sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Os povos amazônicos e os Tupi-Guarani

Quando os portugueses chegaram, em 1500, à costa do território em que hoje é o Brasil, encontraram muita gente morando aqui. Inicialmente, os portugueses tiveram contato com habitantes conhecidos como Tupiniquins e Tupinambás, mas o território estava ocupado por milhares de outros povos, cada um com as próprias histórias, línguas, culturas, que se transformaram ao longo de milênios de ocupação da América. Esses diferentes povos tinham substituído ainda outros povos, ou se miscigenado por meio de relações entre si, em um movimento contínuo de trocas culturais e de intensas migrações ao longo do tempo.
A diversidade cultural era tão impressionante que alguns pesquisadores estimam que na América do Sul eram faladas cerca de 1 500 línguas, muitas delas aparentadas, isto é, com fortes semelhanças umas com as outras, o que indicava a existência de um ancestral comum. Outras eram línguas isoladas, desenvolvidas há séculos ou milênios apenas por uma única sociedade. Esses aspectos evidenciam que existiram centenas de sociedades distintas entre si, com as próprias formas de organização política e social, crenças religiosas e visões de mundo e com diferentes formas de interação com o meio ambiente.
Os dois mais importantes grupos de línguas aparentadas foram o aruak e o tupi, originários da Amazônia, região de onde se expandiram por boa parte do território do Brasil atual e de outras regiões da América do Sul e do Caribe. Como veremos a seguir, as culturas que surgiram em torno desses grupos linguísticos se desenvolveram de formas distintas e até opostas ao longo do primeiro milênio da nossa era.

Fotografia de 2016 que mostra vaso de cerâmica Tupi-Guarani, no momento em que é encontrado, no sítio arqueológico Altos de São João, na cidade de São José dos Campos (SP). Este vaso era uma urna funerária, isto
é, foi utilizado para sepultar uma pessoa. Vestígios como este possibilitaram aos arqueólogos e historiadores conhecer um pouco dos povos Tupi-guarani do passado.

Os povos amazônicos

A ocupação da região amazônica começou há cerca de 14 mil anos, segundo as mais recentes descobertas arqueológicas. Há 11 mil anos, a população era pouco numerosa e dispersa, formada por grupos de caçadores-coletores.
Os primeiros indícios de populações estabelecidas ao longo do rio Amazonas e seus afluentes datam de 8 mil anos atrás. Por volta de 4 mil anos atrás, já existiam muitos aldeamentos agrícolas, baseados no cultivo da mandioca; a população havia crescido e, com ela, as divisões sociais pareciam mais reforçadas. É provável que já houvesse uma imensa diversidade linguística em torno do grupo aruak e outros idiomas isolados.
Em seguida, surgiram sociedades com hierarquias sociais mais demarcadas, nas quais o poder político estava centralizado em uma elite guerreira e sacerdotal. Essas sociedades desenvolveram diferentes técnicas para o uso da terra, transformando os diversos ambientes amazônicos e utilizando de modo eficaz os recursos naturais das florestas e dos rios. Entre elas estavam os Maracá, os Guarita, os povos de Santarém e a cultura marajoara, que vamos conhecer um pouco melhor nesta trilha.

Os Marajoara

Perto de Belém, capital do Pará, há uma ilha que é um formidável ambiente ecológico: a ilha de Marajó. Se você mora em Marajó ou já viajou para lá, sabe o que isso significa. A foz do Amazonas, região onde o rio deságua no oceano Atlântico, abre-se com uma largura de 300 quilômetros. No meio dessa foz está a maior ilha fluviomarinha (entre o rio e o mar) do mundo.
Atualmente, a ilha está dividida em 16 municípios, onde moram cerca de 530 mil habitantes (dados de 2017), originários de culturas diversas, como indígenas, africanas e europeias. De janeiro a junho, chove tão intensamente que as águas cobrem mais da metade de seu território, especialmente da porção leste, chamada Marajó dos Campos. Nos meses seguintes, para de chover, o solo seca e as águas recuam. Esse ciclo, que se repete todos os anos, marca de maneira profunda o modo como os marajoaras se relacionam com o meio ambiente na ilha e como construíram sua cultura, ligada à pesca e ao uso dos fluxos dos rios para o transporte e o comércio.

Uma sociedade entre morros e águas

Os primeiros habitantes de Marajó chegaram à ilha por volta de 5000 a.C. e formaram uma sociedade cujo meio de vida também estava integrado ao movimento das cheias e das secas.
Durante o período das inundações, peixes e tartarugas iam dos leitos profundos dos rios para as regiões alagadas em busca de alimento ou para botar ovos. Quando as águas diminuíam, os peixes nem sempre conseguiam voltar para o leito do rio e ficavam presos em lagoas e grandes poças de água. Formavam-se, assim, verdadeiros tanques naturais cheios de peixes que permitiam alimentar uma população numerosa.
Com uma dieta rica em peixes e tartarugas, os marajoaras contavam ainda com uma área mais fértil da ilha, onde se plantava mandioca, e realizavam o manejo de espécies da mata, como o buriti e o açaí. Não se sabe exatamente a razão, mas, por volta de 400 d.C., os antigos marajoaras passaram a alterar em grande escala o ambiente e viveram a partir daí um longo período de transformações em sua cultura material. Na época das secas, eles passaram a transportar terra das regiões que tinham sido mais alagadas para as regiões mais altas. Assim, eles aumentaram a extensão das áreas secas, criando morros artificiais, chamados de “tesos” pelos moradores atuais da ilha. Ao mesmo tempo, os marajoaras aumentaram a profundidade dos poços e das represas onde os peixes ficavam presos no fim da época das cheias.
Esse engenhoso sistema parece ter garantido uma oferta mais segura e variada de alimentos: os marajoaras passaram assim a controlar melhor os viveiros de peixes. Com o crescimento desse sistema, houve uma diferenciação social mais intensa e, com ela, o surgimento de uma elite que controlava os poços e as represas em torno dos tesos onde moravam.

As artes marajoaras

Em alguns tesos, foram descobertas numerosas sepulturas que continham “bens funerários”, isto é, objetos que eram enterrados com os mortos. Os vestígios analisados revelam que os Marajoara desenvolveram uma extraordinária cultura em torno das cerimônias fúnebres, usadas para distinguir as pessoas comuns das integrantes da elite que dominava os tesos.
Os mais fascinantes objetos da cultura material marajoara que chegaram até os nossos dias foram suas cerâmicas: vasos, cachimbos, estatuetas e objetos ritualísticos diversos, como as urnas funerárias.

Urna funerária marajoara datada de 400 d.C.-1400 d.C. Urna funerária em forma de um animal (zoomorfa), com motivo decorativo pintado em preto e vermelho, e apliques em relevo de boca, olhos e nariz. Embora o significado das decorações tenham se perdido com o tempo, sabe-se que essas urnas tinham uma função sagrada.
O povo marajoara acreditava que as urnas eram um meio de passagem para outra vida. Os mortos eram enterrados em urnas de diversos tamanhos, algumas vezes ricamente adornadas e outras vezes lisas. A decoração mais elaborada indicava que o morto possuía um lugar de destaque na sociedade.

Estatueta antropomorfa representando uma mulher grávida. As estatuetas marajoaras são caracterizadas por atributos femininos, como seios, e pela diversidade de decoração, como tamanho e forma. Algumas reúnem características do sexo feminino e do masculino no mesmo objeto. Muitas delas eram utilizadas como instrumentos musicais, por isso são ocas e possuem pedrinhas em seu interior.
Por terem sido sempre encontradas em cemitérios,  é possível inferir que possuíam função cerimonial e, provavelmente, eram utilizadas em rituais. A posição da estatueta remete à posição de parto usada pelas mulheres nas sociedades amazônicas.

Os povos Tupi-Guarani

Os povos falantes de idiomas do grupo tupi se formaram há cerca de 5 mil anos, em uma vasta região do norte do atual território do país, onde atualmente fica Rondônia. Uma parte desses povos permaneceu nessa área, mas outros se espalharam em diversas direções. 
Uma das famílias de línguas tupi, que os pesquisadores chamaram de tupi-guarani, apresentou a mais rápida e ampla expansão territorial. Outro grupo linguístico importante, que reunia diversos povos no interior do território, era o macro-jê.

Muitos povos, muitas rivalidades

Os Tupi-Guarani dominavam o plantio de mandioca e do milho, e sabiam explorar os recursos das florestas tropicais, tanto na Amazônia quanto nas áreas da Mata Atlântica. Eram habilidosos produtores de cerâmica, que utilizavam para fins diversos e em cerimônias fúnebres.
As aldeias e os agrupamentos humanos tinham proporções variadas, mas, em geral, eram formadas por poucas centenas de pessoas, sob comando de um chefe guerreiro. Não havia diferenças sociais marcantes e o prestígio de alguém dependia das próprias habilidades, especialmente nas artes da guerra.
Os diferentes povos tupis-guaranis nutriam rivalidades entre si e com outros grupos, por isso guerreavam com frequência. As rivalidades ancestrais eram revividas a cada guerra ou confronto,
em que os inimigos aprisionados eram mortos e, por meio de um ritual, eram devorados por todos os habitantes da aldeia. Com tais rituais antropofágicos, vingavam a morte dos ancestrais e, ao mesmo tempo, acreditavam adquirir as virtudes do guerreiro sacrificado.

A cerâmica tupi-guarani e os sítios arqueológicos

A imagem a seguir é uma fotografia de uma escavação no sítio arqueológico Domingos, próximo ao rio Parauapebas (Pará). No centro da imagem, você pode observar um vaso largo de cerâmica, datado de cerca de 650 d.C., desenterrado pelas equipes de arqueologia. Esses objetos foram encontrados embaixo da chamada Terra Preta de Índio (TPI), um tipo de solo muito fértil, produzido pelos povos originários por meio de mistura com resíduos orgânicos (restos de animais e plantas).
Os vestígios encontrados no sítio Domingos mostram que o local serviu de habitação permanente para grupos tupis-guaranis, pois possui grande quantidade de material cerâmico, além de material de pedra lascada e polida.

Fotografia de data desconhecida que mostra vasilhame inteiro encontrado em escavação no sítio arqueológico Domingos, no estado do Pará.





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