Os registros rupestres estão entre os principais vestígios gráficos das comunidades do Paleolítico e eram utilizados como meio de comunicação e de expressão. Trata-se de imagens gravadas em grandes rochas, em paredões de pedra e nas paredes internas e externas de grutas ou de cavernas. Essas imagens foram encontradas em todos os continentes, exceto na Antártida.
Há várias teorias sobre as funções desses registros. A função religiosa é uma delas. Outra hipótese é que esses registros possibilitavam trocas culturais, já que foram encontrados em diferentes regiões. Quando passava por determinado local, um grupo de pessoas gravava imagens sobre sua passagem, as quais seriam vistas pelos próximos ocupantes desse lugar. Do mesmo modo, ao chegar a um novo local, esse grupo também poderia encontrar os registros deixados por outros que haviam estado ali antes.
As imagens gravadas representavam cenas de momentos
em grupo e do cotidiano, além de caçadas, alimentos vegetais
e símbolos que poderiam servir para fazer a contagem de algo,
como calendários ou representações astronômicas.
Entre as técnicas utilizadas para fazer as gravuras estavam as de abrasão e as de incisão: primeiro, era feita uma
raspagem (abrasão) na superfície rochosa; depois, essa
superfície recebia pequenos cortes (incisões) com um instrumento cortante, formando grafismos chamados petróglifos.
Também podia ser empregada a técnica da picotagem, que
consistia em bater uma pedra sobre a rocha em que se desejava marcar os grafismos.
Grafismos em rocha datados de cerca de 77 mil anos
atrás. Essa peça foi descoberta em uma caverna na
África do Sul.
Gravuras rupestres feita em bloco rochoso em Ingá (PB). As datações podem chegar a 6 mil anos.
PRODUÇÃO PICTÓRICA
Os seres humanos do Paleolítico não produziram apenas objetos relacionados à
sua sobrevivência, como armas para abater animais e utensílios para retirar a pele
e cortar a carne. Eles também produziram pinturas e gravuras que exprimiam o
cotidiano dos grupos humanos e o significado que davam à sua existência.
Há indícios de que as primeiras pinturas rupestres tenham
sido feitas há mais de 30 mil anos.
Geralmente, essas pinturas eram produzidas com corantes extraídos de plantas, de carvão vegetal ou de rochas. Muitas vezes, esses corantes eram diluídos ou fixados com uso
de água, sangue ou gordura animal ou vegetal.
As técnicas
de pintura podiam ser realizadas com carimbos das mãos, pincéis feitos de pontas de ossos ou de pedras ou, ainda, com o
sopro dos pigmentos (com a ajuda de uma espécie de canudo).
As produções incluíam grafismos ou representações de animais
e de seres humanos em cenas diárias.
As pinturas encontradas na gruta
de Altamira, na Espanha, podem
ter até 16 mil anos e impressionam
pelo realismo dos animais
representados. As pessoas que os
pintaram utilizaram as saliências
das rochas para produzir um efeito
que dá a impressão de volume.
A representação cartográfica mais antiga da Europa
Estudos apontam que um pedaço de laje, conhecido como
Laje de Saint-Bélec, seja uma produção do período entre 1900 e
1650 a.C., período conhecido como Idade do Bronze.
A peça foi descoberta em 1900, durante escavações em um
sítio arqueológico em Finistère, na Bretanha, pelo arqueólogo
Paul du Châtellier. Mas a laje ficou guardada por décadas em
um fosso no Château de Kernuz, castelo onde vivia Châtellier.
Em 2014, pesquisadores que bus
cavam pelo objeto o encontraram
no porão do castelo.
Depois de analisar marcas e
gravuras esculpidas na pedra, os
arqueólogos suspeitaram que pudesse se tratar de um mapa, pois
os recortes são uma representação em 3-D do Vale do Rio Odet, e
as linhas parecem representar a
rede de rios existentes na região.
A Laje de Saint-Bélec é
considerada o mapa mais
antigo conhecido na Europa
e tem por volta de 4 mil anos.
Museu Nacional de
Arqueologia da França.
Um trabalho de geolocalização
revelou que o território representa
do na laje tem exatidão de 80% em
relação a um trecho de 29 km do rio.
Essa descoberta histórica indica que os nossos ancestrais tinham ferramentas de localização
muito sofisticadas, evidenciando
importantes conhecimentos cartográficos.
A arte rupestre
As pinturas feitas pelos primeiros seres humanos em cavernas, abrigos ou até ao ar livre são chamadas de arte rupestre. Animais, plantas e cenas de caça eram desenhados na pedra. A forma mais comum de arte rupestre são as pinturas.
A pintura rupestre é uma das mais antigas expressões artísticas da humanidade. Ela era feita em cavernas, grutas ou paredes ao ar livre. Os traços eram
pintados diretamente com os dedos ou com o auxílio de utensílios, como pedaços de madeira e palha. As cores eram obtidas utilizando diversos materiais,
como carvão, cera de abelha e sangue.
Elas eram feitas com
tinta fabricada pela mistura de certos pigmentos, obtidos de alguns minerais e
vegetais. Veja alguns exemplos:
• com ferrugem (cujo nome científico é óxido de ferro) e manganês eram produzidas as cores vermelha, amarela e ocre;
• com urucum e carvão eram obtidas as cores vermelha, preta e marrom.
Além de revelar o senso artístico desses povos, os especialistas supõem que
as pinturas rupestres também tinham uma função educativa. Eram provavelmente usadas para ensinar aos mais jovens como realizar as atividades do dia a
dia: caçar, pescar, defender-se dos perigos, etc.
Um aspecto interessante das inscrições rupestres é que elas podiam ser complementadas ao longo de várias gerações. Isso significa que uma pessoa, por
exemplo, fazia um desenho ou pintura e, muitos anos depois, outra pessoa
acrescentava detalhes a eles.
Por meio da observação das pinturas rupestres, é possível descobrir informações sobre o cotidiano de grupos humanos que viveram em diferentes regiões
do mundo durante os períodos Paleolítico e Neolítico.
Observe a pintura a seguir, feita durante o período Neolítico.
Essa pintura representa uma cena de caçada. Por meio de sua observação,
podemos perceber que os homens caçavam animais de grande porte utilizando
arco e flecha.
No Período Neolítico, os seres
humanos passaram a aparecer nos desenhos.
As cavernas de Lascaux, na França, são famosas pela variedade e pelo tamanho das figuras.
A função das pinturas rupestres e estatuetas não era decorativa. Elas são
consideradas manifestações artísticas do período e geralmente representam
aspectos do cotidiano. Foram encontrados indícios de que os primeiros grupos
humanos também costumavam enterrar os mortos em cavernas ou túmulos
coletivos, que eram demarcados por grandes blocos de pedra.
Os seres humanos do Paleolítico não produziram apenas objetos relacionados à sua
sobrevivência, como armas para abater animais e utensílios para retirar a pele e cortar a
carne. Eles também produziram pinturas e gravuras que exprimiam o cotidiano dos grupos
humanos e o significado que davam à sua existência.
Conhecidas como figuras rupestres, essas pinturas e gravuras foram feitas em paredes de
cavernas ou em outros abrigos pré-históricos. As primeiras figuras rupestres eram desenhos
de animais e foram feitas entre 35 mil e 30 mil anos atrás. Por volta de 17 mil anos atrás já
eram produzidas figuras mais elaboradas, mas ainda sem proporção. Exemplo disso são os
desenhos de animais encontrados na caverna de Lascaux, na França.
Aproximadamente 5 mil anos mais tarde, as imagens ganharam mais realismo e proporção. As pinturas da caverna de Altamira, na Espanha, são um exemplo dessa nova fase. Por
volta de 10 mil anos atrás, as imagens passaram a representar também a figura humana em
cenas de dança, luta e caça ou em rituais mágicos.
As pinturas rupestres são fontes históricas fundamentais para compreender como era o modo de vida das populações do Paleolítico. Observando essas representações, percebe-se que os grupos humanos daquela época já tinham elevado grau de desenvolvimento, comunicavam-se e transmitiam conheci mentos, além de praticarem suas crenças e seus rituais sagrados. Os desenhos eram feitos com pinturas naturais e eram utilizados instrumentos como penas, pelos, espinhos, ossos e folhas.
A Caverna das Mãos, situada
na província de Santa Cruz, na
atual Patagônia argentina, abriga um dos registros rupestres
considerados mais importantes
do continente americano. Esses registros
foram feitos entre 9500 e 13 mil
anos atrás por ancestrais dos
indígenas Tehuelche, que habitaram aquela região.
A interpretação da imagem
sempre foi polêmica. As mãos
são pequenas e, curiosamente,
a maioria é esquerda. Alguns
historiadores consideram essa
pintura rupestre a representação de um ritual de sacrifício de um jovem membro do grupo. Outros
afirmam que as mãos eram do autor da pintura. Em todo caso, os estudiosos consideram que a habilidade com o uso das mãos tem um significado fundamental na formação da humanidade, o que
pode estar representado nessa imagem.
Pintura rupestre no Brasil
Os antigos habitantes do território onde hoje é o Brasil também deixaram vestígios de pinturas rupestres, que são desenhos ou pinturas feitos em rochas ou
paredes de cavernas.
Essas pinturas rupestres eram feitas com diferentes tipos de materiais, como
urucum, carvão e jenipapo. Já os instrumentos utilizados para produzir essas pinturas dependiam do estilo de representação de cada grupo. Podiam ser usados,
por exemplo, o que pareciam ser pincéis feitos com pelos e fibras, espinhos de
plantas e folhas. Algumas pinturas eram feitas somente com as mãos.
Pinturas rupestres feitas pelos
primeiros habitantes do atual Brasil.
Parque Nacional da Serra da Capivara,
Piau’.
Os pesquisadores costumam estabelecer uma classificação para facilitar o es
tudo da pintura rupestre. Os tipos de marcação rupestre são classificados de
acordo com as chamadas tradições artísticas. Conheça algumas delas.
Tradição Nordeste (10000 a.C.-4000 a.C.)
É composta de figuras humanas e de animais,
geralmente representadas em movimento, e de
plantas e objetos. As cenas mais comuns são
as de caça e de rituais. As cores usadas nessa
tradição são bastante diversificadas, predominando as diferentes tonalidades de vermelho.
Tradição Agreste (4000 a.C.-1000 a.C.)
Dificilmente apresenta cenas de movimento
ou com narrativas. Quando há representações
de humanos, eles aparecem de forma paralisada e isolada. Os traços são espessos, e as
figuras têm poucos detalhes.
Tradição São Francisco (5000 a.C.-800 a.C.)
É rara a presença de imagens humanas
nessa tradição, que faz uso de padrões geométricos, com pontilhados, traços e sequências paralelas e entrecruzadas.
Tradição Planalto (6000 a.C.-2000 a.C.)
A maior parte das pinturas dessa tradição
apresenta figuras de animais, que são representados em tamanho grande, sem proporção
e com poucos detalhes. Os animais que mais
aparecem nas pinturas são cervos e peixes.
Petróglifos
Nos sítios arqueológicos brasileiros, além
de imagens pintadas e desenhadas, são encontrados petróglifos, marcações feitas com
incisões nas rochas. Os petróglifos eram
gravados com instrumentos pontiagudos,
cortantes ou de raspagem.
Um dos casos mais interessantes é a
Pedra do Ingá, localizada na Paraíba. Com
24 metros de extensão e 3 metros de altura,
esse painel apresenta inscrições e símbolos
que ainda são estudados pelos pesquisadores. Acredita-se que esses petróglifos tenham sido feitos há cerca de 6 mil anos.
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