A América Latina antes dos europeus
Anteriormente, estudamos a respeito das rotas de migração do Homo sapiens. Por meio delas, identificamos histórica e geograficamente como foi povoado o território do continente americano. Esse processo de ocupação resultou no surgimento de diferentes sociedades espalhadas por todo o continente, sobretudo após o desenvolvimento da agricultura, quando alguns grupos que antes eram nômades passaram a se sedentarizar. Ao longo do tempo, esses grupos originários desenvolveram diferentes saberes e culturas, que por sua vez foram herdados e elaborados pelos povos que vieram depois deles, como aqueles com os quais os europeus tiveram con tato ao chegar nas atuais Américas.
Ou seja, muitos desses povos estavam ali bem antes da chegada dos europeus, no século XV. Não existem dados concretos sobre quantos eram, mas a estimativa é de que naquela época a América era habitada por aproximada mente 57 milhões e 300 mil pessoas. Os estudos sobre essas populações dividem-se por regiões, considerando a área em que interagiam diferentes culturas.
Algumas delas são a Mesoamérica (onde hoje se encontra o México, Guatemala, Honduras, El Salvador e parte da Nicarágua), os Andes (onde hoje se encontram Peru, Bolívia, Chile e Argentina) e a Amazônia. E como são estudadas essas sociedades? Observe a imagem desta página, trata-se de uma escultura, produzida entre os séculos XIII a.C. e X a.C., de uma das quatro cabeças gigantes esculpidas pelos povos olmecas, povo da Mesoamérica.
Os pesquisadores concordam que essas cabeças representam poderosos líderes da época; com isso, é possível identificar algumas características da organização política dos olmecas. O capacete na estátua é uma referência ao capacete dos jogadores de tlachtli, jogo com bola que influenciou outras culturas da região.
Mesoamérica
A área chamada de Mesoamérica é o território que hoje corresponde aos
seguintes países: parte do México, Guatemala, Belize, El Salvador, Honduras,
Costa Rica, Nicarágua e Panamá.
Estima-se que a região começou a ser ocupada por grupos humanos sedentarizados por volta de 7000 a.C.
No entanto, foi entre 3000 a.C. e
1 000 a.C. que começaram a surgir os primeiros espaços urbanos com complexas organizações sociais, econômicas, culturais e políticas. Uma das primeiras populações a ocupar a região foram os olmecas, em seguida, ela foi
ocupada pelos maias e os astecas.
Olmecas
Por volta de 1400 a.C., na parte sul da planície costeira do Golfo do México,
entre os rios Papaloapan e Grijalva, surgiu a sociedade olmeca. Eles desenvolveram técnicas agrícolas e o cultivo de milho (principal alimento), feijão, abóbora, entre outros.
Cultura
Os olmecas viviam em cidades-Estados, com governos e leis próprios,
organização urbana e arquitetônica, com a construção de pirâmides, palácios, praças públicas, aquedutos de pedra e canais de irrigação. Também
há indícios de que eles teriam criado um sistema de escrita e um calendário próprio.
Uma das atividades da cultura olmeca que influenciou diversos outros
povos, como maias e astecas, foi o tlachtli, o jogo da bola. Era uma atividade
pública e cerimonial, podendo ser usada para resolver conflitos políticos e bélicos. Provavelmente, apenas as pessoas de maior riqueza e
prestígio social poderiam praticá-lo. Os jogadores, de duas equipes
adversárias, tinham como objetivo atravessar pesadas bolas de borracha entre arcos, usando somente as coxas, os braços e os quadris.
Os maias
Os maias ocuparam a península de Yucatán,
região que, atualmente, corresponde aos territórios da Guatemala, de Honduras, de Belize e sul do
México. Os vestígios arqueológicos encontrados
na região indicam que a ocupação humana começou aproximadamente entre os anos 800 a.C. e
600 a.C. No início, essas populações ocuparam as
regiões montanhosas da península e, ao longo do
tempo, foram migrando para as florestas tropicais.
As primeiras cidades foram construídas no primeiro milênio antes de Cristo, mas o apogeu dessa
sociedade foi entre os séculos III d.C. e IX d.C.
Sociedade e economia
Os maias eram liderados pelo halach uinic, que detinha o poder espiritual
e político sobre a população. Parte da nobreza atuava em cargos administrativos, religiosos, comerciais ou militares e o restante da população eram solda
dos, funcionários burocráticos, artistas, artesãos, camponeses e trabalhadores
encarregados de pequenas tarefas (servidores, carregadores etc.).
Quanto à agricultura, os maias produziram tanto produtos para a sua sobre
vivência como matérias-primas para a manufatura de outros produtos. Entre os
alimentos mais consumidos por essa população destaca-se o milho, cultivado
nas chamadas milpas, que eram extensos campos desse alimento.
Dentre as matérias-primas, encontrava-se o cultivo de algodão, que servia
para a confecção de tecidos, que eram ricamente bordados, e de cacau, que era
consumido como bebida ou utilizado como moeda de troca, entre outros. Além
desses produtos, os maias produziam cerâmicas policromadas. Nesse período,
esses três produtos eram considerados itens de luxo e eram consumidos, principalmente, pelas elites dirigentes.
Além da agricultura e da manufatura, os maias desenvolveram um rico
comércio, uma vez que seus comerciantes contavam com extrema mobilidade;
eles faziam expedições de longa distância, seja por terra, mares ou rios.
As rotas
marítimas permitiram que os maias contornassem toda a península de Yucatán.
Entre os produtos que circulavam em território maia estavam a obsidiana (rocha
utilizada para fabricar projéteis), conchas, carapaças de tartarugas marinhas,
corais, pérolas, plumas de pássaros tropicais, entre outros.
Cultura
Os maias desenvolveram uma cultura rica e
variada. Criaram uma série de técnicas e conheci
mentos especializados em áreas como astronomia,
matemática, engenharia, arquitetura, escultura e
cerâmica.
Foi na área de Tikal que começaram a surgir as primeiras formas de cerâmica (cerca de
600 a.C.) e a despontar a arquitetura, sendo
construídos os primeiros templos e altares
maias (cerca de 200 a.C.). Com o tempo, essa
forma de construir templos foi se desenvolvendo
até chegar ao modelo de pirâmides escalonadas,
símbolo da arquitetura maia.
Na astronomia, os maias produziram importantes avanços. Observando a movimentação das estrelas,
do Sol e da Lua, eles conseguiram calcular, por exemplo, as
estações do ano, o que facilitava e melhorava a plantação das
sementes e a colheita. Ao observar e medir os movimentos dos astros,
os maias começaram a desenvolver os primeiros calendários. Eles observaram
fenômenos como o ciclo solar e os eclipses lunares e, com isso, puderam calcular o tempo, por exemplo, a duração do ano. Desde o século I d.C. os maias
combinaram o uso de dois calendários, um calendário ritualístico, com 260 dias
e dividido em 13 grupos de 20 dias, e um calendário "civil", ou seja, utilizado
para atividades cotidianas, como a agricultura. O segundo
calendário possuía 365 dias divididos em 18 grupos de 20
dias. As datas desses calendários se encontravam em um
ciclo de 52 anos.
O estudo da astronomia e o desenvolvimento de
calendários fez com que os maias elaborassem um sistema numérico bastante avançado. Eles criaram um símbolo para o zero representado em forma de concha, que
usavam juntamente aos sinais de ponto (indicando unidade) e barra (indicando o cinco). A invenção do zero é de
grande importância para o sistema numérico. No Oriente,
apenas o povo hindu possuía esse conhecimento no primeiro milênio depois de Cristo.
Na escrita, os maias desenvolveram um sistema de
escrita hieroglífico, sendo os seus símbolos representações de nomes e sílabas. Essas formas de registro permitiram que os maias calculassem, registrassem e medissem
o tempo.
Os astecas
Os astecas vieram do norte da América e ocuparam o Vale do México em busca
de terras férteis. Segundo as suas narrativas tradicionais, eles vieram de uma cidade
nomeada Aztlán, história que originou o nome desses povos, que eram denomina
dos astecas chichimecas, ou “bárbaros de Aztlán” e falavam a língua nauátle.
Segundo a tradição, em 1325, esses povos fundaram a vila de Tenochtitlán,
que, com o passar dos anos, transformou-se em uma grande cidade. Com Mais
tarde, essa cidade aliou-se a duas outras: Texcoco e Tlacopan. Tenochtitlán era
considerada o centro militar dessa liga e Texcoco era a metrópole das artes, literatura e direito. Essa união foi denominada Tríplice Aliança e originou o Império
Asteca. Assim, os astecas passaram a dominar as cidades próximas, mas não
modificavam a sua organização política, apenas cobravam tributos
dos povos submetidos.
Influenciados pela cultura olmeca, desenvolveram a agricultura, que se tornou a base da economia asteca. Cultivavam milho,
cacau, feijão, tomate, pimenta, algodão e tabaco. Parte da produção
era usada para o consumo dos próprios agricultores (subsistência)
e o restante entregue como tributos ao poder central.
Para a prática da agricultura, os astecas construíam
chinampas, ilhas flutuantes, principalmente nos lagos da
América Central. Seu nome origina-se da expressão asteca
nauátle chinamitli, que significa “cerca de cana”. Essa téc
nica favoreceu o abastecimento da região, possibilitando
o aumento da população. As ilhas eram construídas com
estacas de madeira, palha trançada, lodo e terra fértil para o
cultivo e eram plantadas Ahuejotes, árvore típica da região,
cujas raízes dão firmeza e sustentação à terra. Trata-se de
um método sustentável ainda usado, por exemplo, na comunidade de São Gregório Altapulco, no México.
Os astecas desenvolveram uma escrita com base em
um sistema de linguagem pictográfica, que é feita com desenhos e não com
caracteres como os nossos. Esses desenhos poderiam exprimir ideias ou objetos, mas também poderiam ser o símbolo de uma sílaba ou som. Essa escrita
está registrada em livros manuscritos confeccionados pelos astecas, que eram
chamados códices. O principal deles, entre os astecas, foi o códice magliabe
chiano. A partir dessa linguagem, os povos da América Central representavam
sua cultura e faziam circular seus conhecimentos, sobretudo sobre a religião.
A região andina
Os Andes Centrais têm uma geografia diversificada, com regiões desérticas, montanhas e uma floresta úmida ligada à Bacia Amazônica.
Dentro desse complexo geográfico, nas montanhas existem rios e matas que, ao longo da história, atraíram diferentes povos para essa região,
entre os quais estudaremos três: a sociedade de
Caral, a cultura Chavín e os incas.
A sociedade de Caral
Caral é a cidade mais antiga da região dos
Andes Centrais. Ela surgiu por volta de
2600 a.C., e foi habitada por populações que
se fixaram próximo ao Rio Supe, na região que
atualmente corresponde ao território do Peru.
Esse povo desenvolveu a agricultura, cultivando, por exemplo, abóbora, feijão, abacate,
pimentão e algodão, e uma vida urbana, com a
realização de grandes construções, como revelam
as ruínas de pirâmides encontradas nessa região.
A sociedade de Caral era formada por várias
famílias ou clãs, cada uma delas com o próprio
chefe. Porém, nessa sociedade, todos obedeciam a um chefe maior, intitulado curaca, que
exercia o comando sobre toda a comunidade.
O curaca também administrava outras vilas e
cidades da região, como Áspero, Era de Pando e Miraya.
Essas cidades realizavam trocas comerciais entre si e compartilhavam prá
ticas religiosas e formas de organização política. A cidade de Caral teve papel
central no conjunto dessas comunidades, exercendo forte domínio sobre elas.
A cultura Chavín
Por volta do ano 1800 a.C., o conjunto de cidades que formavam a sociedade de Caral começou a desaparecer. Tempos
depois, por volta do ano 1000 a.C., surgiu a sociedade Chavín,
localizada na Serra de Huari, onde hoje se localiza o Peru.
Sua principal cidade era Chavín de Huantar, construída na
junção dos rios Mosna e Huachecsa, em uma área fértil do
Peru, a mais de 3 mil metros de altura.
A cultura Chavín
era significante expansionista e, por isso, consolidou
um império na região, que, no auge dessa cultura, chegou
a ocupar o Norte e o centro da costa peruana, além de
alcançar o território que hoje pertence ao Equador, exercendo grande influência sobre toda a região.
Essa cidade foi um grande centro cerimonial e a sua arquitetura era focada na construção de templos, utilizando materiais como
pedras, barro e adobe. Seus habitantes desenvolveram uma agricultura muito rica. Os Chavín
cultivavam milho (que era a principal fonte de
alimentação na época), feijão verde, batata e
amendoim.
Nas regiões litorâneas, seus habitantes dedicavam-se à pesca.
Os povos da cultura Chavín desenvolveram expressões artísticas próprias que, além da arquitetura, se
manifestavam nas esculturas em pedra, na cerâmica e na ourivesaria. Para o trabalho artesanal,
essa sociedade trabalhava com metais como ouro,
prata e cobre, bem como pedra, madeira, ossos e
pedras preciosas. Na ourivesaria, os trabalhado
res usavam principalmente o ouro e o cobre. Eles
usavam o martelo para trabalhar com as joias,
convertendo o seu metal em coroas, brincos,
colares, cinturões etc.
Na cerâmica, a cultura Chavín caracterizou-se por produzir uma cerâmica negra e decorada
com desenhos em relevo. As esculturas eram feitas em pedras e tinham tamanhos monumentais,
em formatos de obeliscos, lanças ou representando
figuras humanas e deuses locais. A religião do povo
Chavín possuía uma divindade com formas felinas, como
um jaguar, fato que pode ser verificado em cerâmicas e esculturas com
essas características.
Mochicas e nasquenses
Antes da chegada dos incas na região andina, ela era habitada por povos
mochicas e nasquenses, que dominavam a arte têxtil, a produção de cerâmicas
e o trabalho com ouro e prata desde por volta do ano 300 a.C. Os mochicas se
encontravam entre os vales dos rios Moche e Chicama, na costa norte do Peru, pra
ticavam a agricultura e a pesca e tinham uma sociedade hierarquizada, na qual se
destacavam os sacerdotes e os guerreiros. Essa sociedade se destacou pela construção de grandes centros cerimoniais, o que incluía grandes pirâmides e templos.
Os nasquenses, membros da cultura Nasca, fundaram a cidade de Cachua
chi, que é considerada pelos arqueólogos como a primeira área urbana do território atual do Peru.
Essa sociedade era formada principalmente por guerreiros
e pescadores. Os nasquenses tinham muito conhecimento acerca da astronomia, reconhecendo os movimentos do Sol e de outros corpos celestes. A partir
dessas observações, eles puderam elaborar calendários e criar desenhos no
chão de dimensões enormes, idos como geóglifos. Essas obras ficaram
conhecidas como Linhas de Nasca.
Os incas
Os incas eram originários dos
povos quéchua, povos que vieram
da região do Lago Titicaca e falavam a língua quéchua. Os incas
submeteram os povos nasquenses e mochicas, de modo que,
no início do século XIV d.C., já dominavam uma vasta região,
que se estendia do território do atual Chile à Colômbia.
O termo inca designava apenas o governante do império.
Após a chegada dos espanhóis à América, “inca” passou a se
referir ao povo daquela região. Segundo o mito de fundação
do povo inca, dois personagens – Manco Cápac e sua esposa,
Mama Ocilla – receberam um sinal do Deus Sol para fundar
uma cidade que seria o centro de um grande império. O local
escolhido foi chamado de Cuzco (cujo nome significa “umbigo
do mundo"). No mapa é possível observar a extensão territorial do Império Inca.
No total, os incas dominaram uma região de mais de
5 200 quilômetros, na qual viviam aproximadamente 8 milhões de pessoas.
Cultura
Os incas foram o
primeiro povo conhecido a cultivar a batata.
Após a chegada dos europeus à América, o produto
espalhou-se pelos outros
continentes. Hoje, a batata é um dos alimentos mais consumidos no mundo.
O povo inca não desenvolveu um sistema
de escrita e sua cultura foi transmitida oral
mente. Para registrar informações, inventaram um sistema matemático chamado quipo,
usado para administrar e contabilizar as atividades comerciais. Com uma série de nós
agrupados em cordas, os incas calculavam o
estoque de alimentos, o pagamento de impostos
etc. Em cada cidade sob domínio do Império Inca, havia pessoas treinadas para
usar o quipo.
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