terça-feira, 20 de outubro de 2026

O PARADIGMA EPISTEMOLÓGICO PIAGETIANO

A teoria de Piaget tem como eixo central uma tradicional questão da filosofia- a questão do conhecimento. Este autor dedicou-se a responder, utilizando um metodologia científica, como o homem conhece, que mecanismos estão em jogo, enfim, como se dá a passagem de um estado de menor conhecimento a um estado de maior conhecimento. Na sua trajetória, Piaget trata de muitas questões específicas (por ex. a construção do espaço, número, desenvolvimento moral), porém sempre na perspectiva deste problema central, sem negligenciar as relações entre as partes e o todo da sua teoria.
Desta forma, Piaget explica o funcionamento cognitivo utilizando-se de um modelo sistêmico, onde o sistema e os subsistemas estão estreitamente relacionados e seguem algumas leis gerais.
Piaget desenvolveu uma teoria bastante complexa que absolutamente não pode ser reduzida a uma teoria de estágios de desenvolvimento.
Piaget parece antecipar a importância de uma visão interdisciplinar, ou talvez se possa até mesmo dizer que sua teoria foi construida fundamentando-se em várias disciplinas como a biologia, a filosofia, a matemática, a psicologia, a física etc., em maior ou menor grau, porém sempre desde uma perspectiva de integração das ciências para a superação das muitas dicotomias que nos tem levado a compartimentalização e teorizações demasiado frágeis e de pouco poder explicativo.
Podemos salientar algumas vertentes básicas no desenvolvimento da obra de Piaget com o propósito de guiar uma análise, porém com a consciência da dificuldade de realizar esta tarefa sem cair em algumas simplificações. Uma das vertentes que estamos considerando aqui é a dimensão biológica, ou melhor, as raízes biológicas da teoria. Piaget defende uma continuidade entre o biológico e psicológico, sem que isto signifique um reduzir o psicológico ao biológico, ou o mental ao orgânico. 
Alguns conceitos extraídos da biologia e ressignificados dentro da teoria, são fundamentais construção da sua teoria. Destes, salientamos inicialmente, para o nosso estudo, os conceitos de adaptação, organização e principalmente o de auto-regulação. Assim, o conhecimento resulta de um processo de desenvolvimento auto-regulador (em diferentes níveis), que integra as perturbações do meio numa sequência ordenada de mudanças estruturadas. O elemento que assegura a continuidade entre o biológico e o psicológico é a ação. Talvez até mesmo possamos dizer a teoria de Piaget é uma teoria da ação. Diferentemente das concepções das teorias clássicas sobre o conhecimento que colocam sua origem na sensação (sentidos) ou na fala (linguagem). Parar Piaget, a grande fonte do conhecimento reside na ação.

Piaget fundamenta seu estudo científico a partir de três vertentes: a dimensão biológica, a interação dos fatores sujeito-meio e o construtivismo psicogenético (Inhelder, 1977). Estas vertentes se coordenam dentro de sua estrutura teórica. Tentaremos explorar cada uma delas tendo consciência da dificuldade desta análise, já que estas vertentes se integram no corpo da teoria psicogenética.

As raízes biológicas

A tese fundamental de Piaget é a da continuidade funcional entre a vida e o pensamento. Isto o leva a postular uma profunda analogia entre as concepções psicológicas e biológicas. "... as funções mais gerais do organismo, organização, adaptação e assimilação, conservação e antecipação, regulação e equilibração são encontradas todas no terreno cognoscitivo, e têm aí o mesmo papel essencial ... reciprocamente, os caracteres essenciais do conhecimento apresentam correspondentes orgânicos evidentes." (Piaget, 1973). Embora esta analogia profunda, Piaget nunca perde de vista o fato de que os seres humanos são biologicamente evoluídos não propondo, sob nenhuma hipótese, um reducionismo do psicológico ao biológico. Para Piaget, toda a vida pressupõe uma forma de organização. Mesmo as formas de vida menos evoluídas possuem uma organização que lhes permite fazer trocas com o meio (auto-regulações), garantindo assim sua sobrevivência. No ponto de partida do desenvolvimento do ser humano, existem interações herdáveis entre o organismo e seu meio ambiente


A interação sujeito-meio

O conhecimento é uma relação de interdependência entre o sujeito e seu meio. Para Piaget, o conhecimento, diferentemente do senso comum, tem um sentido de organização, estruturação e explicação a partir do experenciado. Nesta concepção o conhecimento é construído a partir da ação do sujeito sobre o objeto de conhecimento. A ação comporta dois aspectos. Um aspecto circunstancial característico à situação, uma vez que para que a ação do sujeito seja ajustada, necessita levar em conta as propriedades dos objetos; e um aspecto generalizável, já que nenhuma ação é totalmente diferente das ações possíveis de um organismo em determinado momento de sua vida. Para Piaget, do ponto de vista do conhecimento, é importante o que é em cada ação transponível e generalizável, isto é, seu esquema. As ações, enquanto esquemas, conservam uma organização interna cada vez que aparecem. O sujeito atribui significado ao objeto cada vez que o assimila a seus esquemas. Se o conhecimento é, no princípio, a própria ação do sujeito, o que é o objeto do conhecimento? Ramozzi-Chiarottino (1988) responde que o objeto de conhecimento é tudo que envolve o sujeito, é o meio físico, o meio simbólico e o meio social. Desta forma, um sujeito humano realiza trocas de diferentes qualidades com seu meio. Sujeito e meio formam juntos um sistema. O meio, ou o objeto existem, independentes do sujeito, mas não podem ser conhecidos senão por aproximações através da atividade física ou simbólica do sujeito. Estas aproximações podem provocar modificações, da estrutura cognitiva do sujeito (tanto em nível de pensamento como na ação). Ainda que a interação sujeito-meio seja um conceito central na obra de Piaget, é nas últimas décadas que os estudiosos da psicologia genética dedicam-se ao problema da influência do meio social na construção e na transimssão dos conhecimentos. Neste campo estão sendo desenvolvidos estudos que tratam da influência da interação social em sentido restrito e em sentido amplo.
O estudo das influências da interação social em sentido restrito, investiga as modificações tanto conceituais quanto estruturais de conhecimento ocorridas na interação de adultos com crianças, de crianças com iguais ou diferentes níveis de conhecimentos, etc em sala de aula ou em diferentes ambientes de aprendizagem.


O construtivismo psicogenético

O construtivismo constitui uma outra vertente teórica da psicologia genética. A idéia fundamental é que nenhum conhecimento humano, com exceção das formas hereditárias elementares, é pré-formado na estrutura do sujeito nem na do objeto. Desta maneira, nenhum conhecimento é transmitido mas sim reconstruído, internamente pelo sujeito. Mas o próprio Piaget coloca que o instrumento da construção é a ação: "Para conhecer objetos, o indivíduo deve agir sobre eles e, portanto, transformá-los, deve deslocá-los, ligá-los, combiná-los, separá-los, desmontá-los e voltar a montá-los.Desde as mais elementares ações sensório-motoras até as mais refinadas operações intelectuais, que são ações internalizadas e executadas mentalmente, o conhecimento está constantemente ligado a ações ou operações, isto é, a transformações." (Piaget, 1982 ). Existe uma continuidade entre as ações de nível inferior e superior. Estas ações ou operações transformam-se durante o desenvolvimento mas também apresentam patamares de estruturação diferenciados, num interjogo entre estados (equilíbrios) e transformações (desequilíbrios). Os níveis sucessivos das diferentes formas de saber são seqüênciais no sentido de que cada um é, ao mesmo tempo, o resultado das possibilidades abertas pelo precedente e condição necessária do subseqüente. A continuidade dos níveis pressupõe a reorganização. Todo nível superior inicia com uma reestruturação das aquisições devidas aos níveis precedentes, não se trata aqui de uma continuidade com base cumulativa. No decorrer do desenvolvimento o sujeito reorganiza e reconstrói seus esquemas. O esquema é a unidade básica do funcionamento cognitivo. É a combinação e a coordenação dos esquemas em estruturas que caracteriza o nível de desenvolvimento cognitivo de um sujeito. Cada uma destas estruturas possibilita uma maneira de relacionar-se e compreender a realidade.
Cada ser individual necessita reconstruir o conhecimento. Mas não é uma reconstrução solitária, pois como já discutimos anteriormente, pressupõe, como condição necessárias diferentes qualidades de interação. Se o construtivismo significa que o conhecimento é algo que construímos em nossa cabeça, para Papert (1987) o construcionismo nos diz que a melhor maneira de realizar isto é construíndo alguma coisa. Segundo ele, é na atividade de criação onde ocorre a mobilização da pessoa em sua totalidade, de seu senso estético, sua consciência ética, seu raciocínio lógico-matemático, sua estrutura emocional, etc.
Papert nos fala da necessidade que nos ambientes de aprendizagem sejam colocados à disposição do sujeito ferramentas para ajudar a aprender, objetos "para pensar com".

Referências Bibliográficas

BATTRO, A. Computación y aprendizaje especial. El Ateneo, Buenos Aires, 1986.
BODEN, M. As idéias de Piaget. Cultrix, São Paulo, 1983.
CARRAHER, T. Sociedade e inteligência. Cortex, São Paulo, 1989.
CHIAROTINO, Z. Psicologia e epistemologia genética de Jean Piaget. EPU, São Paulo, 1988
INHELDER, B. Aprendizagem e estruturas do conhecimehto. Saraiva, São Paulo, 1977.
PAPERT, S. Desafio a la mente. computadoras y educación. Galápago, Buenos Aires, 1981.
PERRET-CLERMONT, A. Desenvolvimento da inteligência e interação social. Instituto Piaget, Lisboa, 1978.


( Extraído do artigo de MARASCHIN, C; NEVADO, R. “O Paradigma Epistemológico e o Ambiente de Aprendizagem LOGO”. In Informática na Escola: Pesquisas e Experiências. MEC/SEMTEC/PRONINFE. Novembro, 1994.)

Nenhum comentário:

O QUE É EDUCAÇÃO INCLUSIVA ?

A chamada Educação Inclusiva teve início nos Estados Unidos através da Lei Pública 94.142, de 1975 e, atualmente, já se encontra na sua segu...