A língua, a religião e os costumes dos judeus da atualidade têm sua origem nos antigos hebreus. O povo hebreu era formado por comunidades de agricultores e pastores que habitavam a região de Ur, na Mesopotâmia, há cerca de 4 mil anos.
Essas comunidades eram compostas de famílias patriarcais, em que a figura masculina era o chefe da família. Cabia ao patriarca assumir as principais responsabilidades
e decisões, exercendo funções políticas e religiosas.
Quase não há esculturas, sarcófagos, pinturas, templos ou outras
fontes para pesquisar a história
dos hebreus; por isso, a Bíblia é a
principal fonte de estudo sobre
esse povo. Como a Bíblia é uma
narrativa religiosa escrita por
muitas mãos, é um desafio permanente para os pesquisadores
separar o que é narrativa religiosa
do que é evidência histórica.
Em busca da Terra Prometida
Segundo a Bíblia, os hebreus viviam do pastoreio nas proximidades da cidade de Ur, na Mesopotâmia. Por volta de 1800 a.C., eles deixaram Ur, guiados por Abraão e partiram em busca de água e boas pastagens. Depois de uma longa caminhada, chegaram a Canaã, região cortada pelo Rio Jordão. Após disputarem território com outros povos que ali viviam, fixaram-se na chamada Terra Prometida, território que, atualmente, corresponde à Palestina.
Diversas famílias o seguiram e se estabeleceram na região, vivendo do cultivo de
trigo, cevada, pepinos, uvas e figos, além da criação de animais, como ovelhas e
cabras.
Para alguns especialistas, os hebreus teriam saído da Mesopotâmia por volta de 1900 a.C. Outros acreditam que essa migração teria acontecido cinco séculos mais tarde. No entanto, depois de um período de seca e fome na região, por volta de
1600 a.C., os hebreus tiveram de procurar novos territórios.
A vida na Palestina
A Palestina está situada em uma região quente, semiárida e pobre em metais e madeiras. Na região, chovia pouco e raramente.
Nas terras férteis do vale do Rio Jordão, os hebreus cultivavam trigo, cevada, vinhas, figueiras, romãzeiras e oliveiras; e criavam abelhas para produzir o mel. Nas colinas e
montanhas, viviam principalmente do pastoreio, levando e trazendo ovelhas e cabras, das quais extraíam leite, carne e lã.
Os hebreus, inicialmente, viviam em pequenos grupos nômades e semi-nômades que eram liderados por um patriarca.
Essa sociedade se caracterizava por adorar apenas uma divindade, colocando-a acima de todas as outras, o que gerou, mais tarde, o monoteísmo, ou seja, a crença em uma divindade única.
Por muitas gerações, o povo
hebreu manteve-se organizado
em clãs, grupos de famílias que
acreditavam ter um ancestral
comum. Nos clãs, os patriarcas tinham funções religiosas, políticas
e militares.
De acordo com a Bíblia, Abraão foi o primeiro patriarca e teve um filho chamado Isaac, que liderou os hebreus após a morte do pai, e foi sucedido por Jacó, que teve 12 descendentes, originando as 12 tribos de Israel. Com o tempo, a seca obrigou um grupo de hebreus, que estavam sob a liderança de Abraão, a migrarem para o Egito, onde foram escravizados.
Abraão recebe a promessa. Século II.
Afresco. Museu Nacional de
Damasco, Damasco, Síria. Esta
pintura mural foi encontrada na
Sinagoga de Dura-Europos, na Síria.
A sinagoga, fundada por volta de
300 a.C., é uma das mais antigas e
um importante exemplo da arte
judaica na Antiguidade.
Só uma pequena parte da população vivia em cidades. As cidades hebreias, como Jerusalém e Jericó, eram pequenas e tinham cerca de três a quatro mil habitantes; cada cidade era governada por um rei que residia em seu palácio, rodeado de guardas, servidores e artesãos (carpinteiros, oleiros e ceramistas). Nessas cidades viviam também mercadores que faziam comércio interno e também com os povos vizinhos.
Os hebreus e os Dez Mandamentos
Segundo a Bíblia, por volta de 1700 a.C., um longo período de seca e fome obrigou os hebreus a emigrarem de Canaã para o Egito que, na época, estava sob o domínio dos hicsos. Enquanto durou essa dominação, os hebreus viveram em liberdade. Mas, após a expulsão dos hicsos, por volta de 1550 a.C., os hebreus foram escravizados pelos egípcios que os acusavam de terem colaborado com os invasores.
Depois de um longo cativeiro, os hebreus se revoltaram e, por volta de 1250 a.C., saíram do Egito de volta para Canaã, liderados por Moisés. Eles caminharam pelo deserto por 40 anos e, em meio a essa longa viagem, conhecida como Êxodo, Deus entregou a Moisés, no Monte Sinai, duas tábuas contendo os Dez Mandamentos, o código de leis do povo hebreu.
A disputa pela Terra Prometida
Ao chegar a Canaã, os hebreus encontraram outros povos e, então, decidiram lutar para reconquistá-la. Como, na época, estavam divididos em 12 tribos, eles escolheram chefes militares, políticos e religiosos, os juízes, para comandá-los.
Josué, sucessor de Moisés, foi o primeiro juiz hebreu e iniciou a luta pela reconquista do território, começando pela cidade de Jericó. Depois dele, dois outros juízes se destacaram: Sansão e Samuel. Na época de Sansão, os principais adversários dos hebreus eram os filisteus.
Conta a Bíblia que, para enfrentar Sansão, os filisteus usaram Dalila, uma filisteia por quem ele havia se apaixonado. Dalila descobriu que a força de Sansão estava no cabelo e o fez adormecer em seu colo; chamou então um homem que cortou o cabelo de Sansão. Sem forças, Sansão teve os olhos perfurados e foi escravizado pelos filisteus.
Os hebreus, liderados pelos
juízes, se envolveram em conflitos com os filisteus (que agora ocupavam a Palestina). Durante uma das guerras, os hebreus decidiram reunir as suas 12 tribos e proclamaram Saul como rei, formando o reino de Israel.
Depois de Saul, destacaram-se os reis Davi e Salomão.
A fundação do Reino de Israel
Os hebreus chegaram a Canaã por volta de 1200 a.C. e encontraram a região ocupada por povos como cananeus e filisteus.
Após anos de conflitos, em 1030 a.C., os hebreus fundaram o Reino de Israel, unificando as diversas comunidades hebraicas sob o comando de um rei. Um dos reis mais
conhecidos foi Davi, que derrotou os filisteus e conquistou a cidade de Jerusalém.
A partir de então, os hebreus passaram por um período de prosperidade, mantendo relações comerciais com os povos árabes e africanos e realizando grandes
obras, como sistemas de irrigação e o Templo de Salomão, em Jerusalém, capital
do Reino de Israel.
Essas obras mobilizaram muitos trabalhadores livres e escravizados. Além disso, seus altos
custos geraram grande aumento
dos impostos.
Davi conquistou a cidade de Jerusalém, tornando-a capital de Israel. Ele foi sucedido pelo seu filho, Salomão, cujo reinado foi marcado por um período de estabilidade.
Depois da sua morte, as disputas pelo trono levaram à formação de dois reinos: Judá e Israel. Essa divisão tornou esses reinos vulneráveis aos ataques estrangeiros, sofrendo ataques dos assírios e dos babilônicos. Jerusalém foi devastada pelo exército babilônico, o que resultou no fim do reino de Judá e no aprisionamento de um grupo de hebreus, que foi levado à força para a Babilônia e escravizado.
A divisão dos hebreus
Com a morte de Salomão, em 932 a.C., iniciou-se um período de instabilidade. Roboão, o novo rei, manteve a cobrança de altos impostos, provocando insatisfação popular e conflitos que levaram à divisão do reino.
Ao norte se formou o Reino de Israel, situado ao norte e formado por dez tribos, com capital em Siquém (depois mudada para Samaria); e Reino de Judá, localizado ao sul e composto por duas tribos, com capital em Jerusalém. Com essa divisão política, enfraquecidos, os hebreus sofreram sucessivas invasões e dominações de povos estrangeiros.
Divididos, os hebreus não resistiram aos seus poderosos vizinhos. O Reino de Judá conseguiu sobreviver até 587 a.C., quando foi dominado pelos babilônios, que levaram os hebreus como prisioneiros para a Babilônia. Na Bíblia, esse episódio foi chamado de Cativeiro da Babilônia e é visto como um castigo de Deus, por causa da corrupção e da ganância dos líderes hebreus.
Esse cativeiro dos hebreus durou até 539 a.C., quando os persas conquistaram a Babilônia e permitiram a volta dos hebreus.
Os persas, povos liderados por Ciro, que eram provenientes da região em que hoje se localiza o Irã, conquistaram o Império Babilônico. Sob o domínio dos persas, os hebreus foram libertados, voltaram para a região de Judá e retomaram os seus cultos ancestrais.
Posteriormente, os hebreus foram dominados por outros povos, inclusive os romanos.
Os judeus se revoltaram contra a dominação romana por duas vezes. A primeira revolta durou de 66 a 70 d.C. e a segunda, de 132 a 135 d.C. Nessas duas ocasiões, foram duramente reprimidos pelos romanos. Diante disso, os judeus se dispersaram pelo mundo, episódio conhecido como Diáspora judaica.
O judaísmo
Mesmo dispersos, os judeus mantiveram-se em comunidades, fiéis aos seus hábitos e suas tradições. Eles passaram a se reunir em sinagogas, locais de oração, de culto e de convívio comunitário. Enquanto a maioria dos povos da Antiguidade acreditava na existência de vários deuses sendo, portanto, politeístas, os hebreus desenvolveram o monoteísmo ético.
Os hebreus acreditavam também que Deus os escolheu para servir de exemplo à humanidade e lhes revelou sua lei por meio da Torá (livro sagrado). Essa religião criada pelos hebreus e praticada por seus descendentes (os judeus) é chamada de judaísmo.
O judaísmo influencia diretamente o dia a dia dos seus seguidores. Exemplos disso são o uso do quipá (um gorro que cobre a cabeça em reconhecimento da presença divina) e a realização de cerimônias como a Bar Mitzvá, que marca a iniciação dos meninos na leitura da Torá, e a Bat Mitzvá, cerimônia equivalente para as meninas.
O monoteísmo hebraico
Diferentemente dos demais povos do Oriente na Antiguidade, os hebreus eram monoteístas, ou
seja, acreditavam na existência de um Deus único, Yahweh. A base de sua crença estava na Torá, os
cinco primeiros livros da Bíblia, que contêm os 613 mandamentos para a vida judaica.
Entre eles
estão os Dez Mandamentos, que são considerados uma síntese das leis de Deus. Os mandamentos
da Torá abrangiam praticamente todos os aspectos da vida dos hebreus, como a família, o trabalho,
a alimentação e as obrigações religiosas.
A Torá
Muitas informações sobre a história do povo
hebreu ficaram conhecidas por meio da Torá,
obra sagrada para os judeus. Trata-se de um conjunto de cinco livros — Gênesis, Êxodo, Levítico,
Números e Deuteronômio —, que também fazem
parte do Velho Testamento da Bíblia cristã. A Torá
reúne 613 mandamentos, que devem ser seguidos
pelos judeus.
A religião judaica
A religião judaica é uma das religiões monoteístas mais antigas das quais temos
conhecimento. Segundo a Torá, Javé criou o Universo e tudo o que há nele, sendo
considerado um ser perfeito. Esse deus não pode ser representado em pinturas ou
esculturas, pois o culto a imagens é negado por um dos Dez Mandamentos.
É considerado judeu aquele que é filho de uma mulher judia. Também é possível
uma pessoa se converter ao judaísmo, mas, para isso, ela deve passar pelos critérios de avaliação das autoridades religiosas judaicas.
Verifique a seguir alguns símbolos da religião judaica.
Estrela de Davi
A estrela de Davi, composta de dois
triângulos entrecruzados, é um dos
símbolos mais antigos da cultura judaica. Ela também é conhecida como
escudo de Davi, que foi um dos reis
de Israel.
Menorá
Antigo símbolo judaico derivado
do candelabro sagrado feito de ouro
e que originalmente ficava no Templo
de Salomão. A Menorá representa o
centro do qual a espiritualidade é irradiada para o mundo.
Muro das Lamentações
De acordo com a tradição judaica, o Muro das Lamentações é parte do que
restou do Templo de Salomão, após ser destruído pelos romanos no século I.
Trata-se de um lugar sagrado para os judeus, atraindo peregrinos até os dias
atuais. Ao visitar o local, os judeus fazem orações e depositam pedaços de papel
com seus pedidos nos vãos do muro.
Menino judeu orando no Muro das Lamentações, um vestígio do que se acredita ser as ruínas do Templo de Jerusalém. Israel, 2015.
As celebrações judaicas
Grande parte dos seguidores da religião judaica procura manter vivas suas tradições e sua história, promovendo-as por meio de símbolos, celebrações e rituais característicos do judaísmo. Esses elementos foram, portanto, essenciais para construir
uma forte identidade em torno dessa religião ao longo do tempo. Mesmo depois que
os judeus se dispersaram pelo mundo, a identidade religiosa desse povo contribuiu
para a manutenção de sua cultura.
Conheça algumas das celebrações da religião judaica.
Pessach
Também conhecida como Festa da Libertação, celebra a fuga
dos hebreus do Egito de volta
para Canaã. Durante os sete dias
da Pessach, os judeus devem consumir um pão fino e sem fermento chamado matzá. Segundo
a tradição judaica, um pão semelhante a esse foi consumido pelos
hebreus ao fugirem do Egito.
Yom Kippur
É a data mais importante para
a religião judaica, considerada o
Dia do Perdão. Essa data é celebrada entre setembro e outubro.
No Yom Kippur, os judeus se de
dicam às orações e ao jejum
para demonstrar o arrependimento por suas falhas e para buscar o
perdão divino.
Bar Mitzvah e Bat Mitzvah
Ao completar 13 anos de idade, os garotos judeus participam da cerimônia do
Bar Mitzvah, que marca a passagem deles para a maioridade religiosa. A partir do
século XIX, teve início também a cerimônia do Bat Mitzvah, que marca essa passagem entre as garotas judias.
Chanucá
Também conhecida como Festival das Luzes, a Chanucá (ou Hanuká) é uma celebração judaica que ocorre todos os anos, durante oito dias no mês de dezembro. A
palavra em hebraico significa “dedicação” ou “inauguração”.
Durante o Festival das Luzes, a cada noite é acesa uma vela da chanukiá, um candelabro especial para essa festa, que tem nove pontas. A vela do meio, a principal, é
a primeira a ser acesa.
Os judeus também fazem festas para relembrar passagens de sua história e manter vivas a memória e as tradições judaicas. Conheça algumas delas.
Shabat (Dia do Descanso); existe para lembrar o trecho da Torá que diz que Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo, descansou. O Shabat começa na sexta-feira, com o pôr-do-sol, e termina no início da noite de sábado.
Pessach ou Páscoa judaica é uma festa que comemora a libertação dos hebreus que viviam como escravizados no Egito e o retorno deles para a Terra Prometida.
Atualmente, essa festa é comemorada por judeus do mundo todo. A comemoração inclui um jantar em que se lê trechos da história dos hebreus e os jovens questionam os adultos sobre o significado da liberdade.
Shavout comemora a entrega da Torá a Moisés no Monte Sinai; isso, segundo a Torá, ocorreu sete semanas após os hebreus terem deixado o Egito. Daí o Shavout ser conhecido também como Festa das Semanas.
Rosh Hashaná é a comemoração do Ano Novo. A festa inclui reuniões familiares nas quais se come alimentos especiais, como a maçã com mel, a fim de “adoçar” o novo ano.
Yom Kippur (Dia do Perdão) é o dia mais sagrado do calendário judaico. Dia de jejum, orações e arrependimento pelos pecados cometidos. Dia em que se pede perdão pelas promessas feitas a Deus e não cumpridas. O Yom Kippur ocorre dez dias após o Ano Novo.
O judaísmo foi a principal fonte do cristianismo.
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