domingo, 20 de setembro de 2026

As sociedades pré-colombianas

No passado, os territórios onde hoje são o Peru, o México, a Bolívia, a Guatemala e o Chile eram habitados por grandes civilizações, com destaque para as sociedades maia, asteca e inca. Esses povos foram responsáveis pela domesticação de muitos alimentos consumidos no presente e pelo início da criação de animais como a lhama. Eles também elaboraram sofisticados conhecimentos técnicos e desenvolveram Estados que abrigavam milhões de pessoas.
Algumas dessas civilizações estavam no auge quando os europeus chega ram na América, no final do século XV, o que provocou a desestruturação des sas sociedades, além de resultar na morte de milhões de pessoas. Ainda assim, a cultura que elas criaram permanece viva e é um dos elementos centrais para entender como vivem muitos povos americanos no presente.

MODOS DE VIDA NA AMÉRICA: MESOAMÉRICA E ANDES

Grande parte dos historiadores acredita que as mais antigas cidades da América formaram-se em torno de grandes centros cerimoniais, nas regiões da Mesoamérica e dos Andes. Há pelo menos 5 mil anos, já existiam ali sociedades organizadas em cidades, nas quais o poder estava centralizado nas mãos de governantes. Nelas, havia especialização do trabalho e atividade comercial.
Os primeiros centros cerimoniais da Mesoamérica surgiram nas áreas próximas à costa do Golfo do México por volta do ano 1200 a.C. Seus fundadores foram os olmecas. Os centros olmecas exerceram sua influência na região até por volta de 400 a.C. Nesses centros, artesãos produziam estatuetas e cerâmicas de uso cerimonial que foram encontradas ou copiadas em muitas outras regiões da Mesoamérica.
Quando o domínio olmeca e de seu principal centro político, La Venta, entrou em colapso na Mesoamérica, os zapotecas, culturalmente próximos dos olmecas, começaram a construir seus centros político-cerimoniais. O principal deles foi Monte Albán. O sítio arqueológico em que estão os seus vestígios, situado no Vale de Oaxaca, no México, é considerado Patrimônio Mundial pela Unesco.
Monte Albán, além das construções típicas dos centros cerimoniais, como praças, templos e pirâmides, contava também com áreas de residência permanente das elites dirigentes e com bairros onde eram realizados trabalhos especializados, como a fabricação de certos produtos. 
Em Monte Albán foram encontrados alguns dos mais antigos vestígios de escrita das Américas. São grafismos inscritos em monumentos de pedra, relacionados possivelmente a rituais religiosos, que datam de aproximadamente 500 a.C. 
Contudo, os pesquisadores acreditam que a escrita zapoteca pode ser ainda mais antiga, pois provavelmente também foram usados outros suportes para ela, como madeira ou peles de animal, que não foram preservados pelo tempo. De acordo com arqueólogos, essa escrita seria usada para diferentes fins religiosos e administrativos, e apenas membros privilegiados daquela sociedade a dominariam.

Astecas, maias e incas

Em diversas partes da América, formaram-se sociedades marcadas pela exis tência de excedente agrícola, que tornou possível a prática do comércio, a forma ção de cidades complexas e variadas, o desenvolvimento de sistemas de escrita e de numeração, além de de técnicas de cerâmica, de metalurgia e tecelagem.
Três importantes sociedades que se desenvolveram segundo esse modo de organização social foram os astecas e os maias, que ocuparam regiões da América do Norte e da América Central, e os incas, na América do Sul. Porém, é importante ressaltar que esses três povos não foram os únicos que desenvolveram técnicas agrícolas. Em outras regiões da América, como na amazônica, também surgiram importantes sociedades agricultoras.

Os maias 

O povo maia habitava territórios hoje situados no México, Belize, Guatemala, El Salvador e Honduras. Seus antepassados provavelmente chegaram à América Central por volta de 1500 a.C.  O auge dessa civilização estendeu-se de 250 até o ano 900 da era cristã.
Ao longo do processo de sedentarização, os maias aprenderam a praticar a agricultura, cultivando gêneros como milho, feijão, abóbora, tomate, algodão e cacau, e criaram animais de pequeno porte. Também desenvolveram sistemas de irrigação, levando o excesso de água de regiões alagadas para as mais secas por meio de canais. Eles confeccionavam peças de cerâmica, faziam joias, ar mas e estatuetas de ouro, cobre e pedras preciosas e praticavam comércio com povos vizinhos.
Os maias estabeleceram rotas comerciais que percorriam diversas regiões da América Central e América do Norte, conseguindo assim controlar o abastecimento de importantes matérias-primas na região. Esse fator teve grande importância no enriquecimento das cidades maias, especial mente entre os séculos VII e X. 
Cada cidade maia tinha governo, economia, leis e exército próprios, o que as caracterizava como cidades-Estado. Os reis maias eram muito poderosos, dirigiam a política interna e externa e eram auxiliados por um Conselho de Estado.
Os maias viviam em cidades governadas por chefes com poder hereditário. O chefe de cada cidade exercia funções políticas e religiosas, e era auxiliado por um conselho composto de líderes tribais, nobres guerreiros e sacerdotes. Esse grupo formava a elite maia e detinha a posse das terras. Quem cultivava essas terras eram os camponeses, que viviam em moradias rústicas e tinham direito apenas a uma parte do que produziam.
Essa sociedade hierarquizada pode ter sido, segundo muitos estudiosos, resultado da influência do povo olmeca, que se relacionou com os maias principalmente por meio de trocas comerciais. As relações comerciais também ocorriam entre as várias cidades maias. O principal produto comercializado era o tecido.
Embora o comércio fosse uma atividade econômica bastante importante, a agricultura constituía a base da economia maia. O principal produto cultivado era o milho, tão relevante que, segundo os mitos maias, foi utilizado pelos deuses como matéria-prima para criar o homem. Os maias também produziam cacau, algodão, feijão, pimenta, abóbora, mamão e abacate. Além disso, criavam cães (para a caça e a alimentação), perus e abelhas, e praticavam a pesca.
O conjunto arquitetônico maia é bastante exuberante e revela a relação entre arte, astronomia e religião. Além disso, grandes templos e palácios eram construídos para inspirar respeito e admiração.

Templo dos Guerreiros, no sítio arqueológico da cidade maia de Chichén Itzá, na Península de Yucatán, no México


Cultura maia

Desde o início da história maia, os sacerdotes procuravam entender os movimentos dos corpos celestes como uma forma de explicar os desígnios dos deuses. Por isso, os sacerdotes maias também eram matemáticos e astrônomos.
Os maias desenvolveram estudos de Astronomia e Matemática que os ajudaram nas práticas agrícolas. Construíram templos e pirâmides e criaram um calendário solar e um sistema de escrita hieroglífica e ideográfica.  
Em relação ao desenvolvimento dos conhecimentos ma temáticos, os maias criaram um símbolo para representar o zero e o utilizavam em cálculos. Além disso, eles conheciam os movimentos do Sol, da Lua e de Vênus e os eclipses solares e lunares; e criaram dois calendários, que utilizavam simultaneamente: um sagrado, de 260 dias (astrológico), e outro não religioso, de 365 dias (solar). 
Graças a esses calendários, os sacerdotes conseguiam indicar as épocas propícias para o preparo do campo, a semeadura e a colheita. 
A religião maia era politeísta e seus deuses representavam forças da natureza. Em troca de proteção e boas colheitas, os maias ofereciam jejuns, preces, danças rituais e sacrifícios humanos aos deuses. As cerimônias religiosas eram realizadas no alto das pirâmides, e o povo assistia a elas do chão.

Enfraquecimento político 

Os maias construíram e mantiveram suas cidades até aproximadamente o ano 900, quando começaram a entrar em declínio. Não se sabe ao certo o motivo desse processo, mas há algumas hipóteses, como o surgimento de epidemias, guerras internas e invasões de outros povos. Estudos recentes sugerem, ainda, que esse declínio pode estar relacionado a causas ambientais. O uso de técnicas agrí colas rudimentares teria levado ao esgotamento do solo, o que diminuiu a produtividade das lavouras e, consequentemente, a oferta de alimentos.
Outro estudo aponta uma prolongada estiagem como a causa do declínio dessas cidades. Muitas delas, como Tikal, foram planejadas para armazenar água da chuva para uma população de até 10 mil habitantes por um período de 18 meses. O longo período de seca restringiu o acesso da população à água e, assim, teria contribuído para diminuir a autoridade dos governantes das cidades.
Antes da conquista europeia, a sociedade maia já estava enfraquecida, talvez pela falta de unidade política e pelas rivalidades entre as cidades-Estado. A situação foi agravada por furacões, epidemias, empobrecimento da população e enfraquecimento das crenças. Apenas a península de Iucatán escapou a esse declínio. Em 1523, o espanhol Pedro de Alvarado, vindo do México, dominou os maias.

Os maias nos dias de hoje 

O declínio das cidades, porém, não significou, como muitos acreditam, o fim dos maias. Atualmente, mais de 6 milhões de indígenas de grupos linguísticos maias estão distribuídos por regiões do México, de Belize, de Honduras e, principalmente, da Guatemala, onde vive a maior parte deles.
As etnias indígenas de origem maia mantiveram os mitos e as tradições do seu passado pré-colombiano, renovando-os com crenças e práticas religiosas incorporadas do cristianismo.
Entre as principais atividades econômicas dos gru pos remanescentes maias, estão o cultivo do milho e do feijão e a produção de artesanato. 

Povos andinos 

Os mais antigos centros políticos e cerimoniais dos Andes, com edifícios monumentais em pedra, foram construídos na costa desértica do centro e do norte do atual Peru. Nesses centros, havia pirâmides, plataformas, praças e conjuntos residenciais habitados pelas elites dirigentes.
A antiguidade desses locais tem surpreendido os estudiosos, especialmente Caral, centro político urbano datado de aproximadamente 2500 a.C. O sítio arqueológico de Caral abriga seis pirâmides, um anfiteatro circular e um setor residencial, além de canais de irrigação. As escavações no local indicaram que havia plantações de goiaba, ají (um tipo de pimenta), abóbora, feijão e abacate. Foi possível concluir, também, que seus habitantes consumiam peixes e mariscos, vindos do litoral. 
Um dado que intriga os arqueólogos é o fato de não terem sido encontrados, no sítio de Caral, objetos de cerâmica para armazenamento ou cozimento de alimentos. Para eles, isso indica que, naquela sociedade, a produção e o armazenamento de alimentos não eram feitos em grande escala, e que as trocas comerciais feitas com cidades próximas eram tão importantes para a economia como a atividade agrícola.

Chavín de Huantar 

Chavín de Huantar foi um importante centro político-cerimonial surgido nas terras altas da Cordilheira dos Andes, por volta do ano 1000 a.C. Situado a aproximadamente 3 mil metros de altitude, próximo à região amazônica, o centro da cultura chavín apresenta muitas características comuns a outros centros políticos da costa desértica do Peru, como arquitetura monumental, pirâmides, praças e pátios afundados.
A monumentalidade de suas construções supera a de outros núcleos da região, o que demonstra sua relevância política. Além disso, a cerâmica desenvolvida pela primeira vez em Chavín de Huantar foi copiada por outros povos dos Andes Centrais, o que revela sua influência cultural.
Por volta do ano 300 a.C., Chavín de Huantar entrou em colapso. Segundo alguns especialistas, é provável que um longo período de guerras entre diversos povos andinos tenha desarticulado as rotas de comércio que existiam na região e levado os chavíns a contestar a autoridade de seus principais líderes, os sacerdotes, favorecendo o declínio desse centro político-cerimonial.

Vaso chavín. c. 200 a.C. Cerâmica. Museu do Banco Central de Reserva, Lima, Peru. De maneira geral, os chavíns representavam animais predadores em suas imagens. Os estudiosos acreditam que esses símbolos estão relacionados aos governantes e às elites dirigentes locais.


Os astecas

Os astecas eram um povo que migrou de regiões norte-americanas e foi ocupando a região conhecida como Vale do México, entre os séculos XII e XIII. Também chamados de mexicas (de onde deriva o nome “México”), eles falavam o nahuatl, que é a língua indígena mais falada hoje nesse país, mesmo após ter passado por transformações.
O povo asteca fundaram sua capital, Tenochtitlán, que encantou os espanhóis com sua beleza e seu planejamento. Entre os séculos XV e XVI, os astecas expandiram seu território e conquistaram muitos povos, formando um império bastante poderoso no período. 
No centro dessa cidade havia um imponente templo construído em forma piramidal. Os historiadores calculam que Tenochtitlán chegou a ter entre 100 mil e 230 mil habitantes, alcançando uma área de 13,5 quilômetros quadrados. Para ter uma ideia do tamanho dessa cidade asteca, podemos compará-la à movimentada Sevilha, que tinha cerca de 150 mil habitantes e era a maior cidade espanhola no século XVI.
Por meio de alianças e conquistas militares, os astecas expandiram seus territórios, dominando regiões centrais do atual México, desde o Atlântico até o Pacífico. Calcula-se que a população desse império atingiu cerca de 6 milhões de pessoas. 
Grandes centros urbanos, como Tenochtitlán, eram sustentados por tributos, muitas vezes pagos sob a forma de alimentos que vinham das diferentes regiões dominadas pelos astecas.
Os astecas aproveitavam o excesso de água de solos pantanosos para irrigar as áreas secas e plantavam diversos gêneros de frutas, grãos e leguminosas. Produziam peças artesanais com cobre, bronze, ouro, prata, sisal, plumas e corantes.
A sociedade asteca era com posta de nobres, sacerdotes, militares, comerciantes, artesãos, camponeses e escravos de guerra. A cobrança de tributos dos povos conquistados fez com que riquezas variadas chegassem às cidades astecas. Isso ampliou as redes comer ciais e permitiu o enriquecimento de setores importantes da sociedade asteca.

Cultura asteca 

Os astecas eram politeístas e praticavam sacrifícios humanos, pois acre ditavam que agradar aos deuses evitaria que o mundo mergulhasse no caos. Na arquitetura e no planejamento urbano, utilizaram cálculos precisos para a elaboração e a construção de praças, edifícios públicos, templos, escolas, mercados e casas. Elaboraram dois calendários bastante detalhados, um solar e um religioso, e desenvolveram a escrita hieroglífica e a pictórica, baseadas em desenhos que representavam ideias.

Enfraquecimento político

 Em 1519, os espanhóis chegaram ao território asteca, liderados por Hernán Cortez. Inicialmente, os astecas acreditaram que os conquistadores fossem divindades, pois esperavam o dia em que o deus Quetzalcóatl chegaria pelo mar para viver com seu povo. 
No entanto, ao perceber que se tratava de uma invasão, os astecas iniciaram a guerra. O uso de armas de fogo e cavalos, além da transmissão de doenças como varíola e gripe, contribuíram para a vitória espanhola. Outro fator de terminante foi a aliança com povos dominados pelos astecas, que, descontentes, ajudaram Cortez e seu exército. Em 1521, o líder asteca Montezuma estava morto, e seu povo, destruído.

Os incas 

O povo inca ocupava uma extensa faixa de terras da América do Sul, e sua capital, Cuzco, foi fundada por volta do século XII, estendendo sua dominação aos demais povos da região. Uma ampla rede de estradas e pontes e um eficiente sistema de correios facilitavam o controle do imperador sobre as regiões e o contato entre elas. 
A sociedade inca era organizada em comunidades chamadas ayllus, cada uma com sua divindade protetora e seu chefe local. A população era composta por nobres, sacerdotes, militares, funcionários públicos, artesãos, camponeses e escravos. Uma parte das terras cultiváveis e dos rebanhos pertencia ao imperador e, em troca, o povo recebia alimentos e roupas.
Nas regiões montanhosas dos Andes, os incas desen volveram a técnica da agricultura em degraus esculpidos nas montanhas e construíram canais que traziam a água das geleiras andinas para irrigar o solo. Criavam alpacas, lhamas e vicunhas, que eram utilizadas no transporte e para a obtenção de lã. Faziam artesanato com couro e me tais diversos e praticavam principalmente o escambo.

Cultura inca

Os incas eram politeístas e seus principais deuses eram Sol e Wiracocha. Raramente faziam sacrifícios humanos, sendo mais comum o sacrifício de animais.
Os incas desenvolveram uma escrita muito original: os quipos, palavra que significa nó na língua inca. Essa escrita era interpretada por especialistas chamados quipucamayocs, que anotavam informações, estabeleciam estatísticas e transmitiam ordens.
Os cordões dos quipos eram feitos de algodão ou de lã de lhama ou alpaca. A posição do nó, bem como a sua quantidade, indicava valores numéricos segundo um sistema decimal. As cores do cordão, por sua vez, indicavam o item que estava sendo contado, sendo que para cada atividade existia uma simbologia de cores.
Ruínas de construções revelam que os incas tinham conhecimentos de arquitetura e engenharia. Tinham também noções de astronomia e astrologia, que utilizaram para elaborar seu calendário e prever chuvas ou secas.

Enfraquecimento político 

Em 1532, os espanhóis, liderados por Francisco Pizarro, atacaram e saquearam territórios incas. No período, os irmãos Atahualpa e Huáscar, herdeiros do império, lutavam pelo trono e, assim, o primeiro assassinou seu irmão e tomou o poder. Divididos por essas lutas internas, os incas tiveram dificuldades para enfrentar os conquistadores e, em 1533, Atahualpa foi preso e executado a mando de Pizarro. As principais cidades foram destruídas e o Império Inca foi derrotado.

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