domingo, 20 de setembro de 2026

OS REGISTROS RUPESTRES

Os registros rupestres estão entre os principais vestígios gráficos das comunidades do Paleolítico e eram utilizados como meio de comunicação e de expressão. Trata-se de imagens gravadas em grandes rochas, em paredões de pedra e nas paredes internas e externas de grutas ou de cavernas. Essas imagens foram encontradas em todos os continentes, exceto na Antártida.
Há várias teorias sobre as funções desses registros. A função religiosa é uma delas. Outra hipótese é que esses registros possibilitavam trocas culturais, já que foram encontrados em diferentes regiões. Quando passava por determinado local, um grupo de pessoas gravava imagens sobre sua passagem, as quais seriam vistas pelos próximos ocupantes desse lugar. Do mesmo modo, ao chegar a um novo local, esse grupo também poderia encontrar os registros deixados por outros que haviam estado ali antes.
As imagens gravadas representavam cenas de momentos em grupo e do cotidiano, além de caçadas, alimentos vegetais e símbolos que poderiam servir para fazer a contagem de algo, como calendários ou representações astronômicas. 
Entre as técnicas utilizadas para fazer as gravuras estavam as de abrasão e as de incisão: primeiro, era feita uma raspagem (abrasão) na superfície rochosa; depois, essa superfície recebia pequenos cortes (incisões) com um instrumento cortante, formando grafismos chamados petróglifos. Também podia ser empregada a técnica da picotagem, que consistia em bater uma pedra sobre a rocha em que se desejava marcar os grafismos.

Grafismos em rocha datados de cerca de 77 mil anos atrás. Essa peça foi descoberta em uma caverna na África do Sul.


Gravuras rupestres feita em bloco rochoso em Ingá (PB). As datações podem chegar a 6 mil anos.

PRODUÇÃO PICTÓRICA 


Os seres humanos do Paleolítico não produziram apenas objetos relacionados à sua sobrevivência, como armas para abater animais e utensílios para retirar a pele e cortar a carne. Eles também produziram pinturas e gravuras que exprimiam o cotidiano dos grupos humanos e o significado que davam à sua existência.
Há indícios de que as primeiras pinturas rupestres tenham sido feitas há mais de 30 mil anos. Geralmente, essas pinturas eram produzidas com corantes extraídos de plantas, de carvão vegetal ou de rochas. Muitas vezes, esses corantes eram diluídos ou fixados com uso de água, sangue ou gordura animal ou vegetal. 
As técnicas de pintura podiam ser realizadas com carimbos das mãos, pincéis feitos de pontas de ossos ou de pedras ou, ainda, com o sopro dos pigmentos (com a ajuda de uma espécie de canudo). As produções incluíam grafismos ou representações de animais e de seres humanos em cenas diárias.

As pinturas encontradas na gruta de Altamira, na Espanha, podem ter até 16 mil anos e impressionam pelo realismo dos animais representados. As pessoas que os pintaram utilizaram as saliências das rochas para produzir um efeito que dá a impressão de volume.

A representação cartográfica mais antiga da Europa 


Estudos apontam que um pedaço de laje, conhecido como Laje de Saint-Bélec, seja uma produção do período entre 1900 e 1650 a.C., período conhecido como Idade do Bronze. 
A peça foi descoberta em 1900, durante escavações em um sítio arqueológico em Finistère, na Bretanha, pelo arqueólogo Paul du Châtellier. Mas a laje ficou guardada por décadas em um fosso no Château de Kernuz, castelo onde vivia Châtellier. Em 2014, pesquisadores que bus cavam pelo objeto o encontraram no porão do castelo.
Depois de analisar marcas e gravuras esculpidas na pedra, os arqueólogos suspeitaram que pudesse se tratar de um mapa, pois os recortes são uma representação em 3-D do Vale do Rio Odet, e as linhas parecem representar a rede de rios existentes na região.

A Laje de Saint-Bélec é considerada o mapa mais antigo conhecido na Europa e tem por volta de 4 mil anos. Museu Nacional de Arqueologia da França.

Um trabalho de geolocalização revelou que o território representa do na laje tem exatidão de 80% em relação a um trecho de 29 km do rio. Essa descoberta histórica indica que os nossos ancestrais tinham ferramentas de localização muito sofisticadas, evidenciando importantes conhecimentos cartográficos.

A arte rupestre


As pinturas feitas pelos primeiros seres humanos em cavernas, abrigos ou até ao ar livre são chamadas de arte rupestre. Animais, plantas e cenas de caça eram desenhados na pedra. A forma mais comum de arte rupestre são as pinturas. 
A pintura rupestre é uma das mais antigas expressões artísticas da humanidade. Ela era feita em cavernas, grutas ou paredes ao ar livre. Os traços eram pintados diretamente com os dedos ou com o auxílio de utensílios, como pedaços de madeira e palha. As cores eram obtidas utilizando diversos materiais, como carvão, cera de abelha e sangue.
Elas eram feitas com tinta fabricada pela mistura de certos pigmentos, obtidos de alguns minerais e vegetais. Veja alguns exemplos:
• com ferrugem (cujo nome científico é óxido de ferro) e manganês eram produzidas as cores vermelha, amarela e ocre; 
• com urucum e carvão eram obtidas as cores vermelha, preta e marrom. 
Além de revelar o senso artístico desses povos, os especialistas supõem que as pinturas rupestres também tinham uma função educativa. Eram provavelmente usadas para ensinar aos mais jovens como realizar as atividades do dia a dia: caçar, pescar, defender-se dos perigos, etc.
Um aspecto interessante das inscrições rupestres é que elas podiam ser complementadas ao longo de várias gerações. Isso significa que uma pessoa, por exemplo, fazia um desenho ou pintura e, muitos anos depois, outra pessoa acrescentava detalhes a eles.
Por meio da observação das pinturas rupestres, é possível descobrir informações sobre o cotidiano de grupos humanos que viveram em diferentes regiões do mundo durante os períodos Paleolítico e Neolítico.

Observe a pintura a seguir, feita durante o período Neolítico.

Pintura rupestre produzida por volta de 5000 a.C., na África do Sul.

Essa pintura representa uma cena de caçada. Por meio de sua observação, podemos perceber que os homens caçavam animais de grande porte utilizando arco e flecha. 

No Período Neolítico, os seres humanos passaram a aparecer nos desenhos. As cavernas de Lascaux, na França, são famosas pela variedade e pelo tamanho das figuras.

Pinturas rupestres da caverna de Lascaux, Patrimônio Mundial da Unesco. Nova Aquitânia, França.

A função das pinturas rupestres e estatuetas não era decorativa. Elas são consideradas manifestações artísticas do período e geralmente representam aspectos do cotidiano. Foram encontrados indícios de que os primeiros grupos humanos também costumavam enterrar os mortos em cavernas ou túmulos coletivos, que eram demarcados por grandes blocos de pedra.
Os seres humanos do Paleolítico não produziram apenas objetos relacionados à sua sobrevivência, como armas para abater animais e utensílios para retirar a pele e cortar a carne. Eles também produziram pinturas e gravuras que exprimiam o cotidiano dos grupos humanos e o significado que davam à sua existência.
Conhecidas como figuras rupestres, essas pinturas e gravuras foram feitas em paredes de cavernas ou em outros abrigos pré-históricos. As primeiras figuras rupestres eram desenhos de animais e foram feitas entre 35 mil e 30 mil anos atrás. Por volta de 17 mil anos atrás já eram produzidas figuras mais elaboradas, mas ainda sem proporção. Exemplo disso são os desenhos de animais encontrados na caverna de Lascaux, na França.
Aproximadamente 5 mil anos mais tarde, as imagens ganharam mais realismo e proporção. As pinturas da caverna de Altamira, na Espanha, são um exemplo dessa nova fase. Por volta de 10 mil anos atrás, as imagens passaram a representar também a figura humana em cenas de dança, luta e caça ou em rituais mágicos.
As pinturas rupestres são fontes históricas fundamentais para compreender como era o modo de vida das populações do Paleolítico. Observando essas representações, percebe-se que os grupos humanos daquela época já tinham elevado grau de desenvolvimento, comunicavam-se e transmitiam conheci mentos, além de praticarem suas crenças e seus rituais sagrados. Os desenhos eram feitos com pinturas naturais e eram utilizados instrumentos como penas, pelos, espinhos, ossos e folhas.
A Caverna das Mãos, situada na província de Santa Cruz, na atual Patagônia argentina, abriga um dos registros rupestres considerados mais importantes do continente americano. Esses registros foram feitos entre 9500 e 13 mil anos atrás por ancestrais dos indígenas Tehuelche, que habitaram aquela região.

Parede da Caverna das Mãos, na Patagônia, Argentina.

A interpretação da imagem sempre foi polêmica. As mãos são pequenas e, curiosamente, a maioria é esquerda. Alguns historiadores consideram essa pintura rupestre a representação de um ritual de sacrifício de um jovem membro do grupo. Outros afirmam que as mãos eram do autor da pintura. Em todo caso, os estudiosos consideram que a habilidade com o uso das mãos tem um significado fundamental na formação da humanidade, o que pode estar representado nessa imagem.

Pintura rupestre no Brasil


Os antigos habitantes do território onde hoje é o Brasil também deixaram vestígios de pinturas rupestres, que são desenhos ou pinturas feitos em rochas ou paredes de cavernas.
Essas pinturas rupestres eram feitas com diferentes tipos de materiais, como urucum, carvão e jenipapo. Já os instrumentos utilizados para produzir essas pinturas dependiam do estilo de representação de cada grupo. Podiam ser usados, por exemplo, o que pareciam ser pincéis feitos com pelos e fibras, espinhos de plantas e folhas. Algumas pinturas eram feitas somente com as mãos. 

Pinturas rupestres feitas pelos primeiros habitantes do atual Brasil. Parque Nacional da Serra da Capivara, Piau’. 

Os pesquisadores costumam estabelecer uma classificação para facilitar o es tudo da pintura rupestre. Os tipos de marcação rupestre são classificados de acordo com as chamadas tradições artísticas. Conheça algumas delas.

Tradição Nordeste (10000 a.C.-4000 a.C.) 

É composta de figuras humanas e de animais, geralmente representadas em movimento, e de plantas e objetos. As cenas mais comuns são as de caça e de rituais. As cores usadas nessa tradição são bastante diversificadas, predominando as diferentes tonalidades de vermelho.

Tradição Agreste (4000 a.C.-1000 a.C.) 

Dificilmente apresenta cenas de movimento ou com narrativas. Quando há representações de humanos, eles aparecem de forma paralisada e isolada. Os traços são espessos, e as figuras têm poucos detalhes.

Tradição São Francisco (5000 a.C.-800 a.C.) 

É rara a presença de imagens humanas nessa tradição, que faz uso de padrões geométricos, com pontilhados, traços e sequências paralelas e entrecruzadas.

Tradição Planalto (6000 a.C.-2000 a.C.)

A maior parte das pinturas dessa tradição apresenta figuras de animais, que são representados em tamanho grande, sem proporção e com poucos detalhes. Os animais que mais aparecem nas pinturas são cervos e peixes.

Petróglifos

Nos sítios arqueológicos brasileiros, além de imagens pintadas e desenhadas, são encontrados petróglifos, marcações feitas com incisões nas rochas. Os petróglifos eram gravados com instrumentos pontiagudos, cortantes ou de raspagem. 
Um dos casos mais interessantes é a Pedra do Ingá, localizada na Paraíba. Com 24 metros de extensão e 3 metros de altura, esse painel apresenta inscrições e símbolos que ainda são estudados pelos pesquisadores. Acredita-se que esses petróglifos tenham sido feitos há cerca de 6 mil anos.




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