No passado, os territórios onde hoje são o Peru, o México, a Bolívia, a Guatemala e o Chile eram habitados por grandes civilizações, com destaque para as sociedades maia, asteca e inca. Esses povos foram responsáveis pela domesticação de muitos alimentos consumidos no presente e pelo início da criação de animais como a lhama. Eles também elaboraram sofisticados conhecimentos técnicos e desenvolveram Estados que abrigavam milhões de pessoas.
Algumas dessas civilizações estavam no auge quando os europeus chega ram na América, no final do século XV, o que provocou a desestruturação des sas sociedades, além de resultar na morte de milhões de pessoas. Ainda assim, a cultura que elas criaram permanece viva e é um dos elementos centrais para entender como vivem muitos povos americanos no presente.
MODOS DE VIDA NA AMÉRICA:
MESOAMÉRICA E ANDES
Grande parte dos historiadores acredita que as mais antigas cidades da América formaram-se em torno de grandes centros cerimoniais, nas regiões da Mesoamérica e dos Andes.
Há pelo menos 5 mil anos, já existiam ali sociedades organizadas em cidades, nas quais o
poder estava centralizado nas mãos de governantes. Nelas, havia especialização do trabalho
e atividade comercial.
Os primeiros centros cerimoniais da Mesoamérica surgiram nas áreas próximas à costa do
Golfo do México por volta do ano 1200 a.C. Seus fundadores foram os olmecas. Os centros
olmecas exerceram sua influência na região até por volta de 400 a.C. Nesses centros, artesãos
produziam estatuetas e cerâmicas de uso cerimonial que foram encontradas ou copiadas
em muitas outras regiões da Mesoamérica.
Quando o domínio olmeca e de seu principal centro político, La Venta, entrou em colapso
na Mesoamérica, os zapotecas, culturalmente próximos dos olmecas, começaram a construir
seus centros político-cerimoniais. O principal deles foi Monte Albán. O sítio arqueológico em
que estão os seus vestígios, situado no Vale de Oaxaca, no México, é considerado Patrimônio
Mundial pela Unesco.
Monte Albán, além das construções típicas dos centros cerimoniais, como praças, templos e
pirâmides, contava também com áreas de residência permanente das elites dirigentes e com
bairros onde eram realizados trabalhos especializados, como a fabricação de certos produtos.
Em Monte Albán foram encontrados alguns dos mais antigos vestígios de escrita das
Américas. São grafismos inscritos em monumentos de pedra, relacionados possivelmente
a rituais religiosos, que datam de aproximadamente 500 a.C.
Contudo, os pesquisadores acreditam que a escrita zapoteca pode ser ainda mais antiga,
pois provavelmente também foram usados outros suportes para ela, como madeira ou peles
de animal, que não foram preservados pelo tempo. De acordo com arqueólogos, essa escrita
seria usada para diferentes fins religiosos e administrativos, e apenas membros privilegiados
daquela sociedade a dominariam.
Astecas, maias e incas
Em diversas partes da América, formaram-se sociedades marcadas pela exis tência de excedente agrícola, que tornou possível a prática do comércio, a forma ção de cidades complexas e variadas, o desenvolvimento de sistemas de escrita e de numeração, além de de técnicas de cerâmica, de metalurgia e tecelagem.
Três importantes sociedades que se desenvolveram segundo esse modo de organização social foram os astecas e os maias, que ocuparam regiões da América do Norte e da América Central, e os incas, na América do Sul. Porém, é importante ressaltar que esses três povos não foram os únicos que desenvolveram técnicas agrícolas. Em outras regiões da América, como na amazônica, também surgiram importantes sociedades agricultoras.
Os maias
O povo maia habitava territórios hoje situados no México, Belize, Guatemala, El Salvador e Honduras. Seus antepassados provavelmente chegaram à
América Central por volta de 1500 a.C. O auge dessa civilização estendeu-se
de 250 até o ano 900 da era cristã.
Ao longo do processo de sedentarização, os maias aprenderam a praticar a
agricultura, cultivando gêneros como milho, feijão, abóbora, tomate, algodão e
cacau, e criaram animais de pequeno porte. Também desenvolveram sistemas
de irrigação, levando o excesso de água de regiões alagadas para as mais secas
por meio de canais. Eles confeccionavam peças de cerâmica, faziam joias, ar
mas e estatuetas de ouro, cobre e pedras preciosas e praticavam comércio com
povos vizinhos.
Os maias estabeleceram rotas comerciais que percorriam diversas regiões da
América Central e América do Norte, conseguindo assim controlar o abastecimento
de importantes matérias-primas na região.
Esse fator teve grande importância no enriquecimento das cidades maias, especial
mente entre os séculos VII e X.
Cada cidade maia tinha governo, economia, leis e exército próprios, o que as caracterizava como cidades-Estado. Os reis
maias eram muito poderosos, dirigiam a
política interna e externa e eram auxiliados
por um Conselho de Estado.
Os maias viviam em cidades governadas por chefes com poder hereditário. O chefe de
cada cidade exercia funções políticas e religiosas, e era auxiliado por um conselho composto
de líderes tribais, nobres guerreiros e sacerdotes. Esse grupo formava a elite maia e detinha a
posse das terras. Quem cultivava essas terras eram os camponeses, que viviam em moradias
rústicas e tinham direito apenas a uma parte do que produziam.
Essa sociedade hierarquizada pode ter sido, segundo muitos estudiosos, resultado da
influência do povo olmeca, que se relacionou com os maias principalmente por meio de
trocas comerciais. As relações comerciais também ocorriam entre as várias cidades maias.
O principal produto comercializado era o tecido.
Embora o comércio fosse uma atividade econômica bastante importante, a agricultura
constituía a base da economia maia. O principal produto cultivado era o milho, tão relevante
que, segundo os mitos maias, foi utilizado pelos deuses como matéria-prima para criar o
homem. Os maias também produziam cacau, algodão, feijão, pimenta, abóbora, mamão e
abacate. Além disso, criavam cães (para a caça e a alimentação), perus e abelhas, e praticavam a pesca.
O conjunto arquitetônico maia é bastante exuberante e revela a relação entre arte, astronomia e religião. Além disso, grandes templos e palácios eram construídos para inspirar
respeito e admiração.
Templo dos Guerreiros, no sítio arqueológico da cidade maia de Chichén Itzá, na Península de Yucatán, no México
Cultura maia
Desde o início da história maia, os sacerdotes procuravam
entender os movimentos dos corpos celestes como uma forma
de explicar os desígnios dos deuses. Por isso, os sacerdotes
maias também eram matemáticos e astrônomos.
Os maias desenvolveram estudos de
Astronomia e Matemática que os ajudaram nas práticas agrícolas. Construíram
templos e pirâmides e criaram um calendário solar e um sistema de escrita hieroglífica e ideográfica.
Em relação ao desenvolvimento dos conhecimentos ma
temáticos, os maias criaram um símbolo para representar o
zero e o utilizavam em cálculos. Além disso, eles conheciam
os movimentos do Sol, da Lua e de Vênus e os eclipses solares
e lunares; e criaram dois calendários, que utilizavam simultaneamente: um sagrado, de 260 dias (astrológico), e outro
não religioso, de 365 dias (solar).
Graças a esses calendários,
os sacerdotes conseguiam indicar as épocas propícias para o
preparo do campo, a semeadura e a colheita.
A religião maia era politeísta e seus deuses representavam forças
da natureza. Em troca de proteção e boas colheitas, os maias ofereciam jejuns, preces, danças rituais e sacrifícios humanos aos deuses.
As cerimônias religiosas eram realizadas no alto das pirâmides, e o
povo assistia a elas do chão.
Enfraquecimento político
Os maias construíram e mantiveram suas cidades até aproximadamente o ano 900, quando começaram a entrar em declínio. Não se sabe ao certo o motivo desse processo, mas há
algumas hipóteses, como o surgimento de epidemias, guerras
internas e invasões de outros povos.
Estudos recentes sugerem, ainda, que esse declínio pode
estar relacionado a causas ambientais. O uso de técnicas agrí
colas rudimentares teria levado ao esgotamento do solo, o que
diminuiu a produtividade das lavouras e, consequentemente,
a oferta de alimentos.
Outro estudo aponta uma prolongada estiagem como a
causa do declínio dessas cidades. Muitas delas, como Tikal,
foram planejadas para armazenar água da chuva para uma
população de até 10 mil habitantes por um período de 18 meses. O longo período de seca restringiu o acesso da população
à água e, assim, teria contribuído para diminuir a autoridade
dos governantes das cidades.
Antes da conquista europeia, a sociedade maia já estava enfraquecida, talvez pela falta de unidade política e pelas rivalidades entre as
cidades-Estado. A situação foi agravada por furacões, epidemias, empobrecimento da população e enfraquecimento das crenças. Apenas a península de Iucatán escapou a esse declínio. Em 1523, o espanhol Pedro
de Alvarado, vindo do México, dominou os maias.
Os maias nos dias de hoje
O declínio das cidades, porém, não significou, como muitos
acreditam, o fim dos maias. Atualmente, mais de 6 milhões de
indígenas de grupos linguísticos maias estão distribuídos por
regiões do México, de Belize, de Honduras e, principalmente,
da Guatemala, onde vive a maior parte deles.
As etnias indígenas de origem maia mantiveram os mitos
e as tradições do seu passado pré-colombiano, renovando-os
com crenças e práticas religiosas incorporadas do cristianismo.
Entre as principais atividades econômicas dos gru
pos remanescentes maias,
estão o cultivo do milho e
do feijão e a produção de
artesanato.
Povos andinos
Os mais antigos centros políticos e cerimoniais dos Andes,
com edifícios monumentais em pedra, foram construídos
na costa desértica do centro e do norte do atual Peru. Nesses
centros, havia pirâmides, plataformas, praças e conjuntos
residenciais habitados pelas elites dirigentes.
A antiguidade desses locais tem surpreendido os estudiosos, especialmente Caral, centro político urbano datado de
aproximadamente 2500 a.C. O sítio
arqueológico de Caral abriga seis pirâmides, um anfiteatro circular e um setor
residencial, além de canais de irrigação.
As escavações no local indicaram que
havia plantações de goiaba, ají (um tipo
de pimenta), abóbora, feijão e abacate.
Foi possível concluir, também, que seus
habitantes consumiam peixes e mariscos, vindos do litoral.
Um dado que intriga os arqueólogos
é o fato de não terem sido encontrados,
no sítio de Caral, objetos de cerâmica
para armazenamento ou cozimento
de alimentos. Para eles, isso indica que,
naquela sociedade, a produção e o armazenamento de alimentos não eram
feitos em grande escala, e que as trocas
comerciais feitas com cidades próximas
eram tão importantes para a economia
como a atividade agrícola.
Chavín de Huantar
Chavín de Huantar foi um importante centro político-cerimonial surgido nas terras altas da Cordilheira dos Andes, por
volta do ano 1000 a.C. Situado a aproximadamente 3 mil metros
de altitude, próximo à região amazônica, o centro da cultura
chavín apresenta muitas características comuns a outros centros políticos da costa desértica do Peru, como arquitetura
monumental, pirâmides, praças e pátios afundados.
A monumentalidade de suas construções supera a de outros
núcleos da região, o que demonstra sua relevância política.
Além disso, a cerâmica desenvolvida pela primeira vez em
Chavín de Huantar foi copiada por outros povos dos Andes
Centrais, o que revela sua influência cultural.
Por volta do ano 300 a.C., Chavín de Huantar entrou em
colapso. Segundo alguns especialistas, é provável que um
longo período de guerras entre diversos povos andinos tenha
desarticulado as rotas de comércio que existiam na região e
levado os chavíns a contestar a autoridade de seus principais
líderes, os sacerdotes, favorecendo o declínio desse centro
político-cerimonial.
Vaso chavín. c. 200 a.C. Cerâmica.
Museu do Banco Central de
Reserva, Lima, Peru. De maneira
geral, os chavíns representavam
animais predadores em suas
imagens. Os estudiosos acreditam
que esses símbolos estão
relacionados aos governantes e às
elites dirigentes locais.
Os astecas
Os astecas eram um povo que migrou de regiões norte-americanas e foi ocupando
a região conhecida como Vale do México, entre os séculos XII e XIII. Também chamados de mexicas (de onde deriva o nome “México”), eles falavam o nahuatl, que é a
língua indígena mais falada hoje nesse país, mesmo após ter passado por transformações.
O povo asteca fundaram sua capital, Tenochtitlán,
que encantou os espanhóis com
sua beleza e seu planejamento. Entre os séculos XV e XVI, os astecas
expandiram seu território e conquistaram muitos povos, formando um império bastante poderoso
no período.
No centro dessa
cidade havia um imponente templo construído em forma piramidal. Os historiadores
calculam que Tenochtitlán chegou a ter entre 100 mil e 230 mil habitantes, alcançando uma área de 13,5 quilômetros quadrados. Para ter uma ideia do tamanho
dessa cidade asteca, podemos compará-la à movimentada Sevilha, que tinha cerca
de 150 mil habitantes e era a maior cidade espanhola no século XVI.
Por meio de alianças e conquistas militares, os astecas expandiram seus territórios,
dominando regiões centrais do atual México, desde o Atlântico até o Pacífico. Calcula-se
que a população desse império atingiu cerca de 6 milhões de pessoas.
Grandes centros urbanos, como Tenochtitlán, eram sustentados por tributos, muitas
vezes pagos sob a forma de alimentos que vinham das diferentes regiões dominadas
pelos astecas.
Os astecas aproveitavam o
excesso de água de solos pantanosos para irrigar as áreas secas
e plantavam diversos gêneros de
frutas, grãos e leguminosas. Produziam peças artesanais com cobre, bronze, ouro, prata, sisal, plumas e corantes.
A sociedade asteca era com
posta de nobres, sacerdotes, militares, comerciantes, artesãos, camponeses e
escravos de guerra. A cobrança de tributos dos povos conquistados fez com que
riquezas variadas chegassem às cidades astecas. Isso ampliou as redes comer
ciais e permitiu o enriquecimento de setores importantes da sociedade asteca.
Cultura asteca
Os astecas eram politeístas e praticavam sacrifícios humanos, pois acre
ditavam que agradar aos deuses evitaria que o mundo mergulhasse no caos.
Na arquitetura e no planejamento urbano, utilizaram cálculos precisos para a
elaboração e a construção de praças, edifícios públicos, templos, escolas, mercados e casas. Elaboraram dois calendários bastante detalhados, um solar e
um religioso, e desenvolveram a escrita hieroglífica e a pictórica, baseadas em
desenhos que representavam ideias.
Enfraquecimento político
Em 1519, os espanhóis chegaram ao território asteca, liderados por Hernán
Cortez. Inicialmente, os astecas acreditaram que os conquistadores fossem divindades, pois esperavam o dia em que o deus Quetzalcóatl chegaria pelo mar
para viver com seu povo.
No entanto, ao perceber que se tratava de uma invasão, os astecas iniciaram
a guerra. O uso de armas de fogo e cavalos, além da transmissão de doenças
como varíola e gripe, contribuíram para a vitória espanhola. Outro fator de
terminante foi a aliança com povos dominados pelos astecas, que, descontentes, ajudaram Cortez e seu exército. Em 1521, o líder asteca Montezuma estava
morto, e seu povo, destruído.
Os incas
O povo inca ocupava uma extensa faixa de terras da
América do Sul, e sua capital, Cuzco, foi fundada por volta do século XII, estendendo sua dominação aos demais
povos da região. Uma ampla rede de estradas e pontes e
um eficiente sistema de correios facilitavam o controle do
imperador sobre as regiões e o contato entre elas.
A sociedade inca era organizada em comunidades chamadas ayllus, cada uma com sua divindade protetora e seu
chefe local. A população era composta por nobres, sacerdotes, militares, funcionários públicos, artesãos, camponeses e escravos. Uma parte das terras cultiváveis e dos
rebanhos pertencia ao imperador e, em troca, o povo recebia alimentos e roupas.
Nas regiões montanhosas dos Andes, os incas desen
volveram a técnica da agricultura em degraus esculpidos
nas montanhas e construíram canais que traziam a água
das geleiras andinas para irrigar o solo. Criavam alpacas,
lhamas e vicunhas, que eram utilizadas no transporte e
para a obtenção de lã. Faziam artesanato com couro e me
tais diversos e praticavam principalmente o escambo.
Cultura inca
Os incas eram politeístas e seus principais deuses eram
Sol e Wiracocha. Raramente faziam sacrifícios humanos,
sendo mais comum o sacrifício de animais.
Os incas desenvolveram uma escrita muito original: os quipos,
palavra que significa nó na língua inca. Essa escrita era interpretada por especialistas chamados quipucamayocs, que anotavam
informações, estabeleciam estatísticas e transmitiam ordens.
Os cordões dos quipos eram feitos de algodão ou de lã de lhama ou alpaca. A posição do nó, bem como a sua quantidade, indicava valores numéricos segundo um sistema decimal. As cores do
cordão, por sua vez, indicavam o item que estava sendo contado,
sendo que para cada atividade existia uma simbologia de cores.
Ruínas de construções revelam que os incas tinham conhecimentos de arquitetura e engenharia. Tinham também noções de astronomia e astrologia, que
utilizaram para elaborar seu calendário e prever chuvas ou secas.
Enfraquecimento político
Em 1532, os espanhóis, liderados por Francisco Pizarro, atacaram e saquearam territórios incas. No período, os irmãos Atahualpa e Huáscar, herdeiros do
império, lutavam pelo trono e, assim, o primeiro assassinou seu irmão e tomou
o poder.
Divididos por essas lutas internas, os incas tiveram dificuldades para enfrentar os conquistadores e, em 1533, Atahualpa foi preso e executado a mando de
Pizarro. As principais cidades foram destruídas e o Império Inca foi derrotado.
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