1995, p.139):
“O erro do
intelectual consiste em acreditar que se possa saber sem compreender e,
principalmente, sem sentir e estar apaixonado (não só pelo saber em si, mas
também pelo objeto do saber), isto é, acreditar que o intelectual possa ser um
intelectual (e não um pedante) (...) Se a relação entre intelectuais (...), se
estabelece graças a uma adesão orgânica, na qual o sentimento-paixão torna-se
compreensão e, desta forma, saber (não de uma maneira mecânica, mas
vivencialmente), só então a relação é de representação, ocorrendo a troca de
elementos individuais entre governantes e governados, entre dirigentes e
dirigidos, isto é, realiza-se a vida do conjunto, a única que é a força social;
cria-se o “bloco histórico”.
A partir do supracitado, pode-se dizer que um dos maiores desafios das políticas públicas no âmbito da educação é adotar propostas de formação continuada considerando-a como
um processo histórico e permanente que
se dá desde a educação elementar até as Universidades e academias. A “Escola
Unitária” de Gramsci é a escola do trabalho intelectual e manual que enfatiza a formação não de limitados
especialistas, mas a formação de um novo tipo de homem, de intelectuais que
sejam especialistas e ao mesmo tempo dirigentes, ou melhor, “especialistas da
política”, que sejam capazes de unificar a teoria e a prática, desenvolvendo
todo e qualquer tipo de trabalho. Essa escola tem como objetivo a formação dos
valores fundamentais do humanismo, isto é, a autodisciplina intelectual e a
autonomia moral necessárias tanto para os estudos posteriores como para a
profissão.
A instrução das novas
gerações e das gerações adultas se apresentam para Gramsci como um processo
contínuo e permanente. Para ele nenhuma profissão está privada de conteúdos e
exigências intelectuais e culturais, além da vida moderna implicar num novo
entrelaçamento entre ciência e trabalho.
O “intelectual docente”
deverá ter uma instrução permanente, decorrente das estruturas organizativas
das academias e universidades, não podendo sofrer “descontinuidade” entre os
níveis: elementar, médio e superior. Nesse processo de instrução permanente,
deve-se formar um novo intelectual, preocupado e militante da política, do
sindicato, do bairro e da comunidade e sociedade a qual está inserido.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GRAMSCI,
A . (1989 a). Concepção
dialética da história. 8.ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira.
____.
(1989b). Maquiavel, a política e o
Estado moderno. 7.ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira.
____.
(1991). Os intelectuais e a organização
da cultura. 8.ed. Rio de janeiro, Civilização Brasileira.
____.
(1978c). Cartas do Cárcere. Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira.
MANACORDA,
Mário. (1990). O princípio educativo em
Gramsci. Porto Alegre, Artes Médicas.
____.
História da educação: da antigüidade aos
nossos dias. São Paulo, Cortez, Autores Associados, 1989.
____.
Marx e a pedagogia moderna. São
Paulo, Cortez, Autores Associados, 1991.
NOSELLA, Paolo (1992). A escola de Gramsci. Porto Alegre, Artes Médicas.
____. Educação tradicional e educação moderna:
debatendo com Saviani. In: Educação e
sociedade, n.23, São Paulo, Cortez, abril, 1986.
NOVA ENCICLOPÉDIA BARSA. São Paulo: Encyclopaedia
Britannica do Brasil Publicações, 1999. 1 CD-ROM.
Windows 98.
PONCE,
A. Educação e luta de classes. São
Paulo, Cortez, Autores Associados, 1982.
PORTELLI,
Hugues. Gramsci e o bloco histórico.
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.
Nenhum comentário:
Postar um comentário