terça-feira, 20 de outubro de 2026

PSICOLOGIA E TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS NO BRASIL

“O capitalismo de hoje não recusa o direito à escola. O que ele recusa é mudar a função social da escola.” ( A. Lettieri )

Hoje já não se aborda e critica o capitalismo, como há algum tempo. O problema não mais se coloca de forma tão simples como o claro confronto entre seu ideário e o do Socialismo. As coisas se complexificaram e ganharam novos nomes: fala-se de neoliberalismo, de globalização...
Como se situa a Psicologia da Educação nesse contexto? Como enfrentará os desafios pedagógicos e políticos trazidos pela “nova ordem mundial”?
Um artigo tão resumido, como o que apresento agora, não pretende assumir a função de responder essas perguntas. Tem, de fato, a função de investigar a reflexão e o debate sobre tais questões.
Para tanto, é necessário um certo olhar para o percurso da Psicologia da Educação no Brasil, pontuando criticamente alguns momentos significativos da relação entre as duas áreas de conhecimento, e comentando brevemente alguns aspectos da atuação do psicólogo educacional.
Maria Helena S. Patto, na sua interessante obra “Psicologia e Ideologia” (1984), traça de maneira clara o percurso histórico da Psicologia Escolar no Brasil. Adotando a abordagem de Freitag (1978) em relação à história da Educação brasileira, e dividindo-a em três períodos, correspondentes à história da economia nacional, Patto considera a inserção da Psicologia na Educação também em três instantes.
O primeiro corresponde ao modelo econômico agro-exportador. Numa proposta assemelhada à da Psicologia Experimental europeia, a Psicologia se encerra em laboratórios anexos às escolas, criando a figura do psicometrista - autoridade em escalas e medidas da inteligência, do desenvolvimento e das demais funções psíquicas.
O segundo acompanha o modelo urbano-industrial da economia brasileira, acentuando a triste herança clínica e curativa de que a Psicologia da Educação até hoje se ressente. O psicólogo diagnostica e trata a população escolar, transformando suas salas de trabalho, nas escolas, em “consultórios”.
O terceiro, correspondente à década de 60, atrela a Psicologia ao modelo da internacionalização do mercado interno. Mais incisiva, a Psicologia da Educação responde às demandas sistêmicas ¾ materiais e ideológicas ¾, criando as multi-faces do psicólogo educacional “dublê” de ergonomista, consultor, especialista educacional (conflitante em papéis com o supervisor educacional e, em especial, com o orientador educacional) e modificador experimental do comportamento, conhecedor e admirador das práticas neo-behavioristas, importadas dos Estados Unidos.
O curso deste artigo, no entanto, se encaminha para a reflexão acerca da relação entre Psicologia e Educação em confronto com a evolução dos modelos ou tendências pedagógicas. Em termos das últimas, tive que optar entre a classificação apresentada por Saviani (1985), em “Escola e Democracia”, e a que defende Libâneo (1985), em “Democratização da Escola Pública ¾ A pedagogia crítico-social dos conteúdos”. Sem querer reeditar a polêmica entre ambas, surgida na época, optei pela última como fio condutor da análise que passo a apresentar.
Libâneo divide as tendências pedagógicas inseridas na prática escolar brasileira em dois grandes blocos: a tendência liberal e a progressista (1985, p. 19 - 44).

Incluídos na primeira tendência pedagógica, a LIBERAL , encontramos quatro modelos, que passo a relacionar com a evolução da Psicologia da Educação.

a) Na Pedagogia Liberal Tradicional, justificadora do sistema capitalista de produção, há pouco espaço para a Psicologia da Educação. A centralidade é dada ao papel do professor, preocupado com os conteúdos do saber sistematizado universal e com a necessidade de adequar o indivíduo à sociedade vigente.
Na sua vertente mais humanista, pode incluir um “psicólogo-aconselhador”, de orientação marcadamente clínica; na vertente cientificista e objetivista, o psicólogo pode ser um “orientador vocacional”, no sentido tradicional e antigo do termo - aquele que mensura aptidões e inteligência, dando indicações precisas das áreas indicadas e das não prescritas.

b) Na Pedagogia Liberal Renovada Progressivista, que busca trazer a vida externa para o interior da escola, preocupada com a aprendizagem ativa do educando, o psicólogo precisa conhecer conteúdos da Pedagogia, envolvendo-se na chamada “inovação pedagógica”. Trata-se de um observador e pesquisador do comportamento e do processo de aprendizagem. Amplamente influenciada pelo ideário piagetiano, essa prática psicológica escolar preocupa-se com escalas, testes de prontidão e com a avaliação da aprendizagem, por exemplo.

c) Na Pedagogia Liberal Renovada Não-Diretiva, os psicólogos e orientadores educacionais encontram um espaço ampliado. Há preocupação com problemas psicológicos e com o estabelecimento de um clima de mudança interna do indivíduo, caracteristicamente existencial-humanista. Todos os profissionais que atuam na escola propõem-se como “facilitadores de aprendizagem” rogeríanos, esmaecendo-se os contornos e as especificidades profissionais de cada um.

d) Na Tendência Liberal Tecnicista, voltada para a cientificidade e a competência, as técnicas e métodos que aumentam a eficiência da aprendizagem tornam-se centrais. O psicólogo precisa conhecer bastante a tecnologia educacional, os procedimentos instrucionais. A modelagem do comportamento e os princípios behavioristas de condicionamento ganham vulto, assim como a Teoria da Aprendizagem Social, de origem americana, e que tem Albert Bandura como grande expressão.

Na segunda grande tendência pedagógica descrita por Libâneo, a PROGRESSISTA, despontam três modelos significativos.

a) Na Tendência Progressista Libertadora, o grande vulto é Paulo Freire, com seu brilhante ideário sobre a Educação Libertadora, o processo dialógico, a problematização do ensino-aprendizagem.

Aí a Psicologia Educacional começa a preocupar-se efetivamente com as noções de autonomia e relações de poder/ autoridade. Os estudos sobre a cognição, no que se refere principalmente à reflexividade e à crítica, ganham corpo. É o primeiro momento em que se pode aplicar à Psicologia da Educação, a seus estudos e práticas, a denominação “histórico-social”. Pode-se destacar, ainda, a valorização das pesquisas e obras brasileiras, em detrimento dos modelos e estudos apenas importados.

b) A Pedagogia Progressista Libertária acentua a conotação política do movimento anterior. São comuns as preocupações com a participação grupal, a análise institucional, os processos de mudança, a inserção efetiva da Educação na prática social.

O psicólogo educacional não pode mais recusar a relação do seu saber com a política. Precisa abandonar, também, certos preconceitos relativos ao diálogo com os programas dos partidos políticos e com outras áreas de conhecimento, como a Sociologia e a Antropologia.
Abrem-se as portas dos “consultórios” nas escolas, passando o psicólogo a participar como um membro a mais do grupo social que transita naquela instituição, como co-gestor do processo decisório comunitário.

c) A Pedagogia Progressista “Crítico-Social dos Conteúdos”, proposta por Libâneo e outros educadores brasileiros, inclui a valorização dos conteúdos do saber sistematizado, mas não inertes como na escola tradicional. Os conteúdos vivos, inseridos na realidade sócio-política, significados humana e socialmente, vêm do confronto entre os saberes erudito e popular, mesclando os processos de continuidade e ruptura.

O psicólogo não tem papel tão significativamente diferente dos dois movimentos anteriormente descritos. Podem-se destacar, no entanto, a preocupação com a interdisciplinaridade na escola e o aprofundamento dos estudos sobre o cognitivismo piagetiano e o sócio-interacionismo de Vygotsky. Esses estudos tomaram corpo no seio da Psicologia da Educação na vaga construtivista da década de 80.
E o quadro que se apresenta hoje à Psicologia da Educação? Haverá uma nova tendência pedagógica em curso? Poderíamos falar em uma Pedagogia Neo-Liberal?

Parece-me que há desafios de incrível atualidade, na realidade brasileira, que precisam de um enfrentamento incisivo por parte da Psicologia da Educação. Sem a pretensão de enumerar todos, dou relevo às mudanças relacionais trazidas pela globalização; aos desafios da informática e da educação à distância; à necessidade de responder à imposição de objetivos e metas educacionais pelo poder central, sem discussão ampliada com os educadores brasileiros; à defesa da escola pública de qualidade, frente à vaga avassaladora das privatizações; ao grande enfrentamento da educação popular, como forma de organização, capacitação e mobilização política da imensa maioria da população brasileira que constituem as classes populares.
A própria constituição da Psicologia da Educação como área de conhecimento e questões políticas bastante atuais, como a do âmbito de atuação do psicopedagogo, mobilizam-nos de forma intensa.
O processo ainda lento de releitura das teorias à luz da realidade brasileira e da produção de pesquisas atuais e de grande valor social ¾ numa época em que as verbas destinadas à pesquisa escasseiam rapidamente ¾, além da definição dos espaços efetivos de atuação na instituição escolar, fazem parte dessa atualidade.
Atualmente é necessário construir coletivamente um perfil de atuação do psicólogo educacional que, fugindo à concepção liberal burguesa e funcionalista das duas ciências, contemple a Educação democraticamente gerida, de qualidade, posicionada política e ideologicamente frente à realidade, rompendo com o imobilismo teórico mediante efetivas ações.

Dessa forma, a Psicologia Educacional existirá verdadeiramente e será reconhecida na realidade brasileira.

Eloiza da Silva Gomes de Oliveira


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



FREITAG, Bárbara - Escola, Estado e Sociedade. São Paulo: Edart, 1978.

LIBÂNEO, José Carlos - Democratização da Escola Pública ¾ a Pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola, 1985.

PATTO, Maria Helena S. - Psicologia e Ideologia ¾ uma introdução crítica à Psicologia Escolar. São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 1984.

SAVIANI, Dermeval - Escola e Democracia. São Paulo: Cortez, 1985.








* Psicóloga e Pedagoga.

Professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ.

Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.

Pesquisadora da área de Imaginário e Representações Sociais.

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