As partes dos territórios que hoje formam o Brasil favoreceram diferentes modos de ocupação ao longo de milhares de anos. As pesquisas arqueológicas trazem informações importantes sobre os primeiros povos da América e, em consequência, sobre o passado dos povos indígenas atuais que habitam o Brasil.
Por meio das datações estabelecidas, das possibilidades de uso dos vestígios encontrados e dos materiais de que eles são constituídos, é possível identificar características de cada tradição arqueológica.
POVOS DO INTERIOR
Com base na análise dos vestígios, sabe-se que os primeiros habitantes do continente americano eram nômades e dedicavam-se à caça, à pesca e à coleta de espécies vegetais e de
insetos. À medida que se deslocavam pelo continente, eles aprimoravam técnicas de caça e de produção de utensílios, além de
desenvolver a agricultura e costumes próprios, como maneiras
de se comunicar, de se reunir, de enterrar os mortos, de demonstrar afeto, etc.
SAMBAQUIEIROS: POVOS DO LITORAL
Há 8 mil anos, alguns grupos humanos se fixaram ao longo
do litoral do continente americano, principalmente na porção sul
do território, na área que se estende do atual estado do Rio de
Janeiro até Santa Catarina. Graças à fartura de peixes e de crustáceos que o mar lhes oferecia, esses povos criaram comunidades estáveis, muitas vezes sedentárias.
A marca mais característica dos povos antigos do litoral
são os chamados sambaquis, grandes montes formados pelo
acúmulo de conchas e de restos de outros animais marinhos. Em
geral, eles apresentam forma arredondada e alguns atingem até
30 metros de altura. O termo sambaqui é de origem tupi-guarani
e significa monte de conchas.
Esse tipo de estrutura também é comum nos litorais da África e da Europa. Em alguns locais do Brasil e também de Portugal, por exemplo, os sambaquis são chamados de concheiros.
Com base nos materiais encontrados nos sambaquis, pesquisadores formulam hipóteses sobre as funções dessas estruturas.
Nesses sítios arqueológicos, além de cerâmicas e ossadas humanas, é comum encontrar:
• ferramentas de pedra: como machados, martelos e que
bra-coquinhos;
• objetos feitos de ossos: como anzóis, farpas serrilhadas,
agulhas, espátulas e recipientes;
• objetos feitos de conchas: as conchas tinham utilidade variada – podiam tornar-se facas, serras e colares e, quando cobertas
por argila, eram utilizadas como recipientes para ferver água;
• zoólitos: esculturas de pedra polida na forma de animais, como tubarões e outros peixes, mamíferos marinhos, tatus, pássaros, etc. Eram enterrados com os
mortos em ritual funerário.
Zoólito, de cerca de 6000 a.C.,
em formato de peixe. Ele foi
encontrado em sítio arqueológico
de Santa Catarina.
AGRICULTORES NO BRASIL
A agricultura começou a ser praticada no atual território brasileiro há cerca de 5 mil anos, principalmente com o cultivo do
milho e da mandioca.
No entanto, o desenvolvimento dessa atividade não representou o abandono completo do nomadismo. Muitos povos permaneceram seminômades, utilizando a produção agrícola apenas como complemento da caça e da coleta de frutos, folhas
e raízes.
Contudo, em algumas áreas da Amazônia e do Brasil Central, a agricultura tornou-se a principal fonte de alimentos, pra
ticada por grupos que adotaram o sedentarismo.
AS GRANDES ALDEIAS AMAZÔNICAS
Há cerca de 2 mil anos, alguns grupos de agricultores da
região amazônica formaram grandes aldeias, os cacicados, com
milhares de habitantes. Os cacicados eram governados por poderosos chefes, os caciques, que dominavam extensos territórios, submetendo outros povos ao seu poder.
Dois importantes cacicados amazônicos situavam-se no norte do Brasil, no atual estado do Pará. Um deles ocupava terras
da ilha de Marajó, e o outro situava-se às margens do rio Tapajós, onde se localiza hoje a cidade de Santarém. Por esse motivo, essas grandes aldeias ficaram conhecidas, respectivamente,
como cultura marajoara e cultura tapajana ou de Santarém.
Nessas aldeias, havia trabalhadores especializados, como
agricultores e pescadores, além de artesãos, que produziam artefatos sofisticados, principalmente utensílios de cerâmica e de
pedra, que eram trocados com outras aldeias.
OS TUPI-GUARANI
Entre os grupos indígenas, o mais numeroso era o da
família linguística tupi-guarani, do tronco linguístico tupi. De
acordo com algumas pesquisas, os povos falantes de tupi-guarani eram originários da região amazônica e teriam partido em
direção ao litoral há mais de 1 400 anos.
Durante esse processo, dividiram-se em dois grandes grupos: os Tupi, que tinham
a mandioca como principal cultura agrícola, e os Guarani, que
cultivavam vários gêneros alimentícios, em especial o milho.
À época da chegada dos portugueses, em 1500, os Tupi ocupavam quase toda a faixa costeira, entre os atuais estados do Ceará
e de São Paulo, e os Guarani localizavam-se mais ao sul, na região
litorânea dos atuais estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul.
No interior, viviam povos que falavam línguas de outras famílias
linguísticas.
Técnicas e tecnologias
Os vestígios materiais dos Tupi-guarani foram encontrados em diversas partes do território brasileiro, especialmente na faixa litorânea,
em alguns locais da Amazônia e ao longo dos rios da bacia do Prata.
A cerâmica está presente em praticamente todos os sítios e é asso
ciada à agricultura. Acredita-se que, para limpar um terreno que seria
utilizado para cultivar alimentos vegetais, esses povos realizavam a técnica da coivara, que consistia em colocar fogo na mata. Também desenvolveram canoas, feitas dos troncos de árvores, para navegar pelos rios.
Isso sugere que eles conseguiam alcançar grandes distâncias rapidamente, utilizando a navegação fluvial.
De acordo com alguns historiadores, havia comunidades tupis-guaranis espalhadas por outras grandes áreas da América do
Sul. Elas seriam organizadas em confederações e comandadas
por chefes de guerra, criando uma rede de relações e influências
entre os diferentes grupos.
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