A Grécia antiga era formada por diversas cidades-Estado, cada uma com leis e governantes próprios. Mas o que unia os gregos? Além do compartilhamento da língua e da religião, a cultura grega baseava-se em histórias, mitos e poemas.
O modo de pensar dos filósofos gregos era marcado pelo questionamento e pela inquietação. Além disso, os gregos buscaram novas possibilidades de vida, navegaram pelos mares, fundaram cidades e conheceram novas culturas. A interação com outros grupos étnicos possibilitou uma série de descobertas intelectuais, artísticas e tecnológicas que transformaram o mundo mediterrâneo e influenciam as sociedades ocidentais até hoje.
Os deuses e a mitologia grega
Os gregos eram politeístas, ou seja, acreditavam na existência de deuses e deusas. Na religião grega, as divindades eram imortais e muito poderosas, mas, tal como os seres humanos, sentiam emoções – amor, raiva, ciúme, etc. – e tinham defeitos e qualidades.
De acordo com a mitologia, os deuses gregos viviam em um imenso palácio no Monte Olimpo, a montanha mais alta da Grécia. Dali, eles observavam os mortais e interferiam em suas vidas, ajudando-os ou prejudicando-os.
Estátua de bronze grega do século V a.C. representando ou Posêidon ou Zeus, dois dos principais deuses gregos. Atenas, Grécia.
Os mitos narram as aventuras de deuses, heróis, heroínas e outras criaturas mitológicas, como o Minotauro, e nos trazem informações importantes sobre o modo de vida dos gregos antigos, que compartilhavam essas narrativas entre si por gerações.
Hércules, um dos mais importantes heróis da Grécia. De acordo com o mito, ele era tão forte que matou um leão com as próprias mãos. Os heróis ou heroínas, como Hércules, Aquiles, Teseu, Édipo e Antígona, eram filhos de deuses com mortais ou personagens com feitos admiráveis.
Rituais e religiosidade
Cada cidade grega era protegida por um ou vários deuses e heróis, e templos e santuários eram construídos para homenageá-los.
Quando as pessoas precisavam da intervenção dos deuses, elas iam ao templo e ofereciam presentes, flores, comidas, bebidas e sacrificavam animais em troca de ajuda.
Geralmente, os templos eram construções imponentes, com estátuas e um altar ao ar livre. Muitos deles se beneficiavam do ambiente natural, que podia reforçar o poder de determinada divindade, segundo as crenças dos antigos gregos. Por exemplo, o templo em Sounion, dedicado a Posêidon, deus do mar, foi construído com uma vista incrível para o oceano.
Os festivais tinham grande importância na vida dos gregos. Realizados em homenagem a determinados deuses, incluíam procissões, sacrifícios e competições, além de concursos de poesia, teatro e atletismo.
Mulheres e cotidiano
A condição das mulheres variava nas diferentes pólis e de acordo com sua posição social (cidadãs, estrangeiras ou escravizadas). Na cidade de Gortina, na ilha de Creta, por exemplo, as mulheres tinham mais autonomia e podiam ter propriedades. Em Atenas, as mulheres livres não podiam participar das decisões políticas.
Em geral, as mulheres e as meninas das famílias ricas passavam boa parte do dia no gynaikon, o cômodo feminino da casa. Mas isso não significa que elas viviam isoladas ou que essa era a realidade de todas as mulheres. Estudos recentes mostram que as atividades femininas poderiam incluir o trabalho no comércio, como babás ou na colheita de uvas.
O cuidado com os parentes e os amigos e as obrigações religiosas (como a visita a sepulturas ou a organização de oferendas e rituais) eram tarefas femininas comuns e fundamentais para manter as tradições e os vínculos sociais. Mesmo assim, a imensa maioria das mulheres devia obediência aos pais e aos maridos e não era considerada cidadã.
Os Jogos Olímpicos
Os gregos amavam o esporte e organizavam as Olimpíadas, maior evento esportivo do calendário antigo. Os jogos eram dedicados a Zeus, o principal deus do Olimpo.
De acordo com a tradição grega, os jogos teriam começado em 776 a.C., em Olímpia, no sudoeste da Grécia. A cada quatro anos, cerca de 50 mil pessoas se deslocavam de todo o mundo grego para assistir às competições e participar delas.
As competições integravam as cidades-Estado e representavam a força e as habilidades humanas.
Apenas homens, meninos e meninas solteiras podiam assistir aos jogos. Mulheres casadas não participavam do evento.
Naquela época, não havia medalhas de ouro, prata ou bronze. Os vencedores recebiam uma coroa de folhas e eram recepcionados em suas cidades com grandes honrarias. Ao final, também acontecia uma grande festa, na qual eram realizadas apresentações artísticas e discursos políticos.
O teatro grego
O teatro, da forma como conhecemos hoje, é uma
invenção grega. Inicialmente era um ritual religioso organizado por populações rurais gregas, no qual um coro de
sátiros cantava em honra a Dioniso, deus do vinho.
No século VI a.C., esses rituais foram levados para
Atenas, inaugurando as Grandes Dionisíacas, festivais de
coros que disputavam competições. Os atenienses introduziram a representação de falas e atos de personagens
por meio de gestos e expressões faciais.
Os gregos eram amantes do teatro e, sempre que podiam, assistiam a novas apresentações. Os gêneros teatrais gregos eram a tragédia, a comédia e a sátira. As tramas envolviam deuses, heróis e problemas cotidianos. Os gregos viam suas vidas, angústias e atitudes refletidas nos palcos; por isso, o teatro fazia com que eles pensassem sobre diversos temas.
O principal gênero dos espetáculos teatrais gregos era
a tragédia. Sua narrativa centrava-se no conflito entre a
vontade humana, representada pelos heróis, e a vontade
divina, representada pelos deuses. As tramas envolviam
sofrimento e problemas que deveriam ser resolvidos
racionalmente e com base em valores compartilhados
pelos cidadãos. Os dramaturgos mais importantes foram
Eurípedes (autor de Medeia e As Bacantes), Ésquilo (autor
de Prometeu acorrentado) e Sófocles (autor de Antígona,
Édipo rei e Electra).
A comédia surgiu depois da tragédia. Ela provocava o riso, ridicularizando os vícios da população, dos governantes, dos artistas e até mesmo dos deuses. O grande
autor de comédias do século V a.C. foi Aristófanes (autor
de Assembleia de mulheres).
Quando iam ao teatro, os gregos
viam seus próprios conflitos representados no palco. Identificando-se com os personagens, rindo ou
sofrendo com eles, o público refletia
sobre suas próprias atitudes no dia a
dia. Por isso, o teatro era considerado
parte da educação dos gregos.
Com exceção dos escravos, todas
as pessoas podiam assistir aos espetáculos, mas nem todas podiam encená-los. As mulheres, por exemplo,
não atuavam nas peças. Os homens,
ao representar papéis femininos, usavam máscaras.
As peças eram encenadas apenas por homens, que vestiam máscaras, perucas e diferentes trajes para retratar seus personagens. As mulheres, porém, também podiam assistir aos espetáculos.
Os principais dramaturgos gregos foram Sófocles, autor de Antígona, Édipo rei e Electra, e Eurípedes, que escreveu Medeia e As Bacantes.
A literatura grega
A difusão da escrita entre os gregos propiciou o desenvolvimento da literatura.
Entre os gêneros literários apreciados pelos antigos gregos estavam a poesia e o
drama. Os poemas tratavam de diversos assuntos, principalmente os ligados aos
relacionamentos humanos e ao cotidiano.
Um dos tipos de poema mais difundidos era a epopeia, longa narrativa em versos que apresenta a saga de um herói. As principais epopeias gregas são a Ilíada
e a Odisseia, atribuídas a Homero (928-898 a.C.).
O drama, gênero de composição teatral,
também era difundido. A tragédia e a comédia eram os dois principais tipos de drama. A
tragédia era utilizada geralmente para descrever grandes aventuras e episódios trágicos
da vida dos heróis. A comédia, por sua vez,
servia para satirizar as fraquezas humanas,
além de ser um importante veículo de crítica
social. As comédias geralmente eram escritas
para encenação nos teatros.
As fábulas
Havia também a fábula, muito popular
entre os gregos. As fábulas são pequenas
histórias que geralmente têm animais entre os personagens e apresentam ensina
mentos sobre como agir em diferentes situações cotidianas. Um dos maiores mestres nesse gênero foi Esopo, que viveu no
século VI a.C. e era bastante conhecido
por suas histórias na Grécia antiga.
ESCULTURA E ARQUITETURA
A escultura é, sem dúvida, a mais conhecida e
estudada manifestação artística grega. As primeiras
esculturas começaram a ser produzidas em grande
quantidade com o surgimento das poleis. Eram feitas
de pedra, e suas formas rígidas se pareciam com as
das antigas esculturas egípcias. O tema mais importante representado nas esculturas era o corpo humano,
principalmente o masculino.
Com o passar do tempo, os artistas gregos começaram a representar as formas humanas da maneira mais
realista possível. Passaram a usar o bronze e o mármore,
materiais que permitiam criar superfícies mais lisas e com
grande riqueza de detalhes. As estátuas passaram a dar a
impressão de movimento, e as curvas tornaram-se mais
suaves. A intenção era criar obras que tivessem as mesmas proporções do corpo humano.
Escultura que representa Sócrates. Academia de Atenas, Grécia, 2020.
Os templos da Grécia Antiga, dos quais restaram muitos vestígios, abrigavam a
estátua de um deus e serviam como moradia terrena para a divindade. Os templos
não eram locais de culto, pois as orações e os sacrifícios eram feitos nos altares,
que normalmente ficavam do lado de fora do edifício. Por isso, essas construções
eram concebidas para serem vistas do exterior, provocando grande impacto por
sua beleza e pelo equilíbrio de suas formas.
Segundo o historiador da arte Ernst Gombrich, uma das principais características
dos templos gregos eram suas dimensões humanas. Embora fossem imponentes,
eles não faziam os homens se sentirem minúsculos ao seu lado.
Ruínas do Partenon, em Atenas,
na Grécia. O Partenon, erguido em
homenagem à deusa Atena, foi
construído no século V a.C.
Como nos demais templos
gregos, somente os
sacerdotes
tinham acesso
ao seu interior.
O PENSAMENTO FILOSÓFICO E AS CIÊNCIAS
Ao fundar colônias em todo o Mediterrâneo e estabelecer relações comerciais com regiões distantes, os
gregos entraram em contato com povos e culturas muito
diferentes da sua. Assim, confrontaram as diferentes
maneiras de cada povo ver, compreender e explicar o
mundo, e passaram a questionar a validade de suas próprias explicações.
Com esses questionamentos, e possivelmente inspirados no que tinham aprendido com outros povos, os
gregos passaram a buscar respostas às questões sobre o
mundo e a vida na observação da realidade, e não apenas
nas explicações míticas. Essa vontade de conhecer o
mundo por meio da razão humana fez surgir importantes
filósofos. Em grego, filosofia quer dizer amor (phílos) à
sabedoria (sophía).
O surgimento da filosofia entre os gregos não significa
que eles tenham abandonado seus mitos e deuses. Filosofia e religião conviveram por muito tempo na Grécia Antiga.
Os principais filósofos gregos
Foi na cidade de Atenas, nos séculos V a.C. e IV a.C., que Sócrates, Platão e
Aristóteles, os três principais filósofos gregos, elaboraram ideias que até hoje estão
presentes no pensamento ocidental.
Sócrates (470-399 a.C.) afirmava que o ser humano só poderia compreender o
mundo se admitisse que nada sabia.
Para estimular o autoconhecimento, Sócrates
saía às ruas e praças de Atenas questionando os que acreditavam conhecer a verdade com diversas perguntas (O que é a justiça? O que é o belo? O que é o amor?).
Ao ouvir as respostas que esses sábios davam, Sócrates concluiu que eles não tinham o conhecimento que afirmavam ter.
Sócrates não deixou nada escrito, e tudo que sabemos sobre ele chegou até nós
por meio de seus discípulos, especialmente Platão (427-347 a.C.). Além de difundir o
pensamento de Sócrates, Platão formulou suas próprias ideias. Para ele, os sentidos
(visão, audição etc.) captam apenas a aparência das coisas, aquilo que pode ser visto,
ouvido ou tocado. Mas a essência das coisas, aquilo que elas verdadeiramente são,
só pode ser alcançada pelo conhecimento verdadeiro, pela evolução da alma.
Outro importante filósofo foi Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão.
Ele afirmava que, para conhecer a realidade, era preciso formular um pensamento
correto, que chegasse a conclusões coerentes. Com isso, Aristóteles desenvolveu
a lógica, área da filosofia que trata das leis gerais do pensamento.
A filosofia aristotélica tornou-se famosa pelos estudos de botânica, física, literatura e política. As obras de Aristóteles influenciaram os pensamentos cristão e
árabe, e suas teorias sobre a política e a literatura ainda hoje são muito discutidas.
História e medicina
O desenvolvimento do pensamento racional, a partir do século VI a.C., também
influenciou o modo como os gregos narravam os acontecimentos que envolviam
as poleis gregas. A tentativa de construir uma narrativa dos fatos sem recorrer a
deuses, heróis e mitos marcou o nascimento da história (palavra grega que significa pesquisa, investigação).
A primeira obra historiográfica de que se tem notícia é de autoria de Heródoto
(484-425 a.C.), natural da cidade grega de Halicarnasso. Sua obra História narra os
acontecimentos das guerras entre gregos e persas, que terminaram cinco anos
antes de seu nascimento.
Ou seja, o livro apresenta fatos que ele não testemunhou, mas investigou, procurando reconstituí-los. Para tanto, viajou por diversos
lugares, como a península Itálica, o Egito e o Império Persa, e registrou muitas
observações e depoimentos sobre os diferentes povos que conheceu.
Outro campo científico desenvolvido pelos gregos antigos foi o conhecimento
sobre o corpo humano e as doenças, que mais tarde daria origem à medicina. Um dos
pensadores que mais se destacaram nessa área foi Hipócrates (460-380 a.C.). Ele afirmava que as causas das diversas doenças eram naturais, e não sagradas ou mágicas.
Hipócrates foi o primeiro a descrever, por exemplo, a epilepsia (doença até então
considerada sobrenatural) como resultado de um mau funcionamento do cérebro
humano. Ele estabeleceu um critério médico quase inteiramente racional e baseado
na observação dos sintomas, que indicariam o diagnóstico e o tratamento adequados.
A PINTURA NOS VASOS GREGOS
Os vasos gregos são importantes fontes de pesquisa para os historiadores. Muitos valores, costumes domésticos e crenças dos antigos gregos são conhecidos hoje graças aos estudos sobre o uso desses objetos. As pinturas feitas nesses vasos permitem ainda conhecer mitos, tipos de vestimentas e de adornos, cultivos, além de estilos de pintura.
As pinturas gregas em vasos de cerâmica (usados para armazenar e transportar alimentos) são obras de valor artístico e, ao mesmo tempo, importantes fontes para o estudo
dos antigos gregos. Elas geralmente retratam cenas mitológicas ou do dia a dia (esporte, amor, trabalho etc.).
Entre as técnicas de pintura criadas pelos gregos, duas são mais conhecidas: a técnica de figuras negras e a de figuras vermelhas.
Os vasos podiam servir para transportar vinho, água, grãos e outros produtos. A cerâmica apresentada a seguir, por exemplo, é um stamnos, vaso geralmente utilizado em grandes festas para misturar o vinho com a água
Ulisses e as sereias. c. 480-470 a.C. Stamnos (vaso em cerâmica) com figuras vermelhas. Museu Britânico, Londres, Inglaterra.
A cena mostrada na pintura representa um episódio da Odisseia, poema que conta a história da volta do herói Ulisses para sua terra natal após participar de uma guerra.
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