terça-feira, 3 de novembro de 2026

Pedagogia crítica: o papel de Paulo Freire

Na confluência do contexto político cultural, que antecedeu ao golpe militar de 1964, com a expansão de movimentos educacionais de base e o novo papel exercido pela Igreja Católica, surgiu o importante movimento epistemológico da pedagogia brasileira: A Pedagogia do Oprimido, com Paulo Freire, que carrega as características de uma pedagogia crítico emancipatória, embora não exclusivamente. Esta pedagogia vem conferir um novo panorama à epistemologia pedagógica, mesclando diversas concepções filosóficas, carregando uma proposta eminentemente política, não conivente com a da ideologia da classe dominante. Mesmo tendo sido um processo precocemente abortado pelo golpe militar de 1964, suas raízes estavam fincadas, e germinaram em outros espaços e tempos. 
A Pedagogia do Oprimido surge como um rompimento epistemológico e político frente ao que se desenhava como perspectiva política da educação e mais que tudo, surge como uma resistência à lógica liberal e tecnicista que marcava a história política do Brasil até aquele momento.
É exatamente esta questão que foi diretamente abordada por Freire: não era apenas uma teoria social crítica; mais que isso, o que ele propunha era uma maneira inevitável, inexorável de ser e estar educador: assumir um papel social a favor dos “esfarrapados da vida” e dar-lhes os instrumentos para tensionar as relações de poder postas historicamente.
A partir desta consideração, onde se alia teoria crítica e prática pedagógica emancipatória é que se torna possível afirmar: ou a pedagogia se assume com os sujeitos, na luta coletiva por sua emancipação; ou deixa de ser pedagogia, passando a ser uma tecnologia social de dominação O trabalho pedagógico de Paulo Freire com a educação de adultos, carrega e favorece um grande rompimento epistemológico com a intencionalidade da educação vigente no Brasil. Até então, pressupunha-se a educação como uma forma de encaminhar os educandos à cultura letrada da elite e Paulo Freire recoloca esta situação, no sentido de alertar que a educação tem por finalidade a humanização do próprio homem e deve ser um instrumento que permite ao educando ressignificar sua humanidade, redescobrir seu lugar no mundo, amalgamar-se com sua cultura, dela se fazer um elemento e transformar essa cultura à medida que a apreende e se transforma como elemento da cultura. 
Portanto a educação passa a ser vista não mais como instrumento que deve propiciar a posse de uma cultura estranha e construída por outros, mas um processo de realizar nos educandos a possibilidade de se tornarem homens em plenitude, produtores, interpretadores de cultura e capazes de apreender e construir cultura. Enfim, a educação se destina a formar homens ou a dotá-los de conhecimentos previamente selecionados e julgados por outros, como sendo os necessários? 
Essa questão ainda permanecesse em nosso Brasil do século XXI. Está certo que Paulo Freire não descarta a importância da cultura letrada, no entanto é uma questão de encarar o fenômeno da relação homem mundo de maneira diferente: antes de ser método e técnica de transmissão, a educação deve ser um ato político, que organiza a intencionalidade do ensino, a partir do sujeito, visto sempre em seu coletivo social. 
Paulo Freire não desconsiderava o papel da informação, mas considerava que as informações de nada servirão se, paralelamente ao ato de conhecer, o sujeito não criar uma “nova teoria do conhecimento” que será a matriz de um novo quadro interpretativo, que irá permitir ao aluno reelaborar seus conhecimentos dentro de uma nova ótica, a ótica do sujeito.
Quando Paulo Freire insiste na superação de uma educação bancária, o que ele por certo realça é que, ao superar a dimensão bancária e adentrar na educação libertadora, supera se esta dimensão castradora, positivista da educação e pode-se enfrentar a contradição e assim, adentrar nas possibilidades de superação da dominação. Quando Freire insiste na dialética educador/educando ou opressor/oprimido ele o faz, não apenas para polarizar; mas por considerar a inexorabilidade da contradição! Por isso erige uma filosofia da práxis: atrelando resistência e consciência e compromissos mútuos, na compreensão dos fatores que geram desigualdade. A luta, na/pela contradição, é que significa para Pulo Freire a possibilidade de emancipação.
Esse cenário nos induz à Pedagogia Crítica tanto na formação dos professores, quanto nas práticas escolares cotidianos. Será preciso que professores percebam as possibilidades da escola como espaço de contestação e de resistência, de forma a produzir processos que possam romper com a lógica possível da dominação pelas práticas escolares. 
É preciso repensar práticas pedagógicas que carreguem a contra hegemonia de muitos séculos de dominação pela escola. Precisamos que as escolas resgatem e construam espaços de questionamento; de diálogos formativos; de ressignificação da cultura escolar; de partilha de significados e de um currículo que expanda e fortaleça as oportunidades emancipatórias. Esclarecimentos críticos ao invés da tutela da informação; práticas de convivência construtiva e dialógica, ao invés de mecanismos de reprodução do saber; de disciplina castradora. Que todos na escola construam a capacidade de falar pela própria boca, de pensar pelos próprios parâmetros e de dialogar para a construção.


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