Os sumérios foram os primeiros povos sedentários a se estabelecerem na Mesopotâmia, por volta de 8500 a.C., perto do Golfo Pérsico, onde os dois rios deságuam. Não se sabe ao certo a origem dos sumérios e quando
eles migraram para a Mesopotâmia. O que é possível
afirmar é que, por volta de 3000 a.C., esse povo já estava
estabelecido no sul da região.
É provável que os sumérios tenham sido os primeiros a construir canais e outras
obras para a utilização das águas dos rios. Também são
atribuídas a eles invenções importantes para o desenvolvimento da agricultura, como o arado e a roda.
Por milênios, eles exerceram grande influência sobre outros povos, até serem dominados pelos acadianos, em 2350 a.C. Séculos mais tarde, aproximadamente em 1900 a.C., a civilização suméria desapareceu após guerras constantes.
Criação de animais
Historiadores acreditam que os sumérios eram descendentes de pastores nômades e herdaram deles o costume de criar cabras e carneiros. No verão, os rebanhos eram levados para pastar nas áreas mais frescas, próximas das montanhas. Tanto os agricultores quanto os criadores de animais deveriam pagar tributos (ou impostos) equivalentes a 8% de tudo o que produzissem durante o ano. Além de cereais, a carne de cabra, o leite e seus derivados – queijo, manteiga e iogurte – eram as principais fontes de alimento das populações mesopotâmicas.
Detalhe da
faixa central do
mosaico “Paz”, do
Estandarte de Ur,
representando a
entrega de
animais, como
carneiro e bode,
para pagamento
de tributos.
Controle da força das águas
Os rios Tigre e Eufrates desempenharam um papel importante no desenvolvimento da
sociedade suméria. Todos os anos, na primavera, os rios transbordavam e enriqueciam o
solo de suas margens com minerais, tornando-o extremamente fértil, ideal para o cultivo
de alimentos.
Entretanto, para aproveitar a riqueza do solo, era preciso controlar as enchentes,
capazes de arrasar aldeias erguidas nas margens dos rios.
Preocupados em resolver o problema, os sumérios realizaram grandes obras hidráulicas: construíram diques para controlar as cheias, abriram canais para
a irrigação de regiões cada vez mais distantes e fizeram açudes
para garantir o abastecimento de água à população.
Essas obras transformaram partes do deserto em terras férteis para o cultivo de trigo,
cevada e outros cereais. Os sumérios também inventaram uma ferramenta que aprimorou
as atividades agrícolas: o arado de cobre.
Atrelado aos bois, o arado permitia revolver maior quantidade de terra, deixando-a
pronta para a semeadura. Com maior área destinada ao plantio, os sumérios passaram
a obter excedentes de alimentos, que eram estocados para os períodos de escassez ou
usados como moeda na troca por outras mercadorias.
Além de cereais, carne e derivados de leite, esse povo se alimentava de peixes obtidos
dos rios Tigre e Eufrates.
Detalhe do
mosaico “Paz”,
do Estandarte
de Ur, em que
se destacam as
figuras de homens
carregando cereais
para o pagamento
de impostos.
AS PRIMEIRAS CIDADES
Os sumérios foram os fundadores das mais antigas
cidades mesopotâmicas. As principais eram Kish, Lagash,
Uruk e Eridu.
A expansão da agricultura propiciou o desenvolvimento do comércio e de novas
atividades e funções. Despontaram comerciantes que negociavam produtos, artesãos
para trabalhar as matérias-primas, pessoas encarregadas do transporte de mercadorias,
soldados para proteger esse transporte etc.
Em meio a essas novidades, as aldeias cresceram e, por volta de 4000 a.C., algumas
delas haviam se transformado em cidades, onde viviam milhares de pessoas.
As cidades sumérias não estavam unificadas sob um governo central. Elas tinham
ampla autonomia, e a administração era exercida por pessoas da localidade. Por isso,
historiadores costumam chamar esses centros urbanos de cidades-Estado.
Entre as primeiras cidades da Mesopotâmia estão Eridu, Ur, Nippur e Eruk. Em volta
delas foram construídas muralhas para proteger a população de invasores, pois, nessa
época, as guerras entre as cidades pelo domínio da região eram constantes.
Por funcionarem como Estados, não eram necessariamente
vinculadas a outras cidades, reinos ou impérios. Nipur, Lagash,
Uruk e Ur foram cidades que funcionaram assim.
Duas características comuns a elas foram a prática de religiões politeístas e uma organização política na qual os líderes
(chefes de Estado) tinham, além de funções políticas, atribuições religiosas.
No centro das cidades sumérias, havia construções chama
das zigurates. Os zigurates eram dedicados aos deuses e funcionavam como locais de culto e de celebração de festividades,
como o akîtu, realizado para comemorar o ano-novo.
A localização dos zigurates no centro das cidades demonstra que os deuses e os sacerdotes tinham papel central na
cultura desses povos. A religião, portanto, era fundamental
na vida cotidiana dessas cidades.
Cidade-Estado de Ur
Repare que a cidade é cercada por muralhas para proteção contra os ataques. Também é
possível observar mais à direita a construção de um zigurate, templo religioso construído
no século XXI a.C. e que continha o santuário de Nana, o deus sumério da Lua. Ao
longo do tempo, o zigurate foi soterrado e só foi descoberto após escavações realizadas
entre 1920 e 1930.
O ESTANDARTE DE UR
Uma das peças mais importantes para o estudo da sociedade suméria é um
objeto conhecido como Estandarte de Ur. A peça, produzida entre 2600 e 2400 a.C.,
foi encontrada na década de 1920 em um túmulo da antiga cidade de Ur, no atual
Iraque.
A obra é composta de dois pequenos painéis ricamente trabalhados com calcário, concha, betume e pedras de lápis-lazúli. Eles são conhecidos como “Guerra” e
“Paz”.
Estandarte de Ur. c. 2600–2400 a.C. Painéis em calcário, conchas, betume e lápis-lazúli. Museu Britânico, Londres.
O estandarte é constituído por alguns materiais que não são
encontrados na região dos rios Tigre e Eufrates, como conchas,
calcário vermelho e lápis-lazúli, provenientes do território do
atual Afeganistão e do Vale do Rio Indo, na Índia.
A SOCIEDADE SUMÉRIA
Os sumérios viviam em uma sociedade hierarquizada, ou
seja, dividida em grupos sociais. Alguns desses grupos, como
o dos sacerdotes e o dos militares, eram ricos e concentravam poderes políticos. Os mais pobres, como os camponeses
e os escravizados, tinham pouca ou nenhuma participação na
vida política.
Entre as figuras mais poderosas na sociedade suméria, estavam o Em, que desempenhava a função de sumo sacerdote, e
o Ensi, o governante, que desenvolvia também a função militar.
Líderes guerreiros, sacerdotes ou indivíduos mais ricos acabavam obtendo prestígio
entre a população e assumiam um papel de liderança na cidade. Um dos membros dessa
elite, muitas vezes alegando direitos divinos, conquistava o título de rei.
Uma sociedade politeísta
A autoridade dos governantes era restrita à cidade; muitas vezes, líderes políticos exerciam
também o papel de chefes religiosos. Os sumérios eram politeístas, pois acreditavam na
existência de mais de 3 mil deuses, e a religião tinha papel fundamental na sociedade.
Para eles, fenômenos naturais, como chuva, seca, enchentes, eram
resultado de desejos das divindades. Cada cidade tinha seu deus protetor, e a ele eram erguidos templos, como os zigurates. Os templos eram
a instituição mais valiosa da sociedade, centros de riqueza e de poder,
e detinham grandes extensões de terra, usadas para a agricultura.
Cabia aos sacerdotes a administração desses templos, o que acabava lhes conferindo,
com os governantes, grande influência e privilégios.
Os deuses mais importantes para os sumérios eram An
(deus do céu), Enlil (deus do ar), Enki (deus da água) e Ninhursag
(mãe-terra). Os sumérios acreditavam que esses deuses eram
os criadores do universo e da vida, e os filhos e os netos deles
formavam uma extensa e complexa cosmogonia.
Aquilo que é chamado patrimônio histórico material representa todos os objetos
criados por povos ou grupos do passado e que resistiram à ação do tempo. Por meio deles
é possível conhecer o modo de ser e de viver dos grupos humanos que os produziram.
Entre esses objetos estão ruínas de edifícios, sítios arqueológicos, obras de arte, monumentos, utensílios domésticos etc.
O Iraque tem um rico patrimônio histórico material herdado dos antigos povos mesopotâmicos: ruínas de cidades, zigurates, placas de argila com textos em escrita cuneiforme, esculturas
e muitos outros objetos.
Estudo dos astros
Preocupados em entender os desejos divinos, os sacerdotes passaram a estudar o
céu, acumulando, assim, um volume muito grande de informações sobre os astros e os
fenômenos celestes. Isso lhes permitiu elaborar um calendário com base nas mudanças
de fase da Lua.
Ao estudar as estrelas, eles verificaram que os astros levavam cerca de 360 dias
para ocupar novamente a mesma posição no céu. Com base nisso, associaram o movi
mento desses corpos celestes à circunferência e
passaram a dividi-la em 360 partes iguais.
Em seguida, empregaram essa
divisão para medir os ângulos das
figuras geométricas. É por isso
que hoje se diz que uma circunferência tem 360 graus.
Os sumérios também
tinham um sistema de nume
ração que tomava como base
o número 60. Assim, estabeleceram uma marcação do
tempo na qual uma hora durava
60 minutos, e um minuto, 60
segundos. Exatamente como
acontece hoje.
O estudo dos astros permitiu
aos sumérios o desenvolvimento de um
calendário formado por meses lunares de
28 dias. Assim, conseguiam prever com exatidão o melhor momento de semear e colher.
Planisfério (ou mapa de
estrelas) sumério de 3300 a.C.,
aproximadamente, com representação
de diversas constelações.
A ESCRITA CUNEIFORME
Os registros escritos mais antigos conhecidos até o
momento foram encontrados em ruínas de um templo
na cidade de Uruk, onde hoje se encontra o Iraque, com
data aproximada de 4000 a.C. São sinais com aspecto de
um prego de cabeça larga, lembrando uma cunha, grava
dos na argila. Por isso, a escrita suméria ficou conhecida
como cuneiforme.
Comunicado real em escrita
cuneiforme. 2350 a.C.
6,7 cm # 6,2 cm # 2 cm. Peça
suméria encontrada na Síria.
Museu de Idlib, Síria.
A necessidade de registrar estoques de alimentos, impostos recebidos, transações
comerciais efetuadas e leis expedidas impulsionou os sumérios a desenvolver um dos mais
antigos sistemas de escrita do mundo, inventado por volta de 4000 a.C.
De início, as anotações eram feitas com uma haste de bambu em placas de argila
úmida, posteriormente postas para secar ao sol. Cerca de 500 anos depois, as hastes de
bambu foram substituídas por estiletes com ponta em forma de cunha. Por isso, esse tipo
de escrita ficou conhecido como cuneiforme.
Em um primeiro momento, a escrita suméria tinha como base símbolos que significavam palavras. Por exemplo: o desenho da cabeça de um boi queria dizer “boi”; uma tigela
significava “comida” – essa escrita foi chamada de pictográfica. Os sumérios utilizavam
cerca de 2 mil sinais, mas havia dificuldades para expressar ideias mais abstratas.
Pouco a pouco, foram introduzidas modificações, e os pictogramas passaram a representar sílabas ou sons. Isso permitiu que, por volta de 2500 a.C., o número de pictogramas
se reduzisse a 600.
Tablete sumério com
inscrições cuneiformes,
produzido por volta do
século XV a.C. Ao lado
dele, um envelope que foi
utilizado para armazenar
a mensagem para envio.
As marcas nos tabletes de argila eram feitas com objetos em forma de cunha. Por essa razão, essa escrita é conhecida como cuneiforme.
As marcas nos tabletes de argila eram feitas com objetos em forma de cunha. Por essa razão, essa escrita é conhecida como cuneiforme.
Inicialmente, a escrita suméria era utilizada apenas
em atividades contábeis: registros de pagamentos e
recebimentos, controle de estoques
e circulação de produtos, arrecadação de impostos etc. Com
o passar do tempo, a escrita
foi aprimorada e começou
a ser usada também na
elaboração de contratos,
declarações reais, cartas
e poemas.
Escribas
Aprender a escrita cuneiforme era uma tarefa que exigia vários
anos de rigorosos treinamentos. As aulas eram ministradas nas
edubbas, escolas de escribas que funcionavam perto dos templos
ou do palácio real.
Em geral, os escribas eram homens oriundos de famílias de
posses e frequentavam as edubbas desde o início da juventude. A
população em geral, contudo, era iletrada, prevalecendo entre eles
a tradição oral.
A escrita cuneiforme se espalhou pela Mesopotâmia, chegando a
outras localidades, como o Egito e a ilha hoje conhecida como Chipre.
Selo cilíndrico e documento impresso com esse instrumento na cidade de Nippur (2900 a.C. -
2350 a.C.).
O selo cilíndrico era um pequeno cilindro de pedra com desenhos e textos em escrita cuneiforme
entalhados. Funcionava ao ser deslizado sobre um material, como argila molhada, peças de cerâmica e
tijolos, marcando sua superfície.
As edubbas proliferaram, contribuindo para a difusão das línguas faladas na Mesopotâmia.
Uma delas, a acadiana – derivada do idioma sumério –, tornou-se, com o tempo, a língua
oficial e diplomática dos povos mesopotâmicos. Diversos documentos, como tratados de
paz e declarações de guerra, foram escritos nesse idioma.
A escrita cuneiforme foi utilizada no Oriente Médio até os primeiros anos da Era Cristã.
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