Mesopotâmia, palavra que significa “entre rios”, é o nome de uma região do Oriente
Médio localizada entre os rios Tigre e Eufrates. Atualmente, essa região é formada por países como Iraque, Kuwait, Síria e Irã. No passado, ela formava com o Egito um arco semelhante a uma lua crescente. Devido a isso, e também à qualidade de suas terras, ótimas para a agricultura, esse arco ficou conhecido como Crescente Fértil. Neste lugar, surgiram as primeiras
cidades conhecidas pela história.
A paisagem do Oriente Médio é formada, em grande parte, por desertos e montanhas, e desde a Antiguidade as condições para o cultivo de alimentos e a criação de animais são muito difíceis.
A Mesopotâmia, no entanto, tinha uma característica diferente:
em certas épocas do ano, os rios
Tigre e Eufrates enchiam e inundavam suas margens. A água das
cheias era canalizada e utilizada para a irrigação do solo, tornando-o
apropriado para o desenvolvimento da agricultura.
As pessoas se fixaram nesse local pois as terras ao redor
eram áridas e a Mesopotâmia, por ser
banhada pelos rios que inundavam
periodicamente o seu entorno, tinha
terras férteis, o que possibilitou a
agricultura.
Aproveitando a fertilidade do solo da Mesopotâmia, vários povos
nela se fixaram e, no decorrer de
milhares de anos, desenvolveram
civilizações, entre elas a dos sumérios e a dos babilônios.
Os sumérios foram os primeiros povos sedentários a se estabelecerem na Mesopotâmia, por volta de 8500 a.C., perto do Golfo Pérsico, onde os dois rios deságuam. Por milênios, eles exerceram grande influência sobre outros povos, até serem dominados pelos acadianos, em 2350 a.C. Séculos mais tarde, aproximadamente em 1900 a.C., a civilização suméria desapareceu após guerras constantes.
Esses povos, apesar de terem línguas e costumes diferentes, exerceram influências culturais uns sobre os outros. Assim, eles adquiriram semelhanças, por
exemplo, na religião, nas técnicas de construção e na escrita. Por causa dessas
semelhanças, eles são conhecidos como povos mesopotâmicos.
Além dos sumérios e dos babilônios, vários outros povos habitaram a Mesopotâmia, como os assírios. Alguns desses povos já viviam ali, outros vieram de lugares distantes, atraídos pela riqueza da “terra entre rios”. Eles travaram muitas guerras pelo domínio da região, ocasionando o sucessivo domínio de um povo sobre o outro.
Primeiros povos e a formação das cidades
De acordo com estudos arqueológicos, a região da Mesopotâmia já era ocupa
da por grupos humanos por volta de 8000 a.C. Esses grupos, que já haviam domesticado cabritos e carneiros e sabiam cultivar trigo e cevada, abandonaram aos
poucos a vida nômade e se estabeleceram em aldeias. Posteriormente, cerca de 6 000 a.C., essas populações desenvolveram tecnologias para
controlar os recursos hídricos.
No período das cheias, o curso das águas se
tornava bastante volumoso e, por isso, os mesopotâmicos utilizavam muros
e diques para proteger as suas plantações. Para os períodos de seca, eles
construíam poços para armazenar as águas da chuva, mantendo, assim, os
canais que irrigavam as plantações. Essas tecnologias permitiram a produção
de excedentes, favorecendo o aumento da população, o desenvolvimento do
comércio e o surgimento das cidades.
Entre esses grupos humanos estavam os sumérios, que provavelmente foram os
primeiros a utilizar técnicas de irrigação em suas lavouras. Eles construíram canais
e represas que permitiram o aproveitamento das águas dos rios Tigre e Eufrates
para irrigar as plantações. Dessa forma, ampliaram as áreas cultivadas e conseguiram produzir mais alimentos do que o necessário para a alimentação, o excedente.
O campo não deixou de ser importante para o funcionamento da sociedade mesopotâmica: as cidades dependiam dele. Era do campo que vinham
os alimentos para a população urbana e parte das matérias-primas que eram
usadas na construção de edifícios, na fabricação de móveis e monumentos,
entre outros.
O excedente de alimentos ocasionou grandes modificações no modo de vida
dos mesopotâmicos. A população aumentou e as aldeias cresceram. Muitas pessoas puderam deixar de trabalhar na agricultura para se dedicar a outras atividades. Surgiram, então, vários tipos de trabalhadores especializados, como tecelões, ceramistas, carpinteiros e comerciantes.
Como era necessário o esforço conjunto de muitos agricultores para construir
e manter os diques e canais de irrigação, surgiram também especialistas no planejamento e na administração dos trabalhos, o que deu origem a um sistema de
governo. Além disso, para defender suas terras contra a invasão de povos estrangeiros, foram organizados exércitos.
Como havia a necessidade de registrar as atividades agrícolas e comerciais para
controlar a cobrança de tributos, os sumérios desenvolveram um sistema de escrita, chamado cuneiforme. Havia também os sacerdotes, pessoas que se dedicavam às questões espirituais e relacionadas às divindades. Eles eram os condutores
de uma religião que tinha numerosos deuses (politeísta) e dava explicações a
questões relativas ao ser humano e à natureza. Além disso, para regular o convívio
social, os mesopotâmicos criaram leis e as registraram por escrito.
Os povos mesopotâmicos, por volta de 3500 a.C., já haviam desenvolvido vários
elementos que convencionalmente caracterizam uma civilização, como a formação de núcleos urbanos, uma religião e um governo organizados, um sistema de
escrita e uma divisão do trabalho.
DIFERENTES POVOS, MESMO TERRITÓRIO
Sumérios, acádios, babilônicos, assírios e caldeus foram os
principais povos a se estabelecer na região da Mesopotâmia.
Durante séculos, eles ocuparam sucessivamente o território e
alguns deles chegaram a conviver.
O contato entre os povos mesopotâmicos nem sempre foi
pacífico, mas marcado por guerras cujo objetivo principal era
obter a hegemonia sobre as áreas férteis e os pontos estratégicos para o comércio. Apesar disso, os contatos favoreceram
tanto as trocas culturais – entre elas, de costumes e expressões
religiosas – como as de conhecimentos técnicos.
Esses povos tinham em comum, por exemplo, a economia
com base na produção agrícola e pecuária, possibilitada, em
grande medida, pelas técnicas de irrigação com as águas do
Tigre e Eufrates, e o desenvolvimento de estruturas de Estado.
Além disso, os mesopotâmicos utilizavam utensílios e ferramentas criados ao longo dos séculos e se caracterizavam pelo politeísmo, isto é, a crença na existência de diversas deidades. Também foram um dos primeiros a desenvolver sistemas de escrita.
Os sumérios e suas cidades
Os sumérios foram os primeiros a se organizarem em centros
urbanos na Mesopotâmia. Eles fundaram as cidades mais antigas
das quais se tem conhecimento, entre elas Kish e Uruk.
As cidades sumérias eram rodeadas por muralhas e tinham
duas grandes construções: o palácio (que era a sede do poder
político) e o templo (sede do poder religioso). A urbanização possibilitou a organização das atividades econômicas, incluindo a
agricultura e a circulação de produtos. Devido à concentração
de população nessa região, foram necessárias grandes obras
públicas que facilitassem a vida dos habitantes, o que estimulou o
desenvolvimento da arquitetura urbana.
Em relação à política, os sumérios se organizavam em cidades-Estados
independentes entre si e que tinham as próprias leis e o próprio governo.
Seus chefes políticos tinham poderes administrativos (controle do governo e
da riqueza material), militares (comando sobre os exércitos) e religiosos (uma
vez que eram considerados representantes dos deuses). Assim, o governante
era em geral uma espécie de rei-sacerdote, além de um poderoso chefe militar.
Além da urbanização, a sociedade suméria foi marcada pelo desenvolvimento da escrita. Os sumérios organizaram registros escritos que eram feitos
em placas de argila úmida, conhecidas como tabletes. O seu sistema de escrita
era chamado cuneiforme e tinha mais de 2 mil sinais que surgiram das necessidades econômicas e religiosas dessa sociedade.
As sociedades mesopotâmicas
Na Mesopotâmia, o poder político era privilégio dos homens e passava de pai para filho; as mulheres quase nunca chegavam ao poder. Além disso, a sociedade mesopotâmica era hierarquizada. No topo estava o rei, que, originalmente, era o líder da comunidade e seu comandante militar, em caso de guerra. Abaixo do rei vinham os sacerdotes, os nobres e os chefes militares. A seguir, os comerciantes, os escribas e os artesãos especializados. E, por último, os camponeses e os escravizados (prisioneiros de guerra ou pessoas que não conseguiam pagar dívidas; eram minoria na população).
As sociedades mesopotâmicas, de modo geral, eram desiguais. O rei era tido
como representante dos deuses na Terra. Tinha grande poder e raramente era
questionado, pois a população temia que, caso se rebelasse contra o rei, estaria
se rebelando contra os deuses.
Estátua de Gudea, rei da cidade de Lagash, de c. 2100 a.C.
O rei era visto como servidor do deus da cidade. Por isso,
os bens oferecidos a esse deus eram administrados por ele.
A importância atribuída ao rei nas sociedades da Mesopotâmia se refletiu nas
produções artísticas dos povos que viveram na região.
Na imagem, por
exemplo, um rei foi representado matando um leão, indicando sua força e coragem. Seguindo o rei, uma pessoa escravizada carrega suas armas de caça.
Existia uma minoria privilegiada, composta de sacerdotes, nobres e chefes militares. Essas pessoas ocupavam os cargos mais altos do governo, exercendo forte
influência na política e na economia.
Os fiscais, escribas e comerciantes eram subordinados às camadas superiores das
sociedades, mas tinham melhores condições de vida que os demais trabalhadores.
A maior parte das sociedades era formada por trabalhadores livres que viviam em condições de pobreza se comparado aos outros grupos sociais e tinham de pagar tributos ao governo. Entre essas pessoas havia camponeses,
artesãos e soldados. Havia também as pessoas escravizadas, que geralmente
eram prisioneiras de guerra ou haviam perdido a liberdade por não consegui
rem pagar as dívidas.
Reis e palácios
Existem diferentes hipóteses para explicar a origem e o fortalecimento do poder dos reis
nas cidades antigas da Mesopotâmia. Segundo uma delas, no início da vida urbana não
existiam reis nem palácios. No entanto, conforme as cidades foram crescendo e acumulando
riquezas, elas passaram a correr risco de invasões e saques.
Diante disso, a defesa das cidades tornou-se uma preocupação para seus habitantes, o
que levou à organização de tropas e à escolha de um chefe permanente para comandá-las.
Esse chefe seria transformado posteriormente no rei.
Nas sociedades da Mesopotâmia, o rei exercia funções políticas e militares. Tinha também
liderança religiosa, pois era visto como um representante dos deuses e, por isso, tinha o poder
de fazer valer as vontades divinas entre os humanos. A partir do II milênio a.C., o poder do rei
passou a ser transmitido a seus parentes, dando origem às monarquias hereditárias.
Os reis e os funcionários do governo também dominaram boa parte das atividades
econômicas. Controlavam, por exemplo, algumas oficinas de artesanato, onde eram
produzidos objetos de metal, cerâmica, tecidos e mobiliário, entre outros bens.
Com exceção da elite, ou seja, pessoas de posição social elevada, a maior parte da
população vivia, de certo modo, em regime de servidão. Isso porque era obrigada a:
• trabalhar para o Estado na construção de edifícios (palácios,
templos), muralhas, canais de irrigação, diques e celeiros;
• pagar impostos ao Estado, arrecadados em forma de ali
mentos, rebanhos e sementes.
A imposição dessas obrigações constitui o que alguns historiadores chamam de servidão coletiva. Essa servidão foi
comum tanto na região mesopotâmica como no Egito antigo,
onde o Estado exercia domínio sobre as terras. No entanto,
os camponeses usufruíam da sua posse: eles produziam para
seu sustento e o de suas famílias e eram obrigados a entregar
parte da produção ao governo.
ALIMENTAÇÃO E TECNOLOGIAS
A alimentação dos povos da Mesopotâmia tinha como base
o trigo e a cevada. Com o trigo, faziam pão e o bulgur, que consistia no cozimento dos grãos desse cereal e era utilizado na
alimentação cotidiana. Com a cevada, fabricavam uma bebida
fermentada que deu origem à cerveja. Tanto a produção dessa
bebida quanto a dos pães evidenciavam o domínio desses povos
sobre os processos de fermentação, indicando conhecimentos
sobre essa técnica utilizada até hoje na produção de alimentos.
Lentilha, grão-de-bico, feijão, cebola, alface, tâmara e uva
também faziam parte da alimentação mesopotâmica e até hoje
são importantes para as comunidades do Oriente Médio, caracterizando-se como típicos dessa região. Ao longo de milênios,
diversos e complexos fluxos migratórios popularizaram a produção e o consumo desses alimentos, que também são apreciados
por muitos brasileiros.
A construção de diques que levavam as águas dos grandes
rios para as áreas mais secas possibilitou a fertilização de extensos territórios. Com mais áreas férteis, os povos mesopotâmicos puderam cultivar mais alimentos, tendo excedentes com
os quais começaram a realizar trocas.
Na pecuária, destacava-se a criação de cabras, ovelhas, bois
e carneiros, que forneciam carne e leite, além de lã e couro. Par
te do leite era transformada em queijo e iogurte por processos
de fermentação.
A olaria e a produção de cerâmica estavam muito ligadas aos
costumes alimentares. Do barro das áreas alagadas, os mesopotâmicos produziam variadas peças de cerâmica e fornos.
Detalhe de relevo assírio, feito por
volta de 645 a.C., representando
a conquista de povos que teriam
fugido pelas plantações às
margens dos rios mesopotâmicos
e seus afluentes. A imagem
traz importantes símbolos da
fertilidade da região, como as
plantações e os peixes no rio.
CONSTRUÇÃO E ORGANIZAÇÃO DAS CIDADES
Na Mesopotâmia desenvolveram-se diversas cidades-Estado,
assim como ocorreu em outros lugares do mundo na Antiguidade. Cada cidade-Estado tinha autonomia sobre a administração,
o governo, as expressões religiosas, etc., porém o conjunto delas
apresentava semelhanças culturais, como os deuses cultuados e os
idiomas. Ou seja, não havia um governo que centralizasse o poder
sobre todas as cidades-Estado, mas relações horizontais entre elas.
Os saberes adquiridos na construção de diques e de canais
foram aproveitados para a construção das cidades. Por exemplo,
devido à disputa pela região, muitas cidades eram muradas e
tinham torres de observação. Essas construções serviam para
proteger a população de ataques inimigos e controlar a entrada
de estrangeiros.
Os edifícios dedicados aos líderes políticos e aos deuses,
como templos, palácios e zigurates, eram diversificados e, muitas vezes, suntuosos. Os caldeus foram engenheiros e arquitetos
muito habilidosos e acredita-se que tenham sido responsáveis
pela construção dos Jardins da Babilônia. Não há vestígios materiais dessa construção, mas há referência a ela em fontes escritas de diversos povos antigos, como hebreus e gregos.
Nas cidades, residiam os governantes, chefes religiosos,
artesãos, comerciantes e escravos. Estes, geralmente, eram
prisioneiros de guerra. Nos espaços urbanos, ocorriam as expressões religiosas, as atividades comerciais e as tomadas de
decisões políticas. Devido à estrutura urbana e à localização
geográfica estratégica, várias cidades da Mesopotâmia se tornaram grandes centros comerciais, atraindo comerciantes de
vários lugares da Ásia, da África e da Europa.
Fachada de zigurate construído
por volta do século XV a.C. pela
dinastia Cassita, que governou a
Babilônia após a queda do governo
de Hamurábi.
ESCRITA SUMÉRIA
Vários povos ao redor do mundo inventaram formas de comunicação escrita. Os historiadores reconhecem que o desenvolvimento da tecnologia da escrita ocorreu em diversos locais,
em momentos mais ou menos simultâneos.
Na Mesopotâmia, os sumérios foram, possivelmente, os
primeiros a produzir registros escritos, por volta de 3500 a.C.
Os caracteres eram gravados em tabletes de argila úmida com
ferramentas de ferro ou de madeira pontiagudas em forma de
cunha, por isso o uso da expressão cuneiforme para nomear
esse sistema de escrita.
A escrita cuneiforme é uma das mais
antigas do mundo. Desenvolvida pelos sumérios no quarto milênio antes de Cristo,
seu nome vem de “cunha”, que era o for
mato do instrumento de junco utilizado
para gravar os sinais em tabletes de barro
úmidos. Após serem gravados, os tabletes
eram expostos ao Sol para secar. Povos
como os sumérios, os babilônios e os assírios utilizaram a técnica cuneiforme para escrever.
Quando queriam representar pequenas
cenas e pessoas, os mesopotâmicos esculpiam figuras em cilindros de pedra ou
bronze e depois aplicavam o cilindro em
suportes de argila.
Uma das principais funções da escrita era controlar as trocas
comerciais. A escrita facilitava o controle da produção e do estoque de alimentos, dos rebanhos e de produtos têxteis, além de possibilitar o registro da contabilidade dos templos e dos palácios reais.
Mesmo com o desenvolvimento de alguns sinais fonéticos, a escrita mesopotâmica continuou muito difícil de ser aprendida, e seu uso
permaneceu restrito aos escribas. Depois, com o
aperfeiçoamento dessa escrita, seu uso foi ampliado e ela passou a ser utilizada para registrar
decretos reais, códigos de leis, hinos, poesias e
cartas de amor.
Os mesopotâmicos produziam tecidos, armas, objetos de cerâmica e excedentes agrícolas que eram trocados por
produtos que eles não tinham, como madeira, estanho, cobre,
marfim e pedras preciosas, vindos, principalmente do Cáucaso,
do Egito, da Pérsia e do Chipre.
A maioria desses materiais era
utilizada para fabricar objetos que seriam usados pelas elites
das cidades-Estado ou exportados para outras regiões do mundo antigo, em troca de mais recursos, de tréguas em conflitos ou
de acordos diplomáticos.
As trocas comerciais entre os mesopotâmicos e outros povos
deram origem a rotas de comércio que ligavam o Oriente Médio
a regiões distantes. Esse comércio se tornou tão complexo que,
com o tempo, esses povos passaram a usar cartas de crédito,
recibos, escrituras e empréstimos como formas de pagamento.
De modo geral, as trocas eram amonetárias, ou seja, não usavam moedas, e o peso dos metais preciosos, como o ouro, servia
de base para calcular os preços.
Além do comércio, os povos da Mesopotâmia entraram em
contato com os costumes de outras sociedades, trocando e conhecendo práticas e saberes. A escrita suméria, por exemplo,
passou a ser utilizada e difundida pelos comerciantes e, dessa
forma, foi adotada por outros povos que a adaptaram de acordo
com as próprias necessidades.
Economia: o campo e a cidade
Os povos da Mesopotâmia dedicavam-se à agricultura, à pecuária, ao artesanato e ao comércio. Usando as águas dos rios Tigre e Eufrates, cultivavam cereais como a cevada, usada na produção da cerveja, e o trigo, usado para fazer o pão.
Além disso, plantavam também o linho e o algodão, usados na confecção de tecidos. Nos espaços entre as plantações cultivavam legumes (como o pepino) e hortaliças (como cebolas e alhos). Ao redor das casas cultivavam frutas, especialmente a tamareira.
Além disso, criavam ovelhas, cabras, porcos e bois (usados também para puxar carroças mais pesadas); jumentos para o transporte de cargas; e carneiros, dos quais extraíam a preciosa lã. Os pastores trocavam seus produtos com os agricultores e ambos realizavam trocas com os habitantes das cidades. O comércio interno ligava o campo à cidade.
Nas cidades mesopotâmicas, havia um grande número de artesãos especializados (tecelões, carpinteiros, ferreiros, joalheiros entre outros) como comprovam as peças encontradas nos sítios arqueológicos do Iraque.
Nas oficinas de palácios e templos eram feitos objetos de cerâmica, madeira e metal, com acabamento refinado, que continuam sendo admirados até hoje. Mas, como a Mesopotâmia era pobre em pedras, madeiras e metais, organizavam-se expedições para buscar essas matérias-primas em lugares distantes, tanto a leste quanto a oeste.
O COMÉRCIO E OS MEIOS DE TRANSPORTE
O comércio da Mesopotâmia com outras regiões era intenso. Seus mercadores percorriam longas distâncias levando para outras regiões cereais, lã e tecidos e, na volta, traziam diferentes produtos. Da Ásia Menor, vinha a madeira (cedro e cipreste); do Egito, os metais (ouro e prata); e, da Índia, artigos de luxo (marfim e pérolas). Quase todo o comércio era à base de troca.
O comércio de longa distância com outros povos só pôde se
consolidar entre os mesopotâmicos com o desenvolvimento e o
aprimoramento dos meios de transporte. A roda, que já era utilizada nos teares para a produção de tecidos de lã e nas olarias,
começou a ser empregada em carroças.
O aprimoramento do uso
da roda possibilitou maior rapidez e o transporte de mercadorias
pesadas tanto para exportação quanto para importação, diminuindo o tempo gasto nos deslocamentos nas rotas comerciais.
Parte da riqueza que circulava pela Mesopotâmia era entregue ao rei (na forma de impostos) e aos sacerdotes (na forma de oferendas feitas aos templos). A população livre também era convocada a trabalhar em grandes obras, como palácios, templos e canais de irrigação.
O aproveitamento dos rios Tigre e Eufrates para navegação
levou ao desenvolvimento de meios de transporte como embarcações, nas quais, com o passar do tempo, foram introduzidos
remos e velas feitos de vegetais ou de peles de animais.
Assim como outros povos da Antiguidade, os mesopotâmicos
desenvolveram importantes conhecimentos ligados à engenha
ria, à matemática e à astronomia, entre outros campos do saber.
Os caldeus, por exemplo, dominavam conhecimentos de matemática (álgebra e geometria), fundamentais para a construção
e o comércio.
Em relação à astronomia, construíram torres nos
templos para melhor observar os astros. Essas observações
permitiam-lhes prever o movimento dos corpos celestes e, as
sim, identificar as estações do ano e a ocorrência de eclipses,
entre outros fenômenos naturais. Isso também possibilitou a
esse povo criar calendários, especialmente os lunares, com a
divisão da semana em sete dias e do ano em doze meses.
AS EXPRESSÕES RELIGIOSAS
Os povos da Mesopotâmia tinham em comum o politeísmo, ou
seja, o culto a vários deuses aos quais faziam oferendas. Os deuses mesopotâmicos eram ligados a elementos e fenômenos naturais, como Shamash (o Sol), Anu (o céu) e Sin (a Lua). Os deuses
dos povos mesopotâmicos são considerados antropozoomórficos
pelos pesquisadores atuais.
Geralmente, cada cidade cultuava um deus específico,
tido como protetor. Com as sucessivas conquistas de um povo por outro, era comum que
o culto ao deus da comunidade derrotada fosse abandonado e substituído
pelo culto ao panteão de deuses do
grupo conquistador.
Por exemplo, a unificação po
lítica e econômica feita pelos babilônicos sobre a Mesopotâmia
resultou no aumento do culto ao
deus Marduk, considerado protetor da cidade da Babilônia.
Detalhe de relevo babilônico do
século X a.C. representando o deus
Marduk (à direita) concedendo
armas e proteção a um dos líderes
da Babilônia.
As mulheres mesopotâmicas
Em geral, os pesquisadores afirmam que as sociedades mesopotâmicas eram patriarcais, isto é, sociedades nas quais os
homens ocupavam as posições de poder. Porém, o papel das
mulheres mesopotâmicas variava de acordo com o grupo social,
a cidade e o povo da qual faziam parte. Por exemplo, as mulheres que integravam as famílias das elites das cidades-Estado
tinham mais liberdade e possibilidade de exercer o poder do que
as camponesas e as artesãs.
A rainha Zenóbia, da cidade de Palmira, na Síria atual, foi
uma dessas mulheres. Ela assumiu o governo da cidade no ano
260 d.C., após a morte do marido. Sob seu reinado, Palmira se
tornou um império. Em 270 d.C., as tropas de Zenóbia conquistaram toda a Síria, parte do Egito Antigo, chegando até a Ásia
Menor. O domínio de Palmira só cessou quando Zenóbia foi der
rotada e sequestrada pelos romanos antigos.
No Código de Hamurábi, dos babilônicos, há trechos que
indicam que as mulheres dessa sociedade estavam em pé de
igualdade com os homens e eram reconhecidas praticamente
como iguais nas relações matrimoniais, com direito a se divorciar e a receber heranças.
A posição de sacerdotisa também garantia às mulheres mesopotâmicas mais influência política. Aquelas que conquistavam
essa posição podiam aprender a escrita cuneiforme e os conhecimentos de astronomia e matemática, além de se reunir com os
governantes para deliberar os rumos políticos. A princesa acádia
Enheduanna, filha do rei Sargão I, é um exemplo disso: desempenhou importante papel diplomático durante o governo de seu
pai e foi considerada a principal liderança religiosa no período.
Detalhe de relevo acadiano em
calcita branca feito entre
2350 a.C. e 2300 a.C. Ao centro,
a princesa Enheduanna
liderando cerimônia religiosa.
Os impérios acadiano e babilônico
Com o tempo, as cidades sumérias entraram em declínio e tiveram suas
terras conquistadas pelos acádios, formando o Império Acádio.
Por volta de 2200 a.C., os sumérios foram conquistados pelos acádios,
povo semita que ocupava a região central da Mesopotâmia. Com um
exército eficiente, os acádios criaram um dos primeiros impérios da
história, o Império Acádio (ou Acadiano), com o poder centralizado
na cidade de Ágade (ou Acádia).
Entretanto,
esse império não foi duradouro: logo perderam poder para os amoritas,
que constituíram o Império Babilônico. Em ambos os casos, observamos a
formação de impérios, ou seja, vastos territórios dominados por um único
governante, geralmente, denominado imperador. Essas áreas eram integradas ao território do império ao serem conquistadas, normalmente por
meio de missões militares.
Por volta de 1900 a.C., a região da Mesopotâmia foi dominada pelos
amoritas, que vinham da região da Arábia. Eles fundaram a cidade
da Babilônia, de onde se expandiram e estabeleceram o Primeiro
Império Babilônico.
O Primeiro Império Babilônico foi formado entre os séculos XVIII a.C. e
XVI a.C., com sede na cidade da Babilônia. Seu imperador mais conhecido foi
Hamurábi, que iniciou seu governo no século XVIII a.C., conquistou o Reino
de Mari e Assíria e estendeu as fronteiras de seu império até o Golfo Pérsico.
Durante o governo de Hamurábi, a Babilônia tornou-se um dos
maiores centros comerciais do mundo antigo. Após sua morte, muitas
revoltas populares dividiram o império, facilitando invasões externas
e a dominação pelos assírios.
Além de suas conquistas, Hamurábi ficou conhecido por criar um código de lei
para o mundo mesopotâmico, conhecido como Código de Hamurábi. Esse é
o primeiro registro escrito de leis conhecido pelos historiadores e influenciou
diversas legislações ao longo da história e em diferentes partes do planeta.
Uma das principais fontes para o estudo da história do Império
Babilônico é uma estela (uma coluna de pedra) com inscrições feitas
durante o governo do rei Hamurábi (1792-1750 a.C.). Durante o seu
reinado, Hamurábi mandou registrar em escrita cuneiforme as leis que
ele havia estabelecido e que deveriam servir como referência para a
aplicação da justiça em seu reino. Esse conjunto de leis ficou conhecido como Código de Hamurábi.
Código de Hamurábi
Discutimos o Império Babilônico e um de seus imperadores mais conhecidos, Hamurábi. Destacamos que
um legado importante desse governante foi o Código de
Hamurábi, um conjunto de normas cuja escrita foi talha-
da em um monumento de pedra negra de 2,25 metros
de altura.
Essas leis derivavam de um conjunto de costumes,
criando uma tradição jurídica ao estabelecer regras sobre
a propriedade e as relações sociais.
O Código era composto de 281 preceitos (ou seja,
ordens e proibições) que regulavam situações concretas e
pontuais do cotidiano, considerando o comércio, as posses, a vida familiar e o convívio entre os súditos.
Suas normas foram divulgadas por todo o reino
para que os direitos e os deveres fossem conhecidos por
todos que vivessem no território babilônico.
Uma das características mais conhecidas do Código
de Hamurábi é a determinação de quais ações eram consideradas crime e quais eram suas respectivas punições.
Esse documento tinha como base a chamada Lei de
Talião, que é conhecida pela expressão “olho por olho,
dente por dente”, isto é, seu princípio era que para cada
crime deveria existir uma punição proporcional, o que
poderia incluir a morte.
Assírios e caldeus: ascensão e queda dos impérios
Os assírios foram povos que se estabeleceram ao norte da Mesopotâmia
em aproximadamente 1300 a.C., concentrando-se na região onde se localizava
a cidade de Assur, às margens do Rio Tigre. Ao sofrer ataques de outras populações, os assírios se especializaram em técnicas militares e formaram um poderoso
exército, o que possibilitou expandir o território, tomando regiões entre as margens do Rio Tigre e o Mar Mediterrâneo e, mais tarde, conseguiram conquistar
todo o território da Mesopotâmia.
Após a morte de Hamurábi, o Império Babilônico enfraqueceu, o que permitiu
a dominação dos assírios sobre os seus territórios durante o reinado do governante assírio Tiglate-Pileser III (745-727 a.C.). As forças militares assírias eram
compostas por infantaria, cavalaria e carros de combate, o que tornou possível
cercar as cidades e destruir os seus muros. Essa era a forma que a sociedade assíria
conseguia invadir, saquear e conquistar diversas cidades.
Outra consequência das
invasões assírias era o aumento de pessoas escravizadas, uma vez que elas eram
prisioneiras de guerra. A mão de obra escrava foi usada nas propriedades agrícolas
e foi importante para a economia assíria, principalmente durante o século VIII a.C.
Os assírios fundaram várias cidades, como Assur, Nínive e Nimrud.
Sob o reinado de Assurbanipal, que governou no século VII a.C.,
o Império Assírio alcançou sua máxima extensão, abrangendo a área
do Egito à Pérsia.
A dominação
assíria gerou muitas revoltas e, além disso, a extensão do território dificultava
a administração, o que gerou o enfraquecimento desse povo. Em consequência
disso, o Império Assírio foi conquistado pelos caldeus em 612 a.C., povos que
vieram do sul da Mesopotâmia.
Após derrotar os assírios, os caldeus ergueram
na Babilônia um novo império, o Império Caldeu,
também conhecido como Segundo Império Babilônico.
Nesse período, a Babilônia tornou-se uma das cidades mais ricas e belas da época, com a construção de
muralhas, templos, torres, portais e palácios.
Seu principal monarca foi Nabucodonosor II
que conquistou territórios na Palestina e no Egito
e realizou grandes projetos arquitetônicos, entre os
quais os Jardins Suspensos da Babilônia.
Os governantes caldeus, contudo, não conseguiram manter a
unidade do território, que foi conquistado pelos persas em 539 a.C.
O comércio com outros povos
Os mesopotâmicos mantinham relações comerciais com povos que viviam em outras regiões.
Caravanas de mercadores viajavam para diversos
lugares, como a Ásia Menor, o Egito, a Arábia e a
Pérsia, para obter produtos escassos na região
mesopotâmica, como madeira, pedras preciosas
e metais.
Esses produtos serviam de matéria-prima para a
fabricação de armas e joias, que eram exportadas
depois de prontas. Os mesopotâmicos exportavam
também tecidos e cevada. O governo controlava o
comércio e a produção do campo e das cidades,
cobrando tributos sobre todas essas atividades.
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