sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Povos originários da América Latina

A América Latina antes dos europeus


Anteriormente, estudamos a respeito das rotas de migração do Homo sapiens. Por meio delas, identificamos histórica e geograficamente como foi povoado o território do continente americano. Esse processo de ocupação resultou no surgimento de diferentes sociedades espalhadas por todo o continente, sobretudo após o desenvolvimento da agricultura, quando alguns grupos que antes eram nômades passaram a se sedentarizar. Ao longo do tempo, esses grupos originários desenvolveram diferentes saberes e culturas, que por sua vez foram herdados e elaborados pelos povos que vieram depois deles, como aqueles com os quais os europeus tiveram con tato ao chegar nas atuais Américas.
Ou seja, muitos desses povos estavam ali bem antes da chegada dos europeus, no século XV. Não existem dados concretos sobre quantos eram, mas a estimativa é de que naquela época a América era habitada por aproximada mente 57 milhões e 300 mil pessoas. Os estudos sobre essas populações dividem-se por regiões, considerando a área em que interagiam diferentes culturas. 
Algumas delas são a Mesoamérica (onde hoje se encontra o México, Guatemala, Honduras, El Salvador e parte da Nicarágua), os Andes (onde hoje se encontram Peru, Bolívia, Chile e Argentina) e a Amazônia. E como são estudadas essas sociedades? Observe a imagem desta página, trata-se de uma escultura, produzida entre os séculos XIII a.C. e X a.C., de uma das quatro cabeças gigantes esculpidas pelos povos olmecas, povo da Mesoamérica. 
Os pesquisadores concordam que essas cabeças representam poderosos líderes da época; com isso, é possível identificar algumas características da organização política dos olmecas. O capacete na estátua é uma referência ao capacete dos jogadores de tlachtli, jogo com bola que influenciou outras culturas da região.

Mesoamérica 


A área chamada de Mesoamérica é o território que hoje corresponde aos seguintes países: parte do México, Guatemala, Belize, El Salvador, Honduras, Costa Rica, Nicarágua e Panamá. Estima-se que a região começou a ser ocupada por grupos humanos sedentarizados por volta de 7000 a.C. 
No entanto, foi entre 3000 a.C. e 1 000 a.C. que começaram a surgir os primeiros espaços urbanos com complexas organizações sociais, econômicas, culturais e políticas. Uma das primeiras populações a ocupar a região foram os olmecas, em seguida, ela foi ocupada pelos maias e os astecas.

Olmecas 


Por volta de 1400 a.C., na parte sul da planície costeira do Golfo do México, entre os rios Papaloapan e Grijalva, surgiu a sociedade olmeca. Eles desenvolveram técnicas agrícolas e o cultivo de milho (principal alimento), feijão, abóbora, entre outros.

Cultura


Os olmecas viviam em cidades-Estados, com governos e leis próprios, organização urbana e arquitetônica, com a construção de pirâmides, palácios, praças públicas, aquedutos de pedra e canais de irrigação. Também há indícios de que eles teriam criado um sistema de escrita e um calendário próprio. Uma das atividades da cultura olmeca que influenciou diversos outros povos, como maias e astecas, foi o tlachtli, o jogo da bola. Era uma atividade pública e cerimonial, podendo ser usada para resolver conflitos políticos e bélicos. Provavelmente, apenas as pessoas de maior riqueza e prestígio social poderiam praticá-lo. Os jogadores, de duas equipes adversárias, tinham como objetivo atravessar pesadas bolas de borracha entre arcos, usando somente as coxas, os braços e os quadris.

Os maias 


Os maias ocuparam a península de Yucatán, região que, atualmente, corresponde aos territórios da Guatemala, de Honduras, de Belize e sul do México. Os vestígios arqueológicos encontrados na região indicam que a ocupação humana começou aproximadamente entre os anos 800 a.C. e 600 a.C. No início, essas populações ocuparam as regiões montanhosas da península e, ao longo do tempo, foram migrando para as florestas tropicais. As primeiras cidades foram construídas no primeiro milênio antes de Cristo, mas o apogeu dessa sociedade foi entre os séculos III d.C. e IX d.C.

Sociedade e economia 


Os maias eram liderados pelo halach uinic, que detinha o poder espiritual e político sobre a população. Parte da nobreza atuava em cargos administrativos, religiosos, comerciais ou militares e o restante da população eram solda dos, funcionários burocráticos, artistas, artesãos, camponeses e trabalhadores encarregados de pequenas tarefas (servidores, carregadores etc.). Quanto à agricultura, os maias produziram tanto produtos para a sua sobre vivência como matérias-primas para a manufatura de outros produtos. Entre os alimentos mais consumidos por essa população destaca-se o milho, cultivado nas chamadas milpas, que eram extensos campos desse alimento. 
Dentre as matérias-primas, encontrava-se o cultivo de algodão, que servia para a confecção de tecidos, que eram ricamente bordados, e de cacau, que era consumido como bebida ou utilizado como moeda de troca, entre outros. Além desses produtos, os maias produziam cerâmicas policromadas. Nesse período, esses três produtos eram considerados itens de luxo e eram consumidos, principalmente, pelas elites dirigentes. Além da agricultura e da manufatura, os maias desenvolveram um rico comércio, uma vez que seus comerciantes contavam com extrema mobilidade; eles faziam expedições de longa distância, seja por terra, mares ou rios. 
As rotas marítimas permitiram que os maias contornassem toda a península de Yucatán. Entre os produtos que circulavam em território maia estavam a obsidiana (rocha utilizada para fabricar projéteis), conchas, carapaças de tartarugas marinhas, corais, pérolas, plumas de pássaros tropicais, entre outros.

Cultura


Os maias desenvolveram uma cultura rica e variada. Criaram uma série de técnicas e conheci mentos especializados em áreas como astronomia, matemática, engenharia, arquitetura, escultura e cerâmica. Foi na área de Tikal que começaram a surgir as primeiras formas de cerâmica (cerca de 600 a.C.) e a despontar a arquitetura, sendo construídos os primeiros templos e altares maias (cerca de 200 a.C.). Com o tempo, essa forma de construir templos foi se desenvolvendo até chegar ao modelo de pirâmides escalonadas, símbolo da arquitetura maia. Na astronomia, os maias produziram importantes avanços. Observando a movimentação das estrelas, do Sol e da Lua, eles conseguiram calcular, por exemplo, as estações do ano, o que facilitava e melhorava a plantação das sementes e a colheita. Ao observar e medir os movimentos dos astros, os maias começaram a desenvolver os primeiros calendários. Eles observaram fenômenos como o ciclo solar e os eclipses lunares e, com isso, puderam calcular o tempo, por exemplo, a duração do ano. Desde o século I d.C. os maias combinaram o uso de dois calendários, um calendário ritualístico, com 260 dias e dividido em 13 grupos de 20 dias, e um calendário "civil", ou seja, utilizado para atividades cotidianas, como a agricultura. O segundo calendário possuía 365 dias divididos em 18 grupos de 20 dias. As datas desses calendários se encontravam em um ciclo de 52 anos. O estudo da astronomia e o desenvolvimento de calendários fez com que os maias elaborassem um sistema numérico bastante avançado. Eles criaram um símbolo para o zero representado em forma de concha, que usavam juntamente aos sinais de ponto (indicando unidade) e barra (indicando o cinco). A invenção do zero é de grande importância para o sistema numérico. No Oriente, apenas o povo hindu possuía esse conhecimento no primeiro milênio depois de Cristo.
Na escrita, os maias desenvolveram um sistema de escrita hieroglífico, sendo os seus símbolos representações de nomes e sílabas. Essas formas de registro permitiram que os maias calculassem, registrassem e medissem o tempo.

Os astecas


Os astecas vieram do norte da América e ocuparam o Vale do México em busca de terras férteis. Segundo as suas narrativas tradicionais, eles vieram de uma cidade nomeada Aztlán, história que originou o nome desses povos, que eram denomina dos astecas chichimecas, ou “bárbaros de Aztlán” e falavam a língua nauátle. Segundo a tradição, em 1325, esses povos fundaram a vila de Tenochtitlán, que, com o passar dos anos, transformou-se em uma grande cidade. Com Mais tarde, essa cidade aliou-se a duas outras: Texcoco e Tlacopan. Tenochtitlán era considerada o centro militar dessa liga e Texcoco era a metrópole das artes, literatura e direito. Essa união foi denominada Tríplice Aliança e originou o Império Asteca. Assim, os astecas passaram a dominar as cidades próximas, mas não modificavam a sua organização política, apenas cobravam tributos dos povos submetidos. Influenciados pela cultura olmeca, desenvolveram a agricultura, que se tornou a base da economia asteca. Cultivavam milho, cacau, feijão, tomate, pimenta, algodão e tabaco. Parte da produção era usada para o consumo dos próprios agricultores (subsistência) e o restante entregue como tributos ao poder central. 
Para a prática da agricultura, os astecas construíam chinampas, ilhas flutuantes, principalmente nos lagos da América Central. Seu nome origina-se da expressão asteca nauátle chinamitli, que significa “cerca de cana”. Essa téc nica favoreceu o abastecimento da região, possibilitando o aumento da população. As ilhas eram construídas com estacas de madeira, palha trançada, lodo e terra fértil para o cultivo e eram plantadas Ahuejotes, árvore típica da região, cujas raízes dão firmeza e sustentação à terra. Trata-se de um método sustentável ainda usado, por exemplo, na comunidade de São Gregório Altapulco, no México. Os astecas desenvolveram uma escrita com base em um sistema de linguagem pictográfica, que é feita com desenhos e não com caracteres como os nossos. Esses desenhos poderiam exprimir ideias ou objetos, mas também poderiam ser o símbolo de uma sílaba ou som. Essa escrita está registrada em livros manuscritos confeccionados pelos astecas, que eram chamados códices. O principal deles, entre os astecas, foi o códice magliabe chiano. A partir dessa linguagem, os povos da América Central representavam sua cultura e faziam circular seus conhecimentos, sobretudo sobre a religião.

A região andina


Os Andes Centrais têm uma geografia diversificada, com regiões desérticas, montanhas e uma floresta úmida ligada à Bacia Amazônica. Dentro desse complexo geográfico, nas montanhas existem rios e matas que, ao longo da história, atraíram diferentes povos para essa região, entre os quais estudaremos três: a sociedade de Caral, a cultura Chavín e os incas.

A sociedade de Caral 


Caral é a cidade mais antiga da região dos Andes Centrais. Ela surgiu por volta de 2600 a.C., e foi habitada por populações que se fixaram próximo ao Rio Supe, na região que atualmente corresponde ao território do Peru. Esse povo desenvolveu a agricultura, cultivando, por exemplo, abóbora, feijão, abacate, pimentão e algodão, e uma vida urbana, com a realização de grandes construções, como revelam as ruínas de pirâmides encontradas nessa região. 
A sociedade de Caral era formada por várias famílias ou clãs, cada uma delas com o próprio chefe. Porém, nessa sociedade, todos obedeciam a um chefe maior, intitulado curaca, que exercia o comando sobre toda a comunidade. O curaca também administrava outras vilas e cidades da região, como Áspero, Era de Pando e Miraya. 
Essas cidades realizavam trocas comerciais entre si e compartilhavam prá ticas religiosas e formas de organização política. A cidade de Caral teve papel central no conjunto dessas comunidades, exercendo forte domínio sobre elas.

A cultura Chavín 


Por volta do ano 1800 a.C., o conjunto de cidades que formavam a sociedade de Caral começou a desaparecer. Tempos depois, por volta do ano 1000 a.C., surgiu a sociedade Chavín, localizada na Serra de Huari, onde hoje se localiza o Peru. Sua principal cidade era Chavín de Huantar, construída na junção dos rios Mosna e Huachecsa, em uma área fértil do Peru, a mais de 3 mil metros de altura. 
A cultura Chavín era significante expansionista e, por isso, consolidou um império na região, que, no auge dessa cultura, chegou a ocupar o Norte e o centro da costa peruana, além de alcançar o território que hoje pertence ao Equador, exercendo grande influência sobre toda a região. 
Essa cidade foi um grande centro cerimonial e a sua arquitetura era focada na construção de templos, utilizando materiais como pedras, barro e adobe. Seus habitantes desenvolveram uma agricultura muito rica. Os Chavín cultivavam milho (que era a principal fonte de alimentação na época), feijão verde, batata e amendoim. 
Nas regiões litorâneas, seus habitantes dedicavam-se à pesca. Os povos da cultura Chavín desenvolveram expressões artísticas próprias que, além da arquitetura, se manifestavam nas esculturas em pedra, na cerâmica e na ourivesaria. Para o trabalho artesanal, essa sociedade trabalhava com metais como ouro, prata e cobre, bem como pedra, madeira, ossos e pedras preciosas. Na ourivesaria, os trabalhado res usavam principalmente o ouro e o cobre. Eles usavam o martelo para trabalhar com as joias, convertendo o seu metal em coroas, brincos, colares, cinturões etc.
Na cerâmica, a cultura Chavín caracterizou-se por produzir uma cerâmica negra e decorada com desenhos em relevo. As esculturas eram feitas em pedras e tinham tamanhos monumentais, em formatos de obeliscos, lanças ou representando figuras humanas e deuses locais. A religião do povo Chavín possuía uma divindade com formas felinas, como um jaguar, fato que pode ser verificado em cerâmicas e esculturas com essas características.

Mochicas e nasquenses 


Antes da chegada dos incas na região andina, ela era habitada por povos mochicas e nasquenses, que dominavam a arte têxtil, a produção de cerâmicas e o trabalho com ouro e prata desde por volta do ano 300 a.C. Os mochicas se encontravam entre os vales dos rios Moche e Chicama, na costa norte do Peru, pra ticavam a agricultura e a pesca e tinham uma sociedade hierarquizada, na qual se destacavam os sacerdotes e os guerreiros. Essa sociedade se destacou pela construção de grandes centros cerimoniais, o que incluía grandes pirâmides e templos. Os nasquenses, membros da cultura Nasca, fundaram a cidade de Cachua chi, que é considerada pelos arqueólogos como a primeira área urbana do território atual do Peru. 
Essa sociedade era formada principalmente por guerreiros e pescadores. Os nasquenses tinham muito conhecimento acerca da astronomia, reconhecendo os movimentos do Sol e de outros corpos celestes. A partir dessas observações, eles puderam elaborar calendários e criar desenhos no chão de dimensões enormes, idos como geóglifos. Essas obras ficaram conhecidas como Linhas de Nasca.
Os incas Os incas eram originários dos povos quéchua, povos que vieram da região do Lago Titicaca e falavam a língua quéchua. Os incas submeteram os povos nasquenses e mochicas, de modo que, no início do século XIV d.C., já dominavam uma vasta região, que se estendia do território do atual Chile à Colômbia. O termo inca designava apenas o governante do império. Após a chegada dos espanhóis à América, “inca” passou a se referir ao povo daquela região. Segundo o mito de fundação do povo inca, dois personagens – Manco Cápac e sua esposa, Mama Ocilla – receberam um sinal do Deus Sol para fundar uma cidade que seria o centro de um grande império. O local escolhido foi chamado de Cuzco (cujo nome significa “umbigo do mundo"). No mapa é possível observar a extensão territorial do Império Inca.
No total, os incas dominaram uma região de mais de 5 200 quilômetros, na qual viviam aproximadamente 8 milhões de pessoas.

Cultura


Os incas foram o primeiro povo conhecido a cultivar a batata. Após a chegada dos europeus à América, o produto espalhou-se pelos outros continentes. Hoje, a batata é um dos alimentos mais consumidos no mundo. O povo inca não desenvolveu um sistema de escrita e sua cultura foi transmitida oral mente. Para registrar informações, inventaram um sistema matemático chamado quipo, usado para administrar e contabilizar as atividades comerciais. Com uma série de nós agrupados em cordas, os incas calculavam o estoque de alimentos, o pagamento de impostos etc. Em cada cidade sob domínio do Império Inca, havia pessoas treinadas para usar o quipo.


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