domingo, 20 de setembro de 2026

Os amoritas

Por volta de 1900 a.C., os amoritas, um povo semita vindo do deserto da Arábia, estabeleceram-se no centro-sul da Mesopotâmia. E, à semelhança dos acádios, construíram um poderoso império, que abrangia quase toda a Mesopotâmia: o Primeiro Império Babilônico.
O império governado pelos amoritas era chamado de Babilônico, porque a principal cidade da região era a Babilônia. O governante amorita mais conhecido chamava-se Hamurábi. 
Hamurabi (1792-1750 a.C.), o principal imperador babilônico, ocupou-se pessoalmente da administração de seu império, chegando a coordenar a construção de numerosos edifícios públicos, canais de irrigação e açudes. Ao chegar ao trono, ele fortaleceu a centralização do poder sobre todo o território imperial, impondo determinados aspectos culturais aos povos conquistados por meio da construção de templos e zigurates. Sua obra mais célebre, porém, foi um código de leis que influenciou e ainda influencia o mundo atual: o Código de Hamurabi.
Para diminuir a resistência ao poder central, Hamurábi buscou manter algumas estruturas religiosas e políticas locais e adotou elementos da cultura dos povos conquistados em todo o império, como o idioma acádio e a escrita cuneiforme desenvolvida primeiro na Suméria.
Após o governo de Hamurabi, uma série de povos, entre os quais os hititas, conquistaram a Babilônia, causando a desintegração do império. Enquanto isso, despontava na região o povo assírio.

Estela de Hamurabi, 1792-1750 a.C. À esquerda, vemos Hamurabi, rei da Babilônia, recebendo as leis das mãos de Shamash, o deus Sol.

Entre 1750 a.C. e 1300 a.C. houve um longo período marcado por fragmentação política e por disputas territoriais nessa região. Nesse período, formaram-se diferentes impérios, como o dos assírios, o dos caldeus e o dos persas. 

Os assírios

Os assírios se estabeleceram no norte da Mesopotâmia, uma área d de intensa circulação de pessoas, e povos entravam e saíam do vale mesopotâmico. Na luta para garantir seu território, os assírios criaram táticas de guerra e organizaram um exército poderoso, com arqueiros, lanceiros e carros de guerra com rodas de aros. Então, conquistaram terras e povos formando um grande império. O Império Assírio abrangia a Mesopotâmia, a Síria, a Fenícia, a Palestina e o Egito.
Os assírios justificavam a conquista de terras e a escravização de povos dizendo que faziam isso para contentar Assur, seu principal deus. Mas o que tornou os assírios mais conhecidos foi o uso de crueldade contra os adversários. Era comum, por exemplo, cortarem dedos, mãos e orelhas dos prisioneiros. O uso da crueldade visava desencorajar a resistência e abalar o moral do inimigo. Apesar disso, os povos dominados pelos assírios se rebelavam com frequência. Mas o Império Assírio só desmoronou em 612 a.C., quando os caldeus (habitantes da Babilônia), aliados aos medos (vindos do planalto do Irã), atacaram, ocuparam e destruíram Nínive, capital assíria.

Ilustração atual representando um carro de guerra assírio. Os sumérios usavam carros puxados por burros para transportar seus soldados; os assírios reforçaram esses carros com peças de ferro e substituíram os burros por cavalos. Com isso, ganharam mobilidade, transformando um carro usado como meio de transporte em uma arma de combate. A entrada do carro de combate assírio na guerra apavorava o inimigo, facilitando a vitória assíria.



Os caldeus

Os caldeus (ou novos babilônios) também se apoderaram de imensas áreas, constituindo o Segundo Império Babilônico. Durante as violentas campanhas militares chefiadas pelo rei Nabucodonosor II, os caldeus arrasaram Jerusalém (586 a.C.), prenderam milhares de judeus e os forçaram a marchar como escravizados para a Babilônia.
Com as riquezas saqueadas dos povos conquistados, Nabucodonosor II coordenou a reconstrução da antiga Babilônia, que, assim, voltou a ser o principal centro político, econômico e cultural da Mesopotâmia. Os Jardins Suspensos da Babilônia, uma das maravilhas do mundo antigo, teriam sido construídos no seu reinado; mas não há provas escritas nem arqueológicas da existência de tais jardins.
Como outros impérios mesopotâmicos, o novo Império Babilônico também foi abalado por várias revoltas internas. Isso o enfraqueceu e abriu caminho para que os persas, chefiados por Ciro, o Grande, o conquistassem em 539 a.C.


AS SOCIEDADES HIDRÁULICAS

O domínio sobre o fogo e a domesticação de plantas e animais, além da invenção de utensílios de pedra, cerâmica e metais, favoreceram a sedentarização de diversas comunidades, em diferentes momentos da História. 
Um dos lugares em que esses grupos se fixaram, por volta de 4000 a.C., foi a região da Mesopotâmia – localizada na Ásia, mas bastante próxima da África e da Europa –, considerada um importante entreposto de contato entre as culturas desses continentes. As primeiras cidades se desenvolveram próximas aos rios Tigre e Eufrates, que fertilizavam as terras entre eles.
Durante muito tempo, a historiografia tradicional considerou apenas a Mesopotâmia parte do Crescente Fértil, pois acreditava-se que ali teriam surgido as primeiras cidades. 
Atualmente, porém, no contexto histórico dessa região, é possível aproximar o desenvolvimento dos povos mesopotâmicos ao dos povos do norte da África, ao longo do rio Nilo. As sociedades dessas duas áreas integram, portanto, o Crescente Fértil, caracterizando-se como sociedades hidráulicas, ou seja, povos que surgiram e se desenvolveram em áreas próximas de rios.
O desenvolvimento da agricultura, da criação de animais e do comércio esteve intimamente relacionado com o aproveitamento dos recursos hídricos disponíveis. Por isso, muitos dos primeiros assentamentos humanos que deram origem a cidades se localizavam às margens de rios perenes. As cheias dos rios inundavam as terras próximas, fertilizando o solo, e suas águas eram utilizadas para irrigar as plantações. Além disso, o leito dos rios podia servir como via de transporte de pessoas e de mercadorias.
As cidades, ao se expandir, formaram reinos e impérios. Neles, os reis e funcionários tornaram-se os responsáveis por organizar o trabalho de milhares de pessoas para construir obras hidráulicas, como diques e canais de irrigação. A sobrevivência da comunidade dependia do trabalho coletivo coordenado pelo poder central, pois ele garantia o aproveitamento dos recursos da natureza, assegurando o abastecimento de água e impedindo que as cheias dos rios inundassem as cidades.
Esses reinos e impérios antigos que se desenvolveram às margens dos rios e nos quais eram realizadas obras hidráulicas para a prática da agricultura são chamados de civilizações fluviais
Os sumérios foram os primeiros a usar as águas dos rios para irrigação, construindo, para isso, diques e canais. Os acádios eram especializados nas atividades de pastoreio de carneiros e de bois. Os babilônicos criaram o primeiro conjunto de leis escritas, chamado Código de Hamurábi, em referência ao governante que o organizou. 
Os assírios desenvolveram estratégias de guerra e, desse modo, conseguiram alcançar e dominar regiões do Mediterrâneo. Já os caldeus se tornaram exímios construtores, criando tecnologias de engenharia e arquitetura. 
Os egípcios construíram grandes obras hidráulicas, como barragens e canais de irrigação, para direcionar as águas do rio. No Egito, assim como na Mesopotâmia, desenvolveu-se uma civilização na qual a vida coletiva baseava-se no aproveitamento dos recursos hídricos  e, por isso, ela também pode ser considerada uma civilização fluvial.

A RELIGIÃO NA MESOPOTÂMIA

Os mesopotâmicos eram politeístas, ou seja, cultuavam vários deuses, entre eles Anu (deus-pai), Shamash (deus-Sol), Sin (deus da Lua), Inanna (deusa do amor e da guerra), Enki (deus das águas doces), Enlil (deus dos ventos), Marduk (deus protetor da Babilônia) e Nidaba (deusa da fertilidade).
Como a água dos rios era essencial para os povos da Mesopotâmia, um dos deuses mais cultuados era Enki, deus da água doce e fresca onde acreditavam que a terra flutuava. Ele era considerado também o deus da sabedoria.

Escultura de cerca de 2900 a.C. que representa um homem adorando o deus Enlil.

Para os povos da Mesopotâmia, os deuses eram semelhantes aos seres humanos, com a diferença de que eram poderosos e imortais. Eles casavam, tinham filhos, ficavam tristes ou alegres e podiam ser cruéis, invejosos ou caridosos.
Diversos povos da Mesopotâmia acreditavam também que, depois da morte, o espírito da pessoa ia para um mundo inferior, um lugar deprimente e terrível. Assim, não havia a crença em uma vida melhor após a morte. Por esse motivo, homens e mulheres queriam aproveitar ao máximo sua existência e, talvez por causa disso, a juventude era considerada a melhor fase da vida.
Os templos representavam a moradia dos deuses na Terra. Geralmente eram construídos sobre uma torre de escadas chamada zigurate (“prédio alto”). Os zigurates ficavam em posição destacada na cidade para que todos os seus habitantes, inclusive os agricultores das aldeias ao redor, pudessem contemplá-los. Dirigidos por um grão-sacerdote, os templos eram locais de culto e demais cerimônias religiosas. No interior deles, os sacerdotes dirigiam rituais de sacrifício de animais, práticas mágicas e oferendas aos deuses.
Na Mesopotâmia, religião, política e ciência estavam intimamente ligadas. Por isso, os templos também eram centros de pesquisa e ensino, nos quais a escrita e a astronomia tiveram um grande desenvolvimento.
Além de suas atividades religiosas e administrativas, sacerdotes e sacerdotisas eram encarregados de transmitir as tradições de seus povos, formulando e copiando escritos de mitos, hinos, poesias e muitos outros.

Os zigurates 


Os mesopotâmicos criaram os zigurates, grandes construções em forma de pirâmide com vários andares, nas quais realizavam cultos a suas divindades. Na parte mais alta dos zigurates, cujo acesso era por longas rampas e escadarias, ficavam localizados os templos. Nos templos eram realizadas cerimônias religiosas que consistiam em orações, sacrifícios de animais e oferendas aos deuses. Os zigurates também ser viam como depósito para armazenar cereais e como ponto de observação de astros celestes.
Zigurate restaurado da antiga cidade suméria de Ur, no atual Iraque. Fotografia da década de 2000.

Sacerdotes e templos 


Os templos religiosos eram importantes na vida social da Mesopotâmia. Nesses locais, havia culto aos deuses, realização de rituais e recebimento de oferendas. 
Cada templo era considerado o “lar dos deuses”. Cada cidade podia ter vários templos. Só na Babilônia, capital da antiga Suméria (no atual Iraque), havia cerca de cinquenta templos dedicados a diferentes deuses.
No templo, os sacerdotes e as sacerdotisas conduziam as cerimônias religiosas e administravam seus bens e negócios. Com as oferendas que recebiam dos fiéis, os sacerdotes acumulavam riquezas em forma de terras, rebanhos ou sementes, por exemplo. 
Para controlar as atividades econômicas, os sacerdotes desenvolveram um sistema de escrita e numeração (como veremos mais adiante). Em razão do poder religioso e econômico, muitos sacerdotes tiveram forte influência política, sobretudo nas cidades sumérias.

Cultura dos povos mesopotâmicos


Os sumérios criaram uma das primeiras formas de escrita, que foi posteriormente adotada pelos demais povos mesopotâmicos. Com uma espátula, desenhavam em placas de argila sinais com o for mato de pequenos triângulos, chamados de cunha; por isso, sua escrita foi denominada cuneiforme. A abundância de argila nos vales do Tigre e do Eufrates explica o uso desse material na escrita.
As sociedades mesopotâmicas utilizavam a escrita para controlar as atividades comerciais: marcavam o que era estocado, comprado ou vendido, os paga mentos efetuados, os preços das mercadorias. Faziam também registros dos grandes acontecimentos, de rituais religiosos, leis e canções.

Crenças


Os povos mesopotâmicos eram politeístas e, segundo suas crenças, os humanos foram criados pelos deuses para trabalhar para o sustento das divindades.
Cada cidade-Estado pertencia a uma divindade cultua da no principal templo local, e o desenvolvimento da cidade fazia crescer sua popularidade. Em sua honra eram feitas oferendas de comidas e bebidas, sendo parte destinada a alimentar sacerdotes, músicos e serviçais dos templos.
Também realizavam rituais de magia e sacrifícios de animais; havia muitas festividades religiosas ao longo do ano organizadas pelos sacerdotes, quando as estátuas divinas eram levadas em procissão. Entre sumérios e acádios destacaram‑se os cultos à deusa Ishtar, também conhecida por Inanna, venerada como senhora da fertilidade e da guerra.
Eles acreditavam que algumas pessoas podiam ficar in visíveis ou mudar de uma forma humana para outra para escapar da ação dos demônios. Embora acreditassem que, após a morte, as pessoas iriam para o “mundo dos mortos”, preocupavam‑se mais com a vida na Terra.

As sacerdotisas


Na Mesopotâmia, as mulheres exerceram funções religiosas nos templos, dirigindo e participando dos cultos. As sacerdotisas que desempenhavam as atividades mais importantes dos cultos pertenciam à família real e eram consideradas esposas do deus principal do templo.
Ao longo do III e II milênio a.C., o prestígio das sacerdotisas cresceu e, além do papel desempenhado na religião, também conquistaram influência política e sobre as atividades econômicas realizadas nos templos, como a venda e o arrendamento de terras e a produção artesanal.
Mulheres vindas de famílias ricas, como filhas de militares e escribas, podiam se tornar sacerdotisas ao ser ofertadas pelo pai às divindades; e, ao menos duas vezes ao dia, dentro do templo, faziam súplicas para proteção e prosperidade da família do soberano, e pela paz e prosperidade da Mesopotâmia. Pesquisas indicam que os mesopotâmicos se orgulhavam de ter grupos femininos nessas funções.

Cultura e conhecimentos


Entre os conhecimentos desenvolvidos pelas sociedades mesopotâmicas, podemos mencionar noções de Astrologia; com base em observações do céu, criaram os signos do zodíaco. Também faziam o horóscopo das pessoas e previsões sobre o futuro.
Além disso, com base nos astros, criaram um calendário que dividia o ano em doze meses, a semana em sete dias, o dia em 24 horas e a hora em sessenta minutos. Obtiveram grande avanço na Astronomia, descrevendo fenômenos como o movimento elíptico dos astros, e na Matemática, desenvolvendo a construção de grandes obras de Engenharia com cálculos que envolviam a multiplicação e a divisão.

Arquitetura e funcionalidade


A Arquitetura mesopotâmica caracterizou‑se por construções típicas. Para facilitar a defesa, as cidades eram cercadas por muralhas e o acesso a elas era por meio de grandes portões de metal. As obras públicas eram, em geral, luxuosas e imponentes.
Nos principais templos religiosos, erguiam‑se torres denominadas zigurates, construídas em degraus e revestidas com tijolos esmaltados. Os zigurates chegavam a medir 100 metros de altura e foram utilizados como observa tórios astronômicos. No entanto, as moradias da maioria da população eram simples e feitas de barro, sem luxo ou conforto.

Escrita suméria

A escrita não foi inventada por um único povo. Diversas sociedades criaram seus pró prios sistemas de escrita em momentos e lugares distintos da história. Um desses lugares foi a região da Suméria, na Mesopotâmia. Lá, os sumérios desenvolveram um sistema de escrita por volta de 3300 a.C.
Segundo pesquisadores, a escrita suméria surgiu quando a vida nas cidades se tornava cada vez mais complexa. Os sacerdotes teriam percebido que já não podiam confiar apenas na memória e na transmissão oral dos conhecimentos para registrar as atividades dos templos. E essas atividades eram muitas: empréstimos de animais, pagamento a comerciantes, controle de produtos estocados em seus armazéns, entre outras. Para gravar essas informações, supõe-se que aos poucos eles tenham desenvolvido um sistema de escrita. Foram, então, criando sinais que representavam números e outros que representavam coisas como animais, pessoas e mercadorias.
Entre os sumérios, predominava o sistema numérico sexagesimal, que tinha como base o número 60. Esse sistema é utilizado até nossos dias para medir os graus angulares (30°, 90°, 360°) e também o tempo: 1 hora tem 60 minutos, 1 minuto tem 60 segundos.
Além das atividades dos templos, a escrita passou a registrar ensinamentos religiosos, normas jurídicas, literatura. Assim, os sumérios puderam escrever histórias até então transmitidas entre eles apenas de forma oral.
Para escrever, os sumérios utilizavam argila e um tipo de estilete em forma de cunha. A cunha é uma peça de madeira ou metal que serve para esculpir materiais como pedra, madeira e barro. Por causa desse instrumento, a escrita foi chamada de cuneiforme. A escrita cuneiforme foi utilizada para registrar várias línguas faladas na Mesopotâmia, como o sumério, o acádio, o babilônio e o assírio.
Na Mesopotâmia, estudar em escolas era privilégio das elites e, nas aulas, os estudantes aprendiam a ler, escrever e resolver problemas de Matemática.
As turmas eram pequenas, com cerca de quatro alunos, e eles estudavam com uma tábua de argila elaborada pelo professor. A disciplina era rígida e os castigos físicos eram aplicados com frequência.

POVOS DO MEDITERRÂNEO

O Mediterrâneo está intimamente ligado à história da Europa, da África e da Ásia. Algumas civilizações se desenvolveram às suas margens. Lo...