domingo, 20 de setembro de 2026

O Reino de Kush

Ao sul do vale do Rio Nilo, havia uma região chamada pelos egípcios de Núbia, palavra que significa “terra do ouro”. Ali, a partir do II milênio a.C., desenvolveu-se o Reino de Cuxe. Essa sociedade surgiu nas terras que cor respondem, mais ou menos, ao atual território do Sudão.
Inicialmente, o Reino de Cuxe tinha a cidade de Kerma como capital. Depois, a sede do governo deslocou-se para Napata e, posteriormente, para Meroé. Essas cidades foram importantes centros comerciais, religiosos e artísticos. 
Na região da Núbia, localizada há alguns quilômetros ao sul do Egito, havia diversas riquezas naturais, como jazidas de ouro e de pedras preciosas, além de um solo fértil. Seus moradores, chama dos de cuxitas, praticavam o comércio, a agricultura, a mineração e a pecuária. Nessa região, por volta do ano 1800 a.C., desenvolveu-se o Reino de Cuxe, que tinha como capital a cidade de Querma
A história de Kush está estreitamente ligada à do Egito: os arqueólogos encontraram grande número de objetos egípcios (pérolas, vasos, peças de artesanato, entre outros) em terras cuxitas, e produtos cuxitas (peles de animais, marfim, ouro, ébano etc.) em terras egípcias, o que prova que o contato comercial entre eles foi intenso.
Os egípcios mantinham relações co merciais com os cuxitas, adquirindo pro dutos como cereais, peles de animais e minérios, principalmente ouro e ferro. Po rém, em 1570 a.C., os egípcios invadiram e dominaram Querma, transformando o Reino de Cuxe em uma colônia egípcia.
Para administrá-lo, o faraó egípcio nomeava vice-reis que deviam receber os tributos pagos pela população e encaminhá-los às autoridades egípcias. Essa pintura mural foi encontrada na tumba de um desses vice-reis.
Pessoas consideradas criminosas ou que haviam sido aprisionadas em guerras também podiam ser enviadas de Cuxe para o Egito, onde eram escravizadas.

A influência egípcia em Cuxe


Após séculos de contatos, de relações comerciais e de disputas entre Núbia e Egito, muitos elementos da cultura egípcia foram incorporados pelos cuxitas. 
Durante o período dos faraós negros, por exemplo, tornou-se comum na Núbia o costume de construir pirâmides e templos religiosos. Além disso, eles mumificavam os mortos e faziam pinturas tumulares.
Sob o domínio egípcio, os cuxitas adotaram alguns deuses e algumas práticas funerárias egípcias, por exemplo, a mumificação.

Pintura representando núbios (cuxitas) levando tributos, como ouro e peles de animais, a serem pagos aos egípcios, c. 1380 a.C.

A formação de um novo reino 


Mas houve um tempo em que o Reino de Kush também conquistou o Egito. Por volta de 1070 a.C., o Egito foi abalado por crises políticas, seguidas de revoltas populares e ondas de fome. Nessa época, aproveitando a fragilidade de seus dominadores, os cuxitas articularam uma invasão militar no Egito para reconquistar sua autonomia.
Por volta de 730 a.C., após uma guerra prolongada, os cuxitas tomaram Tebas, a capital do Egito na época. O faraó Peye, originário de Kush, tomou o poder, dando início à 25a dinastia, conhecida também como dinastia dos faraós negros. 
Os cuxitas se reorganizaram politicamente e deram início à formação de um novo reino, com capital em Napata. Fortalecidos, eles passaram a conquistar outras regiões, até que, por volta de 730 a.C., dominaram todo o Egito. Essa dominação durou aproximadamente 100 anos.
Os faraós dessa dinastia usavam uma coroa com duas serpentes que se erguiam sobre suas frontes para indicar que reinavam ao mesmo tempo sobre Kush e Egito. Eles se consideravam sucessores dos faraós egípcios e também ordenaram a construção de pirâmides para lhes servirem de túmulos.
A 25a dinastia foi derrubada pelos assírios, do Oriente Médio, que invadiram e conquistaram a capital do Egito (Tebas), em 644 a.C. Após essa data, os cuxitas retornaram para o sul, instalando a sede do Reino de Kush na cidade de Napata e, mais tarde, em 580 a.C., na cidade de Méroe.

Méroe


Durante o século VI a.C., os egípcios expulsaram os cuxitas de seu território e invadiram Napata. Com isso, os cuxitas transferiram sua capital para Méroe, cidade que ficava mais distante do Egito. Além disso, Méroe possuía solos férteis e estava localizada perto de importantes rotas comerciais.
A região de Méroe era formada por extensas planícies férteis e úmidas. No verão, ocorriam chuvas abundantes, por isso um sistema de irrigação foi desenvolvido para aproveitar as águas do rio Nilo. 
Há indícios de que o comércio era bastante desenvolvido na nova capital. Em escavações arqueológicas foram encontrados grandes depósitos de madeira e de marfim na antiga cidade de Méroe, indicando que estes podem ter sido alguns dos principais produtos comercializados. Outros produtos, como ouro, peles de animais e artigos artesanais, também faziam parte desse comércio.
Com o grande fluxo comercial, os cuxitas estabeleceram contato e intercâmbio cultural com outros povos, como os sírios, os persas, os indianos, os gregos e os romanos.
Na região de Meroé, foram encontradas centenas de pirâmides construídas pelos cuxitas. 

Características do Reino de Kush


Em virtude dos trabalhos de arqueologia e de epigrafia sabe-se que, na época em que a capital foi a cidade de Méroe,  Kush se distinguia de outros reinos antigos por duas importantes características: o modo como o rei era eleito e o papel da mulher na política.

Estátuas dos faraós negros da 25a dinastia, que reinou nos tempos em que o Reino de Kush dominava o Egito (730 a.C.-644 a.C.).

A escolha do rei


Os cuxitas e escolhiam seu rei de um modo original. Inicialmente, os líderes das comunidades votavam naquele que consideravam mais preparado para o cargo de rei. Em seguida, lançavam sementes ao chão para perguntar ao deus da cidade se a escolha foi acertada. Em caso de confirmação do deus, realizavam uma festa que terminava com a coroação do novo rei.
O rei tinha uma guarda permanente para protegê-lo e era auxiliado por um grupo de altos funcionários, como o chefe de tesouro, o escriba-mor e o comandante militar.
No Reino de Kush, o ofício de militar era valorizado, o que era de se esperar, tendo o poderoso Egito como vizinho. Em caso de necessidade, todos os homens eram convocados para a guerra. O exército cuxita, composto de homens que lutavam a pé e outros que guerreavam a cavalo, enfrentou os egípcios diversas vezes, fosse para defender-se deles ou para conquistá-los.

Arqueiros cuxitas em madeira (2061 a.C.-2010 a.C.). A existência de um vizinho poderoso, como o Egito, estimulou os cuxitas a formarem um exército organizado e bem treinado.

Pirâmide que serviu de túmulo a um rei cuxita, Sudão

Faraós cuxitas 


O Reino de Cuxe manteve relações instáveis com o Egito. Em certos momentos, os cuxitas foram submetidos pelos faraós egípcios. Em outros, os egípcios viveram sob o domínio dos reis de Cuxe. Historiadores indicam que, em 713 a.C., um rei cuxita chamado Xabaca comandou tropas para conquistar o Egito. Após sua vitória, o Egito foi incorporado ao Reino de Cuxe.
Por mais de 50 anos, os reis cuxitas Xabaca, Xabataca e Taharqa governaram tanto a Núbia quanto o Egito. Esses reis ficaram conhecidos como faraós negros, mas essa classificação foi feita por estudiosos posteriormente. A verdade é que não temos certeza se os cuxitas e os egípcios eram negros ou não.

Estátua feita de bronze do faraó Taharqa, produzida no século VII a.C. 

A dominação cuxita no Egito antigo terminou por volta de 664 a.C., quando tropas assírias invadiram o território egípcio. Após a invasão dos assírios, os reis cuxitas se retiraram do Egito e se instalaram na região entre Napata e Meroé. Aos poucos, os cuxitas se distanciaram das influências egípcias. O Reino de Cuxe durou até aproximadamente o século IV.
Os egípcios, por sua vez, destruíram muitos vestígios que representavam o domínio cuxita, como estátuas de faraós desse povo.

Candace, a mulher na política


Há indícios arqueológicos de que as mulheres ocupavam posições de destaque no Reino de Kush. Elas podiam ser sacerdotisas, administradoras de uma cidade e podiam, ainda, chefiar o governo, com o título de candace.
As mulheres da família real tinham um papel importante no governo do Reino de Cuxe. As rainhas cuxitas recebiam o nome de candaces, ou rainhas-mães.
Não se sabe exatamente a influência que elas tiveram em todos os períodos da civilização cuxita. Há indícios de que inicialmente as candaces cuidavam da organização familiar, mas aos poucos passaram a ocupar cargos na vida pública.
Diversas rainhas-mães chegaram a assumir o poder político do reino. Muitas delas se tornaram famosas, sendo conhecidas também em regiões distantes.
As imagens também confirmam o poder feminino em Kush. No
interior das pirâmides cuxitas, as candaces são mostradas como as principais portadoras de oferendas aos deuses; e nas paredes dos templos são representadas como mulheres poderosas.
Entre as candaces, destacam-se Amanirenas, Amanishaketo e Amamitere. Muitas delas também foram guerreiras e comandaram exércitos. 
As candaces do Reino de Kush foram soberanas, superando em importância seus filhos ou maridos. Entre as candaces mais conhecidas está Amanishaketo (42 a.C.-12 a.C.), que, provavelmente, liderou a resistência cuxita ao poderoso Império Romano.
Quando o exército romano avançou sobre o nordeste da África e conquistou a cidade de Napata, os cuxitas resistiram. Até que, em 21 a.C., a rainha africana conseguiu negociar um acordo de paz com os romanos: ofereceu a eles uma faixa de terra no norte de Kush e, em troca, manteve a soberania de seu reino, livrando-o de ter de pagar impostos a Roma.
Para alguns historiadores africanos, a participação da mulher na política e o controle do governo cuxita sobre o ouro, as pedras preciosas e o ferro ajudam a explicar a prosperidade do Reino de Kush, bem como sua longa vida.

Relevo em que se vê a rainha Amanishaketo, à direita, de braço dado com a deusa Amesem, século I a.C.

Economia e sociedade


Enquanto a capital foi Napata, a principal atividade e econômica dos cuxitas era a pecuária; eles criavam cabritos, cabras, cavalos e burros (usados, sobretudo, no transporte de produtos). A riqueza de uma pessoa era medida pelo tamanho do seu rebanho.
Por volta de 580 a.C., com a mudança da capital para Méroe, onde as chuvas eram mais regulares, houve um aumento da área de terra irrigada e uma expansão da agricultura. As plantas mais cultivadas por eles inicialmente foram o trigo, a cevada e o sorgo.
Inicialmente os cuxitas retiravam água do Rio Nilo para suas plantações usando o shaduf, artefato também utilizado pelos egípcios. Posteriormente, em razão da habilidade de seus carpinteiros e ferreiros, os cuxitas passaram a retirar água do Nilo com a saqia, um dispositivo movido por animais (bois ou camelos) e conectado a duas rodas-d’água.

Na imagem acima, de 1887, vê-se o shaduf, instrumento movido pela força humana.

A saqia, movida por bois, com ela, é possível captar mais água em menos tempo.

O modo de vida nas vilas e nas cidades cuxitas 


Muitas vilas e cidades cuxitas desenvolveram-se às margens do rio Nilo. Nelas, havia uma grande variedade de habitações, revelando as diferenças sociais entre seus moradores. O interior das casas era simples, contendo poucos móveis. A cerâmica era amplamente utilizada nessas residências. 
De modo geral, as pessoas mais pobres utilizavam cerâmicas produzidas pelas mulheres da família. Já as famílias mais ricas compravam cerâmicas prontas, muitas vezes importadas do Egito. 
As vestimentas cuxitas também revelavam diferenças sociais. As pessoas mais ricas andavam calçadas e se vestiam com linho ou tecidos de algodão, em sua maioria na cor branca. As pessoas mais pobres andavam descalças e se vestiam apenas com pedaços de couro.

Mineração, artesanato e comércio


O solo cuxita era riquíssimo em metais, como o ouro e o ferro, e pedras preciosas, como o rubi. Escavações recentes em Méroe revelaram templos e muros folheados a ouro. Calcula-se que, durante sua existência, Kush chegou a produzir a espantosa quantia de 1 600 toneladas de ouro. Os governantes cuxitas exerciam um rígido controle sobre a extração e o comércio de minérios, garantindo com isso seus rendimentos e seu poder. O ouro cuxita era usado no comércio com o Egito e com Roma.
Quanto ao ferro, é provável que Méroe tenha sido o lugar onde se difundiu o conhecimento da fusão e do manuseio desse metal na África.
Entre os artesãos cuxitas, d destacavam-se os ferreiros e os marceneiros, que fabricavam camas, cadeiras, porta-joias; os tecelões, que faziam panos de linho e de algodão; os ceramistas e os joalheiros. Estes faziam colares, braceletes, brincos e anéis de ouro, prata e pedras preciosas; alguns combinavam o ouro com o marfim. Sabemos disso pois muitos desses objetos preciosos foram encontrados nos túmulos reais.
Boa parte do artesanato cuxita era vendido para outras regiões do mundo antigo. Méroe ficava na encruzilhada por onde passavam caravanas de comerciantes carregadas de produtos provenientes de vários pontos da África. De Méroe, as caravanas cuxitas seguiam por terra em direção ao Mar Vermelho e, pelo Rio Nilo, até o Egito; essa rota fluvial era a mais importante do nordeste africano, na época. Para proteger esse volumoso comércio, os reis cuxitas construíam fortalezas ao longo das rotas comerciais.
Os cuxitas vendiam para o Egito ouro, incenso, ébano, óleos, marfim, pedras preciosas, penas de avestruz e pele de leopardo. E da terra dos faraós, eles compravam, sobretudo, vasos, pérolas e papiro.

A sociedade cuxita


É pouco ainda o que se sabe sobre a sociedade cuxita. A camada dirigente era formada pelo rei e sua família, pelos nobres que ocupavam altos cargos do funcionalismo e pelos sacerdotes. Os agricultores e os criadores de gado, que eram pessoas livres, formavam a maioria da população meroíta. Já as camadas intermediárias eram constituídas por artesãos, comerciantes, militares e pequenos funcionários.
Não se sabe ao certo as razões do declínio de Kush. Provavelmente, os cuxitas perderam para outro povo o controle das rotas comerciais, uma das bases de sustentação do poder cuxita. O que se pode dizer com certeza é que, nos primeiros séculos da Era Cristã, Kush foi empobrecendo; as pirâmides de seus reis foram se tornando menores e mais rústicas, e o número de objetos egípcios encontrados em solo cuxita diminuiu bastante.
Enquanto isso, também na região da Núbia, despontava um outro reino africano, o de Axum, localizado onde hoje é a Etiópia. Axum herdou a cultura meroíta, mas se distinguiu dela, entre outras coisas, por ter adotado o cristianismo.
Do esplendor e prosperidade da civilização de Méroe restaram diversos monumentos, entre os quais pirâmides de pequena proporção, sarcófagos de granito e templos em homenagem aos deuses.

Fotografia atual do Templo dos Leões em Naga, Méroe, no atual Sudão. Estima-se que tenha sido construído
entre os anos 300 a.C. e 100 a.C.

Expressões culturais


Os cuxitas foram influenciados pela cultura do Egito antigo e de outros povos africanos. Essas trocas podem ser percebidas, por exemplo, no artesanato, na escultura, na arquitetura, na religião, nas técnicas militares e na escrita. Apesar das influências, os cuxitas desenvolveram uma escrita própria, a meroítica. Algumas de suas características são: alfabeto de 23 sinais, valores fonéticos e forma cursiva. A escrita meroítica ainda não foi decifrada.
Os cuxitas desenvolveram um sistema de escrita que ficou conhecido como escrita meroíta. Inicialmente, esse sistema foi inspirado na escrita egípcia, mas, ao longo do tempo, tornou-se bastante diferente de seu modelo inspirador. A escrita meroíta ainda não foi totalmente decifrada, e muitos estudiosos continuam trabalhando para compreendê-la.
Por essa razão, não é possível entender o significado de vários documentos escritos produzidos no Reino de Cuxe, o que dificulta conhecer parte de sua história. Apesar disso, a aná lise de outros vestígios arqueológicos também pode fornecer pistas sobre os cuxitas, o que possibilita a continuidade das pesquisas históricas.
Os cuxitas confeccionavam peças de cerâmica, madeira, joias e estatuetas de ouro, prata, bronze e marfim; faziam instrumentos musicais; produziam adornos de vidro, de conchas e de pedras preciosas.

A religião 


Durante os séculos de contato com o Egito, os cuxitas assimilaram diversos aspectos de sua cultura e de sua religião. Eles eram politeístas e tinham seus próprios deuses, que eram antropozoomórficos, mas também adotaram deuses egípcios. 
A partir da incorporação da cultura egípcia, os cuxitas passaram a construir os túmulos dos reis, dos nobres e de pessoas muito ricas em forma de pirâmide. Em muitos deles, mulheres e escravos foram enterrados com o morto para acompanhá-lo na vida após a morte. 
Com frequência, animais como cavalos, carneiros, ovelhas, cabras e cachorros também eram enterrados com o morto; além disso, oferendas e objetos variados eram colocados junto ao corpo. Nas demais camadas sociais, os mortos eram mumificados e enterrados em cemitérios simples, dos quais restaram poucos vestígios arqueológicos. 

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