Na foz do Rio Amazonas, no Pará, existe uma ilha chamada
Marajó. Há aproximadamente 1600 anos, habitou esse local
um dos principais povos agricultores: os Marajoara. Pesquisas
realizadas nos sítios arqueológicos indicam que em seu auge,
entre os anos 1000 e 1300, a população pode haver alcançado
até 100 mil pessoas.
Os primeiros habitantes de Marajó chegaram à ilha por volta de 5000 a.C. e formaram uma sociedade cujo meio de vida também estava integrado ao movimento das cheias e das secas.
Durante o período das inundações, peixes e tartarugas iam dos leitos profundos dos rios para as regiões alagadas em busca de alimento ou para botar ovos. Quando as águas diminuíam, os peixes nem sempre conseguiam voltar para o leito do rio e ficavam presos em lagoas e grandes poças de água. Formavam-se, assim, verdadeiros tanques naturais cheios de peixes que permitiam alimentar uma população numerosa.
Com uma dieta rica em peixes e tartarugas, os marajoaras contavam ainda com uma área mais fértil da ilha, onde se plantava mandioca, e realizavam o manejo de espécies da mata, como o buriti e o açaí. Não se sabe exatamente a razão, mas, por volta de 400 d.C., os antigos marajoaras passaram a alterar em grande escala o ambiente e viveram a partir daí um longo período de transformações em sua cultura material.
Na época das secas, eles passaram a transportar terra das regiões que tinham sido mais alagadas para as regiões mais altas. Assim, eles aumentaram a extensão das áreas secas, criando morros artificiais, chamados de “tesos” pelos moradores atuais da ilha. Ao mesmo tempo, os marajoaras aumentaram a profundidade dos poços e das represas onde os peixes ficavam presos no fim da época das cheias.
Esse engenhoso sistema parece ter garantido uma oferta mais segura e variada de alimentos: os marajoaras passaram assim a controlar melhor os viveiros de peixes. Com o crescimento desse sistema, houve uma diferenciação social mais intensa e, com ela, o surgimento de uma elite que controlava os poços e as represas em torno dos tesos onde moravam.
A sociedade marajoara provavelmente era dividida por funções sociais: algumas famílias se responsabilizavam pela caça,
outras pelo artesanato e outras assumiam funções religiosas e de
governo. Os principais vestígios deixados pela cultura marajoara
foram suas cerâmicas.
As artes marajoaras
Em alguns tesos, foram descobertas numerosas sepulturas que continham “bens funerários”, isto é, objetos que eram enterrados com os mortos. Os vestígios analisados revelam que os Marajoara desenvolveram uma extraordinária cultura em torno das cerimônias fúnebres, usadas para distinguir as pessoas comuns das integrantes da elite que dominava os tesos.
Os mais fascinantes objetos da cultura material marajoara que chegaram até os nossos dias foram suas cerâmicas: vasos, cachimbos, estatuetas e objetos ritualísticos diversos, como as urnas funerárias.
Urna funerária marajoara datada de 400 d.C.-1400
d.C. Urna funerária em forma de um animal (zoomorfa),
com motivo decorativo pintado em preto e vermelho,
e apliques em relevo de boca, olhos e nariz. Embora o
significado das decorações tenham se perdido com
o tempo, sabe-se que essas urnas tinham uma função
sagrada.
O povo marajoara acreditava que as urnas eram um
meio de passagem para outra vida. Os mortos eram
enterrados em urnas de diversos tamanhos, algumas
vezes ricamente adornadas e outras vezes lisas. A
decoração mais elaborada indicava que o morto possuía
um lugar de destaque na sociedade.
Estatueta antropomorfa representando uma mulher
grávida. As estatuetas marajoaras são caracterizadas por
atributos femininos, como seios, e pela diversidade de
decoração, como tamanho e forma. Algumas reúnem
características do sexo feminino e do masculino no
mesmo objeto. Muitas delas eram utilizadas como
instrumentos musicais, por isso são ocas e possuem
pedrinhas em seu interior.
Por terem sido sempre encontradas em cemitérios,
é possível inferir que possuíam função cerimonial e,
provavelmente, eram utilizadas em rituais. A posição
da estatueta remete à posição de parto usada pelas
mulheres nas sociedades amazônicas.
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