Flávio de Lemos Carsalade
A IMPORTÂNCIA SÓCIOCULTURAL DA EDUCAÇÃO
Paulo Freire
entendia que a principal função da educação é seu caráter libertador. Para ele,
ensinar seria, fundamentalmente, educar para a liberdade, a “educação para o
homem-sujeito” (1981, pág. 36). Compreendia a educação, não como
condicionamento social, mas voltada para a liberdade e a autonomia. “Todas as
palavras de uso possível para expressarmos o propósito da educação: ensino,
instrução, criação, disciplina, aquisição de conhecimento, aprendizagem forçada
de maneiras ou moralidade - todas elas se reduzem a dois processos
complementares que podemos descrever com propriedade como “crescimento
individual” e “iniciação social” (Read, 1986, pág. 18).
A partir
dessa base de entendimento, podemos estabelecer alguns parâmetros para o
raciocínio que se desenvolverá neste ensaio:
Ensino não é
repasse de informações, mas criação de patrimônio pessoal. “Vamos entender como
transmissão e apropriação do legado cultural da humanidade os conhecimentos que
foram construídos ao longo do tempo e que foram dando configuração à
compreensão do mundo e a sua transformação. Isso significa a possibilidade de
acesso de todos os seres humanos a todos os tipos de conhecimento, assim como
às diversas metodologias de abordagem dessa realidade. Oferecer conhecimentos
não significa somente transmitir e possibilitar a assimilação dos resultados da
ciência, mas também transmitir e possibilitar a assimilação dos recursos
metodológicos utilizados na produção dos conhecimentos. Às jovens gerações não
interessa apenas apropriar-se dos resultados dos entendimentos já estabelecidos
pela humanidade. Interessa a elas também apropriar-se da forma de abordagem
dessa realidade, para que adquiram um instrumento cognitivo que permita o
aprofundamento dos conhecimentos existentes e a construção de novos
entendimentos da realidade” (Luckesi, 1993, pág. 84).
Ensino não é
adestramento, mas incentivo à autonomia pessoal. “Vamos retornar então à
questão da aprendizagem. O ratinho do primeiro exemplo, (o autor se refere a
uma experiência com dois ratos treinados a responder a estímulos diferentes)
nós dissemos que ele “aprendeu” (entre aspas) a pressionar a barra para receber
água. Na realidade, seria melhor dizer que ele foi adestrado, ou treinado, ou
condicionado. Isso porque o rato não tem a capacidade de transformar aquela sua
experiência num símbolo, isto é, de extrair dela um significado. Jamais ele
poderá “contar” (“ensinar”) a um companheiro seu a forma de se obter água
quando colocado numa gaiola. Sua experiência não recebe uma significação, não é
transformada em símbolos que a representem” .
(Duarte Jr.,
1985, pág. 23).
Ensinar não
é informar, é formar. “Dentro dessa perspectiva, o educando não deve ser
considerado, pura e simplesmente, como massa a ser informada, mas sim como
sujeito, capaz de construir-se a si mesmo, através da atividade, desenvolvendo
seus sentidos, entendimentos, inteligência etc.” (Luckesi, 1993, pág. 118).
Ensino não é adestramento, não é treinamento, nem repasse de fórmulas. Ensinar
é, antes de tudo, mobilizar as forças internas do aluno de forma a que ele
possa exercer o seu inteiro potencial.
Aprender
significa envolver memória pessoal e coletiva. A memória, tanto de nossa
história pessoal quanto da história coletiva, é fonte riquíssima de dados
significativos, mobiliza a mente e a alma.
Ensino não é
reprodução da realidade existente, mas ferramenta para sua transformação
sustentável. “Compreende uma atitude onde não existe ‘distância entre intenção
e gesto’, segundo o verso de Chico Buarque e Ruy Guerra. Em nossa atual
civilização (anti-estética por excelência), consciência crítica significa uma
capacidade de escolha, uma capacidade crítica para não apenas se submeter à
imposição de valores e sentidos, mas para selecioná-los e recriá-los segundo
nossa situação existencial” (Duarte JR., 1985, pág. 73). Essa transformação da
realidade, no entanto, deve-se fazer de forma sustentável, respeitando a
herança das gerações anteriores, a identidade e os valores coletivos.
Desenvolvendo
esse raciocínio, se educar é fomentar a liberdade pessoal, então deve ser,
também, criar uma identidade pessoal relacionada ao contexto cultural onde se
insere. O educando deve formar seus próprios significados para elaborá-los em
termos de signos de apreensão coletiva. Luckesi reforça esse pensamento: “O
conhecimento é a compreensão inteligível da realidade, que o sujeito humano
adquire através de sua confrontação com esta mesma realidade. Ou seja, a
realidade exterior adquire, no interior do ser humano, uma forma abstrata
pensada, que lhe permite saber e dizer o que essa realidade é. A realidade
exterior se faz presente no interior do sujeito de pensamento. A realidade,
através do conhecimento, deixa de ser uma incógnita, uma coisa opaca, para se
tornar algo compreendido, translúcido”. Luckesi (1993, pág. 122).
Assim,
apenas com a construção de parâmetros pessoais e de autonomia, inseridos em um
determinado contexto geográfico, histórico e social, o ser humano pode,
efetivamente, educar-se e usar a educação para o crescimento da sociedade em
que vive, de acordo com o que nos mostra Piaget (1977, pág. 245): “A personalidade
não é o ‘eu’ enquanto diferente dos outros ‘eus’ e refratário à socialização,
mas é o indivíduo se submetendo voluntariamente às normas de reciprocidade e de
universalidade. Como tal, longe de estar à margem da sociedade, a personalidade
constitui o produto mais refinado da socialização. Com efeito, é na medida em
que o ‘eu’ renuncia a si mesmo para inserir o seu ponto de vista próprio entre
os outros e se curvar assim às regras da reciprocidade que o indivíduo torna-se
personalidade (...) Em oposição ao egocentrismo inicial, o qual consiste em
tomar o ponto de vista próprio como absoluto, por falta de poder perceber seu
caráter particular, a personalidade consiste em tomar consciência desta
relatividade da perspectiva individual e a colocá-la como em relação ao
conjunto das outras perspectivas possíveis. A personalidade é, pois, uma
coordenação da individualidade com o universal”.
EDUCAÇÃO COMO APRENDIZADO DE CONTEÚDOS SIGNIFICATIVOS
Essas
premissas mostram que a busca de significados que integra sujeito de
aprendizagem e objeto de estudo é fundamentalmente um processo de tomada de
consciência. Segundo Macedo (1994, pág. 167), “Tomar consciência da ação
significa, na teoria de Piaget, transformar o fazer em um compreender".
Significa que, para Piaget, a aprendizagem refere-se à aquisição de uma
resposta particular, apreendida em função da experiência, obtida de forma
sistemática ou não. Convém lembrar que para o mestre suíço, o conceito de
aprendizagem refere-se à aquisição de uma conduta, ao domínio de um
procedimento, à conquista de algo que passa a ser patrimônio pessoal. Para que
essa aquisição se efetive é necessário o desenvolvimento da inteligência
(conjunto de operações vivas e atuantes) que, para Piaget, relaciona-se com o
aspecto cognitivo, na medida em que sua função é estruturar as interações
sujeito-objeto. A inteligência é, então, a capacidade de estruturação da
realidade. O processo de estruturação está, portanto, profundamente relacionado
com o processo de interação com a realidade, porque interagir significa, do
ponto de vista do sujeito, assimilar os objetos e suas estruturas. Ocorre que
ao assimilar, isto é, ao incorporar exteriores, o sujeito deve acomodar suas
estruturas.
A esse
respeito, Tolstói dizia que, muitas vezes, a dificuldade que as crianças
apresentavam para aprender uma palavra nova não estava relacionada com a
faculdade mecânica de articular seu som, mas na dificuldade de compreender o
conceito ao qual a palavra se referia. O enfoque fundamental do aprendizado não
se situaria, portanto, em um problema de aptidão, mas na questão básica de
atribuição de significado ao conteúdo da aprendizagem. Esta mesma questão que
relaciona processo de aprendizagem e atribuição de significados (ou seja: só
aprendemos aquilo que nos apresenta algum significado) está na base das
investigações pedagógicas contemporâneas.
Assim,
pode-se entender a aprendizagem como um processo de atribuição de significados
que age na intermediação entre o ser e o mundo e que, só por uma tomada de
consciência profunda a pela aquisição de conhecimento, se faz de forma
indelével. Segundo o Centro de Pesquisa e Formação de Educadores da Escola
Balão Vermelho (1994, pág. 9): “O aluno aprende um conteúdo qualquer quando é
capaz de atribuir-lhe significado, isto é, quando consegue estabelecer relações
substanciais entre o que está aprendendo e o que já conhece, de modo que esse
novo conhecimento seja assimilado aos seus esquemas de compreensão da realidade
e passe a ser utilizado como conhecimento prévio em novas aprendizagens. (...)
A educação não se reduz à transmissão de conteúdos. Da maneira como a
concebemos é um processo de formação que se realiza a partir de experiências
vividas pelos sujeitos nos diversos espaços educativos a que têm acesso
(família, trabalho, escola, grupos de convivência...), na interação com o mundo
e com as pessoas que fazem parte de seu universo cultural”.
Essa
atribuição de significado na prática do ensino pressupõe, entretanto, algumas
estratégias que, na realidade, imbricam-se e se intercambiam, e sem as quais
dificilmente se criaria um ambiente propício a essa abordagem.
A primeira
dessas estratégias - a participação - pode ser entendida pela ótica da
pedagogia construtivista, a partir do consenso, já bastante assentado em
relação ao caráter ativo da aprendizagem, de que esta seja fruto da construção
pessoal. “Aprender é Construir”, ou seja, aprendemos quando somos capazes de
uma representação pessoal sobre um objeto da realidade ou conteúdo que
pretendemos apreender. Aprender não é, portanto, copiar ou reproduzir a
realidade. A participação pressupõe que o aluno seja o agente da aprendizagem,
estabelecendo uma relação com o objeto de estudo e com ele interagindo. Freire
(1974), em sua “Pedagogia do Oprimido", critica o conceito que chama de
“educação bancária”, por conceber os alunos como recipientes vazios, em que o
professor vai “depositar” conhecimentos. Isso significa que o conhecimento não
pode ser confundido com a descoberta de verdades absolutas, como ocorre na
teoria positivista do conhecimento (Gadotti,1991), mas refere-se à apreensão de
verdades pessoais e conteúdos que, embora coletivos, têm sua verdade na
apreensão pessoal. Tal raciocínio revaloriza a importância da pergunta que,
assim, pode ser entendida como a exteriorização de uma postura significativa
ou, como coloca Freire (conforme Gadotti, 1991, pág. 97): “O que é perguntar? O
ato de perguntar está ligado ao ato de existir, de ser, de estudar, de
construir, de pesquisar, de conhecer”.
A segunda
estratégia refere-se à contextualização. A importância do contexto no processo
de aprendizagem referencia-se na definição das estruturas de significado como
intermediação entre o ser e o mundo. Essa visão é, também, corroborada por Read
(1982) que entende como objetivo da educação a integração-reconciliação da
singularidade individual com a unidade social. Sob esse ponto de vista, segundo
o autor, o indivíduo seria “bom” na medida em que sua individualidade se
realizasse dentro da totalidade orgânica da comunidade.
Também Coll
(1990) entende que nos processos educativos trabalha-se com os significados que
já se possui, modificando-os face aos desafios. Nesse processo não somente
seriam modificados os significados anteriormente possuídos mas seria, também,
interpretado o novo de forma peculiar, de modo que fosse integrado e aprendido
significativamente. O processo não é, portanto, de acúmulo de conhecimentos,
mas de integração, modificação, estabelecimento de relações e coordenação de
esquemas de conhecimentos.
A terceira
estratégia que se propõe, a do envolvimento, pode ser fundamentada em Vygotsky,
que demonstra a existência de um sistema dinâmico de significados em que o
afetivo e o intelectual se unem. Assim, segundo Sole (1990, pág. 26): “Quando
falamos de atribuir significado, falamos de um processo que nos mobiliza a
nível cognitivo e que nos conduz a revisar e a aportar nossos esquemas de
conhecimento para dar conta de uma nova tarefa, atuação ou conteúdo de
aprendizagem”. Aprendemos, então, com o que nos motiva e nos comove. Segundo
Neumann (1968, pág. 248): “Toda concepção nova e toda inspiração produtiva
contém elementos que, até esse momento, eram inconscientes e a inclusão dos
componentes emocionais associados aos conteúdos inconscientes leva ao
surgimento de uma comoção. (...) Só a união do sistema da consciência do ego
com as camadas profundas, de tonalidade emocional, do inconsciente possibilita
um processo produtivo”.
A
importância das estruturas de significação nos processos de ensino-aprendizagem
é, portanto, basilar. Mauri (1990) chega a dizer que a construção do
conhecimento por parte do aluno só é possível graças à atividade que este
desenvolve para atribuir significado aos conteúdos escolares. Ou, ainda,
conforme Miras (1990, pág. 48): “Uma aprendizagem é tanto mais significativa
quanto mais relações com sentido é capaz de estabelecer o aluno entre o que
conhece, seus conhecimentos prévios e o novo conteúdo que se lhe apresenta como
objeto de aprendizagem”.
A IMPORTÂNCIA DA CULTURA NO ENSINO-APRENDIZAGEM
Para melhor
entendimento de nossa linha de raciocínio e da inserção do contexto,
especialmente a cultura e o patrimônio cultural, nos processos significativos
da aprendizagem, convém inserir, neste momento, o conceito de pensamento
simbólico conforme entendido por Piaget. O pensamento simbólico e
pré-conceitual aparece a partir dos dois anos de idade e permite a
representação do real por meio de imagens significativas. Aqui Piaget
estabelece uma importante distinção entre signos (que requerem, para se
constituírem, a vida social) e símbolos (que podem ser elaborados somente pelo
indivíduo). Assim, os símbolos podem ser socializados, enquanto o signo puro é
sempre coletivo e por isso, a aquisição da linguagem (sistema de signos
coletivos) coincide com a formação do sistema dos significantes individuais.
Essa relação permanece também pelo resto da vida na construção e comunicação de
outros sistemas de significação. Depreende-se, por tudo isso, a importância da
interação do indivíduo com a realidade. Falar de realidade pressupõe falar do
contexto, do mundo, do campo onde a realidade ocorre.
É esse,
também, o sentido que confere Vygotsky ao contexto cultural: “a cultura
torna-se parte da natureza humana em um processo histórico que, ao longo do
desenvolvimento da espécie e do indivíduo, molda o funcionamento psicológico do
homem” (Oliveira, 1992, pág. 24).
Assim, os
conceitos são construções culturais, internalizadas pelos indivíduos ao longo
de seu processo de desenvolvimento. A linguagem seria um claro exemplo disso
como sistema de relações (verbos e sintaxe) e generalizações (a palavra cavalo,
por exemplo, embora se refira à mesma idéia do animal, tem significados
pessoais diversos). Segundo Lataille (1992), para Vygotsky a cultura não é um
sistema estático, mas um ‘palco de negociações’ em que os membros estão em
constante processo de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e
significados. O homem interferiria, então, em sua própria cultura e viveria seu
próprio instrumento pessoal de pensamento e ação no mundo.
Essas ações
acontecem em um contexto sociocultural. Yves de Lataille (1992), em seu
brilhante ensaio sobre o lugar da interação social na concepção de Jean Piaget,
discorre sobre o processo de socialização e sugere que, também nesse campo, o
homem procura o equilíbrio que lhe permita a adaptação. Ou seja, cada um de nós
precisa construir conhecimentos em resposta a uma demanda sociocultural de
algum tipo, e também precisa comunicar seu pensamento.
Piaget
define dois tipos de relação social: a relação de coação e a de cooperação que,
como veremos, tem profundas implicações na prática educacional. A relação de
coação pressupõe um baixo nível de socialização e uma transmissão acrítica de
conhecimentos. A relação de cooperação, ao contrário, pressupõe uma interação
amigável onde o equilíbrio móvel entre as partes é o método. A primeira reforça
o egocentrismo, o dever e o modelo; é assimétrica e autoritária. A segunda, ao
contrário, é simétrica, tem como pressupostos a reciprocidade e a construção do
bem comum.
Assim, da
mesma forma que não se pode entender o desenvolvimento humano sem a cultura -
ao mesmo tempo matéria-prima e produto da ação humana - não se pode entendê-lo
sem as diversas práticas educativas segundo as quais se acessa e se interpreta,
de forma pessoal, a cultura; afinal aprende-se com a família, com a escola, com
os meios de comunicação, todos veículos de divulgação da cultura e formadores
de contexto. A concepção construtivista parte do fato de que a escola torna
acessível a seus alunos aspectos da cultura que são fundamentais para o
desenvolvimento pessoal e, não apenas, para o desenvolvimento cognitivo. A
educação é motor para o desenvolvimento pessoal globalmente entendido, o que
supõe incluir, também, as capacidades de equilíbrio pessoal, de inserção social
e de relação interpessoal. Cabe aqui lembrar o caráter afetivo da aprendizagem,
do investimento da pessoalidade grandemente envolvida com todos os agentes
culturais (Solé e Coll,1990). Para Vygotsky (conforme Oliveira, 1992, pág. 24)
“o ser humano constitui-se como tal no relacionamento social. A cultura
torna-se parte da natureza humana num processo histórico que, ao longo do
desenvolvimento da espécie e do indivíduo, molda o funcionamento psicológico do
homem”.
A cultura,
para Piaget (conf. Lataille,1992), seria a base que permite a troca equilibrada
de pensamentos, na medida em que essa troca precisa de um sistema comum de
signos e definições, do estabelecimento de proposições válidas e da
reciprocidade de pensamento entre os interlocutores. Mais Vygotsky (conf.
Oliveira, 1992, pág. 27): “Se por um lado a idéia de mediação remete a
processos de representação mental, por outro lado, refere-se ao fato de que os
sistemas simbólicos que se interpõem entre sujeito e objeto de conhecimento têm
origem social. Isto é, é a cultura que fornece aos indivíduos os sistemas
simbólicos de representação da realidade e, por meio delas, o universo de
significações que permite construir uma ordenação, uma interpretação dos dados
do mundo real ... Os conceitos são construções culturais, internalizadas pelos
indivíduos ao longo de seu processo de desenvolvimento”.
Mauri (1990)
retoma esse conceito de cultura como mediadora do processo de aprendizagem e
estabelece que:
- os conteúdos
de aprendizagem são, na verdade, uma seleção de saberes relevantes da cultura
que são preexistentes e possuem natureza simbólica (como a escrita, a música, o
patrimônio cultural etc.);
- a cultura
confere significado à atividade humana;
- os
conteúdos não são, portanto, selecionados apenas por sua dimensão técnica mas,
também, por sua dimensão sociocultural.
Para a
autora, sendo o conhecimento uma construção, a função do mestre é a de ajudar
os aprendizes a dominar os diferentes sistemas e códigos culturais.
O PATRIMÔNIO CULTURAL COMO BASE SIGNIFICATIVA
patrimônio
histórico e artístico de um povo é mais do que um conjunto de antiguidades ou
mera coleção de curiosidades que a corrente do tempo foi largando pela vida.
Ele é responsável pela continuidade histórica de uma comunidade que se
reconhece como tal e corporifica seus ideais e valores, transcendendo as
gerações. Dessa forma, incita ao patriotismo e à ética, convida ao saber e à
reverência. Face a seu caráter de participantes cotidianos da vida das pessoas,
os elementos do patrimônio talvez sejam, ao lado da música popular, os bens
culturais mais disponíveis à fruição da população. São os ícones que
personalizam as cidades, são os pontos referenciais nos percursos do dia-a-dia.
São, portanto, importantes fatores de coesão social, de orientação e
identidade, sem os quais a estabilidade psíquica e os valores existenciais de
cada um não existiriam. Por isso a sociedade se mobiliza tanto em torno do
patrimônio e com ele se sensibiliza.
O conceito de
patrimônio cultural tem-se modificado ao longo dos últimos anos. Deixa de
privilegiar, apenas, um período histórico ou estilístico, como o barroco, por
exemplo, para se estender aos demais períodos, inclusive o modernismo. Deixa de
se preocupar apenas com o excepcional voltando-se, também, para o exemplar,
aqueles objetos que documentam a história, abrangendo, inclusive, diversas
classes sociais. Na visão contemporânea do patrimônio, a questão dos conjuntos
urbanos surge como uma forte presença norteadora. Não se coloca mais o edifício
isolado como o mais importante, mas privilegiam-se as relações de entorno e as
paisagens urbanas coesas que referenciam o tempo histórico e ambientam as
cidades, contribuindo para a identidade de seu povo.
Ancorados
pela força da identidade cultural e como trincheira contra a globalização
descaracterizadora surgem os movimentos pela preservação de nosso patrimônio
imaterial ou intangível. Manifestações de natureza imaterial constituem
importantes referências culturais e relacionam-se à identidade, à maneira e à
ação dos grupos sociais. Incluem-se nesse conceito as formas de expressão e os
modos de criar, fazer e viver, considerando: os Saberes, as Celebrações, as
Formas de Expressão e os Lugares.
É o reforço
desses ideais ligados à ética e à valorização da própria história que apontam
para o conceito ampliado de herança histórica. A compreensão contemporânea do
patrimônio deixou de se ater, apenas, às qualidades estéticas do bem em si,
ampliando-se ao cotidiano da vida, no exercício da cultura e no desenvolvimento
socioeconômico das comunidades.
Não se
entende mais o patrimônio cultural como peça de museu apartada do cotidiano das
populações, mas como instrumento de construção viva das realidades pessoais e
de seu entendimento no mundo. A cultura também se une à geração de renda, a um
só tempo inserindo o patrimônio no desenvolvimento econômico social de um povo
e fortalecendo as pequenas economias locais, democratizando a distribuição de
renda e aumentando postos de trabalho.
Assim, se
considerarmos que o patrimônio cultural materializa os laços que unem histórica
e geograficamente um povo, passa a ser clara sua importância como instrumento
de cidadania e inclusão social, com rebatimentos óbvios na auto-estima das
populações. A partir desse senso comum são gerados sentimentos nobres de
solidariedade, compromisso e sentido pessoal de "pertencimento" a
determinada comunidade, localizada temporal e geograficamente.
O PATRIMÔNIO CULTURAL COMO PROCESSO DE SIGNIFICAÇÃO NA APRENDIZAGEM
A partir das
considerações anteriores podemos estabelecer, no mínimo, três pontos de
convergência e auxílio mútuo entre Educação e Patrimônio Cultural: a
facilitação do processo de aprendizagem, a formação pessoal e cidadã e a
criação de uma ética de ações.
Facilitação do processo de ensino-aprendizagem:
Sendo a
materialização viva da cultura e a fonte de informações e valores na qual se
encontra imerso o aprendiz, o patrimônio cultural se torna base para a
construção de significados e, portanto, para o aprendizado. Liga-se à
necessidade de o aprendiz estabelecer uma forma de entendimento pessoal do
mundo, atribuindo sentido nos conteúdos aprendidos de forma a dotá-los de um
caráter significativo e ordenador. Esta concepção de patrimônio cultural
coincide com as necessidades humanas básicas de orientação e identidade,
criando relações vitais do homem com o ambiente que o rodeia para dar sentido e
ordem a um mundo de acontecimentos e ações.
Mauri (1990,
pág. 75) constata que “a cultura confere significado à atividade humana” colocando
a definição de cultura como sendo a “ordem comum" que integraria a
personalidade singular em um mundo ordenado, através de certas interações
significativas.
Dessa forma,
como ponte entre o mundo interior e a realidade, o patrimônio cultural contextualiza
o ensino-aprendizado e facilita a absorção de conteúdos. É mais fácil se
entender "intrinsecamente" a história através da paisagem urbana
circundante e das estórias deixadas pelos mais velhos. É mais fácil entender a
geografia se associada ao entendimento da maneira como nossos antepassados a
vieram moldando e nela se assentando. É mais fácil entender o sentido da
educação artística quando associada à necessidade de uma expressão cultural e
pessoal. Os conteúdos passam a ser, portanto, uma representação pessoal da
realidade, atingindo o ponto importante de sua maior eficiência.
Formação pessoal e cidadã:
Se estamos
ensinando não apenas para transmitir conteúdos ou inserir o aprendiz no mercado
de trabalho; se estamos ensinando para desenvolver habilidades e competências,
formando mais que informando; se estamos ensinando para desenvolver a autonomia
pessoal, então estamos formando cidadãos.
patrimônio
cultural permite inserir o aprendiz na perspectiva histórica e de identidade do
grupo social a que pertence, transmitindo-lhe conteúdos éticos e de cidadania.
Permite o entendimento mais claro de sua importância na comunidade a que
pertence, facilitando sua inserção pessoal e econômica.
Criação de uma ética de ações:
Se a função
social da educação é, além da inserção socioeconômica do indivíduo tratada no
item anterior, o desenvolvimento dessa própria sociedade, a noção de patrimônio
cultural, coletivo e comum a um grupo, permite o desenvolvimento de uma ética
de ações. Traz consigo a noção de desenvolvimento sustentável, pelo qual cada
intervenção na realidade deve considerar seus impactos na manutenção da
identidade e da herança coletiva, do ponto de vista ambiental ou cultural. Traz
consigo o desejo, não da reprodução do "status-quo", não da
subserviência, mas da ação concreta de melhoria das condições sociais globais,
do desenvolvimento da comunidade onde se insere e da requalificação do
patrimônio coletivo acumulado ao longo das gerações, verdadeira riqueza de um
povo, herança real que deixamos para os nossos filhos.
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